Contorno correndo a Praça da Liberdade, no centro de Kobani. Mal reconheço este lugar, tamanha a ruína em que se encontra. Aperto meu fardo contra o peito: sapatos de mulher e camisas de homem, telefones celulares dentro de caixas, livros...
moreContorno correndo a Praça da Liberdade, no centro de Kobani. Mal reconheço este lugar, tamanha a ruína em que se encontra. Aperto meu fardo contra o peito: sapatos de mulher e camisas de homem, telefones celulares dentro de caixas, livros de colorir só um pouco chamuscados. Até mesmo peças de bicicleta -tudo deixado nas lojas explodidas e tendas bombardeadas do velho souq. Olho por cima do ombro para ver se nenhum lojista está me perseguindo. Você não imagina a rapidez com que eles se movem, levando em conta seu tamanho, mas o fato é que nunca conseguiram nos pegar. Somos rápidos demais para eles. Eu me esgueiro em meio às sombras dos montes de entulho e dos prédios em escombros. Salto por cima de crateras de bomba e emaranhados de aço enferrujado, por cima de balas e cartuchos detonados. Sou Ghalib Shenu. Sou invencível. Meu primo Hamza Al-Khateeb corre à minha frente. Ele se afasta da praça e entra nas ruazinhas estreitas. Antes de segui-lo, paro sob a marquise de um prédio bombardeado para esperar meu irmão menor. -Vamos logo, Aylan -digo. Ele para de correr ao me ver esperando, com seu suéter vermelho em contraste vívido com as ruas poeirentas. Esfrega o nariz na manga. -Estou cansado, Ghalib -diz. Sua perna esquerda levanta uma golfada de poeira a cada passo: seu andar manco piora quando ele está cansado. Sua mão defeituosa se retorce, formando um pequeno gancho. -Endireita essa mão -eu digo. Hamza retorna até onde estou esperando. Meus músculos se retesam. Eu preferia que ele seguisse em frente. Hamza olha para Aylan. -Você não devia ter trazido ele -diz. -Cala a boca, Hamza. -Vão pegar a gente por causa dele. -Ele está indo bem. -Ele é lento demais. -Você não precisa esperar por nós. Mas Hamza espera. Protege os olhos do sol com a mão. Esquadrinha as ruas vazias, o céu vazio. Faz isso para tentar me pressionar. Os lojistas chegam rapidinho se nos veem roubando mercadoria avariada, mas ataques aéreos são ainda mais rápidos, rugindo dos céus para pulverizar tudo em volta. Quando Aylan nos alcança, tiro dele uma caixa de sapatos e duas caixas de celulares e coloco em cima das minhas coisas. Ficam com ele só um saco plástico com campainhas de bicicleta e algumas roupas leves. -Você leva isso -digo. Andamos devagar agora, com as sandálias rangendo sobre pedras irregulares e entulhos. Abrimos nosso caminho entre carros deformados e estilhaços de vidro. Quando a rua está bloqueada por escombros de um prédio bombardeado, Hamza escala os montes de tijolos chamuscados. Estendo a ele nossas mercadorias e em seguida puxo Aylan por cima de buracos e calombos de concreto. -Fique longe dos fios expostos -digo. Gordas moscas-varejeiras azuis voejam sobre buracos fétidos onde cadáveres apodrecem embaixo de ruínas fumegantes. Enquanto ergo Aylan por sobre os obstáculos, uma leve vibração faz estremecer os fios de aço enferrujados que afloram das lajes compactas. O metal canta e geme como mulheres lamuriantes. Meu coração bate mais forte. Agarro a mão de Aylan. Nós três nos detemos. Esperamos. Ficamos à escuta. Talvez não seja nada. Prendemos a respiração, em silêncio. Cacos de vidro presos ao caixilho de uma janela despedaçada retinem, vibrando como sinos distantes. Isso não é bom. A escuridão que me invade infiltra-se no meu sangue. Abraçamos com mais força nossos sacos de mercadorias. Ergo os olhos para o céu vazio. Aylan me encara, de olhos bem abertos. -Quero a Umi -ele sempre chama por nossa mãe quando está apavorado. -Eu quero é um abrigo! -diz Hamza. Puxo Aylan pela mão. -Vem comigo. O leve tremor já foi abafado pelo zumbido distante. Este se eleva. Meu peito se contrai. Agora saímos correndo, em busca de abrigo, e o pânico faz Aylan acelerar seu passo torto. As batidas de nossos pés no chão são o único som além do rugido crescente do ataque aéreo que se aproxima. Ele estilhaça o ar parado. Rasga a quietude das ruas vazias. Lanço-me através de uma fresta aberta no muro do que costumava ser a biblioteca central. Hamza e Aylan me seguem. Empurro Aylan contra a parede chamuscada embaixo de uma marquise de tijolos e argamassa caindo aos pedaços. Hamza rasteja até nós. Agachamos bem encolhidos num canto, com a respiração ofegante, o coração disparado. Aylan treme sob os meus braços. Talvez Hamza tenha razão. Talvez devêssemos ter deixado Aylan em casa, especialmente com um ataque aéreo iminente. A Umi vai me matar se ele for explodido. O ar se avoluma e estremece. Um flash de escuridão pisca diante do sol quando o projétil passa zunindo sobre nossas cabeças para estourar num terreno distante de onde estamos encolhidos. Um estrondo vibrátil passa por baixo, ou através, de nós. A própria terra parece sofrer uma convulsão. As paredes remanescentes da biblioteca estremecem e se sacodem, despejando poeira e pedras sobre nós. Em seguida faz-se um breve silêncio -a calmaria familiar depois de um