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Cantigas de Santa Maria (Texto crítico completo) [2021]

Texto completo do conjunto das 420 "Cantigas de Santa Maria", colectânea de poemas em língua portuguesa em honra da Virgem Maria elaborados na segunda metade do século XIII na corte do rei Afonso X o Sábio, rei de Castela e Leão (falecido em 1284).

[Afonso X o Sábio] Cantigas de Santa Maria (Texto crítico completo) Edição de José-Martinho Montero Santalha 2021 [Afonso X o Sábio] Cantigas de Santa Maria (Texto crítico completo) À maneira de apresentação [2021] Pensando que para algumas pessoas interessadas nas Cantigas de Santa Maria pode ser útil dispor do texto completo de todas as cantigas num único arquivo, apresento neste ficheiro o resultado da minha edição crítica, mas aqui sem aparato crítico nem comentários: só os textos poéticos das cantigas, unicamente com as epígrafes iniciais em prosa (e final na cantiga 0B). Não se incluem os textos das legendas das miniaturas. Estão acessíveis na rede nestoutros trabalhos meus: «As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códices T e F)», em: ROJosé Luís (dir.) (2000): Estudos dedicados a Ricardo Carvalho Calero: Reunidos e editados por José Luís RODRÍGUEZ, Santiago de Compostela: Parlamento de Galicia / Universidade de Santiago de Compostela, 2 volumes, volume 2º, pp. 507-552: DRÍGUEZ, (PDF) As legendas das miniaturas das "Cantigas de Santa Maria" (códices T e F) [2000] | JoséMartinho Montero Santalha - Academia.edu «As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códice T: 2ª parte)», em: Agália, núms. 69-70 (1º semestre de 2002), pp. 43-88: (PDF) As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códice T: 2ª parte) [2002] | JoséMartinho Montero Santalha - Academia.edu Tampouco se incluem os textos dos índices dos códices (os quais índices recolhem substancialmente as epígrafes e os versos inicias das cantigas). Critérios de edição Os critérios de edição que aplico aos textos podem ver-se expostos, neste mesmo sítio, em diversos artigos; especialmente em «Cantigas trovadorescas (edição digital): Critérios de transcrição e de edição de textos»: (PDF) Cantigas trovadorescas (edição digital): Critérios de transcrição e de edição de textos [2004] | José-Martinho Montero Santalha - Academia.edu Para alguns pontos mais específicos dos textos das Cantigas de Santa Maria (elaborados e transcritos em ambiente de língua castelhana), nomeadamente para o uso dos dígrafos lh e nh (em vez de ll e nn) e de -m final de palavra, pode ver-se a introdução do artigo antes citado «As legendas [...]» (2000). Manuscritos das Cantigas de Santa Maria Note-se que uso a sigla U para o códice conservado na Biblioteca Nacional de Madrid que habitualmente é denominado To ou Tol. Pode ver-se a justificação que dou para essa nova sigla no seguinte trabalho (secção A4b "Manuscritos das Cantigas de Santa Maria"): (PDF) Cantigas trovadorescas (edição digital): Apresentação geral: a poesia trovadoresca galegoportuguesa [2004] | José-Martinho Montero Santalha - Academia.edu 1 As 9 cantigas repetidas no códice E As Cantigas de Santa Maria são 420, não 429, apesar de que assim pode parecer pela numeração usada. A explicação do facto está em que há 9 cantigas repetidas (no códice E, que se toma como base da numeração, por ser o mais completo) por descuido dos autores/organizadores da colecção. Isto é, neste códice 9 cantigas aparecem transcritas duas vezes em pontos diferentes da colectânea (e, conseguintemente, com dois diferentes números identificativos, como se fossem cantigas diferentes), com texto e melodia substancialmente idênticos (pois as leves variantes textuais que por vezes ocorrem entre as duas versões não possuem maior importância que a que podem ter as versões de uma mesma cantiga em dois códices). Destarte, nove números de cantigas, segundo a numeração de E, resultam “vazios”, porque repetem cantigas já numeradas anteriormente. Estas repetições ocorrem todas nas últimas decenas, a partir da cantiga núm. 373, que é repetição da 267. Eis a lista dessas 9 cantigas repetidas (na ordem em que ocorrem segundo a nova numeração que recebem na segunda ocorrência), com indicação da primeira ocorrência: 373 = 267; 387 = 349; 388 = 295; 394 = 187; 395 = 165; 396 = 289; 397 = 192; [412] = 340; [416] = 210. Como os precedentes editores, conservo esses 9 números vazios, já que, agindo doutra maneira, entre outros inconvenientes resultaria destruída a estuturação decenal que as Cantigas de Santa Maria possuem. As Cantigas de Santa Maria na rede Da abundante informação de toda a índole sobre as Cantigas de Santa Maria disponível na rede (incluídos os áudios com a execução musical de muitas cantigas), não quero deixar de citar dois sites especialmente meritórios e recomendáveis: 1. «Cantigas de Santa Maria for Singers» Cantigas de Santa Maria for Singers O título geral do sítio («Cantigas de Santa Maria for Singers») quer indicar que a edição vai destinada especialmente para a execução musical: partituras musicais, com transcrição fonética de todo o texto. Mas, na realidade, embora esse aspecto seja plenamente verdadeiro, o que aqui se nos oferece é muito mais do que isso: desde uma rigorosa edição do texto poético, com múltiplas achegas e inteligentes comentários sobre pontos de ecdótica textual, até um vocabulário completo e localizado de todo o conjunto textual das Cantigas de Santa Maria, e muitos outros meteriais complementares. E tudo com grande rigor científico e com uma apresentação visualmente agradável e "amigável", fácil de compreender e de manejar mesmo para o leitor não especializado. Em resumo, um trabalho extraordinário, mais admirável ainda por ser uma obra de amor desinteressado, de uma única pessoa, o seu autor Andrew Casson, a quem me permito aqui manifestar a minha admiração e homenagem. 2. «The Oxford Cantigas de Santa Maria database - Centre for the Study of the Cantigas de Santa Maria of Oxford University» The Oxford Cantigas de Santa Maria database | Home - <a href="#gt"><i>Inicio</i></a> Este site encontra-se em processo de elaboração e de enriquecimento constante. Oferece informação muito rica e valiosa sobre todas as cantigas: especialmente sobre fontes e versões antigas dos relatos, ampla bibliografia sobre cada uma das cantigas e sobre o conjunto em geral, e outros complementos. Inclui já uma boa parte dos textos poéticos em edição crítica, que se espera ir completando. Deve-se à iniciativa e à direcção do professor Stephen Parkinson (um dos grandes especialistas sobre as Cantigas de Santa Maria, a quem igualmente quero manifestar aqui a minha admiração e homenagem, com o desejo de que a obra em curso continue a enriquecer-se). José-Martinho Montero Santalha (Universidade de Vigo) Em Perlio (Galiza), no dia 15 de agosto (festa litúrgica da Assunção, “Santa Maria de agosto” (419.0), a “festa grande” (77.30) da Virgem Maria) de 2021 (ano em que se completam 8 séculos do nascimento do rei Afonso X o Sábio, em 23 de novembro de 1221, em Toledo). 2 Cantigas de Santa Maria 0A «Dom Afonso, de Castela» (E [01], T [03], U [01]) I 2 4 II 6 8 III 10 12 IV 14 16 V 18 20 VI 22 24 VII 26 28 Dom Afonso, de Castela, de Toledo, de Leom rei, e bem des Compostela tá o reino d’ Aragom, de Córdova, de Jaém, de Sevilha outrossi, e de Murça (u gram bem lhe fez Deus, com’ aprendi), do Algarve, que gãou de mouros, e nossa fé meteu i, e ar pobrou Badalhouz (que reino é muit’ antig’), e que tolheu a mouros Nevl’ e Xerez, Beger, Medina prendeu e Alcalá doutra vez, e que «dos romãos rei» é per dereit’, e senhor, este livro, com’ achei, fez a honr’ e a loor da Virgem Santa Maria, que éste madre de Deus, em que ele muito fia. Porém, dos miragres seus fezo cantares e sões saborosos de cantar, todos de senhas razões, com’ i podedes achar. * * * 3 Cantigas de Santa Maria 0B «Porque trobar é cousa em que jaz» (E [02], T [02], U [02]) Este é o prólogo das «Cantigas de Santa Maria», ementando as cousas que há mester eno trobar. I 2 4 6 II 8 10 12 III 14 16 18 IV 20 22 24 V 26 28 30 VI 32 34 36 VII 38 40 42 Porque trobar é cousa em que jaz entendimento, porém que-no faz há-o d’ haver, e de razom assaz, per que entenda e sábia dizer o que entend’ e de dizer lhe praz, ca bem trobar assi s’ há de fazer. E, macar eu estas duas nom hei com’ eu querria, pero provarei a mostrar ende um pouco que sei, confiand’ em Deus, ond’ o saber vem; ca per Ele tenho que poderei mostrar, do que quero, algũa rem. E o que quero é dizer loor da Virgem, madre de Nostro Senhor, Santa Maria, que ést’ a melhor cousa que El fez; e por aquest’ eu quero seer hoimais seu trobador, e rogo-lhe que me queira por seu trobador e que queira meu trobar receber, ca per el quer’ eu mostrar dos miragres que ela fez; e ar querrei-me leixar de trobar des i por outra dona, e cuid’ a cobrar per esta quant’ enas outras perdi. Ca o amor desta senhor é tal que que-no há, sempre per i mais val, e, poi-lo gaanhad’ há, nom lhe fal, senom se é per sa grand’ ocajom, querendo leixar bem e fazer mal (ca per esto o perd’, e per al nom). Porém dela nom me quer’ eu partir, ca sei de pram que, se a bem servir, que nom poderei em seu bem falir de o haver, ca nunca i faliu quem lho soube com mercee pedir, ca tal rogo sempr’ ela bem oiu. Onde lhe rogo, se ela quiser, que lhe praza do que dela disser em meus cantares, e, se lh’ aprouguer, que me dé galardom com’ ela dá aos que ama; e que-no souber, por ela mais de grado trobará. Aqui se acaba o prólogo das «Cantigas de Santa Maria». * * * 4 Cantigas de Santa Maria 1 «Des hojemais quer’ eu trobar» (E 1, T 1, U 1) Esta é a primeira cantiga de loor de Santa Maria, ementando os [sete] goios que houve de seu filho. I 2 4 6 8 10 II 12 14 16 18 20 III 22 24 26 28 30 IV 32 34 36 38 40 V 42 44 Des hojemais quer’ eu trobar pola senhor honrada em que Deus quis carne filhar beita e sagrada, por nos dar gram soldada no seu reino e nos herdar por seus, de sa masnada, de vida perlongada, sem havermos pois a passar per mort’ outra vegada. E porém quero começar como foi saudada de Gabriel, u lhe chamar foi: “– Bem-aventurada Virgem, de Deus amada: do que o mund’ há de salvar ficas ora prenhada; e, demais, ta cunhada Elisabet, que foi dultar, é end’ envergonhada”. E, demais, quero-lh’ enmentar como chegou cansada a Beleém e foi pousar no portal da entrada, u pariu sem tardada Jesu-Crist’, e foi-o deitar, como molher menguada, u deitam a cevada, no presev’, e apousentar ontre bêstias d’ arada. E nom ar quero obridar com’ ángeos cantada loor a Deus forom cantar e «Paz em terra» dada; nem como a contrada aos três Reis em Ultramar houv’ a ’strela mostrada, por que sem demorada verom sa oferta dar, estranha e preçada. Outra razom quero contar que lh’ houve pois contada a Madalena: com’ estar viu a pedr’ entornada 5 46 48 50 VI 52 54 56 58 60 VII 62 64 66 68 70 VIII 72 74 76 78 80 do sepulcr’ e guardada do ángeo, que lhe falar foi e disse: “– Coitada molher, sei confortada, ca Jesu, que ves buscar, resurgiu madurgada”. E ar quero-vos demostrar gram lediç’ aficada que houv’ ela u viu alçar a nuv’ enlumada seu filh’; e, pois alçada foi, virom ángeos andar entr’ a gent’ assũada, mui desaconselhada, dizend’: “– Assi verrá juigar: est’ é cousa provada”. Nem quero de dizer leixar de como foi chegada a graça que Deus enviar lhe quis, atám grãada que por el’ esforçada foi a companha que juntar fez Deus, e ensinada, de ’Spírit’ avondada, por que souberom preegar logo, sem alongada. E, par Deus, nom é de calar como foi corõada, quando seu filho a levar quis, des que foi passada deste mund’, e juntada com El no ceo par a par, e reinha chamada, filha, madr’ e criada; e porém nos dev’ ajudar, ca x’ é noss’ avogada. * * * 6 Cantigas de Santa Maria 2 «Muito devemos, varões» (E 2, T 2, U 2) Esta segunda é de como Santa Maria pareceu em Toledo a Sant’ Alifonso e deu-lh’ ũa alva que trouxe de paraíso, com que dissesse missa. R0 2 4 I 5 7 9 11 13 Muito devemos, varões, loar a Santa Maria, que sas graças e seus dões dá a quem por ela fia. Sem muita de bõa manha, que deu a um seu prelado, que primado foi d’ Espanha e Afons’ era chamado, deu-lh’ ũa tal vestidura que trouxe de paraíso, bem feita a sa mesura, porque metera seu siso e-na loar noit’ e dia. R1 14-17 [Refrão = vv. 1-4] II Bem empregou el seus ditos, com’ achamos em verdade, e os seus bõos escritos que fez da virgĩidade daquesta senhor mui santa, per que sa loor tornada foi em Espanha de quanta a end’ haviam deitada judeus e a heregia. 18 20 22 24 26 R2 27-30 [Refrão = vv. 1-4] III Maior miragre do mundo lh’ ant’ esta senhor mostrara, u com rei Recessiundo ena precissom andara, u lhes pareceu, sem falha, Santa Locai’, e, enquanto lh’ el-rei talhou da mortalha, disse-lh’: “– Ai Afonso santo, per ti viv’ a senhor mia!”. 31 33 35 37 39 R3 40-43 [Refrão = vv. 1-4] IV Porque o a groriosa achou mui fort’ e sem medo em loar sa preciosa virgĩidad’, em Toledo deu-lhe porend’ ũa alva, que nas sas festas vestisse, a Virgem santa e salva, e, em dando-lha, lhe disse: 44 46 48 50 7 52 “– Meu filho esto ch’ envia”. R4 53-56 [Refrão = vv. 1-4] V Pois lh’ este dom tam estranho houve dad’, e tam fremoso, disse: “– Par Deus, muit eanho seria e orgulhoso quem s’ em esta ta cadeira, se tu nom és, s’ assentasse, nem que per nulha maneira est’ alva vestir provasse, ca Deus del se vingaria”. 57 59 61 63 65 R5 66-69 [Refrão = vv. 1-4] VI Pois do mundo foi partido este confessor de Cristo, Dom Siágrio falido foi arcebispo, pois isto, que o filhou a seu dano: ca, porque foi atrevudo em se vestir aquel pano, foi logo mort’ e perdudo, com’ a Virgem dit’ havia. 70 72 74 76 78 R6 80 82 Muito devemos, varões, loar a Santa Maria, que sas graças e seus dões dá a quem por ela fia. * * * 8 Cantigas de Santa Maria 3 «Mais nos faz Santa Maria» (E 3, T 3, U 3) Esta terceira é como Santa Maria fez cobrar a Teófilo a carta que fezera co-no demo, u se tornou seu vassalo. R0 2 4 I 6 8 10 12 Mais nos faz Santa Maria a seu filho perdõar que nós per nossa folia lh’ imos falir e errar. Por ela nos perdõou Deus o pecado d’ Adám da maçãa que gostou, per que sofreu muit’ afám e no inferno entrou; mais a do mui bom talám tant’ a seu filho rogou que o foi end’ El sacar. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II Pois ar fez perdom haver a Teófilo, um seu servo, que fora fazer per conselho dum judeu carta por gãar poder co-no demo, e lha deu; e fez-lh’ em Deus descreer, des i a ela negar. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III Pois Teófilo assi fez aquesta traiçom, per quant’ end’ eu aprendi, foi do demo gram sazom; mais depois, segund’ oí, repentiu-s’ e foi perdom pedir logo, bem ali u pecador sol achar. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV Chorando dos olhos seus muito, foi perdom pedir, u viu da madre de Deus a omagem; sem falir lhe diss’: “– Os pecados meus som tam muitos, sem mentir, que, senom per rogos teus, nom poss’ eu perdom gãar”. 42 44 46 48 9 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] V Teófilo dessa vez chorou tant’, e nom fez al trões u a que de prez todas outras donas val, ao demo, mais ca pez negro, do fog’ infernal a carta trager lhe fez, e deu-lha ant’ o altar. 54 56 58 60 R5 62 64 Mais nos faz Santa Maria a seu filho perdõar que nós per nossa folia lh’ imos falir e errar. * * * 10 Cantigas de Santa Maria 4 «A madre do que livrou» (E 4, T 4, U 4) Esta quarta é como Santa Maria guardou ao filho do judeu que nom ardesse, que seu padre deitara no forno. R0 2 4 I 6 8 10 12 A madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’ Irrael. Em Beorges um judeu houve que fazer sabia vidro, e um filho seu –ca el ém mais nom havia, per quant’ end’ aprendi eu– ontr’ os crischãos liía na escol’; e era greu a seu padre Samuel. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II O meninho o melhor leeu que leer podia, e d’ aprender gram sabor houve de quanto oía; e, por esto, tal amor com esses moços colhia com que era leedor, que ia em seu tropel. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III Porém vos quero contar o que lh’ avo um dia de Páscua, que foi entrar na eigreja, u viía o abad’ ant’ o altar, e aos moços dand’ ia hóstias de comungar e vinh’ em um cález bel. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV O judeucinho prazer houve, ca lhe parecia que hóstias a comer lhes dava Santa Maria, que via resprandecer eno altar u siía e enos braços ter seu filho Emanuel. 42 44 46 48 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] 11 V 54 56 58 60 Quand’ o moç’ esta visom viu, tam muito lhe prazia que, por filhar seu quinhom, ant[r]’ os outros se metia. Santa Maria entom a mão lhe porregia, e deu-lhe tal comunhom que foi mais doce ca mel. R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI Poi-la comunhom filhou, logo dali se partia e em cas seu padr’ entrou como xe fazer soía; e ele lhe preguntou que fezera. El dizia: “– A dona me comungou que vi so o chapitel”. 66 68 70 72 R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII O padre, quand’ est’ oiu, creceu-lhi tal felonia que de seu siso saiu; e seu filh’ entom prendia, e, u o forn’ arder viu, mete’-o dentr’, e choía o forn’; e mui mal faliu como traedor cruel. 78 80 82 84 R7 85-88 [Refrão = vv. 1-4] VIII Raquel, sa madre, que bem grand’ a seu filho queria, cuidando, sem outra rem, que lhe no forno ardia, deu grandes vozes porém e ena rua saía; e aqué a gente vem ao doo de Raquel. 90 92 94 96 R8 97-100 [Refrão = vv. 1-4] IX Pois souberom, sem mentir, o por que ela carpia, forom log’ o forn’ abrir em que o moço jazia, que a Virgem quis guarir como guardou Anania Deus, seu filh’, e, sem falir, Azari’ e Misael. 102 104 106 108 R9 109-112 [Refrão = vv. 1-4] X O moço logo dali sacarom com alegria, e preguntarom-lh’ assi: se se d’ algum mal sentia. Diss’ el: “– Nom, ca eu cobri o que a dona cobria 114 116 118 12 120 que sobe-lo altar vi com seu filho, bom donzel”. R10 121-124 [Refrão = vv. 1-4] XI Por este miragr’ atal log’ a judea criía, e o meninho, sem al, o batismo recebia; e o padre, que o mal fezera per sa folia, derom-lh’ entom morte qual quis dar a seu filh’ Abel. 126 128 130 132 R11 134 136 A madre do que livrou dos leões Daniel, essa do fogo guardou um meninho d’ Irrael. * * * 13 Cantigas de Santa Maria 5 «Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer» (E 5, T 15, U 19) Esta é como Santa Maria ajudou a emperadriz de Roma a sofrê-las grandes coitas per que passou. R0 2 I 4 6 8 R1 9-10 II 12 14 16 R2 17-18 III 20 22 24 R3 25-26 IV 28 30 32 R4 33-34 V 36 38 40 R5 41-42 Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer, Santa Maria deve sempr’ ante si põer. E desto vos quer’ eu ora contar, segund’ a letra diz, um mui gram miragre que fazer quis pola emperadriz de Roma, segund’ eu contar oí, per nome Beatriz, Santa Maria, a madre de Deus (ond’ este cantar fiz), que a guardou do mundo (que lhe foi mal joiz), e do demo (que, por tentar, a cuidou vencer). [Refrão = vv. 1-2] Esta dona, de que vos disse já, foi dum emperador molher; mas pero del nome nom sei, foi de Roma senhor e, per quant’ eu de seu feit’ aprendi, foi de mui gram valor. Mas a dona tant’ era fremosa que foi das belas fror, e servidor de Deus, e de sa lei amador, e soube Santa Maria mais dal bem querer. [Refrão = vv. 1-2] Aquest’ emperador a sa molher queria mui gram bem, e ela outrossi a el amava mais que outra rem; mas por servir Deus o emperador, com’ home de bom sém, cruzou-s’ e passou o mar e foi romeu a Jerusalém. Mas, quando moveu de Roma por passar além, leixou seu irmão, e fez i gram seu prazer. [Refrão = vv. 1-2] Quando s’ houv’ a ir o emperador, aquel irmão seu de que vos já diss’, a sa molher a emperadriz o deu, dizend’: “– Este meu irmão receb’ hoimais por filho meu, e vós seede-lh’ em logar de madre porém, vos rog’ eu, e de o castigardes bem nom vos seja greu; em esto me podedes mui grand’ amor fazer”. [Refrão = vv. 1-2] Depoi-lo emperador se foi. A mui pouca de sazom catou seu irmão a sa molher e namorou-s’ entom dela, e disse-lhe que a amava mui de coraçom; mai-la santa dona, quando lh’ oiu dizer tal traiçom, em ũa torre o meteu em mui gram prijom, jurando muito que o faria i morrer. [Refrão = vv. 1-2] 14 VI 44 46 48 R6 49-50 VII 52 54 56 R7 57-58 VIII 60 62 64 R8 65-66 IX 68 70 72 R9 73-74 X 76 78 80 R10 81-82 XI 84 86 88 R11 89-90 XII 92 94 96 R12 97-98 O emperador dous anos e meio em Acre morou, e tod’ a terra de Jerusalém muitas vezes andou; e, pois que tod’ est’ houve feito, pera Roma se tornou; mas ante que d’ Ultramar se partisse, mandad’ enviou a sa molher, e ela logo soltar mandou o seu irmão mui falso, que a foi traer. [Refrão = vv. 1-2] Quando o irmão do emperador de prijom saiu, barva nom fez nem cercou cabelos, e mal se vestiu; a seu irmão foi, e da emperadriz nom s’ espediu; mas o emperador, quando o atám mal parado viu, preguntou-lhi que fora, e el lhe recodiu: “– Em poridade vos quer’ eu aquesto dizer”. [Refrão = vv. 1-2] Quando forom ambos a ũa parte, filhou-s’ a chorar o irmão do emperador e muito xe lhe queixar de sa molher, que, porque nom quisera com ela errar, que o fezera porende tantost’ em um cárcer deitar. Quand’ o emperador oiu, houv’ ém tal pesar que se leixou do palafrém em terra caer. [Refrão = vv. 1-2] Quand’ o emperador de terra s’ ergeu, logo, sem mentir, cavalgou e, quanto mais pôd’, a Roma começou de s’ ir; e a pouca d’ hora viu a emperadriz a si vĩir, e, logo que a viu, mui sanhudo a ela leixou-s’ ir e deu-lhe gram punhada no rostro, sem falir, e mandou-a matar se-na verdade saber. [Refrão = vv. 1-2] Dous monteiros, a que esto mandou, filharo-na des i e, rastrand’, a um monte a levarom mui preto dali; e quando a no monte teverom, falarom ontre si que jouvessem com ela per força, segund’ eu aprendi. Mas, ela chamando Santa Maria, log’ i chegou um conde, que lha foi das mãos tolher. [Refrão = vv. 1-2] O conde, poi-la livrou dos vilãos, disse-lhe: “– Senher, dizede-m’ ora quem sodes ou dond’”. Ela respôs: “– Molher sõo mui pobr’ e coitada, e de vosso bem hei mester”. “– Par Deus,” –diss’ el-conde– “aqueste rogo farei volonter, ca mià companheira tal come vós muito quer que criedes nosso filh’ e façades crecer”. [Refrão = vv. 1-2] Pois que o cond’ aquesto diss’, entom atantoste, sem al, a levou consigo aa condessa e disse-lh’ atal: “– Aquesta molher pera criar nosso filho muito val, ca vejo-a mui fremosa; demais, semelha-me sem mal; e porém tenho que seja contra nós leal, e metamos-lhe des hoimais o moç’ em poder”. [Refrão = vv. 1-2] 15 XIII 100 102 104 R13 105-106 XIV 108 110 112 R14 113-114 XV 116 118 120 R15 121-122 XVI 124 126 128 R16 129-130 XVII 132 134 136 R17 137-138 XVIII 140 142 144 R18 145-146 XIX 148 150 152 Pois que a santa dona o filho do conde recebeu, de o criar muit’ apost’ e mui bem muito se trameteu; mas um irmão que o cond’ havia, mui fals’ e sandeu, pediu-lhe seu amor; e, porque ela mal lho acolheu, degolou-lh’ o meninho ũa noit’ e meteu lh’ o cuitelo na mão po-la fazer perder. [Refrão = vv. 1-2] Pois desta guisa prês mort’ o meninho, como vos dit’ hei, a santa dona, que o sentiu morto, diss’: “– Ai, que farei?” O cond’ e a condessa lhe disserom: “– Que hás?” Diz: “– Eu hei pesar e coita por meu criado, que ora mort’ achei”. Diss’ o irmão do conde: “– Eu o vingarei de ti, que o matar foste por nos cofonder”. [Refrão = vv. 1-2] Pois, a dona foi ferida mal daquel, peior que tafur, e nom via quem lha das mãos sacasse, de nenlhur, senom a condessa, que lha filhou, mas esto muit’ adur. Ũus diziam: “– Queime-na!”; e outros: “– Moira com segur!” Mas poi-la derom a um marinheiro de Sur, que a fezesse mui longe no mar somerger. [Refrão = vv. 1-2] O marinheiro, poi-la ena barca meteu, bem come fol, disse-lhe que fezesse seu talám, e seria sa prol; mas ela diss’ entom: “– Santa Maria, de mi nom te dol?, ne-no teu filho de mi nom se nembra, como fazer sol?” Entom vo voz de ceo, que lhe disse: “– Tol tas mãos dela; se nom, farei-te perecer”. [Refrão = vv. 1-2] Os marinheiros disserom entom: “– Pois est’ a Deus nom praz, leixemo-la sobr’ aquesta pena, u pod’ haver assaz de coita e d’ afám e pois morte, u outra rem nom jaz, ca, se o nom fezermos, em mal ponto vimos seu solaz”. E, pois foi feito, o mar no-na leixou em paz, ante a vo com grandes ondas combater. [Refrão = vv. 1-2] A emperadriz, que nom vos era de coraçom rafez, com’ aquela que tanto mal sofrera, e nom ũa vez, tornou, com coita do mar e de fame, negra come pez; mas, em dormindo, a madre de Deus direi-vos que lhe fez: tolheu-lh’ a fam’ e deu-lh’ ũa erva de tal prez com que podesse os gafos todos guarecer. [Refrão = vv. 1-2] A santa dona, pois que s’ espertou, nom sentiu nulh’ afám nem fame, come se sempr’ houvesse comudo carn’ e pam; e a erva achou so sa cabeça, e disse. “– De pram, madre de Deus, beitos som os que em ti fiúza ham, ca na ta gram mercee nunca falecerám enquanto a souberem guardar e gradecer”. 16 R19 153-154 XX 156 158 160 R20 161-162 XXI 164 166 168 R21 169-170 XXII 172 174 176 R22 177-178 XXIII 180 182 184 R23 185-186 XXIV 188 190 192 R24 193-194 XXV 196 198 200 R25 201-202 XXVI 204 206 [Refrão = vv. 1-2] Dizend’ aquesto, a emperadriz, muit’ amiga de Deus, viu vĩir ũa nave preto de si, cha de romeus, de bõa gente, que nom havia i mouros nem judeus. Pois chegarom, rogou-lhes muito chorando dos olhos seus, dizendo: “– Levade-me vosc’, ai amigos meus!” E eles logo consigo a forom colher. [Refrão = vv. 1-2] Pois a nav’ u a emperadriz ia aportou na foz de Roma, logo baixarom a vea, chamando: “– Aioz!”. E o maestre da nave diss’ a um seu home: “– Vai, coz carn’ e pescado do meu haver, que te nom cost’ ũa noz”. E a emperadriz guariu um gaf’, e a voz foi end’, e muitos gafos fezerom-s’ i trager. [Refrão = vv. 1-2] Ontr’ os gafos que a dona guariu, que forom mais ca mil, foi guarecer o irmão do conde eno mês d’ abril; mas ant’ houv’ el a dizer seu pecado, que fez come vil. Entom a condessa e el-conde changiam a gentil dona, que perderam por traiçom mui sotil que lh’ aquel gafo traedor fora bastecer. [Refrão = vv. 1-2] Muitos gafos sãou a emperadriz em aquele mês; mas, de grand’ algo que porém lhe davam, ela rem nom prês, mas andou em muitas romarias, e depois bem a três meses entrou na cidade de Roma, u er’ o cortês emperador, que a chamou e disso-lhe: “– Vês?: guári-m’ est’ irmão gaf’, e dar-ch’-ei grand’ haver”. [Refrão = vv. 1-2] A dona diss’ ao emperador: “– Voss’ irmão guarrá; mas, ante que eu em el faça rem, seus pecados dirá ant’ o apostólig’ e ante vós, como os feitos há”. E, pois foi feito, o emperador diss’: “– Ai Deus, que será?: nunca maior traiçom desta hom’ oirá”. E, com pesar, seus panos se filhou a romper. [Refrão = vv. 1-2] A emperadriz filhou-s’ a chorar e diss’: “– A mi nom nuz em vós saberdes que sõo essa, par Deus de vera cruz, a que vós fezestes atám gram torto, com’ agor’ aduz voss’ irmão a mãefesto, tam feo come estruz; mas des hoimais a Santa Maria, que é luz, quero servir, que me nunca há de falecer”. [Refrão = vv. 1-2] Per nulha rem que lh’ o emperador dissesse, nunca quis a dona tornar a el; ante lhe disse que fosse fis que ao segre nom ficaria nunca, par Sam Denis, nem ar vestiria pano de seda nem pena de gris, mas ũa cela faria d’ obra de Paris, 17 R26 208 u se metesse por mais o mund’ avorrecer. 210 Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer, Santa Maria deve sempr’ ante si põer. * * * 18 Cantigas de Santa Maria 6 «A que do bom rei Davi» (E 6, T 6, U 5) Esta é como Santa Maria ressucitou o meninho que o judeu matara porque cantava «Gaude, Virgo Maria». R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII A que do bom rei Davi de seu linhage decende, nembra-lhe, creed’ a mi, de quem por ela mal prende. Porend’ a sant’ escritura, | que nom mente nem erra, nos conta um gram miragre | que fez em Engraterra a Virgem Santa Maria, | com que judeus ham gram guerra porque naceu Jesu-Cristo | dela, que os reprende. [Refrão = vv. 1-4] Havia em Engraterra | ũa molher menguada a que morreu o marido | com que era casada; mas ficou-lhe del um filho, | com que foi mui confortada, e log’ a Santa Maria | o ofereu por ende. [Refrão = vv. 1-4] O meninh’ a maravilha | er’ apost’ e fremoso, e d’ aprender quant’ oía | era muit’ engenhoso; e, demais, tam bem cantava, | tam mans’ e tam saboroso que vencia quantos eram | em sa terr’ e alende. [Refrão = vv. 1-4] E o cantar que o moço | mais aposto dizia, e de que se mais pagava | quenquer que o oía, era um cantar em que | diz «Gaude, Virgo Maria», e pois diz mal do judeu, que | sobr’ aquesto contende. [Refrão = vv. 1-4] Este cantar o meninho | atám be-no cantava que qualquer que o oía, | tantoste o filhava, e, por levá-lo consigo, | co-nos outros baralhava, dizend’: “– Eu dar-lh’-ei que jante, | e, demais, que merende”. [Refrão = vv. 1-4] Sobr’ esto diss’ o meninho: | “– Madre, fé que devedes, des hojemais vos conselho | que o pedir leixedes, pois vos dá Santa Maria | por mi quanto vós queredes, e leixad’ ela despenda, | pois que tam bem despende”. [Refrão = vv. 1-4] Depois, um dia de festa, | em que forom juntados 19 54 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 muitos judeus e crischãos | e que jogavam dados, entom cantou o meninho; | e forom ém mui pagados todos senom um judeu, que | lhe quis gram mal des ende. [Refrão = vv. 1-4] No que o moço cantava | o judeu meteu mentes, e levo’-o a sa casa, | pois se forom as gentes; e deu-lhe tal, dũa acha, | que bem atro enos dentes o fendeu bes assi bem | como quem lenha fende. [Refrão = vv. 1-4] Poi-lo meninho foi morto, | o judeu muit’ aginha soterro’-o na adega, | u sas cubas tiinha; mas deu [i] mui maa noite | a sa madre, a mesquinha, que o andava buscando | e dalend’ e daquende. [Refrão = vv. 1-4] A coitada por seu filho | ia muito chorando, e, a quantos ela via, | a todos preguntando se o viram; e um home | lhe diss’: “– Eu o vi bem quando um judeu o levou sigo, | que os panos revende”. [Refrão = vv. 1-4] As gentes, quand’ est’ oírom, | forom alá correndo, e a madre do meninho | braadand’ e dizendo: “– Di-me que fazes, meu filho, | ou que estás atendendo, que nom ves a ta madre, | que já sa mort’ entende”. [Refrão = vv. 1-4] Pois diss’: “– Ai Santa Maria, | senhor, tu que és porto u arribam os coitados, | dá-me meu filho morto ou viv’ ou qualquer que seja; | se nom, farás-me gram torto, e direi que mui mal erra | que-no teu bem atende”. [Refrão = vv. 1-4] O meninh’ entom, da fossa | em que o soterrara o judeu, começou logo | em voz alta e crara a cantar «Gaude, Maria», | que nunca tam bem cantara, por prazer da groriosa, | que seus servos defende. [Refrão = vv. 1-4] Entom tod’ aquela gente | que i juntada era forom corrend’ aa casa | ond’ essa voz vera, e sacarom o meninho | du o judeu o posera, viv’ e são, e diziam | todos: “– Que bem recende!” [Refrão = vv. 1-4] A madr’ entom a seu filho | preguntou que sentira; e ele lhe contou como | o judeu o ferira, e que houvera tal sono | que sempre depois dormira, atá que Santa Maria | lhe disse: “– Leva-t’ ende; [Refrão = vv. 1-4] 20 XVI 126 128 R16 129-132 XVII 134 136 R17 138 140 ca muito per-hás dormido: | dormidor te feziste, e o cantar que dizias | meu já escaeciste; mas leva-t’ e di-o logo | melhor que nunca dissiste, assi que achar nom possa | nulh’ hom’ i que emende”. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ esto diss’ o meninho, | quantos s’ i acertarom aos judeus forom logo, | e todo-los matarom; e aquel que o ferira, | eno fogo o queimarom, dizendo: “– Quem faz tal feito, | desta guisa o rende”. A que do bom rei Davi de seu linhage decende, nembra-lhe, creed’ a mi, de quem por ela mal prende. * * * 21 Cantigas de Santa Maria 7 «Santa Maria amar» (E 7, T 7, U 6) Esta é como Santa Maria livrou a abadessa prenhe, que adormecera ant’ o seu altar chorando. R0 2 4 6 I 18 Por ende vos contarei um miragre que achei que por ũ’ abadessa fez a madre do gram rei, ca, per com’ eu apres’ hei, era-xe sua essa. Mas o demo enartar a foi, por que emprenhar s’ houve dum de Bolonha, home que de recadar havia e de guardar seu feit’ e sa besonha. 19-24 [Refrão = vv. 1-6] 8 10 12 14 16 R1 Santa Maria amar devemos muit’ e rogar que a sa graça ponha sobre nós, porque errar nom nos faça, nem pecar, o demo sem vergonha. II 26 28 30 32 34 36 As monjas, pois entender forom esto, e saber, houverom gram lediça: ca, porque lhes nom sofrer queria de mal fazer, haviam-lhe maíça; e foro-na acusar ao bispo do logar. E el bem de Colonha chegou i; e, pois chamar a fez, vo sem vagar, leda e mui risonha. R2 37-42 [Refrão = vv. 1-6] III O bispo lhe diss’ assi: “– Dona, per quant’ aprendi, mui mal vossa fazenda fezestes; e vim aqui por esto: que ante mi façades end’ emenda”. Mas a dona, sem tardar, a madre de Deus rogar foi; e, come quem sonha, Santa Maria tirar lhe fez o filh’ e criar 44 46 48 50 52 22 54 lho mandou em Sansonha. R3 55-60 [Refrão = vv. 1-6] IV Pois s’ a dona espertou e se guarida achou, log’ ant’ o bispo vo; e el muito a catou e desnuá-la mandou; e, pois lhe viu o so, começou Deus a loar, e as donas a brasmar (que eram d’ órdim d’ Onha), dizendo: “– Se Deus m’ ampar, por salva poss’ esta dar, que nom sei que lh’ aponha”. 62 64 66 68 70 72 R4 74 76 78 Santa Maria amar devemos muit’ e rogar que a sa graça ponha sobre nós, porque errar nom nos faça, nem pecar, o demo sem vergonha. * * * 23 Cantigas de Santa Maria 8 «A Virgem Santa Maria / todos a loar devemos» (E 8, T 8, U 8) Esta oitava é como Santa Maria fez em Rocamador decender ũa candea na viola do jograr que cantava ant’ ela. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII A Virgem Santa Maria todos a loar devemos, cantand’ e com alegria, quantos seu bem atendemos. E por aquest’ um miragre | vos direi, de que sabor haveredes poi-l’ oirdes, | que fez em Rocamador a Virgem Santa Maria, | madre de Nostro Senhor; ora oíd’ o miragre, | e nós contar-vo-lo-emos. [Refrão = vv. 1-4] Um jograr, de que seu nome | era Pedro de Sigrar, que mui bem cantar sabia | e mui melhor violar, e em toda-las eigrejas | da Virgem que nom há par um seu lais sempre dizia, | per quant’ ém nós aprendemos. [Refrão = vv. 1-4] O lais que ele cantava | era da madre de Deus, estand’ ant’ a sa omagem, | chorando dos olhos seus; e pois diss’: “– Ai groriosa, | se vos prazem estes meus cantares, ũa candea | nos dade, a que cemos”. [Refrão = vv. 1-4] De com’ o jograr cantava | Santa Maria prazer houv’, e fez-lhe na viola | ũa candea decer; mas o monge tesoureiro | foi-lha da mão tolher, dizend’: “– Encantador sodes, | e nom vo-la leixaremos”. [Refrão = vv. 1-4] Mas o jograr, que na Virgem | tĩía seu coraçom, nom quis leixar seus cantares, | e a candea entom ar pousou-lhe na viola; | mas o frade mui felom tolheu-lha outra vegada | mais toste ca vos dizemos. [Refrão = vv. 1-4] Pois a candea filhada | houv’ aquel monge des i ao jograr da viola, | foi-a põer bem ali u x’ ant’ estav’, e atou-a | mui de rij’, e diss’ assi: “– Dom jograr, se a levardes, | por sabedor vos terremos”. [Refrão = vv. 1-4] O jograr por tod’ aquesto | nom deu rem, mas violou 24 54 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 74 76 como x’ ante violava, | e a candea pousou outra vez ena viola; | mas o monge lha cuidou filhar, mas disse-lh’ a gente: | “– Esto vos nom sofreremos”. [Refrão = vv. 1-4] Poi-lo monge perfiado | aqueste miragre viu, entendeu que muit’ errara, | e logo s’ arrepentiu; e ant’ o jograr em terra | se deitou e lhe pediu perdom por Santa Maria, | em que vós e nós creemos. [Refrão = vv. 1-4] Poi-la Virgem groriosa | fez este miragr’ atal que deu ao jograr dõa | e converteu o negral monge, dali adeante | cad’ an’ um grand’ estadal lhe trouxe a sa eigreja | o jograr que dit’ havemos. A Virgem Santa Maria todos a loar devemos, cantand’ e com alegria, quantos seu bem atendemos. * * * 25 Cantigas de Santa Maria 9 «Porque nós hajamos» (E 9, T 9, U 9) Esta nova é como Santa Maria fez em Sardonai, preto de Domás, que a sa omagem, que era pintada em ũa távoa, se fezesse carne e mãass’ oio. R0 2 4 6 I 8 10 12 14 16 R 1 17-22 II 24 26 28 30 32 R2 33-38 III 40 42 44 46 48 R3 49-54 IV 56 Porque nós hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domás achamos que Santa Maria fez gram demostrança. Em esta cidade | que vos hei já dita, houv’ i ũa dona | de mui santa vida, mui fazedor d’ alg’ e | de todo mal quita, rica e mui nobre | e de bem comprida. Mas, porque sabiamos como nom queria do mundo gabança, como fez digamos ũ’ albergaria, u filhou morança. [Refrão = vv. 1-6] E, ali morand’ e | muito bem fazendo a toda-las gentes | que per i passavam, vo i um monge, | segund’ eu aprendo, que pousou com ela, | com’ outros pousavam. Diss’ ela: “– Ouçamos u tedes via: se ides a França?”. Diss’ el: “– Mas cuidamos dereit’ a Suria log’ ir, sem tardança”. [Refrão = vv. 1-6] Log’ entom a dona, | chorando dos olhos, muito lhe rogava | que per i tornasse, des que el houvesse | fito-los golhos ant’ o Sam Sepulcro | e em el beijasse. “– E mais vos rogamos: que, se vos prazia, ũa semelhança que dalá vejamos da que sempre guia os seus sem errança”. [Refrão = vv. 1-6] Pois que foi o monge | na santa cidade u Deus por nós morte | ena cruz prendera, 26 58 60 62 64 R4 65-70 V 72 74 76 78 80 R5 81-86 VI 88 90 92 94 96 R6 97-102 VII 104 106 108 110 112 R7 113-118 VIII 120 122 124 126 128 comprido seu feito, | rem da majestade nom lhe vo_a mente, | que el prometera; mas disse: “– Movamos,” –a sa companhia– “que gram demorança aqui u estamos bõa nom seria sem haver pitança”. [Refrão = vv. 1-6] Quand’ est’ houve dito, | cuidou-s’ ir, sem falha; mas a voz do ceo | lhe disse: “– Mesquinho, e como nom levas, | asse Deus te valha, a omagem tigo | e vás teu caminho?: esto nom loamos; ca mal ch’ estaria que, per obridança, se a que amamos monja nom havia da Virgem sembrança”. [Refrão = vv. 1-6] Mantenent’ o frade | os que com el iam leixou ir, e logo | tornou, sem tardada, e foi buscar u as | omages vendiam, e comprou end’ ũa, | a melhor pintada. Diss’ el: “– Bem mercamos; e quem poderia a esta osmança põer?; e vaamos a noss’ abadia com esta gaança”. [Refrão = vv. 1-6] E, pois que o monge | aquesto feit’ houve, foi-s’ entom sa vi’, a | omagem no so. E log’ i a preto | um leom, u jouve, achou, que correndo | pera ele vo de so ũus ramos, nom com felonia, mas com homildança; por que bem creamos que Deus o queria guardar, sem dultança. [Refrão = vv. 1-6] Des quando o monge | do leom foi quito (que, macar se fora, | nom perdera medo del), a pouca d’ hora | um ladrom maldito, que romeus roubava, | diss’ aos seus quedo: “– Por que nom matamos este, pois desvia?; dar-lh’-ei com mià lança, e o seu partamos logo, sem perfia, todos per iguança”. 27 R8 129-134 IX 136 138 140 142 144 R9 145-150 X 152 154 156 158 160 R10 161-166 XI 168 170 172 174 176 R11 177-182 XII 184 186 188 190 192 R12 193-198 XIII 200 202 204 206 [Refrão = vv. 1-6] Quand’ est’ houve dito, | quis em el dar salto, dizendo: “– Matemo- | lo ora, irmãos!”. Mas a voz do ceo | lhes disse mui d’ alto: “– Sandeus, nom ponhades | em ele as mãos; ca nó-lo guardamos de malfeitoria e de malandança, e bem vos mostramos que Deus prenderia de vós gram vingança”. [Refrão = vv. 1-6] Pois na majestade | viu tam gram vertude, o mong’ entom disse: | “– Comoquer que seja, bõa será esta, | asse Deus m’ ajude, em Costantinobre | na nossa eigreja; ca, se a levamos alhur, bavequia e gram malestança serám, nom erramos”. E ao mar s’ ia com tal acordança. [Refrão = vv. 1-6] E em ũa nave | com outra gram gente entrou, e gram peça | pelo mar singrarom; mas ũa tormenta | vo mantenente, que, do que tragiam, | muit’ em mar deitarom, por guarir, osmamos. E ele prendia com desasperança a que aoramos, que sigo tragia por sa delivrança, [Refrão = vv. 1-6] por no mar deitá-la. | Que a nom deitasse ũa voz lhe disse, | ca era pecado, mas contra o ceo | suso a alçasse, e o tempo forte | seria quedado. Diz: “– Prestes estamos”. Entom a ergia e diz com fiança: “– A ti graças damos, que és alegria noss’ e amparança”. [Refrão = vv. 1-6] E log’ a tormenta | quedou essa hora, e a nav’ a Acre | entom foi tornada; e com sa omagem | o monge foi fora, e foi-se a casa | da dona honrada. Ora retraiamos quam grand’ arteria fez per antolhança; mas, como pensamos, 28 208 R13 209-214 XIV 216 218 220 222 224 R14 225-230 XV 232 234 236 238 240 R15 242 244 246 tanto lhe valria com’ ũa garvança. [Refrão = vv. 1-6] O monge, da dona | nom foi conhoçudo, onde prazer houve, | e ir-se quisera; logo, da capela | u era metudo nom viu end’ a porta | nem per u vera. “– Por que nom leixamos –contra si dizia– e sem demorança, esta que compramos, e Deus tiraria nós desta balança?” [Refrão = vv. 1-6] El esto pensando, | viu a port’ aberta e foi aa dona | contar sa fazenda, e deu-lh’ a omagem, | ond’ ela foi certa, e sobe-lo altar | a pôs por emenda. Carne, nom dultamos, se fez, e saía dela, mas nom rança, grossaim: sejamos certos que corria e corr’ avondança. Porque nós hajamos sempre, noit’ e dia, dela renembrança, em Domás achamos que Santa Maria fez gram demostrança. * * * 29 Cantigas de Santa Maria 10 «Rosa das rosas e fror das frores» (E 10, T 10, U 10) Esta deza é de loor de Santa Maria, com’ é fremosa e bõa e há gram poder. R0 2 I 6 Rosa de beldad’ e de parecer e fror d’ alegria e de prazer, dona em mui piadosa seer, senhor em tolher coitas e doores. 8 Rosa das rosas e fror das frores, dona das donas, senhor das senhores. 4 R1 II 12 Atal senhor dev’ home muit’ amar, que de todo mal o pode guardar; e pode-lh’ os pecados perdõar, que faz no mundo per maos sabores. 14 Rosa das rosas e fror das frores, dona das donas, senhor das senhores. 10 R2 III 18 Devemo-la muit’ amar e servir, ca punha de nos guardar de falir; des i, dos erros nos faz repentir, que nós fazemos come pecadores. 20 Rosa das rosas e fror das frores, dona das donas, senhor das senhores. 16 R3 IV 24 Esta dona que tenho por senhor e de que quero seer trobador, se eu per rem poss’ haver seu amor, dou ao demo os outros amores. 26 Rosa das rosas e fror das frores, dona das donas, senhor das senhores. 22 R4 Rosa das rosas e fror das frores, dona das donas, senhor das senhores. * * * 30 Cantigas de Santa Maria 11 «Macar home per folia» (E 11, T 11, U 11) Esta XIª é de como Santa Maria tolheu a alma do monge que s’ afogara no rio, ao demo, e feze-o ressocitar. R0 2 4 6 I 8 10 12 14 Macar home per folia aginha caer pod’ em pecado, do bem de Santa Maria nom dev’ a seer desasperado. Porém direi todavia com’ em ũa abadia um tesoureiro havia, monge, que trager com mal recado a sa fazenda sabia, por a Deus perder, o malfadado. R1 15-20 [Refrão = vv. 1-6] II Sem muito mal que fazia, cada noit’ em drudaria a ũa sa druda ia com ela ter seu gasalhado; pero, ant’, «Ave, Maria» sempr’ ia dizer de mui bom grado. 22 24 26 28 R2 29-34 [Refrão = vv. 1-6] III Quand’ esto fazer queria, nunca os sinos tangia, e log’ as portas abria por ir a fazer o desguisado; mas, no rio que soía passar, foi morrer dentr’ afogado. 36 38 40 42 R3 43-48 [Refrão = vv. 1-6] IV E, u lh’ a alma saía, log’ o demo a prendia, e com mui grand’ alegria foi po-la põer no fog’ irado; mas d’ ángeos companhia po-la socorrer vo privado. 50 52 54 56 31 R4 57-62 [Refrão = vv. 1-6] V Gram referta i crecia, ca o demo lhes dizia: “– Ide daqui vossa via, que dest’ alm’ haver é juigado, ca fez obras noit’ e dia sempr’ a meu prazer e meu mandado”. 64 66 68 70 R5 71-76 [Refrão = vv. 1-6] VI Quand’ est’ a companh’ oía dos ángeos, se partia dali triste, pois viía o demo seer bem rezõado; mas a Virgem, que nos guia, nom quis falecer a seu chamado. 78 80 82 84 R6 85-90 [Refrão = vv. 1-6] VII E, pois chegou, lhes movia sa razom com preitesia que per ali lhes faria a alma tolher do frad’ errado, dizendo-lhes: “– Ousadia foi d’ irdes tanger meu comendado”. 92 94 96 98 R7 99-104 [Refrão = vv. 1-6] VIII O demo, quand’ entendia esto, com pavor fugia; mas um ángeo corria a alma prender, led’ aficado, e no corpo a metia e fez-lo erger ressucitado. 106 108 110 112 R8 113-118 [Refrão = vv. 1-6] IX O convento atendia o sino a que s’ ergia, ca des peça nom durmia; porém sem lezer ao sagrado forom, e a’ água fria, u virom jazer o mui culpado. 120 122 124 126 R9 127-132 [Refrão = vv. 1-6] X Tod’ aquela crerezia dos monges logo liía sobr’ ele a ledãía, po-lo defender 134 136 32 138 140 R10 142 144 146 do denodado demo; mas a Deus prazia, e logo viver fez o passado. Macar home per folia aginha caer pod’ em pecado, do bem de Santa Maria nom dev’ a seer desasperado. * * * 33 Cantigas de Santa Maria 12 «O que a Santa Maria mais despraz» (E 12, T 12, U 13) Esta é como Santa Maria se queixou em Toledo eno dia de sa festa de agosto, porque os judeus crucifigavam ũa omagem de cera, a semelhança de seu filho. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 38 O que a Santa Maria mais despraz é de quem ao seu filho pesar faz. E daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora contar, que a reinha do ceo | quis em Toledo mostrar eno dia que a Deus foi corõar, na sa festa que no mês d’ agosto jaz. [Refrão = vv. 1-2] O arcebisp’ aquel dia | a gram missa bem cantou; e, quand’ entrou na segreda | e a gente se calou, oírom voz de dona, que lhes falou piadosa e doorida assaz. [Refrão = vv. 1-2] E a voz, come chorando, | dizia: “– Ai Deus!, ai Deus!, com’ é mui grand’ e provada | a perfia dos judeus!, que meu filho matarom, seendo seus, e ainda nom querem conosco paz”. [Refrão = vv. 1-2] Poi-la missa foi cantada, | o arcebispo saiu da eigreja, e a todos | diss’ o que da voz oiu; e toda a gent’ assi lhe recodiu: “– Esto fez o poblo dos judeus malvaz”. [Refrão = vv. 1-2] Entom todos mui correndo | começarom logo d’ ir dereit’ aa judaria, | e acharom, sem mentir, omagem de Jesu-Crist’, a que ferir iam os judeus, e cospir-lhe na faz. [Refrão = vv. 1-2] E, sem aquest’, os judeus | fezeram a cruz fazer em que aquela omagem | queriam logo põer. E por est’ houverom todos de morrer, e tornou-se-lhes em doo seu solaz. O que a Santa Maria mais despraz, é de quem ao seu filho pesar faz. * * * 34 Cantigas de Santa Maria 13 «Assi como Jesu-Cristo, estando na cruz, salvou» (E 13, T 13, U 14) Esta é como Santa Maria guardou o ladrom que nom morresse na forca, porque a saudava. R0 2 I 4 6 Assi como Jesu-Cristo, | estando na cruz, salvou um ladrom, assi sa madre | outro de morte livrou. E por end’ um gram miragre | vos direi desta razom, que feze Santa Maria: | dum mui malfeitor ladrom que Elbo por nom’ havia, | mas sempr’ em sa oraçom a ela s’ acomendava; | e aquelo lhe prestou. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Onde lh’ avo um dia | que foi um furto fazer, e o meirinho da terra | houve-o log’ a prender, e tantoste, sem tardada, | fez-lo na forca põer; mas a Virgem, de Deus madre, | log’ entom del se nembrou. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, u pendurad’ estava | na forca por s’ afogar, a Virgem Santa Maria | nom vos quis entom tardar, ante chegou muit’ aginha | e foi-lh’ as mãos parar so os pees e alço’-o | assi que nom s’ afogou. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Assi esteve três dias | o ladrom, que nom morreu; mais o meirinho passava | per i e mentes meteu com’ era viv’, e um home | seu logo lhe corregeu o laço, per que morresse; | mas a Virgem o guardou. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V U cuidavam que mort’ era, | o ladrom lhes diss’ assi: “– Quero-vos dizer, amigos, | ora porque nom morri: guardou-me Santa Maria, | e aqué-vo-la aqui que me nas sas mãos sofre, | que m’ o laço nom matou”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Quand’ est’ oiu o meirinho, | deu aa Virgem loor Santa Maria, e logo | foi decer por seu amor Elbo, o ladrom, da forca, | que depois por servidor dela foi sempr’ em sa vida, | ca em ordem log’ entrou. 38 Assi como Jesu-Cristo, | estando na cruz, salvou um ladrom, assi sa madre | outro de morte livrou. 34 R6 * * * 35 Cantigas de Santa Maria 14 «Par Deus, muit’ é gram razom» (E 14, T 14, U 15) Esta é como Santa Maria rogou a seu filho pola alma do monge de Sam Pedro, por que rogaram todo-los santos, e o nom quis fazer senom por ela. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 42 Par Deus, muit’ é gram razom de poder Santa Maria | mais de quantos santos som. E muit’ é cousa guisada | de poder muito com Deus a que o troux’ em seu corpo, | e depois nos braços seus o trouxe muitas vegadas, | e com pavor dos judeus fugiu com el a Egipto, | terra de rei Faraom. [Refrão = vv. 1-2] Esta senhor groriosa | quis gram miragre mostrar em um mõesteir’ antigo, | que soía pret’ estar da cidade de Colonha, | u soíam a morar monges e que de Sam Pedro | haviam a vocaçom. [Refrão = vv. 1-2] Entr’ aqueles bõos frades | havia um frad’ atal que dos sabores do mundo | mais ca da celestial vida gram sabor havia; | mas, por se guardar de mal, beveu ũa meezinha, | e morreu sem confissom. [Refrão = vv. 1-2] E, tantoste que foi morto, | o dem’ a alma filhou dele, e com gram lediça | logo a levar cuidou; mas defendeu-lho Sam Pedro, | e a Deus por el rogou que a alma do seu monge | por el houvesse perdom. [Refrão = vv. 1-2] Pois que Sam Pedr’ esto disse | a Deus, respôs-lh’ El assi: “– Nom sabe-la profecia | que diss’ o bom rei Davi, que o home com mazela | de pecado ante mi nom verrá, nem de mià casa | nunca será companhom?” [Refrão = vv. 1-2] Mui triste ficou Sam Pedro | quand’ esta razom oiu, e chamou todo-los santos | ali u os estar viu, e rogarom polo frade | a Deus; mas El recodiu bem com’ a el recodira, | e em outra guisa nom. [Refrão = vv. 1-2] Quando viu Sam Pedr’ os santos | que assi foram falir, entom a Santa Maria | mercee lhe foi pedir que rogass’ ao seu filho | que nom quisess’ consentir que a alma do seu frade | tevess’ o dem’ em prijom. 36 R7 43-44 VIII 46 48 R8 49-50 IX Log’ entom Santa Maria | a seu filh’, o Salvador, foi rogar que aquel frade | houvesse, por seu amor, perdom. E diss’ El: “– Farei-o, | pois end’ havedes sabor; mas torn’ a alma no corpo, | e compra sa profissom”. [Refrão = vv. 1-2] 54 U Deus por Santa Maria | este rogo foi fazer, o frade que era morto | foi-s’ em pees log’ erger, e contou ao convento | como s’ houver’ a perder, senom por Santa Maria, | a que Deu-lo deu em dom. 56 Par Deus, muit’ é gram razom de poder Santa Maria | mais de quantos santos som. 52 R9 [Refrão = vv. 1-2] * * * 37 Cantigas de Santa Maria 15 «Todo-los santos que som no ceo, de servir muito ham gram sabor» (E 15, T 5, U 33) Esta é como Santa Maria defendeu a cidade de Cesaira do emperador Juião. R0 2 I 4 6 8 10 Todo-los santos que som no ceo | de servir muito ham gram sabor Santa Maria a Virgem, madre | de Jesu-Cristo, Nostro Senhor. E de lhe seerem bem mandados, esto dereit’ e razom aduz, pois que por eles encravelados houve seu filh’ os nembros na cruz; demais, per ela «santos» chamados som, e de todos é lum’ e luz; porend’ estám sempr’ aparelhados de fazer quanto lh’ em prazer for. R1 11-12 [Refrão = vv. 1-2] II 14 16 18 20 Ond’ em Cesaira, a de Suria, fez um miragre, há gram sazom, por Sam Basilho Santa Maria sobre Juião fals’ e felom, que os crischãos matar queria, ca o demo no seu coraçom metera i tam grand’ heregia que per rem nom podia maior. R2 21-22 [Refrão = vv. 1-2] III 24 26 28 30 Este Juião havia guerra com persiãos, e foi sacar hoste sobr’ eles, e pela terra de Cesaira houve de passar; e Sam Basilh’ a pé dũa serra saiu a el por xe lh’ homilhar, e diss’ assi: “– Aquel que nom erra, que Deus é, te salv’, emperador”. R3 31-32 [Refrão = vv. 1-2] IV 34 36 38 40 Juião diss’ ao home santo: “– Sabedor és, e muito me praz; mas quer’ agora que sábias tanto: que mui mais sei eu ca ti assaz, e de tod’ esto eu bem m’ avanto que sei o que em natura jaz”. Basilho diz: “– Será est’ enquanto tu conhoceres teu Criador”. R4 41-42 [Refrão = vv. 1-2] V 44 O sant’ home tirou de seu so pam d’ horjo, que lhe foi ofrecer 38 46 48 50 dizend’: “– Esto nos dam do alho, por Deus, com que possamos viver; pois ta pessõa nobr’ aqui vo, filha-o, se te jaz em prazer”. Juião disse: “– Dem-ti do fo, pois me cevada dás por amor; R5 51-52 [Refrão = vv. 1-2] VI 54 56 58 60 e mais ti digo: que, se conqueiro terra de Pérsia, quero vĩir per aqui log’, e teu mõesteiro e ta cidade ti destroir; e fo comerás por fazfeiro, ou te farei de fame fĩir; e, se t’ aqueste pam nom refeiro, terrei-me por doutr’ home peior”. R6 61-62 [Refrão = vv. 1-2] VII 64 66 68 70 Pois Sam Basilh’ o fo filhado houve, tornando-se diss’ atal: “– Juião, deste fo que dado mi_hás, que comesse, feziste mal; e est’ orgulho que mi_hás mostrado, Deus ti_o demande, que pod’ e val; e, quant’ eu hei, tenh’ encomendado da Virgem, madre do Salvador”. R7 71-72 [Refrão = vv. 1-2] VIII 74 76 78 80 Pois se tornou aos da cidade, fez-los juntar, chorando dos seus olhos, contand’ a deslealdade de Juião, e disse: “– Por Deus, de quem é madre de piadade Santa Mari’, ai amigos meus, roguemos-lhe pola sa bondade que nos guarde daquel traedor”. R8 81-82 [Refrão = vv. 1-2] IX 84 86 88 90 Demais, fez-lhes jejũar três dias e levar gram marteir’ e afám, andando per muitas romarias, bevend’ água, comendo mal pam; de noite lhes fez ter vigias na eigreja da do bom talám, Santa Maria, que désse vias per que saíssem daquel pavor. R9 91-92 [Refrão = vv. 1-2] X 94 96 98 100 Poi-lo sant’ hom’ aquest’ houve feito, bem ant’ o altar adormeceu da Santa Virgem, lass’ e maltreito; e ela logo lh’ apareceu com gram poder de santos afeito, que a terra toda ’sclareceu, e dizendo: “– Pois que hei conjeito, vingar-m’-ei daquele malfeitor”. 39 R10 101-102 [Refrão = vv. 1-2] XI 104 106 108 110 Pois esto disse, chamar mandava Sam Mercuiro, e disse-lh’ assi: “– Juião falso, que rezõava mal a meu filh’, e peior a mi, por quanto mal nos ele buscava dá-nos dereito del bem ali du vai ontr’ os seus, em que fiava, e sei de nós ambos vingador”. R11 111-112 [Refrão = vv. 1-2] XII 114 116 118 120 E mantenente, sem demorança, Sam Mercuiro log’ ir se leixou em seu cavalo branc’, e sa lança muito brandind’; e toste chegou a Juião, e deu-lhe na pança que em terra morto o deitou ontr’ os seus todos; e tal vingança filhou del come bom lidador. R12 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XIII 124 126 128 130 Tod’ aquesto que vos ora dito hei, Sam Basilh’ em sa visom viu; e Santa Maria deu-lh’ escrito um livro, e ele o abriu, e, quant’ i viu, no coraçom fito teve bem, e logo s’ espediu dela. E, pois da visom foi quito, ficou ém com med’ e com tremor. R13 131-132 [Refrão = vv. 1-2] XIV 134 136 138 140 Depós aquest’, um seu companheiro Sam Basilho [i] logo chamou, e catar foi logo de primeiro u as sas armas ante leixou de Sam Mercuiro, o cavaleiro de Jesu-Crist’, e no-nas achou; e teve que era verdadeiro seu sonh’, e deu a Deus ém loor. R14 141-142 [Refrão = vv. 1-2] XV 144 146 148 150 Essa hora logo, sem tardada, Sam Basilho, com’ escrit’ achei, u a gente estav’ assũada foi-lhes dizer como vos direi: “– Gram vengança nos há ora dada Sam Mercuiro daquel falso rei, ca o matou dũa gram lançada, que nunca atal deu justador; R15 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XVI 154 156 e, se daquesto, pela ventura, que digo, nom me creedes ém, eu fui catar a sa sepultura, e, das sas armas, nom vi i rem; 40 158 160 mas tornemos i log’ a cordura, por Deus, que o mund’ em poder tem, ca este feit’ é de tal natura que dev’ hom’ ém seer sabedor”. R16 161-162 [Refrão = vv. 1-2] XVII 164 166 168 170 Logo tantoste forom correndo e as armas todas essa vez acharom, e a lança jazendo, com que Sam Mercuir’ o colbe fez, sangoent’; e per i entendendo forom que a Virgem mui de prez fez fazer esto em defendendo os seus de Juião chufador. R17 171-172 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 174 176 178 180 Eles assi a lança catando, que creer podiam muit’ adur, maestre Libano foi chegando, filósofo natural de Sur, que lhes este feito foi contando, ca se nom detevera nenlhur des que leixara a host’ alçando e Juião morto sem coor. R18 181-182 [Refrão = vv. 1-2] XIX 184 186 188 190 E contou-lhes a mui gram ferida que lh’ um cavaleiro branco deu, per que a’ lma tantoste partida lhe foi do corp’: “– Aquesto vi eu” –diss’ el–; “porém quero santa vida fazer vosc’, e nom vos seja greu, e receber vossa lei comprida, e serei dela preegador”. R19 191-192 [Refrão = vv. 1-2] XX 194 196 198 200 R20 E log’ a água sobe-la testa lhe deitarom, e batismo prês; e começarom log’ i a festa da Virgem, que durou bem um mês; e cada dia pela gram sesta vinham da host’ um e dous e três, que lhes contarom da mort’ a gesta que prês Juião a gram door. Todo-los santos que som no ceo | de servir muito ham gram sabor 202 Santa Maria a Virgem, madre | de Jesu-Cristo, Nostro Senhor. * * * 41 Cantigas de Santa Maria 16 «Quem dona fremosa e bõa quiser amar» (E 16, T 16, U 12) Esta é como Santa Maria converteu um cavaleiro namorado, que s’ houver’ a desasperar porque nom podia haver sa amiga. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem dona fremosa e bõa quiser amar, am’ a groriosa, e nom poderá errar. E desta razom vos quer’ eu agora dizer fremoso miragre, que foi em França fazer a madre de Deus, que nom quiso leixar perder um namorado que s’ houver’ a desasperar. [Refrão = vv. 1-2] Este namorado foi cavaleiro de gram prez d’ armas, e mui fremos’ e apost’ e mui fram; mas tal amor houv’ a ũa dona que, de pram, cuidou a morrer por ela ou sandeu tornar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, po-la haver, fazia o que vos direi: nom leixava guerra nem lide nem bom tornei u se nom provasse tam bem que conde nem rei, polo que fazia, o nom houvess’ a preçar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, com tod’ aquesto, dava seu haver tam bem e tam francamente que lhe nom ficava rem; mas, quando dizia aa dona que o sém perdia por ela, nom lho queri’ ascoitar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Macar o cavaleir’ assi despreçar se viu da que el amava, e seu desamor sentiu, pero, com tod’ esto, o coraçom nom partiu de querer seu bem e de o mais dal cobiçar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mas com coita grande que tinha no coraçom, com’ home fora de seu siso, se foi entom a um sant’ abade, e disse-lh’ em confissom que a Deus rogasse que lha fezesse gãar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O sant’ abade, que o cavaleiro sandeu viu com amores, atám toste s’ apercebeu que pelo dem’ era; e porém se trameteu de buscar carreira pera o ende tirar. 40 42 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E porém lhe disse: “– Amigo, creed’ a mi, se esta dona vós queredes, fazed’ assi: a Santa Maria a pedide des aqui, que é poderosa e vo-la poderá dar; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e a maneira em que lha devedes pedir é que duzentas vezes digades, sem mentir, «Ave, Maria», d’ hoj’ a um ano, sem falir, cada dia, em golhos ant’ o seu altar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X O cavaleiro fez todo quanto lh’ el mandou, e tod’ ess’ ano sas avesmarias rezou, senom poucos dias que na cima ém leixou com coita das gentes que iam com el falar. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Mas o cavaleiro tant’ havia gram sabor de comprir o ano, cuidand’ haver sa senhor, que em ũ’ ermida da madre do Salvador foi comprir aquelo que fora ant’ obridar. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E, u el estava em aqueste preit’ atal, mostrand’ a Santa Maria sa coit’ e seu mal, pareceu-lhe log’ a reinha espirital, tam fremos’ e crara que a nom pod’ el catar; 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII e disse-lh’ assi: “– Tolh’ as mãos dante ta faz e pára-mi mentes, ca eu nom tenho anfaz: de mi e da outra dona, a que te mais praz filha qual quiseres, segundo teu semelhar”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV O cavaleiro disse: “– Senhor, madre de Deus, tu és a mais fremosa cousa que estes meus olhos nunca virom; porém seja eu dos teus servos que tu amas, e quer’ a outra leixar”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E entom lhe disse a senhor do mui bom prez: “– Se me por amiga queres haver, mais rafez, tanto que est’ ano rezes por mi outra vez quanto pola outra antano fuste rezar”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Poi-la groriosa o cavaleiro por seu filhou, des ali rezou el (e nom lhe foi greu) quanto lhe mandara ela; e, com’ oí eu, 94 43 R16 96 na cima do ano foi-o consigo levar. 98 Quem dona fremosa e bõa quiser amar, am’ a groriosa, e nom poderá errar. * * * 44 Cantigas de Santa Maria 17 «Sempre seja beita e loada» (E 17, T 17, U 7) Esta é de como Santa Maria guardou de morte a honrada dona de Roma a que o demo acusou po-la fazer queimar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Sempre seja beita e loada Santa Maria, a noss’ avogada. Maravilhoso miragre d’ oir vos quer’ eu ora contar, sem mentir, de como fez o diabre fogir de Roma a Virgem de Deus amada. [Refrão = vv. 1-2] Em Roma foi, já houve tal sazom, que ũa dona mui de coraçom amou a madre de Deus; mas entom sofreu que fosse do demo tentada. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III A dona mui bom marido perdeu, e com pesar del per poucas morreu; mas mal conorto dum filho prendeu que del havia, que a fez prenhada. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV A dona, pois que prenhe se sentiu, gram pesar houve; mas depois pariu um filh’, e, u a nengũu nom viu, mato’-o, dentr’ em sa cas’ enserrada. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Em aquel tempo o demo maior tornou-s’ em forma d’ home sabedor, e, mostrando-se por devinhador, o emperador lhe fez dar soldada. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, ontr’ o al que soub’ adevinhar, foi o feito da dona mesturar; e disse que lho queria provar, em tal que fosse log’ ela queimada. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, pero lh’ o emperador dizer oiu, já per rem nom lho quis creer; mas fez a dona ante si trager, e ela vo bem acompanhada. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 45 VIII 46 48 Poi-lo emperador chamar mandou a dona, logo o dem’ ar chamou, que lhe foi dizer per-quanto passou, de que foi ela mui maravilhada. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O emperador lhe disse: “– Molher bõa, de responder vos é mester”. “– O bem,” –diss’ ela– “se prazo houver em que eu possa seer conselhada”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X O emperador lhes pôs praz’ atal: “– D’ hoj’ a três dias, u nom haja al, venha provar o maestr’ este mal; se nom, a testa lhe seja talhada”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI A bõa dona se foi bem dali a ũ’ eigreja, per quant’ aprendi, de Santa Maria, e diss’ assi: “– Senhor, acorre a tua coitada”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Santa Maria lhe diss’: “– Est’ afám e esta coita que tu hás, de pram, faz o maestre; mas mos que cam o tem em vil, e sei bem esforçada”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII A bõa dona sem nium desdém ant’ o emperador aqué-a vem; mas o demo entom per nulha rem no-na conhoceu nem lhe disse nada. