Ultramontanismo A palavra ultramontanismo deriva do latim, ultra montes, que significa "para além dos montes", isto é, dos Alpes. A verdadeira origem do termo se encontra na linguagem eclesiástica medieval, que denominava de ultramontano...
moreUltramontanismo A palavra ultramontanismo deriva do latim, ultra montes, que significa "para além dos montes", isto é, dos Alpes. A verdadeira origem do termo se encontra na linguagem eclesiástica medieval, que denominava de ultramontano todos os Papas não italianos que eram eleitos. 1 A palavra foi novamente empregada depois da reforma protestante, entre os governos e os povos do norte europeu, onde se desenvolveu uma tendência a considerar o papado como uma potên-cia estrangeira, de modo especial quando o Papa interferia nas questões temporais. O termo ultra-montanismo também foi utilizado na França para identificar os defensores da autoridade pontifícia em contraposição às "liberdades da igreja galicana". O termo era utilizado de forma difamatória, pois também sugeria a falta de apego à própria nação. No século XVII, o ultramontanismo foi associa-do àqueles que defendiam a superioridade dos papas sobre os reis e os Concílios, mesmo em questões temporais. Neste período, a Companhia de Jesus foi fortemente identificada com o ultra-montanismo. Na Alemanha, no século XVIII, o con-ceito se ampliou e passou a ser usado para identi-ficar os defensores da Igreja em qualquer conflito entre os poderes temporais e espirituais (Igreja-Estado). 2 O ultramontanismo, no século XIX, se caracte-rizou por uma série de atitudes da Igreja Católica, num movimento de reação a algumas correntes teológicas e eclesiásticas, ao regalismo dos estados católicos, às novas tendências políticas desenvolvi-das após a Revolução Francesa e à secularização da sociedade moderna. Pode-se resumi-lo nos seguin-tes pontos: o fortalecimento da autoridade pontifí-cia sobre as igrejas locais; a reafirmação da escolás-tica; o restabelecimento da Companhia de Jesus (1814); a definição dos "perigos" que assolavam a Igreja (galicanismo, jansenismo, regalismo, todos os tipos de liberalismo, protestantismo, maçonaria, deísmo, racionalismo, socialismo, casamento civil, liberdade de imprensa e outras mais), culminando na condenação destes por meio da Encíclica Quanta cura e do "Sílabo dos Erros", anexo à mesma, publicados em 1864.3 O fortalecimento da autoridade pontifícia, con-solidado com a definição da infalibilidade papal nos pronunciamentos ex-cathedra durante o Vaticano I (1869-1870), foi um dos momentos culminantes da vitória ultramontana no âmbito eclesiástico, mas não nas suas relações com os Estados do século XIX. O processo de separação entre os dois pode-1 HASTENTEUFEL, Zeno. Dom Feliciano na Igreja do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Acadêmica, 1987, p. 88 nota 18. 2 Cf. MARTINA, Giacomo. Storia della Chiesa: dal Lutero ai nostri giorni. Resumo: Este artigo pretende chamar a atenção sobre a necessidade de uma revisão do conceito de Romanização, considerado, atualmente, como "consolidado" na historiografia sobre a Igreja Católica no Brasil, no período que vai, aproximativamente, entre a metade do século XIX e a terceira década do século XX. Tal movimento foi realizado por católicos de tendência ultramontana, encon-trando como adversários: o clericalismo liberal, o regalismo imperial (até 1889) e o liberalismo político. Este movimento reformador buscou demarcar a própria identidade e autoconsciência dos católicos, neste sentido atingiu também as práticas religiosas populares herdadas da tradição lusitana, quando buscou integrá-las as diretrizes dos Concílios de Trento e Vaticano I. Pretende-se chamar a atenção dos pesquisadores sobre os limites do referido conceito de romanização e convidá-los a uma séria reavaliação do mesmo, procurando outros que sejam mais abrangentes e englobem toda a complexidade do período histórico e dos seus agentes, como por exemplo o de Reforma Católica. Palavras-chaves: Romanização, Ultramontanismo, Reforma Católica. Abstract: This article approaches the necessity of a revision about the concept of Romanization, considered today as a "consolida-ted" concept in the historiography of the Catholic Church in Brazil during the mid-nineteenth and early twentieth centuries. Such a movement was undertaken by catholics of the ultramontana tendency, facing adversaries such as the liberal clericalism, imperial rega-lism (until 1889) and political liberalism. This reform movement aimed to demarcate catholics identity itself, affecting also popular religious practices, inherited from the Lusitan tradition, in an effort to integrate them in the directives of the concilia of Trento and Vatican I. The intention is to call the attention of researchers to the limits of the concept of Romanization and also to invite them to a serious re-evaluation of this concept, in a search for others that may be broader in scope, covering the entire complexity of the historical period and of its agents, such as, for example, the concept of Catholic Reformation.