ataque. O silêncio me invade, quente e insistente. Preenche por completo meus ouvidos latejantes. Ergo a cabeça. Espero o caos se revelar por inteiro. Hamza também endireita o corpo, com a cabeça branca de poeira. Aylan tosse e cospe poeira. Eu o puxo para perto e o coloco de pé para verificar se está tudo bem. Ele não chora nem diz coisa alguma. Encara o vazio com olhos arregalados, os cílios engrossados por um pó fino. Espano terra e poeira do seu cabelo escuro. Limpo seu rosto encardido. -Quero a Umi -diz Aylan. -Agora nós vamos -digo, aliviado por ver que ele ainda fala. Temos que seguir em frente antes que o tumulto que sempre se segue a um ataque aéreo tome conta do lugar. Pego Aylan pela mão. Escalamos para fora de nosso abrigo improvisado, espanando com as mãos o jeans e o suéter. Fitamos a enorme coluna de fumaça preta que sobe em espiral do lugar onde caiu a bomba mais recente. Ninguém abre a boca. A excitação da pilhagem já se esvaiu em nós, posta de lado pelo ataque aéreo e por uma súbita ânsia de chegar em casa. Juntamos nossas mercadorias espalhadas e seguimos nossa trilha entre lojas e escritórios destruídos. Edifícios deixam cair pedaços de paredes e lascas de telhados no nosso caminho. As pessoas aparecem, sozinhas ou em duplas, em construções destruídas em outros ataques. Elas emergem de aberturas com cortinas em lugar de portas. Observam-nos através de janelas arrebentadas. -Vão para casa, voltem para sua família -diz um homem. -Vocês não deviam estar nas ruas. Outros se empoleiram em balcões periclitantes cidade afora. O cheiro forte de combustível queimado nos atinge agora, desalojando o mau cheiro normal que impregna as ruas destruídas, de comida podre, canos de esgoto rompidos e corpos esmagados. -Caiu perto do estádio -diz uma mulher, de um quarto partido ao meio dois andares acima. -Perto do centro comercial -diz outra. Nós não conversamos e não paramos para escutar. Nosso corpo treme. Nossos ouvidos zumbem. Corremos de volta ao bairro curdo, onde moramos. Troco de mão as mercadorias que levo para segurar a mão de Aylan. -Estamos quase lá -digo. Forço-o a continuar correndo. Vejo a Umi e minha irmã, Bushra, antes que elas nos vejam. Elas correm ruela acima, espiando becos e travessas, parando para examinar vãos de portas, contemplando a todo momento a coluna de fumaça preta. O rosto da Umi está com a fisionomia alucinada ultimamente. Um repuxão de culpa me aperta a barriga. Bushra parece apenas aborrecida. Estou encrencado por ter deixado o bairro. Estou mais encrencado por ter ido junto com Hamza. E mais encrencado ainda por ter levado Aylan comigo. Talvez a Umi gostasse de ganhar um novo par de sapatos. Espio as caixas em meus braços, à procura de sapatos de mulher. Quando nos veem, elas param de correr. A Umi se planta no meio da rua, hijab cobrindo a boca, olhos vidrados em nós. Bushra me olha com cara feia. -Oi, tia Gardina -diz Hamza. -Oi, Bushra. Ele sorri como se não houvesse nada errado. Às vezes ele é descarado demais. Bushra fuzila Hamza com o olhar; a Umi o ignora. Seu olhar está fixo em mim. -Aonde você o levou? -pergunta ela. Ouço raiva e alívio, tristeza e terror, tudo misturado nas suas palavras. -Umi! -diz Aylan. Ele solta minha mão e corre para os braços dela. -Vejo você depois, Ghalib -Hamza me diz. E parte para casa. A Umi fica de cócoras e puxa Aylan para si. Ela o examina atentamente, passando as mãos por seu corpo empoeirado, sentindo com a ponta dos dedos o formato do seu crânio, fazendoo girar para erguer o suéter e checar sua coluna, sua pele macia e ilesa. Ele é seu bebê precioso que quase não sobreviveu para se tornar seu menino precioso. Ela acaricia seus braços, detendo-se um pouco no mais fraco, o esquerdo, e também nas pernas magricelas, tocando seus joelhos esfolados, demorando mais na perna manca. Só depois de se certificar de que ele não está ferido, apenas imundo e assustado, é que ela o abraça com força. Apertao como se nunca mais fosse soltá-lo. Inala o medo que emana dele junto com a sujeira e o pó. Apoia o rosto em sua cabeça, o hijab sujando-se com a sujeira do cabelo endurecido de Aylan, o vestido imprimindo-se de sua silhueta encardida. Durante todo o tempo em que ela o examina, eu os observo. Não digo nada. Aylan se submete à inspeção sem resistir nem questionar. É reconfortante para ambos aquele cuidado, aquele exame, aquele retorno seguro. Não faço parte disso. Sou velho demais para que minha mãe passe as mãos pelo meu corpo, mas, ao observá-los, uma coisa vívida e doce brota em minha memória. Sei que ela não tem o mesmo amor por mim, agora que eu surrupiei Aylan dela e o levei cidade adentro, onde ataques aéreos e balas de morteiro rasgam o céu como bolas de fogo e francoatiradores curdos se entocam em prédios em ruínas para disparar contra forças do Estado Islâmico e do governo. Eu nem olho para Bushra. Sei qual é a sua expressão e não quero ver. Ela me ignora. Minha irmã tem pouco tempo para mim. A Umi finalmente se vira para mim. Era só uma questão de tempo. -E você? -diz ela. Eu me preparo. Enfrento seu olhar. Permaneço firme. -Como ousa levar seu irmão...