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 Diss’ o emperador: “– Par Sam Martim, maestre, mui pret’ é a vossa fim”. Mas foi-s’ o demo, e fez-lh’ o bocim, e derribou do teit’ ũa braçada. 86 Sempre seja beita e loada Santa Maria, a noss’ avogada. 82 R14 * * * 46 Cantigas de Santa Maria 18 «Por nos de dulta tirar» (E 18, T 18, U 16) Esta é como Santa Maria fez fazer aos babous que criam a seda duas toucas, porque a dona que os guardava lhe prometera ũa e nom lha dera. R0 2 4 I 6 8 10 12 Por nos de dulta tirar, praz a Santa Maria de seus miragres mostrar fremosos cada dia. E por nos fazer veer sa apostura, gram miragre foi fazer em ’Stremadura, em Segóvia, u morar ũa dona soía que muito sirgo criar em sa casa fazia. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II Porque os babous perdeu e houve pouca seda, porém prometeu dar ũa touca per’ a omagem honrar que no altar siía da Virgem, que nom há par, em que muito criía. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III Pois que a promessa fez, sempre crecerom os babous bem dessa vez e nom morrerom; mas a dona, com vagar grande que i prendia, d’ a touca da seda dar sempre lh’ escaecia. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV Onde lh’ avo assi ena gram festa d’ agosto, que vo i com mui gram sesta ant’ a omagem orar; e ali u jazia a prezes, foi-lhe nembrar a touca que devia. 42 44 46 48 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] V Chorando de coraçom foi-se correndo 54 47 56 58 60 a casa, e viu entom estar fazendo os bichocos e obrar na touca a perfia, e começou a chorar com mui grand’ alegria. R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI E, pois que assi chorou, meteu bem mentes na touca; des i, chamou muitas das gentes i, que vessem parar mentes como sabia a madre de Deus lavrar per santa maestria. 66 68 70 72 R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII As gentes, com gram sabor, quand’ est’ oírom, dando aa madre loor de Deus, saírom aas ruas braadar, dizendo: “– Via, via!, o gram miragre catar que fez a que nos guia!”. 78 80 82 84 R7 85-88 [Refrão = vv. 1-4] VIII Um e um, e dous e dous, log’ i verom; ontretanto os babous outra fezerom touca, per que fossem par, que, se alguém queria a ũa delas levar, a outra leixaria. 90 92 94 96 R8 97-100 [Refrão = vv. 1-4] IX Porém Dom Afons’, el-rei, na sa capela trage, per quant’ apres’ hei, end’ a mais bela, que faz nas festas sacar por tolher heregia dos que na Virgem dultar vam per sa gram folia. 102 104 106 108 R9 110 112 Por nos de dulta tirar praz a Santa Maria de seus miragres mostrar fremosos cada dia. * * * 48 Cantigas de Santa Maria 19 «Gram sandece faz quem se por mal filha» (E 19, T 19, U 18) Esta é como Santa Maria filhou vingança dos três cavaleiros que matarom seu emigo ant’ o seu altar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 Gram sandece faz quem se por mal filha co-na que de Deus é madre e filha. Desto vos direi um miragre fremoso, que mostrou a madre do rei grorioso contra um ricome fol e sobervioso, e contar-vos-ei end’ a gram maravilha. [Refrão = vv. 1-2] El[e] e outros dous um dia acharom um seu emig’, e pos el derranjarom e em ũa eigreja o enserrarom por prazer do demo, que os seus aguilha. [Refrão = vv. 1-2] O enserrado teve que lhe valria aquela eigreja de Santa Maria; mas ant’ o altar, com sa gram felonia, peças del fezerom, per sa pecadilha. [Refrão = vv. 1-2] E, pois que o eles peças feit’ houverom, logo da eigreja sair se quiserom; mas aquesto, per rem, fazer nom poderom, ca Deus os trilhou, o que os maos trilha. [Refrão = vv. 1-2] Nom foi quem podesse arma nem escudo ter nium deles: assi foi perdudo do fogo do ceo, ca tod’ encendudo foi bem da cabeça tro ena verilha. [Refrão = vv. 1-2] Poi-los malapresos arder s’ assi virom, logo por culpados muito se sentirom; a Santa Maria mercee pedirom que os nom metesse o dem’ em sa pilha. [Refrão = vv. 1-2] Pois se repentirom, forom melhorados e dum santo bispo mui bem confessados, que lhes mandou, por remiir seus pecados, 49 42 R7 43-44 VIII 46 48 R8 49 50 que fossem da terra como quem s’ eixilha. [Refrão = vv. 1-2] Demais lhes mandou que aquelas espadas com que o mataram, fossem pecejadas, e cintas ém feitas, com que apertadas trouxessem as carnes per toda Cezilha. Gram sandece faz quem se por mal filha co-na que de Deus é madre e filha. * * * 50 Cantigas de Santa Maria 20 «Virga de Jesse» (E 20, T 20, U 20) Esta XXª é de loor de Santa Maria, por quantas mercees nos faz. R0 2 4 6 I 8 10 12 14 16 R1 18 20 22 II 24 26 28 30 32 R2 34 36 38 III 40 42 44 Virga de Jesse, quem te soubesse loar como mereces, e sém houvesse per que dissesse quanto por nós padeces! Ca tu noit’ e dia sempr’ estás rogando teu filh’, ai Maria, por nós que, andando aqui pecando e mal obrand’ –o que tu muit’ avorreces– nom quera, quando sever julgando, catar nossas sandeces. Virga de Jesse, quem te soubesse loar como mereces, e sém houvesse per que dissesse quanto por nós padeces! E ar todavia sempr’ estás lidando por nós a perfia, o dem’ arrancando, que, sossacando, nos vai tentando com sabores rafeces; mas tu guardando e amparando nos vás, poi-lo couseces. Virga de Jesse, quem te soubesse loar como mereces, e sém houvesse per que dissesse quanto por nós padeces! Miragres fremosos vás por nós fazendo, e maravilhosos, per quant’ eu entendo, e corregendo muit’ e sofrendo, ca nom nos escaeces, 51 46 48 R3 50 52 54 IV 56 58 60 62 64 R4 66 68 70 e, contendendo, nos defendendo do demo, que ’sterreces. Virga de Jesse, quem te soubesse loar como mereces, e sém houvesse per que dissesse quanto por nós padeces! Aos soberviosos d’ alto vás decendo, e os homildosos em honra crecendo, e adendo e provezendo tas santas grãadeces. Porém comendo-[m’] a ti e rendo, que òs teus nom faleces. Virga de Jesse, quem te soubesse loar como mereces, e sém houvesse per que dissesse quanto por nós padeces! * * * 52 Cantigas de Santa Maria 21 «Santa Maria pod’ enfermos guarir» (E 21, T 21, U 26) Esta é como Santa Maria fez haver filho a ũa molher maninha, e depois morreu-lhe, e ressocitou-lho. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Santa Maria pod’ enfermos guarir quando xe quiser, e mortos resorgir. Na que Deus seu Sant’ Espírit’ enviou, e que forma d’ home em ela filhou, nom é maravilha se del gaanhou vertude per que podess’ esto comprir. [Refrão = vv. 1-2] Porend’ um miragr’ aquesta reinha santa fez mui grand’ a ũa mesquinha molher, que com coita de que maninha era, foi a ela um filho pedir. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Chorando dos olhos mui de coraçom, lhe diss’: “– Ai senhor, oe mià oraçom, e, por ta mercee, um filho barom me dá, com que goi’ e te possa servir”. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Log’ o que pediu lhe foi outorgado, e, pois, a seu temp’ aquel filho nado que a Santa Maria demandado houve, ca lhe nom quis eno dom falir. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Mas o meninh’, a pouco pois que naceu, dũa forte féver mui cedo morreu; mas a madre per poucas ensandeceu por el, e sas faces filhou-s’ a carpir. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Entom a cativa com gram quebranto ao mõesteir’ o levou, e ant’ o altar o pôs, fazendo tam gram chanto que toda-las gentes fez a si vĩir. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 E braadando começou a dizer: “– Santa Maria, que me fuste fazer em dar-m’ este filh’ e logo mi_o tolher, porque nom podesse com ele goir?; 53 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 senhor, que de madre nome me déste, em tolher-mi_o logo mal me fezeste; mas polo prazer que do teu houveste filho, dá-m’ este meu que veja riir; R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 ca tu soa és a que mi_o podes dar, e porend’ a ti o venho demandar; onde, groriosa senhor, sem tardar dá-mi_o vivo, que haja que ti gracir”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 Log’ a oraçom da molher oída foi, e o meninho tornou em vida por prazer da Virgem santa comprida, que o fez no leit’ u jazia bolir. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Quand’ esto viu a molher, houve pavor da primeir’, e, pois, tornou-se-lh’ em sabor; e deu porém graças a Nostro Senhor e a sa madre, porque a quis oir. 68 Santa Maria pod’ enfermos guarir quando xe quiser, e mortos resorgir. 64 R11 * * * 54 Cantigas de Santa Maria 22 «Mui gram poder há a madre de Deus» (E 22, T 22, U 22) Esta XXIIª é como Santa Maria guardou a um lavrador que nom morresse das feridas que lhe dava um cavaleiro e seus homes. R0 2 I 4 6 Mui gram poder há a madre de Deus de defender e ampará-los seus. Gram poder há, ca seu filho lho deu, em defender quem se chamar por seu; e dest’ um miragre vos direi eu que ela fez grande nos dias meus. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Armenteira foi um lavrador, que um cavaleiro, por desamor mui grande que havi’ a seu senhor, foi po-lo matar, per nome Mateus. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E, u o viu seu milho debulhar na eira, mandou-lhe lançadas dar; mas el começou a madr’ a chamar do que na cruz matarom os judeus. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Duas lançadas lhe deu um peom, mas nom lh’ entrarom, e escantaçom cuidou que era; o coteif’ entom mais bravo foi que Judas Macabeus. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Entom a sa azcũa lhe lançou, e feriu-o, pero no-no chagou; ca el a Santa Maria chamou: “– Senhor, val-me como vales os teus, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 e nom moira, ca nom mereci mal”. Eles, pois virom o miragr’ atal que fez a reinha esperital, creverom bem, ca ant’ eram encreus. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 E filharom-se log’ a repentir, e ao lavrador perdom pedir, e derom-lh’ alg’; e el punhou de s’ ir a Rocamador com outros romeus. Mui gram poder há a madre de Deus de defender e ampará-los seus. * * * 55 Cantigas de Santa Maria 23 «Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho» (E 23, T 23, U 23) Esta tanha. XXIIIª é como Santa Maria acrecentou o vinho no tonel por amor da bõa dona de BreR0 2 I 4 6 Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho, bem assi depois sa madr’ acrecentou o vinho. Desto direi um miragre que fez em Bretanha Santa Maria por ũa dona mui sem sanha, em que muito bom costum’ e muita bõa manha Deus posera, que quis dela seer seu vezinho. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Sobre toda-las bondades que ela havia, era que muito fiava em Santa Maria; e porende a tirou de vergonha um dia del-rei, que a sa casa vera de caminho. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 A dona po-lo servir foi muit’ afazendada, e deu-lhe carn’ e pescado e pam e cevada; mas de bom vinho pera el era mui menguada, ca nom tinha senom pouco em um tonelcinho. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E dobrava-xe-lh’ a coita, ca, pero quisesse havê-lo, nom era end’ em terra que podesse, por dinheiros nem por outr’ haver que por el désse, se nom fosse pola madre do Velh’ e Meninho. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E com aquesta ’sperança foi aa eigreja e diss’ “– Ai Santa Maria, ta mercee seja que me saques daquesta vergonha tam sobeja; se nom, nunca vestirei já mais lãa nem linho”. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Mantenent’ a oraçom da dona foi oída, e el-rei e sa companha toda foi comprida de bom vinh’, e a adega nom ém foi falida que nom achass’ i avond’ o ric’ e o mesquinho. 38 Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho, bem assi depois sa madr’ acrecentou o vinho. 34 R6 * * * 56 Cantigas de Santa Maria 24 «Madre de Deus, nom pod’ errar quem em ti há fiança» (E 24, T 24, U 17) Esta é como Santa Maria fez nacer ũa fror na boca ao crérigo depois que foi morto (e era em semelhança de lílio), porque a loava. R0 1 I 3 5 R1 6 II 8 10 R2 11 III 13 15 R3 16 IV 18 20 R4 21 V 23 25 R5 26 VI 28 30 R6 31 VII 33 35 R7 36 Madre de Deus, nom pod’ errar | quem em ti há fiança. Nom pod’ errar nem falecer quem loar te sab’ e temer. Dest’ um miragre retraer quero, que foi em França. [Refrão = v. 1] Em Chartes hou[v]’ um crerizom que era tafur e ladrom, mas na Virgem de coraçom havia esperança. [Refrão = v. 1] Quand’ algur ia mal fazer, se via omagem seer de Santa Maria, correr ia lá sem tardança; [Refrão = v. 1] e, pois fazia oraçom, ia comprir seu mal entom. Porém morreu sem confissom, per sua malandança. [Refrão = v. 1] Porque tal morte foi morrer, no-no quiserom receber no sagrad’, e houv’ a jazer fora, sem demorança. [Refrão = v. 1] Santa Maria em visom se mostrou a pouca sazom a um prest’, e disse-lh’ entom: “– Fezestes malestança, [Refrão = v. 1] porque nom quisestes colher o meu crérigo, nem meter no sagrad’, e longe põer o fostes por viltança; [Refrão = v. 1] 57 VIII 38 40 R8 41 IX 43 45 R9 46 X 48 50 R10 51 XI 53 55 R11 56 XII 58 60 R12 61 mas crás, asse Deus vos perdom, ide por el com procissom, com choros e com devoçom, ca foi grand’ a errança”. [Refrão = v. 1] O preste logo foi-s’ erger e mandou os sinos tanger, por ir o miragre veer da Virgem, sem dultança. [Refrão = v. 1] Os crérigos em mui bom som cantando «Kirieleison», virom jazer aquel barom, u fez Deus demostrança: [Refrão = v. 1] que, porque fora bem dizer de sa madre, fez-lhe nacer fror na boca e parecer de liro semelhança. [Refrão = v. 1] Esto teverom por gram dom da Virgem, e mui com razom; e, pois fezerom ém sermom, levaro-no com dança. Madre de Deus, nom pod’ errar | quem em ti há fiança. * * * 58 Cantigas de Santa Maria 25 «Pagar bem pod’ o que dever» (E 25, T 25, U 38) Esta é como a imagem de Santa Maria falou em testimónio entr’ crischão e o judeu. R0 2 I 4 6 8 10 Pagar bem pod’ o que dever o que a madre de Deus fia. E desto vos quero contar um gram miragre mui fremoso que fezo a Virgem sem par, madre do gram rei grorioso, por um home que seu haver todo já despendud’ havia por fazer bem e mais valer, ca nom já em outra folia. R1 11-12 [Refrão = vv. 1-2] II Quand’ aquel bom home o seu haver houv’ assi despendudo, nom pôd’ achar, com’ aprix eu, d’ estranho nem de conhoçudo quem sol lh’ empréstido fazer quisess’; e, pois esto viía, a um judeu foi, sem lezer, provar se lh’ alg’ emprestaria. 14 16 18 20 R2 21-22 [Refrão = vv. 1-2] III E o judeu lhe diss’ entom: “– Amig’, aquesto que tu queres farei eu mui de coraçom sobre bom penhor, se mi_o deres”. Disse-lh’ o crischão: “– Poder d’ esso fazer nom haveria, mas fiador quero seer de cho pagar bem a um dia”. 24 26 28 30 R3 31-32 [Refrão = vv. 1-2] IV O judeu lhe respôs assi: “– Sem penhor nom será já feito que o, per rem, leves de mi”. Diz o crischão: “– Fas um preito: ir-t’-ei por fiador meter Jesu-Crist’ e Santa Maria”. Respôs el: “– Nom quer’ eu creer em eles; mas filhar-chos-ia, 34 36 38 40 R4 41-42 [Refrão = vv. 1-2] V porque sei que santa molher foi ela, e El home santo e profeta; porém, senher, filhar-chos quer’, e dar-ch’-ei quanto quiseres, tod’ a teu prazer”. E o crischão respondia: 44 46 48 59 50 “– Sas omages, que veer posso, dou-t’ em fiadoria”. R5 51-52 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois o judeu est’ outorgou, ambos se forom mantenente, e as omages lhe mostrou o crischão, e ant’ a gente tangeu, e filhou-s’ a dizer que por fiança lhas metia porque lh’ o seu fosse render a seu prazo, sem tricharia. 54 56 58 60 R6 61-62 [Refrão = vv. 1-2] VII “– E Vós, Jesu-Cristo, Senhor, e vós, sa madre muit’ honrada,” –diss’ el– “se daqui longe for ou mià fazenda embargada, nom possa per prazo perder, se eu pagar nom lho podia per mi, mas vós ide põer a paga u mi_a eu porria; 64 66 68 70 R7 71-72 [Refrão = vv. 1-2] VIII ca eu a vó-lo pagarei, e vós fazed’ a el a paga, porque nom diga pois: “– Nom hei o meu”, e em preito me traga, nem mi_o meu faça despender com el andand’ em preitesia; ca, se de coita a morrer houvesse, desta morreria”. 74 76 78 80 R8 81-82 [Refrão = vv. 1-2] IX Poi-lo crischão assi fis fez o judeu, a poucos dias com seu haver quant’ ele quis gãou em bõas merchandias, ca bem se soub’ entrameter dest’, e bem fazê-lo sabia; mas foi-lh’ o praz’ escaecer a que o el pagar devia. 84 86 88 90 R9 91-92 [Refrão = vv. 1-2] X O crischão, que nom mentir quis daquel prazo que posera, ant’ um dia que a vĩir houvesse, foi em coita fera; e por esto fez compõer ũ’ arca, e dentro metia quant’ el ao judeu render houv’, e diss’: “– Ai Deus, Tu o guia”. 94 96 98 100 R10 101-102 [Refrão = vv. 1-2] XI Dizend’ est’, em mar a meteu; e o vento moveu as ondas, 104 60 106 108 110 e outro dia pareceu no porto das águas mui fondas de Besanç’. E po-la prender um judeu mui toste corria, mas log’ i houv’ a falecer, que a arc’ ant’ ele fogia. R11 111-112 [Refrão = vv. 1-2] XII E, pois o judeu esto viu, foi, metendo mui grandes vozes, a seu senhor, e el saiu e disse-lhe: “– Sol duas nozes nom vales, que fuste temer o mar com mui gram covardia; mas esto quer’ eu cometer: bem leu a mi Deu-la daria”. 114 116 118 120 R12 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XIII Pois esto disse, nom fez al, mas correu alá sem demora, e a arca em guisa tal fez que aportou ant’ el fora; entom foi sa mão tender e filhou-a com alegria, ca nom se podia sofrer de saber o que i jazia. 124 126 128 130 R13 131-132 [Refrão = vv. 1-2] XIV Des i, feze-a levar ém a sa casa, e seus dinheiros achou em ela; e mui bem se guardou de seus companheiros, que nom lh’ houvessem d’ entender de como os el ascondia: poi-los foi contar e volver, a arca pôs u el dormia. 134 136 138 140 R14 141-142 [Refrão = vv. 1-2] XV Pois houve feito de sa prol, o mercador ali chegava, e o judeu bem come fol mui de rijo lhe demandava que lhe déss’ o que lh’ acreer fora; se nom, que el diria atal cousa per que caer em gram vergonha o faria. 144 146 148 150 R15 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XVI O crischão disse: “– Fiel bõo tenho que t’ hei pagado: a Virgem, madre do donzel que no altar ch’ hôuvi mostrado, que te fará bem conhocer como foi, ca nom mentiria; e tu nom queras contender com ela, que mal t’ ém verria”. 154 156 158 160 61 R16 161-162 [Refrão = vv. 1-2] XVII Diss’ o judeu: “– Desso me praz; pois vaamos aa eigreja, e, se o disser em mià faz a ta omagem, feito seja”. Entom filharom-s’ a correr, e a gente pos eles ia, todos com coita de saber o que daquel preit’ averria. 164 166 168 170 R17 171-172 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 174 Pois na eigreja forom, diz o crischão: “– Ai majestade de Deus, se esta paga fiz, rogo-te que digas verdade per que tu faças parecer do judeu sa aleivosia, que contra mi cuida trager do que lhe dar nom deveria”. 176 178 180 R18 181-182 [Refrão = vv. 1-2] XIX Entom diss’ a madre de Deus, per como eu achei escrito: “– A falsidade dos judeus é grand’; e tu, judeu maldito, sabes que fuste receber teu haver, que rem nom falia, e fuste a arc’ asconder so teu leito com felonia”. 184 186 188 190 R19 191-192 [Refrão = vv. 1-2] XX 200 Quand’ est’ o judeu entendeu, bes ali logo, de chão, em Santa Maria creeu e em seu filh’, e foi crischão; ca nom vos quis escaecer o que profetou Isaía: como Deus verria nacer da Virgem por nós todavia. 202 Pagar bem pod’ o que dever o que a madre de Deus fia. 194 196 198 R20 * * * 62 Cantigas de Santa Maria 26 «Nom é gram cousa se sabe bom joízo dar» (E 26, T 26, U 24) Esta é como Santa Maria juigou a alma do romeu que ia a Santiago, que se matou na carreira por engano do diabo, que tornass’ ao corpo e fezesse pedença. R0 2 I 4 6 8 R1 9-10 II 12 14 16 R2 17-18 III 20 22 24 R3 25-26 IV 28 30 32 R4 33-34 V 36 38 40 R5 41-42 Nom é gram cousa se sabe | bom joízo dar a madre do que o mundo | tod’ há de joigar. Mui gram razom é que sábia dereito quem Deus troux’ em seu corp’, e de seu peito mamentou, e del despeito nunca foi filhar; porém, de sém, me sospeito que a quis avondar. [Refrão = vv. 1-2] Sobr’ esto, se m’ oíssedes, diria dum joízo que deu Santa Maria por um que cad’ ano ia, com’ oí contar, a Sam Jam’ em romaria, por que se foi matar. [Refrão = vv. 1-2] Este romeu com bõa voontade ia a Santiago de verdade; pero desto fez maldade: que, ant’, albergar foi com molher sem bondade, sem com ela casar. [Refrão = vv. 1-2] Pois esto fez, meteu-s’ ao caminho, e nom se mãefestou o mesquinho; e o demo mui festinho se lhe foi mostrar mais branco que um arminho, po-lo tost’ enganar: [Refrão = vv. 1-2] semelhança filhou de Santiago, e disse: “– Macar m’ eu de ti despago, a salvaçom eu cha trago do que fust’ errar, por que nom caias no lago d’ inferno, sem dultar; [Refrão = vv. 1-2] 63 VI 44 46 48 R6 49-50 VII 52 54 56 R7 57-58 VIII 60 62 64 R8 65-66 IX 68 70 72 R9 73-74 X 76 78 80 mas, ante, farás esto que te digo, se sabor hás de seer meu amigo: talha o que trages tigo que te foi deitar em poder do emigo, e vai-te degolar”. [Refrão = vv. 1-2] O romeu, que sem dôvida cuidava que Santiag’ aquelo lhe mandava, quanto lhe mandou talhava; poi-lo foi talhar, log’ entom se degolava, cuidando bem obrar. [Refrão = vv. 1-2] Seus companheiros, poi-lo mort’ acharom, por nom lhes apõer que o matarom, forom-s’; e logo chegarom a alma tomar demões, que a levarom mui toste sem tardar. [Refrão = vv. 1-2] E, u passavam ant’ ũa capela de Sam Pedro, muit’ aposta e bela, Sam James de Compostela dela foi travar, dizend’: “– Ai fals’ alcavela, nom podedes levar [Refrão = vv. 1-2] a alma do meu romeu que filhastes, ca por razom de mi o enganastes: gram traiçom i pensastes, e, se Deus m’ ampar, pois falsament’ a gãastes, nom vos pode durar”. R10 81-82 [Refrão = vv. 1-2] XI 84 86 88 Responderom os demões louçãos: “– Cuja est’ alma foi, fez feitos vãos, por que somos bem certãos que nom dev’ entrar ante Deus, pois com sas mãos se foi desperentar”. R11 89-90 [Refrão = vv. 1-2] XII 92 94 96 Santiago diss’: “– Atanto façamos: pois nós e vós est’ assi rezõamos, ao joízo vaamos da que nom há par, e o que julgar, façamos logo sem alongar”. R12 97-98 [Refrão = vv. 1-2] 64 XIII 100 102 104 Log’ ante Santa Maria verom, e rezõarom quanto mais poderom. Dela tal joíz’ houverom: que fosse tornar a alma onde_a trouxerom, por se depois salvar. R13 105-106 [Refrão = vv. 1-2] XIV 108 110 112 R14 Este joízo logo foi comprido, e o romeu morto foi resorgido, de que foi pois Deus servido; mas nunca cobrar pôd’ o de que foi falido, com que fora pecar. Nom é gram cousa se sabe | bom joízo dar 114 a madre do que o mundo | tod’ há de joigar. * * * 65 Cantigas de Santa Maria 27 «Nom devemos por maravilha ter» (E 27, T 27, U 25) Esta é como Santa Maria filhou a sinagoga dos judeus e fez dela eigreja. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nom devemos por maravilha ter d’ a madre do vencedor sempre vencer. Vencer dev’ a madre daquel que deitou Locifer do ceo, e depois britou o ifern’, e os santos dele sacou, e venceu a mort’ u por nós foi morrer. [Refrão = vv. 1-2] Porend’ um miragre a madre de Deus fez na sinagoga que foi dos judeus e que os apóstolos, amigos seus, compraram e foram eigreja fazer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Os judeus houverom desto gram pesar, e a César se forom ende queixar, dizendo que o haver queriam dar que pola venda foram ém receber. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O emperador fez chamar ante si os apóstolos, e disse-lhes assi: “– Contra tal querela que or’ ante mi os judeus fezerom, que ides dizer?” 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Os apóstolos, com’ homes de bom sém, responderom: “– Senhor, nós fezemos bem, pois que lha compramos e fezemos ém eigreja da que virgem foi conceber”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Sobr’ esto deu César seu joíz’ atal: “– Serrem a eigreja, u nom haja al, e a quaraenta dias, qual sinal de lei i acharem, tal a dev’ haver”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Os apóstolos log’ a Monte Siom forom, u a Virgem morava entom Santa Maria, e mui de coraçom a rogarom que os vess’ acorrer. 40 42 66 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Assi lhes respôs a mui santa senhor: “– Daqueste preito nom hajades pavor, ca eu vos serei i tal ajudador per que a os judeus hajam de perder”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, pois que o prazo chegou, sem falir, mandou entom César as portas abrir, e amba-las partes fez log’ alá ir e dos seus, que fossem a prova veer. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Des que forom dentr’, assi lhes conteceu: que logo Sam Pedr’ ant’ o altar varreu, e aos judeus tantost’ apareceu omagem da Virgem pintada seer. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Os judeus disserom: “– Pois que a Deus praz que esta omagem a Maria faz, leixemos-lh’ aqueste seu logar em paz e nom queramos com ela contender”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Forom-s’ os judeus, e gãou dessa vez aquela eigreja a senhor de prez, que foi a primeira que se nunca fez em seu nome dela, sem dulta prender. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Depois Juião, emperador cruel, que a Santa Maria nom foi fiel, mandou ao póboo dos d’ Irrael que lh’ aquela omagem fossem trager. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E os judeus, que sempr’ acostumad’ ham de querer gram mal a do mui bom talám, forom i; e assi os catou, de pram, que a nom ousarom, per rem, sol tanger. 86 Nom devemos por maravilha ter d’ a madre do vencedor sempre vencer. 82 R14 * * * 67 Cantigas de Santa Maria 28 «Todo logar mui bem pode seer defendudo» (E 28, T 28, U 27) Esta é como Santa Maria defendeu Costantinobre dos mouros, que a combatiam e a cuidavam filhar. R0 2 I 4 6 8 10 R1 11-12 II 14 16 18 20 R2 21-22 III 24 26 28 30 R3 31-32 IV 34 36 38 40 R4 41-42 V 44 46 Todo logar mui bem pode | seer defendudo o que a Santa Maria | há por seu escudo. Onde daquesta razom um miragre vos quero contar mui de coraçom, que fez, mui grand’ e fero, a Virgem, que nom há par, que nom quis que perdudo foss’ o poblo que guardar havia, nem vençudo. [Refrão = vv. 1-2] De com’ eu escrit’ achei, pois que foi de crischãos Costantinobre, um rei com hoste de pagãos vo a vila cercar mui brav’ e mui sanhudo, po-la per força filhar por seer mais temudo. [Refrão = vv. 1-2] E começou a dizer, com sanha que havia, que, se per força prender a cidade podia, que faria ém matar o póboo miúdo, e o tesour’ ém levar que tinham ascondudo. [Refrão = vv. 1-2] Na cidade, com’ oí, se Deus m’ ajud’ e parca, Sam Germám dentr’ era i, um santo patriarca, que foi a Virgem rogar que dela acorrudo foss’ o poblo, sem tardar, daquel mour’ atrevudo. [Refrão = vv. 1-2] E as donas ar rogou da mui nobre cidade mui de rij’ e conselhou que ant’ a majestade da Virgem fossem queimar 68 48 50 R5 51-52 VI 54 56 58 60 R6 61-62 VII 64 66 68 70 R7 71-72 VIII 74 76 78 80 R8 81-82 IX 84 86 88 90 R9 91-92 X 94 96 98 100 R10 101-102 XI candeas, que traúdo o póboo do logar nom fosse, nem rendudo. [Refrão = vv. 1-2] Mas aquel mouro soldám fez-lhes põer pedreiras per aos de dentr’ afám dar de muitas maneiras, e os arqueiros tirar; e assi combatudo o muro foi sem vagar, que toste foi fendudo. [Refrão = vv. 1-2] E coita sofrerom tal os de dentro, e tanta, que presos foram, sem al, se a Virgem mui santa nom fosse, que i chegar com seu mant’ estendudo foi, po-lo mur’ amparar que nom fosse caúdo. [Refrão = vv. 1-2] E bem ali u deceu, de santos gram companha com ela apareceu; e ela mui sem sanha o seu manto foi parar, u muito recebudo colb’ houve dos que i dar fez o soldám beiçudo. [Refrão = vv. 1-2] E avo dessa vez aos que combatiam que Deus por sa madre fez que, dali u feriam os colbes, iam matar daquel soldám barvudo as gentes, e arredar do muro já movudo. [Refrão = vv. 1-2] Aquel soldám, sem mentir, cuidou que per abete nom queriam envair os seus, e Mafomete começou muit’ a chamar, o falso conhoçudo, que os vess’ ajudar; mas foi i decebudo. [Refrão = vv. 1-2] Ali u ergeu os seus 69 104 106 108 110 R11 111-112 XII 114 116 118 120 R12 121-122 XIII 124 126 128 130 R13 131-132 XIV 134 136 138 140 R14 141-142 XV 144 146 148 150 R15 152 olhos contra o ceo, viu log’ a madre de Deus, coberta de seu veo, sobe-la vila estar com seu manto tendudo, e as feridas filhar. Pois est’ houve veúdo, [Refrão = vv. 1-2] teve-se por pecador, ca viu que aquel feito era de Nostro Senhor; porém per nium preito nom quis combater mandar, e fez come sisudo, e na vila foi entrar, dos seus desconhoçudo. [Refrão = vv. 1-2] Pera Sam Germám se foi aquel soldám pagão e disse-lhe: “– Senhor, hoi-mais me quer’ eu crischão per vossa mão tornar e seer convertudo, e Mafomete leixar, o falso recreúdo; [Refrão = vv. 1-2] e o por que esto fiz, direi-vo-lo aginha: segundo vossa lei diz, a mui santa reinha vi, que vos vo livrar; pois m’ est’ apareçudo foi, quero-me batiçar, mas nom seja sabudo”. [Refrão = vv. 1-2] Poderia-vos dedur dizer as grandes dõas que aquel soldám de Sur deu i, ricas e bõas; demais, foi-os segurar que nom fosse corrudo o reino, se Deus m’ ampar, e foi-lhe gradeçudo. Todo logar mui bem pode | seer defendudo o que a Santa Maria | há por seu escudo. * * * 70 Cantigas de Santa Maria 29 «Nas mentes sempre ter» (E 29, T 29, U 29) Esta XXIXª é como Santa Maria fez parecer nas pedras omages a sa semelhança. R0 2 4 I 6 8 10 Nas mentes sempre ter devemo-las sas feituras da Virgem, pois receber as forom as pedras duras. Per quant’ eu dizer oí a muitos que forom i, na santa Gessemani forom achadas figuras da madre de Deus assi que nom forom de pinturas. R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4] II Nem ar entalhadas nom forom, se Deus me perdom, e havia i faiçom da senhor das aposturas com seu filh’, e per razom feitas bem per sas mesuras. 16 18 20 R2 21-24 [Refrão = vv. 1-4] III Porém as resprandecer fez tam muit’ e parecer per que devemos creer que é senhor das naturas, que, nas cousas, há poder de fazer craras d’ escuras. 26 28 30 R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4] IV Deus xas quise figurar em pedra por nos mostrar que a sa madre honrar devem todas creaturas, pois deceu carne filhar em ela das sas alturas. 36 38 40 R4 42 44 Nas mentes sempre ter devemo-las sas feituras da Virgem, pois receber as forom as pedras duras. * * * 71 Cantigas de Santa Maria 30 «Muito valvera mais, se Deus m’ ampar» (E 30, T 30, U 40) Esta é de loor de Santa Maria, de como Deus nom lhe pode dizer de nom do que lhe rogar, nem ela a nós. R0 2 4 I 6 8 10 12 Muito valvera mais, se Deus m’ ampar, que nom fôssemos nados se nos nom désse Deus a que rogar vai por nossos pecados. Mas daquesto nos fez El o maior bem que fazer podia, u filhou por madr’ e deu por senhor a nós Santa Maria, que lhe rogue, quando sanhudo for contra nós, todavia que da sa graça nem do seu amor nom sejamos deitados. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II 18 20 22 24 [T]al foi El meter entre nós e si e deu por avogada, que madr’, amiga lh’ é, creed’ a mi, e filha e criada; porém nom lhe diz de nom mas de si, u a sent’ aficada rogando-lhe por nós, ca log’ ali somos del perdõados. R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III 30 32 34 36 Nem ela outrossi a nós de nom pode, se Deus m’ ajude, dizer, que nom rogue de coraçom seu filh’, ond’ há vertude; ca por nós lhe deu El aqueste dom, e por nossa saúde filhou dela carn’ e sofreu paxom, por fazer-nos honrados R3 37-40 [Refrão = vv. 1-2] IV 42 44 46 48 R4 50 52 no seu reino, que El pera nós tem, se o nós nom perdermos per nossa culpa, nom obrando bem, e o mal escolhermos. Mas seu bem nom perderemos, per rem, se nós firme creermos que Jesu-Crist’ e a que nos mantém por nós forom juntados. Muito valvera mais, se Deus m’ ampar, que nom fôssemos nados se nos nom désse Deus a que rogar vai por nossos pecados. * * * 72 Cantigas de Santa Maria 31 «Tanto, se Deus me perdom» (E 31, T 31, U 32) Esta é como Santa Maria levou o boi do aldeão de Segóvia, que lh’ havia prometudo e nom lho queria dar. R0 Tanto, se Deus me perdom, som da Virgem conhoçudas sas mercees que quinhom querem end’ as bêstias mudas. 2 4 I 6 8 10 R1 11-14 II 16 18 20 R2 26 28 30 36 38 40 R4 46 48 50 R5 [Refrão = vv. 1-4] E, porque o aldeão | desto muito se temia, ante sa molher estando, | diss’ assi: “– Santa Maria, dar-t’-ei o que trag’, em dom, a vaca, se bem m’ ajudas que de lob’ e de ladrom mi_a guardes; ca defendudas 41-44 V [Refrão = vv. 1-4] E porend’ um aldeão | de Segóvia, que morava na aldea, ũa vaca | perdera que muit’ amava; e em aquela sazom foram i outras perdudas, e de lobos log’ entom comestas ou mal mordudas. 31-34 IV [Refrão = vv. 1-4] Ali vam muitos enfermos, | que recebem sãidade, e ar vam-x’ i muitos sãos, | que dam i sa caridade; e per aquesta razom som as gentes tam movudas que vam i de coraçom ou enviam sas ajudas. 21-24 III R3 Desto mostrou um miragre | a que é chamada «Virga de Jesse», na sa eigreja | que éste em Vila-Sirga, que a preto de Carrom é duas léguas sabudas, u vam fazer oraçom gentes grandes e miúdas. [Refrão = vv. 1-4] som as cousas que tu queres; | e por aquesto te rogo que mi_aquesta vaca guardes”. | E a vaca vo logo sem dan’ e sem ocajom, com sas orelhas merjudas, e fez filho sem lijom com sinaes pareçudas. 51-54 [Refrão = vv. 1-4] 73 VI 56 58 60 R6 61-64 VII 66 68 70 R7 76 78 80 86 88 90 [Refrão = vv. 1-4] Pois foi em Santa Maria, | mostrou-se por bêstia sage: meteu-se na sa eigreja | e parou-s’ ant’ a omage; e, por haver sa raçom, foi u as bêstias metudas eram, que ena maisom foram dadas ou vendudas. 81-84 IX [Refrão = vv. 1-4] Dizend’ esto aa noite, | outro dia o vilão quis ir vendê-lo almalho; | mas el saiu-lhe de mão, e correndo de random foi a jornadas tendudas, come se com aguilhom o levassem de corrudas. 71-74 VIII R8 Pois creceu aquel bezerro | e foi almalh’ arrizado, a sa molher o vilão | diss’: “– Irei crás a mercado; mas este novelo nom irá nas ofereçudas bêstias que ’m ofereçom som aos santos rendudas”. [Refrão = vv. 1-4] E des ali adeante | nom houv’ i boi nem almalho que tam bem tirar podesse | o carr’ e sofrer trabalho, de quantas bêstias i som que ham as unhas fendudas, sem feri-lo de bastom nem d’ aguilhom a ’scodudas. [Refrão = vv. 1-4] R9 91-94 X O lavrador que pos ele | a mui gram pressa vera, poi-lo viu em Vila-Sirga, | houv’ ém maravilha fera; e fez chamar a pregom, 98 e gentes forom vĩúdas, a que das cousas sermom 100 fez que lh’ eram conteçudas. 96 R10 102 104 Tanto, se Deus me perdom, som da Virgem conhoçudas sas mercees que quinhom querem end’ as bêstias mudas. * * * 74 Cantigas de Santa Maria 32 «Quem loar podia» (E 32, T 32, U 34) Esta é como Santa Maria amaçou o bispo que descomungou o crérigo que nom sabia dizer outra missa senom a sua. R0 Quem loar podia, com’ ela querria, a madre de quem o mundo fez, seria de bom sém. 2 4 I 5 7 9 11 Dest’ um gram miragre | vos contarei ora, que santa Maria | fez, que por nós ora, dũu que al, fora a sa missa, ora-çom nunca per rem outra sabia dizer mal nem bem. R1 12-15 II 16 18 20 22 Onde ao bispo | daquele bispado em que el morava | foi end’ acusado; e ant’ el chamado e empreguntado foi se era rem o que oía del. Respôs: “– O bem”. R2 23-26 III 27 29 31 33 34-37 IV 38 42 44 [Refrão = vv. 1-4] Aquela noit’ houve | o bispo veúda a Santa Maria | com cara sanhuda, dizendo-lhe: “– Muda a muit’ atrevuda sentença, ca tem que gram folia fezist’; e porém R4 45-48 V 49 51 [Refrão = vv. 1-4] Poi-lo bispo soube | per el a verdade, mandou-lhe tantoste, | mui sem piedade, que “a vezindade leixas da cidade tost’ e sem desdém”, e que sa via logo se foss’ ém. R3 40 [Refrão = vv. 1-4] [Refrão = vv. 1-4] te dig’ e ti mando | que destas perfias te quites; e, se nom, | d’ hoj’ a trinta dias morte prenderias, e alá irias 75 53 55 u dem’ os seus tem na sa bailia, ond’ home nom vem”. R5 56-59 [Refrão = vv. 1-4] VI 60 62 64 66 R6 68 70 O bispo levou-se | mui de madurgada, e deu ao preste | sa raçom dobrada. “– E missa cantada com’ acostumada hás,” –disse– “mantém da que nos guia, ca assi convém”. Quem loar podia, com’ ela querria, a madre de quem o mundo fez, seria de bom sém. * * * 76 Cantigas de Santa Maria 33 «Gram poder há de mandar» (E 33, T 33, U 35) Esta é como Santa Maria levou em salvo o romeu que caera no mar, e o guiou per so a água ao porto ante que chegass’ o batel. R0 1 3 I Gram poder há de mandar o mar e todo-los ventos a madre daquel que fez | todo-los quatr’ elementos. 4 10 Desto vos quero contar um miragre, que achar houv’ em um livr’, e tirar o fui bem dontre trezentos, que fez a Virgem sem par por nos a todos mostrar que seus som os mandamentos. R1 11-13 [Refrão = vv. 1-3] II 14 20 ũa nav’ ia per mar, cuidand’ em Acre portar; mas tormenta levantar se foi, que os bastimentos da nave houv’ a britar, e começou-s’ afondar com romeus mais d’ oitocentos. R2 21-23 [Refrão = vv. 1-3] III 24 30 Um bispo fora entrar i, que cuidava passar com eles; e, pois torvar o mar viu, seus pensamentos forom dali escapar; e porém se foi cambiar no batel bem com duzentos R3 31-33 [Refrão = vv. 1-3] IV 34 40 homes. E um saltar deles quis e se lançar cuidou no batel; mas dar foi de pees em xermentos que i eram, e tombar no mar foi e mergulhar bem até nos fondamentos. R4 41-43 [Refrão = vv. 1-3] V 44 Os do batel a remar se filharom, sem tardar, per se da nav’ alongar e fugir dos escarmentos de que oíram falar, 6 8 16 18 26 28 36 38 46 48 77 50 dos que querem perfiar sem haver acorrimentos. R5 51-53 [Refrão = vv. 1-3] VI 54 60 E, com coita d’ arribar, sa vea forom alçar, e terra forom filhar com pavor e medorentos; e entom virom estar aquel que perigoar viram enos mudamentos. 61-63 [Refrão = vv. 1-3] 56 58 R6 VII 64 70 Começarom-s’ a sinar, e foro-no preguntar que a verdad’ ensinar lhes fosse sem tardamentos: se guarira per nadar, ou que-no fora tirar do mar e dos seus tormentos. 71-73 [Refrão = vv. 1-3] 66 68 R7 VIII 74 80 E el filhou-s’ a chorar e disse: “– Se Deus m’ ampar, Santa Maria guardar me quis por merecimentos nom meus, mas por vos mostrar que quem per ela fiar, valer-lh’-am seus cousimentos”. R8 81-83 [Refrão = vv. 1-3] IX 84 Quantos eram no logar começaro-na loar e «mercee» lhe chamar, que dos seus ensinamentos os quisess’ acostumar que nom podessem errar nem fezessem falimentos. 76 78 86 88 90 R9 91 93 Gram poder há de mandar o mar e todo-los ventos a madre daquel que fez | todo-los quatr’ elementos. * * * 78 Cantigas de Santa Maria 34 «Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento» (E 34, T 34, U 36) Esta é como Santa Maria filhou dereito do judeu pola desonra que fezera a sua omagem. R0 2 I 4 6 Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento quem contra Santa Maria filha_atrevimento. Porém direi um miragre, que foi gram verdade, que fez em Costantinoble, na rica cidade, a Virgem, madre de Deus, por dar entendimento que quem contra ela vai, palha é contra vento. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II ũa omage pintada na rua siía em távoa, mui bem feita, de Santa Maria (que nom podiam achar, entr’ outras mais de cento, tam fremosa), que furtar foi um judeu a tento 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III de noit’. E, poi-la levou so sa capa furtada, em sa cas’ a foi deitar na cámara privada; des i, assentous-s’ ali e fez gram falimento; mas o demo o matou, e foi a perdimento. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Pois que o judeu assi foi mort’ e cofondudo, e o demo o levou que nunc’ apareçudo foi, um crischão entom com bom ensinamento a omagem foi sacar do logar balorento. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pero que o logar muit’ enatio_estava, a omagem, quant’ em si, mui bõo cheiro dava, que ’spécias d’ Ultramar, bálsamo nem onguento, nom cheiravam atám bem com’ esta que emento. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois que a sacou dali, mantenente lavou-a com água, e log’ entom a sa casa levou-a, e em bom logar a pôs, e fez-lhe comprimento de quant’ houve de fazer por haver salvamento. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois lhe tod’ esto feit’ houve, mui gram demostrança fez i a madre de Deus, que d’ oio semelhança correu daquela omage grand’ avondamento, que ficasse deste feito por renembramento. 40 42 R7 44 Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento quem contra Santa Maria filha atrevemento. * * * 79 Cantigas de Santa Maria 35 «O que a Santa Maria der algo ou prometer» (E 35, T 35, U 92) Esta é como Santa Maria fez queimar a lãa aos mercadores que ofereram algo a sua omagem e lho tomaram depois. R0 2 I 4 6 O que a Santa Maria | der algo ou prometer, dereit’ é que s’ em mal ache | se lho pois quiser tolher. Ca muit’ é home sem siso | quem lhe de dar alg’ é greu, ca o bem que nós havemos, | Deus por ela no-lo deu, e por esto nom lhe damos | rem do nosso, mas do seu; onde quem lho tolher cuida, | gram sobêrvia vai fazer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Desta razom um miragre | direi fremoso, que fez a Virgem Santa Maria, | que é senhor de gram prez, por ũas sas relíquias | que levarom ũa vez ũus crérigos a França, | de que vos quero dizer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Estes forom da cidade | que é chamada Leom do Rodão, u havia | mui grand’ igreja entom, que ardeu tam feramente | que se fez toda carvom; mas nom tangeu nas relicas: | esto devedes creer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca havia i do leite | da Virgem espirital, outrossi dos seus cabelos | envoltos em um cendal, tod’ aquest’ em ũa arca | feita d’ ouro, ca nom dal; estas nom tangeu o fogo, | mai-lo al foi tod’ arder. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Os crérigos, quando virom | que a igreja queimar se fora, como vos digo, | houverom-se d’ acordar que se fossem pelo mundo | co-nas relicas gãar per que sa igreja feita | podess’ aginha seer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Maestre Bernald’ havia | nom’ um que er’ em daiám da igreja, home bõo, | mans’ e de mui bom talám, que, por haver paraíso, | sempre sofria afám; este foi co-nas relicas | po-las fazer conhocer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E andou primeiro França, | segundo com’ aprendi, u fez Deus muitos miragres | per elas; e foi assi que depois a Ingraterra | ar passou e, com’ oí, po-las levar mais em salvo, | foi-as na nave meter 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 80 VIII 46 48 dum mercador que havia | per nome Colistanus, que os levass’ a Bretanha, | a que pobrou rei Brutus; e entrou i tanta gente | que nom cabiam i chus, de mui ricos mercadores | que levavam grand’ haver. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E u já pelo mar iam | todos a mui gram sabor, houverom tam gram bõaça | que nom podiam maior; e, estando em aquesto, | ar houverom gram pavor, ca virom bem seis galeas | leixar-s’ a eles correr, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X de cossários, que faziam | em aquel mar mal assaz. Mas pois o senhor da nave | os viu, disse: “– Nom me praz com estes que aqui vem; | mas paremo-nos em az, e ponhamos as relicas | alt’ u as possam veeer”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Logo que esto foi dito, | maestre Bernalt sacou a arca co-nas relicas; | e, tanto que as mostrou, dos mercadores que iam | ena nav’ um nom ficou que tantoste nom vessem | mui grand’ alg’ i oferer. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Todos entom mui de grado | oferiam i mui bem: os ũus davam i panos, | os outros our’ ou argém, dizendo: “– Senhor, tod’ esto | filha, que nom leixes rem, sol que nos guardes os corpos | de mort’ e de mal prender”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Em tod’ est’, as seis galeas | nom quedavam de vĩir, cada ũa de sa parte, | por ena nave ferir. E o que tĩí’ a arca | das relicas, sem mentir, alçou-a contra o ceo, | pois foi-a alte põer. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV O almiral das galeas | vĩía muit’ ant’ os seus; e o que tĩía_a arca | da Virgem, madre de Deus, lhes diss’ a mui grandes vozes: | “– Falsos, maos e encreus, de Santa Maria somos, | a de que Deus quis nacer; 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV e, porém, mal nom nos faças; | se nom, logo morrerás, e, com quantos tigo trages, | ao inferno irás, e, de quant’ acabar cuidas, | rem ém nom acabarás, ca a nav’ estas relicas | querem de ti defender”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Quant’ o crérigo dizia, | o almiral tev’ em vil, e fez tirar das galeas | saetas mui mais de mil, por matarem os da nave; | mas um vento nom sotil se levantou muit’ aginha, | que as galeas volver 94 96 81 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII fez, que a do almiralho | de fond’ a cima fendeu, e britou logo o maste, | e sobr’ el entom caeu, e deu-lhe tam gram ferida | que os olhos lhe verteu logo fora da cabeça, | e fez-lo no mar caer. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E fez as outras galeas | aquele vento de sur alongar entom tam muito | que as nom virom nenlhur; e apareceu-lhes Dovra, | a que pobrou rei Artur. E entom cuidarom todos | o seu em salvo ter. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX 112 114 E logo aas relicas | correndo mui gram tropel vo desses mercadores, | e cada um seu fardel filhou e quant’ ali dera, | e nom catarom o bel miragre maravilhoso, | per que os fez guarecer R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX a Virgem Santa Maria, | madre do muit’ alto rei, que matou seus emigos, | como vos eu já dit’ hei. E maestre Bernal disse: “– Um preito vosco farei: dar-vos-ei a meadade, | e leixad’ o al jazer”. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Todos responderom logo: | “– Preit’ outr’ i nom haverá que o todo nom tomemos, | mas tornaremos dacá; daquelo que gaanharmos | cada ũu i dará o que vir que é guisado, | como o podér sofrer”. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII Os mais desses mercadores | de Frandes e de Paris eram; e, pois s’ apartarom, | cada ũu deles quis comprar de seu haver lãa, | cuidando seer bem fis que em salvo a sa terra | a poderia trager. 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 E, poi-l’ houverom comprada, | um dia ante da luz moverom do porto Dovra; | mais o que morreu na cruz, querendo vingar sa madre, | fez com’ aquel que aduz gram poder de meter medo | que lh’ hajam de correger 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 o gram torto que fezeram | a sa madr’ emperadriz, a que é senhor do mundo. | E porém, par Sam Fiiz, feriu corisco na nave, | e com’ o escrito diz, queimou tod’ aquela lãa | e nom quis o al tanger. 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] XXV Quand’ este miragre virom, | tornarom mui volonter u leixaram as relicas, | e disserom: “– Pois Deus quer que a sa madre do nosso | demos, quis do que tever 148 82 150 dará i de bõa mente, | e ide-o receber”. R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XXVI 154 156 Disso maestre Bernaldo: | “– Esto mui gram dereit’ é: de vos nembrar das relicas | da Virgem, que com Deus sé, a que fezestes gram torto | guardando mal vossa fé”. E nom quis ém mais do terço, | que fezo logo colher. 158 O que a Santa Maria | der algo ou prometer, dereit’ é que s’ em mal ache | se lho pois quiser tolher. R26 * * * 83 Cantigas de Santa Maria 36 «Muit’ amar devemos em nossas voontades» (E 36, T 36, U 37) Esta é de como Santa Maria apareceu no maste da nave, de noite, que ia a Bretanha, e a guardou que nom perigoasse. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII E desto mostrou a Virgem maravilha quamanha nom pode mostrar outro santo, no mar de Bretanha, u foi livrar ũa nave, u ia gram companha d’ homees por sa prol buscar, no que todos punhades. [Refrão = vv. 1-2] E, u singravam pelo mar, atal foi sa ventura que se levou mui gram tormenta, e a noit’ escura se fez, que rem nom lhes valia siso nem cordura; e todos cuidarom morrer, de certo o sabiades. [Refrão = vv. 1-2] Pois virom o perigo tal, gemendo e chorando os santos todos a rogar se filharom, chamando por seus nomes cada um deles, muito lhes rogando que os vessem acorrer polas sas piedades. [Refrão = vv. 1-2] Quand’ est’ oiu um sant’ abade que na nave ia, disse-lhes: “– Tenho que fazedes ora gram folia, que ides rogar outros santos, e Santa Maria, que nos pode desto livrar, sol no-na ementades”. [Refrão = vv. 1-2] Quand’ aquest’ oírom dizer a aquel sant’ abade, entom todos dum coraçom e dũa voontade chamarom a Virgem santa, madre de piedade, que lhes valvess’ e nom catasse as suas maldades. [Refrão = vv. 1-2] E diziam: “– Senhor, val-nos, ca a nave se sume!” E, dizend’ esto, catarom, com’ er é de costume, contra o masto, e virom em cima mui gram lume, que alumeava mui mais que outras craridades. [Refrão = vv. 1-2] 42 E, pois lhes est’ apareceu, foi o vento quedado, e o ceo virom craro e o mar amansado, e ao porto chegarom cedo, que desejado haviam; e, se lhes prougu’ ém, sol dulta nom prendades. 44 Muit’ amar devemos em nossas voontades a senhor que coitas nos tolh’ e tempestades. 40 R7 Muit’ amar devemos em nossas voontades a senhor que coitas nos tolh’ e tempestades. 84 Cantigas de Santa Maria 37 «Miragres fremosos» (E 37, T 37, U 39) Esta é como Santa Maria fez cobrar seu pee ao home que o talhara com coita de door. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 42 Miragres fremosos faz por nós Santa Maria, e maravilhosos. Fremosos miragres faz, que em Deus creamos, e maravilhosos, porque o mais temamos; porend’ um daquestes é bem que vos digamos, dos mais piadosos. [Refrão = vv. 1-2] Est’ avo na terra que chamam Berria, dum home coitado a que o pé ardia, e na sa eigreja ant’ o altar jazia ent[r]’ outros coitosos. [Refrão = vv. 1-2] Aquel mal do fogo atanto o coitava que, com coita dele, o pé talhar mandava; e depois eno conto dos çopos ficava, desses mais astrosos; [Refrão = vv. 1-2] pero, com tod’ esto, sempr’ ele confiando em Santa Maria, e mercee chamando que dos seus miragres em el fosse mostrando, nom dos vagarosos, [Refrão = vv. 1-2] e dizendo: “– Ai Virgem, tu que és escudo sempre dos coitados, queras que acorrudo seja per ti; se nom, serei hoimais tudo por dos mais nojosos”. [Refrão = vv. 1-2] Logo a Santa Virgem a el em dormindo per aquel pé a mão indo e vĩindo trouxe muitas vezes, e de carne comprindo com dedos nerviosos. [Refrão = vv. 1-2] E, quando s’ espertou, sentiu-se mui bem são, e catou o pé; e, pois foi del bem certão, nom semelhou log’, andando per esse chão, dos mais preguiçosos. 85 R7 43-44 VIII 46 48 R8 50 [Refrão = vv. 1-2] Quantos aquest’ oírom, log’ ali verom e aa Virgem santa graças ende derom, e os seus miragres entr’ os outros teverom por mais groriosos. Miragres fremosos faz por nós Santa Maria, e maravilhosos. * * * 86 Cantigas de Santa Maria 38 «Pois que Deus quis da Virgem filho» (E 38, T 38, U 41) Esta é de como a omagem de Santa Maria tendeu o braço e tomou o de seu filho, que queria caer da pedrada que lhe dera o tafur, de que saiu sangue. R0 2 4 I 6 8 10 12 R1 13-16 II 18 20 22 24 R2 25-28 III 30 32 34 36 R3 37-40 IV 42 44 46 48 R4 49-52 Pois que Deus quis da Virgem filho seer por nós pecadores salvar, porende nom me maravilho se lhe pesa de quem lhe faz pesar. Ca ela e seu filho som juntados d’ amor, que partidos per rem nunca podem seer; e porém som mui nêicios provados os que contra ela vam, nom cuidand’ i El tanger. Esto fazem os malfadados que est’ amor nom querem entender: como madr’ e filh’ acordados som em fazer bem, e mal castigar. [Refrão = vv. 1-2] Daquest’ avo, tempos som passados grandes, que o conde de Peiteus quis batalh’ haver com rei de Franç’; e forom assũados em Castro Radolfo, per com’ eu oí retraer, um mõesteiro d’ ordinhados monges que ’l-conde mandou desfazer, porque os houv’ el sospeitados que a franceses o queriam dar. [Refrão = vv. 1-2] Poi-los monges forom ende tirados, mui maas companhas se forom tantost’ i meter: ribaldos e jogadores de dados e outros que lhes tragiam i vinho a vender; e, ontr’ os malaventurados, houv’ i um que começou a perder, per que forom del dostados os santos e a reinha sem par. [Refrão = vv. 1-2] Mas ũa molher, que por seus pecados entrara na eigreja, como sol acaecer, bem u soíam vesti-los sagrados panos os monges quando iam sas missas dizer, porque viu i bem entalhados em pedra Deus com sa madre seer, os golhos logo ficados houv’ ant’ eles, e filhou-s’ a culpar. [Refrão = vv. 1-2] 87 V 54 56 58 60 R5 61-64 VI 66 68 70 72 R6 73-76 VII 78 80 82 84 R7 85-88 VIII 90 92 94 96 R8 97-100 IX 102 104 106 108 R9 109-112 X 114 116 O tafur, quand’ esto viu, com irados olhos a catou, e começou-a mal a trager dizendo: “– Velha, som muit’ enganados os que nas omages de pedra querem creer; e, porque vejas com’ errados som, quer’ eu ora logo cometer aqueles ídolos pintados”. E foi-lhes log’ ũa pedra lançar; [Refrão = vv. 1-2] e deu no filho, que ambos alçados tĩía seus braços em maneira de beizer; e, macar nom lhos houv’ ambos britados, britou-lh’ end’ um, assi que lh’ houvera log’ a caer; mas sa madre os seus deitados houve sobr’ El, com que lho foi erger, e a fror que com apertados seus dedos tinha foi logo deitar. [Refrão = vv. 1-2] Maiores miragres houv’ i mostrados Deus: que sángui craro fez dessa ferida correr do meninho, e os panos dourados que tĩía a madre, fez bem so as tetas decer, assi que todos desnuados os peitos lh’ houverom de parecer; e, macar nom dava braados, o contenente parou de chorar. [Refrão = vv. 1-2] E, demais, houve os olhos tornados tam bravos que quantos a soíam ante veer, atám muit’ eram dela espantados que sol ena face nom lh’ ousavam mentes ter. E demões log’ assembrados contra o que esto fora fazer, come monteiros bem mandados o forom logo tantoste matar. [Refrão = vv. 1-2] Outros dous tafures demoniados houv’ i, porque foram aquel tafur mort’ asconder; porém sas carnes os endiabrados com gram rávia as começarom todas de roer; e pois no rio afogados forom, ca o demo nom lhes lezer deu, que todos escarmentados fossem quantos dest’ oíssem falar. [Refrão = vv. 1-2] O conde, quando’ est’ oiu, com armados cavaleiros vo, e ant’ a eigreja decer foi; e um daqueles mais arrufados diss’ assi: “– No meu coraçom nom pod’ esto caber, se a pedra que me furados 88 118 120 R10 121-124 XI 126 128 130 132 R11 134 136 os queixos houv’, e mi_a vedes trager, e por que dinheiros pagados hôuvi muitos, se me nom quer sãar”. [Refrão = vv. 1-2] Pois esto disse, pernas e costados e a cabeça foi log’ ant’ a omagem merger, e log’ os ossos forom bem soldados, e a pedra houv’ ele pela boca de render. Desto forom maravilhados todos, e el foi a pedra põer, estand’ i homees honrados, ant’ a omagem sobe-lo altar. Pois que Deus quis da Virgem filho seer por nós pecadores salvar, porende nom me maravilho se lhe pesa de quem lhe faz pesar. * * * 89 Cantigas de Santa Maria 39 «Torto seria grand’ e desmesura» (E 39, T 39, U 43) Esta é como Santa Maria guardou a sa omagem, que a nom queimass’ o fogo. R0 2 I 4 6 Torto seria grand’ e desmesura de prender mal da Virgem sa figura. Ond’ avo em Sam Miguel de Tomba, no mõesteiro (que jaz sobre lomba dũa gram pena que jaquant’ é comba), em que corisco feriu noit’ escura. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Toda a noite ardeu a perfia ali o fog’, e queimou quant’ havia na eigreja, mas nom foi u siía a omagem da que foi Virgem pura. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, comoquer que o fogo queimasse enredor da omagem quant’ achasse, Santa Maria nom quis que chegasse o fum’ a ela, ne-na caentura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Assi guardou a reinha do ceo a sa omagem que nem sol o veo tangeu o fogo, come o hebre’ o guardou no forno com sa vestidura. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Assi lhe foi o fog’ obediente a Santa Maria que sol niente nom tangeu sa omagem veramente, ca de seu filh’ el era creatura. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Daquesto forom mui maravilhados quantos das terras i forom juntados, que solament’ os fios defumados nom virom do veo, ne-na pintura 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 da omagem nem ar foi afumada, ante semelhava que mui lavada fora bem toda com água rosada: assi cheirava com sa cobertura. 44 Torto seria grand’ e desmesura de prender mal da Virgem sa figura. 40 R7 * * * 90 Cantigas de Santa Maria 40 «Deus te salve, groriosa» (E 40, U 30, Be 467) Esta é de loor de Santa Maria, das maravilhas que Deus fez por ela. R0 2 4 I 6 8 10 12 R1 14 16 II 18 20 22 24 R2 26 28 III 30 32 34 36 R3 38 40 IV 42 Deus te salve, groriosa reinha Maria, lume dos santos fremosa e dos ceos via. Salve-te, que concebiste mui contra natura, e, pois, teu padre pariste e ficaste pura virgem, e porém sobiste sobe-la altura dos ceos, porque quisiste o que El queria. Deus te salve, groriosa reinha Maria, lume dos santos fremosa e dos ceos via. Salve-te, que enchoíste Deus gram sem mesura em ti, e dele feziste hom’ e creatura: esto foi porque houviste gram sém e cordura em creer quando oíste sa messageria. Deus te salve, groriosa reinha Maria, lume dos santos fremosa e dos ceos via. Salve-te Deus, ca nos diste em nossa figura o seu Filho, que trouxiste, de gram fremosura, e com El nos remiíste da mui gram loucura que fez Eva, e venciste o que nos vencia. Deus te salve, groriosa reinha Maria, lume dos santos fremosa e dos ceos via. Salve-te Deus, ca tolhiste de nós gram tristura u por teu filho frangiste 91 44 46 48 R4 50 52 a cárcer escura u íamos, e metiste nós em gram folgura; com quanto bem nos vĩíste, que-no contaria? Deus te salve, groriosa reinha Maria, lume dos santos fremosa e dos ceos via. * * * 92 Cantigas de Santa Maria 41 «A Virgem, madre de Nostro Senhor» (E 41, T 41, U 44) Esta é como Santa Maria guareceu o que era sandeu. R0 2 4 I R 6 R 8 10 12 A Virgem, madre de Nostro Senhor, bem pode dar seu siso ao sandeu, pois ao pecador faz haver paraíso. Em Seixons fez a Garim, cambiador, a Virgem, madre de Nostro Senhor, que tant’ houve de o tirar sabor a Virgem, madre de Nostro Senhor, do poder do demo, ca de pavor del perdera o siso; mas ela tolheu-lh’ aquesta door e deu-lhe paraíso. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II R 18 R 20 22 24 Gram bem lhe fez em est’ e grand’ amor a Virgem, madre de Nostro Senhor, que o livrou do dem’ enganador, a Virgem, madre de Nostro Senhor, que o filhara come traedor e tolhera-lh’ o siso; mas cobrou-lho ela, e por melhor ar deu-lhe paraíso. R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III R 30 R 32 34 36 R3 38 40 Loada será mentr’ o mundo for a Virgem, madre de Nostro Senhor, de poder, de bondad’ e de valor, a Virgem, madre de Nostro Senhor, porque a sa mercee_é mui maior ca o nosso mal siso, e sempre a seu filh’ é rogador que nos dé paraíso. A Virgem, madre de Nostro Senhor, bem pode dar seu siso ao sandeu, pois ao pecador faz haver paraíso. * * * 93 Cantigas de Santa Maria 42 «A Virgem mui groriosa» (E 42, T 42, U 57) Esta é de como o crerizom meteu o anel eno dedo da omagem de Santa Maria, e a omagem encolheu o dedo com el. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII A Virgem mui groriosa, reinha espirital, dos que ama é ceosa, ca nom quer que façam mal. Dest’ um miragre fremoso | (ond’ haveredes sabor) vos direi, que fez a Virgem, | madre de Nostro Senhor, per que tirou de gram falha | a um mui fals’ amador, que amiúde cambiava | seus amores dum em al. [Refrão = vv. 1-4] Foi em terra d’ Alemanha | que queriam renovar ũas gentes sa eigreja, | e porém foram tirar a majestad’ ende fora, | que estava no altar, e posero-na na porta | da praça, so o portal. [Refrão = vv. 1-4] Em aquela praç’ havia | um prado mui verd’ assaz, em que as gentes da terra | iam ter seu solaz e jogavam a pelota, | que é jogo de que praz muit’ a homes mancebos | mais que outro jog’ atal. [Refrão = vv. 1-4] Sobr’ aquest’ ũa vegada | chegou i um gram tropel de mancebos por jogarem | a pelot’, e um donzel andava i namorado, | e tragia seu anel que sa amiga lhe dera, | que end’ era natural. [Refrão = vv. 1-4] Este donzel, com gram medo | de xe lh’ o anel torcer quando feriss’ a pelota, | foi buscar u o põer podess’; e viu a omage | tam fremosa parecer, e foi-lho meter no dedo, | dizend’: “– Hoimais nom m’ enchal [Refrão = vv. 1-4] daquela que eu amava, | ca eu be-no jur’ a Deus que nunca tam bela cousa | virom estes olhos meus; porém daqui adeante | serei eu dos servos teus, e est’ anel tam fremoso | ti dou porend’ em sinal”. [Refrão = vv. 1-4] E, os golhos ficados | ant’ ela com devoçom, 94 54 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 dizendo avemaria, | prometeu-lhe log’ entom que des ali adelante | nunca no seu coraçom outra molher bem quisesse | e que lhe fosse leal. [Refrão = vv. 1-4] Pois feit’ houve sa promessa, | o donzel logo s’ ergeu, e a omagem o dedo | co-no anel encolheu; e el, quando viu aquesto, | tam gram pavor lhe creceu que diss’ a mui grandes vozes: | “– Ai Santa Maria, val!” [Refrão = vv. 1-4] As gentes, quand’ est’ oírom, | correndo chegarom i u o donzel braadava, | e el contou-lhes des i como vos já dit’ havemos; | e conselharom-lh’ assi: que ordem logo filhasse | de monges de Claraval. [Refrão = vv. 1-4] Que o fezesse cuidarom | logo todos dessa vez; mas, per conselho do demo, | ele doutra guisa fez, que o que el prometera | aa Virgem de gram prez, assi lho desfez da mente | como desfaz água sal. [Refrão = vv. 1-4] E da Virgem groriosa | nunca depois se nembrou, mas da amiga primeira | outra vez se namorou, e per prazer dos parentes | logo com ela casou, e sabor do outro mundo | leixou polo terral. [Refrão = vv. 1-4] Poi-las vodas forom feitas | deitou-s’ o nóvio primeiro | e el, dormindo, em sonhos | que o chamou mui sanhuda: e o dia se saiu, e tantoste s’ adormiu; a Santa Maria viu, | “– Ai meu fals’ e mentiral!, [Refrão = vv. 1-4] de mi porque te partiste | e fuste filhar molher?: mal te nembrou a sortelha | que me dést’; ond’ há mester que a leixes e te vaas | comigo a comoquer, se nom, daqui adeante | haverás coita mortal”. [Refrão = vv. 1-4] Logo s’ espertou o nóvio, | mas pero nom se quis ir; e a Virgem groriosa | fez-lo outra vez dormir, que viu jazer ontr’ a nóvia | e si pera os partir, chamand’ a el mui sanhuda: | “– Mao, falso, desleal, [Refrão = vv. 1-4] vês?: e por que me leixaste | e sol vergonha nom hás?; mas se tu meu amor queres, | daqui te levantarás, e vai-te comigo logo, | que nom esperes a crás; erge-te daqui correndo | e sal desta casa, sal!” [Refrão = vv. 1-4] 95 XVI 126 128 R16 129-132 XVII 134 136 R17 138 140 Entom s’ espertou o nóvio, | e desto tal medo prês que s’ ergeu e foi sa via, | que nom chamou dous nem três homes que com el fossem; | e per montes mais dum mês andou, e em ũ’ ermida | se meteu cab’ um pinhal, [Refrão = vv. 1-4] u pois em toda sa vida, | per com’ eu escrit’ achei, serviu a Santa Maria, | madre do muit’ alto rei, que o levou pois consigo | per com’ eu creo e sei, deste mund’ a paraíso, | o reino celestial. A Virgem mui groriosa, reinha espirital, dos que ama é ceosa, ca nom quer que façam mal. * * * 96 Cantigas de Santa Maria 43 «Porque é Santa Maria leal e mui verdadeira» (E 43, T 43, U 56) Esta é como Santa Maria ressucitou um meninho na sa eigreja de Salas. R0 2 I 4 6 Porque é Santa Maria | leal e mui verdadeira, porém muito lh’ avorrece | da paravla mentireira. E porend’ um home bõo | que em Darouca morava, de sa molher, que havia | bõa e que muit’ amava, nom podia haver filhos, | e porende se queixava muit’ end’ el; mas disse-lh’ ela: | “– Eu vos porrei em carreira R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II com’ hajamos algum filho, | ca, se nom, eu morreria; porém dou-vos por conselho | que log’ a Santa Maria de Salas ambos vaamos, | ca quem se em ela fia, o que pedir dar-lh’-á logo, | aquest’ é cousa certeira”. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Muit’ ém proug’ ao marido, | e tantoste se guisarom de fazer sa romaria, | e em seu caminh’ entrarom. E, pois forom na eigreja, | Santa Maria rogarom que podessem haver filho | ontr’ el e sa companheira. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E a molher fez promessa | que, se ela filh’ houvesse, que com seu peso de cera | a um ano lho trouxesse, e por seu servidor sempre | na sa eigreja o désse; e que aquesto comprisse | entrou-lh’ ende por maneira. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois aquesto dit’ houve, | ambos fezerom tornada a Darouca, u moravam; | mas nom houv’ i gram tardada que log’ a poucos de dias | ela se sentiu prenhada, e a seu temp’ houve filho | fremoso de gram maneira. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Des que lhe naceu o filho, | em logar que adianos déss’ end’ a Santa Maria | teve-o grandes set’ anos que lhe nom vo emente | nem da cera nem dos panos com que o levar devera, | e cuidou seer arteira. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ca u quis tê-lo filho | e a cera que tĩinha, deu féver ao meninho | e mato’-o muit’ aginha, que lhe nunca prestar pôde | física nem meezinha; mas gram chanto fê-la madre | pois se viu dele senlheira. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 97 VIII 46 48 Que o soterrassem logo | o marido bem quisera; ma-la madre do meninho | disse com gram coita fera que el’ a Santa Maria | o daria, que lho dera, com sa cera como lh’ ela | prometera da primeira. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E logo em outro dia | entrarom em seu caminho, e a madr’ em ataúde | levou sig’ aquel meninho; e forom em quatro dias, | e ant’ o altar festinho o pôs, fazendo gram chanto, | depenando sa moleira 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e dizend’ a grandes vozes: | “– A ti venho, groriosa, com meu filh’ e co-na cera, | de que te fui mentirosa em cho dar quand’ era vivo; | mas, porque és piadosa, o adug’ ante ti morto, | e dous dias há que cheira; 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI mas se mi_o tu dar quisesses | (nom porque seja dereito mas porque sabes mià coita) | e nom catasses despeito de como fui mentirosa, | mas quisesses meu proveito e nom quisesses que fosse | nojosa e mui parleira!”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Toda a noit’ a mesquinha | estev’ assi braadando ant’ o altar em golhos, | Santa Maria chamando que s’ amercasse dela | e seu filho lh’ enmentando, a quem polas nossas coitas | roga sempr’ e é vozeira. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Mas, que fez Santa Maria, | a senhor de gram vertude, que dá aos mortos vida | e a enfermos saúde? Logo fez que o meninho | chorou eno ataúde, u jazia muit’ envolto | em panos dũa liteira. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Quando o padr’ e a madre, | que faziam muit’ esquivo doo por seu filho, virom | que o meninh’ era vivo, britarom o ataúde | u jazia o cativo. Entom vo i mais gente | que nom vem a ũa feira, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 por veer o gram miragre | que a Virgem demostrara: de como aquel meninho | de morte ressucitara, que, a cabo de seis dias, | jazendo morto, chorara por prazer da groriosa, | santa e dereitureira. 92 Porque é Santa Maria | leal e mui verdadeira, porém muito lh’ avorrece | da paravla mentireira. 88 R15 * * * 98 Cantigas de Santa Maria 44 «Quem fiar na madre do salvador» (E 44, T 44, U 58) Esta é de como o cavaleiro que perdera seu açor, foi-o pedir a Santa Maria de Salas, e, estando na eigreja, po[u]sou-lhe na mão. R0 2 I 4 6 R1 Quem fiar na madre do salvador nom perderá rem de quanto seu for. Quem fiar em ela de coraçom, averrá-lhe com’ a um ifançom avo eno reino d’ Aragom, que perdeu a caça um seu açor, 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 que grand’ e mui fremos’ era, e rem nom achava que nom filhasse bem de qual prijom açor filhar convém, d’ ave pequena tro ena maior. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E daquest’ o ifançom gram pesar havia de que o nom pôd’ achar, e porende o fez apregõar pela terra toda em derredor. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E, pois que por esto no-no achou, pera Salas seu caminho filhou, e de cera semelhança levou de sa av’, e diss’ assi: “– Ai senhor R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Santa Maria, eu venho a ti com coita de meu açor que perdi, que mi_o cobres; e tu fá-lo assi, e haver-m’-ás sempre por servidor. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E, demais, esta cera ti darei em sa figura, e sempr’ andarei pregõando teu nome e direi como dos santos tu é-la melhor”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Pois esto disse, missa foi oir mui cantada; mas ante que partir s’ ém quisesse, fez-lh’ o açor vĩir 99 42 Santa Maria, ond’ houv’ el sabor. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 E, que houvess’ end’ el maior prazer, fez-lh’ o açor ena mão decer, come se houvesse log’ a prender caça com el como faz caçador. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E el entom muit’ a madre de Deus loou, e chorando dos olhos seus, dizend’: “– Ai senhor, tantos som os teus bes que fazes a quem hás amor!” 56 Quem fiar na madre do salvador nom perderá rem de quanto seu for. 52 R9 * * * 100 Cantigas de Santa Maria 45 «A Virgem Santa Maria tant’ é de gram piedade» (E 45, T 45, U 83) Esta é como Santa Maria gãou de seu filho que fosse salvo o cavaleiro malfeitor que cuidou de fazer um mõesteiro e morreu ante que o fezesse. R0 2 I 4 6 A Virgem Santa Maria | tant’ é de gram piedade que ao pecador colhe | por feito a voontade. E desta guisa avo | pouc’ há a um cavaleiro fidalg’ e rico sobejo, | mas era brav’ e terreiro, sobervios’ e malcreente, | que sol por Deus um dinheiro nom dava, nem polos santos, | esto sabed’ em verdade. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aqueste, de fazer dano, | sempre s’ ende trabalhava, e a todos seus vezinhos | feria e dostava; sem esto, os mõesteiros | e as igrejas britava, que vergonha nom havia | do prior nem do abade. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E todo seu cuidad’ era | de destroí-los mesquinhos e de roubar os que iam | seguros pelos caminhos, e per rem nom perdõav’ a | molheres nem a meninhos, que s’ em todo nom metesse | por de mui gram crueldade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, esta vida fazendo, | tam brava e tam esquiva, um dia meteu bem mentes | como sa alma cativa era cha de pecados | e mui mais morta ca viva, se mercee nom lh’ houvesse | a comprida de bondade. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, porque sempre os bõos | lhe davam mui gram fazfeiro do muito mal que fazia, | pensou que um mõesteiro faria com bõa claustra, | igreja e cimiteiro, estar e enfermaria, | e todo em sa herdade. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, des i, ar cuidou logo | de meter i gram convento de monges, se el podesse, | ou cinquaenta ou cento; e per que mui bem vivessem | lhes daria comprimento, e que, por Santa Maria | servir, seria i frade. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Tod’ aquesto foi cuidando | mentre siía comendo; e, pois lh’ alçarom a mesa, | foi catar logo correndo logar em que o fezesse, | e acho’-o, com’ aprendo, 40 101 42 muit’ apost’ e mui viçoso, | u compriss’ a caridade. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Em este cuidad’ estando, | muit’ aficad’ e mui forte, ante que o começasse, | door o chegou a morte; e os demões a alma | filharom del em sa sorte; mai-los ángeos chegarom | dizendo: “– Estad’, estade!; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca nom quer Santa Maria | que a vós assi levedes”. E disserom os diabos: | “– Mas vós, que razom havedes d’ havê-la?: ca sempr’ est’ home | fezo mal, como sabedes, por que est’ alma é nossa, | e alhur outra buscade”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Os ángeos responderom: | “– Mas vós folia fezestes em filhardes aquest’ alma: | mao conselh’ i houvestes, e mui mal vos acharedes | de quanto a já tevestes; mas tornad’ a vosso fogo, | e nossa alma leixade”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Os diabos ar disserom: | ca Deus é mui justiceiro, que esta alma fez obras | toda bem enteiramente, | 64 66 “– Esto per rem nom faremos, | e por esto bem sabemos por que a haver devemos sem terç’ e sem meadade”. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E um dos ángeos disse: | “– O que vos dig’ entendede: eu sobirei ao ceo, | e vós aqui mi_atendede, e o que Deus mandar desto, | vós entom esso fazede; e hoimais nom vos movades | nem faledes, mais calade”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Depos aquestas palavras | o ángeo logo s’ ia e contou aqueste feito | mui tost’ a Santa Maria; ela log’ a Jesu-Cristo | aquela alma pidia, dizend’: “– Ai meu filho santo, | aquesta alma me dade”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E ele lhe respondia: | “– Mià madr’, o que vós quiserdes hei eu de fazer sem falha, | pois vós ém sabor houverdes; mais torn’ a alma no corpo, | se o vós por bem teverdes, e faça o mõesteiro, | u viva em homildade”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E, pois Deus est’ houve dito, | um pano branco tomava, feito bem come cogula, | que ao ángeo dava, e sobe-la alma logo | o pano deitar mandava, porque a leixass’ o demo, | comprido de falsidade. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Tornou-s’ o ángeo logo; | e atantoste que virom os diabos a cogula, | todos ant’ ela fugirom; 94 102 96 e os ángeos correndo | pos eles mal os ferirom, dizendo: “– Assi perdestes | o ceo per neicidade”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Pois que s’ assi os diabos | forom dali escarnidos e maltreitos feramente, | dostados e feridos, forom pera seu iferno, | dando grandes apelidos, dizendo aos diabos: | “– Varões, oviad’, oviade”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 108 Os ángeos depos esto | aquela alma filharom, e cantando «Surgat Deus» | eno corpo a tornarom daquel cavaleiro morto, | e vivo o levantarom; e fezo seu mõesteiro, | u viveu em castidade. 110 A Virgem Santa Maria | tant’ é de gram piadade que ao pecador colhe | por feito a voontade. R18 * * * 103 Cantigas de Santa Maria 46 «Porque hajam de seer» (E 46, T 46, U 59) Esta é como a omagem de Santa Maria, que um mouro guardava em sa casa honradamente, deitou leite das tetas. R0 2 4 I 6 8 10 12 Porque hajam de seer seus miragres mais sabudos da Virgem, deles fazer vai ant’ homes descreúdos. E dest’ avo assi como vos quero contar dum mouro, com’ aprendi, que com host’ em Ultramar grande foi, segund’ oí, por crischãos guerrejar e roubar, que nom eram percebudos. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II Aquel mouro astragou as terras u pôd’ entrar, e, todo quanto ro[u]bou, feze-o sigo levar; e mui ledo se tornou a sa terra, e juntar foi e dar os roubos que houv’ havudos. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III Daquel haver que partiu foi ém pera si filhar ũa omagem que viu da Virgem, que nom há par; e, poi-la muito cousiu, feze-a logo alçar e guardar em panos d’ ouro teçudos. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV E ameúde veer a ia muit’ e catar; pois, filhava-s’ a dizer ontre si e rezõar que nom podia creer que Deus quisess’ encarnar nem tomar carn’ em molher. “– E perdudos 42 44 46 48 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] 104 V 54 56 58 60 som quanto-lo creer vam” –diss’ el–, “ca nom poss’ osmar que quisesse tal afám prender Deus nem s’ abaixar, que El, que éste tam gram, se foss’ em corp’ enserrar nem andar ontre póboos miúdos, R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI como dizem que andou pera o mundo salvar; mas, se de quant’ El mostrou foss’ a mi quequer mostrar, faria-me logo sou crischão, sem detardar, e crismar com estes mouros barvudos”. 66 68 70 72 R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII Adur pôd’ esta razom toda o mour’ encimar, quand’ à omagem entom viu duas tetas a par, de viva carn’ e dal nom, que forom logo mãar e deitar leite come per canudos. 78 80 82 84 R7 85-88 [Refrão = vv. 1-4] VIII Quand’ esto viu, sem mentir, começou muit’ a chorar, e um crérigo vĩir fez, que o foi batiçar; e, pois desto, sem falir, os seus, crischãos tornar fez, e ar outros bes conhoçudos. 90 92 94 96 R8 98 100 Porque hajam de seer seus miragres mais sabudos da Virgem, deles fazer vai ant’ homes descreúdos. * * * 105 Cantigas de Santa Maria 47 «Virgem Santa Maria» (E 47, T 47, U 61) Esta é como Santa Maria guardou o monge que o demo quis espantar po-lo fazer perder. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Virgem Santa Maria, guarda-nos, se te praz, da gram sabedoria que eno demo jaz. Ca ele noit’ e dia | punha de nos meter per que façamos erro | por que a Deus perder hajamo-, lo teu filho | (que quis por nós sofrer na cruz paxom e morte, | que houvéssemos paz). [Refrão = vv. 1-4] E desto, meus amigos, | vos quer’ ora contar um miragre fremoso, | de que fiz meu cantar, como Santa Maria | foi um monge guardar da tentaçom do demo | (a que do bem despraz). [Refrão = vv. 1-4] Este mong’ ordinhado | era, segund’ oí, muit’, e mui bem sa ordem | tinha, com’ aprendi; mas o demo arteiro | o contorvou assi que o fez na adega | bever do vinh’ assaz. [Refrão = vv. 1-4] Pero bêved’ estava | muit’, o monge quis-s’ ir dereit’ aa eigreja; | mas o dem’ assair em figura de touro | o foi, po-lo ferir com seus cornos merjudos, | bem como touro faz. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ esto viu o monge, | feramém s’ espantou, e a Santa Maria | mui de rijo chamou, que lh’ apareceu log’ e | o tour’ amaçou, dizendo: “– Vai ta via!: | muit’ és de mal solaz”. [Refrão = vv. 1-4] Pois, em figura d’ home | pareceu-lh’ outra vez, long’ e magr’ e veloso | e negro come pez; mas acorreu-lhe logo | a Virgem de bom prez, dizendo: “– Fuge, mao, | mui peor que rapaz!”. [Refrão = vv. 1-4] Pois entrou na eigreja, | ar pareceu-lh’ entom o demo em figura | de mui bravo leom; 106 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 66 68 mas a Virgem mui santa | deu-lhe com um bastom, dizendo: “– Tol-t’, astroso, | e logo te desfaz”. [Refrão = vv. 1-4] Pois que Santa Maria | o seu mong’ acorreu como vos hei já dito, | e lh’ o medo tolheu do demo e do vinho, | com que era sandeu, disse-lh’: “– Hoimais te guarda | e nom sejas malvaz”. Virgem Santa Maria, guarda-nos, se te praz, da gram sabedoria que eno demo jaz. * * * 107 Cantigas de Santa Maria 48 «Tanto som da groriosa seus feitos mui piadosos» (E 48, T 48, U 62) Esta é como Santa Maria tolheu a água da fonte ao cavaleiro em cuja herdade estava, e a deu aos frades de Monsarrat, a que a el queria vender. R0 2 I 4 6 Tanto som da groriosa | seus feitos mui piadosos que filh’ aos que ham muito | e dá aos menguadosos. E daquest’ um gram miragre | fez pouc’ há em Catalonha a Virgem Santa Maria | (que com Jesu-Cristo ponha que no dia do joízo | possamos ir sem vergonha ant’ El, e que nom vaamos | u irám os soberviosos). R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II «Monsarrat» éste chamado | o logar u é a fonte saborosa, grand’ e crara, | que nac’ encima dum monte, que era dum cavaleiro; | e doutra parte, de fronte, havia um mõesteiro | de monges religiosos. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Mas em aquel mõesteiro | ponto d’ água nom havia senom quant’ o cavaleiro | da fonte lhes dar queria, por que os monges lhe davam | sa renda da abadia; e, quando lha nom compriam, | eram dela perdidosos. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E, demais, sobre tod’ esto, | el assi os penhorava que, quantoquer que achasse | do mõesteiro, filhava; e porend’ aquel convento | em tam gram coita estava que nom cantavam as horas | e andavam mui chorosos. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Os monges, porque sentiam | a sa casa mui menguada, entre si acord’ houverom | de lhe nom darem ém nada, ca tĩíam por sobêrvia | de bever água comprada; porém todos na eigreja | entrarom muit’ homildosos, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 dizend’: “– Ai Santa Maria, | a nossa coita veede, e com Deus, o vosso filho, | que todo pode, põede que nos dé algum conselho, | que nom moiramos de sede, veend’ água co-nos olhos | e seer ém desejosos”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Pois sa oraçom fezerom, | a senhor de piadade fez que se cambiou a fonte | bem dentro na sa herdade dos monges, que ant’ haviam | da água gram soidade, e des ali adeante | forom dela avondosos. 108 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Pois que viu o cavaleiro por prazer da groriosa, | deu a herdad’ u estava | a águ’, àquele convento, 50 Tanto som da groriosa | seus feitos mui piadosos que filh’ aos que ham muito | e dá aos menguadosos. 46 R8 | que sa font’ assi perdera que lha aposto tolhera, a fonte ond’ el vendera | onde pois forom viçosos. * * * 109 Cantigas de Santa Maria 49 «Bem com’ aos que vam per mar» (E 49, T 49, U 63) Esta é de como Santa Maria guiou os romeus que iam a sa eigreja a Seixom e erraram o caminho de noite. R0 2 4 I 6 8 10 12 Bem com’ aos que vam per mar a estrela guia, outrossi aos seus guiar vai Santa Maria. Ca ela nos vai demostrar de como nos guardemos do demo e de mal obrar, e em como gãemos o seu reino, que nom há par, que nós já perdemos per don’ Eva, que foi errar per sa gram folia. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II 18 20 22 24 E ar acorre-nos aqui enas mui grandes coitas, segund’ eu sei bem e oí, quaes havemos doitas; ca muitos homes eu vi e molheres moitas a que el’ acorreu assi de noit’ e de dia. R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III 30 32 34 36 E, segund’ eu oí dizer, ũa mui gram companha de romeus ar foi guarecer em ũa gram montanha, em que s’ houveram de perder com coita estranha, porque lhes foi escurecer e perderom via. R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV 42 44 46 48 E, sem aquest’, um med’ atal enos seus corações haviam mui fero mortal: ca andavam ladrões per i fazendo muito mal; porend’ orações fezerom todos i, sem al, quis como sabia, R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] 110 V 54 56 58 60 e chamand’ a madre de Deus, com’ é nosso costume, que dos graves pecados seus perdess’ ela queixume; e logo aqueles romeus virom mui gram lume e disserom: “– Ai senhor, teus somos todavia”. R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI 66 68 70 72 E em aquel gram lum’ entom virom ũa mui bela molher, de corp’ e de faiçom, e bem come donzela lhes pareceu; e, pero nom siía em sela, mas tinha na mã’ um bastom que resprandecia. R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII 78 80 82 84 R7 86 88 E, poi-la donzela chegou, todas essas montanhas do seu gram lum’ alumou, e logo as companhas dereito a Seixom levou e per muit’ estranhas terras em salvo os guiou como quem podia. Bem com’ aos que vam per mar a estrela guia, outrossi aos seus guiar vai Santa Maria. * * * 111 Cantigas de Santa Maria 50 «Nom deve nulh’ home desto per rem dultar» (E 50, T 50, U 60) Esta é de loor de Santa Maria, que mostra por que razom encarno[u] Nostro Senhor em ela. R0 2 I Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 6 E dultar nom deve por quanto vos direi: porque, se nom foss’ esto, nom víramos rei que corpos e almas nos julgass’, eu o sei, como Jesu-Cristo nos verrá joigar. 8 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 4 R1 II 12 Nem doutra maneira nós nom víramos Deus, nem amor com doo nunca dos feitos seus houvéramos se El nom foss’, amigos meus, tal que nossos olhos o podessem catar. 14 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 10 R2 III 18 Ca Deus em si mesmo Ele míngua nom há, nem fame nem sede nem frio nunca já, nem door nem coita; pois quem se doerá del, nem piadade haverá nem pesar? 20 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 16 R3 IV 24 E porém dos ceos quis em terra decer, sem seer partido nem menguar seu poder; e quis ena Virgem por nós carne prender, e leixou-s’ em cima, demais, por nós matar. 26 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 22 R4 V 30 Onde come a Deus lhe devemos amor, e come a padre e nosso criador, e, come a home, del coita e door havermos de quanto quis por nós endurar. 32 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 28 R5 VI 36 E a Santa Virgem, em que s’ El enserrou, de que prendeu carne e por madre filhou, muit’ amar devemos, ca per ela mostrou todas estas cousas que vos fui já contar. 38 Nom deve nulh’ home desto per rem dultar: que Deus ena Virgem vo carne filhar. 34 R6 * * * 112 Cantigas de Santa Maria 51 «A madre de Deus / devemos teer mui cara» (E 51, T 51, U 64) Esta é como a omagem de Santa Maria alçou o golho e recebeu o colbe da saeta por guardar o que estava pos ela. R0 2 4 I 6 8 10 R1 11-14 II 16 18 20 R2 21-24 III 26 28 30 R3 31-34 IV 36 38 40 R4 41-44 V 46 48 50 A madre de Deus devemos ter mui cara, porque aos seus sempre mui bem os ampara. E desto vos contar quero | ũa mui gram demostrança que mostrou Santa Maria | em terra d’ Orléns, em França, al-com de Peiteus, que um castelo cercara e come judeus a gent’ ém filhar cuidara. [Refrão = vv. 1-4] Este castel’ aquel conde | por al filhar nom queria senom pola gram requeza | que eno logar havia; porém gram poder de gent’ ali assũara com que combater o fez, e que o tomara [Refrão = vv. 1-4] se nom foss’ os do castelo | que, pois se virom coitados, que filharom a omagem, | por seer mais amparados, da Virgem entom, Santa Maria, que pára mentes e que nom os seus nunca desampara. [Refrão = vv. 1-4] E logo sobe-la porta | do castelo a poserom e, aorando-a, muito | chorand’ assi lhe disserom: “– Madre do senhor do mund’, estrela mui crara, sei defendedor de nós, tu, altar e ara [Refrão = vv. 1-4] em que o corpo de Cristo | foi feito e consagrado; e porende te rogamos | que daqueste cond’ irado nos queras guardar, e sei nossa acitara, ca nos quer britar com seus engenhos que pára”. 113 [Refrão = vv. 1-4] R5 51-54 VI 56 58 60 Mantenente, dos de fora | vo log’ um baesteiro, e diss’ a outro da vila, | que poseram por porteiro (que, pera guarir, da omagem s’ escudara), que vess’ abrir a porta que el serrara. [Refrão = vv. 1-4] R6 61-64 VII 66 68 70 O de dentro respôs logo | que nom faria ém nada; e o de fora tantoste | houv’ a baesta armada e tirou-lh’ assi que, sem dulta, o chagara. Mas, com’ aprendi, um dos golhos alçara [Refrão = vv. 1-4] R7 71-74 VIII 76 78 80 a omagem atám alte | que chegou preto da teta, por guardá-lo baesteiro, | e feriu-lhi a saeta. E ar aprix al: que o de dentro tirara em maneira tal que o de fora matara. [Refrão = vv. 1-4] R8 81-84 IX 86 88 90 Esta maravilha virom | os de dentr’ e os da hoste, e outrossi fez el-conde; | e deceu a terra toste dum cavalo seu em que entom cavalgara, e come romeu aprix que dentro entrara. R9 91-94 X [Refrão = vv. 1-4] E, os golhos ficados, | aorou a majestade, muito dos olhos chorando, | conhocendo sa maldade; e logo mandou 98 tornar quant’ ali filhara, e sa host’ alçou 100 que sobr’ a vila deitara. 96 R10 101-104 XI Desto a Santa Maria | todos loores lhe derom, 106 e punharom d’ a saeta | tirar, mas nunca poderom, com’ escrit’ achei, 108 da perna u lha ficara o que vos dit’ hei 110 baesteiro (que osmara R11 111-114 XII [Refrão = vv. 1-4] [Refrão = vv. 1-4] matá-lo outro de dentro | que a omagem guardava); 116 e porém Santa Maria | tam gram pesar ém mostrava que nunca, per rem, 118 achei que depois tornara a perna, mas tem114 120 R12 122 124 -na como quand’ a mudara. A madre de Deus devemos ter mui cara, porque aos seus sempre mui bem os ampara. * * * 115 Cantigas de Santa Maria 52 «Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer» (E 52, T 52, U 66) Esta é como Santa Maria fez vĩir as cabras montesas a Monsarrat, e se leixavam ordenhar aos monges cada dia. R0 2 I 4 6 Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer a Santa Maria, de que Deus quis nacer. E dest’ um miragre, se Deus m’ ampar, mui fremoso vos quer’ ora contar, que quiso mui grand’ a groriosa mostrar; oíde-mi_o, se ouçades prazer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Monsarrat (de que vos já contei) há ũ’ igreja, per quant’ apres’ hei, feita no nome da madre do alto rei que quis por nós morte na cruz prender. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Aquel logar a pé dum mont’ está em que muitas cabras montesas há; ond’ estranha maravilha avo já: ca forom todas bem juso decer R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 ant’ a eigreja (que ’m um vale jaz), e ant’ a porta paravam-s’ em az, e estavam i todas mui quedas em paz, tá que os monge-las iam monger. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E quatr’ anos durou, segund’ oí, que os monges houverom pera si assaz de leite, que cada noite ali vĩíam as cabras esto fazer, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 ates que um crerizom sandeu furtou um cabrit’ ém e o comeu; e das cabras depois assi lhes conteceu: que nunca mai-las poderom haver. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 E desta guisa a madre de Deus quis governar aqueles monges seus, por que depois gram romaria de romeus verom po-lo miragre saber. Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer a Santa Maria, de que Deus quis nacer. * * * 116 Cantigas de Santa Maria 53 «Como pod’ a groriosa mui bem enfermos sãar» (E 53, T 53, U 67) Esta é como Santa Maria guareceu o moço pegureiro que levarom a Seixom, e lhe fez saber o Testamento das Escrituras, macar nunca leera. R0 2 I 4 6 Como pod’ a groriosa | mui bem enfermos sãar, assi aos que nom sabem | pode todo saber dar. E de tal já end’ avo | um miragre que dizer vos quer’ ora, que a Virgem | quis grand’ em Seixom fazer, dum meninho pegureiro, | a que os pees arder começarom daquel fogo | que «salvag’» ouço chamar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Seu padre del era morto; | mas ũa pobre molher sa madr’ era, que fiava | a lãa mui volonter, per que s’ ambos governavam; | mas quem m’ ascoitar quiser, direi-lh’ eu de com’ a Virgem | quis no meninho mostrar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Aquel fog’ ao meninho | tam feramente coitou que, a per poucas, dos pees | os dedos nom lhe queimou; e a madre mui coitada | pera Seixom o levou e, chorando mui de rijo, | o pôs bem ant’ o altar. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Tod’ essa noite vigia | tev’; e logo guareceu o meninho, em tal guisa | que andou bem e correu; des i, foi-se com sa madre; | mas atal amor colheu daquel logar u sãara | que se quis log’ i tornar. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Depois, a cabo dum ano | lhe rogou que o ali tornass’, e nom qui-la madre; | e ele lhe diss’ assi: “– Se nom quiserdes, o fogo | sei eu que verrá a mi e, que vos pês, m’ haveredes | eno col’ a soportar”. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Dizend’ aquest’ o meninho, | o fog’ em el salto deu, e travou log’ em sa madre, | dizendo: “– Ai eu, ai eu!”. E ela o em seu colo | filhou, com’ aprendi eu, e a Seixom de caminho | começou toste d’ andar. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 E, pois entrou na eigreja, | ant’ o altar, sem falir, o pôs; e log’ o meninho | se filhou bem a dormir, e viu em vijom a madre | de Deus, que o foi guarir, e seu filho Jes[u]-Cristo, | a que ela presentar R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 117 VIII 46 48 a alma em paraíso | foi dele. E alá viu que a Virgem a seu filho | mercee por el pediu e por todo-los da terra | de Seixom, e bem sentiu que, por seu rogo, do fogo | os quis Deus todos livrar. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E oiu mais que a Virgem | diss’ a Deus esta razom: “– Filho, esta mià capela, | que é tam pobr’, em Seixom, fas tu que seja bem feita”. | E El lhe respôs entom: “– Madr’, eu farei i as gentes | vĩir bem dalend’ o mar R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 e de muitas outras terras, | que darám haver assaz, ca todo quanto demandas | e queres, todo me praz; e que eu faça teu rogo, | aquest’ em dereito jaz, ca filho, por bõa madre, | fazer dev’ o que mandar”. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 Quand’ esto viu o meninho | no ceo, foi-lhe tal bem que, quant’ al depois viía, | sol no-no preçava rem; ca o [E]spírito Santo | pôs em el atám gram sém que as Escrituras soube, | e latim mui bem falar. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 E, quanto no Testamento | Vedro e no Novo sé escrito, mui bem sabia, | e mui mais, per bõa fé; e dizia aas gentes: | “– De Santa Maria é prazer que esta igreja | façades mui bem obrar; R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 e, porque certos sejades | que tod’ est’ e mui mais sei, mostrade-mi_as Escrituras, | ca eu as espranarei; demais, d’ hoj’ a trinta dias | sabiades que morrerei, ca a que me mostrou esto | me quer consigo levar”. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 Todos quantos est’ oírom | derom graças e loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor; e acharom em verdade | quanto diss’ aquel pastor, e começarom tantoste | na igreja de lavrar. 86 Como pod’ a groriosa | mui bem enfermos sãar, assi aos que nom sabem | pode todo saber dar. 82 R14 * * * 118 Cantigas de Santa Maria 54 «Toda saúde, da santa reinha» (E 54, T 54, U 69) Esta é de como Santa Maria guariu com seu leite o monge doente que cuidavam que era morto. R0 2 I 4 6 Toda saúde, da santa reinha vem, ca ela é nossa meezinha. Ca, pero havemos enfermidades que merecemos per nossas maldades, atám muitas som as sas piedades que sa vertude nos acorr’ aginha. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Dest’ um miragre me vo emente que vos direi ora, ai bõa gente, que fez a Virgem por um seu sergente, monge branco, com’ estes da Espinha. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Est’ era sisudo e leterado e homildoso e bem ordinhado, e a Santa Maria todo dado, sem tod’ orgulho e sem louçainha. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E tal sabor de a servir havia que, poi-lo convent’ as horas dizia, ele fazend’ oraçom remania em ũa capela mui pequeninha; R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 e dizia prima, terça e sesta e nõa e vésperas (e tal festa fazia sempre baixada a testa) e, pois, completas e a ledainha. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E, vivend’ em aquesta santidade, ena garganta houv’ enfermidade tam maa que, com’ aprix em verdade, peior cheirava que a caavrinha. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Ca o rostr’ e a garganta lh’ enchara e o coiro fendera-s’ e britara, de maneira que atal se parara que nom podia trocir atalvinha. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 119 VIII 46 48 Os frades, que cuidavam que mort’ era, porque um dia sem fala jouvera, cada um deles de grado quisera que o ongessem como convĩinha. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E porend’ o capeirom lhe deitarom sobe-los olhos, porque bem cuidarom que era mort’, e torná-lo mandarom a ourient’, onde o sol vĩinha. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 E, u el em tam gram coita jazia que já rem nom falava nem oía, veê-lo vo a Virgem Maria, e com ũa toalha que tĩinha R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 tergeu-lh’ as chagas ond’ el era cho; e pois tirou a sa teta do so santa (com que criou aquel que vo por nós filhar nossa carne mesquinha), R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 e deitou-lhe na boca e na cara do seu leite; e tornou-lha tam crara que semelhava que todo mudara como muda penas a andorinha. R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 E disse-lhe: “– Por esto vim, irmão, que ti_acorress’ e te fezesse são; e, quando morreres, sei bem certão que irás u é Santa Catelinha”. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 82 84 Pois esto dit’ houve, foi-s’. E mui cedo se levantou o monge; e gram medo houverom os outros, e quedo, quedo forom tanger ũa sa campãinha, R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 a que logo todos forom juntados e deste miragre maravilhados, e a Santa Maria muitos dados loores, a estrela madodinha. 92 Toda saúde, da santa reinha vem, ca ela é nossa meezinha. 88 R15 * * * 120 Cantigas de Santa Maria 55 «Atant’ é Santa Maria de toda bondade bõa» (E 55, T 55, U 86) Esta é como Santa Maria serviu pola monja que se fora do mõesteiro e lhi criou o filho que fezera alá andando. R0 2 I 4 6 Atant’ é’ Santa Maria | de toda bondade bõa que mui d’ anvidos s’ assanha | e mui de grado perdõa. Desto direi um miragre | que quis mostrar em Espanha a Virgem Santa Maria, | piadosa e sem sanha, por ũa monja que fora | filhar vida d’ ávol manha fora de seu mõesteiro | com um preste de corõa. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta dona mais amava | doutra rem Santa Maria, e porend’ em todo tempo | sempre sas horas dizia mui bem e compridamente, | que em elas nom falia de dizer prima e terça, | sesta, vésperas e nõa, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 compretas e madodinhos | bem ant’ a sa majestade. Mais o demo, que se paga | pouco de virgĩidade, fez, como vos eu já dixe, | que se foi com um abade, que a por amiga teve | um mui gram temp’ em Lisbõa. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Ambos assi esteverom | tá que ela foi prenhada; entom o crérig’ astroso | leixou-a desamparada, e ela tornou-se logo | vergonhosa e coitada, andando sempre de noite, | como se fosse ladrõa. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E foi ao mõesteiro | ali onde se partira, e falou-lh’ a abadessa | (que a nunca mos vira bem des que do mõesteiro | sem sa licença saíra), dizendo: “– Por Deus, mià filha, | logo aa terça sõa”. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E ela foi fazer logo | aquelo que lhe mandava; mas de que a nom achavam | mos se maravilhava, e dest’ a Santa Maria | chorando loores dava, dizendo: “– Beita eras, | dos pecadores padrõa”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Estas loores e outras | a Santa Maria dando muitas de noit’ e de dia, | foi-se-lh’ o tempo chegando que havia d’ haver filho; | e entom se foi chorando pera a sa majestade, | e como quem se razõa R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 121 VIII 46 48 com senhor, assi dizia, | chorando mui feramente: “– Mià senhor, eu a ti venho | como molher que se sente de grand’ erro que há feito; | mas, senhor, venha-ch’ a mente se che fiz algum serviço, | e guarda-me mià pessõa R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 que nom caia em vergonha, | senhor, e ’ alma me guarda que a nom lev’ o diabo | nem eno inferno arda; esto com medo cho peço, | ca eu sõo mui covarda de por nulha rem rogar-te, | mas peço-ch’ esto por dõa”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 Quand’ ela est’ houve dito, | chegou a santa reinha, e ena coita da dona | pôs logo sa meezinha, e a um ángeo disse: | “– Tira-lh’ aquel filh’ aginha do corp’ e criar-lho manda | de pam, mas nom de borõa”. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 Foi-s’ entom Santa Maria, | e a monja ficou sãa; e cuidou achar seu filho, | mas em seu cuidar foi vãa, ca o nom viu por gram tempo, | senom quand’ era já cãa, e por el foi mas coitada | que por seu filh’ é leõa. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 Mais depois assi lh’ avo | que, u vésperas dizendo estavam todas no coro | e bem cantand’ e leendo, virom entrar i um moço | mui fremosinho correndo, e cuidarom que filh’ era | d’ infançom e d’ infançõa. R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 E, pois entrou eno coro, | em mui bõa voz e crara começou «Salve Regina», | assi como lhe mandara a Virgem Santa Maria, | que o gram tempo criara, que aos que ela ama | por lh’ errar nom abaldõa. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 82 84 A monja logo tantoste | conhoceu que seu filh’ era, e el que era sa madre; | e a maravilha fera foi entom ela mui leda | pois lh’ el diss’ onde vera, dizendo: “– Tornar-me quero, | e leixade-m’ ir, varõa”. R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 Mantenent’ aqueste feito | soube todo o convento, que eram i ajuntadas | de monjas mui mais ca cento, e loarom muit’ a Virgem | por aqueste cousimento que fezera, cujos feitos | todo o mund’ apregõa. 92 Atant’ é Santa Maria | de toda bondade bõa que mui d’ anvidos s’ assanha | e mui de grado perdõa. 88 R15 * * * 122 Cantigas de Santa Maria 56 «Gram dereit’ é de seer» (E 56, T 56, U 71) Esta é como Santa Maria fez nacer as cinco rosas na boca do monge depos sa morte, polos cinco salmos que dizia a honra das cinco lêteras que há no seu nome. R0 2 4 I 6 8 10 12 Gram dereit’ é de seer seu miragre mui fremoso da Virgem, de que nacer quis por nós Deus grorioso. Porém quero retraer um miragre que oí, ond’ haveredes prazer oindo-o outrossi, per que podedes saber o gram bem, com’ aprendi, que a Virgem foi fazer a um bom religioso. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II Este sabia leer pouco, com’ oí contar, mas sabia bem querer a Virgem, que nom há par; e porém foi compõer cinque salmos e juntar, por em sa loor crecer, de que era desejoso. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III Dos salmos foi escolher cinque por esta razom e de sũu os põer: por cinque letras que som em «Maria», por prender dela pois tal galardom per que podesse veer o seu filho piadoso. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV Quem catar e revolver estes salmos, achará «Magnificat» i jazer, e «Ad Dominum» i há, e cabo del «In convertendo» e «Ad te» está, e pois «Retribue servo tuo» muit’ homildoso. 42 44 46 48 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] 123 V 54 56 58 60 Pera bem de Deus haver, ond’ aquestes, sem falir, salmos sempr’ ia dizer cada dia, sem mentir, ant’ o altar e tender-se todo e repentir do que fora merecer quand’ era fol e astroso. R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI Est’ uso foi manter mentre no mundo viveu; mas pois, quand’ houv’ a morrer, na boca lh’ apareceu rosal, que virom ter cinque rosas, e creceu, porque fora beizer a madre do poderoso. 66 68 70 72 R6 74 76 Gram dereit’ é de seer seu miragre mui fremoso da Virgem, de que nacer quis por nós Deus grorioso. * * * 124 Cantigas de Santa Maria 57 «Mui grandes noit’ e dia» (E 57, T 57, U 72) Esta é como Santa Maria fez guarecer os ladrões que foram tolheitos porque roubaram ũa dona e sa companha que iam em romaria a Monsarrat. R0 1 3 5 7 I 9 11 13 15 17 R 1 18-24 II 26 28 30 32 34 R2 35-41 III 43 45 47 49 51 Mui grandes noit’ e dia devemos dar porende nós a Santa Maria graças: porque defende os seus de dano, e sem engano em salvo os guia. E daquesto queremos um miragre preçado dizer, porque sabemos que será ascuitado dos que a Virgem santa amam, porque quebranta sempr’ aos soberviosos, | e os bõos avanta e dá-lhes siso e paraíso com tod’ alegria. [Refrão = vv. 1-7] Em Monsarrat vertude fez, que mui longe sõa, a Virgem, se mi_ajude ela, por ua bõa dona que na montanha di, mui grand’ e estranha, deceu a ua fonte | com toda sa companha, por i jantarem, des i folgarem e irem sa via. [Refrão = vv. 1-7] U seíam comendo cabo daquela fonte, a eles mui correndo saiu bem desse monte Reimond’, um cavaleiro roubador e guerreiro, que de quanto tragiam | nom lhes leixou dinheiro que nom roubasse e nom filhasse com sa companhia. R3 52-58 [Refrão = vv. 1-7] IV A dona mantenente, logo que foi roubada, 60 125 62 64 66 68 R4 69-75 V 77 79 81 83 85 R5 86-92 VI 94 96 98 100 102 R6 103-109 VII 111 113 115 117 119 R7 120-126 VIII 128 130 132 134 136 R8 137-143 foi-s’ ende com sa gente mui trist’ e mui coitada. A Monsarrat aginha chegou essa mesquinha, dando grandes braados: | “– Virgem santa, reinha, dá-me vingança, ca pris viltança em ta romaria!” [Refrão = vv. 1-7] E os frades saírom aas vozes que dava; e quand’ esto oírom, o prior cavalgava corrend’, e foi mui toste, e passou um recoste e viu cabo da fonte | de ladrões grand’ hoste jazer maltreitos, cegos, contreitos, que um nom s’ ergia. [Refrão = vv. 1-7] Entr’ esses roubadores viu jazer um vilão desses mais malfeitores, ua perna na mão de galinha, freame que sacara com fame entom dũ’ empãada | que so um seu çurame comer quisera, mais nom podera, ca Deus nom queria. [Refrão = vv. 1-7] Ca se lh’ atravessara bem des aquela hora u a comer cuidara, que dentro nem a fóra nom podia sacá-la, nem comer, nem passá-la. Demais jazia cego | e ar mudo sem fala e mui maltreito por aquel preito, ca xo merecia. [Refrão = vv. 1-7] O prior e seus frades, pois que assi acharom treitos por sas maldades os ladrões, mandarom que logo di levados fossem, atravessados em bêstias que trouxeram, | ant’ o altar deitados: que i morressem ou guarecessem se a Deus prazia. [Refrão = vv. 1-7] 126 IX 145 147 149 151 153 R9 154 156 158 160 E, pois que os ladrões ant’ o altar trouxerom, por eles orações e pregairas fezerom. E log’ houverom sãos olhos, pees e mãos; e porende jurarom | que nunca a crischãos jamais roubassem, e se quitassem daquela folia. Mui grandes noit’ e dia devemos dar porende nós a Santa Maria graças: porque defende os seus de dano, e sem engano em salvo os guia. * * * 127 Cantigas de Santa Maria 58 «De muitas guisas nos guarda de mal» (E 58, T 58, U 73) Esta é como Santa Maria desviou a monja que se nom fosse com um cavaleiro com que posera de s’ ir. R0 2 I 4 6 De muitas guisas nos guarda de mal Santa Maria: tam muit’ é leal. E dest’ um miragre vos contarei que Santa Maria fez, com’ eu sei, dũa monja, segund’ escrit’ achei, que d’ amor lhe mostrou mui gram sinal. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta monja fremosa foi assaz e tĩía bem quant’ em regra jaz; e o que a Santa Maria praz, esso fazia sempr’ a comunal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ma-lo demo, que dest’ houve pesar, andou tanto po-la fazer errar que a troux’ a que s’ houve de pagar dum cavaleiro; e pôs preit’ atal 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV com ele: que se foss’ a comoquer, e que a filhasse pois por molher e lhe déss’ o que houvesse mester; e pôs de s’ ir a el a um curral 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V do mõesteir’; e i a atendeu. Mas entant’ a dona adormeceu e viu em vijom ond’ esterreceu com mui gram pavor que houve mortal. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ca se viu sobr’ un poç’ aquela vez, estreit’ e fond’ e mais negro ca pez, e o demo, que a trager i fez, deitá-la quis per i no infernal 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII fogo, u mais de mil vozes oiu d’ homes, e muitos tormentar i viu; e, com med’, a poucas xe lhe partiu o coraçom, e chamou: “– Senhor, val, 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Santa Maria, que madr’ és de Deus, 128 46 48 ca sempre punhei em fazê-los teus mandamentos, e nom cate-los meus pecados, ca o teu bem nunca fal”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois esto disse, foi-lh’ aparecer Santa Maria e mui mal trager, dizendo-lhe: “– Venha-ch’ or’ acorrer o por que me deitast’, e nom m’ encal”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Esto dit’, um diabo a puxou dentro no poç’; e ela braadou por Santa Maria, que a sacou del, a reinha nobr’ e ’spirital. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Des que a pôs fora, disse-lh’ assi: “– Des hojemais nom te partas de mi nem de meu filho, e, se nom, aqui te tornarei, u nom haverá al”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Pois passou esto, acordou entom a monja, tremendo-lh’ o coraçom; e, com espanto daquela vijom que vira, foi logo a um portal 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII u achou os que fezera vĩir aquele com que posera de s’ ir, e disse-lhes: “– Mal quisera falir em leixar Deus por home terral; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV mas, se Deus quiser, esto nom será, nem fora daqui nom me veerá jamais nulh’ home; e ide-vos já, ca nom quer’ os panos ne-no brial, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 nem, mentre viva, nunca amador haverei, nem nom quer’ eu outr’ amor senom da madre de Nostro Senhor, a santa reinha celestial”. 92 De muitas guisas nos guarda de mal Santa Maria: tam muit’ é leal. 88 R15 * * * 129 Cantigas de Santa Maria 59 «Que-na Virgem bem servir» (E 59, T 59, U 75) Esta é como o crucifisso deu a palmada a honra de sa madre aa monja de Fontebrar que posera de s’ ir com seu entendedor. R0 2 I 4 6 8 Que-na Virgem bem servir, nunca poderá falir. E daquesto um gram feito dum miragre vos direi que fez mui fremos’ afeito a madre do alto rei, per com’ eu escrit’ achei, se me quiserdes oir. R1 9-10 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi dũa donzela que era em Fontebrar monja, fremosa e bela, que a Virgem muit’ amar sabia, se Deus m’ ampar. Mais quis da ordem sair 12 14 16 R2 17-18 [Refrão = vv. 1-2] III com um cavaleir’ aposto e fremos’ e de bom prez, e nom catou seu dosto, mas como molher rafez quisera-s’ ir dessa vez. Mas no-na quis leixar ir 20 22 24 R3 25-26 [Refrão = vv. 1-2] IV a Virgem Santa Maria, a que mui de coraçom saudava noit’ e dia cada que sa oraçom fazia, e log’ entom ia beijar, sem mentir, 28 30 32 R4 33-34 [Refrão = vv. 1-2] V os pees da majestade e dum crucifiss’ assi, que i de gram santidade havia, com’ aprendi; e, pois s’ ergia dali, ia as portas abrir 36 38 40 R5 41-42 [Refrão = vv. 1-2] 130 VI 44 46 48 da igrej’, e sacristãa era, com’ oí dizer, do logar, e a campãa se filhava a tanger por s’ o convento erger e a sas horas vĩir. R6 49-50 [Refrão = vv. 1-2] VII Fazend’ assi seu ofiço, mui gram temp’ aquest’ usou, ates que o proviço a fez que se namorou do cavaleir’, e punhou de seu talante comprir. 52 54 56 R7 57-58 [Refrão = vv. 1-2] VIII E porend’ ũa vegada a meia noite s’ ergeu e, com’ era costumada, na igreja se meteu e à omagem correu por se dela espedir; 60 62 64 R8 65-66 [Refrão = vv. 1-2] IX e, ficando os golhos, disse: “– Com graça, senhor”. Mas chorou logo dos olhos a madre do salvador, em tal que a pecador se quisesse repentir. 68 70 72 R9 73-74 [Refrão = vv. 1-2] X Entom s’ ergeu a mesquinha por s’ ir log’ ante da luz; mas o crucifiss’ aginha tirou a mão da cruz e, com’ home que aduz, de rijo a foi ferir, 76 78 80 R10 81-82 [Refrão = vv. 1-2] XI e bem cabo da orelha lhe deu orelhada tal que do cravo a semelha teve sempre por sinal, porque nom fezesse mal nem s’ assi foss’ escarnir. 84 86 88 R11 89-90 [Refrão = vv. 1-2] XII Desta guisa come morta jouve tolheita sem sém, trões o convent’ a porta britou; e espantou-s’ ém quand’ ela lhes contou quem a feriu po-la partir 92 94 96 R12 97-98 [Refrão = vv. 1-2] 131 XIII 100 102 104 do grand’ erro que quisera fazer, mas que nom quis Deus ne-na sa madre (que feramente quer guardá-los seus, segund Lucas e Mateus e os outros escrivir R13 105-106 [Refrão = vv. 1-2] XIV 112 forom). Porend’ o convento se pararom log’ em az, u havia mil e cento donas, todas faz a faz, e, cantando bem assaz, est’ a Deus forom gracir. 114 Que-na Virgem bem servir, nunca poderá falir. 108 110 R14 * * * 132 Cantigas de Santa Maria 60 «Entre Av’ e Eva gram departiment’ há» (E 60, T 60, U 70) Esta é de loor de Santa Maria, do departimento que há entre Ave e Eva. R0 1 I 2 4 R1 6 II 7 9 R2 11 III 12 14 R3 16 IV 17 19 R4 21 Entre Av’ e Eva | gram departiment’ há. Ca Eva nos tolheu o paraís’ e Deus; Ave nos i meteu. Porend’, amigos meus, entre Av’ e Eva | gram departiment’ há. Eva nos foi deitar do dem’ em sa prijom, e Ave ém sacar; e por esta razom entre Av’ e Eva | gram departiment’ há. Eva nos fez perder amor de Deus e bem, e pois Ave haver no-lo fez. E porém entre Av’ e Eva | gram departiment’ há. Eva nos enserrou os ceos sem chave, e Maria britou as portas per Ave. Entre Av’ e Eva | gram departiment’ há. * * * 133 Cantigas de Santa Maria 61 «Fol é o que cuida que nom poderia» (E 61, T 61, U 47) Esta é como Santa Maria guareceu o que xe lhe torcera a boca porque descreera em ela. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Fol é o que cuida que nom poderia fazê-lo que quisesse Santa Maria. Dest’ um miragre vos direi que avo em Seixons, ond’ um livro há todo cho de miragres bem di (ca dalhur nom vo), que a madre de Deus mostra noit’ e dia. [Refrão = vv. 1-2] Em aquel mõesteir’ há ũa çapata que foi da Virgem por que o mundo cata, por que diss’ um vilão de gram barata que aquesto, per rem, ele nom criía. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Diss’ el: “– Ca de o creer nom é guisada cousa: pois que tam gram sazom é passada de seer a çapata tam bem guardada, que já podre nom foss’, esto nom seria”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Esto dizend’, ia per ũa carreira ele e outros quatro a ũa feira; e torceu-xe-lh’ a boca em tal maneira que quenquer que o visse, espantar-s’-ia. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E tal door havia que bem cuidava que lh’ os olhos fora da testa deitava; e, com esta coita, logo se tornava u a çapata era, em romaria. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E logo que chegou deitou-se tendudo ant’ o altar em terra como perdudo, repentindo-se de que for’ atrevudo em sol ousar dizer atám gram folia. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Entom a abadessa do mõesteiro lhe trouxe a çapata, por seu fazfeiro, pelo rostro, e tornou-lho tam enteiro e tam são bem como xo ant’ havia. 40 42 134 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Poi-lo vilão se sentiu bem guarido, do senhor de que era foi espedido; e ao mõesteiro logo vĩído foi, e dali sergent’ é pois todavia. 50 Fol é o que cuida que nom poderia fazê-lo que quisesse Santa Maria. 46 R8 * * * 135 Cantigas de Santa Maria 62 «Santa Maria sempr’ os seus ajuda» (E 62, T 62, U 49) Esta é como Santa Maria deu o filho a ũa bõa dona que o deitara em penhor, e crecera tanto a usura que o nom podia quitar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Santa Maria sempr’ os seus ajuda e os acorr’ a gram coita sabuda. A qual acorreu já ũa vegada a ũa dona de França, coitada, que, por fazer bem, tant’ endevedada foi que sa herdad’ houvera perduda. [Refrão = vv. 1-2] Se nom fosse pola Virgem Maria, que a acorreu, todo quant’ havia, perdud’ houvera; que já nom podia usura sofrer, tant’ era creçuda. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E, macar a dona de gram linhage era, nom quiserom dela menage seus devedores; mas deu-lhes em gage seu filh’, onde foi pois mui repentuda; R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 ca daquesto pois prês mui gram quebranto, porque a usura lhe creceu tanto que a nom podia pagar por quanto havia, se dal nom foss’ acorruda. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E, porque achar nom pôde conselho nos que fiava, porend’ a concelho nom ousou sair, mas ao espelho das virges foi bem come sisuda, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 e, de coraçom, que a acorresse lhe rogou entom, como nom perdesse seu filh’ em prijom, mais que lho rendesse. E sa demanda lhe foi bem cabuda; R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 ca bem como se lhe houvesse dito Santa Maria: “– Vai, e dar-ch’-ei quito teu filho do usureiro maldito”, 136 42 assi foi ela led’ e atrevuda. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 E cavalgou logo sem demorança e foi a seu filho com esperança, e viu-o estar u faziam dança a gente da vila, que ’steve muda, R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 que nom disse nada quand’ o chamava: “– Vem acá, meu filho”, e poi-lo deitava depos si na bêstia, que o levava per meia a vila, de todos viúda, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 que sol nom disserom: “– Dona, onde ves?” nem “– De que o levas, gram torto nos tes”. Esto fez a Virgem, que já outros bes fez e sempre faz, ca dest’ é túda. 62 Santa Maria sempr’ os seus ajuda e os acorr’ a gram coita sabuda. 58 R10 * * * 137 Cantigas de Santa Maria 63 «Quem bem serv’ a madre do que quis morrer» (E 63, T 63, U 51) Esta é de como Santa Maria sacou de vergonha a um cavaleiro que houver’ a seer ena lide em Sant’ Estevam de Gormaz, de que nom pôd’ i seer polas três missas suas que oiu. E começa assi: R0 2 I 4 6 Quem bem serv’ a madre do que quis morrer por nós, nunca pod’ em vergonha caer. Dest’ um gram miragre vos quero contar que Santa Maria fez, se Deus m’ ampar, por um cavaleiro, a que foi guardar de mui gram vergonha que cuidou prender. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este cavaleiro, per quant’ aprendi, franc’ e ardid’ era, que bes ali u ele morava, nem redor de si, d’ armas nom podiam outro tal saber. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III De bõos costumes havia assaz, e nunca com mouros quiso haver paz; porend’ em Sant’ Estêvão de Gormaz entrou, quand’ Almançor a cuidou haver, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV com el-conde Dom Garcia, que entom tinha o logar em aquela sazom (que era bom hom’ e de tal coraçom que aos mouros se fazia temer). 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Este conde de Castela foi senhor, e houve gram guerra com rei Almançor, que Sant’ Estêvão tod’ a derredor lhe vo cercar, cuidando-lha tolher. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mas el-conde defendia-se mui bem, ca era ardido e de mui bom sém; e porém do seu nom lhe leixava rem, mas ia-os mui de rijo cometer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Mas o cavaleiro de que vos falei, tanto fez i d’ armas, per quant’ end’ eu sei, 40 138 42 que nom houv’ i lide nem mui bom tornei u se nom fezesse por bõo ter. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E avo-lh’ um dia que quis sair com el-conde por na hoste ir ferir dos mouros; mas ante foi missa oir, como cada dia soía fazer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois foi na igreja, bem se repentiu dos seus pecados e a missa oiu de Santa Maria, que rem nom faliu, e outras duas que i forom dizer, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que da reinha eram espirital. Mas um seu escudeiro o trouxe mal, dizendo: “– Quem em tal torneio nom sal com’ aqueste, nunca dev’ aparecer”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Por nulha rem que lhe dissess’ aquel seu escudeiro, ele nulha rem nom deu, mas a Santa Maria diz: “– Sõo teu, e tol-me vergonha, ca hás ém poder”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII As missas oídas, logo cavalgou, e ena carreira o conde achou, que lh’ o braço destro no colo deitou, dizend’: “– Em bom ponto vos fui conhocer, 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII ca, se vós nom fôssedes, juro par Deus que vençudos fôramos eu e os meus; mas tantos matastes vós dos mouros seus del-rei Almançor que s’ houv’ a recreer, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e tanto fezestes por gãardes prez que já cavaleiro nunca tanto fez nem sofreu em armas com’ aquesta vez sofrer fostes vós po-los mouros vencer; 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV mas rogo-vos, porque vos é mui mester, que de vossas chagas pensedes, senher; e eu hei um mege dos de Mompisler que vos pode cedo delas guarecer”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Disse-lh’ est’ el-conde, e mui mais ca três 139 94 96 lhe disserom aquesta razom medês; e el deles todos tal vergonha prês que com vergonha se cuidou ir perder. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Mas, pois que sas armas viu, e couseceu que feridas eram, logo conhoceu que miragre fora, ca bem entendeu que doutra guisa nom podia seer. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 108 Pois est’ entendudo houve, bem foi fis que Santa Maria leixá-lo nom quis caer em vergonha; e maravidis e outras ofrendas lhe foi ofrecer. 110 Quem bem serv’ a madre do que quis morrer por nós, nunca pod’ em vergonha caer. R18 * * * 140 Cantigas de Santa Maria 64 «Quem mui bem quiser o que ama guardar» (E 64, T 64, U 52) Esta é de como a molher que o marido leixara em comenda a Santa Maria nom pôdo calçar a çapata que lhe dera seu entendedor ma[i]s de até ena meadade do pee, ne-na ar pôde descalçar tá que o marido lha descalçou. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 Quem mui bem quiser o que ama guardar, a Santa Maria o dev’ a encomendar. E dest’ um miragre, de que fiz cobras e som, vos direi mui grande, que mostrou em Aragom Santa Maria, que a molher dum ifançom guardou de tal guisa per que nom podess’ errar. [Refrão = vv. 1-2] Esta dona, per quant’ eu dela oí dizer, aposta e ninha foi, e de bom parecer; e por aquesto a foi um ifançom prender por molher, e foi-a pera sa casa levar. [Refrão = vv. 1-2] Aquel ifançom um mui gram temp’ assi morou com aquela dona; mais, pois, s’ ir dali cuidou por ũa carta de seu senhor que lhe chegou: que havia guerra, e que o foss’ ajudar. [Refrão = vv. 1-2] Ante que movesse, diss-lh’ assi sa molher: “– Senhor, pois vos ides, fazede, se vos prouguer, que m’ encomendedes a alguém, ca m’ é mester que me guarde e que me sábia bem conselhar”. [Refrão = vv. 1-2] E o ifançom lhe respondeu entom assi: “– Muito me praz ora daquesto que vos oí; mas ena eigreja manhãa seremos i, e entom vos direi a quem vos cuid’ a leixar”. [Refrão = vv. 1-2] Outro dia forom ambos a missa oir, e, pois foi dita, u se lhe quis el espedir, chorand’ entom ela lhe começou a pedir que lhe désse guarda por que houvess’ a catar. [Refrão = vv. 1-2] E, ar ele chorando muito dos olhos seus, mostrou-lh’ a omagem da Virgem, madre de Deus, e disse-lh’: “– Amiga, nunca os pecados meus 141 42 R7 43-44 VIII 46 48 R8 49-50 IX 52 54 R9 55-56 X 58 60 R10 61-62 XI 64 66 R11 67-68 XII 70 72 R12 73-74 XIII 76 78 R13 79-80 XIV 82 84 R14 85-86 XV 88 90 R15 91-92 XVI 94 sejam perdõados se vos a ôutri vou dar [Refrão = vv. 1-2] senom a esta, que é senhor espirital, que vos pode bem guardar de posfaç’ e de mal; e porende a ela rog’ eu, que pod’ e val, que mi vos guarde, e leix’ a mim cedo tornar”. [Refrão = vv. 1-2] Foi-s’ o cavaleiro logo dali. Mas, que fez o diabr’ arteiro por lhe tolher seu bom prez a aquela dona? Tant’ andou daquela vez que um cavaleiro fezo dela namorar. [Refrão = vv. 1-2] E com seus amores a poucas tornou sandeu; e porend’ ũa sa covilheira cometeu que lhe fosse bõa, e tanto lhe prometeu que per força fez que fosse com ela falar. [Refrão = vv. 1-2] E disse-lh’ assi: “– Ide falar com mià senhor e dizede-lhe como moiro por seu amor; e, macar vejades que lhe desto grave for, no-na leixedes vós porém muito d’ aficar”. [Refrão = vv. 1-2] A molher respôs: “– Aquesto de grado farei, e que a hajades, quant’ eu podér punharei; mas de vossas dõas me dad’, e eu lhas darei, e quiçai per esto a poderei enganar”. [Refrão = vv. 1-2] Diss’ o cavaleir’: “– Esto farei de bom talám”. Log’ ũas çapatas lhe deu de bom cordovám; mais a dona a trouxe peior que a um cam e disse que per rem nom lhas queria filhar. [Refrão = vv. 1-2] Mais aquela velha, com’ era molher mui vil, e d’ alcaiotaria sabedor e sotil, porque a dona as çapatas filhasse, mil razões lhe disse, trões que lhas fez tomar. [Refrão = vv. 1-2] Mais a mesquinha, que cuidava que era bem, filhou logo as çapatas, e fez i mal sém; ca u quis calçá-la ũa delas, já per rem fazer no-no pôde, ne-na do pee sacar. [Refrão = vv. 1-2] E assi esteve um ano e bem um mês, que a çapata_ao pee assi se lh’ aprês 142 96 R16 97-98 XVII 100 102 R17 103-104 XVIII 106 R18 que, macar de tolher-lha provarom dous nem três, nunca lha poderom daquel pee descalçar. [Refrão = vv. 1-2] E depos aquest’ a poucos dias recodiu seu marid’ a ela, e tam fremosa a viu que a logo quis; mas ela nom lho consentiu atá que todo seu feito lh’ houve a contar. [Refrão = vv. 1-2] 108 O cavaleiro disse: “– Dona, desto me praz, e sobr’ esto nunca haveremos senom paz, ca sei que Santa Mari’, em que todo bem jaz, vos guardou”. E a çapata lhe foi ém tirar. 110 Quem mui bem quiser o que ama guardar, a Santa Maria o dev’ a encomendar. * * * 143 Cantigas de Santa Maria 65 «A creer devemos que todo pecado» (E 65, T 65, U 88) Esta é como Santa Maria fez soltar o home que andara gram tempo escomungado. R0 2 I 4 6 A creer devemos que todo pecado Deus pola sa madr’ haverá perdõado. Porend’ um miragre vos direi mui grande que Santa Maria fez; e ela mande que mostrá-lo possa per mi e nom ande demandand’ a outre que m’ ém dé recado. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Porém direi com’ um crérig’ aldeão, de mui santa vida e mui bom crischão, houv’ um seu feegrês soberv’ e loução que nunca queria fazer seu mandado. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E o home bõo sempre lhe rogava que se corregesse, e o castigava; mais aquel vilão porém rem nom dava: assi o tragia o dem’ enganado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Pois que o preste viu que mõestamento nom lhe valia rem ũa vez nem cento, escomungou-o entom por escarmento, cuidando que fosse per i castigado. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas el por aquesto nom deu nemigalha, nem preçou sa escomunhom ũa palha. Entanto, o preste morreu, e, sem falha, ficou o vilão del escomungado. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E durou depois muit’ em esta maldade, atá que caeu em grand’ enfermidade, que lhe fez cambiar aquela voontade, e do que fezera sentiu-se culpado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E quis comungar e filhar pedença, mais nom lha quiserom dar pola sentença em que el jazia por sa descreença, mais mandarom-lhe que foss’ a seu prelado. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, logo que pôdo, foi a el correndo, 144 46 48 e seu mal lhe disse, chorand’ e gemendo; e ele lhe disse, per quant’ eu entendo: “– Vai-te ao papa, ca muit’ hás errado”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX El, quand’ est’ oiu, houv’ alegria fera, e foi log’ a Roma, u o papa era, e disso-lh’ aquelo sobre que vera. El mandou-o livrar a um seu privado, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que lhe disse: se livre seer queria, que lhe déss’ algo; se nom, no-no seria. El dar nom lho pôde, ca o nom tragia, e porém foi-se mui trist’ e mui coitado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E pensou que sempr’ assi jamais andasse atá que algum bom crischão achasse que lhe nom pediss’ e que o conselhasse como saísse daquel mao estado. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Atám muit’ andou per terras e per mares, sofrendo trabalhos muitos e pesares, buscando ermidas e santos logares u achasse tal hom’; e tant’ houv’ andado 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII que achou um home mui de santa vida na Montanha Negra, em ũa ermida; e, pois sa fazenda toda houv’ oída, houve do cativo gram doo ficado; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e disse-lh’: “– Amigo, se me tu creveres e desta ta coita bom conselho queres, vai a ’lexandria, e, se o fezeres, dar-ch’-á i conselho um fol trosquiado”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Quand’ aquest’ oiu aquel home cativo, quiser’ entom seer mais morto ca vivo; e semelhou-lhe conselho muit’ esquivo, e teve-s’ entom já por desasperado. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E diss’: “– Aquesto semelha-me trebelho, que, poi-lo papa nem todo seu concelho em este feito nom me derom conselho, como mi_o dará o que é fol provado?” 94 96 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] 145 XVII 100 102 E o ermitám lhe diss’ entom: “– Sandece nom há em aquel senom quanto parece aas gentes, e tod’ aquest’ el padece por lhe seer de Deus pois galardõado”. R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E o home disse: “– Pero eu fezesse esto, nom cuido que mi_o ele crevesse se lh’ ant’ algũa vossa carta nom désse per que fosse del creúd’ e ascuitado”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX E o ermitám deu-lhe sa carta logo que lhe levasse, e disse-lh’: “– Eu te rogo que lha leves, e, se em este meogo morreres, morrerás de Deus perdõado”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX Foi-s’ o hom’ e punhou de chegar mui cedo a Alexandria (que come Toledo é grand’, ou maior); mais ia com gram medo de nom haver ali seu preit’ encimado. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI E morou ena vila bem quinze dias, buscand’ o fol per carreiras e per vias; e, poi-lo nom achou, disso: “– A Messias poss’ eu haver ante que aquest’ achado”. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII Esto dizendo, viu viir muita gente escarnecend’ um home mui feramente, mui magr’ e roto e de fol contenente; e diss’: “– Aquest’ é o que tant’ hei buscado; 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 pero, se aquest’ é fol, pela ventura, aguardá-lo-ei té ena noit’ escura; ca, se el nom é bem louco de natura, algur irá long’ albergar apartado”. 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 Dizend’ aquesto, foi-s’ a noite chegando, e o sandeu foi-se da gent’ esfurtando, e el depos el, sempre o aguardando, atá que o viu mui longe do poblado, 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] XXV u entrava em ũa igreja vedra, mui bem feita tod’ a bóveda de pedra, pero com velhece já cuberta d’ hedra, que fora d’ antigo lugar muit’ honrado. 148 150 R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] 146 XXVI 154 156 Pois aquel fol na igreja foi metudo, nom vos semelharia fol, mais sisudo; ca se deitou log’ ant’ o altar tendudo, chorando muito com’ havia usado. R26 157-158 [Refrão = vv. 1-2] XXVII 160 E, des i, ergeu-s’, e, como quem s’ aparta, tomou dum pam d’ horjo quant’ é ũa quarta po-lo comer, mas o home deu-lh’ a carta ante que uviasse comer nem bocado. 162 R27 163-164 [Refrão = vv. 1-2] XXVIII 166 E, pois que a carta houve bem leúda e houv’ a razom dela bem entenduda, disse-lhe chorand’: “– Eu vos farei ajuda, e seed’ esta noit’ aqui albergado; 168 R28 169-170 [Refrão = vv. 1-2] XXIX 172 e dormid’ agora, pois cansad’ andades; mais, pois que for noite, nada nom dormiades nem vos espantedes por rem que vejades, mais jazed’ em este lugar mui calado”. 174 R29 175-176 [Refrão = vv. 1-2] XXX E fez-lhe sa cama bem entre dous cantos; e a mea noite aqué-vo-los santos com Santa Maria, e chegarom tantos que todo o lugar foi alumado. 178 180 R30 181-182 [Refrão = vv. 1-2] XXXI 184 Os ángeos Santa Maria filharom e ena cima do altar a sentarom e os madudinhos todos bem cantarom, e o fol cantava com eles de grado. 186 R31 187-188 [Refrão = vv. 1-2] XXXII 190 E, pois que os houverom todos bem ditos de coraçom, ca nom per outros escritos, o fol chamou o outr’, e ’m golhos fitos vo ant’ a Virgem muit’ envergonhado. 192 R32 193-194 [Refrão = vv. 1-2] XXXIII 196 E diss’ o fol: “– Senhor santa piadosa, est’ hom’ em sentença jaz mui perigosa; mais tu, que és mui misericordiosa, solta-lh’ este laço em que jaz liado”. 198 R33 199-200 [Refrão = vv. 1-2] XXXIV 202 Respôs a Virgem com parávoas doces: “– Vai ora mui quedo e nom t’ alvoroces; e o que t’ escomungou, se o conhoces, chama-o ante mi, e serás soltado”. 204 147 R34 205-206 [Refrão = vv. 1-2] XXXV 208 Levantou-s’ o home, e com el o louco, e catou-os todos; mais tardou mui pouco que achou o preste, que nom era rouco de cantar, pero muit’ havia cantado. 210 R35 211-212 [Refrão = vv. 1-2] XXXVI 214 Des i, ant’ a Virgem todos três verom e de como fora o feito disserom; e ela disse, pois que lho dit’ houverom: “– Soltade-o, preste, pois sodes vingado”. 216 R36 217-218 [Refrão = vv. 1-2] XXXVII 220 Foi-s’ entom a Virgem, pois esto foi feito. E o fol ao outro moveu tal preito: que se foss’; e teve-s’ end’ el por maltreito, e disse: “– Sol de m’ ir nom será pensado, 222 R37 223-224 [Refrão = vv. 1-2] XXXVII 226 nem que vos eu leixe, assi Deus m’ ajude, cá, pois que m’ a Virgem mostrou tal vertude por vós que mià alma cobrou já saúde e o bem de Deus, de que era deitado”. 228 R38 229-230 [Refrão = vv. 1-2] XXXIX 232 O fol diss’ entom: “– Pois que ficar queredes, toda mià fazenda ora saberedes: nom sõo louco, nem vós no-no cuidedes, pero ando nuu e mui mal parado; 234 R39 235-236 [Refrão = vv. 1-2] XL ca esta terra foi de meu poderio, e meu linhagem a mantev’ a gram brio; e morrerom todos, e o senhorio me ficou end’ a mi, e fui rei alçado; 238 240 R40 241-242 [Refrão = vv. 1-2] XLI e, macar vos paresc’ ora tam astroso, muito fui loução, apost’ e fremoso, ardid’ e grãado, ric’ e poderoso, e de bõas manhas e bem costumado; 244 246 R41 247-248 [Refrão = vv. 1-2] XLII e, seend’ assi senhor de muitas gentes, vi morrer meu padr’ e todos meus parentes; e em mià fazenda entom parei mentes e daqueste mundo fui log’ enfadado; 250 252 R42 253-254 [Refrão = vv. 1-2] XLIII 256 entom cuidei logo como me partisse daquesta terra que neum nom me visse, e que como fol entr’ as gentes guarisse, 148 258 per que fosse do mundo mais despreçado; R43 259-260 [Refrão = vv. 1-2] XLIV 262 e por razom tive que em esta terra dos meus que sofresse desonra e guerra por amor de Deus, que aos seus nom erra e, po-los salvar, quis seer marteirado; 264 R44 265-266 [Refrão = vv. 1-2] XLV ainda vos direi mais de mià fazenda: d’ hoj’ a quinze dias serei, sem contenda, no paraíso, e dou-vos por comenda que atá entom sol nom seja falado”. 268 270 R45 271-272 [Refrão = vv. 1-2] XLVI 274 Assi esteverom, que nom se partirom, ambos de suu, e cada noite virom a Santa Maria; e, pois se comprirom estes quinze dias, o fol foi passado. 276 R46 277-278 [Refrão = vv. 1-2] XLVII 280 E Santa Maria, a que el servira porque se do bem deste mundo partira, levou del a alma, ca, des que a vira, e-na servir fora todo seu cuidado. 282 R47 283-284 [Refrão = vv. 1-2] XLVIII 286 E, pois que foi morto, quis Deus que soubessem sa mort’ os da vila e logo vessem sobr’ el fazer doo e lh’ honra fezessem com’ a seu senhor natural e amado, 288 R48 289-290 [Refrão = vv. 1-2] XLIX 292 que os havia mui gram temp’ enganados, e que o perderam pelos seus pecados; mas Deus por el logo miragres mostrados houve, por que fosse pois «santo» chamado. 294 R49 295-296 [Refrão = vv. 1-2] L 300 E gram doo fez por el seu companheiro, e, quant’ el viveu, foi sempr’ ali senlheiro, guardand’ o sepulcro; mas Deus verdadeiro levou-o consig’; e El seja loado. 302 A creer devemos que todo pecado Deus pola sa madr’ haverá perdõado. 298 R50 * * * 149 Cantigas de Santa Maria 66 «Quantos em Santa Maria» (E 66, T 66, U 78) Esta é como Santa Maria fez a um bispo cantar missa e deu-lh’ a vestimenta com que a dissesse, e leixou-lha quando se foi. E começa assi: R0 1 3 I 4 6 8 10 Quantos em Santa Maria esperança ham, bem se porrá sa fazenda. Os que m’ oem cada dia, e que m’ oirám, de grado lhes contaria miragre mui gram dum bom bispo que havia em Alverna, tam santo que viu, sem contenda, R1 11-13 [Refrão = vv. 1-3] II na capela u jazia, a do bom talám: vo com gram companhia desses que estám ante Deus e todavia por nós rogarám que El de mal nos defenda. 14 16 18 20 R2 21-23 [Refrão = vv. 1-3] III E a seu destro tragia sigo Sam Joám, que lh’ entom assi dizia “– Quaes cantarám a missa que converria, ou quaes dirám toda a outra leenda?; 24 26 28 30 R3 31-33 [Refrão = vv. 1-3] IV e dizede: quem seria vosso capelám?” E ela lhe respondia: “– O bispo que mam aqui, que sempre perfia filhou e afám por mi em esta prebenda”. 34 36 38 40 R4 41-43 [Refrão = vv. 1-3] V E logo pera el ia, e diss’ ao san-t’ hom’: “– Aquesta missa di-a, 44 46 150 48 50 e responderám esta santa crerizia, que bem saberám responder-ti, sem emenda”. R5 51-53 [Refrão = vv. 1-3] VI O bispo, quand’ est’ oía, logo manamám as vestimentas pedia; e taes lhas dam que home nom poderia preçá-las, de pram, nem a compra nem a venda. 54 56 58 60 R6 61-63 [Refrão = vv. 1-3] VII 64 E, pois que se revestia, come sacristám Sam Pedr’ o sino tangia, e os outros vam cantand’, e el beizia o vinh’ e o pam como a lee comenda. 66 68 70 R7 71-73 [Refrão = vv. 1-3] VIII 74 E, pois a missa compria bem sem adamám, diss’ a Virgem: “– Eu ir-m’-ia, e todos ir-s’-am; mais o que ti_eu dad’ havia no-no levarám, pois ti_o dei por oferenda”. 76 78 80 R8 81 83 Quantos em Santa Maria esperança ham, bem se porrá sa fazenda. * * * 151 Cantigas de Santa Maria 67 «A reinha groriosa tant’ é de gram santidade» (E 67, T 67, U 65) Esta é como Santa Maria fez ao home bõo conhocer que tragia consigo o demo por servente, e que o queria matar se nom pola oraçom que dizia sua. R0 2 I 4 6 A reinha groriosa | tant’ é de gram santidade que com esto nos defende | do dem’ e da sa maldade. E de tal razom com’ esta | um miragre contar quero que fezo Santa Maria, | aposto e grand’ e fero, que nom foi feito tam grande | bem de-lo tempo de Nero (que emperador de Roma | foi, daquela gram cidade). R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ond’ avo que um home | mui poderos’ e loução, sisud’ e fazedor d’ algo, | mas tant’ era bom crischão que tod’ ele por Deus dava | quanto colhia em mão, ca de todas outras cousas | mais amava caridade. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, por melhor fazer esto | que muit’ ele cobiçava, um hespital fezo fora | da vila u el morava, em que pam e vinh’ e carne | e pescad’ a todos dava, e leitos em que jouvessem | em ivern’ e em estade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, como quem há gram coita | de compri-lo que deseja, ele mancebos colhia | bem mandados, sem peleja, que aos pobres servissem. | Mas o demo, com enveja, meteu-s’ em um corpo morto | d’ home de mui gram beldade, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e vo pera el logo | mans’ e em bom contenente, e disse: “– Senhor, querede | que seja vosso sergente, e o serviço dos pobres | vos farei de bõa mente, pois vejo que vós queredes | e fazedes i bondade; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e sequer o meu serviço | haveredes endõado”. Quando lh’ o_hom’ oiu aquesto | dizer, foi ém mui pagado; e, demais, viu-o fremoso, | apost’ e bem razõado, e cuidou que nom andava | senom com gram lealdade. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Em esta guisa o demo, | cho de mal e arteiro, fez tanto que o bom home | o filhou por escudeiro; e em todos seus serviços | a el achava primeiro, 40 152 42 dizendo-lhe: “– Que queredes, | senhor?: a mim o mandade”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Tanto lhe soub’ o diabo | fazer com que lhe prouguesse que nunca lh’ ele dizia | cousa que el nom crevesse; demais, nom havia home | que o atám bem soubesse servir sempr’ em todas cousas | segundo sa voontade. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E porende lhe fazia | amude que caçasse enas montanhas mui fortes, | e eno mar que pescasse; e muitas artes buscava | per que o algur matasse, per que houvess’ el a alma, | e outr’ houvess’ a herdade. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Em tod’ est’ o home bõo, | per rem, mentes nom metia, e porém de bõa mente | u lh’ el conselhava ia; mas, quando se levantava, | ũa oraçom dizia da Virgem mui groriosa, | reinha de piedade. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E por aquest’ aquel demo | que lh’ andava por vassalo neum poder nom havia, | per nulha rem, de matá-lo; e pero dia nem noite | nom quedava de tentá-lo, macar lhe prol nom havia, | por mostrar sa crueldade. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Desta guisa o bom home, | que de santidade cho era, viveu mui gram tempo, | trões que um bisp’ i vo que foi sacar ao demo | logo as linhas do so, como vos contarei ora; | e por Deus, bem m’ ascuitade: 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Aquel bispo era home | sant’ e de mui bõa vida, e mui mais religioso | que se morass’ em ermida; e por aquesto o demo | tanto temeu sa vĩída, que disse que nom podia | servir por enfermidade. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Ond’ avo que um dia | ambos jantando siíam e que todo-los sergentes, | foras aquele, serviam; preguntou-lhes o bom home | u era; eles diziam que i servir nom vera | com míngua de sãidade. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Quand’ aquest’ oiu o bispo, | preguntou-lhe que hom’ era. E ele lhe contou todo, | de com’ a ele vera e como lhe lealmente | sempre serviço fezera. Diss’ o bispo: “– Venha logo, | ca de veê-l’ hei soidade”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Entom aquel home bõo | enviou por el correndo. 153 94 96 Quand’ esto soub’ o diabo, | andou muito revolvendo, mas pero na cima vo | ant’ eles todo tremendo; e poi-lo catou o bispo, | conhoceu sa falsidade. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII E diss’ ao home bõo: | “– Deus vos ama, bem sabiades, que vos quis guardar do demo | fals’, e de sas falsidades; e eu vos mostrarei ora | com’ est’ hom’ em que fiades é demo sem nulha dulta, | mas um pouco vos calade. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E entom diss’ ao demo: | “– Di-me toda ta fazenda, por que aquesta companha | todo teu feito aprenda; e eu te conjur’ e mando | que a digas sem contenda, per poder de Jesu-Cristo, | que é Deus em Trĩidade”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX Entom começou o demo | a contar de com’ entrara em corpo dum home morto, | com que enganar cuidara a aquel com que andava, | a que sem dulta matara se a oraçom nom fosse | da madre de claridade: 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 “– Quand’ el aquesta dizia, | sol nom era eu ousado de lhe fazer mal niũu”. | E, pois est’ houve contado, leixou caer aquel corpo | em que era enserrado, e esvãeceu ant’ eles, | como x’ era vãidade. 122 A reinha gloriosa | tant’ é de gram santidade que com esto nos defende | do dem’ e da sa maldade. 118 R20 * * * 154 Cantigas de Santa Maria 68 «A groriosa grandes faz» (E 68, T 68, U 68) Esta é como Santa Maria avo as duas combooças que se queriam mal. R0 2 I 4 6 A groriosa grandes faz miragres por dar a nós paz. E dest’ um miragre direi fremoso, que escrit’ achei, que fez a madre do gram rei, em que toda mesura jaz, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II pola molher dum mercador que, porque seu marid’ amor havia com outra, sabor dele perdia e solaz. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E por esto queria mal a sa combooça mortal; e Santa Maria, sem al, rogava que lhe déss’ assaz R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 coita e mal, porque perder lhe fazia o gram prazer que seu marido lhe fazer soía na vila d’ Arraz. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E, pois fez esta oraçom, adormeceu-se log’ entom; e, dormindo, viu em vijom Santa Maria com grand’ az R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 d’ ángeos, que lhe diss’ assi: “– A ta oraçom bem oí; mas pero nom convém a mi fazer crueza, nem me praz; R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 demais, aquela vai ficar os golhos ant’ o altar meu e cem vezes saudarme, põend’ em terra sa faz”. 155 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Tantost’ aquela s’ espertou e fois-s’; e na rua topou co-na outra, que se deitou ant’ ela e disse: “– Malvaz R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 demo foi, chus negro ca pez, que m’ este torto fazer fez contra vós; mas já outra vez no-no farei, pois vos despraz”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Assi a Virgem avĩir fez estas duas, sem falir, que x’ ant’ haviam, sem mentir, denteira come com agraz. 62 A groriosa grandes faz miragres por dar a nós paz. 58 R10 * * * 156 Cantigas de Santa Maria 69 «Santa Maria os enfermos sãa» (E 69, T 69, U 54) Esta é como Santa Maria fez oir e falar ao que era sordo e mudo, em Toledo. R0 2 I 4 6 Santa Maria os enfermos sãa, e os sãos tira de via vãa. Dest’ um miragre quero contar ora, que dos outros nom deve seer fora, que Santa Maria, que por nós ora, grande fez na cidade toledãa, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II seend’ i o emperador d’ Espanha e d’ homes honrados gram companha com el, e cavalaria tamanha que dentro nom cabiam ne-na chãa. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ali entom um monge foi vĩúdo que del-com Dom Ponç’ era conhoçudo, e troux’ um seu irmão sord’ e mudo que chamavam Pedro de Solarãa. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Aqueste nom falava nem oía, mas per sinas todo bem entendia o que lhe mandavam, e o fazia, ca nom vos havia el outr’ açãa. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pero nom oía nem falava, em Santa Maria muito fiava, e chorand’ e mugindo lhe rogava que o sãasse. E ũa manhãa 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI lh’ avo que foi perant’ a igreja e viu dentro claridade sobeja, e entre si disse: “– Se Deus me veja, esta claridade nom é humãa”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois isto, viu um home mui fremoso, vestido bem come religioso, que no levar nom foi mui preguiçoso cab’ o altar u tangem a campãa 40 42 157 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII do Córpus Dómini. E viu estando um hom’ ant’ o altar, bem como quando está o que diz missa consagrando a hóstia a costume romãa. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E a destro viu estar da capela de gram fremosura ũa donzela, que de faiçom e de coor mais bela era que nom ést’ a nev’ e a grãa, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que lhe fezo sinas que se chegasse ant’ o preste e que s’ agolhasse; e ao preste fez que o catasse a Virgem piedosa e louçãa, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que lhe meteu o dedo na orelha e tirou-lh’ end’ um vermem a semelha destes do sirgo, mas come ovelha era velos’ e coberto de lãa. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E tantost’ [o] oir houve cobrado e foi-s’ a casa do monge privado, e logo per sinas lh’ houve mostrado que já oía o gal’ e a rãa. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Entom corrend’ o monge como cerva se foi a cas Dom Ponço de Minerva, e disse: “– Conde, nom sei com qual erva oe Pedr’, e a orelha lhe mãa”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E entom diss’ el-conde muit’ aginha: “– M’ ide polo que fez a meezinha, ca bem lheu é maestre de Mecinha (ou de Salerna), a ciziliãa”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E depus isto, vernes madurgada, levava vinh’ e pam aa pousada Pedro do monge, u fez sa passada perant’ a porta que é mais jusãa 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI da igreja; e ia pela mão com el um preste. E viu bem de chão Pedro vĩir a si um home cão 94 158 96 ena cabeça, e a barva cãa, R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII que o tirou contra si mui correndo e foi-o ena eigreja metendo, u viu, a preto do altar, seendo a Virgem, d’ Elisabet coirmãa, 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 que mandou ao preste revestido que lhe fezera cobrá-lo oído, que lhe fezesse que logo guarido fosse da língua, que nom dissess’ ‘ãa’. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX Logo o que mandou ela foi feito, ca o preste sabia de tal preito; porém da língua, ond’ era contreito, lhe fez falar parávoa certãa. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX E, pois sãidad’ houve recebuda, diss’ a gram voz: “– Madre de Deus, ajuda ao teu servo, que há conhoçuda a ta graça”; e cantou antivãa. 118 120 R20 121-122 ão = vv. 1-2] XXI 126 Quantos aqueste miragre souberom, a Santa Maria loores derom; e tantos aa eigreja verom que nom cabiam i nem na quintãa. 128 Santa Maria os enfermos sãa, e os sãos tira de via vãa. 124 R21 * * * 159 Cantigas de Santa Maria 70 «Eno nome de Maria» (E 70, T 80, U 80) Esta é de loor de Santa Maria, das cinque lêteras que há no seu nome e o que querem dizer. R0 2 6 M [= eme] mostra madr’ e maior e mais mansa e mui melhor de quant’ al fez Nostro Senhor nem que fazer poderia. 8 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. I 4 R1 12 A demostra avogada, aposta e aorada, e amiga e amada da mui santa companhia. 14 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. II 10 R2 18 R [= erre] mostra ram’ e raiz, e reinh’ e emperadriz, rosa do mundo; e fiiz que-na visse, bem seria. 20 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. III 16 R3 24 I nos mostra Jesu-Cristo, justo juiz, e por isto foi per ela de nós visto, segum disso Isaía. 26 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. IV 22 R4 V 30 A ar diz que haveremos e que tod’ acabaremos aquelo que nós queremos de Deus, pois ela nos guia. 32 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. 28 R5 Eno nome de Maria cinque letras, nom mais, i há. * * * 160 Cantigas de Santa Maria 71 «Se muito nom amamos, gram sandece fazemos» (E 71, T 71, U 91) Esta é como Santa Maria mostrou aa monja como dissesse brevement’ avemaria. R0 2 I 4 6 Se muito nom amamos, | gram sandece fazemos, a senhor que nos mostra | de como a loemos. E porend’ um miragre | vos quero dizer ora que fez Santa Maria, | a que nunca demora a buscar-nos carreiras | que nom fiquemos fora do reino de seu filho, | mais per que i entremos. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E direi dũa monja | que em um mõesteiro houve, de santa vida, | e filhava lazeiro em loar muit’ a Virgem, | ca um gram livr’ enteiro rezava cada dia, | como nós aprendemos, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III de grandes orações | sempre, noites e dias. E, sem esto, rezava | bem mil avemarias, porque veer podesse | a madre de Messias, que os judeus atendem | e que nós já havemos. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Tod’ aquesto dizia | chorando e gemendo, e sospirava muito; | mais rezava correndo aquestas orações. | E porém, com’ aprendo, viu a Santa Maria, | com’ agora diremos, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V dentro no dormidoiro, | em seu leit’, u jazia por dormir, mui cansada, | e pero nom dormia. Entom a Virgem santa | ali lh’ aparecia, madre de Jesu-Cristo, | aquel em que creemos. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quando a viu a monja, | espantou-se jaquanto, mais a Virgem lhe disse: | “– Sol nom prendas espanto, ca eu sõo aquela | que hás chamada tanto; e sei ora mui leda, | e um pouco falemos”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Respôs entom a monja: | “– Virgem santa, reinha, como veer quisestes | ũa monja mesquinha?: esto mais ca mesura | foi, e porend’ aginha levade-nos convosco, | que sem vós nom fiquemos”. 40 42 161 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Disse Santa Maria: | “– Esto farei de grado, ca já teu lugar tes | no ceo apartado; mais, mentre fores viva, | um rezar ordinhado che mostrarei que faças, | ca jaquê ém sabemos: 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX se tu queres que seja | de teu rezar pagada, u dize-la saúde | que me foi enviada pelo ángeo santo, | di-a assessegadamente, e nom te coites; | ca certo che dizemos 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que, quand’ ouço u fala | como Deus foi comigo, tam gram prazer hei ende, | amiga, que che digo que entom me semelha | que Deus, Padr’ e amigo e filh’, em nosso corpo | outra vez bem temos; 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI e porém te rogamos | que filhes tal maneira de rezares mui passo, | amiga companheira, e duas partes leixa | e di bem a terceira de quant’ ante dizias, | e mais t’ end’ amaremos”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Pois dit’ houv’ esto, foi-se | a Virgem groriosa. E des entom a monja | sempre muit’ homildosamente assi dizia | como lh’ a piadosa mostrara que dissesse, | daquesto nom dultemos. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 Ca sempr’ avemaria | mui bem e passo disse; e, quando deste mundo | quis Deus que se partisse, fez levar a sa alma | ao ceo, u visse a sa beita madre, | a que loores demos. 80 Se muito nom amamos, | gram sandece fazemos, a senhor que nos mostra | de como a loemos. 76 R13 * * * 162 Cantigas de Santa Maria 72 «Quem diz mal» (E 72, T 72, U (Ap) 13) Esta é como o demo matou a um tafur que dostou a Santa Maria porque perdera. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Quem diz mal da reinha espirital, log’ é tal que merec’ o fog’ infernal. Ca nom pode dela dizer mal em que a Deus tanger nom haja, que quis nacer dela por Natal. [Refrão = vv. 1-4] E desto vos quero contar miragre que quis mostrar Deus por sa madre vingar dum mui mentiral, [Refrão = vv. 1-4] que ena taverna beveu e aos dados perdeu alg’, e porém descreeu mui descomunal[Refrão = vv. 1-4] mente; ca a Deus dostou, e sa madre nom leixou, e em seus nembros travou come desleal. [Refrão = vv. 1-4] E, u [el] quis do ventre seu dizer mal, morte lhe deu Deus come a fals’ encreu que de razom sal. [Refrão = vv. 1-4] [E] seu padre, quand’ est’ oiu, de sa cas’ entom saiu; na via um morto viu bem di natural, [Refrão = vv. 1-4] que lhe disse atal razom: “– Teu filho, mui mal garçom, 163 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 90 92 é mort’ e em perdiçom que nunca mais fal: [Refrão = vv. 1-4] nom porque de Nostro Senhor disse mal, mas que da fror, sa madre, disse peior; e porém sinal [Refrão = vv. 1-4] ti dou [tal]: que o acharás pelas costas tod’ atrás partid’, e lh’ o cor verás assi per igual, [Refrão = vv. 1-4] e a testa e a serviz; porque da emperadriz disse mal, Deus foi joiz, que pod’ e que val”. [Refrão = vv. 1-4] E o padre foi log’ ali, e achou seu filh’ assi como vos já retraí, bem oístes qual. Quem diz mal da reinha espirital, log’ é tal que merec’ o fog’ infernal. * * * 164 Cantigas de Santa Maria 73 «Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar» (E 73, T 73, U 89) Esta é como Santa Maria tornou branca a casula que tingira o vinho vermelho. E começa assi: R0 2 I 4 6 Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar a que pod’ os pecados das almas lavar. E dest’ um miragre fremoso vos direi que avo na Clusa, com’ escrit’ achei, que fez Santa Maria; e creo e sei que mostrou outros muitos em aquel logar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II De monges gram convento eram i entom, que serviam a Virgem mui de coraçom. Um tesoureir’ i era aquela sazom que Santa Maria sabia muit’ amar; 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III e, quando algũa cousa lh’ ia falir, log’ a Santa Maria o ia pedir, e ela lho dava; porend’ e-na servir era todo seu sis’ e todo seu cuidar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde lh’ avo que na festa de Natal, que diziam os monges missa matinal, filhou ũa casula de branco cendal po-la ir põer entom sobe-lo altar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E filhou na outra mão, com’ aprendi, vinho com que fezessem sacrifiç’ ali; e, indo na carreira, avo-lh’ assi: que houv’ em ũa pedra a entrepeçar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E avo-lh’ assi: que, quand’ entrepeçou, que do vinho sobre-la casula ’ntornou, que era mui vermelho; e tal a parou como se sangue fresco fossem i deitar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E aquel vinh’ era de vermelha coor e espessa tam muito que nium tintor vermelho nom poderia fazer melhor, 40 165 42 e, u caía, no-no podiam tirar. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quando viu o mong’ esto, pesou-lhe tant’ ém que per poucas houvera de perder o sém; e diss’ entom: “– Ai madre do que nos mantém, Virgem Santa Maria, e vem-mi_ajudar!; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e nom me leixes em tal vergonha caer com’ esta, ca já nunca, enquant’ eu viver, nom ousarei ant’ o abad’ aparecer, nem u for o convento ousarei entrar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Esto dizend’ e chorando muito dos seus olhos, acorreu-lhe log’ a madre de Deus e fez tal vertude per que muitos romeus verom de mui long’ a casul’ aorar. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Ca, u vermelha era, tam branca a fez que o nom fora tanto da primeira vez. Porém Santa Maria, senhor de gram prez, loarom quantos oírom desto falar. 68 Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar a que pod’ os pecados das almas lavar. 64 R11 * * * 166 Cantigas de Santa Maria 74 «Quem Santa Maria quiser defender» (E 74, T 74, U 87) Esta é como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo. R0 2 I 4 6 Quem Santa Maria quiser defender, nom lhe pod’ o demo nium mal fazer. E dest’ um miragre vos quero contar de como Santa Maria quis guardar um seu pintor que punhava de pintar ela mui fremos’ a todo seu poder. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E ao demo mais feo doutra rem pintava el sempr’; e o demo porém lhe disse: “– Por que me tes em desdém?, ou por que me fazes tam mal parecer 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III a quantos me veem?” E el diss’ entom: “– Esto que ch’ eu faço é com gram razom, ca tu sempre mal fazes, e do bem nom te queres per nulha rem entrameter”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Pois est’ houve dit’, o demo s’ assanhou e o pintor ferament’ amaçou de o matar, e carreira lhe buscou per que o fezesse mui cedo morrer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Porend’ um dia o espreitou ali u estava pintando, com’ aprendi, a omagem da Virgem, segund’ oí, e punhnava de a mui bem compõer, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI por que parecesse mui fremos’ assaz. Mais entom o dem’, em que todo mal jaz, trouxe tam gram vento como quando faz mui grandes torvões e que quer chover. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois aquel vento na igreja entrou, em quanto o pintor estava deitou em terra; mas el log’ a Virgem chamou, madre de Deus, que o vess’ acorrer. 40 42 167 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E ela logo tantoste lh’ acorreu e fez-lhe que eno pinzel se sofreu com que pintava; e porém nom caeu, nem lhe pôd’ o dem’ em rem empeecer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E ao gram som que a madeira fez verom as gentes logo dessa vez, e virom o demo mais negro ca pez fugir da igreja u s’ ia perder. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E ar virom com’ estava o pintor colgado do pinzel. E porém loor derom aa madre de Nostro Senhor, que aos seus quer na gram coita valer. 62 Quem Santa Maria quiser defender, nom lhe pod’ o demo nium mal fazer. 58 R10 * * * 168 Cantigas de Santa Maria 75 «Homildade com pobreza» (E 75, T 75, U 99) Esta é como Santa Maria fez veer ao crérigo que era melhor pobreza com homildade ca requeza mal gãada com orgulho e com sobêrvia. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII Homildade com pobreza quer a Virgem corõada, mas d’ orgulho com requeza é ela mui despagada. E desta razom vos direi | um miragre mui fremoso que mostrou Santa Maria, | madre do rei grorioso, a um crérigo que era | de a servir desejoso; e porém gram maravilha | lhe foi per ela mostrada. [Refrão = vv. 1-4] Ena vila u foi esto | havia um usureiro mui ric’ e muit’ orgulhoso | e soberv’ e torticeiro; e por Deus nem por sa madre | nom dava sol um dinheiro, e de seu corpo pensava | muit’, e de sa alma nada. [Refrão = vv. 1-4] Outrossi em essa vila | era ũa velhocinha mui cativa e mui pobre | e de tod’ haver mesquinha; mas amava Jesu-Cristo | e a sa madr’, a reinha, mais que outra rem que fosse; | e com tant’ era pagada [Refrão = vv. 1-4] tam muito que nom preçava | deste mundo nemigalha; e porend’ em ũa choça | morava, feita de palha, e vivia das esmolnas | que lhe davam; e, sem falha, mui mais se pagava desto | ca de seer bem herdada. [Refrão = vv. 1-4] E estando desta guisa, | deu a ela féver forte, e outrossi ao rico, | per que chegarom a morte: mas a velha aa Virgem | havia por seu conorte, e o rico ao demo, | que lhe deu morte coitada. [Refrão = vv. 1-4] Mas o capelám correndo, | quando soube com’ estava o rico, vo aginha, | porque del haver cuidava gram peça de seus dinheiros, | ca el por al nom catava; e diss’: “– Esta ’nfermidade | semelha muit’ aficada; [Refrão = vv. 1-4] e porend’ eu vos conselho | que fagades testamento, 169 54 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 e dad’ a nossa igreja | sequer cem marcos d’ arento; ca, de quant’ aqui nos derdes, | vos dará Deus, por um, cento, e desta guis’ haveredes | no paraíso entrada”. [Refrão = vv. 1-4] A molher, a que pesava | de quequer que el mandasse, diss’ ao crérigo toste | que daquesto se calasse, ca seu marido guarria, | e que folgar o leixasse: entretanto sa fazenda | haveria ordinhada. [Refrão = vv. 1-4] Ao crérigo pesava | desto que lh’ ela dizia, mas, por rem que lhe dissese, | partir nom s’ ende queria; e o ric’ entom com sanha | mui bravo lhe respondia: “– Na molher e enos filhos | hei mià alma já leixada”. [Refrão = vv. 1-4] O crérig’ assi estando, | de se nom ir perfiado, ũa moça a el vo | que lhe trouxe tal mandado da velha: como morria, | e que lhe désse recado com’ houvesse mãefesto | e que fosse comungada. [Refrão = vv. 1-4] Diss’ el entom: “– Vai-te logo, | ca bem vees com’ eu fico aqui com est’ home bõo, | que é honrad’ e mui rico, que nom leixarei agora | pola velha, que no bico tem a mort’ há mais dum ano | e pero nom é finada”. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ aquest’ oiu a moça | da velha, foi-se correndo e achou-a mui coitada | e co-na morte gemendo, e disso-lh’: “– Aquel moogo | nom verrá, per quant’ entendo, nem per el, macar moirades, | nom seredes soterrada”. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ est’ entendeu a velha, | foi mui trist’ a maravilha e disso: “– Santa Maria | Virgem, de Deus madr’ e filha, vem por mià alm’, e nom pares | mentes a mià pecadilha, ca nom hei quem me comungue | e sõo desamparada”. [Refrão = vv. 1-4] Em casa do ric’ estava | um crérigo d’ avangeo que ao capelám disse: | “– Vedes de que me receo: se aquesta velha morre, | segund’ eu entend’ e creo, será-vos de Jesu-Cristo | a sa alma demandada”. [Refrão = vv. 1-4] E o capelám lhe disse: | “– Esto nom me conselhedes: que eu leix’ est’ home bõo; | mais id’ i, se ir queredes, e, de quant’ alá gãardes, | nulha parte nom me dedes”. E o evangelisteiro | se foi logo, sem tardada, [Refrão = vv. 1-4] 170 XVI 126 128 R16 129-132 XVII 134 136 R17 137-140 XVIII 142 144 R18 145-148 XIX 150 152 R19 153-156 XX 158 160 R20 161-164 XXI 166 168 R21 169-172 XXII 174 176 R22 177-180 XXIII 182 184 R23 185-188 XXIV 190 192 R24 193-196 e filhou o Corpus Christi | e o cáliz da igreja; e, quando foi aa choça, | viu a que beita seja, madre do que se nom paga | de torto nem de peleja, seend’ aa cabeceira | daquela velh’ assentada. [Refrão = vv. 1-4] E viu com ela na choça | ũa tam gram claridade que bem entendeu que era | a senhor de piedade. E el tornar-se quisera, | mas disso-lh’ ela: “– Entrade co-no corpo de meu filho, | de que eu fui emprenhada”. [Refrão = vv. 1-4] E, pois entrou, viu a destro | estar ũas seis donzelas vestidas de panos brancos, | muit’ apostas e mais belas que som lílios nem rosas, | mas pero nom de concelas, outrossi nem d’ alvaialde, | que faz a cara ’nrugada; [Refrão = vv. 1-4] e siíam assentadas | em palha, nom em tapede; e disse a Virgem santa | ao crérigo: “– Seede, e aquesta molher bõa | comungad’ e assolvede, como ced’ a paraíso | vaa, u tem já pousada”. [Refrão = vv. 1-4] O crérigo, macar teve | que lhe dizia dereito a Virgem Santa Maria, | nom quis com ela no leito seer, mais fez aa velha | que se ferisse no peito com sas mãos e dissesse: | “– Mià culpa, ca fui errada”. [Refrão = vv. 1-4] E, pois foi mãefestada, | Santa Maria alçou-a com sas mãos, e tantoste | o crérigo comungou-a; e, des que foi comungada, | u xe jazia deitou-a; e disse-lh’ entom a velha: | “– Senhor, nossa avogada, [Refrão = vv. 1-4] nom me leixes mais no mundo | e leva-me já contigo u eu veja o teu filho, | que é teu padr’ e amigo”. Respôs-lhe Santa Maria: | “– Mui cedo serás comigo; mais quero que, ant’, um pouco | sejas já-quanto purgada, [Refrão = vv. 1-4] por que, tanto que morreres, | vaas log’ a paraíso e nom hajas outr’ empeço, | mais sempre goio e riso, que perdeu per sa folia | aquel rico de mal siso, por que sa alma agora | será do demo levada”. [Refrão = vv. 1-4] E ao crérig’ ar disse: | “– Ide-vos, ca bem fezestes, e muito sõo pagada | de quam bem aqui vestes; e, par Deus, melhor conselho | ca o capelám tevestes, que ficou com aquel rico | por levar del gram soldada”. [Refrão = vv. 1-4] 171 XXV 198 200 R25 201-204 XXVI 206 208 R26 209-212 XXVII 214 216 R27 217-221 XXVII 222 224 R28 225-229 XXIX 230 232 R29 233-236 XXX 238 240 R30 241-244 XXXI 246 248 R31 249-252 XXXII 254 256 R32 257-260 XXXII 262 264 Entom o crérigo foi-se | a cas do rico maldito, u o capelám estava | ant’ el em golho fito; e ar viu a casa cha, | per com’ eu achei escrito, de diabos que veram | por aquel’ alma julgada. [Refrão = vv. 1-4] Entonce se tornou logo | aa choça u leixara a velha, e viu a Virgem | tam fremosa e tam crara que o chamou com sa mão | como xo ante chamara, dizendo: “– Já levar quero | a alma desta menguada”. [Refrão = vv. 1-4] Entom disse aa velha: | “– Vem-te comig’, ai amiga, ao reino de meu filho, | ca nom há rem que che diga que te log’ em el nom colha, | ca El dereito joíga”. E tantost’ a molher bõa | foi deste mundo passada. [Refrão = vv. 1-4] E ao crérig’ a Virgem | disse que mui bem fezera e que mui bem s’ acharia | de quanto ali vera; demais, faria-lh’ ajuda | mui ced’ em gram coita fera; e, pois aquest’ houve dito, | foi-s’ a bem-aventurada. [Refrão = vv. 1-4] E, enquant’ a Virgem disse, | sempr’ o crérig’ os golhos teve ficados em terra, | chorando muito dos olhos; e tornou-s’ a cas do rico, | e houv’ i outros antolhos: ca viu de grandes diabos | a casa toda cercada. [Refrão = vv. 1-4] E, pois que entrou, viu outros | maiores que os de fora, muit’ espantosos e feos, | e negros mui mais ca mora, dizendo: “– Sal acá, alma, | ca já tempo é e hora que polo mal que feziste | sejas sempr’ atormentada”. [Refrão = vv. 1-4] E a alm’ assi dizia: | “– Que será de mim, cativa?: mais valvera que nom fosse | eu em este mundo viva, pois hei de sofrer tal coita | no inferno, tam esquiva!; agora a Deus prouguesse | que foss’ em poo tornada!”. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ o crérigo viu esto, | filhou-se-lh’ ende tal medo que de perder se houvera; | mas acorreu-lhe mui cedo a Virgem Santa Maria, | que o tirou pelo dedo fora daquel logar mao, | como senhor mesurada. [Refrão = vv. 1-4] E disse-lhe: “– Para mentes | em quant’ agor’ aqui viste, [e] outrossi ena choça, | ali u migo seviste; que bem daquela maneira | que o tu tod’ entendiste o conta log’ aas gentes | sem niũa delongada”. 172 R33 265-268 XXXI 270 272 R34 274 276 [Refrão = vv. 1-4] O crérigo fez mandado | da Virgem, de bem comprida, e, mentre viveu no mundo, | foi home de santa vida; e depois, quando lh’ a alma | de sa carne foi saída, levou-a Santa Maria; | e ela seja loada. Homildade com pobreza quer a Virgem corõada, mais d’ orgulho com requeza é ela mui despagada. * * * 173 Cantigas de Santa Maria 76 «Que-nas sas figuras da Virgem partir» (E 76, T 76) Esta é como Santa Maria deu seu filho aa bõa molher, que era morto, em tal que lhe désse o seu que filhara aa sa omagem dos braços. E começa assi: R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 Que-nas sas figuras | da Virgem partir quer das de seu filho, | fol é, sem mentir. Porend’ um miragre | vos quer’ eu ora contar mui maravilhoso, | que quis a Virgem mostrar por ũa molher que | muito [con]fiar sempr’ em ela fora, | segund fui oir. [Refrão = vv. 1-2] Esta molher bõa | ho[u]v’ um filho malfeitor e ladrom mui fort’, e | tafur e pelejador; e tanto lh’ andou o | dem’ em derredor que o fez nas mãos | do juiz vĩir. [Refrão = vv. 1-2] E, poi-lo achou com | furto que fora fazer, mandou-o tantoste | em ũa forca põer; mas sa madr’ houvera | por el a perder o sém, e com coita | filhou-s’ a carpir. [Refrão = vv. 1-2] E, como molher que | era fora de [seu] sém, a ũa eigreja | foi da madre do que tem o mund’ em poder, e | [er] disse-lhe: “– Rem nom podes se meu filho nom resurgir”. [Refrão = vv. 1-2] Pois est’ houve dito, | tam gram sanha lhe creceu que aa omagem | foi e lh’ o filho tolheu, per força, dos braços | e desaprendeu, dizend’: “– Este terrei | eu trões que vir [Refrão = vv. 1-2] o meu sã’ e vivo | vĩir, sem lijom nem mal”. Quand’ est’ houve dito, | log’ a madre ’spirital resurgiu o dela, | que vo, sem al, dizendo: “– Sandia, | mal fuste falir, [Refrão = vv. 1-2] madre, porque fuste | filhar seu filho dos seus braços da omagem | da Virgem, madre de Deus; 174 42 R7 43-44 VIII [Refrão = vv. 1-2] 48 [E] quand’ a molher viu | o gram miragre que fez a Virgem Maria, | que é senhor de gram prez, tornou-lhe seu filho; | e log’ essa vez meteu-s’ em ordem, po-la melhor servir. 50 Que-nas sas figuras da Virgem partir quer das de seu filho, fol é, sem mentir. 46 R8 porém m’ enviou que | [eu] entr’ ontr’ os teus, per que tu bem possas | comigo goir”. * * * 175 Cantigas de Santa Maria 77 «Da que Deus mamou o leite do seu peito» (E 77, T 77) Esta LXXVII é como Santa Maria sãou na sa igreja de Santa Maria de Lugo ũa molher contreita dos pees e das mãos. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 Da que Deus mamou o leite do seu peito, nom é maravilha de sãar contreito. Desto fez Santa Maria miragre fremoso ena sa igrej’ em Lugo, grand’ e piadoso, por ũa molher que havia tolheito o mais de seu corp’, e de mal encolheito, [Refrão = vv. 1-2] que amba-las suas mãos assi s’ encolheram que bem por cabo dos ombros todas se meteram, e os calcanhares bem em seu dereito se meterom todos no corpo maltreito. [Refrão = vv. 1-2] Pois viu que lhe nom prestava nulha meezinha, tornou-s’ a Santa Maria, a nobre reinha, rogando-lhe que nom catasse despeito, se lh’ ela fezera, mais a seu proveito [Refrão = vv. 1-2] parasse mentes, em guisa que a guarecesse; se nom, que fezess’ assi per que cedo morresse; e logo se fezo levar em um leito ant’ a sa igreja, pequen’ e estreito. [Refrão = vv. 1-2] E ela, ali jazendo, fez mui bõa vida trões que lh’ houve mercee a senhor comprida eno mês d’ agosto, no dia ’scolheito, na sa festa grande, como vos retreito [Refrão = vv. 1-2] será agora per mim. Ca em aquele dia se fez meter na igreja de Santa Maria; mas a santa Virgem nom alongou preito, mas tornou-lh’ o corpo todo escorreito. [Refrão = vv. 1-2] Pero avo-lh’ atal: que, ali u sãava, cada um nembro per si mui de rij’ estalava, bem come madeira mui seca de teito, 176 42 R7 43-44 VIII 46 48 R8 50 quando s’ estendia o nérvio_encolheito. [Refrão = vv. 1-2] O bisp’ e toda a gente, deante estando, veend’ aquest’ e oind’, e de rijo chorando, virom que miragre foi, e nom trasjeito; porende loarom a Virgem afeito. Da que Deus mamou o leite do seu peito, nom é maravilha de sãar contreito. * * * 177 Cantigas de Santa Maria 78 «Nom pode prender nunca morte vergonhosa» (E 78, T 78, U 53) Esta é como Santa Maria guardou um privado do conde de Tolosa que nom fosse queimado no forno, porque oía sa missa cada dia. R0 2 I 4 6 Nom pode prender nunca morte vergonhosa aquele que guarda a Virgem groriosa. Porém, meus amigos, rogo-vos que m’ ouçades um mui gram miragre que quero que sabiades que a Santa Virgem fez, per que entendades com’ aos seus servos é sempre piedosa. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E daquest’ avo, gram temp’ há já passado, que houv’ em Tolosa um conde mui preçado; e aquest’ havia um home seu privado que fazia vida come religiosa. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Entr’ os outros bes muitos que el fazia, mais que outra rem amava Santa Maria, assi que outra missa nunca el queria oir erg’ a sua, nem lh’ era saborosa. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E outros privados que com el-cond’ andavam haviam-lh’ enveja, e porende punhavam de com el volvê-lo, porque des i cuidavam haver com el-conde sa vida mais viçosa. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, sobr’ esto, tanto com el-conde falarom que aquel bom home mui mal com el mezcrarom; e de taes cousas a el o acusarom per que lhe mandava dar morte doorosa. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, que nom soubessem de qual morte lhe dava, por um seu caleiro atantost’ enviava e um mui gram forno acender lho mandava de lenha mui grossa que nom fosse fumosa. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E mandou-lhe que o primeiro que chegasse hom’ a el dos seus, que tantoste o filhasse e que sem demora no forno o deitasse, 40 178 42 e que i ardesse a carne del astrosa. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Outro di’ el-conde ao que mezcrad’ era mando’-o ir que fosse veer se fezera aquel seu caleiro o que lh’ ele dissera, dizend’: “– Esta via nom te seja nojosa”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, u ele ia cabo de sa carreira, achou ũ’ ermida que estava senlheira, u diziam missa bem de mui gram maneira de Santa Maria, a Virgem preciosa. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E logo tantoste entrou ena igreja e diss’: “– Esta missa, a comoquer que seja, oirei eu toda, por que Deus de peleja me guard’ e de mezcra maa e revoltosa”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Enquant’ el a missa oía bem cantada, teve já el-conde que a cous’ acabada era que mandara, e porém sem tardada enviou outr’ home, natural de Tolosa, 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII (e aquel hom’ era o que a mezcra feita houvera e toda de fond’ a cima treita), e disse-lhe: “– Logo vai corrend’ e asseita se fez o caleiro a justiça fremosa”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Tantoste correndo foi-s’ aquel fals’ arteiro, e nom teve via, mas per um semedeiro chegou ao forno; e logo o caleiro o deitou na chama fort’ e perigoosa. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV O outro, pois toda a missa houv’ oída, foi ao caleiro e disse-lh’: “– Hás comprid’ a voontade del-conde?” Diss’ el: “– Sem falida; se nom, nunca faça eu mià vida goiosa”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Entom do caleiro se partia tantoste aquel home bõo e per um gram recoste se tornou al-conde, e dentr’ em sa reposte contou-lh’ end’ a hestória maravilhosa. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Quando viu el-conde aquele que chegara ant’ ele viv’, e soube de como queimara 94 179 96 o caleir’ o outro (que aquele mezcrara), teve-o por cousa d’ oir muit’ espantosa. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII 102 E disse chorando: “– Virgem, beita sejas, que nunca te pagas de mezcras nem d’ envejas; porém farei ora per todas tas igrejas contar este feito e com’ és poderosa”. 104 Nom pode prender nunca morte vergonhosa aquele que guarda a Virgem groriosa. 100 R17 * * * 180 Cantigas de Santa Maria 79 «Ai Santa Maria» (E 79, T 79, U 42) Esta é como Santa Maria tornou a meninha que era garrida, corda, e levou-a sigo a paraíso. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Ai Santa Maria, quem se por vós guia quit’ é de folia e sempre faz bem. Porend’ um miragre | vos direi, fremoso, que fezo a madre | do rei grorioso, e de oir seer- | -vos-á saboroso, e prazer-mi_á ém. [Refrão = vv. 1-4] Aquesto foi feito | por ũa meninha que chamavam Musa, | que mui fremosinha era e aposta, | mas garridelinha e de pouco sém. [Refrão = vv. 1-4] E, esto fazendo, | a mui groriosa pareceu-lh’ em sonhos, | sobejo fremosa, com muitas meninhas | de maravilhosa beldad’; e porém [Refrão = vv. 1-4] quisera-se Musa | ir com elas logo. Mas Santa Maria | lhe diss’: “– Eu te rogo que, se mig’ ir queres, | leixes ris’ e jogo, orgulh’ e desdém; [Refrão = vv. 1-4] e, se esto fazes, | d’ hoj’ a trinta dias seerás comig’ entr’ | estas companhias de moças que vees, | que nom som sandias, ca lhes nom convém”. [Refrão = vv. 1-4] Atant’ houve Musa | sabor das companhas que em visom vira, | que leixou sas manhas e filhou log’ outras, | daquelas estranhas, e nom quis alrem. [Refrão = vv. 1-4] O padr’ e a madre, | quand’ aquesto virom, preguntarom Musa; | e, pois que lh’ oírom 181 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 82 84 contar o que vira, | mercee pedirom a que-nos mantém. [Refrão = vv. 1-4] A vint’ e seis dias | tal féver aguda filhou log’ a Musa | que jouve tenduda; e Santa Maria | lh’ houv’ apareçuda, que lhe disse: “– Vem, [Refrão = vv. 1-4] vem pera mi toste”. | Respôs-lhe: “– De grado”. E quando o prazo | dos dias chegado foi, seu espirito | houve Deus levado u dos outros tem [Refrão = vv. 1-4] santos. E porém seja de nós rogado que eno joízo, | u verrá irado, que nos ache quitos | d’ err’ e de pecado; e dized’: “Amém!” Ai Santa Maria, quem se por vós guia quit’ é de folia e sempre faz bem. * * * 182 Cantigas de Santa Maria 80 «De graça cha e d’ amor» (E 80, T 70, U 90) Esta é de loor de Santa Maria, de como a saudou o ángeo. R0 2 I De graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 6 Santa Maria, se te praz, pois nosso bem tod’ em ti jaz e que teu filho sempre faz por ti o de que hás sabor, 8 de graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 4 R1 II 12 E pois que contigo é Deus, acorr’ a nós, que somos teus, e faz-nos que sejamos seus e que perçamos del pavor. 14 De graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 10 R2 III 18 Ontr’ as outras molheres tu és beita porque JesuCristo parist’; e porend’, u nos for mester, razõador 20 De graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 16 R3 IV 24 sei por nós, pois que beit’ é o fruito de ti, a-la-fé; e, pois tu sees u El sé, roga por nós u mester for. 26 De graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 22 R4 V 30 Punha, senhor, de nos salvar, pois Deus por ti quer perdõar mil vegadas, se mil errar eno dia o pecador. 32 De graça cha e d’ amor de Deus, acorre-nos, senhor. 28 R5 * * * 183 Cantigas de Santa Maria 81 «Par Deus, tal senhor muito val» (E 81, T 81, U 48) Esta é como Santa Maria guareceu a molher do fogo de Sam Marçal, que lh’ havia comesto todo o rostro. R0 2 4 6 8 R1 9-10 12 14 16 R2 17-18 20 22 24 R3 25-26 28 30 32 R4 33-34 36 38 40 R5 41-42 Par Deus, tal senhor muito val que toda door tolh’ e mal. Esta senhor que dit’ hei é Santa Maria, que a Deus, seu filho rei, roga todavia, sem al, que nos guarde do infernal [Refrão = vv. 1-2] fogo, e ar outrossi do daqueste mundo, des i doutro que há i, com’ oí, segundo, que sal algũa vez por Sam Marçal, [Refrão = vv. 1-2] de que sãou ũa vez bem a Gondianda, ũa molher que lhe fez rogo e demanda atal per que lhe nom ficou sinal [Refrão = vv. 1-2] daquele fogo montês de que laida era, onde tam gram dano prês que porém posera cendal ant’ a faz com coita mortal, [Refrão = vv. 1-2] de que atám bem sãou a Virgem aquesta molher que logo tornou-lh’ a carne comesta igual e com sa coor natural, [Refrão = vv. 1-2] tam fremosa que entom 184 44 48 quanto-la catavam, a Virgem, de coraçom, chorando, loavam, a qual é dos coitados hespital. 50 Par Deus, tal senhor muito val que toda door tolh’ e mal. 46 R6 * * * 185 Cantigas de Santa Maria 82 «A Santa Maria mui bom servir faz» (E 82, T 82, U (Ap) 5) Esta é como Santa Maria guardou um monge dos diáboos que o quiseram tentar e se lhe mostrarom em figuras de porcos po-lo fazer perder. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A Santa Maria mui bom servir faz, pois ela o poder do demo desfaz. Ond’ avo desto que em Conturbel fez Santa Maria um miragre bel por um monge bõo, cast’ e mui fiel, que viu de diabres vĩir mui grand’ az. [Refrão = vv. 1-2] Em seu leito, u jazia por dormir, viu-os come porcos contra si vĩir atám espantosos que, per rem, guarir nom cuidava, e dizia-lhes: “– Az, az!”. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El assi estando em mui gram pavor, viu entrar um home negro de coor, que diss’ aos porcos: “– Log’ a derredor dele vos meted’, e nom dórmia em paz”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Eles responderom: “– Aquesto fazer queremos de grado, mas nium poder de fazer-lhe mal nom podemos haver, por gram santidade que em ele jaz”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E aquel diabo lhes respôs assi: “– Pois vós nom podedes, ar leixad’ a mi, que com estes gárfios que eu trag’ aqui o desfarei, pero que trage frocaz”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI O frad’, est’ oindo, espantou-se mal e chamou a Virgem, a que nunca fal aas grandes coitas, dizendo-lhe: “– Val-me, ca de gram medo hei end’ eu assaz”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E a groriosa tantoste chegou e ant’ aquel frade logo se parou e com ũa vara mal amaçou 40 186 42 aquela companha do demo malvaz, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII dizendo: “– Como vós ousastes parar ant’ este meu frade ne-no espantar?; porém no inferno ide log’ entrar com vosso mal rei, mui peor que rapaz”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Quand’ eles oírom aquesta razom, como fumo se desfezerom entom; e a Virgem santa mans’ e em bom som confortou o frade, dizend’: “– A mi praz 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 da vida que fazes; e porende bem fás d’ hoj’ adeante que nom leixes rem de fazeres quant’ a ta ordem convém”. Esto dito, tolheu-xe-lhe dant’ a faz. 62 A Santa Maria mui bom servir faz, pois ela o poder do demo desfaz. 58 R10 * * * 187 Cantigas de Santa Maria 83 «Aos seus acomendados» (E 83, T 83, U (Ap) 14) Esta é como Santa Maria sacou de cativo de terra de mouros a um home bõo que se lh’ acomendara. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Aos seus acomendados a Virgem tost’ há livrados de mortes e de prijões; e por aquesto, varões, sempr’ os vossos corações em ela sejam firmados. [Refrão = vv. 1-2] E desto Santa Maria de Sopetrám fez um dia miragr’ em Andaluzia a um que por seus pecados R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III fora caer em cativo, u jazia tam esquivo que nom cuidou sair vivo ante marteiros dobrados 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que lhe davam, e gram pa, porque era de Luca; sem tod’ est’, em gram cada de noite tras cadados 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V jazia, e em escura cárcer, e em gram ventura de morrer. Porém na pura Virgem tornou seus cuidados, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que em Sopetrám aoram muitos e ant’ ela choram; porém muito nom demoram que nom sejam perdõados 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII d’ erros e de maos feitos; demais, cegos e contreitos sãa, e gafos maltreitos 40 188 42 e muitos demoniados R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII e doutras enfermidades, e que por sas piedades saca de catividades muitos. Foss’ el nos sacados: 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX este rogo lhe fezera muitas vezes e dissera, u el preitejado era por maravidis talhados 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que pagar havia cedo. E el, jazend’ em gram medo, viu as portas abrir quedo da cárcer, e viu britados 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI seus ferros e que dormiam os que o guardar soíam, que tam gram sono haviam que nom eram acordados. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII El, quand’ esto viu, ergendo se foi pass’, e, pois, correndo fogiu e, segund’ aprendo, chegou a dias contados 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII a Sopetrám, cabo Fita. E, pois esta cousa dita houve, logo foi escrita, e muitos loores dados 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 aa Virgem groriosa, madre de Deus piadosa, porque sempr’ é poderosa d’ acorrer aos coitados. 86 Aos seus acomendados a Virgem tost’ há livrados. 82 R14 * * * 189 Cantigas de Santa Maria 84 «O que em Santa Maria crever bem de coraçom» (E 84, T 84, U 98) Esta é como Santa Maria resucitou a molher do cavaleiro, que se matara porque lhe disse o cavaleiro que amava mais outra ca ela, e dizia-lhe por Santa Maria. R0 2 I 4 6 O que em Santa Maria | crever bem de coraçom, nunca receberá dano | nem gram mal nem ocajom. E daquest’ um gram miragre | oíd’ ora, de que fix um cantar da Virgem santa, | que eu dum bom hom’ aprix, e ontr’ os outros miragres | porende metê-lo quix, porque sei, se o oirdes, | que vos valrá um sermom. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi dum cavaleiro | que casad’ era mui bem com dona meninh’ e bela, | que amou mais doutra rem, e ela a el amava | que xe perdia o sém; e do mal que dest’ avo | vos contarei a razom. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III O cavaleir’ era bõo | de costumes e sem mal, e mais doutra rem amava | a Virgem espirital; e, por esto, de sa casa | fezera um gram portal bem atro ena igreja, | por ir fazer oraçom. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Porque aquela igreja | era da madre de Deus, cada noite s’ esfurtava | de sa molher e dos seus, e ant’ a omagem s’ ia, | dizend’: “– Os pecados meus som muitos, mas per ti creo | gaanhar deles perdom”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V El aquest’ assi fazendo, | sa molher mentes parou em como se levantava, | e de mal o sospeitou; e por aquesta sospeita | ũa vez lhe preguntou: “– U ides assi, marido, | de noite come ladrom?” 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI El entom assi lhe disse: | “– Nom sospeitedes de mi, que vos nium torto faço | nem fiz des quando vos vi”. A molher entom calou-se, | que lhe nom falou mais i; e pero parou i mentes | sempre mui mais des entom. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ond’ avo pois um dia | que siam a seu jantar, e, pois houverom jantado, | começou-lh’ a preguntar a dona a seu marido | muito e a conjurar se el amava mais outra, | que dissesse si ou nom. 40 42 190 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII El lhe respôs, com’ em jogo: | “– Pois vos praz, dizer-vo-l’-ei: outra dona mui fremosa | amo muit’ e amarei mais doutra cousa do mundo | e por seu sempr’ andarei”. A dona tornou por esto | mais negra que um carvom; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e tomou log’ um cuitelo, | com que talhavam o pam, e deu-se com el no peito | ũa ferida atám grande que, sem outra cousa, | morreu logo manamám. Diss’ entom o cavaleiro: | “– Ai Deus, que maa vijom!” 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E filhou sa molher logo | e deitou-a, sem mentir, em seu leito e cobriu-a, | e nom quiso que sair podess’ home de sa casa; | e a porta foi abrir da igreja e correndo | entrou i de gram random, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI e parou-s’ ant’ a omagem | e disso assi: “– Senhor, mià molher que muit’ amava | perdi polo teu amor; mas tu, senhor, que sofriste | gram coita e gram door por teu filho, dá-mi_a viva | e sãa ora em dom”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII El assi muito chorando, | a Virgem lh’ apareceu e diss’ ao cavaleiro: | “– O meu filho recebeu o rogo que me feziste | e a ta molher viveu pola ta firme creença | e por ta gram devoçom”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII El entom tornou-se logo | e foi sa molher veer, e achou-a viv’ e sãa, | e houv’ ém mui gram prazer. Entom el e sa companha | começarom beizer a Virgem Santa Maria, | cantando em mui bom som. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 El mandou abrir as portas, | e as gentes vĩir fez, que vissem aquel miragre, | que a reinha de prez fezera daquela dona. | Mas log’ ambos, dessa vez, por melhor servir a Virgem, | filharom religiom. 86 O que em Santa Maria | crever bem de coraçom, nunca receberá dano | nem gram mal nem ocajom. 82 R14 * * * 191 Cantigas de Santa Maria 85 «Pera tolher gram perfia» (E 85, T 85) Esta é como Santa Maria livrou de morte um judeu que tiinham preso ũus ladrões, e ela solto’-o da prijom e feze-o tornar crischão. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII Pera tolher gram perfia bem dos corações, demostra Santa Maria sas grandes visões. Onde direi um miragre | que em Englaterra demostrou Santa Maria, | a que nunca erra, por converter um judeu que | prenderam ladrões, a que chagas grandes deram | e pois torcilhões. [Refrão = vv. 1-4] Os ladrões que fezerom | est’ eram crischãos; e, poi-lo houverom feito, | atarom-lh’ as mãos e os pees e derom-lhe | muitas com bastões, que lhes esterlĩis désse, | ca nom pepiões. [Refrão = vv. 1-4] Desta guisa o teverom | fora do caminho atad’ em ũa gram casa | velha, o mesquinho; e derom-lhe pam e água | aqueles peões, em tal que lhes nom morress’ e | houvessem quinhões [Refrão = vv. 1-4] do seu haver. Mas el co-nas | pas que sofria adormeceu, e em sonhos | viu Santa Maria mais fremosa que o sol; e | logo lh’ as prijões quebrantou, e foi guarido | de todas lijões. [Refrão = vv. 1-4] E, pois que sonhou aquesto, | foi logo desperto; ar viu-a espert’ estando, | de que foi bem certo; e, por saber mais quem era, | fez sas orações que lhe dissesse seu nome, | e dar-lh’-ia dões. [Refrão = vv. 1-4] E ela lhe disse logo: | “– Pára-mi bem mentes, ca eu sõo a que tu e | todos teus parentes havedes mui gram desamor | em todas sazões, e matastes-me meu filho | come mui felões; [Refrão = vv. 1-4] e porém mostrar-te quero | o bem que perdedes 192 54 56 e o mal que, pois morrerdes, | logo haveredes, que em mim e em meu filho | vossas entenções tornedes e recebades | bõos galardões”. [Refrão = vv. 1-4] R7 57-60 VIII 62 64 Entom o prês pela mão | e tirou-o fora dali, e sobr’ um gram monte | o pôs essa hora e mostrou-lhe um gram vale | cho de dragões e doutros diabos, negros | mui mais que carvões, [Refrão = vv. 1-4] R8 65-68 IX 70 72 que mais de cem mil maneiras | as almas pavam dos judeus, que as coziam | e pois a[s] assavam e as faziam arder assi como tições, e queimando-lhe-las barvas | e pois os granhões. [Refrão = vv. 1-4] R9 73-76 X 78 80 Quand’ o judeu viu aquesto, | foi end’ espantado; mas tantoste foi a outro | gram monte levado, u viu seer Jesu-Cristo | com religiões d’ ángeos, que sempre cantam | ant’ el doces sões. [Refrão = vv. 1-4] R10 81-84 XI 86 88 E viu de muitas maneiras | i santas e santos muit’ alegres, que cantavam | saborosos cantos, que rogam polos crischãos | que Deus d’ ocajões os guarde e do diab’ e | de sas tentações. [Refrão = vv. 1-4] R11 89-92 XII 94 96 Santa Maria lhe disse, | pois est’ houve visto: “– Estes som meus e de meu filho, Deus Jesu-Cristo, com que serás se creveres | em El, e leitões comeres, e leixares a | degolar cabrões”. R12 97-100 XIII Pois que Santa Maria lhe | diss’ este fazfeiro, 102 leixo’-o; e el foi-se log’ | a um mõesteiro, u achou um sant’ abade | com seus companhões, 104 que partirom mui de grado | com el sas rações. R13 105-108 XIV R14 [Refrão = vv. 1-4] [Refrão = vv. 1-4] E, pois que ant’ o convento | contou quanto vira, 110 o abad’ o fez crischão | logo, sem mentira. E deste feito forom pelas terras pregões, 112 por que a Santa Maria | derom ofreções. 114 116 Pera tolher gram perfia bem dos corações, demostra Santa Maria sas grandes visões. * * * 193 Cantigas de Santa Maria 86 «Acorrer-nos pode e de mal guardar» (E 86, T 86, U 28) Esta é como Santa Maria livrou a molher prenhe que nom morresse no mar e fez-lhe haver filho dentro nas ondas. E começa assi: R0 2 I 4 6 Acorrer-nos pode e de mal guardar a madre de Deus, se per nós nom ficar. Acorrer-nos pode quando xe quiser e guardar de mal cada que lhe prouguer, bem como guardou ũa pobre molher que cuidou morrer enas ondas do mar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Eno mar que cerca o mund’ arredor, na terra que chamam «Bretanha Maior», fez a santa madre de Nostro Senhor um gram miragre que vos quero contar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III O miragre foi muit’ apost’ e mui bel que Santa Maria fez por Sam Miguel, que é companheiro de Sam Gabriel, o ángeo que a vo saudar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV De Sam Migael, o ángeo de Deus, era ũ’ ermida, u muitos romeus iam i rogar polos pecados seus, que Deus lhos quisesse por el perdõar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V O logar era de mui gram devoçom, mas nom podia hom’ alá ir se nom menguass’ ant’ o mar, ca em outra sazom nom podia rem ém sair nem entrar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E porend’ um dia avo assi: que ũa molher prenhe entrou per i, mas o mar creceu e colheu-a ali, e nom se pôd’ ir: tanto nom pôd’ andar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII A pobre molher, macar quis, nom fugiu, ca o mar de todas partes a cobriu; 40 194 42 e, pois s’ a mesquinha em tal coita viu, começou Santa Maria de chamar. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII A molher, sem falha, cuidou a fĩir quando viu o mar que a vo cobrir; e, demais, chegou-lh’ o tempo de parir; e por tod’ esto nom cuidou escapar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Mas a Santa Virgem que ela rogou oiu-lhe seu rog’, e tantoste chegou e a sua manga sobr’ ela parou, que a fez parir e as ondas quedar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Pois Santa Maria, a senhor de prez, este miragre daquela molher fez, com seu filh’ a pobre se foi essa vez log’ a Sam Miguel o miragre mostrar. 62 Acorrer-nos pode e de mal guardar a madre de Deus, se per nós nom ficar. 58 R10 * * * 195 Cantigas de Santa Maria 87 «Muito punha d’ os seus honrar» (E 87, T 87, U 21) Como Santa Maria mandou que fezessem bispo ao crérigo que dizia sempre sas horas. E começa assi: R0 2 I 6 E desto vos quero contar um gram miragre que mostrar quis a Virgem, que nom há par, na cidad’ de Pavia. 8 Muito punha d’ os seus honrar sempre Santa Maria. 4 R1 II 12 Um crérig’ houv’ i sabedor de todo bem e servidor desta groriosa senhor quant’ ele mais podia. 14 D’ honrar os seus há gram sabor sempre Santa Maria. 10 R2 III 18 Ond’ avo que conteceu, poi-lo bispo dali morreu, a um sant’ hom’ apareceu a Virgem que nos guia. 20 Aos seus honrou e ergeu sempre Santa Maria. 16 R3 IV 24 E pois lhe foi aparecer, começou-lh’ assi a dizer: “– Vai, di que façam esleer crás em aquele dia 26 Os seus faz honrados seer sempre Santa Maria. 22 R4 V 30 por bisp’ um que Jerónim’ há nome; ca tanto sei del já: que me serve e servid’ há bem, com’ a mi prazia”. 32 Os seus honrou e honrará sempre Santa Maria. 28 R5 Muito punha d’ os seus honrar sempre Santa Maria. VI 34 36 Poi-lo sant’ home s’ espertou, ao cabidoo contou o que lh’ a Virgem nomeou que por bispo queria. 196 R6 38 VII 42 Acordados dum coraçom fezerom del sa esleiçom, e foi bisp’ a pouca sazom, ca be-no merecia. 44 Os seus honrou com gram razom sempre Santa Maria. 40 R7 D’ os seus honrar muito punhou sempre Santa Maria. * * * 197 Cantigas de Santa Maria 88 «Quem servir a madre do gram rei» (E 88, T 88, U (Ap) 11) Esta é como Santa Maria fez a um fisico que se metera monge, que comesse das vidas que os outros monges comiam, que a el soíam mui mal saber. E começa: R0 2 4 I 5 7 9 11 R1 12-15 II 16 18 20 22 R2 23.26 III 27 29 31 33 R3 34-37 IV 38 40 42 44 R4 45-48 V 49 Quem servir a madre do gram rei, bem sei que será de mal guardado, com’ ora vos contarei, em um miragre, de grado, segund’ eu oí contar: que no mõesteir’ honrado de Claraval foi entrar um monge mui leterado, que sabia bem obrar de física, com’ achei. [Refrão = vv. 1-4] E, porque acostumado fora de mui bem jantar ante que foss’ ordinhado, e outrossi bem car, e comer carn’ e pescado, e bom vinho nom leixar nem bom pam, com’ apres’ hei, [Refrão = vv. 1-4] porend’ era mui coitado em haver a jejũar e comer verças de prado sem sal nem pont’ i deitar, e bever vinho botado, e por bom pam nom catar. E sobr’ esto vos direi [Refrão = vv. 1-4] que fez este malfadado com coita e com pesar de que era lazerado: co-nos monges foi falar e disse-lhes: “– Est’ estado vós nom podedes durar, segundo vos mostrarei: [Refrão = vv. 1-4] ca nom há tam arrizado de vós que possa cantar 198 51 53 55 R5 56-59 VI 60 62 64 66 R6 67-70 VII 71 73 75 77 R7 78-81 VIII 82 84 86 88 R8 89-92 IX 93 95 97 99 R9 100-103 X 104 106 108 110 R10 111-114 XI 115 117 se muit’ houver jajũado, nem s’ aas horas levar se comer nom lhe for dado que o faça esforçar; porend’ eu daqui ir-m’-ei”. [Refrão = vv. 1-4] Dizend’ aquesto, torvado houve tod’ aquel logar, e o convent’ abalado com seu mao sermõar, que era já arrufado por comeres demandar que defend’ órdim e lei. [Refrão = vv. 1-4] Mas um dia sinaado em que Deus quis encarnar, o convento foi levado de comer, e a rezar se filharom bem provado por aa_eigreja passar com seu «Miserere mei». [Refrão = vv. 1-4] Aquel mong’ ia irado e no-nos quis ajudar, ca nom fora avondado nem se podera fartar; e, ind’ assi, viu de lado cabo da porta estar a Virgem de que falei, [Refrão = vv. 1-4] que tev’ um vaso dourado cho de nobre manjar dum leitoairo preçado, de que se filhou a dar a cada monge bocado, com que os foi confortar, erg’ a este que dit’ hei, [Refrão = vv. 1-4] que dela nom foi amado, porque queria obrar per Hipocras, o loado; porém o foi desdenhar: quand’ o golho ficado houv’ ant’ ela e rogar foi, e diss’: “– Eu que farei?”, [Refrão = vv. 1-4] diss’ ela: “– Nom é pensado que desto possas filhar se nom leixas teu cuidado fol, que te faz mal cuidar”. 199 119 121 R11 122-125 XII 126 128 130 132 R12 134 136 Entom se deu por culpado muit’, e filhou-s’ a chorar, e disse: “– Leixá-lo-ei”. [Refrão = vv. 1-4] Do leitoairo sagrado lhe deu logo, sem tardar, e, des i, foi castigado por comer nom murmurar; e, com’ hom’ escarmentado, em todo foi emendar. Aqui vo-lo acabei. Quem servir a madre do gram rei, bem sei que será de mal guardado, com’ ora vos contarei. * * * 200 Cantigas de Santa Maria 89 «A madre de Deus honrada» (E 89, T 89, U (Ap) 12) logo. Esta é como ũa judea que estava de parto nom podia parir, e chamou Santa Maria e pariu R0 1 3 II 4 6 8 10 R1 11-13 II 14 16 18 20 R2 21-23 III 24 26 28 30 R3 31-33 IV 34 36 38 40 R4 41-43 V 44 46 48 50 A madre de Deus honrada chega sem tardada u é com fé chamada. E um miragre disto direi que fez a groriosa madre de Jesu Cristo, a reinha mui piadosa, por ũa jude’ astrosa que era coitada e a morte chegada. [Refrão = vv. 1-3] Ca o prazo chegado era em que parir devia, mas polo seu pecado aquesto fazer nom podia, porque de Santa Maria nom criía nada que verdad’ é provada. [Refrão = vv. 1-3] Ela assi jazendo, que era mais morta ca viva, braadand’ e gemendo e chamando-se mui cativa, com tam gram door esquiva que desamparada foi, e desasperada [Refrão = vv. 1-3] era já d’ haver vida nem lhe prestarem meezinhas. Porend’ a mui comprida reinha das outras reinhas, acorredor das mesquinhas, sem gram demorada lh’ houve log’ enviada [Refrão = vv. 1-3] tamanha craridade bem come se o sol entrasse ali; e de verdade lhe diss’ ũa voz que chamasse de coraçom e rogasse a santivigada a bem-aventurada 201 R5 51-53 VI 54 56 58 60 R6 61-63 VII 64 66 68 70 R7 71-73 VIII 74 76 78 80 R8 81-83 IX 84 86 88 90 R9 91-93 X [Refrão = vv. 1-3] madre de Deus com rogo, que é cha de gram vertude. E ela o fez logo, e houve filho e saúde, porque cedo, se mi_ajude Deus, foi delivrada e a sa madre dada. [Refrão = vv. 1-3] Pois Maria oírom as judeas que a guardavam chamar, todas fugirom da casa e a dostavam e «hereja» a chamavam muit’ e «renegada» e «crischãa tornada». [Refrão = vv. 1-3] Mas ela, por peleja nom haver com essas sandias, dereit’ aa eigreja se foi depo-los trinta dias, que nom atendeu Messias, mas dessa entrada foi logo batiçada. [Refrão = vv. 1-3] E trouxe dous meninhos sig’: aquel filh’ e ũa filha; e, macar pequeninhos eram, po-los de pecadilha tirar, em Santa Cezilha, na pia sagrada, os fez dessa vegada [Refrão = vv. 1-3] 94 ambos fazer crischãos, contando como lh’ avera 96 do filh’ e como sãos seus nembros todos lh’ entom dera 98 Santa Maria; e fera-mente foi amada 100 por aquest’ e loada. 101 103 A madre de Deus honrada chega sem tardada u é com fé chamada. * * * 202 Cantigas de Santa Maria 90 «Sola fústi, senlheira» (E 90, T 90) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 8 Sola fústi, senlheira, u Gabriel creviste, e ar sem companheira u a Deus concebiste, e per esta maneira o demo destroíste. 10 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. 4 6 R1 II 16 Sola fústi, senlheira, ena virgĩidade, e ar sem companheira em ter castidade; e per esta maneira jaz o demo na grade. 18 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. 12 14 R2 III 24 Sola fústi, senlheira, em seer de Deus madre, e ar sem companheira seend’ el filh’ e padre; e per esta maneira jaz o dem’ em vessadre. 26 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. 20 22 R3 IV 32 Sola fústi, senlheira, dada que a nós valhas, e ar sem companheira por tolher nossas falhas; e per esta maneira jaz o demo nas palhas. 34 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. 28 30 R4 V 40 Sola fústi, senlheira, em seer de Deus ama, e ar sem companheira em valer quem te chama; e per esta maneira jaz o demo na lama. 42 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. 36 38 R5 Sola fústi, senlheira, Virgem, sem companheira. * * * 203 Cantigas de Santa Maria 91 «A Virgem nos dá saúd’ e» (E 91, T 91, U 82) Esta é como Santa Maria deceu do ceo em ũa igreja ante todos e guareceu quantos enfermos i jaziam, que ardiam do «fogo de Sam Marçal». R0 2 4 I 6 8 10 R1 11-14 II 16 18 20 R2 21-24 III 26 28 30 R3 31-34 IV 36 38 40 R4 41-44 V 46 48 50 A Virgem nos dá saúd’ e tolhe mal: tant’ há em si gram vertude ’sperital. E porém dizer-vos quero, entr’ estes miragres seus, outro mui grand’ e mui fero que esta madre de Deus fez, que nom podem contradizer judeus nem hereges, pero queiram dizer al. [Refrão = vv. 1-4] Aquest’ avo em França, nom há i mui gram sazom, que os homes, por errança que fezeram, deu entom Deus em eles, por vendeita, cofojom deste fogo que chamam «de Sam Marçal». [Refrão = vv. 1-4] E braadand’ e gemendo faziam-s’ entom levar a Saixom logo correndo por sa saúd’ i cobrar, cuidand’ em todas guisas i a sãar pela Virgem, que aos coitados val. [Refrão = vv. 1-4] E era de tal natura aquel mal, com’ aprendi, que primeiro com friúra os filhava, e, des i, queimava peor que fogo; e assi sofriam del todos gram coita mortal. [Refrão = vv. 1-4] Ca os nembros lhes caíam, e sol dormir nem comer per nulha rem nom podiam nem em seus pees s’ erger, e ante já querriam mortos seer que sofrer door atám descomũal. 204 R5 51-54 VI 56 58 60 R6 61-64 VII 66 68 70 R7 71-74 VIII 76 78 80 R8 82 84 [Refrão = vv. 1-4] Porend’ ũa noit’ avo que lume lhes pareceu grande que do ceo vo, e log’ entom decendeu Santa Maria, e a terra tremeu quando chegou a senhor celestial. [Refrão = vv. 1-4] E os homees tal medo houverom que a fugir se filharom, e nom quedo mais quanto podiam ir; e ela fez log’ os enfermos guarir como senhor que enas coitas nom fal [Refrão = vv. 1-4] a que-na chama, fiando no seu piadoso bem, ca ela sempre vem quando entende que lhe convém. Porend’ a esses enfermos nulha rem nom leixou do fogo, nem sol um sinal. A Virgem nos dá saúd’ e tolhe mal: tant’ há em si gram vertude ’sperital. * * * 205 Cantigas de Santa Maria 92 «Santa Maria poder há» (E 92, T 92, U 85) Esta é como Santa Maria fazia veer o crérigo cego enquanto dizia a sa missa. R0 2 I 4 6 Santa Maria poder há de dar lum’ a que-no nom há. Ca de dar lum’ há gram poder a que o lum’ em si trager foi, que nos fez a Deus veer, que per al nom víramos já. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E esta Virgem santa deu pois lum’ a um crérigo seu que perdera, com’ aprix eu, que nom vi’ acá nem alá. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E tantoste se fez filhar e aa eigreja levar da Virgem, que nom houvo par de bondade, nem haverá. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, chorando de coraçom, fazia atal oraçom em golhos com devoçom, dizendo: “– Senhor, que será 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V daqueste lume que perdi?; e porende venho a ti: que mi_o cobres, sequer ali u a ta missa se dirá”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Entom logo s’ adormeceu, e a Virgem lh’ apareceu, que aos seus nom faleceu nunca já, nem falecerá. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E disse-lh’ entom logo: “– Crás manhãa mià missa dirás com devoçom, e cobrarás teu lume, que te durará 40 42 206 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII tá que a missa dita for; ca assi quer Nostro Senhor, que ch’ esto faz por meu amor, e ainda che mais fará”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O crérig’ entom s’ espertou e log’ a missa começou, e seu lum’ ali o cobrou; ca nom mentiu nem mentirá 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 a Virgem, que é de bom prez, que lhe seu lume cobrar fez cada dia sempr’ ũa vez, como vos dissemos acá. 62 Santa Maria poder há de dar lum’ a que-no nom há. 58 R10 * * * 207 Cantigas de Santa Maria 93 «Nulha enfermidade» (E 93, T 93) Esta é como Santa Maria guareceu um filho dum burgês que era gafo. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Nulha enfermidade nom é de sãar grav’ u a piedade da Virgem chegar. Dest’ um mui gram miragr’ em filho dum burgês mostrou Santa Maria, que foi gafo três anos e guareceu em mos que um mês pola sa piedade, que lhe quis mostrar. [Refrão = vv. 1-4] Est’ era mui fremoso e apost’ assaz, e ar mui leterado e de bom solaz; mas tod’ aquele viço que à carne praz fazia, que rem nom queria ém leixar. [Refrão = vv. 1-4] El assi mantendo orgulh’ e desdém, quiso Deus que caess’ em el mui gram gafém, ond’ ele foi coitado que nom quis al-rem do mund’ erg’ ũ’ ermid’ u se foi apartar. [Refrão = vv. 1-4] E el, ali estando, filhou-s’ a dizer bem mil avemarias por fazer prazer aa madre de Deus, por que quisess’ haver doo e piadad’ e del amercar. [Refrão = vv. 1-4] E el em atal vida três anos durou, sofrendo bem sa coita, e nunca errou a Deus nem a sa madre, e sempre rezou as Aves Marias de que vos fui falar. [Refrão = vv. 1-4] E, pois houve rezado esta oraçom quanto tempo dissemos, mostrou-se-lh’ entom a Virgem groriosa, e diss’: “– Hoimais nom quero que este mal te faça lazerar”. [Refrão = vv. 1-4] Quando lh’ est’ houve dit’, a teta descobriu, e do seu santo leite o corpo lh’ ongiu; 208 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 66 68 e tantost’ a gafém logo del se partiu, assi que o coiro houve tod’ a mudar. [Refrão = vv. 1-4] Tanto que foi guarido, começou-s’ a ir dizendo pela terra como quis vĩir a el Santa Maria e o foi guarir, por que todos em ela devemos fiar. Nulha enfermidade nom é de sãar grav’ u a piedade da Virgem chegar. * * * 209 Cantigas de Santa Maria 94 «De vergonha nos guardar» (E 94, T 94, U 31) Esta é como Santa Maria serviu em logar da monja que se foi do mõesteiro. R0 2 4 I 6 8 10 12 14 De vergonha nos guardar punha todavia e de falir e d’ errar a Virgem Maria. E guarda-nos de falir e ar quer-nos encobrir quando em erro caemos; des i, faz-nos repentir e a emenda vĩir dos pecados que fazemos. Dest’ um miragre mostrar em ũ’ abadia quis a reinha sem par, santa, que nos guia. R1 15-18 [Refrão = vv. 1-4] II ũa dona houv’ ali que, per quant’ eu aprendi, era meninha fremosa; demais, sabia assi ter sa ordem que ni-ũa atám aguçosa era d’ i aproveitar quanto mais podia; e porém lhe foram dar a tesoureria. 20 22 24 26 28 R2 29-32 [Refrão = vv. 1-4] III Mai-lo demo, que prazer nom houv’ ém, fez-lhe querer tal bem a um cavaleiro que lhe nom dava lezer, tró em que lhi fez fazer que saiu do mõesteiro; mas, ant’, ela foi leixar chaves, que tragia na cinta, ant’ o altar da em que criía. 34 36 38 40 42 R3 43-44 [Refrão = vv. 1-4] IV “– Ai madre de Deus” --entom diss’ ela em sa razom--, “leixo-vos est’ em comenda, e a vós de coraçom m’ acomend’”. E foi-s’ (e nom 48 50 210 52 54 56 por bem fazer sa fazenda) com aquel que muit’ amar mais ca si sabia; e foi gram tempo durar com el em folia. R4 57-60 [Refrão = vv. 1-4] V E o cavaleiro fez, poi-la levou dessa vez, em ela filhos e filhas; mai-la Virgem de bom prez, que nunca amou sandez, e mostrou i maravilhas: que a vida estranhar lhe fez que fazia, por em sa claustra tornar, u ante vivia. 62 64 66 68 70 R5 71-74 [Refrão = vv. 1-4] VI Mais, enquant’ ela andou com mal sém, quanto leixou aa Virgem comendado, ela mui bem o guardou, ca em seu logar entrou e deu a todo recado de quant’ houv’ a recadar, que rem nom falia, segundo no semelhar de que-na viía. 76 78 80 82 84 R6 85-88 [Refrão = vv. 1-4] VII Mas, pois que s’ arrepentiu a monja e se partiu do cavaleiro mui cedo, nunca comeu nem dormiu tró o mõesteiro viu. E entrou em el a medo, e filhou-s’ a preguntar os que conhocia do estado do logar, que saber queria. 90 92 94 96 98 R7 99-102 [Refrão = vv. 1-4] VIII Disserom-lh’ entom, sem al: “– Abadess’ havemos tal, e prior’ e tesoureira: cada ũa delas val muito, e de bem, sem mal, nos fazem de gram maneira”. Quand’ est’ oiu, a sinar logo se prendia, porque s’ a si nomear com elas oía. 104 106 108 110 112 R8 113-116 [Refrão = vv. 1-4] IX E ela, com gram pavor tremendo e sem coor, 118 211 120 122 124 126 foi-se pera a eigreja; mais a madre do senhor lhe mostrou tam grand’ amor (e porém beita seja) que as chaves foi achar u postas havia, e seus panos foi filhar que ante vestia. R9 127-130 [Refrão = vv. 1-4] X E tantoste, sem desdém e sem vergonha de rem haver, juntou o convento e contou-lhes o gram bem que lhe fezo a que tem o mund’ em seu mandamento; e, por lhes todo provar quanto lhes dizia, fez seu amigo chamar, que lho contaria. 132 134 136 138 140 R10 141-144 [Refrão = vv. 1-4] XI O convent’ o por mui gram maravilha tev’, a pram, pois que a cousa provada virom, dizendo que tam fremosa, par Sam Joám, nunca lhes fora contada; e filharom-s’ a cantar com grand’ alegria: “– Salve-te, ’strela do mar, Deus, lume do dia”. 146 148 150 152 154 R11 156 158 De vergonha nos guardar punha todavia e de falir e d’ errar a Virgem Maria. * * * 212 Cantigas de Santa Maria 95 «Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha» (E 95, T 95) Esta é como Santa Maria livrou um seu ermitám de prijom dũus mouros que o levavam além mar, e nunca se poderom ir atá que o leixarom. R0 2 I 4 6 8 Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha de lhes fazer, nom quer ela que esto rem valha. Desto direi um miragre que ũa vegada demostrou a Santa Virgem bem-aventurada por um conde d’ Alemanha, que houve leixada sa terra e foi fazer em Portugal morada, encima dũa ermida, preto da salgada água do mar, u cuidou a viver sem baralha. R1 9-10 [Refrão = vv. 1-2] II El-cond’ Abrám foi aqueste, de mui santa vida, que fez mui gram pedenç’ em aquela ermida servind’ a Santa Maria, a senhor comprida de todo bem, que aos seus sempre dá guarida, ca a sa mui gram mercee nunca é falida a quanto-la bem servirem: assi é, sem falha. 12 14 16 R2 17-18 [Refrão = vv. 1-2] III Aquel sant’ home vivia ali apartado, que nunca carne comia nem pam nem bocado senom quando com cĩisa era mesturado, e d’ ele já bever vinho nom era pensado; mas pero algũas vezes filhava pescado, que dava sem haver ém dinheiro nem mealha. 20 22 24 R3 25-26 [Refrão = vv. 1-2] IV E, macar lh’ alguém por esto dinheiros queria dar ou algũus presentes, sol no-nos prendia; mas o que de comer era adubar fazia pera as gentes que vinham i em romaria, ca ele os convidava e os recebia, com que lhes parava mesa em branca toalha. 28 30 32 R4 33-34 [Refrão = vv. 1-2] V El atal vida fazend’ em aquela montanha, estand’ um dia pescando com’ era sa manha, chegarom ali navios de mouros (companha que bem d’ África veram por correr Espanha), e filharo-no aginha, e com mui gram sanha derom com el no navio: hoimais Deus lhe valha! 36 38 40 R5 41-42 [Refrão = vv. 1-2] VI E, pois est’ houverom feito, fezerom gram guerra, rouband’ em mar quant’ achavam e saind’ a terra. E quiseram-s’ ir com todo. Mas a que nom erra d’ acorrer a seus amigos, nem lhes porta serra, 44 46 213 48 os fez que se nom poderom alongar da serra, ca lhes nom valeu bom vento quant’ é ũa palha, R6 49-50 [Refrão = vv. 1-2] VII com que moviam de rijo aos treus alçados, e, quanto toda a noite eram alongados da pena, ena manhãa i eram tornados: est’ avo per três noites aos malfadados. E, quando aquesto virom, forom espantados e chamarom Mafomete, o filho d’ Abdalha. 52 54 56 R7 57-58 [Refrão = vv. 1-2] VIII Mas o almiral dos mouros era entendudo (que nom’ Arrendaf’ havia) e home sisudo, e nembrou-lhe daquel home que fora metudo ena sota da galea e i ascondudo, e teve que por est’ era seu feito perdudo; e diss’: “– Amigos, fol éste quem a Deus contralha”. 60 62 64 R8 65-66 [Refrão = vv. 1-2] IX E mando’-o tirar fora, e pôs-lh’ our’ e prata deant’, e panos de seda, outros d’ escarlata, e mandou que os filhasse come de ravata, dizendo: “– Do que te pagas, de sũu os ata”. Mais desto nom filhou rem e, bem come quem cata por pouco, filhou um vidro de mui bela talha. 68 70 72 R9 73-74 [Refrão = vv. 1-2] X E o almiral entom preguntou que hom’ era, ou de filhar aquel vidro, porque o fezera. E el lhes contou entom qual vida mantevera des quand’ em aquel’ ermida a morar vera; mais de filhar aquel vidro muito lhe prouguera, e que al nom filharia do seu nemigalha. 76 78 80 R10 81-82 [Refrão = vv. 1-2] XI E eles, quand’ est’ oírom, fora o poserom em aquel logar mesmo onde o preserom, e que nom houvesse medo: assi lhe disserom. Tantost’ alçarom sas veas, e bom vent’ houverom, e forom sa via que sol nom se deteverom, fendend’ as ondas per meo bem come navalha. 84 86 88 R11 89-90 [Refrão = vv. 1-2] XII 96 Estas novas pela terra forom mui sõadas, e gentes de todas partes forom i juntadas, e a Santa Maria porém loores dadas. Mais el-cond’ Abrám acharom pois muitas vegadas mouros que correr vĩíam com barcas armadas, e nom lhe fezerom mal: d’ atant’ houv’ avantalha. 98 Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha de lhes fazer, nom quer ela que esto rem valha. 92 94 R12 * * * 214 Cantigas de Santa Maria 96 «Atal senhor» (E 96, T 96) Esta é como Santa Maria guardou a alma dum home bõo que se nom perdesse, ca o haviam escabeçado ladrões: fez que se juntassem o corpo e a testa e se mãefestasse. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 42 R7 43-44 Atal senhor é bõa que faz salvá-lo pecador. Aquesto dig’ eu por Santa Maria, a que muito pesa de quem folia faz, e que maneira busca e via que nom caia home dum err’ em peior. [Refrão = vv. 1-2] Dest’ um miragre vos darei recado, que a Virgem fez fremos’ e preçado; e, se eu podér, per mi vos mostrado será, porque hajades dele sabor. [Refrão = vv. 1-2] Esto foi dum home que feit’ houvera prazer aa Virgem quant’ el podera; mas pedença prender nom quisera per conselho do demo enganador. [Refrão = vv. 1-2] El assi andand’, um dia passava per um gram mont’, u companha estava de ladrões com um que [i] andava com eles, que era de todos maior. [Refrão = vv. 1-2] E, quand’ est’ home virom, se leixarom correr log’ a el; e, poi-lo filharom, fora do caminh’ o escabeçarom por mandado daquel mao roubador. [Refrão = vv. 1-2] Dali fogirom poi-lo feit’ houverom. E a quarto dia per i verom dous frades mores, e vozes derom o corp’ e a testa, ond’ eles pavor [Refrão = vv. 1-2] houverom; e meterom bem femença com’ as vozes diziam: “– Pedença nos dade, por Deus e por sa creença, porque nom soframos pa nem door”. [Refrão = vv. 1-2] 215 VIII 46 48 R8 49-50 IX 52 54 R9 55-56 X 58 60 R10 61-62 XI 64 66 R11 67-68 XII 70 72 R12 73-74 XIII 76 78 R13 79-80 XIV [Refrão = vv. 1-2] vós, corp’ e testa, por Deus conjuramos que per vós desto verdade sabiamos”. Respôs a cabeça: “– Já outorgamos per que cada um seja ém sabedor [Refrão = vv. 1-2] de vós”. E contou como o mataram e come diabres a ’lma cuidaram levar, que sem confissom lh’ [i] acharam. “– Mas nom quis a Virgem, das outras melhor, [Refrão = vv. 1-2] que per nulha rem o demo levasse mià alma, mas que a testa tornasse a meu corpo, e que me confessasse; e ela, des i, foi mià aguardador”. [Refrão = vv. 1-2] Quand’ est’ oírom, logo mantenente fezerom os frades vĩir gram gente, e confessou-se verdadeiramente ant’ eles e disse: “– Amigos, se for [Refrão = vv. 1-2] vosso prazer, rogo-vos que roguedes a Deus por mi e me lh’ acomendedes, ca bes aqui vós me veeredes [ag]ora jazer morto e sem coor”. [Refrão = vv. 1-2] 84 Bes assi com’ el disse foi feito, e o seu corpo tantoste desfeito; e os hom[]es, pois virom tal preito, aa Virgem derom porém gram loor. 86 Atal senhor é bõa que faz salvá-lo pecador. 82 R14 Primeir’ os frades forom espantados do que oírom; mas, pois acordados forom, a test’ e o corpo juntados virom, e disserom: “– Polo salvador, * * * 216 Cantigas de Santa Maria 97 «A Virgem sempr’ acorrer» (E 97, T 97, U (Ap) 8) Esta é como Santa Maria quis guardar de morte um privado dum rei que o haviam mezcrado. R0 2 4 I 6 8 10 R1 11-14 II 16 18 20 R2 21-24 III 26 28 30 R3 31-34 IV 36 38 40 R4 41-44 V 46 48 50 R5 51-54 A Virgem sempr’ acorrer, acorrer vai o coitad’, e valer, e valer. Dest’ um miragre vos contarei que em Canete, per com’ achei, a Virgem por um home dum rei fez, que mezcraram, com’ apres’ hei; e bem sei que o cuidaram a fazer morrer. [Refrão = vv. 1-4] De tal guisa o forom mezcrar que o mandou log’ el-rei chamar ante si. Mas el com gram pesar e com coita filhou-s’ a chorar e rogar a Virgem quanto mais podo fazer. [Refrão = vv. 1-4] Demais, um rico pano i deu na eigreja e fezo-se seu home da Virgem, com’ aprix eu; e est’ havia nome Mateu, e bem lheu podê-l’-ám em cas del-rei conhocer. [Refrão = vv. 1-4] E, pois na eigreja pôs seu dom e fez chorando sa oraçom, meteu-se ao caminh’ entom com mui gram med’ em seu coraçom, de lijom o[u] de morte, por tal mezcra, prender. [Refrão = vv. 1-4] E, quand’ u era el-rei chegou, seus homes por el log’ enviou; mas aa Virgem se comendou muit’ el; des i, ant’ el-rei entrou e parou-s’ e pois começou-lh’ assi a dizer: [Refrão = vv. 1-4] 217 VI 56 58 60 R6 61-64 VII 66 68 70 R7 71-74 VIII 76 78 80 R8 81-84 IX 86 88 90 R9 91-94 X 96 98 100 R10 101-104 XI 106 108 110 R11 111-114 XII 116 118 120 “– Senhor, vós enviastes por mi, e, tanto que vossa carta vi, vim quanto pud’, e aqué-m’ aqui”. E el-rei logo respôs-lh’ assi, com’ oí: “– ũa rem querria de vós saber: [Refrão = vv. 1-4] se é verdade que tanto mal fezestes, e tam descomunal, como mi dizem”. Respôs el: “– Qual?” El-rei contou-lhe: “– Tal e atal”. Diss’ el: “– Val-me, Santa Maria, com teu poder!: [Refrão = vv. 1-4] esto que vos disserom, senhor, mentira foi, nom vistes maior; e, se a vossa mercee for, meted’ i um voss’ enqueredor, e melhor podedes per i o feit’ entender”. [Refrão = vv. 1-4] Respôs el-rei: “– Daquesto me praz, e tenho que comprides assaz, e fazê-lo quer’, u al nom jaz”. E meteu i um home de paz que viaz fosse daquest’ a verdad’ enquerer. [Refrão = vv. 1-4] Est’ home punhou toste de s’ ir; e fez gente da terra vĩir, que forom o feito descobrir da verdad’ e de quanto mentir e falir foram al-rei; e fê-lo escrever, [Refrão = vv. 1-4] e enviou-lho. E, pois abriu el-rei aquel escrito e viu que lh’ end’ a verdade descobriu, log’ entom todo mui bem sentiu e cousiu que falsidade foram apõer [Refrão = vv. 1-4] a aquel hom’. E logo porém lhe perdõou, e fez-lhe gram bem; e os mezcradores em desdém tev’, e nunca por eles deu rem, e des ém no-nos ar quis de tal feito creer. 218 R12 122 124 A Virgem sempr’ acorrer, acorrer vai o coitad’, e valer, e valer. * * * 219 Cantigas de Santa Maria 98 «Nom dev’ a Santa Maria mercee pedir» (E 98, T 98, U 94) Esta é como Santa Maria nom quis consentir a dona que era mui pecador que entrasse ena sa eigreja de Valverde atá que se mãefestasse. R0 2 I 4 6 Nom dev’ a Santa Maria | mercee pedir aquel que de seus pecados | nom se repentir. Desto direi um miragre | que contar oí a homes e molheres | que estavam i, de como Santa Maria | desdenhou assi ante todos ũa dona | que fora falir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E o falimento fora | grand’ e sem razom. E, porque s’ ém nom doía | em seu coraçom, per’ o a Santa Maria | foi pedir entom, que entrass’ em sa eigreja | nom quis consentir. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquesto foi em Valverde, | cabo Mompisler, u faz a Virgem miragres | grandes quandoquer, u vo aquesta dona, | mui pobre molher, por entrar ena eigreja; | mas nom pôd’ abrir 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV as portas per nulha guisa, | que podess’ entrar; e entravam i os outros, | dous e três a par. Quand’ aquesto viu a dona, | filhou-s’ a chorar, e, com coita, a cativa | sas faces carpir, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V dizendo: “– Santa Maria, | tu, madre de Deus, mui mais som as tas mercees | que pecados meus; e fas-me, senhor, que seja | eu dos servos teus e que entre na eigreja | tas horas oir”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois que aquest houve dit’ e | se mãefestou e do mal que feit’ havia | muito lhe pesou, entom as portas abertas | viu, e log’ entrou na eigreja muit’ aginha. | E esto gracir 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII foi ela e muita gente | que aquesto viu. E sempr’ ela em sa vida | a Virgem serviu e nunca des aquel’ hora | dali se partiu, ante punhou todavia | d’ a Virgem servir. 40 42 R7 44 Nom dev’ a Santa Maria | mercee pedir aquel que de seus pecados | nom se repentir. * * * 220 Cantigas de Santa Maria 99 «Muito se devem ter» (E 99, T 99) Esta é como Santa Maria destruiu um gram póboo de mouros que entraram ũa vila de crischãos e queriam desfazer as sas omages. R0 2 4 I 6 8 10 Muito se devem ter por gentes de mal recado os que mal cuidam fazer aa de que Deus foi nado. Dest’ um miragre dizer vos quero, e retraer, ond’ haveredes prazer poi-l’ houverdes ascuitado, de que devedes haver end’ aa Virgem bom grado. R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4] II 16 18 20 Mouros forom com poder ũa cidade prender de crischãos, e romper dela o logar sagrado, e o altar desfazer, u Deus era aorado, R2 21-24 [Refrão = vv. 1-4] III 26 28 30 e as omages tolher das paredes e raer a quant’ eles abranger podiam, per seu pecado, que nom prendiam lezer de as danar mui privado. R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4] IV 36 38 40 ũa virom i seer e mais bela parecer das outras, e a correr aquel póboo irado se filhou po-la querer destroir; mas em dõado R4 41-44 [Refrão = vv. 1-4] V 46 48 50 forom esto cometer, ca lhe-lo nom quis sofrer a madre do que morrer quis por nós crucifigado. E porém s’ houv’ a perder aquel poblo malfadado, 221 R5 51-54 [Refrão = vv. 1-4] VI 56 58 60 que punhavam de s’ erger po-la britar e mover; mas forom i falecer, ca esto foi bem provado: que, por ferir nem tanger, sol sinal nom foi mostrado. R6 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VII 66 68 70 R7 72 74 E cuidarom perecer todos e ali morrer, e houverom a saber que era Deus despagado em cuidar escarnecer aquel logar tam honrado. Muito se devem ter por gentes de mal recado os que mal cuidam fazer aa de que Deus foi nado. * * * 222 Cantigas de Santa Maria 100 «Santa Maria, / ’strela do dia» (E 100, T 100, U (Ap) 10[b]) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 4 I 6 8 10 12 14 16 R1 18 20 II 22 24 26 28 30 32 R2 34 36 III 38 40 42 44 Santa Maria, ’strela do dia, mostra-nos via pera Deus e nos guia. Ca veer faze-los errados que perder foram per pecados, entender de que mui culpados som; mas per ti som perdõados da ousadia que lhes fazia fazer folia mais que nom deveria. Santa Maria, ’strela do dia, mostra-nos via pera Deus e nos guia. Amostrar nos deves carreira por gãar em toda maneira a sem par luz e verdadeira que tu dar nos podes senlheira; ca Deus a ti a outorgaria e a querria por ti dar e daria. Santa Maria, ’strela do dia, mostra-nos via pera Deus e nos guia. Guiar bem nos pod’ o teu siso mais ca rem pera paraíso, u Deus tem sempre goi’ e riso pera quem em El creer quiso; e prazer-m’-ia 223 46 48 R3 50 52 se te prazia que foss’ a mia alm’ em tal companhia. Santa Maria, ’strela do dia, mostra-nos via pera Deus e nos guia. * * * 224 Cantigas de Santa Maria 101 «Bem pod’ a senhor sem par» (E 101, T 101, U 46) Esta é como Santa Maria guareceu o que era sordo e mudo. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Bem pod’ a senhor sem par fazer oir e falar. Com’ ũa vegada fez a um mud’ a de bom prez, e sordo, que dũa vez o foi de todo sãar. [Refrão = vv. 1-2] Este fora a Seixom rogar Deus no coraçom, ca pela boca já nom lho podia el mostrar, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 senom por sinas fazer com sas mãos, e gemer ant’ a Virgem, que valer lhe quisess’ e ajudar R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 per que podesse oir, e falasse, sem falir. E, por aquesto, partir nom se quis d’ ant’ o altar R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 trões que a gram senhor que madr’ é do Salvador lhe mostrou tam grand’ amor, como vos quero contar: R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 que logo lh’ apareceu, e com sas mãos tangeu-lh’ o rostr’ e o guareceu, e foi-lh’ a língua soltar, R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 e as orelhas lh’ abriu, assi que tantost’ oiu, e o sángui lhe saiu da língu’ e delas a par, 225 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 assi que log’ entom deu loores, com’ aprix eu, aa Virgem, e por seu ficou em aquel logar. 50 Bem pod’ a senhor sem par fazer oir e falar. 46 R8 * * * 226 Cantigas de Santa Maria 102 «Sempr’ aos seus val» (E 102, T 102) Esta é como Santa Maria guardou um crerizom que nom morresse em ũa sima u o haviam deitado ladrões. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Sempr’ aos seus val, e de mal todavia guarda-os sem al a mui santa senhor. Desto contarei de grado um gram miragre provado que fez por um ordinhado crérig’ a dos santos fror. [Refrão = vv. 1-4] Este era todavia mui dad’ a Santa Maria, e quant’ ele mais podia punhava em sa loor. [Refrão = vv. 1-4] Onde fora dum caminho ia este pastorinho, e encontrou um meninho que lhe disse: “– Mui melhor, [Refrão = vv. 1-4] vos guiarei, se quiserdes ir migo e mi_algo derdes; e, se vós esto fezerdes, sol nom hajades pavor [Refrão = vv. 1-4] que vos mal façam ladrões nem outros maos peões”. E el filhou pepiões e deu-lh’ end’ a seu sabor. [Refrão = vv. 1-4] E, pois que lhos houve dados, levo’-o, per seus pecados, u estavam ajuntados ladrões, o traedor, [Refrão = vv. 1-4] que o logo mal chagarom e todo o debulharom 227 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-85 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 e em um algar deitarom que nom havia peor [Refrão = vv. 1-4] em nium logar, e fondo era muit’ e nom redondo, mas havia i avondo de muita maa cheiror. [Refrão = vv. 1-4] El assi juso caendo, “– Santa Maria!” dizendo ia, que o acorrendo foi log’ e del guardador [Refrão = vv. 1-4] que nom caesse bem juso, como é de caer uso, mas em um logar escuso de costa, u morador [Refrão = vv. 1-4] foi aquela noit’. E tantos deitarom pos el de cantos ond’ houve muitos espantos. Mas bem sõo sabedor [Refrão = vv. 1-4] de com’ ém nom foi ferido, mas, em com’ eu hei oído, contra_a luz deu apelido, chamand’ a do salvador R12 97-100 [Refrão = vv. 1-4] XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 XVI madre; e eles fugirom, mas, ant’, o foio cobrirom. E pastore-lo oírom, que ali em derredor [Refrão = vv. 1-4] eram em esse deserto; e, poi-lo foio aberto houverom, virom de certo jazer aquel pecador. [Refrão = vv. 1-4] E logo cordas preserom que lhe deitadas houverom, e assi o ém trouxerom, mas chagad’ e sem coor. [Refrão = vv. 1-4] E, pois lhes houve contada 228 126 128 R16 a verdad’ e demostrada, foi deles porém loada muit’ a dos santos maior. Sempr’ aos seus val, e de mal todavia guarda-os sem al 132 a mui santa senhor. 130 * * * 229 Cantigas de Santa Maria 103 «Que-na Virgem bem servirá» (E 103, T 103, U 93) Esta é como Santa Maria fez estar o monge trezentos anos ao canto da passarinha, porque lhe pedia que lhe mostrasse qual era o bem que haviam os que eram em paraíso. R0 I 2 3 5 R1 6-7 II 8 10 R2 11-12 III 13 15 R3 16-17 IV 18 20 R4 21-22 V 23 25 R5 26-27 VI 28 30 R6 31-32 VII 33 35 R7 36-37 VIII 38 40 R8 41-42 Que-na Virgem bem servirá, a paraíso irá. E daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora contar, que fezo Santa Maria | por um monge, que rogar lh’ ia sempre que lhe mostrasse | qual bem em paraís’ há, [Refrão = vv. 1-2] e que o viss’ em sa vida | ante que fosse morrer. E porend’ a groriosa | vedes que lhe foi fazer: fez-lo entrar em ũa horta | em que muitas vezes já [Refrão = vv. 1-2] entrara; mais aquel dia | fez que ũa font’ achou mui crara e mui fremosa, | e cab’ ela s’ assentou. E, pois lavou mui bem sas mãos, | diss’: “– Ai Virgem, que será?: [Refrão = vv. 1-2] se verei do paraíso, | o que ch’ eu muito pedi, algum pouco de seu viço | ante que saia daqui, e que sábia, do que bem obra, | que galardom haverá?” [Refrão = vv. 1-2] Tantoste que acabada | houv’ o mong’ a oraçom, oiu ũa passarinha | cantar log’ em tam bom som que se escaeceu seendo | e catando sempr’ alá. [Refrão = vv. 1-2] Atám gram sabor havia | daquel cant’ e daquel lais que grandes trezentos anos | estevo assi, ou mais, cuidando que nom estevera | senom pouco, com’ está [Refrão = vv. 1-2] mong’ algũa vez no ano, | quando sal ao vergeu. Des i, foi-s’ a passarinha, | de que foi a el mui greu, e diz: “– Eu daqui ir-me quero, | ca hoimais comer querrá [Refrão = vv. 1-2] o convent’”. E foi-se logo, | e achou um gram portal que nunca vira, e disse: | “– Ai Santa Maria, val!: nom é est’ o meu mõesteiro; | pois de mi que se fará?” [Refrão = vv. 1-2] 230 IX 43 45 R9 46-47 X 48 50 R10 51-52 XI 53 55 R11 56-57 XII 58 60 R12 61-62 XIII 63 65 R13 67 Des i, entrou na eigreja, | e houverom gram pavor os monges quando o virom; | e demandou-lh’ o prior, dizend’: “– Amigo, vós quem sodes | ou que buscades acá?” [Refrão = vv. 1-2] Diss’ el: “– Busco meu abade, | que agor’ aqui leixei, e o prior e os frades, | de que mi_agora quitei quando fui a aquela horta: | u seem quem mi_o dirá?” [Refrão = vv. 1-2] Quand’ est’ oiu o abade, | teve-o por de mal sém, e outrossi o convento; | mais, des que souberom bem de como fora este feito, | disserom: “– Quem oirá [Refrão = vv. 1-2] nunca tam gram maravilha | como Deus por este fez polo rogo de sa madre, | Virgem santa de gram prez?” E por aquesto a loemos; | mais que-na nom loará [Refrão = vv. 1-2] mais doutra cousa que seja?; | ca, par Deus, gram dereit’ é, pois quanto nós lhe pedimos | nos dá seu filh’, a-la-fé, por ela, e aqui nos mostra | o que nos depois dará. Que-na Virgem bem servirá, a paraíso irá. * * * 231 Cantigas de Santa Maria 104 «Nunca já pod’ aa Virgem home tal pesar fazer» (E 104, T 104, U 96) Esta é como Santa Maria fez aa molher que queria fazer amadoiras a seu amigo co-n[o] Corpo de Jesu-Cristo e que o tragia na touca, que lhe corresse sangue da cabeça, atá que o tirou ende. R0 2 I 4 6 Nunca já pod’ aa Virgem | home tal pesar fazer como quem ao seu filho | Deus cuida escarnecer. E o que o fazer cuida, | creed’ aquesto por mi, que aquel escarnho todo | há de tornar sobre si. E daquest’ um gram miragre | vos direi, que eu oí que fezo Santa Maria; | oíde-mi_o a lezer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesto foi em Galiza | nom há i mui gram sazom, que ũa sa barragãa | houve um escudeirom; e, porquanto s’ el casara, | tam gram pesar houv’ entom que, com gram coita, houvera | o siso end’ a perder. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, com gram pesar que houve, | foi seu conselho buscar enas outras sas vezinhas, | e atal lho forom dar: que sol que ela podesse | ũa hóstia furtar das da eigreja, que logo | o poderia haver, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV pois que lhe tal bem queria. | E ela toste, sem al, foi-se a ũa eigreja | da Virgem espirital, que nas nossas grandes coitas | nos guarda sempre de mal, e diss’ entom que queria | logo comunhom prender. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E o crérigo sem arte | de a comungar cuidou; mai-la hóstia na boca | aquesta molher guardou, que per neũa maneira | no-na trociu nem passou, e punhou, quanto mais pôde, | de se dali log’ erger. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois que saiu da eigreja, | os dedos entom meteu ena boca, e tantoste | tirou-a end’, e odeu a hóstia ena touca; | e nada nom atendeu, ante se foi muit’ aginha | por provar est’ e veer 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII se lhe disseram verdade | ou se lhe foram mentir aquelas que lhe disseram | que lhe fariam vĩir log’ a ela seu amigo, | e já mais nunca partir 40 232 42 dela se já poderia, | e de com ela viver. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, entrant’ a ũa vila | que dizem Caldas de Rei, ond’ aquesta molher era, | per com’ end’ eu apres’ hei, avo ém mui gram cousa | que vos ora contarei: ca lhe virom pelas toucas | sangue vermelho correr. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E a gent’ entom dizia, | quando aquel sangue viu: “– Di, molher, que foi aquesto, | ou quem te tam mal feriu?” E ela maravilhada | foi tanto que est’ oiu, assi que nunca lhes soube | niũa rem responder. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E pôs a mão nas toucas, | e sentiu e viu mui bem que era sangue caente, | e disso assi porém: “– A mi nom me feriu outre | senom que-no mundo tem em seu poder, por grand’ erro | que me lh’ eu fui merecer”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Entom contou-lhes o feito, | tremendo com gram pavor, todo como lh’ avera; | e derom porém loor todos a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor, e a seu filho beito, | chorando com gram prazer. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 A molher se tornou log’ a- | -a eigreja outra vez, e deitou-s’ ant’ a omagem | e disse: “– Senhor de prez, nom cates a meu pecado, | que mi_o demo fazer fez”. E log’ a um mõesteiro | se tornou monja meter. 74 Nunca já pod’ aa Virgem | home tal pesar fazer como quem ao seu filho | Deus cuida escarnecer. 70 R12 * * * 233 Cantigas de Santa Maria 105 «Gram piedad’ e mercê e nobreza» (E 105, T 105, U 81) Esta é como Santa Maria guareceu a molher que chagou seu marido porque a nom pôd’ haver a sa guisa. R0 2 4 I 6 8 10 Gram piedad’ e mercê e nobreza, daquestas três há na Virgem assaz, tam muit’ ém que maldade nem crueza nem descousimento nunca lhe praz. E desto fezo a santa reinha gram miragre que vos quero contar, u apareceu a ũa meninha em um horto u fora trebelhar, em cas de seu padr’, em ũa cortinha que havia ena vila d’ Arraz. R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4] II Quando a viu, houv’ entom tam gram medo que adur pôd’ em seus pees estar, mas a Virgem se lhe chegou mui quedo e disse: “– Nom hás por que t’ espantar; mais, se me creveres, irás mui cedo u verás meu filh’ e mim faz a faz; 16 18 20 R2 21-24 [Refrão = vv. 1-4] III esto será se ta virgĩidade quiseres toda ta vida guardar e te quitares de toda maldade, ca por aquesto te me vim mostrar”. Diss’ a moça: “– Senhor de piadade, eu o farei, pois vos em prazer jaz”. 26 28 30 R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4] IV Entom se foi log’ a Virgem Maria; e a meninha ficou no lugar mui pagada e com grand’ alegria, e no coraçom pôs de nom casar. Mas seu padre lhe diss’ assi um dia: “– Casar-te quero com um alvernaz 36 38 40 R4 41-44 [Refrão = vv. 1-4] V home que é mui ric’ e muit’ honrado e que te quer logo grand’ algo dar”. Diss’ a moça: “– Esto nom é pensado, ca Santa Maria mi_o fez jurar, que mi_apareceu no horto, no prado, u trouxe sigo d’ ángeos grand’ az”. 46 48 50 R5 51-54 [Refrão = vv. 1-4] VI E o padr’ e a madre, perfiados, a forom mui sem seu grad’ esposar. E, quando os prazos forom chegados, 56 234 58 60 fezerom vodas; e, depois jantar, forom os nóvios ambos enserrados de suum por haverem seu solaz. R6 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VII Mas oiredes maravilha fera de como a quis a Virgem guardar: que, pero em poder do nóvio era, nunca, per rem, pôd’ a ela passar, e tal xe ficou como xe vera, por que pois nom houv’ a trager enfaz. 66 68 70 R7 71-74 [Refrão = vv. 1-4] VIII Desta guisa passarom bem um ano, que nunca el pôde rem adubar co-na donzela. Porém tam gram dano lhe fez que a houvera de matar: ca lhe deu com um cuitel’ a engano em tal logar que vergonha me faz 76 78 80 R8 81-84 [Refrão = vv. 1-4] IX de o dizer; ca tanto foi sem guisa que nom pod’ home, per rem, i falar, que quantos físicos houv’ end’ a Pisa nom lhe poderom a chaga serrar. E desto queixou-s’, e fez end’ enquisa um bispo que chamavam Bonifaz, 86 88 90 R9 91-94 [Refrão = vv. 1-4] X que houve dela gram doo, sem falha, quand’ esto soube, e mui gram pesar. Mais, por nom meter entr’ eles baralha, a seu marido a foi comendar, em que caeu fog’, assi Deus me valha, logo salvag’, e ardeu o malvaz. 96 98 100 R10 101-104 [Refrão = vv. 1-4] XI E todo-los daquela vila_ardiam daquel fog’, e faziam-se levar aa eigreja, u tantos jaziam que nom podiam i outros entrar; e todos aquesta coita sofriam polo mal que fezer’ aquel rapaz. 106 108 110 R11 111-114 [Refrão = vv. 1-4] XII Mas, entr’ aquestes, aquela cativa a que o marido fora chagar sofreu de fogo gram coita esquiva, ca a teta destra lhe foi queimar; e metero-na, mais morta ca viva, na eigreja, vestida dum prumaz. 116 118 120 R12 121-124 [Refrão = vv. 1-4] XIII E, pois acordou, muito braadava dizendo: “– Porque me fust’ enganar, 126 235 128 130 Santa Maria, pois em ti fiava?: ca, em lugar de me dereito dar, diste-me fogo que tam mal queimava e queima que o corpo me desfaz”. R13 131-134 [Refrão = vv. 1-4] XIV Assi gemendo e dando carpinhas, adormeceu; e logo, sem tardar, lh’ apareceu a senhor das reinhas, e começou-a muit’ a confortar e disse-lh: “– Eu trago as meezinhas com que são de fog’ e d’ alvaraz; 136 138 140 R14 141-144 [Refrão = vv. 1-4] XV e leva-t’ ém, ca des hoimais és sãa, e vai dormir ant’ aquel meu altar; e, pois t’ espertares, sei bem certãa que, quantos enfermos fores beijar, serám tam sãos com’ ũa maçãa, daqueste fogo e de seu fumaz”. 146 148 150 R15 151-154 [Refrão = vv. 1-4] XVI “– Tod’ esto” –diss’ ela– “creo de chão; mais como me poderei levantar?” Diz Santa Maria: “– Dá-m’ essa mão”. Entom a ergeu e foi-a levar, e ela sentiu o corpo bem são do fog’ e da ferida do falpaz. 156 158 160 R16 161-164 [Refrão = vv. 1-4] XVII E outro dia os que madurgarom e a virom, foro-na espertar e como sãara lhe preguntarom, e ela rem nom lhes quiso negar; e, po-la confortar, logo mandarom que lhe dessem caldo com do agraz. 166 168 170 R17 171-174 [Refrão = vv. 1-4] XVIII 176 Os enfermos log’ entom os poserom ant’ ela por esta cousa provar; e, pois que os beijou, saúd’ houverom. E começarom entom de loar Santa Maria, e logo souberom este feito pela terra viaz. 178 180 R18 182 184 Gram piedad’ e mercê e nobreza, daquestas três há na Virgem assaz, tam muit’ ém que maldade nem crueza nem descousimento nunca lhe praz. * * * 236 Cantigas de Santa Maria 106 «Prijom forte nem dultosa» (E 106, T 106, U 45) Esta é como Santa Maria sacou dous escudeiros de prijom. R0 2 I 3 5 7 Prijom forte nem dultosa nom pod’ os presos ter | a pesar da groriosa. Desta razom vos direi um miragre que achei escrito, e mui bem sei que farei del cantiga saborosa. R1 8-9 [Refrão = vv. 1-2] II E contarei, sem mentir, como de prijom sair fez dous presos e fogir e pois ir em salv’ a mui preciosa. 10 12 14 R2 15-16 [Refrão = vv. 1-2] III Dous escudeiros correr forom por rouba fazer; mas foro-nos a prender e meter em prijom perigoosa. 17 19 21 R3 22-23 [Refrão = vv. 1-2] IV Jazend’ em aquel logar, ũu deles se nembrar foi com’ em Seixom lavrar e pintar viu eigreja mui fremosa. 24 26 28 R4 29-30 [Refrão = vv. 1-2] V E diss’ a seu companhom: “– Se eu sair de prijom, cem cravos darei em dom a Seixom, que é obra mui costosa”. 31 33 35 R5 36-37 [Refrão = vv. 1-2] VI E, pois esto prometeu, logo lh’ o cepo caeu em terra; mas nom s’ ergeu: atendeu ant’ a noite lubregosa. 38 40 42 R6 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 237 VII 45 47 49 Mais, poi-la noite chegou, a seu companhom contou como lh’ o cepo britou e sacou end’ a Virgem piedosa. R7 50-51 [Refrão = vv. 1-2] VIII 52 O outro lhe diss’ assi: “– Per quant’ eu a vos oí, mil cravos levarei i se mi_a mi tolh’ esta prijom nojosa”. 54 56 R8 57-58 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois s’ o primeiro sentiu solto da prijom, fogiu; a guarda, quand’ esto viu, log’ abriu a cárcer mui tevrosa 59 61 63 R9 64-65 [Refrão = vv. 1-2] X po-lo outr’ i guardar bem, ca atal era seu sém; mas dele nom achou rem, e porém houv’ a Virgem sospeitosa, 66 68 70 R10 71-72 [Refrão = vv. 1-2] XI 77 madre de Nostro Senhor, que lhe fora soltador dos presos e guiador, sem pavor, como senhor poderosa. 79 Prijom forte nem dultosa nom pod’ os presos ter | a pesar da groriosa. 73 75 R11 * * * 238 Cantigas de Santa Maria 107 «Quem crever na Virgem santa, ena coita valer-lh’-á» (E 107, T 107) Esta é como Santa Maria guardou de morte ũa judea que espenarom em Segóvia e, porque se acomendou a ela, nom morreu nem se feriu. R0 1 I 3 5 R1 6 II 8 10 R2 11 III 13 15 R3 16 IV 18 20 R4 21 V 23 25 R5 26 VI 28 30 R6 31 VII 33 35 R7 36 Quem crever na Virgem santa, | ena coita valer-lh’-á. Dest’ um miragr’, em verdade, fez em Segóvi’, a cidade, a madre de piedade, qual este cantar dirá, [Refrão = v. 1] [d]ũa judea achada que foi em err’ e filhada e a esfalfar levada dũa pena qu[e] i ’stá, [Refrão = v. 1] muit’ alta e muit’ esquiva. E ela diss’: “– Ai cativa, como pode ficar viva quem daqui a caer há, [Refrão = v. 1] senom se Deus xe querria!; mas tu, reinha Maria, u crischãidade fia, se tal és com’ oí já [Refrão = v. 1] (que acorre-las coitadas que ti som acomendadas), entre toda-las culpadas val a mi, ca mester m’ há; [Refrão = v. 1] e, se ficar viv’ e sãa, logo me fare[i] crischãa ante que seja manhãa crás, u al nom haverá”. [Refrão = v. 1] Os judeus que a levarom, na camisa a leixarom, e logo a espenarom, dizendo: “– Alá irá!” [Refrão = v. 1] 239 VIII 38 40 R8 41 IX 43 45 R9 46 X 48 50 R10 51 XI 53 55 R11 56 XII 58 60 R12 61 XIII 63 65 R13 66 XIV 68 70 R14 71 Mas, pois dali foi caúda, da Virgem foi acorruda; porém nom foi pereçuda, pero caeu long’ alá [Refrão = v. 1] jus’ a pé dũa figueira, e ergeu-se mui ligeira-ment’ e foi-se sa carreira dizendo: “– Sempre será [Refrão = v. 1] beita a groriosa, madre de Deus preciosa, que me foi tam piadosa; e que-na nom servirá?” [Refrão = v. 1] E chegou aa eigreja daquela que sempre seja beita, u mui sobeja gente viu, e diss’: “– Acá [Refrão = v. 1] vĩíd’ e batiçar-m’-edes, e tal miragr’ oiredes que vos maravilharedes, e tod’ hom’ assi fará”. [Refrão = v. 1] E tantost’ aquela gente a batiçou mantenente; e foi sempre bem creente da que por nós rogará [Refrão = v. 1] a seu filho grorioso que nos seja piadoso eno dia temeroso quando julgar-nos verrá. Quem crever na Virgem santa, | ena coita valer-lh’-á. * * * 240 Cantigas de Santa Maria 108 «Dereit’ é de s’ end’ achar» (E 108, T 108, U (Ap) 3) Esta é como Santa Maria fez que nacesse o filho do judeu o rostro atrás, como lho Merlim rogara. R0 1 3 I 4 6 8 10 Dereit’ é de s’ end’ achar mal quem filhar perfia contra Santa Maria. E daquest’ oí contar que avo a Merlim que s’ houve de rezõar com um judeu alfaquim que em tod’ Escoça par, como disserom a mi[m], de saber nom havia. R1 11-13 [Refrão = vv. 1-3] II E começou a falar aquel judeu traedor ena Virgem, e jurar muito palo Criador que em ela encarnar nunca quis Nostro Senhor, nem seer nom podia. 14 16 18 20 R2 2123 [Refrão = vv. 1-3] III Merlim houve gram pesar u lh’ oiu esto dizer e disso: “– Se Deus m’ ampar, ante podo bem seer; ca o que terra e mar fez per seu mui gram poder, esto be-no faria”. 24 26 28 30 R3 31-33 [Refrão = vv. 1-3] IV O judeu a perfiar começou e disse: “– Nom podo Deus nunca entrar em tal logar per razom; ca o que foi enserrar em si quantas cousas som, como s’ enserraria?” 34 36 38 40 R4 41-43 [Refrão = vv. 1-3] V Merlim muit’ a assanhar se filhou, e log’ ali os golhos foi ficar em terra e diss’ assi: 44 46 241 48 50 “– Madre do que nos salvar vo, este diz de ti o que nom deveria; R5 51-53 [Refrão = vv. 1-3] VI porém te quero pregar que, com’ eu de certo sei que o teu foi, sem dultar, que o que te rogarei queras agora mostrar a este da falsa lei, que anda com folia, 54 56 58 60 R6 61-63 [Refrão = vv. 1-3] VII 64 que sa molher emprenhar foi; o que lhe nacer ém queras tu assi guisar que, com’ outr’ o rostro tem adeante por catar, tenha atrás, e des ém and’ assi todavia”. 66 68 70 R7 71-73 [Refrão = vv. 1-3] VIII 74 E o praz’ uviou chegar que a judea pariu; mas bem se podo sinar quem aquel seu filho viu, ca atal o gerar fez Deus como lho pediu Merlim com felonia. 76 78 80 R8 81-83 [Refrão = vv. 1-3] IX Que o rostro lhe tornar fez Deus o deant’ atrás, como lhe fora rogar o filho de Satanás por em vergonha deitar a seu padre Caifás, que ant’ o nom criía. 84 86 88 90 R9 91-93 [Refrão = vv. 1-3] X Porém seu padre matar o quis logo que naceu; mas Merlim o fez guardar, que o mui bem entendeu, e, po-los judeus tirar de seu erro, pois creceu, com el os convertia. 94 96 98 100 R10 101 103 Dereit’ é de s’ end’ achar mal quem filhar perfia contra Santa Maria. * * * 242 Cantigas de Santa Maria 109 «Razom ham os diabos de fogir» (E 109, T 109) Esta é como Santa Maria de Salas livrou um home de cinco diáboos que havia em si, que o queriam levar e matar. R0 2 I 4 6 Razom ham os diabos de fogir ant’ a Virgem, que a Deus foi parir. Dereito fazem de s’ ir perder ant’ a de que Deus quiso nacer; ca per ela perderom seu poder de guisa que nos nom podem nozir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Dest’ um miragre quero contar que fez a Virgem (que nom há par nem haverá mentr’ o mundo durar: esto vos posso jurar sem mentir). 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 O miragre foi em tal razom: cinco diabos ũa sazom s’ assũarom e filharom entom todos um home po-lo mal bailir. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Pera Salas em caminh’ entrou; quand’ a vista do logar chegou, essa companha assi s’ espantou que o nom leixarom adeant’ ir R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 aquel home, segund’ aprendi, tá que dous frades verom i mores, que o levarom dali aa eigreja logo, sem falir, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 querelando-se, com’ apres’ hei, os démões da madre do rei dos ceos em como vos eu direi: “– Esta nos fará dest’ home partir”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Um judeu os conjurou por Deus que dissessem porque os judeus nom filhavam. Diss’ um demo: “– Ca meus 243 42 sodes e punhades de me servir; R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 por esto nom vos fazemos mal, ca sodes todos nossos, sem al; mai-los que do batismo o sinal tragem, aqueles imos percodir”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 Esto dito, fogiu o judeu; mai-los diabos, com’ aprix eu, cada um deles logo sinal deu quando houverom do hom’ a sair. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Desto derom todos gram loor a Santa Maria, que sabor há de valer sempr’ ao pecador e d’ os diabos sempre destroir. 62 Razom ham os diabos de fogir ant’ a Virgem que, a Deus foi parir. 58 R10 * * * 244 Cantigas de Santa Maria 110 «Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida» (E 110, T 110) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 E como pode per língua seer loada a que fez porque Deus a sa carne sagrada quis filhar e ser home, per que foi mostrada sa deidad’ em carne, vista e oída? 8 Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida que, pera a loar, tempo nos fal e vida. 4 R1 II 12 Ca tantos som os bes de Santa Maria, que língua dizer todos no-nos poderia, nem se fosse de ferro e noite e dia nom calasse, que ante nom fosse falida. 14 Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida que, pera a loar, tempo nos fal e vida. 10 R2 III 18 Se purgamo foss’ o ceo estrelado, e o mar todo tinta (que grand’ é provado), e vivesse por sempr’ um home ensinado de ’scriver, ficar-lh’-ia a maior partida. 20 Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida que, pera a loar, tempo nos fal e vida. 16 R3 Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida que, pera a loar, tempo nos fal e vida. * * * 245 Cantigas de Santa Maria 111 «Em todo tempo faz bem» (E 111, T 111) Esta é como um crérigo de missa que servia a Santa Maria morreu no rio que vem por Paris, e a tercer dia ressucito’-o Santa Maria e saco’-o do rio. R0 2 I 4 6 Em todo tempo faz bem a Virgem, que nos mantém. Nom há temp’ assinaado por acorrê-lo coitado nem perdõá-lo culpado, mas assi como lh’ avém. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Dest’ um miragre preçado vos será per mi mostrado que fez por um ordinhado a mui comprida de sém. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III De missa o malfadado era, mas por seu pecado a lussúria tam deitado que nom dava por al rem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E pero de mui bom grado rezava muit’ aficado as horas da que Deus nado foi por nós em Beleém. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ũa noit’ o desguisado foi fazer, e, pois, entrado houv’ em um barc’ e passad’ o Sena, que por Paris vem. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pero nom foi arribado, ca o barco foi tornado e el na águ’ afogado ante que chegass’ aquém. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII El havia começado madodinhos, e rezado um salm’; e logo filhado foi do demo feramém. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 246 VIII 46 48 E, pois foi apoderado de sa alma, muit’ irado foi ao fogo privado po-la i par des ém. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Mais a madre do honrado Jesu-Crist’ a seu chamado vo, e o denodado demo logo fugiu ém, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X u ela ressucitado houv’ o morto e sacado do rio, que já buscado fora daquend’ e dalém. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Quatro dias mergulhado jouvera e afondado; mas entom dalá tirado foi pola que sempre tem 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 seu acorr’ aparelhado pera valê-lo menguado d’ ajuda. Porém loado seja seu nome. Amém. 74 Em todo tempo faz bem a Virgem, que nos mantém. 70 R12 * * * 247 Cantigas de Santa Maria 112 «Nas coitas devemos chamar» (E 112, T 112, U (Ap) 2) Esta é como Santa Maria guardou ũa nave que ia carregada de triigo que nom perecesse, e sacou-a em salvo ao porto. R0 2 I 4 6 Nas coitas devemos chamar a Virgem, estrela do mar. Esta é Santa Maria, que aos seus noit’ e dia guarda de mal e os guia, pois se lhe vam encomendar, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II como fez ũa vegada dũa nav’ encarregada de trigo e de cevada de Colhiure, que foi guardar, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que houvera pereçuda seer de tod’, e perduda, senom pela sa ajuda, que a quis em salvo guiar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca houvera tal tormenta que de milhas setaenta correra, ou oitaenta, querendo-s’ a nav’ afondar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ca o masto foi britado e o temom pecejado, e os da nave sem grado saírom ém por escapar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI em um batel a gram pa, ca virom a nave cha d’ água volta com ara e aquel pam todo molhar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Esto foi cousa mui certa: ca a nav’ era aberta; e porende grand’ oferta prometerom entom de dar 40 42 248 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII aa Virgem, que rogasse seu filho que lhes guardasse seu pam e que os sacasse em salvo sem perda filhar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Entom mui toste remarom e da nave s’ alongarom, e ao porto chegarom, u a virom sãa estar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E virom seu pam eixuito, por que fezeram já luito; e a Virgem porém muito começarom log’ a loar. 62 Nas coitas devemos chamar a Virgem, estrela do mar. 58 R10 * * * 249 Cantigas de Santa Maria 113 «Por razom tenho d’ obedecer» (E 113, T 113) Esta é como Santa Maria de Monserraz guardou o mõesteiro, que nom feriss’ a pena em ele que caeu da roca que está encima da eigreja que se vesse dereitamente destroir a eigreja toda e o moesteiro. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 50 52 Por razom tenh’ obedecer as pedras a madre do rei, que, quando morreu por nós, sei que porém se forom fender. Desto direi um miragre | mui grande que contar oí que em Monsarraz a Virgem | fez, que bem parece hoj’ i, dũa pena que se mover foi e ar leixou-se caer. [Refrão = vv. 1-4] Esta caeu em tal guisa, | se a Deus leixasse vĩir, que podera a eigreja | toda tantoste destroir; mais Deus nom quis esto sofrer po-la eigreja defender [Refrão = vv. 1-4] de sa madre groriosa, | a reinha esperital; porém desviou a pena | em tal guisa que nom fez mal, e fê-la tam passo decer que pois nom se pude volver. [Refrão = vv. 1-4] Mai-los monges, que cantavam | a missa da madre de Deus, quand’ oírom o som grande, | disserom: “– Senhor, somos teus, e nom nos leixes perecer nem de maa morte morrer”. [Refrão = vv. 1-4] [E], dizend’ esto, saírom | da eigrej’, e virom estar o penedo que caera, | que Deus fez[era] desviar; e a Virgem e seu poder começarom a beizer. [Refrão = vv. 1-4] Este miragre tam grande, | que fez pola de bom talám Deus, sa madre groriosa, | vee-no quantos [al]i vam a Monsarraz, e ham prazer, e do seu vam i oferer. Por razom tenh’ obedecer as pedras a madre do rei, que quando morreu por nós sei que porém se forom fender. * * * 250 Cantigas de Santa Maria 114 «A que servem todo-los celestiaes» (E 114, T 114) Esta é dum mancebo a que seus emigos chagarom mui mal de morte, e sa madre prometera-o a Santa Maria de Salas, e foi logo guarido. R0 2 I 4 6 A que servem todo-los celestiaes guarecer bem pode as chagas mortaes. Dest’ um gram miragre fez Santa Maria de Salas por ũa molher que havia gram fiança em ela e a servia põendo ant’ o seu altar estadaes. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesta um filho houve que amava mais ca rem, e sempre o acomendava a Santa Maria e por el rogava que lho d’ ocajões guardass’ e de maes. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E mester lhe foi, ca um dia acharom-no seus emigos e mal o chagarom de guisa que todo o espedaçarom, ca lhe derom colbes mui descomunaes. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Quand’ oiu aquesto sa madr’, a mesquinha, co-na mui gram coita que dele tĩinha, foi por el mui tost’ e trouxe-o aginha a sa cas’ e pôs-lo em ũus portaes. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E catou-o, e viu-o come desfeito das chagas mui grandes e atám maltreito; e atou-lhas logo bem todas a eito com panos de linho e com seus cendaes. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E acomendo’-o aa groriosa Santa Maria de Salas preciosa, que o guariu logo come piadosa (ca xe soe ela a fazer de taes), R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 assi que as chagas (que eram atadas) forom logo todas atám bem juntadas, sãas e guaridas e tam bem sarradas 251 42 que adur pareciam end’ os sinaes. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Ante que a alva do dia chegasse, diss’ el a sa madre que o desatasse, ca já são era, e que o catasse; e ela o fez log’, e achou-lh’ iguaes R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 as chagas e sãas. E porém loores deu aa beita senhor das senhores, que aos seus mostra tam grandes amores, e mais a aqueles que lhe som leaes. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Logo madr’ e filho em caminh’ entrarom, e forom a Salas, e alá contarom aqueste miragre. E todos loarom a Virgem por est’, e loarám jamaes. 62 A que servem todo-los celestiaes guarecer bem pode as chagas mortaes. 58 R10 * * * 252 Cantigas de Santa Maria 115 «Com seu bem» (E 115, T 115, U 55) Esta é como Santa Maria tolheu ao demo o mininho que lhe dera sa madre com sanha de seu marido, porque concebera del eno dia de Páscua. R0 1 3 5 I 7 9 11 13 15 R1 16-20 II 22 24 26 28 30 R2 31-35 III 37 39 41 43 45 R3 46-50 IV 52 54 56 Com seu bem sempre vem em ajuda conhoçuda de nós Santa Maria. Com ajuda nos vem-e e com sa amparança contra o que nos tem-e no mund’ em gram balança por tolher-nos o bem-e da mui nobr’ esperança; mas vingança filha a groriosa poderosa del, e sempre nos guia. [Refrão = vv. 1-5] Desto no tempo d’ ante achamos que fezera a do mui bom talante gram maravilha fera dũa molher andante mal que seu filho dera e posera (por que fora pecare) de o dare ao dem’ em bailia. [Refrão = vv. 1-5] Em terra de Roma_houv’ i, com’ escrit’ hei achado, um home, com’ aprendi, bõo e muit’ honrado, e, demais, segund’ oí, ric’ e mui bem casado, e amado de todo-los da terra, ca sem err’ a sa fazenda fazia. [Refrão = vv. 1-5] Est’ home e sa molher mui gram temp’ esteverom servindo Deus volonter, e seus filhos fezerom, e quant’ houverom mester a cada ũu derom. Pois poserom 253 58 60 R4 61-65 V 67 69 71 73 75 R5 76-80 VI 82 84 86 88 90 R6 91-95 VII 97 99 101 103 105 R7 106-110 VIII 112 114 116 118 120 R8 121-125 IX 127 129 de ter castidade e verdade entre si noit’ e dia. [Refrão = vv. 1-5] Mais o dem’, a que pesou daquesto que poseram, muitas carreiras buscou pera o que fezeram desfazer, e tant’ andou que, o que manteveram, u jouveram cada um em seu leito, com despeito os meteu em folia. [Refrão = vv. 1-5] Muit’ houv’ o demo prazer pois que houve vençudo o hom’, e fez-lo erger de seu leit’, encendudo por com sa molher jazer. E o que prometudo e túdo muit’ era que guardass’ e nom britasse, el ende o partia. [Refrão = vv. 1-5] A molher chorand’ entom, a que muito pesava, lhe diss’ aquesta razom: como o dem’ andava por britar sa profissom; mas que lhe conselhava e rogava que o el nom fezesse, ca soubesse que a Deus pesaria. [Refrão = vv. 1-5] “– Demais, festa será crás dessa Páscoa santa; porend’ em ti Satanás nom haja força tanta que o que prometud’ hás brites, ca quem quebranta ou s’ encanta a britar sa promessa, log’ em essa hora de Deus desvia”. [Refrão = vv. 1-5] O home nom quis, per rem, leixar seu fol deleito, nem catou i mal nem bem; mais, pois compriu o preito, 254 131 133 135 R9 136-140 X 142 144 146 148 150 R10 151-155 XI 157 159 161 163 165 R11 166-170 XII 172 174 176 178 180 R12 181-185 XIII 187 189 191 193 195 R13 196-200 ela com sanha porém diz: “– O que será feito, eu endeito-o daqui, que seu seja, sem peleja, do demo todavia”. [Refrão = vv. 1-5] Logo bes dessa vez a molher foi encinta dum meninho, que pois fez com pesar, sem enfinta, por que o mui mais ca pez negro nem que a tinta del nom quinta, mais todo o meninho fremosinho depois haver devia. [Refrão = vv. 1-5] Onde depois, sem mentir, o demo, de mal cho, aos doz’ anos pedir aquel meninho vo a sa madre, sem falir, e diss’: “– Ao quinzo em meu so o levarei, sem falha, sem baralha doutre e sem perfia”. [Refrão = vv. 1-5] A madre com gram pesar e com mui gram quebranto começou log’ a chorar por seu filh’ e fez chanto; e pois feze-o chamar e disse-lh’ entom tanto: “– Ao santo papa que é em Roma vai, e toma haver por ena via; [Refrão = vv. 1-5] ca d’ atanto sõo fis: que te porrá conselho em teu mal, par Sam Denis”. E o moç’ em trebelho no-no tev’; e por Paris foi; e, pois, no concelho, no vermelho pano conhoceu logo no meog’ o papa da crerezia. [Refrão = vv. 1-5] 255 XIV 202 204 206 208 210 211-215 R14 XV 225 226-230 [Refrão = vv. 1-5] 219 221 223 XVI 232 234 236 238 240 R16 241-245 XVII 247 249 251 253 255 R17 [Refrão = vv. 1-5] ca um sant’ hom’ i está que end’ é patriarca daquela terra e há em podê-la comarca, e conselho te dará bõo, se Deus me parca; busca barca e vai tost’, e nom chores nem demores, e faz ta romaria”. 217 R15 E, tantoste que o viu, a ele mantenente foi, e bem lhe descobriu seu feito, que niente del nom leixou nem mentiu. Mai-lo papa Cremente certamente lhe disse: “– Essa hora, sem demora, te vai pera Suria; 256-260 XVIII 262 264 266 268 270 Contaria-vos dedur as mui grandes tormentas que sofreu no mar de Sur o moço, ca trezentas milhas correu sem nenlhur folgar, ou quatrocentas ou quinhentas, sem áncora deitarem nem chegarem a terra d’ Armenia. [Refrão = vv. 1-5] E, per com’ aprendi eu, o moço, muit’ aginha chegou a el e lhe deu a carta que tiinha e disse-lh’: “– Ai senhor meu, pola santa reinha, meezinha na mià coita pom cedo”. E com medo seu mal lhe descobria. [Refrão = vv. 1-5] O patriarca, sem al, lhe disse: “– Sei que andas com mui gram coita mortal; mas, desto que demandas, um ermitám sei atal que vestiduras brandas nem viandas nom usa terraes, senom taes como lhas Deus envia; 256 271-275 R18 XIX 277 279 281 283 285 R19 286-290 XX 292 294 296 298 300 R20 301-305 XXI 307 309 311 313 315 R21 316-320 XXII 322 324 326 328 330 R22 331-335 XXIII 337 339 341 [Refrão = vv. 1-5] e achá-lo-ás, bem sei, ena Negra Montanha; mas atanto te direi: que nom leves companha, ca, per com’ eu apres’ hei, no-na quer, e sa manha é estranha doutr’ home, e sa vida mui comprida”. Soo, sem companhia, [Refrão = vv. 1-5] o caminh’ entom colheu o moç’, e gram jornada pois cada dia prendeu, que nunca folgou nada, atá que lh’ apareceu a ermida sagrada u morada daquel religioso homildoso era, que Deus servia. [Refrão = vv. 1-5] O moç’ houve gram sabor pois entrou na capela, mas do ermitám maior, que viu dentr’ em sa cela, u lh’ entom Nostro Senhor deu em ũ’ escudela grand’ e bela dous pães bem do ceo, so um veo que a toda cobria. [Refrão = vv. 1-5] E o ángeo de Deus do ceo da altura deceu ontr’ os servos seus em mui bela figura e diss’: “– Ai amigos meus, porque vossa natura nom endura muito fame nem sede, dous tede pães”. E logo s’ ia. [Refrão = vv. 1-5] Pois comerom daquel pam, o moço sa fazenda contou ao ermitám, chorando, sem contenda. El diss’: “– A do bom talám roga que te defenda e comprenda 257 343 345 R23 346-350 XXIV 352 354 356 358 360 R24 361-365 XXV 367 369 371 373 375 R25 376-380 XXVI 382 384 386 388 390 R26 391-395 XXVII 397 399 401 403 405 R27 406-410 XXVIII 412 414 o demo e o dome, que nom tome a ti com’ el querria; [Refrão = vv. 1-5] ela seja teu solaz até ena manhãa, que direi eu, se lhe praz, missa pela luz chãa, e comungar-t’-ei em paz, e a ta alma sãa e certãa será de paraíso, u há riso sempre e alegria”. [Refrão = vv. 1-5] O ermitám ant’ a luz as horas foi dizendo daquel que morreu na cruz por nós pas sofrendo. O meninh’ entom lh’ aduz seus livros mui correndo, e tremendo disse: “– Missa dizede, e valede-me, ca tempo seria”. [Refrão = vv. 1-5] De Páscua no mês d’ abril a missa começarom; mai-lo demo mui sotil, el e os seus andarom tant’ a redor do covil, que o moço filharom e levarom da missa na segreda, que mui queda o ermitám dizia. [Refrão = vv. 1-5] Com’ a hestória diz, u diabres levavam o moç’ e como perdiz assi o depenavam, virom a emperadriz do ceo, que dultavam, e leixavam o moço e fugiam, ca sabiam que lho nom leixaria. [Refrão = vv. 1-5] Pois que tolheu o donzel a Virgem, com’ oístes, ao dem’ e seu tropel fezo fugir mui tristes; 258 416 418 420 R28 421-425 XXIX 427 429 431 433 435 R29 436-440 XXX 442 444 446 448 450 R30 451 453 455 mais o ermitám fiel diss’: “– Ai Deus, consentistes ou dormistes u mi_o moço prenderom e tolherom, que ante mi siía?” [Refrão = vv. 1-5] Como home que se dol, chorand’ e nom riindo, o ermitám come fol s’ houv’ a tornar pedindo o moço; e em sa prol estando comedindo, foi oindo, u a paz acabara, que lh’ em crara voz Amém respondia. [Refrão = vv. 1-5] O ermitám entom prês o moço pela mão, que a reinha cortês lhe dera livr’ e são, e disse-lh’: “– Amigo, vês?: eu te faço certão bem de chão que des hoimais és quito do maldito demo que te seguia”. Com seu bem sempre vem em ajuda conhoçuda de nós Santa Maria. * * * 259 Cantigas de Santa Maria 116 «Dereit’ é de lume dar a que madr’ é do lume» (E 116, T 116) Esta é como Santa Maria fez acender duas candeas na sa eigreja em Salamanca, porque o mercador que as i posera lhas encomendara. R0 1 Dereit’ é de lume dar | a que madr’ é do lume. I 2 8 Desto vos quero contar miragre verdadeiro que quis a Virgem mostrar gram por um mercadeiro que aa feira mercar com um seu companheiro de Salamanca fora, | como ham de costume. R1 9 [Refrão = v. 1] II 10 16 Aqueste mais doutra rem amou Santa Maria e com haver e com sém de grado a servia; e jajũava tam bem cada que sa vigia dela foi que pescado | nom com[e]u nem legume. R2 17 [Refrão = v. 1] III 18 24 E atal vida usou per uquer que andava m[ercand]o, que jajũou nas feiras u mercava; mas pero nunca achou, uquer que el estava, quem lhe fezesse nojo | ond’ houvesse queixume. R3 25 [Refrão = v. 1] IV 26 32 El vivendo vida tal que, u eigrej’ achasse da Virgem que pod’ e val, que desto nom errasse que cande’ ou estadal i sigo nom levasse, esto em Salamanca | fez, dizendo “– Adu-me”, R4 33 [Refrão = v. 1] V 34 40 a um seu sergent’ assi, “– duas grandes candeas, as que de Toled’ aqui trouxe, que nom som feas; ca eu taes alá vi melhor arder que teas nem que niũa cousa | que o fogo consume”. 41 [Refrão = v. 1] 4 6 12 14 20 22 28 30 36 38 R5 260 VI 42 48 Segundo com’ apres’ hei, as candeas trouxerom assi como vos direi, e acender fezerom; e, como per oir sei, sas guardas i poserom, dizendo: “– Guardad’ ũa | que outra nom afume”. 49 [Refrão = v. 1] 44 46 R6 VII 50 56 Mas avo per prazer da Virgem groriosa que houverom de morrer; mas ela piadosa [a]s ar fez pois acender come tam poderosa com Deus, cujos miragres | nom cabem em volume. 57 Dereit’ é de lume dar | a que madr’ é do lume. 52 54 R7 * * * 261 Cantigas de Santa Maria 117 «Toda cousa que à Virgem seja prometuda» (E 117, T 117) Esta é como ũa molher jurou que nom fezesse obra em sábado, e depois, per seu pecado, britou sa jura, e aprenderom-xe-lhe as mãos aos braços, e porém mandou-se levar a Santa Maria de Chartes e foi logo guarida. R0 2 I 4 6 Toda cousa que à Virgem seja prometuda, dereit’ é e gram razom que lhe seja túda. Dest’ um fremoso miragre fez Santa Maria em Chartres por ũa molher que jurad’ havia que nom fezesse no sábado obra sabuda per que a Santa Maria houvesse sanhuda. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto teve um gram tempo; mas em tantas guisas a sossacou o diabo que lhe fez camisas talhar e coser com seda d’ obra mui miúda, per que sa lavor na terra fosse conhoçuda. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E em mente nom havia do que prometera que o sábado guardasse, mas sempr’ i cosera mais ca em outro dia: tant’ era [a]trevuda; per conselho do diabr’ assi foi decebuda. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Mas, que vissem a vingança judeus e crischãos que por sa madre Deus dela filhou, fez-lh’ as mãos que aos braços apresas forom, e tenduda caeu em terra, e jouve mui gram peça muda. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Muitas físicas provarom em ela, que palha nom lhe valverom nem prol teverom nemigalha; e depois pelas eigrejas demandand’ ajuda a trouxerom, porque dos santos foss’ acorruda. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E, quando viu que tod’ esto rem nom lhe prestava, aa eigreja de Chartes levar se mandava, e ant’ o altar chorando foi tam repentuda que logo houve saúde; cousa foi viúda R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 per toda aquela terra, que os que a viram andar tolheita das mãos e pedir oíram derom graças aa Virgem, a que sempr’ ajuda aos coitados, ca desto muit’ end’ é tuda. 44 Toda cousa que à Virgem seja prometuda, dereit’ é e gram razom que lhe seja túda. 40 R7 262 Cantigas de Santa Maria 118 «Fazer pode dôutri vivê-los seus» (E 118, T 118) Esta é dũa molher de Saragoça que paria os filhos mortos, e rogou a Santa Maria de Salas que aquel que tragia que lho fezesse viver. R0 2 I 4 6 Fazer pode dôutri vivê-los seus filhos aquela que madr’ é de Deus. Dest’ um miragre direi que oí, que fez a Virgem, per com’ aprendi, em Saragoça dũa molher i que paria morto-los filhos seus. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Com seu marido baralhava mal muitas vezes sobr’ este preito tal; porém de cera omagem, nom dal, fez de meninho, dos dinheiros seus, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 que prometeu aa Virgem de prez. Pero tal parto três vegadas fez; e, quando vo aa quarta vez, pariu mort’ outro, chorando dos seus R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 olhos, dizendo: “– Senhor, que farei?: pois est’ é morto, nunca viverei com meu marido, mas a ti irei que a teu filho rogues que dos seus R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 miragres mostre por ti, ca sei bem que o fará: desto nom dulto rem; pois faça esto por ti, ca bem tem meu marido que ambos somos seus, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 eu e ele”. E tam muito chorou em dizend’ esto, e tanto rogou que o meninho entom viv’ achou. E fez chamar i dous homes seus R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 de sa casa; e seu marid’ entom i vo logo com gram devoçom; e muitas gentes loarom entom 263 42 aa Virgem, que val sempr’ aos seus. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Tantost’ a madre foi sigo levar seu filh’ a Salas, e ant’ o altar pôs sa omagem, dizendo: “– Loar desta devemos os miragres seus”. R8 49-50 Fazer pode dôutri vivê-los seus filhos aquela que madr’ é de Deus. * * * 264 Cantigas de Santa Maria 119 «Como somos per conselho do demo perdudos» (E 119, T 119) Esta é como Santa Maria tolheu um joiz aos diáboos que o levavam, que o queriam matar, e torno’-o a sa casa, e disse-lhe que se meefestasse ca outro dia havia de morrer. R0 2 I 4 6 Como somos per conselho do demo perdudos, assi somos pelo da Virgem tost’ acorrudos. Desto direi um miragre, onde gram façanha filharedes, que a Virgem fezo em Espanha, dum home que de diabos ũa gram companha levavam pera parem com os descreúdos. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este sobrejoiz era dũa vila bõa, em que viçosa tĩía muito sa pessõa, mui gram manhãa jantando, e cand’ a nõa, e grandes dões filhava, ca nom dos miúdos. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este mui bom pam comia sempr’, e bõos vinhos bevia, mas nom usava muit’ andar caminhos pera prender os ladrões; pero os mesquinhos prendia, e por el eram mui mal remeúdos. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El um di’ assi estando, que jantar queria com outros que convidados houv’ em aquel dia, oiu como de peleja ou de gram perfia grandes vozes e braados fortes e agudos, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e dizend’: “– Aginha, aginha, mui toste filhade aquel home e da vila longe o levade!”. El, cuidando que peleja era de verdade, mandou filhar a seus homes lanças e escudos, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e el saiu dos primeiros parti-la peleja, dizendo: “– Por Deus, varões, nom seja, nom seja!” Mas tantoste de diabos companha sobeja o filharom, ũus negros e outros cornudos. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E mantenente da vila o poserom fora, sobr’ um poço fond’ e negro mais que ũa mora, e quisero-no deitar em ele essa hora com outros, que pouc’ havia eram i metudos. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 265 VIII 46 48 E aquel poço fervia bem come caldeira, ond’ el espantad’ estava de maa maneira. Em esto chegou a Virgem santa verdadeira, dizendo: “– Leixad’ est’ home, maos atrevudos!”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Eles, quand’ aquest’ oírom, fugirom aginha e leixarom aquel hom’ aa santa reinha, que lhe deu logo conselho bem qual convĩinha, ca os seus nom quer ela que sejam cofondudos. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Ca, pero el de justiça mui pouca fezera, sempre em Santa Maria esperanç’ houvera; e porende o livrou daquela coita fera, dizend’: “– Atantoste sejam per ti conhoçudos 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI teus pecados, e filha deles gram pedença, e em pagar o que deves mete ta femença, e em meu filh’ e em mi have bem ta creença, e faz come os que estám sempr’ apercebudos, 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII ca sabe que mais dum dia nom será ta vida; porém faz que, pois ta alma for de ti partida, que logo, ses tardança, pera Deus sa ida faça, e que os santos nom lhe sejam sanhudos”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Poi[s] lh’ aquesto diss’ a Virgem, em um mui bel chão o leixou. E el[e] tornou-se logo de mão a sa casa, e enviou polo guardião e filhou del pedença dos erros sabudos. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E nulh’ home mais coitado nom foi, que-no visse. E outro dia morreu como lh’ a Virgem disse; e, u quis Deus que lh’ a alma do corpo saísse, os ángeos a levarom, nobres e temudos. 86 Como somos per conselho do demo perdudos, assi somos pelo da Virgem tost’ acorrudos. 82 R14 * * * 266 Cantigas de Santa Maria 120 «Quantos me creverem loarám» (E 120, T 120) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I R 4 R 6 R1 8 Ca sem ela Deus nom haverám Quantos me crevrerem loarám ne-nas sas fazendas bem farám Quantos me creverem loarám ne-no bem de Deus conhocerám; e tal conselho lhes dou porém: 10 Quantos me creverem loarám a Virgem, que nos mantém. II R 12 R 14 R2 16 E com tod’ esto servi-la-am Quantos me creverem loarám e de seu prazer nom sairám, Quantos me creverem loarám e mais doutra rem a amarám, e serám per i de mui bom sém. 18 Quantos me creverem loarám a Virgem, que nos mantém. III R 20 R 22 R3 Quantos me creverem loarám a Virgem, que nos mantém. 24 Ca em ela sempre acharám Quantos me creverem loarám mercee mui grand’ e bom talám, Quantos me creverem loarám per que atám pagados serám que nunca desejarám alrem. 26 Quantos me creverem loarám a Virgem, que nos mantém. * * * 267 Cantigas de Santa Maria 121 «De muitas maneiras busca a Virgem esperital» (E 121, T 121) Esta é dum miragre do cavaleiro que fazia a guerlanda das rosas a Santa Maria. R0 2 I 4 6 De muitas maneiras busca | a Virgem esperital carreiras em como guarde | os seus de mort’ e de mal. E de tal razom com’ esta | em Proença ũa vez amostrou mui gram miragre | a senhor de todo prez contra um seu cavaleiro | que tal promessa lhe fez: que lhe guerlanda faria | de rosas toda, nom dal; R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II e aquesto cada dia, | podendo-as el achar, e, se nom, por cada rosa | dissesse em seu logar ũa vez avemaria, | e assi fosse cercar a guerlanda toda delas, | e que lha fezess’ atal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Aquesto fez um gram tempo, | que nom faleceu de rem, que a guerlanda das rosas | no tempo delas mui bem fazia, e a põía | na sa omagem; des ém, a ela s’ acomendava, | que aos seus nunca fal. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Quando nom achava rosas, | rezava, com’ aprendi, toda-las Aves Marias | que prometera, que niũa nom lhe falecia. | E el, fazendo assi, topou com seus emigos | em meogo dum gram val, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que mui bem encavalgados | vĩinham; mais, a-la-fé, ele assi nom estava, | mas em um seu palafré frac[o] em que cavalgava. | E deceu dele a pé e ficou log’ os golhos | escontra u o sol sal, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 e diss’ as Aves Marias, | rogando de coraçom a Virgem que lhe valvesse. | E ela valeu-lh’ entom: ca, ali u eles iam | po-lo matar de random, viro-no todo cercado | de lume celestial. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 E ar virom ũa dona | ũa guerlanda fazer de rosas, e el com ela | do outro cabo põer das rosas ena guerlanda; | mas eles entom poder nom houverom d’ ir a ele, | e disserom log’ atal: 268 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 “– Tornemo-nos daqui logo, | pois esto nom praz a Deus: que est’ home nós matemos; | ca x’ éste dos servos seus; e porende vos conselho” | –diss’ entom um deles–, “meus amigos, que nos vaamos; | ca muit’ é descomunal R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 cousa de filharmos guerra | co-na madre do Senhor, que veemos cabo dele | mais bela ca nulha flor, e faz com el a guerlanda | e é sa ajudador, que assi nos desfaria | bem com’ a água o sal”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 Forom-s’ eles; e daquesto | o cavaleiro nom viu nulha rem, nem sol a dona, | nem da guerlanda sentiu que em sa mão tevesse; | mas pela terra oiu todo quanto lhes contarom | da senhor que pod’ e val. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 E porém, se a amava | ante, depoi-la amou mui mais; e este miragre | per muitas terras contou, e, com quantos a loavam, | sempre muito a loou, mostrando como nas coitas | aos seus é mui leal. 68 De muitas maneiras busca | a Virgem esperital carreiras em como guarde | os seus de mort’ e de mal. 64 R11 * * * 269 Cantigas de Santa Maria 122 «Miragres muitos pelos reis faz» (E 122, T 122) Esta é como Santa Maria ressucitou ũa ifante, filha dum rei, e pois foi monja e mui santa molher. R0 2 I 4 6 Miragres muitos pelos reis faz Santa Maria cada que lhe praz. Desto direi um miragre que vi, que em Toled’ a Virgem fez, ali na sa capela, e creed’ a mi que faz i outros miragres assaz. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta capela no alcáçar é da Santa Virgem, u ficou a fé, e dentro ũa sa figura sé, feita como quando pariu e jaz. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Esta fez pintar o emperador, o que de tod’ Espanha foi senhor; mas o bom rei Dom Fernando melhor a pintou toda, o corp’ e a faz. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 A este rei ũa filha naceu, que a Santa Maria prometeu, des i aa ordem ofereceu de Cistel, que é santa e de paz. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Esta meninha sa madre criar a fez per’ aas Olgas a levar de Burgos; ma-la meninha ’nfermar foi, e morreu, de que mao solaz R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 toda a noite sa ama levou ca, de doo, a matar-se cuidou; e a sa madre logo o contou. E ela fez como a quem despraz R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 de lhe morrer sa filha. E entom foi-a filhar e diss’ assi: “– Pois nom quis a Virgem, a que te dei em dom, que vivesses, mas quiso que na az R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII dos mortos fosses, por pecados meus, 270 46 48 porém deitar-t’-ei ant’ os pees seus, da sa omagem, da madre de Deus”. E fez-lo logo, par Sam Bonifaz. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E todos da capela fez sair; des i, mandou bem as portas choir. E as donas filharom-s’ a carpir, e ela chorando pôs seu anfaz R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 e disse: “– Já mais nom me partirei daquesta porta, ca de certo sei que me dará a madre do bom rei mià filha viva; se nom, de prumaz R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 tragerei doo, ou dum anadiu”. E, esto dizendo, chorar oiu a meninha, e as portas abriu e filhou-a nos braços mui viaz, R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 chorand’ e dizendo: “– Beita tu és, mià senhor, que pariste Jesu-Cristo; e porém, cada logar u for ta eigreja, bem atá em Raz, R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 darei do meu”. E bem assi o fez; e levou sa filha daquela vez, que deu nas Olgas, logar de bom prez, malgrad’ end’ haja o demo malvaz. 80 Miragres muitos pelos reis faz Santa Maria cada que lhe praz. 76 R13 * * * 271 Cantigas de Santa Maria 123 «De Santa Maria sinal qual-xe-quer» (E 123, T 123) Esta é como Santa Maria guardou um frade mor dos diáboos na hora que quis morrer, e torcia-se todo com medo deles. R0 2 I 4 6 R1 De Santa Maria sinal qual-xe-quer valrá muit’ a quem em ela bem crever. Ca quequer que seja daquesta senhor, valrá muit’ a quem de mal coitado for, e valer-lh’-á contra o demo maior ali u sobr’ ele gram poder houver. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 Bem com’ em Bitória guariu ũa vez a um frade mor, que de meninhez entrara na ordem, e i mui bom prez vivendo gãara. Mas foi-lhe mester R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 que o acorresse, como lh’ acorreu, Santa Maria na hora que morreu, ca, um pouc’ enante, todo se torceu e parou-se negro. E quem vos disser R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 que mais fea cara podia ter nulh’ home, sol nom lho querades creer; mas outro bom frade foi log’ encender candea da Virgem, beita molher. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E, des que [e]na mão lha enserrou, a coor mui negra logo se cambiou, e a faz mui branca toda se tornou sem obrar i físico de Mompesler. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Mas a pouco rato houve de fĩar, ond’ houverom os frades mui gram pesar; temendo que era em mao logar, disserom: “– Rez’ ora quem rezar souber R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 o salteiro todo, porque, sem falir, nos saber Deus faça u este fez ir”. Porend’ a dous frades o fez Deus vĩir, pois foi mort’, e disse: “– Quem saber quiser R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 272 VIII 46 48 porque me torvei todo quando mor[r]i, esto foi porque os diáboos vi; mas, poi-la candea adusserom i, fugirom ém todos; e quem bem fezer, R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 sempre terrá sigo algũu sinal de Santa Maria, a que nunca fal aos que a servem, e sempre lhes val, e saca de pa quem i estever; R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 assi fez a mi, esto sabede bem: deu-me logar bõo qual a mi convém; e vós muitas graças lhe dade porém, ca salvo será sempr’ o com que tever”. 62 De Santa Maria sinal qual-xe-quer valrá muit’ a quem em ela bem crever. 58 R10 * * * 273 Cantigas de Santa Maria 124 «O que pola Virgem leixa o de que gram sabor há» (E 124, T 124) Esta é como Santa Maria guardou um home que apedrarom, que nom morresse atá que se mefestasse, porque jajũava as vigias das sas festas. R0 2 I 4 6 O que pola Virgem leixa | o de que gram sabor há, sempr’ el’ aqui lhe demostra | o bem que pois lhe fará. E dest’ um mui gram miragre | vos contarei, que oí dizer aos que o virom, | e o contavam assi como vos eu contar quero, | e, segum com’ aprendi, demostrou Santa Maria | ena terra que está R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II mui preto d’ ambo-los mares | (do Gram, que corr’ arredor da terra, e ar do outro | que é chamado Mor), e mostrou Santa Maria, | madre de Nostro Senhor, por um home. E quem esto | oir, sabor haverá 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III de jajũá-la sa festa | de março, com’ este fez, que a jajũou gram tempo. | Mas porque foi a Xerez e a Sevilha quand’ eram | de mouros, mais dũa vez, foi acusado e preso, | porque sem mandad’ alá 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV fora, e que o matassem | logo, u nom houvess’ al, e que foss’ apedreado | porque fezo feito tal. E, ferindo-o, chamava | a reinha ’sperital, dizendo: “– Ai senhor, val-me, | bem como valiste já 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a aqueles que se fiam | em ti mui de coraçom, e por aquesto nom queras | que moira sem confissom, ca eu, sempr’ em ti fiando, | receb’ aquesta paixom”. Entom os que o matavam | disserom: “– E que será 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que, por pedras que deitemos, | no-no podemos matar?” Entom o que lho mandava | mandou-lhe ferir e dar com um venabre mui grande | e depoi-lo degolar; e nom morreu por tod’ esto, | dizendo: “– Por Deus, acá 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII um crérigo mi_aduzede, | a que diga quanto fix de mal, de que pedença | de meus pecados nom prix”. E, pois lh’ esto feit’ houverom, | diss’: “– Amigo, sempr’ eu quix 40 274 42 servir a Santa Maria, | a que nunca falirá R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII nem fal aos que a servem”. | E, dizend’ esto, morreu; e, de como nós creemos, | Deus sa alma recebeu. E, des que foi morto, logo | a hora embarveceu, ca esse dia rapara | sa barva em Alcalá 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 de Guadaíra; e jouve | um tempo, creede bem, assi que ave nem besta | dele nom com[e]u, per rem. Esto fez Santa Maria, | a senhor que nos mantém, pola sa gram piedade, | e sempre nos manterrá. 56 O que pola Virgem leixa | o de que gram sabor há, sempr’ el’ aqui lhe demostra | o bem que pois lhe fará. 52 R9 * * * 275 Cantigas de Santa Maria 125 «Muit’ é maior o benfazer» (E 125, T 125, U 97) Esta é como Santa Maria fez partir o crérigo e a donzela que faziam voda, porque o crérigo trouxera este preito pelo demo, e fez que entrassem ambos em ordem. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 56 R7 57-60 Muit’ é maior o benfazer da Virgem Santa Maria que é do demo o poder nem d’ home mao perfia. E desta razom vos direi | um miragre fremos’ assaz, que fezo Santa Maria | por um crérigo alvernaz que e-na loar punhava | polos muitos bes que faz, e rezava por aquesto | as sas horas cada dia. [Refrão = vv. 1-4] O crérigo maiordomo | era do bispo bem dali da cidad’ em que morava | el; e era i outrossi ũa donzela, fremosa | a maravilha, com’ oí, que a Virgem, de Deus madre, | mui de coraçom servia. [Refrão = vv. 1-4] Des i, sempre lhe rogava | que lhe mostrass’ algũa rem per que do demo guardada | fosse; e a Virgem porém lh’ apareceu e lhe disse: | “– Di «Ave, Maria» e tem sempr’ em mi a voontade, | e guarda-te de folia”. [Refrão = vv. 1-4] Ela fezo seu mandado | e usou esta oraçom. Mais o crérigo que dixe, | lhe quis tal bem de coraçom que em toda-las maneiras | provou de a vencer; mais nom pôdo i acabar nada, | ca oir no-no queria. [Refrão = vv. 1-4] Daquesto foi mui coitado | o crérig’, e per seu saber fez ajuntar os diabos | e disse-lhes: “– Ide fazer com’ eu a donzela haja | log’ esta noit’ em meu poder; se nom, em ũa redoma | todos vos enserraria”. [Refrão = vv. 1-4] Daquelo que lhes el disse | houverom todos gram pavor, e forom aa donzela | e andarom-lh’ a derredor; mas nada nom adubarom, | ca a madre do salvador a guardava em tal guisa | que rem nom lh’ empeecia. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ entenderom aquesto, | log’ ao crérigo, sem al, se tornarom, e el disse: | “– Como vos vai?” Disserom: “– Mal; ca tam muito é guardada | da Virgem, madr’ esperital, que o que a enganasse | mui mais ca nós saberia”. [Refrão = vv. 1-4] 276 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 XVI 126 128 O crérig’ outra vegada | de tal guisa os conjurou que ar tornarom a ela, | e um deles tam muit’ andou que a oraçom da Virgem | lhe fezo que se lh’ obridou; e ao crérigo vo | o demo com alegria, [Refrão = vv. 1-4] dizend’: “– O que nos mandastes | mui bem o per-recadei eu, e hoimais de a haverdes | tenho que nom será mui greu”. E o crérigo lh’ ar disse: | “– Torna-t’ alá, amigo meu, e fas-me como a haja; | se nom, logo morreria”. [Refrão = vv. 1-4] E o demo tornou toste | e feze-a log’ enfermar, e ena enfermidade | fê-la em tal guisa maiar que seu padre e sa madre | a queriam porém matar; mas o crérigo das mãos | muit’ aginha lha tolhia. [Refrão = vv. 1-4] E entom atám fremoso | o crérigo lhe pareceu que a poucas, d’ amor dele, | logo se nom ensandeceu, ca o demo, de mal cho, | em tal guisa a encendeu que diss’ entom a seu padre | que logo se casaria [Refrão = vv. 1-4] com aquel crérig’; e disse | a sa madre que manamám por el logo enviasse, | e chamassem um capelám que lhes as juras fezesse; | se nom, soubessem bem de pram que log’ entom com sas mãos | ant’ eles se mataria. [Refrão = vv. 1-4] Outro dia de manhãa | fezerom log’ eles vĩir o crérig’; e el de grado | vo i e foi-lhes pedir sa filha por casamento, | e prometeu-lhes, sem falir, que lhe daria em arras | gram requeza que havia. [Refrão = vv. 1-4] E disse: “– Casemos logo”. | Mas diss’ o padre: “– Nom, mais crás che darei honradamente | mià filha, e tu seerás come em logar de filho; | e, se eu morrer, herdarás mui grand’ algo que eu tenho, | que ganhei sem tricharia”. [Refrão = vv. 1-4] Os esposoiros juntados | forom logo, com’ apres’ hei, e outro dia manhãa | casarom. Mas, que vos direi?: porque pelo demo fora, | a madre do muit’ alto rei do ceo mui grorioso | logo lhe-lo desfazia. [Refrão = vv. 1-4] E, por partir este feito, | oíd’ agora o que fez: o crérigo que dissera | sempre sas horas, essa vez obridou-xe-lhe a nõa; | mai-la reinha de gram prez fezo que a sa eigreja | fosse, como ir soía. 277 [Refrão = vv. 1-4] R16 129-132 XVII 134 136 E, u estava rezando, | pareceu-lh’ a madre de Deus, e disso-lh’: “– Aqui que fazes?: | ca já tu nom eras dos meus vassalos nem de meu filho, | mas és dos emigos seus, diabos, que che fezerom | começar est’ arlotia: [Refrão = vv. 1-4] R17 137-140 XVIII 142 144 que com esta mià criada | cuidas casar, pero me pês, que já sé eno táamo, | toda bem coberta d’ alfrês: esto nom será dest’ ano, | per bõa fé, nem deste mês, mas leixa esta loucura | e torna-t’ a crerizia; [Refrão = vv. 1-4] R18 145-148 XIX 150 152 e eu farei ao bispo | que venha por ti log’ acá, e di-lh’ esto que ti dixe, | e el bem te conselhará como nom perças ta alma; | e, se nom, Deus se vingará de ti por quanto quisiste | do demo sa companhia”. [Refrão = vv. 1-4] R19 153-156 XX 158 160 Foi-s’ entom a Virgem santa | aa donzela, ali u dormia, e disso: “– Maa, | com’ ousas aqui dormir tu que és em poder do demo, | e mim e meu filho Jesu ’ escaecemos mui toste, | louca, maa e sandia?” [Refrão = vv. 1-4] R20 161-164 XXI 166 168 A donzela disse logo: | “– Senhor, o que vos aprouguer farei mui de bõa mente; | mas este, de que som molher, com’ o leixarei?” –diss’ ela. | Diss’ a Virgem: “– Há-che mester que o leixes e te vaas | meter em ũa mongia”. [Refrão = vv. 1-4] R21 169-172 XXII 174 176 A nóvia s’ espertou logo | chorando, e esto que viu diss’ ao padr’ e a madre; | des i, mercee lhes pediu que log’ em um mõesteiro | a metessem, per com’ oiu dizer aa Virgem santa, | que casar nom lhe prazia. [Refrão = vv. 1-4] R22 177-180 XXIII 182 184 E o bispo chegou logo, | e disso-lh’ o nóvio: “– Fol sõo de que casar quige, | mai-lo demo, que sempre sol fazer mal aos que ama, | m’ enganou; e porém mià prol é que logo monge seja | em algũa abadia”. [Refrão = vv. 1-4] R23 185-18 8 XXIV 190 Desta guisa acordados | forom os nóvios, como diz o escrito; e o bispo | (que nom’ havia «Dom Fiiz») ambo-los meteu em ordem | por prazer da emperadriz do ceo mui groriosa, | e forom i todavia. 192 R24 194 196 Muit’ é maior o benfazer da Virgem Santa Maria que é do demo o poder nem d’ home mao perfia. 278 Cantigas de Santa Maria 126 «De toda chaga bem pode guarir» (E 126, T 126) Esta é como Santa Maria guareceu um home em Elche dũa saeta que lhe entrara pelos ossos da faz. R0 2 I 4 6 De toda chaga bem pode guarir e de door a Virgem, sem falir. Como sãou em Elche ũa vez Santa Maria, a senhor de prez, a um home, de chaga que lhe fez ũa saet’, onde cuidou fĩir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca a saeta lh’ entrara assi pelos ossos da faz, com’ aprendi, que nom lha podiam tirar dali per maestria, nem i avĩir. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E com taces a iam filhar, mas per rem nom lha podiam tirar, nem com baesta que iam armar; ca Deus nom lho queria consentir 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que guarisse, senom pola senhor nossa, sa madre. Porém sofredor foi aquel home de tam gram door de qual vos guarde Deus, se por bem vir. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Pois viu aquel home que rem valer nom lhe podia que fosse fazer, bem ant’ o seu altar se fez trager de Santa Maria, e repentir 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI se foi de seus pecados, e chorou muito, e mui bem se mãefestou, e Santa Maria muito chamou; e logo o ferro lhe fez sair 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII sem door ela dos ossos da faz. E esto virom homes assaz, que a loarom, ca em ela jaz mais de bem que podemos comedir. 40 42 R7 44 De toda chaga bem pode guarir e de door a Virgem, sem falir. * * * 279 Cantigas de Santa Maria 127 «Nom pod’ home pela Virgem tanta coita endurar» (E 127, T 127) Esta é como Santa Maria nom quis que entrasse na sa eigreja do Poi um mancebo que dera a sa madre um couce, e el, pois viu que nom podia entrar, cortou o pé e entrou logo, e depois sãou-[o] Santa Maria. R0 2 I 4 6 Nom pod’ home pela Virgem | tanta coita endurar que pois ela nom lho haja | com bem a galardõar. E desto mui gram miragre | vos direi que ũa vez a Virgem Santa Maria | na eigreja do Po[i] fez por um hom’ avizimao, | que por seu siso rafez com sa madre que havia | bõa fora baralhar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E nom catou o mesquinho | como o troux’ e pariu dentr’ em seu corpo sa madre, | e do pee a feriu mal; e muit’ ela chorando | entom mercee pediu aa Virgem groriosa | que del gram dereito dar 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III lhe quisesse daquel torto | grand’ e mui descomunal. E a Virgem, de Deus madre, | que aos coitados val, deu-lh’ entom a el por esto | de door um tam gram mal, que log’ em todas maneiras | s’ houve de mãefestar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E derom-lh’ em pedença | que fosse pedir perdom em golhos a sa madre | e que lhe pediss’ em dom que ambos em romaria | fossem fazer oraçom aa eigreja daquela | em que Deus foi encarnar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E a madr’ entom chorando | tantoste lhe perdõou e d’ irem em romaria | de grado lho outorgou; mas dentro na sa eigreja | sol entrar no-no leixou a Virgem Santa Maria, | e houv’ entom a ficar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI fora, e entrou a madre. | E a gente a veer o verom, e puxando | o cuidarom i meter per força; mais nom poderom | daquel logar o mover que na eigreja entrasse, | por bem que fossem puxar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E os crérigos da see | verom corrend’ ali e que se mãefestasse | lhe disserom, com’ oí. El disse que o fezera; | pois conselharom assi: que o pé talhar mandasse, | e poderia entrar. 40 42 280 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII El, como quer que lhe fosse | esto de fazer mui greu, por entrar ena eigreja | da Virgem, com’ aprix eu, feze-o, e mantenente | d’ entrar i nom lhe foi greu; mais sa madre, pois viu esto, | começou de braadar, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX dizendo: “– Santa Maria, | senhor, pois que vim a ti, nom queiras que o meu filho | sem pee vaa daqui”. E tantas vezes diss’ esto | que adormeceu ali u se jazia tenduda | chorando ant’ o altar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E sonhou que a omagem | lhe diss’: “– Aquesto farás: filha o pé de teu filho, | e nom esperes a crás, mais pom-lho u x’ ant’ estava, | e ta mão tragerás sobr’ ele eno meu nome, | e eu farei-o sãar”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI A molher daqueste sonho | houv’ ende mui gram sabor, e, pois s’ espertou, fez logo | como lh’ a bõa senhor mandara; e pôs-lh’ o pee | em seu logar, e melhor se juntou que ant’ estava | que o fezesse talhar. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Quand’ est’ oírom as gentes, | mui gram maravilha ém houverom, e ar loarom | muito a que tanto bem fez e nos faz cada dia, | e os crérigos Amém responderom, e os sinos | mandarom todos sõar. 74 Nom pod’ home pela Virgem | tanta coita endurar que pois ela nom lho haja | com bem a galardõar. 70 R12 * * * 281 Cantigas de Santa Maria 128 «Tam muit’ é com Jesu-Cristo Santa Maria juntada» (E 128, T 128) Esta é do corpo de Nostro Senhor que um vilão metera em ũa sa colma por haver muito mel e muita cera, e, ao catar do mel, mostrou-se que era Santa Maria com seu filh’ em braço. R0 2 I 4 6 Tam muit’ é com Jesu-Cristo | Santa Maria juntada que, u quer que a El achem, | ela com El é achada. De tal razom um miragre | vos direi maravilhoso, que mostrou Santa Maria | com seu filho grorioso a um vilão que era | d’ abelhas cobiiçoso, por haver ém mel e cera | que lhe nom custasse nada. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este morava em Frandes, | preto do mar, na ribeira, e foi pedir a conselho | a ũa velha sorteira que lh’ escantaçom mostrasse | e o metess’ em carreira per que abelhas houvesse, | e muito foi del rogada. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ela respôs-lhe: “– Farei-o | se meu conselho filhardes”. Diss’ el: “– Praz-me”. Respôs-lh’ ela: | “– Pois quando vos comungardes, a comonhom ena boca | tede se-na passardes em tal guisa que dos dentes | sol nom dedes i dentada, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV mas guardade-a na boca | o melhor que vós poderdes; des i, de vossas colmas | escolhed’ a que quiserdes, e enserrade-a dentro; | e, se vós esto fezerdes, de mel será e de cera | vossa casa avondada”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V O vilão crev’ a velha | e fez todo seu mandado; e, pois houve na colma | de Deus o corp’ enserrado, cuidou porém seer rico. | E, quand’ o tempo chegado foi de catar sas colmas, | nom fez longa demorada 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e abriu aquela logo | u a hósti’ enserrara, e viu i Santa Maria, | mui fremosa e mui crara, com seu filho Jesu-Cristo | em seus braços, que criara, que tiinha abraçado | e El ela abraçada. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ esto viu o vilão, | houv’ entom tam grand’ espanto que serrou log’ a colma, | e aa eigreja, quanto pôd’ ir, se foi muit’ aginha; | e disse: “– Por Deu-lo santo” –ao capelám–, “mig’ ide | logo, sem outra tardada, 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 282 VIII 46 48 e mostrar-vos-ei tal cousa | qual viúda nem oída nunca foi”. Entom o preste, | com’ era de bõa vida, foi com el, e na colma | viu a Virgem mui comprida de bem com seu filh’ em braço, | nobre cousa e preçada. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Quand’ esto viu, tornou logo | e fez chamar a concelho e tanger todo-los sinos, | e filharom tal conselho: que com gram procissom fossem | por aquela que espelho é dos santos e do mundo, | e a trouxessem honrada. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Logo forom alá todos | e virom em com’ estava na colma a mui santa | Virgem e com’ abraçava a seu filho Jesu-Cristo, | e mui melhor odor dava que liros nem violetas | nom dam, nem água rosada. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Log’ a colma levarom | as gentes que i verom, com procissom e cantando; | e, depois que a poserom sobe-lo altar, as horas | todas compridas disserom aquel dia com sa noite, | e de todos mui catada 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII foi a Virgem com seu filho, | a nobr’ e santa reinha. Outro dia ar disserom | sa missa, mas nom aginha; e, pois consagrou o preste | a hóstia que tiinha, nom acharom na colma | erg’ a hóstia sagrada 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 que o vilão metera | i com gram míngua de siso, mui sãa e mui fremosa, | como xa Deus guardar quiso com sa madr’ a Virgem santa, | reinha de paraíso. Porém seja El loado | sempr’, e ela mui loada. 80 Tam muit’ é com Jesu-Cristo | Santa Maria juntada que, u quer que a El achem, | ela com El é achada. 76 R13 * * * 283 Cantigas de Santa Maria 129 «De todo mal e de toda ferida» (E 129, T 129) Esta é como a um home derom em ũa fazenda ũa saetada pelo olho e quebrantarom-lho, e cuidarom que morresse, e guarece’-o Santa Maria de Salas. R0 2 I 4 6 R1 De todo mal e de toda ferida sãar pod’ hom’ a de bem mui comprida. Dest’ a um home que de Murvedr’ era mostrou a Virgem maravilha fera dũa gram saetada que presera em ũa lide fort’ e sem medida. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 E a saeta assi lh’ acertara pelo olho, que logo lho britara e bem até no toutiço entrara, de guisa que lhe nom põíam vida. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Mas ele pôs sa alm’ e sa fazenda ena Virgem e deu-xe-lh’ em comenda, e a Salas prometeu oferenda se el da chaga houvesse guarida. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E logo mandou a saeta fora tirar do olho, e em essa hora guariu de todo logo sem demora, des que a saeta ém foi saída, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que da saetada rem nom sentia; des i, do olho atám bem guaria que bem com’ ante vira del viía. E pera Salas fez logo sa ida, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 loand’ a Virgem santa groriosa, madre de Deus, reinha poderosa, que o sãara come piadosa. E esta cousa foi mui long’ oída R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 pelas terras; e quanto-lo souberom a Santa Maria loores derom de Salas, e mui gram sabor houverom de fazer log’ a ela sa vĩída. De todo mal e de toda ferida sãar pod’ hom’ a de bem mui comprida. * * * 284 Cantigas de Santa Maria 130 «Quem entender quiser, entendedor» (E 130, T 130) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Ca ela faz todo bem entender, e entendendo nos faz conhocer Nostro Senhor, e o seu bem haver, e que perçamos do demo pavor, 8 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 4 R1 II 12 em cujo poder outras donas vam metê-los seus, e coita e afám lhes fazem sofrer: atal costum’ ham; porém nom é leal o seu amor. 14 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 10 R2 III 18 As outras fazem home seer fol, e preçam-s’ ende: assi seer sol; mas esta nos dá sis’ e faz-nos prol e guarda-nos de fazê-lo peior. 20 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 16 R3 IV 24 As outras dam seu bem fazendo mal, e esta, dando-o, sempre mais val; e que-no gaanhad’ há, nom lhe fal, senom se é mui mao pecador. 26 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 22 R4 V 30 As outras muitas vezes vam mentir, mas aquesta nunca nos quer falir; e porende, quem se dela partir, Deu-lo cofonda per u quer que for. 32 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 28 R5 VI 36 As outras nos fazem muit’ esperar polo seu bem, e por el lazerar, mas esta nom quer com seu bem tardar e dá-nos bem doutros bes maior. 38 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 34 R6 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 285 VII 42 E porém seu entendedor serei enquant’ eu viva, e a loarei, e de muitos bes que faz direi, e miragres grandes, ond’ hei sabor. 44 Quem entender quiser, entendedor seja da madre de Nostro Senhor. 40 R7 * * * 286 Cantigas de Santa Maria 131 «Em tamanha coita nom pode seer» (E 131, T 131) Esta é como Santa Maria guardou um emperador de Costantinobre, por rogo de sa molher a emperadriz, que nom morresse so ũa pena que caeu sobr’ ele, e morrerom todo-los outros que com ele eram. R0 2 I 4 6 Em tamanha coita nom pode seer hom’ a que a Virgem nom poss’ acorrer. E dest’ um miragre, de que gram sabor haveredes, direi que fez a senhor, a madre de Deus, por um emperador; e e-no oirdes filhad’ i lezer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Est’ emperador nom’ havi’ Aleixi, de Costantinobre, per com’ aprendi, e sa molher Jordana, segund’ oí, ond’ era bem casad’ e a seu prazer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Bom crischão era el e de bom sém, ela a Virgem amava mais dal-rem; por esto fez a ambos Deus [a]tal bem qual vos quer’ eu ora contar e dizer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo assi um dia, sem al, que o emperador foi veer metal dũas sas mineiras bem dentr’ em um val, em covas mui grandes, de que grand’ haver 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V tiravam de prata em aquel logar. E o emperador foi log’ i entrar. E a cova logo per meo quebrar se foi atantost’ e leixou-se caer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, quantos dentr’ eram, todo-los matou senom el senlheiro, que viv’ escapou so ũa gram pena que o enserrou; mas cuidou sem falha log’ i a morrer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ma-la santa dona, sa molher, que fez? Com gram doo foi ant’ a senhor de prez, [a] madre de Deus, e sempre dessa vez 40 287 42 cada dia foi i oraçom fazer, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que a alma del houvesse salvaçom; e muitas missas fez cantar des entom bem atá um ano, e dar ofreçom; e aquesto era todo seu querer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E daquest’ avo, per quant’ aprix eu, que em tod’ ess’ ano a comer lhe deu ao emperador a madre do seu Senhor Jesu-Cristo per seu gram poder. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E ángeos muitos fazia vĩir a estar com el e se del nom partir, po-lo conortar e o fazer dormir e daquela coita o medo perder. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E dizia-lh’ assi: “– Esto que ti fiz e que te faz’ ora, a emperadriz, ta molher, mi_o roga, a bõa fiiz, a que o tu deves muito gradecer; 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII porque em meu filho fias, o gram rei, nom quix que morresses, e ar guardar-t’-ei enquant’ aqui fores, e pois sacar-t’-ei daqui, e desto nom hajas que temer”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Des que desta guisa seu ano compriu, de noit’ em visom o patriarca viu a Santa Maria, que lhe descobriu tod’ aquest[o] e fez[e]-lho entender. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV O patriarca foi outro di’ alá e à emperadriz, a que nunca já tal prazer oíra, e come quem há gram prazer do feito, fez-lho parecer. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Dentro ena cova gram gente meteu, e tirou a terr’ e a pena fendeu; e, pois lhes el dentro viv’ apareceu, tiraro-no ende sem se deter. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E, quando o virom, derom end’ a Deus graças e loores, chorando dos seus 94 288 96 olhos muito todos, dizendo: “– Os teus servos nunca podem mui gram mal prender”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII E ele lhes contou que por sa molher lhe dera a Virgem quanto lhe mester fora: “– E porende, se vos [a]prouguer” –diss’ el– “id’ a ela graças ém render”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 108 Eles o fezerom, pois todos em az derom aa Virgem loores assaz por este miragr’ e por outros que faz grandes e fremosos pera retraer. 110 Em tamanha coita nom pode seer hom’ a que a Virgem nom poss’ acorrer. R18 * * * 289 Cantigas de Santa Maria 132 «Quem leixar Santa Maria» (E 132, T 132, U 77) Esta é como Santa Maria fez ao crérigo que lhe prometera castidade e se casara, que leixasse sa molher e a fosse servir. R0 I 2 3 5 7 9 Quem leixar Santa Maria por outra, fará folia. Quem leixá-la groriosa por molher que seja nada, macar seja mui fremosa e rica e avondada, nem mansa nem amorosa, fará loucura provada, que maior nom poderia. R1 10-11 [Refrão = vv. 1-2] II Ca toda a fremosura das outras é nemigalha, nem toda sa apostura tanto come ũa palha contra a desta; e dura seu amor e nom faz falha, ante crece todavia. 12 14 16 18 R2 19-20 [Refrão = vv. 1-2] III E dest’ um maravilhoso miragr’ avo em Pisa a um crérigo fremoso e ric’ e de mui gram guisa; mas era tant’ homildoso que celiço por camisa sempre acarom vestia. 21 23 25 27 R3 28-29 [Refrão = vv. 1-2] IV Demai-, las horas rezava da senhor de piadade, que mais doutra rem amava, e pola virgĩidade dela a sua guardava e ant’ a sa majestade de guardá-la prometia. 30 32 34 36 R4 37-38 [Refrão = vv. 1-2] V E, desta guisa vivendo, seu padr’ e sa madre mortos forom, e enrequecendo foi el, ca vinhas e hortos lhe ficarom, com’ aprendo; porém lhe davam conortos seus parentes d’ alegria. 39 41 43 45 290 R5 46-47 [Refrão = vv. 1-2] VI E do que lhe mais falavam, per que se mais alegrasse, era de como lh’ achavam casament’, e que casasse, e razões lhe mostravam muitas, que o outorgasse; mais a el nom lhe prazia. 48 50 52 54 R6 55-56 [Refrão = vv. 1-2] VII 57 Pero tanto o trouxerom per faag’ e per engano que outorgar lhe fezerom que casass’ em aquel ano; ca de chão lhe disserom que faria gram seu dano se el molher nom prendia; 59 61 63 R7 64-65 [Refrão = vv. 1-2] VIII 66 e, demais, que lhe dariam ũa meninha donzela das mais ricas que sabiam ena terra e mais bela, por que ambos viviriam sem coita e sem mazela e sem toda tricharia. 68 70 72 R8 73-74 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois aquest’ houv’ outorgado, o prazo das vodas vo em que houv’ a ser grãado que do seu, que do alho; e dos que a seu chamado houve foi o curral cho que mais em el nom cabia. 75 77 79 81 R9 82-83 [Refrão = vv. 1-2] X Enquanto forom chegando aqueles que convidara, foi-s’ el em si acordando de como acostumara dizer sas horas; e, quando viu que já muito tardara, na eigreja se metia. 84 86 88 90 R10 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XI E, u estava dizendo sas horas devotamente, um mui gram sono correndo o filhou tam feramente que caeu; e, em jazendo dormindo, viu mui gram gente que do ceo decendia, 93 95 97 99 291 R11 100-101 [Refrão = vv. 1-2] XII 102 e a Virgem escolheita tragiam eno meogo da companha, que dereitamente a el vo logo e disse-lhe: “– Sem sospeita di-m’ ũa rem, eu te rogo, que de ti saber querria: 104 106 108 R12 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIII 111 nom és tu o que dizias que mi mais que al amavas e que me noites e dias mui de grado saudavas?; porque outra filhar ias amiga e desdenhavas a mi, que amor ti_havia?; 113 115 117 R13 118-119 [Refrão = vv. 1-2] XIV 120 demais, saudar-me ves pois que te de mi partiste: em mui gram torto me tes; di: e porque me mentiste?; preçaste mai-los seus bes ca os meus?; porque feziste, sandeu, tam grand’ ousadia?” 122 124 126 R14 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XV 129 Pois que lh’ aquest’ houve dito, foi-s’ a mui santa reinha; e el no coraçom fito lhe ficou end’ a espinha. E, per com’ achei escrito, as mesas mandou aginha põer; mais pouc’ el comia, 131 133 135 R15 136-137 [Refrão = vv. 1-2] XVI 138 cuidando em como vira a Virgem, que lhe dissera que lh’ andara com mentira e que torto lhe fezera; e, por sair de sa ira, estev’ em gram coita fera atá que lh’ anoitecia. 140 142 144 R16 145-146 [Refrão = vv. 1-2] XVII 147 Entom ambo-los deitarom na cámara em um leito; e, des que soos ficarom e el viu dela o peito, logo ambos s’ abraçarom, cuidand’ ela seu dereito haver del, mas nom podia: 149 151 153 R17 154-155 [Refrão = vv. 1-2] 292 XVIII 156 158 160 162 ca, pero a gram beldade dela fez que a quisesse o nóvio de voontade e que lhe muito prouguesse, a Virgem de piadade lhe fez que o nom fezesse; e do leit’ entom s’ ergia. R18 163-164 [Refrão = vv. 1-2] XIX 165 E logo foi sa carreira e leixou a gram requeza que havia, e maneira filhou de mui gram pobreza por servir a que senlheira foi e será em nobreza, que os seus amigos guia, 167 169 171 R19 172-173 [Refrão = vv. 1-2] XX 174 180 que o guiou bem, sem falha, pois sempr’ em toda sa vida. E a Virgem (que nos valha), quando lh’ a alma saída foi do corpo, sem baralha, honradament’ e comprida, lha levou u Deus siía. 182 Quem leixar Santa Maria por outra, fará folia. 176 178 R20 * * * 293 Cantigas de Santa Maria 133 «Resurgir pode e fazê-los seus» (E 133, T 133) Esta é de como Santa Maria ressucitou ũa meninha que levarom morta ant’ o seu altar, que morrera em ũa acéquia, em Elche. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Resurgir pode e fazê-los seus vivê-la Virgem, de que naceu Deus. Dest’ um miragre mui grande mostrou em Elch’ a madre do que nos comprou pelo seu sangue e que se leixou matar na cruz per mãos de judeus. [Refrão = vv. 1-2] ũa meninha morava ali que padr’ e madre, com’ eu aprendi, havia, e que viviam assi come crischãos, mas nom com’ encreus. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Aquesta meninha foi a bever ena [a]céquia, e dentro caer foi, por que houve logo de morrer. E com sospiros muitos e ai-eus R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 que o seu padr’ entom por ela fez, e ant’ o altar da senhor de prez a foi deitar; e ’lô ar outra vez a changiu, dizend’: “– Os pecados meus R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 forom estes”. E logo fez cantar missa de «Requiem» po-la soterrar, e, u um foi a pístola rezar dos mortos, que fez Judas Macabeus, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 a madre nunca de chorar quedou; e, poi-lo prest’ a sagra começou, a meninha tantoste se levou viva, dizendo: “– Estes som dos teus R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 miragres, Virgem, madre do senhor do mundo, Jesu-Cristo, salvador, aquel que foi morrer por noss’ s amor, segund[o] contam Marcos e Mateus”. Resurgir pode e fazê-los seus vivê-la Virgem, de que naceu Deus. * * * 294 Cantigas de Santa Maria 134 «A Virgem, em que é toda santidade» (E 134, T 134) Esta é como Santa Maria sãou na sa eigreja de Paris mil e quinhentos do fogo salvage e outrossi um home que havia VII dias que tĩía a perna talhada por gram door que havia do fogo e deitara-na no rio de Sena. R0 2 I 4 6 8 A Virgem, em que é toda santidade, poder há de tolher tod’ enfermidade. E daquest’ em Paris a Virgem Maria miragre fazer quis, e fez, u havia mui gram gent’ assũada, que sãidade veram demandar da sa piadade. R1 9-10 [Refrão = vv. 1-2] II E do fogo tam mal eram tormentados, deste de Sam Marçal, e assi queimados que os nembros todos de tal tempestade haviam de perder: esto foi verdade. 12 14 16 R2 17-18 [Refrão = vv. 1-2] III Porende se levar faziam aginha logo ant’ o altar da santa reinha, dizendo: “– Madre de Deus, em nós parade mentes, e nom catedes nossa maldade”. 20 22 24 R3 25-26 [Refrão = vv. 1-2] IV Eles chamand’ assi a Virgem comprida, foi-lhes, com’ aprendi, sa razom oída; e per ũa vidreira com craridade entrou na eigreja a de gram bondade. 28 30 32 R4 33-34 [Refrão = vv. 1-2] V E a ir-se filhou perant’ os doentes, e os santivigou, pois lhes teve mentes; e disse-lhes assi: “– Tantoste sãade, ca meu filho o quer, rei da majestade”. 36 38 40 R5 41-42 VI 44 [Refrão = vv. 1-2] Logo forom tam bem daquel fogo sãos que lhes nom noziu rem 295 46 48 em pés nem em mãos; e diziam assi: “– Varões, levade!, e a Santa Maria loores dade”. R6 49-50 [Refrão = vv. 1-2] VII Quantos eram entom dentro essa hora sãos e sem lijom forom. Mais de fora da eigreja jaziam com mesquindade, ca nom cabiam dentr’ end’ a meadade. 52 54 56 R7 57-58 [Refrão = vv. 1-2] VIII Ontr’ aqueles, com’ hei em verdad’ apreso, jazia, com’ achei, um tam mal aceso que sa perna talhara com crueldade e deitara no rio dessa cidade. 60 62 64 R8 65-66 [Refrão = vv. 1-2] IX O mal xe lh’ aprendeu ena outra perna, tam forte que ardeu mui mais que lanterna; mai-la madre de Deus lhe diss’: “– Acordade, ca já são sodes desta gafidade”. 68 70 72 R9 73-74 [Refrão = vv. 1-2] X El respondeu-lh’ adur: “– Bem-aventurada, estoutra com segur perna hei talhada; mas pola vossa gram mercee mandade que seja com’ ant’ era e a juntade”. 76 78 80 R10 81-82 [Refrão = vv. 1-2] XI 88 Entom seu rog’ oiu a mui piadosa, e log’ a perna viu sãa e fremosa per poder da Virgem (que per homildade foi madre do que é Deus em Trĩidade). 90 A Virgem, em que é toda santidade, poder há de tolher tod’ enfermidade. 84 86 R11 * * * 296 Cantigas de Santa Maria 135 «Aquel podedes jurar» (E 135, T 135) Esta é como Santa Maria livrou de desonra dous que se haviam jurados por ela quando eram meninhos que casassem ambos em ũu, e fez-lho ela comprir. R0 2 4 I 5 7 9 11 Aquel podedes jurar que é bem de mal guardado o que a Virgem filhar vai por seu acomendado. Desto vos quero dizer, per com’ oí retraer, um miragre, ond’ haver podedes gram gasalhado des que fordes entender o que a Virgem fazer e mostrar foi no condado R1 12-15 [Refrão = vv. 1-4] II de Bretanha a Mor por dous que se grand’ amor haviam e gram sabor de viverem sem pecado; onde foi ajudador esta madre do Senhor, cuj’ é do ce’ o reinado. 16 18 20 22 R2 23.26 [Refrão = vv. 1-4] III Estes de que fal’ aqui moç’ e moça, com’ oí, forom e, com’ aprendi, cada um deles criado foi co-no outr’; e, des i, est’ amor poserom i u moravam, e jurado 27 29 31 33 R3 34-37 [Refrão = vv. 1-4] IV foi pela madre de Deus, assi que ambos por seus ficarom, amigos meus. E, pois foi esto firmado, seus padres, maos encreus do que matarom judeus, partiro-nos mal seu grado. 38 40 42 44 R4 45-48 [Refrão = vv. 1-4] V Ca o padre del fez ir o filh’ e dela partir; e a moça foi pedir um ricome muit’ honrado 49 51 297 53 55 por molher. E quem cousir quam changido espedir foi o deles e chorado, R5 56-59 [Refrão = vv. 1-4] VI gram doo haver pod’ ém. Mas estes dous, que gram bem se queriam mais dal-rem, foi ontr’ eles ordinhado que, se lhes falass’ alguém em casar, per nium sém sol nom lhe foss’ outorgado. 60 62 64 66 R6 67-70 [Refrão = vv. 1-4] VII 71 Mas o padr’ entom filhou sa filha e a casou com outr’ home que achou rico e muit’ avondado, a que a moça contou seu feito como passou; e, pois lho houv’ ascuitado, 73 75 77 R7 78-81 [Refrão = vv. 1-4] VIII 82 diss’: “– Amiga, ’ssi farei: que crás convosco m’ irei e atanto buscarei aquel que foi esposado vosco que o acharei, e logo vo-lhe darei por haver a Deus pagado”. 84 86 88 R8 89-92 [Refrão = vv. 1-4] IX Log’ outro dia, sem al, se forom. E em um val aqué o ricome sal que cuidara ser casado com ela, que mui mortal queri’ a seu padre mal; e fez come hom’ irado: 93 95 97 99 R9 100-103 [Refrão = vv. 1-4] X ca log’ ambo-los prendeu e el em cárcel meteu; e, pois que anoiteceu, com ela seu gasalhado quis haver; mas faleceu i, ca log’ adormeceu: bem tro eno sol levado 104 106 108 110 R10 111-114 [Refrão = vv. 1-4] XI dormiu, e abriu entom os olhos, e sa razom lh’ a meninh’, e em bom som, disse: “– E nom é guisado de me forçardes vós, nom, ca à Virgem dei em dom 115 117 119 298 121 meu corpo, temp’ há passado; R11 122-125 [Refrão = vv. 1-4] XII 126 porém nunca mi_haverá erg’ a quem m’ ela dará; e vós quitade-vos já d’ irdes contra seu mandado, mas levade-m’ acolá u ést’ o que seerá meu marid’ e meu amado”. 128 130 132 R12 133-136 [Refrão = vv. 1-4] XIII 137 Quand’ est’ oiu, “– A-la-fé” –diss’ el–, “eu irei u é aquel, e este que sé aqui bem enferrolhado farei soltar”. E em pé se levou e diss’: “– Aqué m’ estou tod’ aprestidado 139 141 143 R13 144-147 [Refrão = vv. 1-4] XIV 148 de log’ ir”. E diss’ “– Ai fol” –a um seu home–, “vai, tol-lh’ os ferros a est’, e prol será minha que livrado seja; e quant’ ũa col do seu nom filhes, ca sol por tanto serás rastrado”. 150 152 154 R14 155-158 [Refrão = vv. 1-4] XV 159 Outro dia ant’ a luz, em um cavalo de Çuz (que corre mais que estruz), no caminho foi entrado, dizend’: “– Ai Deus, que em cruz morreste, mui ced’ aduz nós u aquel benfadado 161 163 165 R15 166-169 [Refrão = vv. 1-4] XVI 170 é, que haja, com’ el quer, esta moça por molher”. E tantost’ a Mompesler chegarom, e i achado o houverom, e disserom-lhe que lh’ era mester de ser log’ aparelhado, 172 174 176 R16 177-180 [Refrão = vv. 1-4] XVII 181 de casar com Dona Lis, pois Santa Maria quis. E fezero-no bem fis que nunca mais destorvado fosse per eles, e gris e pano vermelh’ e bis houvesse logo comprado. 183 185 187 299 R17 188-191 [Refrão = vv. 1-4] XVIII 192 Pois os dous bem de raiz, segund’ este conto diz e dissemos, a Fiiz houverom todo contado, graças à emperadriz, ond’ eu este cantar fiz, derom muitas e de grado. 194 196 198 R18 199-202 [Refrão = vv. 1-4] XIX 203 E logo tost’ e viaz fezerom vodas assaz honradas e muit’ em paz; e, pois houverom jantado, o nóvio fez como faz nóvio a nóvia em solaz. E assi foi acabado. 205 207 209 R19 211 213 Aquel podedes jurar que é bem de mal guardado o que a Virgem filhar vai por seu acomendado. * * * 300 Cantigas de Santa Maria 136 «Poi-las figuras fazem dos santos renembrança» (E 136, T 136) Esta é como em terra de Pulha, em ũa vila que há nome Foja, jogava ũa molher os dados com outras companhas ant’ ũa eigreja, e, porque perdeu, lançou ũa pedra que déss’ ao meninho da omage de Santa Maria, e ela alçou o braço e recebeu o colbe. R0 2 I 4 6 R1 Poi-las figuras fazem dos santos renembrança, que-nas cuida desonrar, mui fol é, sem dultança. Desto direi um miragre que a groriosa fez grand’ em terra de Pulha come poderosa sobr’ um malfeito que fez ũa molher astrosa, por que prendeu porém morte a mui gram viltança. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 Esto na vila de Foja foi, ant’ ũ’ eigreja u estav’ ũa omage da que sempre seja beita, feita de mármor, de mui gram sobeja beldade, em que as gentes haviam fiança. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Em essa vila, segund’ eu aprix em verdade, filho do emperador i era rei Corrad’, e, de sa companha, jogavam ant’ a majestade dados homes e molheres, com’ é sa usança. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Ũa molher aleimãa, tafur e sandia, jogava i; e, porque perdeu, tal felonia lhe creceu que ao filho da omagem ia corrend’ e log’ ũa pedra, por sa malandança, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 lhe lançou por eno rosto feri-lo meninho. Mai-la madr’ alçou o braço logo mui festinho, e eno côved’ a pedra fez-lh’ um furadinho, que lhe pareceu por sempre, por gram demostrança. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Quand’ aquesta maravilha foi al-rei contada, logo foi por seu mandado a molher filhada, des i per toda-las ruas da vila rastrada: desta guisa a sa madre quis Deus dar vingança. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 Des i, el-rei a omagem bem guardar mandava, e o pintor dessa vila toda a pintava; mais o braço per niũa rem nom lho tornava com’ ant’ era, ca nom quis Deus, por sinificança. 44 Poi-las figuras fazem dos santos renembrança, que-nas cuida desonrar, mui fol é, sem dultança. 40 R7 301 Cantigas de Santa Maria 137 «Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira» (E 137, T 137) Esta é como Santa Maria fez seer casto um cavaleiro que soía seer mui luxurioso. R0 2 I 4 6 Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira per que tira os que ama de maa carreira. E dest’ um mui gram miragre direi que avo a um cavaleiro que era seu, nom alho, desta senhor groriosa; mas tant’ era cho de luxúria que passava razom e maneira. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca, pero muito fiava em Santa Maria e loava os seus bes quanto mais podia, o pecado de luxúri’ assi o vencia que o demo o levara (cousa é certeira), 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 assi que nunca já parte Deus em el houvesse nem sa madr’, a Virgem santa, se lhe nom fezesse ao demo força per que lho tolher podesse. Mais aquela que, parindo, virgem foi enteira, R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 a que s’ ele noit’ e dia sempr’ acomendava e que o daquel pecado tirasse rogava, que o bem que el fazia todo desatava e fazia sa promessa sempre mentireira. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Ca, macar el prometia que nunca tornasse em est’ erro, muitas vezes, e se del quitasse, o demo lhe pois fazia que o nom leixasse, por metê-lo do inferno dentro na caldeira. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 El em tal coita vivendo, a mui groriosa, entendendo que saúde dest’ era dultosa, porque nom perdess’ a alma, come piadosa faz e come mui sisuda e come arteira. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Ca, pois viu que do pecado nunca pedença el tevera que lhe dessem, meteu sa femença em tirá-lo del, em guisa que em descreença nom caesse pelo demo, que sempre mal cheira 302 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 a pecad’ e a mentira e a falsidade. Porém sãou a reinha de gram piadade este cavaleir’, e fez-lhe ter castidade por maneira muit’ estranha e mui vertudeira. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E fez-lhe que nom perdess’ olhos, pees nem mãos nem outros nembros do corpo, mais que fossem sãos; mais, se o metess’ o demo em cuidados vãos de pecado, que nom podesse seer em tal feira: R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 ca, pero que gram sabor houvesse de querê-lo, que per nulha maneira nom podesse fazê-lo. Esto fez a Virgem santa pera sig’ havê-lo, ca de salvar os seus sempre é mui sabedeira. 62 Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira per que tira os que ama de maa carreira. 58 R10 * * * 303 Cantigas de Santa Maria 138 «Quem a Santa Maria de coraçom» (E 138, T 138) Esta é de como tirarom os olhos a Sam Joám Boca-d’ Ouro, porque loava a Santa Maria, e foi esterrado e deitado do patriarcado; e depois fez-lhe Santa Maria haver olhos, e cobrou per ela sa dinidade. R0 2 I 4 6 Quem a Santa Maria de coraçom rogar, oir-lh’-á ela sa oraçom. Ca o que a de voontade rogar e mui de coraçom em ela fiar, se lh’ algo pedir assi ou demandar, dar-lho-á, que sol nom lhe dirá de nom. R1 7-8 ão = vv. 1-2] II E dest’ um miragre, per com’ eu oí, dizer-vos quer’ ora e contar aqui, que Santa Maria fez, com’ aprendi, por Joám Boca-d’ Ouro, nobre barom, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 que disse muito bem dela e dos seus feitos e de como foi madre de Deus; porend’ os gentiis maos e encreus sacarom-lh’ os olhos a gram traiçom. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E ar mandarom-lhe que logo sair se fosse da terr’, e nom leixarom ir nulh’ home com ele pera o servir, mas derom-lhe pouco pam e um bordom. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Pois esto fezerom, foro-no meter eno caminho que devia ter; e, poi-lo leixarom, foi log’ el torcer e caeu em um mui gram silvar entom. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 El ali jazendo espinhado mal, volvendo-se dentro com coita mortal, chamou log’ a reinha esperital, a que chamam sempr’ os que coitados som, R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 dizendo: “– Senhor, e nembre-te do teu servo, ceg’ e pobre com’ hoje jasc’ eu; 304 42 mas tu, senhor, cata o coraçom meu e saca-m’ ora desta maa prijom”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Pois esto dit’ houve, a do bom talám chegou e tiro’-o dali sem afám, e disse: “– Se queres, logo veerám teus olhos tam bem come outra sazom R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 virom, e ta dinidade haverás, e, quanto perdiste, todo cobrarás”. Diss’ el: “– Senhor, ante mi tu mostrarás o que mais teu filho, se El mi perdom, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 amou eno mundo quand’ em el naceu”. Entom a Virgem dant’ ele se tolheu; mais aa outra noite lh’ apareceu com seu filh’ em braços, e viu em vijom R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 que pelas tetas, como meninho faz, tragia sas mãos come a quem praz de mamá-las; e, pois mamava assaz, beijava sa madre polo galardom. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 Quand’ esto foi, Sam Joám entom cobrou seus olhos e viu; e logo o chamou a Virgem e disse: “– Desto se pagou meu filho mais dal, e com mui gram razom: R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 ca estas teta-lo criarom tam bem como a sa carne mui nobre convém; e porende as amou mais doutra rem, porque destas tetas houv’ el criaçom”. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 Pois [que] Sam Joane tod’ aquesto viu, o seu cobrou todo, que rem nom faliu. E depois, quando deste mundo saiu, [a] sa alma foi u é Sam Simeom. 86 Quem a Santa Maria de coraçom rogar, oir-lh’-á ela sa oraçom. 82 R14 * * * 305 Cantigas de Santa Maria 139 «Quem a Santa Maria de coraçom» (E 138, T 138) Esta é como Santa Maria fez que falasse o filho que tĩinha nos braços ao da bõa molher, que lhe disse: “– Papa!”. R0 2 4 6 8 I 10 12 14 16 18 20 R 1 21-28 II 30 32 34 36 38 40 R2 41-48 III 50 52 54 56 58 Maravilhosos e piadosos e mui fremosos miragres faz Santa Maria, a que nos guia bem noit’ e dia e nos dá paz. E dest’ um miragre vos contar quero que em Frandes aquesta Virgem fez, madre de Deus, maravilhos’ e fero, por ũa dona que foi ũa vez a sa eigreja desta que seja por nós, e vejamo-la sa faz no paraíso (u Deus dar quiso goio e riso a quem lhe praz). [Refrão = vv. 1-8] Aquesta dona levou um meninho, seu filho, sigo, que em ofreçom deu aa Virgem [des] mui pequeninho, que de mal lho guardass’ e d’ oqueijom, e lhe fezesse per que dissesse sempr’ e soubesse de bem assaz, que, com’ aprendo, seu pam comendo foi: mui correndo parou-s’ em az [Refrão = vv. 1-8] cabo do filho daquela omagem e diss’ o meninho: “– Queres papar?” Mai-la figura da Virgem mui sagem diss’ a seu filho: “– Di-lhe, sem tardar, que nom s’ espante, mais tigo jante u sempre cant’ e haja solaz e seja quito do mui maldito demo (que ’scrito 306 60 R3 61-68 IV 70 72 74 76 78 80 R4 82 84 86 88 é por malvaz)”. [Refrão = vv. 1-8] Quand’ esto diss’, a omagem de Cristo respôs ao meninho: “– Paparás crás mig’ em ceo; e, pois que me visto houveres, sempre pois migo serás u ouças quanto cada um santo canta, que chanto e mal desfaz”. Esto comprido foi, e transido o moç’ e ido a Deus viaz. Maravilhosos e piadosos e mui fremosos miragres faz Santa Maria, a que nos guia bem noit’ e dia e nos dá paz. * * * 307 Cantigas de Santa Maria 140 «A Santa Maria dadas» (E 140, T 140) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Loemos a sa mesura, seu prez e sa apostura e seu sém e sa cordura mui mais ca cem mil vegadas. 8 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. 4 R1 II 12 Loemos a sa nobreza, sa honra e sa alteza, sa merce’ e sa franqueza e sas vertudes preçadas. 14 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. 10 R2 III 18 Loemos sa lealdade, seu conort’ e sa bondade, seu acort’ e sa verdade com loores mui cantadas. 20 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. 16 R3 IV 24 Loemos seu cousimento, conselh’ e castigamento, seu bem, seu ensinamento e sas graças mui grãadas. 26 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. 22 R4 V 30 Loando-a, que nos valha lhe roguemos na batalha do mundo, que nos trabalha, e do dem’ a denodadas. 32 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. 28 R5 A Santa Maria dadas sejam loores honradas. * * * 308 Cantigas de Santa Maria 141 «Quem muit’ honrar o nome da Senhor comprida» (E 141, T 141) Esta é como Santa Maria acorreu a um monge seu que a servia e que ficava os golhos cada que ementavam o seu nome na eigreja, e beijava a terra. R0 2 I 4 6 Quem muit’ honrar o nome da senhor comprida, dar-lh’-á em este mundo e no outro vida. Dar-lh’-á em este mundo vida e saúde e depois paraíso, assi Deus m’ ajude, u verá El e ela e sa gram vertude e sa honra, que nunca mais será falida. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Desta razom vos quer’ um miragre preçado contar dum santo monge mui bem ordinhado que, se nome da Virgem lh’ era ementado, dos golhos em terra dava gram ferida. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E a terra beijava u esto fazia, chorando e dizendo log’ «Ave, Maria»; e sempr’ usava esto que i nom falia, que sol nom i filhava nulh’ outra medida. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El usand’ aquesto, foi muit’ envelhecendo, e a carn’ e os nembros tant’ enfraquecendo que, u s’ agolhava, caía decendo toste e nom podia fazê-la subida. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Daqueste feito soube logo seu abade, que bom hom’ era, e houv’ ém gram piadade, e a dous monges disse: “– Hoimais aguardade estoutro de caeda fazer escarnida”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Um dia lh’ avo que, u s’ agolhava e nium dos monges entom i nom estava, e caeu em terra; e com coita chorava, e chamou a Virgem; e log’ i foi vĩída, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII que o ergeu mui toste pela destra mão, des i ar fez-lhe sinal que logo, de chão, o seu altar beijasse, e seria são 40 309 42 e sa velhece lhe seria consomida. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E el entom de grado foi beijá-los panos, e tornou tam mancebo come de vint’ anos. E por est’ aa Virgem grandes adianos deu: porque os que ama nunca os obrida. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Mas depois o abade nem aquel convento sol no-no conhociam polo mudamento do tempo; mas a Virgem por seu cousimento fez que o conhocessem, porque long’ oída 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 a sa mercee fosse de tam gram vertude com’ ela fez e faz sempre muit’ ameúde. E porende lhe roguemos que nos ajude, pois dos anjos e dos santos sempr’ é servida. 62 Quem muit’ honrar o nome da senhor comprida, dar-lh’-á em este mundo e no outro vida. 58 R10 * * * 310 Cantigas de Santa Maria 142 «Ena gram coita sempr’ acorrer vem» (E 142, T 142) Esta é como Santa Maria quis guardar de morte um home dum rei que entrara por ũa garça em um rio. R0 2 I 4 6 Ena gram coita sempr’ acorrer vem a Virgem a quem fia em seu bem. Com’ ũa vez acorreu ant’ el-rei Dom Afonso, com’ ora vos direi, a um home que morrera, bem sei, se nom fosse pola que nos mantém. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi eno rio que chamar soem Fenares, u el-rei caçar fora, e um seu falcom foi matar em el ũa garça muit’ em desdém. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Ca, pero a garça muito montou, aquel falcom toste a acalçou e dum gram colb’ [a] áa lhe britou, e caeu na água, que já per rem R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 os cães nom podiam acorrer, ca o rio corria de poder, por que houveram a garç’ a perder. Mas el-rei deu vozes: “– Quem será, quem R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que entre pola garça e a mi a traga log’ e aduga aqui?” E um d’ Aguadalfajara assi disse: “– Senhor, eu a ’durei aquém R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 do rio”. E log’ em el se meteu com sas hosas, que sol no-nas tolheu, e aa garça foi e a prendeu pela cabeça, e quisera-s’ ém R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 tornar, ca havia mui gram sabor de dá-la garça al-rei, seu senhor. Mai-la água o troux’ a derredor de guisa que lhe fez perdê-lo sém. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Ca a força d’ água assi o prês 311 46 48 que o mergeu duas vezes ou três. Mas el chamou a Virgem mui cortês, que pariu Jesu-Crist’ em Beleém, R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 e todos a chamarom outrotal; mas el-rei disse: “– Nom haverá mal, ca nom querrá a madr’ espirital, que nos guarda e nos em poder tem”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 E, macar todos diziam: “– Mort’ é”, el-rei dizia: “– Nom ést’, a-la-fé, ca nom querria aquela que sé sempre com Deus e de nós nom destém”. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 E assi foi; ca logo, sem mentir, o fez a Virgem do rio sair vivo e são e al-rei vĩir com sa garça, que trouxe bem dalém. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E foi-a dar log’ al-rei manamám, que beizeu muit’ a do bom talám por este miragre que fez tam gram; e todos responderom log’: “– Amém”. 74 Ena gram coita sempr’ acorrer vem a Virgem a quem fia em seu bem. 70 R12 * * * 312 Cantigas de Santa Maria 143 «Quem algũa cousa quiser pedir» (E 143, T 143) Esta é como Santa Maria fez em Xerez chover por rogo dos pecadores que lhe forom pedir por mercee que lhes désse chúvia. R0 2 4 I R 6 R 8 10 Quem algũa cousa quiser pedir a Deus por Santa Maria, se de seus pecados se repentir, havê-lo-á todavia. Porém vos quero contar sem mentir [Refrão = v. 1] como Santa Maria quis oir [Refrão = v. 1] um poblo, que se lhe foi oferir por chúvia que lhe pedia. R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4] II R 16 R 18 Em Xerez, preto d’ Aguadalquivir, [Refrão = v. 1] foi este miragre, que, sem falir, [Refrão = v. 1] houv’ i tam gram seca por que fugir a gent’ ém toda queria. 20 R 21-24 [Refrão = vv. 1-4] III R 26 R 28 Mas um frade mor os fez vĩir, [Refrão = v. 1] e fez-lhes sermom, em que departir [Refrão = v. 1] foi como Deus quis, por nos remiir, nacer, como dit’ havia, 30 R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4] IV R 36 R 38 da Santa Virgem, e com’ ar fĩir [Refrão = v. 1] quis por nós na cruz, e pois resorgir [Refrão = v. 1] do sepulcr’, e o demo destroir, que ante nos destroía. 40 R4 41-44 [Refrão = vv. 1-4] V R 46 R 48 E disse: “– Se quiséssedes gracir [Refrão = v. 1] est’ a Deus, e a sa madre servir, [Refrão = v. 1] e de vossos pecados vos partir, a chúvia logo verria; 50 R5 51-54 [Refrão = vv. 1-4] VI R porém cada ũu, com’ a mi vir [Refrão = v. 1] 56 313 R 58 60 fazer, faça; e sei que nos oir [Refrão = v. 1] querrá a Virgem, que Deus foi parir, que ante de tercer dia R6 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VII R 66 haveremos chúvi’ a que nos comprir [Refrão = v. 1] e per que poderemos bem guarir [Refrão = v. 1] e daquesta mui gram coita sair: dest’ eu fiador seria”. R 68 70 R7 71-74 [Refrão = vv. 1-4] VIII R 76 Pois esto disse, sem al comedir, [Refrão = v. 1] log’ em terra das mãos foi ferir, [Refrão = v. 1] e diss’: “– A esta gente faz sentir, mià senhor, que em ti fia, R 78 80 R8 81-84 [Refrão = vv. 1-4] IX R 86 R 88 o teu bem, com que possamos goir”. [Refrão = v. 1] E log’ a gente filhou-s’ a rogir, [Refrão = v. 1] e as molheres chorar e carpir cada ũa a perfia. 90 R9 91-94 [Refrão = vv. 1-4] X R 96 R 98 Entom a Virgem as nuves abrir [Refrão = v. 1] fez, e delas tam gram chúvia sair [Refrão = v. 1] que quantos choravam fezo riir e ir com grand’ alegria. 10 R10 102 104 Quem algũa cousa quiser pedir a Deus por Santa Maria, se de seus pecados se repentir, havê-lo-á todavia. * * * 314 Cantigas de Santa Maria 144 «Com razom é d’ haverem gram pavor» (E 144, T 144) Esta é como Santa Maria guardou de morte um home bõo em Prazença dum touro que vera po-lo matar. R0 1 3 I 5 7 Com razom é d’ haverem gram pavor as bêstias, da madre daquel Senhor que sobre todas cousas há poder. E dest’ um gram miragre foi mostrar Santa Maria, a Virgem sem par, em Prazença, per com’ oí contar a homees, bõos e de creer. R1 8-10 [Refrão = vv. 1-3] II E retraía-no miragr’ assi: que um home bõo morava i que esta senhor, com’ eu aprendi, sabia mui mais dal-rem bem querer. 12 14 R2 15-17 [Refrão = vv. 1-3] III 19 21 E, quenquer que lhe vesse pedir algo por ela, logo sem falir lho dava, sem delongar nem mentir, ca nom queria, per rem, falecer. R3 22-24 [Refrão = vv. 1-3] IV 26 28 E jajũava sas vigias bem, e de sas horas nom leixava rem que nom oísse, ca todo seu sém era como lhe fezesse prazer. R4 29-31 [Refrão = vv. 1-3] V 33 35 Ond’ um cavaleiro bem di casou da vila, e touros trager mandou, pera sas vodas; e um apartou deles, chus bravo, que mandou correr R5 36-38 [Refrão = vv. 1-3] VI 40 42 em ũa praça grande que i há ant’ a casa do que vos dixe já home bõo; mas ele d’ ir alá nom se pagava, nem de o veer. R6 43-45 [Refrão = vv. 1-3] VII 47 49 Mas aquest’ home um compadre seu crérig’ havia, per nome Mateu, que enviou por el, com’ aprix eu, por cousas que lhe queria dizer. R7 50-52 [Refrão = vv. 1-3] 315 VIII 54 56 E el saiu por ir alá entom; e o touro leixou-s’ ir de random a ele po-lo ferir, mui felom, por lh’ os cornos pelas costas meter. R8 57-59 [Refrão = vv. 1-3] IX 61 63 E o crérigo, quand’ aquesto viu dũa festra, mercee pediu a Santa Maria, e nom faliu por el, ca logo lhe vo valer. R9 64-66 [Refrão = vv. 1-3] X 68 70 E em atal guisa o acorreu que o touro log’ em terra caeu e todo-los quatro pees tendeu, assi como se quisesse morrer. R10 71-73 [Refrão = vv. 1-3] XI 75 77 E jouv’ assi daquesta guisa tal atá que o home foi no portal de cas seu compadr’, a que nom foi mal com el, e foi-o na casa colher. R11 78-80 [Refrão = vv. 1-3] XII 82 84 R12 85 87 E o touro s’ ergeu, e dessa vez nunca depois a nulh’ home mal fez pela vertude da senhor de prez, que aos seus nom leixa mal prender. Com razom é d’ haverem gram pavor as bêstias, da madre daquel Senhor que sobre todas cousas há poder. * * * 316 Cantigas de Santa Maria 145 «O que pola Virgem de grado seus dões» (E 145, T 145) Esta é como Sam Joám, patriarca de Aleixandria, deu quant’ havia a pobres em um ano caro. R0 2 I 4 6 O que pola Virgem de grado seus dões der, dar-vo-lh’-á ela grandes galardões. E dest’ um miragre quero que sabiades per mi, porque sempre voontad’ hajades de fazer por ela bem e que tenhades firmement’ em ela vossos corações. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Um patriarca houv’ em Aleixandria santo e fiel, que «Joám» nom’ havia; este muit’ amava a Santa Maria e por amor dela dava sas rações, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III ũas a mesquinhos, enfermos, coitados, e outras a pobres muit’ envergonhados, e aconselhava desaconselhados; assi do seu todos haviam quinhões. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El esto fazendo, em aquela terra avo gram fame por temp’ e por guerra; mais tal nom foi ele come o que serra sa port’ e s’ asconde dentro nos rancões; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ant’ abriu sas portas, e seu haver dado foi mui francamente e bem empregado por amor da Virgem de que Deus foi nado, que nom lhe ficarom sol dous pepiões, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI senom esses panos ond’ era vestido. E, pois se viu pobre, foi end’ esmarrido; mai[s à] Virgem santa, per com’ hei oído, que o acorresse fez sas orações. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Manhãa ergeu-se e aa eigreja foi oir a missa da que sempre seja beita, com grand’ esperança sobeja de lhe comprir ela as sas promissões. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 317 VIII 46 48 E ena carreira viu um pastorinho que contra el logo vo mui festinho, aposto vestido e mui fremosinho, que lhe diss’: “– Oíde poucas de razões R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX que vos dizer quero, e falade migo”. E, pois s’ apartarom, diss’: “– Esto vos digo: aqueste tesouro vos dá voss’ amigo, o filho da reinha das beições; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X filhade-o logo, ca eu ir-me quero”. E o patriarca viu haver tam fero que maior nom houve emperador Nero quando queimou Roma e tornou carvões. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Foi-s’ aquel mancebo; mai-lo patriarca meteu aquel ouro dentr’ em ũa arca, e cantand’ a missa, diz: “– Se Deus me parca, querria saber ond’ estas ofreções 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII tam grandes e bõas forom enviadas”. Aquesto na missa muitas de vegadas rogou; e respostas lhe forom ém dadas que Jesu-Cristo (que foi ontr’ os ladrões 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII ena cruz pregado) que lho enviara per rogo de sa madre que lho rogara, porque enos pobres o seu empregara e em santos homes de religiões. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 Log’ aqueste feito toste foi sabudo, e o póboo da cidade movudo loando a Virgem, que é noss’ escudo contra o diabo e sas tentações. 86 O que pola Virgem de grado seus dões der, dar-vo-lh’-á ela grandes galardões. 82 R14 * * * 318 Cantigas de Santa Maria 146 «Quem comendar de coraçom» (E 146, T 146) Esta é como Santa Maria guareceu a um donzel, filho dũa bõa dona de Brieiçom, que ia em romaria a Santa Maria d’ Albeza e topou com seus emigos na carreira, e sacarom-lhe os olhos e cortarom-lhe as mãos, e Santa Maria fez-lhe crecer as mãos e olhos come de perdiz. R0 2 4 I 6 8 10 12 Quem comendar de coraçom a Santa Maria o seu, macar mal prenda, creo eu que lho pode dar sem lijom. Porende vos quero falar dum gram miragre que oí a homees bõos contar, que juravam que foi assi, que Santa Maria mostrar foi por ũa, com’ aprendi, dona que soía morar ena terra de Briançom. R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II Esta, per com’ oí dizer, um filh’ havia que maior bem sabia ca si querer, ca el era mantedor dela, e ar do seu haver bõa guard’ e alinhador, e sabia-a defender sempre mui bem e com razom. 18 20 22 24 R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III P[ero], mui mais que outra rem, a reinha esperital esta dona queria bem; e que lhe seu filho de mal guardasse, de todo seu sém lhe rogava mui mais que al, e comendava-lho porém ameúd’ em sa oraçom. 30 32 34 36 R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV El outrossi mui gram sabor de Santa Maria servir havia, e por seu amor a sa casa queria ir d’ Albeza, u entom maior gente fazia i vĩir a madre de Nostro Senhor que em Bregonha foss’ entom. 42 44 46 48 319 R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] V Mai-la madre lhe defendeu que nom fosse per rem alá, e com el muito contendeu, dizendo: “– Maa gent’ i há de teus emigos: sandeu, bem sei que rem nom te guarrá de mort’!”. E el no-na creeu, e foi-s’ e prendeu ocajom. 54 56 58 60 R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI E, u seu caminho filhou por ir aa madre de Deus alá u el ia, topou com esses emigos seus, que o prenderom; e sacou-lh’ um desses mui maos encreus os olhos, e depois talhou-lh’ as mãos com ũu falchom. 66 68 70 72 R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII Forom-s’ eles. E remaniu aquel lijado com mui gram coita; e homees sentiu que aa eigreja, de pram, iam u el, e lhes pediu mercee que tanto d’ afám filhassem polo que sobiu nos ceos dia d’ Acensom: 78 80 82 84 R7 85-88 [Refrão = vv. 1-4] VIII que a Albeza dessa vez o levassem. “– Ca” –diss’ el– “sei que a santa Virgem de prez me guarrá: sol dulta nom hei”. E um desses romeu-lo fez. Mas da madre, que vos direi? Quand’ o oiu, mui mais ca pez tornou negra nem que carvom, 90 92 94 96 R8 97-100 [Refrão = vv. 1-4] IX e sol deter-se nom quis, mas como coitada molher foi log’ alá, seendo fis que Deus dar-lh’-ia comoquer seu filho sem maravedis são, que lh’ era mui mester. E por esto, par Sam Dinis, a Albeza foi de random. 102 104 106 108 R9 109-112 [Refrão = vv. 1-4] X E fez seu doo como faz molher coitada; mas com fé disse: “– Senhor, a que despraz do mal, vees qual meu filh’ é, 114 116 320 118 120 que ante ti desfeito jaz; porend’ a Deus, teu filh’, u sé, roga que são e em paz mi_o dé: tanto ti peç’ em dom; R10 121-124 [Refrão = vv. 1-4] XI ora verei o que farás ou se deste meu mal te dol, ca bem sei que poder end’ hás de o fazer; e muit’ é fol o que nom cree que darás bem aos teus e que sa prol nom queres; ond’ hoje sem crás compr’ i logo mià petiçom”. 126 128 130 132 R11 133-136 [Refrão = vv. 1-4] XII Esto dizendo como diz molher bõa e mui fiel, log’ a santa emperadriz, madre de Deus Emanuel, fez-lh’ olhos come de perdiz pequenos a aquel donzel, mui fremosos, e de raiz crecerom-lh’ as mãos entom. 138 140 142 144 R12 146 148 Quem comendar de coraçom a Santa Maria o seu, macar mal prenda, creo eu que lho pode dar sem lijom. * * * 321 Cantigas de Santa Maria 147 «A madre do que a bêstia de Balaám falar fez» (E 147, T 147) Esta é como ũa molher pobre deu sa ovelha a guardar a um ovelheiro, e quando, ao trosquiar das ovelhas, vo a velha demandar a sua, ascondeu-lha o pastor e disse que a comera o lobo; e ela chamou Santa Maria de Rocamador, e entom a ovelha braadou u lha tĩinha o ovelheiro asconduda e disse: «– Ei-me acá, ei-m’ acá!». R0 I 2 3 5 7 9 A madre do que a bêstia | de Balaám falar fez ar fez pois ũa ovelha | ela falar ũa vez. Esto fez Santa Maria por ũa pobre molher que a de grado servia come quem bem servir quer; e porend’ ela um dia valeu-lh’ u lhe foi mester, e mostrou i seu miragre, | que vos nom foi mui rafez. R1 10-11 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesta molher mesquinha, de quanto pôd’ achegar comprou ũa ovelhinha, e foi-a dar a guardar a um pegureir’ aginha; e pois, ao trosquiar, foi ém demandar a lãa | po-la vender por seu prez. 12 14 16 18 R2 19-20 [Refrão = vv. 1-2] III Mas o pegureir’ astroso a ovelha ascondeu e come cobiiçoso diss’: “– O lobo a comeu”. A velha por mentiroso o tev’ end’, e lhe creceu tal coita por sa ovelha | que tornou tal come pez. 21 23 25 27 R3 28-29 [Refrão = vv. 1-2] IV E disse: “– Ai groriosa, a mià ovelha me dá, ca tu end’ és poderosa de o fazer”. E dalá du jazia a astrosa ovelha diss’: “– Ei-m’ acá!”. E assi Santa Maria | aquest’ engano desfez. 30 32 34 36 R4 37-38 V 39 41 [Refrão = vv. 1-2] E a velha mui festinho sa ovelha trosquiou, e meteu-s’ ao caminho 322 45 e quanto mais pôd’ andou, a costas seu velocinho; a Rocamador chegou, dizend’: “– Esto fez a Virgem, | que sempre teve belmez”. 47 A madre do que a bêstia | de Balaám falar fez ar fez pois ũa ovelha | ela falar ũa vez. 43 R5 * * * 323 Cantigas de Santa Maria 148 «De mui grandes periglos e de mui grandes maes» (E 148, T 148) Esta é como um cavaleiro guareceu de morte de mãos de seus emigos por ũa camisa que chamam de Santa Maria, que tragia vestida. R0 2 I 4 6 De mui grandes periglos | e de mui grandes maes guarda Santa Maria | os que lhe som leaes. E daquest’ um miragre | mostrarei em tal guisa que dos outros da Virgem | será mui grand’ enquisa, que faz muitos em Chartes | por ũa sa camisa; e já vos ém dix’ outros, | bem oístes de quaes. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Chartes há ũ’ arca | que vam muitos veê-la, u jaz ũa camisa | de linho que foi dela; e cada um sa tea | leva e vai põê-la sobr’ aquela camisa, | que jaz volt’ em cendaes. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E pois fazem camisas, | cada um de seu [p]ano, que enas lides tragem, | per que os Deus de dano guarde dos emigos; | mas esto sem engano o façam; se nom, nunca | lhes valria jamaes. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Onde um cavaleiro | ũa destas tragia vestida, porque muitos | emigos havia; mais ena Virgem santa | fiava e criía, e nom fazia feitos | maos nem desiguaes. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Um dia cavalgava | per cabo dũa xara, sa camisa vestida, | ca armar nom s’ uviara; entom seus emigos | lhe saírom de cara e derom-lhe mui grandes | colbes e mui mortaes. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E cada um tĩía | deles que lhe passava o corpo co-na lança: | tal ferida lhe dava; mas guardo’-o a Virgem | que sol nom lhe chegava nium colb’ ao corpo | nem faziam sinaes. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 E os seus escudeiros | dele forom chorando contra ũas aldeas | e apelido dando. Entom muitas das gentes | se forom i chegando 324 42 e acharo-no vivo | cabo dũus moraes, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 que lhes contou o feito | todo em qual maneira o guardara de morte | a senhor verdadeira; e, demai-, la camisa | virom toda enteira; e loarom a Virgem, | que faz miragres taes. 50 De mui grandes periglos | e de mui grandes maes guarda Santa Maria | os que lhe som leaes. 46 R8 * * * 325 Cantigas de Santa Maria 149 «Fol é a desmesura» (E 149, T 149) Esta é como um preste aleimám dultava do sagramento do Corpo de Deus, e rogou a Santa Maria que lhe mostrasse ende a verdade; e Santa Maria assi o fez, porque era de bõa vida. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 56 Fol é a desmesura quem dulta que tornada a hóstia sagrada nom é em carne pura. Mas como cuidar deve | nulh’ home que nom possa a hóstia ser carne?: | pois que Deus quis a nossa prender e seer home | e resurgir da fossa, por seu poder tod’ esto, | que é sobre natura. [Refrão = vv. 1-4] E porende vos quero | desta razom um preito contar que hei oído | mui pouc’ há e retreito; e creo que terredes | por estranh’ end’ o [f]eito, primeir’, e pois encima | por fremos’ aventura. [Refrão = vv. 1-4] Em terra d’ Aleimanha | um crérigo havia que amava mais doutra | cousa Santa Maria, assi que a sa missa | cantava cada dia; mas eno sagramento | dultava com loucura. [Refrão = vv. 1-4] Dest’ a Santa Maria, | cada que el cantava sa missa, mui de rijo | chorando lhe rogava que o certo fezesse | daquelo que dultava, assi que nom morresse | ende co-na rancura. [Refrão = vv. 1-4] Onde assi lh’ avo | que um sábad’, estando na missa, e sagrara | a hóstia dultando, tolheu-xe-lhe de vista; | e, por ela catando, viu a que de Deus madre | foi per sa gram cordura, [Refrão = vv. 1-4] com seu filho nos braços, | aposta e fremosa; e, macar era bela, | foi-lh’ a el espantosa; e tremend’ el lhe disse: | “– Ai senhor groriosa, se a hóstia tes, | dá-mi_a por ta mesura”. [Refrão = vv. 1-4] Ela lhe respôs logo; | “– Home de mal ciente, este que tenh’ em braços | é essa veramente a hóstia que sagras, | de que nom és creente porque a ti semelha | que de pam há fegura; 326 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 106 108 [Refrão = vv. 1-4] mas pero o revolves | e tanges com tas mãos, creendo que pam ést[e], | este polos crischãos recebeu na cruz morte | (que judeus e pagãos lhe derom) desonrada, | por dar a nós folgura; [Refrão = vv. 1-4] est’ é o que tu comes, | onde fazes três partes, e beves do seu sangue, | ond’ é bem que te fartes; e quem cree bem esto, | o demo nem sas artes nunca lhe terrám dano, | se em elo atura; [Refrão = vv. 1-4] est’ é o que tu alças | e baixas e descobres, que quiso seer pobre | por requentá-los pobres no seu reino do ceo | e fazê-los i nobres mui mais que nulha outra | que seja creatura; [Refrão = vv. 1-4] e, pero semelhança | ham de pam e de vinho, esto quer Deus que seja | polo home mesquinho, que terria por crua | cousa comer mininho ou bever de seu sangue, | ca nom é apostura”. [Refrão = vv. 1-4] Quando lh’ est’ houve dito, | viu a hóstia logo, e comeu-a chorando | aquel preste moogo; des i, nom viu a Virgem, | mais disse-lh’: “– Eu te rogo, senhor, que me tu leves | desta cárcer escura, [Refrão = vv. 1-4] e que veja no ceo | a ta face velida”. E dali adeante | em creenç’ e em vida foi tal que, pois lh’ a alma | do corpo foi saída, dos ángeos levada | foi suso na altura. Fol é a desmesura quem dulta que tornada a hóstia sagrada nom é em carne pura. * * * 327 Cantigas de Santa Maria 150 «A que Deus ama, amar devemos» (E 150) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 4 I 6 8 R1 10 12 II 14 16 R2 18 20 III 22 24 R3 26 28 IV 30 32 R4 34 36 A que Deus ama, amar devemos; a que Deus preça e nós precemos, a que Deus honra, nós muit’ honremos; esta é sa madre Santa Maria. Nom houv’ a outra tal amor mostrado com’ a esta, pois El quis enserrado seer em ela e home formado, e fez madre da filha que havia. A que Deus ama, amar devemos; a que Deus preça e nós precemos, a que Deus honra, nós muit’ honremos; esta é sa madre Santa Maria. Preçou-a mais doutra rem que fezesse, pois que quiso que El por filh’ houvesse e outrossi que todo bem soubesse, mais que quantas cousas feitas havia. A que Deus ama, amar devemos; a que Deus preça e nós precemos, a que Deus honra, nós muit’ honremos; esta é sa madre Santa Maria. Honrou-a tanto per que é chamada senhor de todos, madr’ e avogada; e foi nos ceos per El corõada, e a par dele see todavia. A que Deus ama, amar devemos; a que Deus preça e nós precemos, a que Deus honra, nós muit’ honremos; esta é sa madre Santa Maria. E, pois per ela nos deu nova lee Nostro Senhor, peçamos-lhe mercee que rog’ a El, que nossos erros vee, que nos guarde de mal e de folia. A que Deus ama, amar devemos; a que Deus preça e nós precemos, a que Deus honra, nós muit’ honremos; esta é sa madre Santa Maria. * * * 328 Cantigas de Santa Maria 151 «Sempr’ a Virgem, de Deus madre, busca vias e carreiras» (E 151, T -) Esta é dum crérigo que honrava as eigrejas de Santa Maria e guardava os sábados, pero que era luxurioso. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 Sempr’ a Virgem, de Deus madre, | busca vias e carreiras per que os seus tirar possa | de mal per muitas maneiras. Dest’ um fremoso miragre | vos direi que fez a Virgem, | madre de Deus groriosa, por um crérigo que muito | a honrava; mais fazia | sa vida lussuriosa sempre com maas molheres, | e casadas e solteiras, nem virges nom queria | leixar, nem monjas nem freiras. [Refrão = vv. 1-2] Macar tod’ esto fazia, | da Virgem, de Cristus madre, | sempr’ as eigrejas honrava, e vigias de sas festas | jajũava, e, sem esto, | os sábados bem guardava, porque nom podess’ o demo | levá-lo a sas barreiras, e que sempr’ a Virgem santa | oísse as sas pregueiras. [Refrão = vv. 1-2] Mas ũa noite lh’ avo | que a ũa barragãa | sua foi, que bem queria, e, por se deitar com ela, | catou per ũa festra, | e viu de Santa Maria a eigrej’ e os altares | e reluzir as vidreiras; entom leixou de deitar-se | e foi-se per ũas eiras. [Refrão = vv. 1-2] Outra vez tornou a ela, | e ela lhe preguntava | porque a assi leixa[r]a. El respôs: “– Porque da Virgem | beita, Santa Maria, | a sa eigreja catara; mas serra –diss’ el– as estras | com portas e com esteiras, que a eigreja nom possa | veer nem sol end’ as beiras”. [Refrão = vv. 1-2] Ela serrou as festras | o mais de rijo que pôde, | que nom viss’ el rem de fora. E po[is] que forom deitados, | vo um vento tam forte | que as abriu a desora; e viu logo a eigreja, | lámpadas e lumeeiras. E foi-s’ e leixou a dona | com todas sas covilheiras. [Refrão = vv. 1-2] E conhoceu seu pecado, | e fezo-se logo monge | dum mõesteiro que era preto dali. E por ele | demostrou Santa Maria | outra maravilha fera; ca lh’ aposeram um furto | lénguas maas mentireiras, dizendo del muitas cousas | que nom eram verdadeiras. [Refrão = vv. 1-2] Sobr’ esto forom juntados | no logar muitos abades | pora saber este feito, e sospeitavam o monge. | Mas a Virgem, de Deus madre, | o livrou bem daquel prei- to; 42 ca, u el ant’ os abades | nom duas vezes senlheiras passava, mostrou-vo-lh’ ela | sinaes d’ amor certeiras. 329 R7 43-44 VIII 46 48 R8 49-50 IX 52 54 R9 56 [Refrão = vv. 1-2] Ca, enquant’ el os golhos | ficav’ e avemaria | dizia mui simpremente aa Virgem, de Deus madre, | contra el se levantava, | veendo-a essa gente. E muit’ a Virgem loarom | (que nom houve companheiras em seus feitos e que sempre | faz sas mercees enteiras). [Refrão = vv. 1-2] E por esto foi o monge | escusado daquel furto, | de que o mal sospeitavam; e todos esses abades | logo pera el verom | e perdom lhe demandavam, tolhend’ os frocos das testas | e descobrind’ as moleiras pola Virgem, cujas obras | som sempre dereitureiras. Sempr’ a Virgem, de Deus madre, | busca vias e carreiras per que os seus tirar possa | de mal per muitas maneiras. 330 Cantigas de Santa Maria 152 «Tantas nos mostra a Virgem de mercees e d’ amores» (E 152, T 152) Esta é como um bom cavaleiro d’ armas, pero que era luxurioso, dizia sempr’ «Ave, Maria», e Santa Maria o fez ém partir per sa demostrança. R0 2 I 4 6 Tantas nos mostra a Virgem | de mercees e d’ amores que, per rem, nunca devemos | seer maos pecadores. E dest’ um mui gram miragre | mostrou por um cavaleiro que apost’ e fremos’ era | e ardid’ e bom guerreiro; mas era luxurioso | e soberv’ e torticeiro, e cho doutros pecados | muitos, grandes e mores. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este per rem madodinhos | nem vésperas nom oía, nem outras horas nem missa; | pero em Santa Maria fiava, e muitas vezes | a saudaçom dizia que lh’ o sant’ ángeo disse, | de que somos sabedores. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E um dia, u estava | cuidando em sa fazenda com’ emendass’ em sa vida | (e havia gram contenda, ca a alma conselhava | que fezesse dest’ emenda, mas a carne nom queria | que leixasse seus sabores), R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 el estand’ em tal perfia, | pareceu-lh’ a groriosa com ũa branc’ escudela | de prata, grand’ e fremosa, cha dum manjar mui jalne, | nom de vida saborosa mas amarga, e, sem esto, | dava mui maos odores. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 U a viu o cavaleiro, | foi com medo [e]spantado e preguntou-lhe quem era. | Diss’ ela: “– Dar-ch’-ei recado: eu sõo Santa Maria, | e venho-te teu estado mostrar per est’ escudela, | porque leixes teus errores; R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 ca, vês, esta escudela | mostra-ti que és fremoso e hás muitas bõas manhas; | mas pecador e lixoso és na alma, porém cheiras | com’ este manjar astroso, per que irás a inferno, | que é cho d’ amargores”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 E, pois lh’ houv’ aquesto dito, | a Virgem logo foi ida; e el dali adeante | enmendou tant’ em sa vida per que, quando do seu corpo | a sa alma foi partida, foi u viu a Virgem santa, | que é senhor das senhores. Tantas nos mostra a Virgem | de mercees e d’ amores que, per rem, nunca devemos | seer maos pecadores. * * * 331 Cantigas de Santa Maria 153 «Quenquer que tem em desdém» (E 153, T 153) Esta cantiga é da molher de Gasconha que desdenhava a romaria de Santa Maria de Rocamador, que disse que, se a alá nom levasse ũa sela em que siía, que nunca iria alá. R0 1 3 I 4 6 8 10 Quenquer que tem em desdém a Santa Maria, gram mal lhe verrá porém. Daquest’ avo assi, temp’ há, em Gasconha: que ũa dona houv’ i de pouca vergonha, que sol nom tinha em rem d’ ir em romaria (atant’ era de mal sém) R1 11-13 [Refrão = vv. 1-3] II a Rocamador, que di mui preto estava. E porém, com’ aprendi, muito a coitava ũa sa moça des ém, dizendo: “– Perfia filhastes que prol nom tem; 14 16 18 20 R2 21-23 [Refrão = vv. 1-3] III e, pois nom queredes ir em nulha maneira, vel leixade-me comprir aquesta carreira”. Disse-lh’ ela: “– Vai e vem, ai louca, sandia, ca eu nom m’ irei daquém 24 26 28 30 R3 31-33 [Refrão = vv. 1-3] IV se m’ a sela nom seguir em que assentada sejo, e que sem falir me lev’ i folgada”. Ond’ aquest’ avo ém: que logo s’ ergia a sela ligeiramém 34 36 38 40 R4 41-43 [Refrão = vv. 1-3] V e ant’ o altar deceu da mui groriosa; e culpada se tendeu, chamando-s’ astrosa, 44 46 332 48 50 dizendo: “– Tal será quem filhar ousadia contra quem lhe nom convém”. R5 51-53 [Refrão = vv. 1-3] VI Ali se desaprendeu dela log’ a sela e ant’ o altar caeu da madr’ e donzela, que sempre quer nosso bem; e por vê-la ia gente daquend’ e dalém. 54 56 58 60 R6 61 63 Quenquer que tem em desdém a Santa Maria, gram mal lhe verrá porém. * * * 333 Cantigas de Santa Maria 154 «Tam grand’ amor há a Virgem com Deus, seu filh’, e juntança» (E 154, T 154) Esta é como um tafur tirou com ũa baesta ũa saeta contra o ceo com sanha porque perdera, e cuidava que firiria a Deus ou a Santa Maria. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Tam grand’ amor há a Virgem | com Deus, seu filh’, e juntança que, porque i nom dultemos, | a vezes faz demostrança. Desto mostrou um miragre | grand’ e forte e fremoso a Virgem Santa Maria | contra um tafur astroso que, porque perdia muito, | era contra Deus sanhoso, e com ajuda do demo | caeu em desasperança. [Refrão = vv. 1-2] Esto foi em Catalonha, | u el jogava um dia os dados ant’ ũ’ eigreja | da Virgem Santa Maria; e, porque ia perdendo, | creceu-lhe tal felonia que de Deus e de sa madre | cuidou a filhar vingança. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E levantou-se do jogo | e foi travar mui correndo log[o] em ũa baesta | que andava i vendendo um corredor, com seu cinto | e com coldre, com’ aprendo, todo cho de saetas; | e vo-lh’ ém malandança. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E, pois armou a baesta, | disse: “– Daquesta vegada ou a Deus ou a sa madre | darei mui gram saetada”. E, pois que aquesto disse, | a saet’ houve tirada suso escontra o ceo, | u fez mui gram demorança R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 em vĩir; e el, em tanto, | assi como de primeiro, filhou-s’ a jogar os dados | com outro seu companheiro. Entom deceu a saeta | e feriu no tavoleiro, toda coberta de sángui; | e creede sem dultança R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 que sanguent’ o tavoleiro | foi. E quantos i estavam enredor veend’ o jogo, | ferament’ ém s’ espantavam, ca viíam fresc’ o sángui | e caent’, e bem cuidavam que algum deles ferido | fora d’ espad’ ou de lança. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Mais depois que entenderom | que esto assi nom era e que o sangu’ a saeta | bem do ceo adussera, 334 42 e nembrou-lhe-la paravla | que ant’ o tafur dissera, houverom mui grand’ espanto. | Mas o tafur sem tardança R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 filhou mui gram pedença | e entrou em órdim forte, fiand’ em Santa Maria, | dos pecadores conorte. E assi passou sa vida; | e, quando vo a morte, pola madre de Deus houve | salvament’ e perdõança. 50 Tam grand’ amor há a Virgem | com Deus, seu filh’, e juntança que, porque i nom dultemos, | a vezes faz demostrança. 46 R8 * * * 335 Cantigas de Santa Maria 155 «Ali u a pedença do pecador vai minguar» (E 155, T 155) Esta é como um cavaleiro d’ Aleixandria foi malfeitor, e, quando vo a velhece, repentiu-se e foi a um santo ermitám confessar-se, e el disse-lhe que jajũasse, e o cavaleiro disse que nom podia, e el deu-lh’ em pedença que lhe trouxesse um pichel d’ água. R0 2 I 4 6 Ali u a pedença | do pecador vai minguar, acorre Santa Maria | a que-na sabe rogar. Du o pecador promete | de ser amigo de Deus e se partir de pecado | e enmendar tortos seus, e o nom compr’, é perdudo, | segund[o] conta Mateus; mas Santa Maria pode | tod’ aquest’ enderençar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca seu filho faz por ela | mais que por nulh’ outra rem; e porend’ as nossas culpas | enmenda por nós mui bem, que nom sejamos perdudos; | e por est’ é de bom sém que-na ama e a serve | e sabe_em ela fiar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Em terra d’ Aleixandria | houve um mui malfeitor cavaleiro, mui sobejo | e mui brav’ e roubador; mais, pois vo a velhece, | sentiu-se por pecador, e foi a um home santo | seus pecados confessar. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 El deu-lhe por pedença | que a Ultramar romeu fosse; e el respondeu-lhe: | “– Esto vos nom farei eu”. “– Pois jajũade”. “– Nom posso”. | Disse-lhe: “– Par Sant’ Andreu, nem esmolna nom faredes?” | “– Nom, ca nom tenho que dar”. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Quando viu aquel sant’ home | que nom podia fazer aquel o que lh’ el mandava, | disse-lh’: “– Ide-mi trager este pichel cho d’ água, | e podedes log’ haver perdom de vossos pecados, | sem nulh’ outr’ afám levar”. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Quand’ o velho, de pecados | carregad’, aquest’ oiu, muit’ alegre, do sant’ home | atantoste s’ espediu, e, com seu pichel, por água | foi; mais ela lhe fugiu dũa fonte, que sol gota | nom pude dela filhar. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Mas foi-se log’ a um rio | que corria preto di: ar fugiu-lhe log’ a água, | per quant’ eu [ém] aprendi. E assi passou dous anos, | per com’ eu escrito vi, que água colher nom pude, | nem sol bever nem gostar. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 336 VIII 46 48 E dous anos provou esto, | que nunca pôd’ avĩir d’ aquel pichel encher d’ água, | ne-no mandado comprir que lh’ o ermitám mandara. | E filhou-s’ a comedir que Deus, per rem, nom queria | seus pecados perdõar, R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 mas que por Santa Maria | podia haver perdom se a serviss’ e posesse | em ela seu coraçom; entom rogou-lhe chorando, | des i pediu-lhe por dom que aquele pichel d’ água | podesse cho levar. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 E disse-lhe: “– Senhor, roga | a teu filho, se te praz, que a mi fazer nom queira | o que a beschas nom faz nem a aves”. E aquesto | dizia chorand’ assaz; e, a seu pichel catando, | houv’ ém duas a chorar R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 lágrimas dentro, e cho | foi o pichel dessa vez; e el, quando viu aquesto, | atám alegre se fez que ao_ermitám foi logo | e diss’: “– A senhor de prez, madre de Deus, me fez esto | por me de coita tirar: R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 que de miàs lágrimas duas | enchi tod’ este pichel”. Quando viu o ermitano | este miragre tam bel, loou muit’ a Virgem santa, | de Deus madr’ Emanuel, e fez per toda a terra | este miragre mostrar, R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 de que foi Santa Maria, | a senhor espirital, loada muito de todos, | que aos coitados val sempre nas mui grandes coitas | e ar guarda-os de mal. Porém Deus muito cofonda | que-na nom quiser loar. 80 Ali u a pedença | do pecador vai minguar, acorre Santa Maria | a que-na sabe rogar. 76 R13 * * * 337 Cantigas de Santa Maria 156 «A madre do que de terra primeir’ home foi fazer» (E 156, T 156) Este miragre fez Santa Maria em Cunhegro por um crérigo que cantava mui bem as sas prosas a sa loor, e prendero-no hereges e talharom-lh’ a língua. R0 2 I 4 6 8 A madre do que de terra | primeir’ home foi fazer, bem pod’ a língua talhada | fazer que possa crecer. Dest’ um mui maravilhoso miragre vos contarei, que fez, e mui piadoso, a madre do alto rei por um crérigo, que foram | a furt’ hereges prender porque de Santa Maria | sempr’ ia loor dizer. R1 9-10 [Refrão = vv. 1-2] II Poi-lo houverom filhado, quisera-no i matar; mais, po-lo fazer penado viver, forom-lhe talhar a língua bem na garganta, | cuidando-o cofonder, porque nunca mais da Virgem | fosse loor compõer. 12 14 16 R2 17-18 [Refrão = vv. 1-2] III Pois que lh’ a língua talharom, leixaro-no assi ir; e mui mal lhe per-jogarom, ca nom podia pedir nem cantar como cantara | da que Deus quiso nacer por nós; e com esta coita | cuidava o sém perder. 20 22 24 R3 25-26 [Refrão = vv. 1-2] IV E o que mais grave lh’ era: que, quando oía som dizer dos que el dissera, quebrava-lh’ o coraçom porque nom podia nada | cantar, onde gram prazer houvera muitas vegadas, | e filhava-s’ a gemer. 28 30 32 R4 33-34 [Refrão = vv. 1-2] V El cuitad’ assi andando, um dia foi que chegou a Cunhegro, e entrando na eigreja, ascuitou e oiu como cantavam | vésperas a gram lezer da Virgem santa reinha; | e quis com eles erger 36 38 40 R5 41-42 VI 44 46 [Refrão = vv. 1-2] sa voz, e sa voontade e sa punha i meteu. E log’ a da gram bondade fez que língua lhe naceu 338 48 toda nova e comprida, | qual ante soí’ haver: assi esta Virgem madre | lhe foi comprir seu querer. R6 49-50 [Refrão = vv. 1-2] VII 56 Esto virom muitas gentes que estavam entom i, e meterom mui bem mentes no miragre, com’ oí; e a Virgem porém todos | filharom-s’ a beizer, e o crérigo na ordem | dos monges se foi meter. 58 A madre do que de terra | primeir’ home foi fazer, bem pod’ a língua talhada | fazer que possa crecer. 52 54 R7 * * * 339 Cantigas de Santa Maria 157 «Deus por sa madre castiga a vegadas bem de chão» (E 157, T 157) Esta é dũus romeus que iam a Rocamador e pousarom em um burgo, e a hóspeda furtoulhes da farinha que tragiam. R0 2 I 4 6 Deus por sa madre castiga | a vegadas bem de chão o que faz mal, e mui toste | por ela o er faz são. E daquest’ um gram miragre | mostrou a ũus romeus que a Rocamador iam, | que de sa madr’ eram seus, e pousarom em um burgo, | com’ aprix, amigos meus, mas a sa hóspeda foi-lhes | mui maa de cabo são. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca, u eles lhe comprarom | mui bem quanto lhes vendeu, de farinha que tragiam | tal cobiça lhe creceu de feijoos que fezeram | end’, e um deles meteu i de bom queijo rezente | (ca est’ era em verão). 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Ela, com sabor daquesto, | da farinha lhes furtou, e, depois que s’ eles forom, | log’ a fazer se filhou feijoos bem come eles; | mais o demo a torvou, que quis ende provar ũu, | mais nom lhe saiu em vão: R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 ca, u meteu um cuitelo | no feijoo por provar a como lhe saberia, | pela boca o chantar foi bem até enas cachas, | que o nom pôd’ ém tirar, ca lhe passou as queixadas | mais dum palm’ e ũa mão. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Muitos meges i verom, | mais nom poderom, per rem, tira[r]-lh’ ende o cuitelo | per arte nem per seu sém. E ela, quando viu esto, | a Rocamador foi-s’ ém rogar a Santa Maria, | u acha todo crischão R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 bõo e toda crischãa | que lhe bem, de coraçom, roga, mui gram piadade. | Porend’ esta foi entom i, e muito [foi] chorando; | e, pois fez sa confissom, tirou-lh’ um prest’ o cuitelo, | ca nom já celorgião. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 Tantost’ aqueste miragre | pela terra enredor souberom, e derom todos | porém graças e loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor; e sabede do miragre | que nom é muit’ ancião. Deus por sa madre castiga | a vegadas bem de chão o que faz mal, e mui toste | por ela o er faz são. * * * 340 Cantigas de Santa Maria 158 «De muitas guisa-los presos solta a mui groriosa» (E 158, T 158) Esta é como Santa Maria sacou de prijom um cavaleiro que foi preso por seu senhor, e mandou-lhe que se fosse pera Rocamador. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 38 De muitas guisa-los presos | solta a mui groriosa Santa e Virgem Maria: | tant’ é com Deus poderosa. E de tal razom vos quero | contar um mui gram miragre, | que fez por um cavaleiro, bõo d’ armas e de manhas | e, em servir um ricome | cuj’ era, mui verdadeiro; e foi pres’ em seu serviço, | e em cárcer tevrosa o meterom e em ferros, | como gente cobiçosa, [Refrão = vv. 1-2] em tal que o espeitassem. | Mas aquel senhor cuj’ era, | sobr’ el mentes nom parava. E ele, com mui gram coita, | sempre, de noit’ e de dia, | Santa Maria chamava que acorrê-lo vesse | como senhor piadosa e que dali o tirasse, | daquela prijom nojosa. [Refrão = vv. 1-2] El jazend’ assi em ferros | e com esposas nas mãos | e cada na garganta, aqué vem Santa Maria, | a madre de Jesu-Cristo, | que as prijões quebranta, e em lhas britar mui toste | nom vos foi i vagarosa, e disse-lh’: “– Erge-t’ e vai-te | daquesta prijom astrosa”. [Refrão = vv. 1-2] Entom deitou-lh’ as prijões | ao colo e saco’-o | ante tod’ aquela gente que o guardavam, e nunca, | pero que o ir viíam, | nom lhe disserom niente. E tiro’-o do castelo, | e disse-lhe saborosa-ment’: “– A Rocamador vai-te | e passa bem per Tolosa”. [Refrão = vv. 1-2] E el moveu atantoste, | e foi-se quanto s’ ir pude, | como lh’ a santa reinha mandara. Mas do castelo | forom pos el cavaleiros. | E el chegou muit’ aginha, ca o nom guiou a Virgem | per carreira pedragosa a Rocamador, sa casa, | mas per chãa e viçosa. [Refrão = vv. 1-2] E pendurou i os ferros | log’ e as outras prijões | que ao colo trouxera; e contou i ant’ os monges | e ante toda-las gentes | todo como lh’ avera e como Santa Maria | em tirá-lo aguçosa fora, per que mui loada | foi porend’ a preciosa. De muitas guisa-los presos | solta a mui groriosa Santa e Virgem Maria: | tant’ é com Deus poderosa. * * * 341 Cantigas de Santa Maria 159 «Nom sofre Santa Maria de seerem perdidosos» (E 159, T 159) Esta é de como Santa Maria fez descubrir ũa posta de carne que furtaram a ũus romeus na vila de Rocamador. R0 2 I 4 6 Nom sofre Santa Maria | de seerem perdidosos os que as sas romarias | som de fazer desejosos. E dest’ oíd’ um miragre | que mostrou Santa Maria, a ũus romeus que forom | como mui bõos crischãos, de que vos quero falar, | per com’ eu oí contar, a Rocamador orar | simplement’ e homildosos. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E, pois entrarom no burgo, | forom pousada filhar, e mandarom comprar carne | e pam pera seu jantar e vinho; e entretanto | forom a Virgem rogar que a seu filho rogasse | dos seus rogos piadosos 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 por eles e nom catasse | de como foram errar, mas que del perdom houvessem | de quanto foram pecar. E, pois est’ houverom feito, | tornarom nom devagar u [o] seu jantar tĩíam, | ond’ eram cobiiçosos. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E mandaram nove postas | meter, asse Deus m’ ampar, na ola, ca tantos eram; | mais, poi-las forom tirar, acharom end’ ũa menos, | que a serventa furtar lhes fora, e forom todos | porém jaquanto queixosos. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E buscarom pela casa | po-la poderem achar, chamando Santa Maria | que lha quisesse mostrar; e oírom em ũ’ arca | a posta feridas dar, e d’ ir alá mui correndo | nom vos forom vagarosos. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E fezerom log’ a arca | abrir, e dentro catar forom, e virom sa posta | dacá e dalá saltar; e saírom aa rua | muitas das gentes chamar, que virom aquel miragre, | que foi dos maravilhosos R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 que a Virgem groriosa | fezess’ em aquel logar. Des i, filharom a posta | e foro-na pendorar per ũa corda de seda | ant’ o seu santo altar, loando Santa Maria, | que faz miragres fremosos. Nom sofre Santa Maria | de seerem perdidosos os que as sas romarias | som de fazer desejosos. * * * 342 Cantigas de Santa Maria 160 «Quem bõa dona querrá» (E 160, T 160) Esta é de loor de Santa Maria. I 1 R1 3 II 4 R2 6 III 7 R3 9 IV 10 R4 12 V 13 R5 15 VI 16 R6 18 VII 19 R7 21 VIII 22 R8 24 Quem bõa dona querrá loar, lo’ a que par nom há, Santa Maria. E par nunca lh’ achará, pois que madre de Deus foi já, Santa Maria. Pois madre de Deus foi já, e Virgem foi e seerá, Santa Maria. E Virgem foi e será; porende cabo del está Santa Maria. Porém cabo del está, u sempre por nós rogará, Santa Maria. U por nós lhe rogará e del perdom nos gãará, Santa Maria. E perdom nos gãará e ao demo vencerá, Santa Maria. E o demo vencerá e nos consigo levará, Santa Maria. * * * 343 Cantigas de Santa Maria 161 «Poder há Santa Maria, a senhor de piadade» (E 161, T 161) Como ũu home de Morielha, que ameúde ia a Santa Maria de Salas e tragia sa majestade, viu vĩir nuveado e pôs a majestade na sa vinha; e nom firiu i a pedra, e toda-las outras forom apedreadas em derredor. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Poder há Santa Maria, | a senhor de piadade, de defender toda terra | de mal e de tempestade. Em Aragom, em Morielha, | um hom’ assaz pobr’ havia que aa Virgem de Salas | muit’ ameúd’ alá ia, e, por ser de mal guardado, | seu sinal sigo tragia, em que era figurada | mui bem a sa majestade. [Refrão = vv. 1-2] Est’ havia ũa vinha | que mais doutra rem amava, e, pero grande nom era, | daquesta se governava (e sa molher e seus filhos) | e vestia e calçava, ca outr’ haver nom havia | no mundo, nem outr’ herdade. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ond’ avo em agosto | um dia que nuveado se levantou muit’ escuro | e com torvom mesturado, e vĩía mui correndo, | ond’ el foi muit’ espantado e diss’: “– Ai Santa Maria, | a mià vinha me guardade; 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e, pero que minha digo, | ante tenho que é vossa, macar eu e mià companha | a lavremos come nossa; pois guardade-mi_a de pedra, | que lhe mal fazer nom possa, e filhade-a pois toda | ou sequer a meadade”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Dizend’ esto, a omagem | foi põer eno meogo de sa vinha; e a pedra | feriu mui de rijo logo em toda-las outras vinhas, | mas na sua, polo rogo que fez a Santa Maria, | nom tangeu, par caridade. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ainda foi maior cousa: | que xermentos que passavam daquela vinha nas outras | e com eles se juntavam, as pedras todos britarom; | mas em aquestes nom davam du a omagem estava: | esto creed’ em verdade. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII As vinhas enredor desta | todas forom destroídas, mas esta nom prendeu dano, | porque forom bem oídas 40 344 42 da Virgem as orações | daquest’ home, que fez idas per-muitas vezes a Salas | em ivern’ e em estade. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E porém loar devemos | a madre do grorioso rei, que fez este miragre | por ela atám fremoso, per que cada ũu deve | a seer mui desejoso d’ haver a sua mercee, | em que jaz toda bondade. 50 Poder há Santa Maria, | a senhor de piadade, de defender toda terra | de mal e de tempestade. 46 R8 * * * 345 Cantigas de Santa Maria 162 «As sas figuras muit’ honrar» (E 162, T 162, U (Ap) 6) Esta é como Santa Maria fez que a sua omagem, que mudaram dum altar a outro, que se tornass’ a seu logar onde a tolheram. R0 2 I 4 6 8 R1 9-10 II 12 14 16 R2 17-18 III 20 22 24 R3 25-26 IV 28 30 32 R4 33-34 V 36 38 40 R5 41-42 VI 44 As sas figuras muit’ honrar devemos da Virgem sem par. Ca em honrá-las dereit’ é e em lhes havermos gram devoçom, nom já por elas, a-la-fé, mas pola figura da em que som; e sol nom devemos provar de as trager mal nem viltar. [Refrão = vv. 1-2] E daquesto vos contarei ora um mui gram miragre que fez em Canete, per com’ achei em verdad’, esta senhor de gram prez, dũa omagem que comprar foi um cavaleir’ e i dar [Refrão = vv. 1-2] na sa eigreja, que está fora da vila cabo do portal, em que grandes vertudes há que faz esta senhor espirital. Porend’ os golhos ficar foi e pose-a no maior altar, [Refrão = vv. 1-2] u esteve gram temp’ assi, e Deus por ela miragres mostrou, tá que um bispo vo i de Conca, que a tolher ém mandou e põê-l’ em outro logar, porque a nom viu de bom semelhar. [Refrão = vv. 1-2] Ao crérigo capelám mandou o bispo aquesto fazer, e ele logo manamám foi a omagem do altar tolher; mas em outro dia achar a foi u x’ ante soía estar. [Refrão = vv. 1-2] Quando o crérig’ esto viu, cuidou, a pram, que o fezer’ alguém, e por aquesto comediu 346 46 48 R6 49-50 VII 52 54 56 R7 57-58 VIII 60 62 64 R8 66 que a omagem tornasse porém u lh’ o bispo fora mandar, e a eigreja fosse bem serrar. [Refrão = vv. 1-2] E ar fez come sabedor e levou a chave. E pela luz tornou i, quando o alvor parecia, e achou ant’ a cruz a omagem; e amostrar a foi a quantos s’ i foram juntar [Refrão = vv. 1-2] entom po-las missas oir. E todos derom loor end’ a Deus e a ela, que sem falir mostra ali grandes miragres seus, por que a vem aorar muitas gentes, e do seu ofertar. As sas figuras muit’ honrar devemos da Virgem sem par. * * * 347 Cantigas de Santa Maria 163 «Pode por Santa Maria o mao perdê-la fala» (E 163, T 163) Esta é come um home de Osca que jogava os dados, descreeu em Santa Maria e perdeu logo a fala; e foi a Santa Maria de Salas em romaria e cobrou-a. R0 2 I 4 6 Pode por Santa Maria | o mao perdê-la fala, e ar, se se bem repente, | per ela pode cobrá-la. E desto fez um miragre | a Virgem Santa Maria mui grand’ em Osca, dum home | que ena tafuraria jogara muito os dados | e perdera quant’ havia; porém descreeu na Virgem | que sol nom quis receá-la. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Tanto que est’ houve dito, | foi de seu corpo tolheito polo gram mal que dissera | (e, par Deus, foi gram dereito); e logo perdeu a fala, | ca Deus houve del despeito, que lha tolheu a desora, | como se dissesse: “– Cala!” 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Assi esteve gram tempo | que dali nom se mudava, e a cousa que queria | per sinaes amostrava; e desta guisa a Salas | dali levar-se mandava, e deu-lh’ a língua tal sõo | como fogo que estala. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E catando a omagem, | chorou muit’ e falou logo e diss’: “– Ai Santa Maria, | que me perdões te rogo, e des aqui adeante, | se nunca os dados jogo, a mià língua seja presa | que nunca queras soltá-la”. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 Logo que est’ houve dito, | foi de todo mui bem são, e quantos aquesto virom | loarom porém de chão a Virgem Santa Maria; | e aquel foi bom crischão e des ali adeante | punhou sempre em loá-la. 32 Pode por Santa Maria | o mao perder a fala, e ar, se se bem repente, | per ela pode cobrá-la. 28 R5 * * * 348 Cantigas de Santa Maria 164 «Como deve dos crischãos seer a Virgem honrada» (E 164, T 164) Como a omagem de Santa Maria de Salas deu um braado, e tremeu a terra, por um prior da eigreja que fez tirar a força do sagrado Dom Fernando, abade de Mont’ Aragom. R0 2 I 4 6 Como deve dos crischãos | seer a Virgem honrada, outrossi ar deve deles | seer em todo guardada. E desto mostrou em Salas | a Virgem por um prior que i era, gram miragre, | porque sempre servidor dela fora; e porende | lhe fezo tam grand’ amor que, do mal que lhe fezerom, | mostrou-s’ ém por despagada. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este monge acusado | fora aquela sazom de mandar fazer mõeda; | e por aquesta razom fez-lo prender o ifante | que foi de Mont’ Aragom abade e que a terra | tĩía encomendada 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 de mão del-rei Dom James, | e que justiça fazer devia. Porend’ o monge | mandou tantoste prender; e el foi-s’ aa eigreja, | cuidando i guarecer, creendo em toda guisa | que nom seria britada. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Mas aquel ifant’ abade | fez-lo de fora chamar, e, pois que saiu a ele, | mando’-o bem recadar, e assi o fez per força | do cimiteiro tirar. Ond’ a omagem da Virgem | foi daquesto tam irada R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que deu ũa voz tam grande | que quantos estavam i o oírom, e a terra | tremeu, segund’ aprendi; e a omagem tantoste | redrou seu filho de si, e perdeu sa fremosura | e tornou descoorada; R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 outrossi a de seu filho: | tam gram pesar ém mostrou. Quand’ esto soub’ o ifante, | o monge tornar mandou, e el com todos seus homes | ena eigreja entrou com sogas enas gargantas: | tal emenda houve dada. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 O bispo d’ Osca i vo, | que tev’ o feito por mal, e fez fazê-la enmenda; | e a omagem, sem al, chegou log’ a si seu filho, | e esto foi gram sinal 349 42 que o feito perdõara. | Pero nom houve cobrada R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 sa coor com’ ant’ havia, | polo mal que recebeu, e assi estede sempre; | e per esto s’ entendeu quanto lh’ o feito pesara, | ca nunca lh’ esclareceu sa coor, nem de seu filho, | bem des aquela vegada. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] 54 Entom todas essas gentes | que ali foram vĩir por veerem tal miragre, | loarom a que falir nunca quer aos coitados | nem dos seus se quer partir; e foi des i adeante | sa eigreja mais dultada. 56 Como deve dos crischãos | seer a Virgem honrada, outrossi ar deve deles | seer em todo guardada. IX 52 R9 * * * 350 Cantigas de Santa Maria 165 «Nium poder deste mundo de gente nada nom val» (E 165, E 395, T 165) Esta é como Santa Maria defendeu ũa vila que chamam Tortosa, em Ultramar, dum soldám que a queria filhar. R0 2 I 4 6 Nium poder deste mundo | de gente nada nom val contra o poder da Virgem, | ca x’ é tod’ espirital. Em Ultramar, dest’ avo | miragre grand’ e mui bel que mostrou Santa Maria, | madre de Deus Manuel, a um soldám poderoso, | porque era mui cruel e porend’ aos crischãos | desamava mais que al. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II A este soldám chamavam | per seu nome Bondoudar, que Egito e Alapa | havia a seu mandar, e Domás e a Camela; | e porende guerrejar queria sempr’ a crischãos | e fazer-lhes muito mal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Este seus homes tragia | com crischãos toda vez por saber mais sa fazend’, e | um deles saber lhe fez que, se filhasse Tortosa, | gãaria i gram prez; demais, quem lha defendesse | nom havia tal nem qual. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Log’ o soldám com grand’ hoste | moveu, quand’ aquest’ oiu, e mui preto de Tortosa | em um outeiro sobiu, e parou mentes na vila, | e tam pouca gent’ i viu que teve que aquel mouro | nom lhe fora mentiral. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Quand’ a gente de Tortosa | virom atám gram poder de mouros vĩir sobr’ eles, | cuidarom mortos seer; e forom-s’ aa eigreja | sas orações fazer, dizend’: “– Ai Santa Maria, | pois ta mercee nom fal R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 a quantos que a demandam, | val a nós, que somos teus: guarda-nos que nom caiamos | em poder destes encreus, que per nulha rem nom creem | que tu és madre de Deus; e porend’ em este feito | mostra algum gram sinal”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Pois sa oraçom fezerom, | per quant’ end’ eu aprendi, contarom-se quantos eram, | mas poucos s’ acharom i. Entom a mui grandes vozes | todos disserom assi: “– Senhor, se nos nom acorres, | preit’ é mui descomunal”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 351 VIII 46 48 O soldám log’ outro dia | sas gentes armar mandou pera filharem a vila; | mas nom foi com’ el cuidou: ca, pois se chegou a ela, | tal gente lhe semelhou que estava alá dentro | que nom ficava portal R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 nem torre nem barvacãa | nem muro, per nulha rem, u gente muita nom fosse, | armados todos mui bem. Quando viu o soldám esto, | teve-se por de mal sém, e chamou porend’ o mouro: | “– Mao, falso, mentiral!, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 di: e porque me feziste | com mià host’ aqui vĩir, dizendo que esta vila | nom se podia bastir d’ homes d’ armas, de maneira | que me podesse guarir, e eu vejo-a bastida | como nom vi outra tal?” R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 O mouro, com mui gram medo, | lhe respôs esta razom: “– Senhor, quanto vos eu dixe | verdad’ éste, e al nom; mas tod’ estes cavaleiros, | vedes que dos ceos som, ca chus brancos som e craros | que é neve nem cristal”. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 Entom o soldám lhe disse: | “– E que buscarom acá?” Diss’ o mouro: “– Per mandado | da Virgem, madre d’ Içá, verom, que ũ’ eigreja | dentro ena vila há, que está preto dos muros, | da parte do aral”. R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 O soldám diss’ ao mouro: | “– Eno Alcorám achei que Santa Maria virgem | foi sempr’; e, pois esto sei, guerra, per nulha maneira, | com ela nom filharei, e daqui me torno logo, | e fas tangê-lo tabal”. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E, quand’ aquest’ houve dito, | foi-se logo manamám; e desta guisa sa vila | guardou a do bom talám; mas ante que s’ ém partisse, | deu i grand’ alg’ o soldám por amor da Virgem santa, | reinha celestial. 86 Nium poder deste mundo | de gente nada nom val contra o poder da Virgem, | ca x’ é tod’ espirital. 82 R14 * * * 352 Cantigas de Santa Maria 166 «Como podem per sas culpas os homes seer contreitos» (E 166, T 166) Esta é como um home foi tolheito do corpo e dos nembros por enfermidade que houvera, e fez-se levar a Santa Maria de Salas e um dia sábado foi logo são. R0 2 I 4 6 Como podem per sas culpas | os homes seer contreitos, assi podem pela Virgem | depois seer sãos feitos. Ond’ avo a um home, | por pecados que fezera, que foi tolheito dos nembros | dũa door que houvera, e durou assi cinc’ anos | que mover-se nom podera: assi havia os nembros | todos do corpo maltreitos. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Com esta enfermidade | atám grande que havia prometeu que, se guarisse, | a Salas logo iria, e ũa livra de cera | cad’ ano lh’ ofereria; e atantoste foi são, | que nom houv’ i outros preitos. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E foi-se logo a Salas, | que sol nom tardou niente, e levou sigo a livra | da cera de bõa mente; e ia mui ledo, como | quem se sem nium mal sente, pero tam gram temp’ houvera | os pés d’ andar desafeitos. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 24 Daquest’ a Santa Maria porque livra os doentes e, demais, está rogando e porém devemos todos 26 Como podem per sas culpas | os homes seer contreitos, assi podem pela Virgem | depois seer sãos feitos. 22 R4 | | | | derom graças e loores, de maes e de doores, sempre por nós pecadores; sempre seer seus sojeitos. * * * 353 Cantigas de Santa Maria 167 «Quenquer que na Virgem fia e a roga de femença» (E 167, T 167) lho. Esta é como ũa moura de Borja levou seu filho morto a Santa Maria de Salas, e ressucitouR0 2 I 4 6 Quenquer que na Virgem fia | e a roga de femença, valer-lh’-á, pero que seja | doutra lee em creença. Desta razom fez miragre | Santa Maria, fremoso, de Salas, por ũa moura | de Borja, e piadoso, ca um filho que havia, | que criava mui viçoso, lhe morrera mui coitado | dũa mui forte doença. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ela, com coita do filho, | que fezesse nom sabia; e viu como as crischãas | iam a Santa Maria de Salas, e dos miragres | oiu que ela fazia; e de fiar-se na Virgem | filhou mui grand’ atrevença. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E comendou-lh’ o meninho | e guisou sa oferenda. Mai-las mouras sobr’ aquesto | lhe davam mui gram contenda; mas ela lhes diss’: “– Amigas, | se Deus me de mal defenda, a mià esperança creo | que vossa perfia vença; R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 ca eu levarei meu filho | a Salas desta vegada com sa omagem de cera, | que já lhe tenho comprada, e velarei na eigreja | da mui bem-aventurada Santa Maria, e tenho | que de mià coita se sença”. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E moveu e foi-se logo, | que nom quis tardar niente, e levou seu filho morto, | maravilhando-s’ a gente; e, pois que chegou a Salas, | diss’ à Virgem: “– Se nom mente ta lee, dá-me meu filho, | e farei tig’ avença”. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 ũa noite tod’ enteira | velou assi a mesquinha; mas, que fez Santa Maria, | a piadosa reinha? Ressucitou-lhe seu filho, | e esto foi muit’ aginha; ca a sa mui gram vertude | passa per toda sabença. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 R7 44 Quand’ aquesto viu a moura, | houv’ ém maravilha fera, ca já três dias havia | que o filho mort’ houvera; e tornou logo crischãa, | pois viu que lho vivo dera Santa Maria, e sempre | a houv’ em gram reverença. Quenquer que na Virgem fia | e a roga de femença, valer-lh’-á, pero que seja | doutra lee em creença. * * * 354 Cantigas de Santa Maria 168 «Em todo logar há poder» (E 168, T 168) Esta é dum miragre que fez Santa Maria de Salas por ũa molher de Lérida que lhe morrerom seus filhos, e o postremeiro ergeu-o em alt’ i contra Salas, e ressucitou-lho Santa Maria, que havia três dias que era morto. R0 2 I 4 6 Em todo logar há poder a Virgem a quenquer valer. Seu filho, Deus e hom’ e rei, poder lhe deu, qual vos direi, de fazer sempre bem; e sei que nom lhe fal end’ o querer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II De saber tam sabedor é que bem, du com seu filho sé, dali mostra, per bõa fé, que mui longe vai seu saber. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E dest’ em Lérida mostrou um miragre, que me contou um crérigo, que o achou escrito e mi_o foi trager. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E o miragre foi assi: ũa molher morava i que seus filhos, com’ aprendi, em pouco tempo foi perder. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Do postremeiro que morreu, tam gram coita dele prendeu que a poucas ensandeceu; e filhou-s’ assi a dizer: R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 “– Ai madre de Nostro Senhor, pero eu sõo pecador, dá-m’ este meu filho mor vivo, se te jaz em prazer”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 E dous dias o tev’ entom chorando mui de coraçom, rogando com gram devoçom, 355 42 atendendo seu benfazer. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 E, pois viu que nom resurgiu, em um eirado o sobiu e contra Salas comediu que o iria alt’ erger. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E tantoste assi o fez. E a reinha de gram prez ressucitou-lho dessa vez e fez-lho nos braços viver. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E log’ a molher, sem tardar, foi-o aas gentes mostrar; e começarom a loar a Virgem e a beizer. 62 Em todo logar há poder a Virgem a quenquer valer. 58 R10 * * * 356 Cantigas de Santa Maria 169 «A que por nos salvar» (E 169, T 169) Esta é como Santa Maria guardou ũa sa eigreja que é ena Arreixaca de Murça, que os mouros quiseram destroir e nom poderom. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 56 A que por nos salvar fezo Deus madr’ e filha, se se de nós honrar quer, nom é maravilha. E daquest’ um miragre | direi grande, que vi des que mi Deus deu Murça, | e oí outrossi dizer a muitos mouros | que moravam ant’ i e tĩíam a terra, | por nossa pecadilha, [Refrão = vv. 1-4] dũa eigrej’ antiga, | de que sempr’ acordar s’ iam, que ali fora | da reinha sem par, dentro na Arreixaca, | e iam i orar genoeses, pisãos | e outros de Cezilha, [Refrão = vv. 1-4] e davam sas ofertas, | e, se de coraçom aa Virgem rogavam, | logo sa oraçom deles era oída, | e sempre d’ oqueijom e de mal os guardava; | ca o que ela filha [Refrão = vv. 1-4] por guardar, é guardado. | E porende poder nom houverom os mouros, | per rem, de mal fazer em aquel logar santo, | nem de o ém tolher, macar que xo tĩíam | enserrad’ em sa pilha. [Refrão = vv. 1-4] E, pero muitas vezes | me rogavam porém que o fazer mandasse, | mostrando-mi que bem era que o fezesse, | depois, per nulha rem, macar lho outorgarom, | nom valeu ũa bilha. [Refrão = vv. 1-4] E depois a gram tempo | avo outra vez (quand’ el-rei d’ Aragom, | Dom James, de gram prez, a eigreja da see | da gram mezquita fez, quando s’ alçarom mouros | des Murç’ atá Sevilha) [Refrão = vv. 1-4] que entom a aljama | lhe verom pedir que aquela eigreja | fezessem destroir que n’ Arreixaca era; | e, macar consentir o foi el, nom poderom | nem tanger em cravilha. 357 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 98 100 [Refrão = vv. 1-4] Depois aquest’ avo | que fui a Murça eu, e o mais d’ Arreixaca | a aljama mi deu que tolhess’ a eigreja | dontr’ eles; mas mui greu me foi, ca era toda | de novo pintadilha. [Refrão = vv. 1-4] Porém muit’ a envidos | entom lho outorguei, e toda a aljama | foi ao mouro rei que o fazer mandasse; | mas diss’ el: “– Nom farei, ca os que Mariame | desama, mal os trilha”. [Refrão = vv. 1-4] Depois, quand’ Aboiuçaf, | o senhor de Çalé, passou com mui gram gente, | aquesto verdad’ é que cuidarom os mouros, | por eixalçar sa fé, gãar Murça per arte. | Mais sa fals’ armadilha [Refrão = vv. 1-4] desfez a Virgem santa, | que os ende sacou, que ena Arreixaca | poucos deles leixou; e a sua eigreja | assi deles livrou, ca os que mal quer ela, | bem assi os eixilha. [Refrão = vv. 1-4] E porend’ a eigreja | que nunca Mafomete ca a conquereu ela, | Espanha e Marrocos, sua quita é já, | poder i haverá; e, demais, conquerrá | e Ceta e Arcilha. A que por nos salvar fezo Deus madr’ e filha, se se de nós honrar quer, nom é maravilha. * * * 358 Cantigas de Santa Maria 170 «Loar devemos a que sempre faz» (E 170, T 170) Esta é de loor. R0 2 I 6 Esta é madre de Nostro Senhor, Santa Maria, que sempr’ é melhor; porém lhe devemos a dar loor e no-na podemos loar assaz. 8 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. 4 R1 II 12 Ca, em qual guisa podemos loar muit’ a aquela que nos foi mostrar a Deus em carne e nos fez salvar e nos meteu dos santos em sa az? 14 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. 10 R2 III 18 Par Deus, loada mui de coraçom deve seer dos que no mundo som; ca ũus faz salvar, outros perdom gaanham, e o mundo met’ em paz. 20 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. 16 R3 IV 24 Loada deve ser mais doutra rem a que tolhe mal sempr’ e trage bem e por nós roga, e que nos mantém e nos defende do demo malvaz. 26 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. 22 R4 V 30 De mi vos digo que a loarei mentre for vivo, e sempre direi bem dos seus bes, ca de certo sei que, pois morrer, que verei a sa faz. 32 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. 28 R5 Loar devemos a que sempre faz bem e em que toda mesura jaz. * * * 359 Cantigas de Santa Maria 171 «Santa Maria grandes faz» (E 171, T 171) Esta é como ũa molher de Pedra-Salze ia com seu marido a Salas, e perderom um filho pequeno em um rio, e forom a Salas e acharo-no vivo ant’ o altar. R0 2 4 I 6 8 10 12 Santa Maria grandes faz miragres, e saborosos, e guarda aos que lhe praz de seerem perdidosos. E desto vos quero contar um gram miragre que oí que fez a reinha sem par em Salas (e faz muitos i pera as gentes aduzer que sejam muit’ aguçosos de bem em seu filho creer, e mansos e homildosos). R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4] II 18 20 22 24 Um home nom podi’ haver filho, per quant’ eu aprendi, de sa molher, e prometer foi d’ ir a Salas; e, des i, quis Santa Maria guisar (que faz miragres fremosos) que lhes foi log’ um filho dar, ond’ ambos forom goiosos. R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4] III 30 32 34 36 Dous ano-lo forom criar; e, pois moverom bem dali, seu caminho forom filhar pera Salas; e, ind’ assi, virom ũ[u] rio correr, e eles forom coitosos de passar; mas forom perder o filh’ os malavegosos. R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4] IV 42 44 46 48 Ca a madre, que o trager em um rocim i’ ante si, com el no rio foi caer, como [o] contarom a mi, e houve a desamparar o filho; e os astrosos filharom-se muit’ a chorar ambos come perdidosos. R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4] 360 V 54 56 58 60 Muito o per-forom buscar pelas ribas, com’ entendi, mas no-no poderom achar, e tornar-se quisera d’ i o padre; mas ela dizer lhe foi: “– Pois nom preguiçosos [nós] fomos, vaamos seer a Salas desto queixosos”. R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VI 66 68 70 72 [E] no caminho se meter forom, dizend’ ela: “– A ti vou, Virgem, que m’ i acorrer queras do filho que perdi”. E, pois chegou ao logar, com sospiros amargosos, viu seu filh’ [i], ant’ o altar vivo. E muit’ homildosos R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4] VII 78 80 82 84 R7 86 88 loores deu, se Deus m’ ampar, aa Virgem: “– Ca recebi” –diss’ ela– “o que demandar te fui, sempr’, e nunca fali; e porém querrei retraer, ontr’ os teus mui groriosos miragres, e fazer saber este, dos maravilhosos”. Santa Maria grandes faz miragres, e saborosos, e guarda aos que lhe praz de seerem perdidosos. * * * 361 Cantigas de Santa Maria 172 «A madre de Jesu-Cristo, que ceos, terras e mares» (E 172, T 172) Esta é como Santa Maria de Salas livrou um mercador do perígoo do mar. R0 2 I 4 6 A madre de Jesu-Cristo, | que ceos, terras e mares fez, poder há d’ as tormentas | tolher em todos logares. De tal razom um miragre | a Virgem Santa Maria fez por um mercador, grande, | que a Acre ir queria com sa nave carregada | de mui bõa merchandia, mas ante que i chegasse | recebeu muitos pesares. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca houve tam gram tormenta | que o masto foi britado, e a vea toda rota; | e el se viu tam coitado que prometeu que, se vivo | ao porto arribado fosse, que, romeu em Salas, | vel a santos seus altares 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 ũa noite oferenda | déss’ i bõa e fremosa. E, pois prometud’ est’ houve, | log’ a Virgem groriosa valeu-lhe com sa mercee | e nom lhe foi vagarosa, ca fez quedar a tormenta | logo, sem outros vagares. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 A tormenta aquedada | foi, e seu mast’ adubarom, e log’ a Santa Maria | de Salas s’ acomendarom; e houverom tam bom vento | que na manhãa chegarom a Acr’, e perderom medo | e todos maos pensares R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que ant’ haviam de morte. | Des i, quantas merchandias tragiam, todas venderom | mui bem e em poucos dias. Pois, a sa terra tornarom, | e fezerom romarias al Poi, e depois a Salas, | com loores e cantares. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] 36 ũa cruz de cristal toda | deu log’ i em oferenda o mercador, que a Virgem | guiara bem, sem contenda, com seu haver ao porto; | e meteu-s’ em sa comenda. E desto cantar fezemos | que cantassem os jograres. 38 A madre de Jesu-Cristo | que ceos, terras e mares fez, poder há d’ as tormentas | tolher em todos logares. VI 34 R6 * * * 362 Cantigas de Santa Maria 173 «Tantas em Santa Maria som mercees e bondades» (E 173, T 173) Esta é como Santa Maria de Salas guareceu um home que havia a door que chamam mal da pedra. R0 2 I 4 6 Tantas em Santa Maria | som mercees e bondades que sãar pod’ os coitados | de todas enfermidades. Dest’ avo um miragre, | per com’ eu oí dizer a muitos homes bõos | e que eram de creer, que mostrou Santa Maria | por um seu serv’ acorrer; onde gram torto faredes | se me bem nom ascuitades. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Est’ home d’ Aragom era, | e havia tam gram mal de pedra que em gram coita | era com ela, mortal, que comer sol nom podia, | nem dormir nem fazer al senom chamar sempr’ a Virgem, | a senhor das piadades. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 A muitos fisicos fora, | mas nom lhe prestaram rem; porend’ em Santa Maria | sa voontad’ e seu sém posera. E log’ a Salas | se foi rogar a que tem o mund’ em seu mandamento, | que nom catass’ as maldades R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .] [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .] [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .] [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .] R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E que esto nom dissesse | a ôutri, mas sa carreira se foss’. E el espertou-se | entom e achou enteira a pedra sigo na cama, | tam grande que verdadeirament’ era come castanha: | esto de certo sabiades. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Entom el a Virgem muito | loou. E nós a loemos por este tam gram miragre, | e gram dereito faremos, ca sempr’ ela nos acorre | enas coitas que havemos, ca a sa gram lealdade | passa todas lealdades. 38 Tantas em Santa Maria | som mercees e bondades que sãar pod’ os coitados | de todas enfermidades. 34 R6 * * * 363 Cantigas de Santa Maria 174 «Como aa Virgem pesa de quem erra a ciente» (E 174, T 174) Esta é como um cavaleiro servia Santa Maria, e avo-lhe que jogou os dados, e, porque perdeu, dostou Santa Maria; e repentiu-se em seu coraçom depois, e, do pesar que ende houve, talhou a língua; e sãou-lha Santa Maria, e falou depois mui bem. R0 2 I 4 6 Como aa Virgem pesa | de quem erra a ciente, outrossi ar praz-lhe muito | de quem s’ ende bem repente. Onde a um cavaleiro | avo que muit’ amava Santa Maria e sempre | a ela s’ acomendava; mais foi assi que um dia | com outro dados jogava, e, porque perdeu a eles, | descreeu mui feramente. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Comoquer que el dissesse | contra Deus muita folia, mais de mal diss’ essa hora | da Virgem Santa Maria. E, poi-l’ houve dito, logo | saiu da tafuraria e filhou-s’ a chorar muito, | como home que se sente 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 de grand’ erro que há feito. | E, mui de rijo chorando, des i sacou seu cuitelo | e estev’ assi talhando sa língua, com que a Virgem | severa mal dostando. Mas tam gram door end’ houve | que se saiu dontr’ a gente R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 e foi pera sa pousada | com gram door mui coitado; e jouv’ assi vel três dias | mui maltreit’ e lazerado, rogando Santa Maria | na mente que seu pecado que dissera lhe parcisse, | ca el era seu sergente. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Ele assi a rogando, | adormeceu muit’ aginha, e viu entom em dormindo | a Virgem santa, reinha, que lh’ em aquela gram coita | pôs logo sa meezinha, que lhe pareceu mais crara | que o sol em ouriente. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E disse-lh’ entom: “– Mesquinho, | macar mal me dostaste, muit’ hei eu de ti gram doo | de que ta língua talhaste; mas sãar-t’-ei ora dela, | porque em mi confiaste, ca dereito de si grande | dá aquel que se desmente; R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 e, porque te repentiste, | sãar-t’-ei ora de chão”. E entom Santa Maria | pôs-lhe na boca a mão 364 42 e sãou-o bem da língua, | e el achou-se tam são que nunca pois lhe dolverom | boca nem língua nem dente. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E el loou muit’ a Virgem. | E nós demos-lhe loores, que nos acorre nas coitas | macar somos pecadores, e, nós pesar lhe fazendo, | faz-nos ela sempr’ amores e dá-nos bem de seu filho, | Deus Padre omnipotente. 50 Como aa Virgem pesa | de quem erra a ciente, outrossi ar praz-lhe muito | de quem s’ ende bem repente. 46 R8 * * * 365 Cantigas de Santa Maria 175 «Por dereito tem a Virgem, a senhor de lealdade» (E 175, T 175) Esta é dum home bõo que ia com seu filho em romaria a Santiago e enforcarom-lh’ a torto o filho em Tolosa, e Santa Maria deu-lho vivo; e queimarom um herege que lho fezera fazer. R0 2 I 4 6 Por dereito tem a Virgem, | a senhor de lealdade, que sobr’ el se torn’ o dano | de quem jura falsidade. Desto direi um miragre | de gram maravilh’ estranha que mostrou Santa Maria | por um romeu d’ Alemanha que a Santiago ia | (que éste padrom d’ Espanha), e per Rocamador vo | a Tolosa, a cidade. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II El sobre toda-las cousas | amava Santa Maria, e porém muit’ ameúde | lhe rogava e dizia que o d’ oqueijom guardasse | e seu filho que tragia, pois que madr’ era de Cristo, | que é Deus em Trĩidade. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, pois entrou em Tolosa, | foi logo filhar pousada em casa dum grand’ herege, | nom sabend’ end’ ele nada; mas, quando o viu a gente, | foi ende maravilhada, e disserom ao filho: | “– Dest’ albergue vos quitade”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O herege, que muit’ era e que muitas falsidades porque aquel home bõo filhou um vaso de prata 22 24 | | | | cho de mal e d’ engano fazia sempre cad’ ano, nom se fosse del sem dano, alá em sa poridade R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e mete’-o eno saco | do filho; e, pois foi ido, foi tantoste depos eles, | metendo grand’ apelido que lhe levavam seu vaso | de prata nov’ e bronido; e, poi-los houv’ acalçados, | disse-lhes: “– Estad’, estade!” 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Os romeus, quand’ esto virom, | forom ém maravilhados, ca virom vĩir o baile | com seus homes armados que os prendeu, e tantoste | forom bem escodrunhados, atá que o vas’ acharom | no sac’: esto foi verdade. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Tantoste que o acharom, | o herege que seu era jurou por aquele vaso | e que lho furtad’ houvera o moço que o tragia; | e a jostiça tam fera 40 366 42 foi de sanha, que tantoste | diss’: “– Este moç’ enforcade”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Os seus homes cruees | muit’ aginha o fezerom, e da coita de seu padre | sol mercee nom houverom; e, depois que o na forca | ante seus olhos poserom, el acomendou-lh’ a alma | aa senhor de bondade. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E el foi-s’ a Santiago, | u havia prometudo; e depois aa tornada | nom lhe foi escaeçudo d’ ir u seu filho leixara | morto, que fora traúdo, e foi-o muito catando, | chorando com piadade. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, u el assi chorava, | diss’ o filho: “– Home bõo, padre, e nom vos matedes, | ca de certo vivo sõo; e guarda-m’ a Virgem santa, | que com Deus sé eno trõo, e me sofreu em sas mãos | pola sa gram caridade”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Quando viu aquel coitado | que seu filh’ assi falava, foi correndo a Tolosa | e ao baile chamava, e ar chamou muita gente, | que alá sigo levava que vissem seu filho vivo, | que fora por crueldade 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII posto na forca e morto; | mas nom quis a Virgem santa, que aos maos abaixa | e aos bõos avanta, e o sofreu em sas mãos, | que nom colgou da garganta. E disse: “– Amigos, ide | toste e o descolgade”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Forom-se log’, e com eles | foi seu padre o cativo com coita d’ haver seu filho; | e, des que lho mostrou vivo, decendero-no da forca, | e um chorar tam esquivo faziam todos com ele | que mester houv’ i: “– Calade!” 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E, pois se calad’ houverom, | contou-lhes todo seu feito com’ estedera na forca | três meses todos a eito, u a Virgem o guardara, | e a verdade do preito lhes disse, rogando muito: | “– O herege mi chamade, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV que ascondeu no meu saco | o vaso, per que prendesse eu morte crua e maa; | porém nom quis que morresse a Virgem Santa Maria, | mas guisou-mi que vivesse; e porende as loores | deste feit’ a ela dade”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E logo toda a gente | enviarom a Tolosa polo hereg’; e, pois vo | com sa cara vergonhosa, 94 367 96 souberom del a verdade, | e morte perigoosa lhe derom dentr’ em um fogo, | dizendo-lh’: “– Aqui folgade!”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Esta jostiça tam bõa | a madre do Josticeiro fez por aquel home bõo, | mui leal e verdadeiro, que lhe deu seu filho vivo, | e o hereg’ usureiro ar fez que prendesse morte | qual buscou por sa maldade. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 108 E por aquest’, ai amigos, | demos-lhe grandes loores que sempr’ acorr’ os coitados, | e parc’ aos pecadores, e a todos faz mercees, | a grandes e a mores; e porend’ os seus miragres | tam nobres muito loade. 110 Por dereito tem a Virgem, | a senhor de lealdade, que sobr’ el se torn’ o dano | de quem jura falsidade. R18 * * * 368 Cantigas de Santa Maria 176 «Soltar pode muit’ aginha os presos e os liados» (E 176, T 176) Esta é do cativo de Maiorgas que sacou Santa Maria quand’ era de mouros. R0 2 I 4 6 Soltar pode muit’ aginha | os presos e os liados a que faz ao seu filho | que nos solte dos pecados. E dest’ um mui gram miragre | direi que oí dizer que avo em Maiorgas, | quando mouros em poder a tinham, por um crischão | que foi ontr’ eles caer em cativo e havia | os pees enferrolhados; R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II demais, tĩí’ a garganta | no cepo, com’ aprendi. E, jazend’ em tam gram coita, | prometeu log’ [i] assi: que, se o Santa Maria | de Salas tirasse di, que seria seu romeiro, | e dar-lh’-ia mui grãados 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III dões, e a sa omagem | faria, com’ aprix eu, de cera que i levasse, | e seria sempre seu servo. E, pois esto dito | houve, tal sono lhe deu Santa Maria que logo | dormiu entr’ outros atados. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, u jazia dormindo, | a viu; e disso-lh’ atal: “– Leva-te, ca já és solto, | e daqui logo te sal”. E abriu log’ as cadas, | e assi lhe fez o al, e o cep’ em que jazia | e todo-los cadados. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E disse-lhe: “– Vai, nom temas, | ca per rem nom te verá nulh’ home que mal te faça, | e leva-t’ e sal acá; ca ir-te podes em salvo | atá que chegues alá u compras ta romaria | e sejam-te perdõados 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI os pecados que hás feitos”. | E el logo s’ espertou e, do cep’ e das cadas, | de todo se livr’ achou; e em mui pouco de tempo | em salv’ a Salas chegou e levou i a omagem | de cer’. E maravilhados 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 forom quanto-lo oírom, | e derom porém loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, que nos de tantas maneiras | faz mercee e amor e nom cata nossos erros, | nem como somos culpados. 44 Soltar pode muit’ aginha | os presos e os liados a que faz ao seu filho | que nos solte dos pecados. 40 R7 * * * 369 Cantigas de Santa Maria 177 «Nom vos é gram maravilha de lum’ ao cego dar» (E 177, T 177) Esta é como Santa Maria de Salas sãou a um home que sacaram os olhos porque s’ acomendou a ela, e viu bem. R0 2 I 4 6 Nom vos é gram maravilha | de lum’ ao cego dar a que com Deus, que é lume, | sé no ceo par a par. Ca, pois ela enos ceos | sé com Deus, e sa madr’ é, da graça que del recebe | mui guisad’ é que nos dé; porém dar lum’ ao cego | rafece lh’ é, a-la-fé; e desto um gram miragre | vos quer’ eu ora contar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Aragom foi um home | bõo e que grand’ amor aa Virgem sempr’ havia, | outrossi a seu senhor servia mui lealmente; | mas um falso mezcrador atant’ andou revolvendo | que o foi com el mezcrar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Tanto lhe disse mal dele | e tam forte o mezcrou que o senhor, com gram sanha, | verdade nom preguntou, mai-los olhos da cabeça | ambos tirar-lhos mandou, cuidando que del por esto | nom se podia vengar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, pois lh’ os olhos tirarom, | aquel bom home, que fez? Pediu-os; e, pois lhos derom, | aa reinha de prez s’ acomendou, e mandou-se | logo levar dessa vez a cas dum celorgião, | e começou-lh’ a rogar 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que lhe seus olhos tornasse, | ca bem fiava por Deus e pola Virgem, sa madre, | que sempr’ acorr’ aos seus. Diss’ ele: “– Ca eu bem cuido | ai[n]da ver destes meus, se esto que me sacarom | podedes dentro tornar”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Entom o celorgião | tornou-lhos, e log’ entom el se volveu contra Salas, | rogando de coraçom a Virgem Santa Maria | que o sãasse e nom catass’ aos seus pecados. | E ela o fez sãar 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII logo, que nom parecia | du lhos tiraram sinal, ante cuidavam bem todos | que nom houvera ém mal. Porém loarom a Virgem, | que aos seus nunca fal; e el omagem de cera | pôs log’ ant’ o seu altar. 40 42 R7 44 Nom vos é gram maravilha | de lum’ ao cego dar a que com Deus, que é lume, | sé no ceo par a par. * * * 370 Cantigas de Santa Maria 178 «A que faz o home morto resurgir, sem nulha falha» (E 178, T 178) Esta é dum meninho de Alcaraz a que seu padre dera ũa muleta, e morreu-lhe; e encomendou-a a Santa Maria de Salas, e levantou-se sãa. R0 2 I 4 6 A que faz o home morto | resurgir, sem nulha falha bem pode fazer que viva | outra morta animalha. Desto mostrou um miragre | a madre do Salvador, mui grande, por um meninho | que filho dum lavrador era; e, poi-lo oirdes, | haveredes ém sabor, e loaredes a Virgem, | que sempre por nós trabalha. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ao lavrador nacera | muleta, com’ aprix eu, em sa casa, fremosinha, | que log’ a seu filho deu, e, faagando-o muito, | dizendo: “– Este dom teu seja, daquesta muleta, | e dar-te-lh’-ei horj’ e palha”. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III O moço creeu aquesto | e prougue-lhe daquel dom, e pensou bem da muleta | quanto pude des entom; mas ũa noite morreu-lhe, | e por aquesta razom levou o padre seu filho, | por nom saber nemigalha, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV ao ero u lavrava. | Ma-la madre, que ficou na casa, aquela mua | morta logo a filhou e chamou um seu colaço | e esfolá-la mandou, cuidando haver do coiro | cinco soldos e mealha. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Eles em esto estando, | o lavrador foi chegar do ero, e o meninho, | viu sa mua esfolar e diss’ a mui grandes vozes: | “– Leixad’ a mua estar, ca eu a dei já a Salas, | e bem tenho que me valha”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI A muleta já havia | ambo-los pees de trás esfolados, e a madre | diss’ a seu filho: “– Bem hás sém de meninho, que cousa | morta aa Virgem dás, ca tant’ é aquesto como | nom lhe dares nemigalha”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Por quanto ela dizia | o meninho nom deu rem, mas decingeu log’ a cinta | e a mua mediu bem, e fez estadal per ela, | que ardess’ ant’ a que tem voz ante Deus dos culpados | e co-no demo baralha. 40 42 371 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII O estadal enviado, | e a muleta viveu. Quand’ esto viu o meninho, | gram prazer ém recebeu, e deu-lh’ entom que comesse, | e a muleta comeu, loando todos a Virgem, | a que Deus deu avantalha 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 sobre todos outros santos. | Porém roguemos-lh’ atal: que nos guard’ em este mundo | d’ ocajom e doutro mal, e que nos dé eno outro | a vida esperital, e que brite o diabo, | que sempr’ é nossa contralha. 56 A que faz o home morto | resorgir, sem nulha falha bem pode fazer que viva | outra morta animalha. 52 R9 * * * 372 Cantigas de Santa Maria 179 «Bem sab’ a que pod’ e val» (E 179, T 179) Esta é como ũa molher de Molina que tĩinha apresos os talões aas res e era contreita de todo o corpo, fez-se levar a Santa Maria de Salas e foi logo sãa. R0 2 I 4 6 Bem sab’ a que pod’ e val física celestial. Ca de seu filh’ há sabuda física muit’ asconduda, com que nos sempre ajuda e nos tolhe todo mal. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta senhor de mesura física sobre natura mostrou, e quis haver cura dũa molher, direi qual: 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que era toda tolheita e das pernas encolheita; mas ela a fez dereita, ca sa física nom fal. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Esta tĩía premudos os talões e metudos nas res e aprendudos bem como pedra com cal. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Com este mal que sofria, a Salas em romaria, de Molina, se fazia levar (ca di natural 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI era). E, pois na eigreja foi da que beita seja, gram maravilha sobeja mostrou a senhor leal: 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII ca, mentr’ a missa cantavam em que a Virgem loavam, os nérvios lh’ assi sõavam como carr’ em pedregal, 40 42 373 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII assi que se lh’ estendendo forom e desencolhendo, e levantou-se correndo e saiu-s’ ao portal, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 loando a groriosa, que é senhor poderosa, que lhe foi tam piadosa com saber espirital. 56 Bem sab’ a que pod’ e val física celestial. 52 R9 * * * 374 Cantigas de Santa Maria 180 «Velha e mininha» (E 180, T 180) Esta é de loor de Santa R0 2 4 I 6 8 10 R1 12 14 II 16 18 20 R2 22 24 III 26 28 30 R3 32 34 IV 36 38 40 R4 Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Desta guisa deve Santa Maria seer loada, ca Deus lhe quis dar todas estas cousas por melhoria, porque lhe nunca já achassem par; e por aquesto assi a loar devíamos sempre, ca por nós vela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Ca velha é, segund’ a profecia que Salamom foi dela profetar: que ante do mundo foi todavia criada, e que nunc’ há de minguar o seu gram bem; e porend’ encarnar quis Deus em ela, que todo caudela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. E tod’ home «meninha» a devia em todo tempo per razom chamar, pois em bondade crece cada dia e em beldade, de que se pagar foi tanto Deus que por ela salvar deceu no mundo da sa alta sela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Com razom nossa madr’ é, que nos cria e sempre punha de mal nos guardar, e criou Deus, que a criad’ havia, que foi seu filh’ e houve de criar, que por nós foi o iferno britar e o dem’ e toda sa alcavela. 44 Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. 46 De como é donzela, Isaía em sas profecias o foi mostrar, 42 V 375 48 50 R5 52 54 VI 56 58 60 R6 62 64 VII 66 68 70 R7 72 74 VIII 76 78 80 R8 82 84 IX 86 88 90 R9 92 94 F 96 u disse que virgem conceberia e parria hom’ e Deus, sem dultar, o que nos fez paraíso cobrar, que perdemos per Eva, a mesela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Como foi pobre, que-no osmaria, a que seu filho Deus ia deitar no preseve, ca haver nom podia um pano em que o envurulhar senom sa touca, ca eno logar sol nom acharom i ũ’ almocela? Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Por reinha tod’ home a terria que a visse a seu filho levar daqueste mund’, e sigo a sobia ao ceo, u sé com El a par e guia-nos com’ estrela do mar; porém dizemos «Ave, maris stella». Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Outra dona seer nom poderia atal com’ esta, ca Deus foi juntar em ela prez e sém e cortesia e santidad’, u mercee achar pode tod’ home que a demandar; e com tod’ esto, nunca nos revela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Ancela se chamou u lhe dizia o ángeo Gabriel que filhar Deus em ela carne d’ home verria, e como serva se foi homildar u lhe disse: “– Farei quant’ El mandar”; e log’ ali dela fez Deus sa cela. Velha e mininha, madr’ e donzela, pobre e reinha, don’ e ancela. Porém lhe rogo que quer’ amparar a mi de mal, e Leom e Castela. 376 Cantigas de Santa Maria 181 «Pero que seja a gente doutra lei e descreúda» (E 181, T 181) Esta é como Abo-Iuçaf foi desbaratado em Marrocos pela sina de Santa Maria. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Pero que seja a gente | doutra lei e descreúda, os que a Virgem mais amam, | a esses ela ajuda. Fremoso miragre desto | fez a Virgem groriosa na cidade de Marrocos, | que é mui grand’ e fremosa, a um rei que era ende | senhor, que perig[o]osa guerra com outro havia, | per que gram mester ajuda [Refrão = vv. 1-2] havia de quem lha désse; | ca assi com’ el cercado jazia dentr’ em Marrocos, | ca o outro já passado era per um gran[de] rio | que Morabe é chamado com muitos de cavaleiros | e mui gram gente miúda, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III e corriam pelas portas | da vila, e quant’ achavam que fosse fora dos muros, | todo per força filhavam. E porend’ os de Marrocos | al-rei tal conselho davam: que saísse da cidade | com bõa gent’ esleúda 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV d’ armas, e que mantenente | co-no outro rei lidasse e logo fora da vila | a sina sacar mandasse da Virgem Santa Maria, | e que, per rem, nom dultasse que os logo nom vencesse, | poi-la houvesse tenduda; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V demais, que sair fezesse | dos crischãos o concelho co-nas cruzes da eigreja. | E el creeu seu conselho; e, poi-la sina sacarom | daquela que é espelho dos ángeos e dos santos, | e dos mouros foi viúda 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que eram da outra parte, | atal espant’ ém colherom que, pero gram poder era, | logo todos se vencerom, e as tendas que trouxeram | e o al todo perderom, e morreu i muita gente | dessa fea e barvuda. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E per Morabe passarom, | que ante passad’ houveram, e, sem que perdud’ haviam | todo quant’ ali trouxeram, atám gram medo da sina | e das cruzes i preseram que, fogindo, nom havia | nium réda túda. 40 42 377 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E assi Santa Maria | ajudou a seus amigos, pero que doutra lei eram, | a britar seus emigos, que, macar que eram muitos, | no-nos preçarom dous figos; e assi foi sa mercee | de todos mui conhoçuda. 50 Pero que seja a gente | doutra lei e descreúda, os que a Virgem mais amam, | a esses ela ajuda. 46 R8 * * * 378 Cantigas de Santa Maria 182 «Deus!, que mui bem barata» (E 182, T 182) Como Santa Maria ressucitou um home que matarom os demões. R0 2 I 4 6 Deus!, que mui bem barata quem pola Virgem cata! Dest’ um maravilhoso miragre mui fremoso vos direi, saboroso e d’ oir sem ravata, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II que fez Santa Maria dum home que fazia muito mal cada dia, andand’ em ũa mata. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ca britava caminhos, dema[i]s pães e vinhos roubava dos mesquinhos, e o our’ e a prata 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e o al que achava, que nada nom leixava. Pero muito fiava na que o mal desata, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V assi que sas vigias guardava dos seus dias, des i malfeitorias nem sol dũa çapata 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI a nulh’ home filhasse. Demais, que-no rogasse pela Virgem, contasse que feit’ era a data, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e dar o que tĩinha, por amor da reinha. Mais ũa mort’ aginha sobetanha, que mata 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII muitos, o matou toste; e de demões hoste 46 379 48 per cima dum recoste mui mais ca Damiata R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX mais longe o levarom; e mal o doitarom, e atal o pararom com’ ũa escarlata. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Mais sa madre coitada houve muito rogada a Virgem corõada, que os demões ata, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que seu filho lhe désse e viver lho fezesse e o demo presesse, que há rosto de gata. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Sa oraçom oída foi da Virgem comprida, e deu-lhe logo vida, des i da muit’ ata 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 mort’ [o] guardou privado d’ infern’; e seu mandado da Virgem fez de grado, que os maes remata. 80 Deus!, que mui bem barata quem pola Virgem cata! 76 R13 * * * 380 Cantigas de Santa Maria 183 «Pesar há Santa Maria de quem, por desonra, faz» (E 183, T 183) Esta é dum miragre que mostrou Santa Maria em Faarom quand’ era de mouros. R0 2 I 4 6 Pesar há Santa Maria | de quem, por desonra, faz, dela, mal a sa omagem, | e caómia-lho assaz. Desto direi um miragre | que fezo em Faarom a Virgem Santa Maria | em tempo d’ Abém-Mafom, que o reino do Algarve | tĩí’ aquela sazom a guisa d’ hom’ esforçado, | quer em guerra, quer em paz. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em aquel castel’ havia | omagem, com’ apres’ hei, da Virgem mui groriosa, | feita como vos direi: de pedra, bem fegurada; | e, com’ eu de cert’ achei, na riba do mar estava, | escontra ele de faz. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Bem do tempo dos crischãos | a sabiam i estar, e porende os cativos | a iam sempr’ aorar, e «Santa Mari’» a vila | de Faarom nomar por aquesta razom | forom. Mas o póboo malvaz 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV dos mouros que i havia | houverom gram pesar ém, e eno mar a deitarom | sanhudos, com gram desdém. Mas gram miragre sobr’ esto | mostrou a Virgem (que tem o mund’ em seu mandamento), | a que sobêrvia despraz. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ca fez que nium pescado | nunca poderom prender enquant’ aquela omagem | no mar leixarom jazer. Os mouros, pois virom esto, | foro-na dali erger e posero-na no muro, | entr’ as amas, em az. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Des i, tam muito pescado | houverom des entom i que nunca tant’ i houveram, | per com’ a mouros oí dizer e aos crischãos, | que o contarom a mi; porém loemos a Virgem, | em que tanto de bem jaz. 38 Pesar há Santa Maria | de quem, por desonra, faz, dela, mal a sa omagem, | e caómia-lho assaz. 34 R6 * * * 381 Cantigas de Santa Maria 184 «A madre de Deus / tant’ há em si gram vertude» (E 184, T 184) Esta é como Santa Maria guardou um meninho que lh’ encomendou sa madre quando o tragia no ventre, e matarom a madre e saiu o moço pela ferida. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 A madre de Deus tant’ há em si gram vertude per que aos seus acorre e dá saúde. E de tal razom com’ esta | um miragre mui fremoso vos direi que fez a Virgem, | madre do rei poderoso, em terra de Santiago, | em um logar montanhoso, u ũa molher morava | que era prenh’ ameúde [Refrão = vv. 1-4] de seu marido; mais ela, | polas s[u]as pecadilhas, quantos lhes nunca naciam, | assi filhos come filhas, todos lhe morriam logo; | mais das suas maravilhas mostrou i Santa Maria, | que sobre-los seus recude. [Refrão = vv. 1-4] Ela, com pavor daquesto, | o de que era prenhada encomendou aa Virgem, | a madre de Deus honrada, que ela que a guardasse | que nom foss’ acajõada, dizendo: “– Dá-me meu filho, | que bem a viver m’ ajude”. [Refrão = vv. 1-4] Ela aquesto fazendo, | o demo, cho d’ enveja, aguisou que seu marido | houve com outros peleja, e derom-lh’ ũa ferida | pelos peitos tam sobeja que morreu, ca assi faze | quem nom há que-no escude. [Refrão = vv. 1-4] Ela, que viu o marido | que [o] chagavam de morte, foi-se-lhe deitar de suso; | e derom-lh’ entom tam forte ferida pelo costado | que morreu: tal foi sa sorte. Mai-lo filho pela chaga | saiu, que mester engrude [Refrão = vv. 1-4] havia pera sa chaga, | que na face lhe ficara, que lh’ o cuitelo fezera | que a sa madre matara. Mais quiso Santa Maria, | a que o encomendara sa madre, que nom morresse | nem foss’ el em ataúde; [Refrão = vv. 1-4] 382 VII 54 56 R7 58 60 ante quiso que vivesse | e crecess’ e se criasse, e sempre reconhocesse | a Virgem e a loasse, e o sinal parecesse | da chaga, per que provasse este feito, [e] que sempre | hom’ em sa loor estude. A madre de Deus tant’ há em si gram vertude per que aos seus acorre e dá saúde. * * * 383 Cantigas de Santa Maria 185 «Poder há Santa Maria grande d’ os seus acorrer» (E 185, T 187) Esta é como Santa Maria guardou o castelo de Chincoia dos mouros, que o nom poderom tomar pola omagem de Santa Maria que poserom os de dentro nas amas. R0 2 I 4 6 Poder há Santa Maria | grande d’ os seus acorrer, em qual logar quer que sejam, | e os de mal defender. E dest’ oí um miragre | que avo pouc’ há i em Chincoia, um castelo, | per quant’ end’ eu aprendi, que fezo Santa Maria; | e aos que o oí ataes homees eram | a que devemos creer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aqueste castelo ést[e] | eno reino de Jeém, e um alcaid’ i havia | que o guardava mui bem; mais, de guardá-lo, a cima | lhe mengou muito o sém, assi que per pouc’ um dia | o houvera de perder. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este grand’ amor havia | com um mouro de Belmez, que do castel’ alcaid’ era; | mas o traedor, que fez? Falou com rei de Grãada | e disse-lhe: “– Desta vez vos darei eu o castelo | de Chincoia em poder”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Diss’ el: “– Como?” Respôs-lh’ ele: | “– Se eu vosso poder hei, mià fala co-no alcaide | pera um dia porrei; e, estando ena fala, | bem ali o prenderei, e desta maneira tenho | que o podedes haver”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E diss’ el-rei de Grãada: | “– Eu por mi, u al nom há, quero alá ir contigo | e verei o que será; mais, se me tu desto mentes, | log’ i (al nom haverá) che mandarei a cabeça | dantr’ os teus ombros tolher”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Desta maneira gram medo | a aquel mouro meteu el-rei, e da outra parte | grand’ haver lhe prometeu se lhe désse o castelo; | e logo com el moveu, e o mouro o alcaide | de Chincoia foi veer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E disse-lhe que saísse | com el seu preito firmar ante crischãos e mouros | dos que eram no logar, que o guardasse, ca ele | queria a el guardar, 40 384 42 e sobr’ esto fossem ambos | sas juras grandes fazer. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII O alcaide de Chincoia, | que nom cuidava que mal desto se lhe levantasse, | foi alá logo, sem al, e levou dous escudeiros, | que lhe disserom atal: que med’ haviam do mouro | que o queria traer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX “– Demais, nom levades arma | e ides assi em cós, e, com’ os mouros som falsos, | quiçá travarám de vós; o porend’ ao castelo | nos queremos tornar nós”. E tornarom-se correndo | e forom-se_em el meter. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X O alcaide por tod’ esto | sol cabeça nom tornou, mas, por chegar ao mouro, | logo o rio passou; e, pois a el foi chegado, | log’ el prendê-lo mandou; des i, al-rei de Grãada | o fezo preso trager, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que estava na ciada. | E disse-lh’ esta razom: que lhe dissess’ a verdade | do castelo e, se nom, escabeçá-lo faria. | Diss’ el: “– Se Deus me perdom, no castelo há quinz’ homes, | mais nom tem que comer”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Tantost’ el-rei de Grãada | sa ciada fez sair e dereit’ ao castelo | logo começou-se d’ ir, e mandou ao alcaide | que se_o castelo pedir foss’ aos que i leixara, | se nom queria morrer. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII El[e], com medo de morte, | log’ o castelo pediu, e dos que dentro estavam | atal resposta oiu: que, per fé, nom lho dariam. | Quand’ el-rei aquesto viu, fez log’ a toda sa gente | o castelo combater 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV a pedras e a saetas | mui de rij’ em derredor. E os que dentro jaziam | houverom tam gram pavor que filharom a omagem | da madre do salvador que estava na capela, | des i foro-na põer 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV ontr’ as amas, dizendo: | “– Se tu és madre de Deus, defend’ aqueste castelo | e a nós, que somos teus, e guarda a ta capela | que nom seja dos encreus mouros em poder, nem façam | a ta omagem arder”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E leixaro-na dizendo: | “– Veremo-lo que farás”. Entonc’ os combatedores | tornarom todos atrás; 94 385 96 e três mouros que entraram, | chus negros que Satanás, no castelo, os de dentro | os fezerom ém caer R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII mortos de cima do muro. | E diss’ el-rei: “– Nulha prol nom hei de mais combatermos, | e ter-m’-ia por fol se contra Maria fosse, | que os seus defender sol”. E mandou tanger as trombas | e fez sa hoste mover. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 108 E desta guisa Chincoia | guardou a que todos dam loores por sa bondade, | ca mui gram dereit’ i ham, porque os seus mui bem guarda | e aos outros afám dá, que contra ela vem, | e faz vençudos seer. 110 Poder há Santa Maria | grande d’ os seus acorrer, em qual logar quer que sejam, | e os de mal defender. R18 * * * 386 Cantigas de Santa Maria 186 «Quem na Virgem santa muito fiará» (E 186, T 185) Esta é como Santa Maria guardou ũa molher do fogo, que a queriam queimar. R0 2 I 4 6 Quem na Virgem santa muito fiará, se o vir em coita, acorrê-lo-á. E dest’ um miragre quero retraer que Santa Maria fez por acorrer a ũa dona que houvera d’ arder se lhe nom valess’ ela, que poder há. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesta dona casada era bem com marido que amava mais dal-rem, e em Santa Maria todo seu sém havia e ’na servir por sempre já. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III O marido a amava mui mais dal; mas sa sogra lhe queria tam gram mal per que lhe buscou morte descomunal, como vos per mi ora dito será. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E um dia que dormindo a achou soa, a um seu mouro logo mandou deitar-se com ela; e, pois se deitou, foi a seu filh’ e disse-lhe: “– Vem acá: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a ta molher, que amavas mais ca ti, se a visses (como a ora eu vi) ter um mour’ em seu leito cabo si, bem tenho que muito ch’ ende pesará”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quand’ el est’ oiu, houv’ ém mui gram pesar; e a madre pela mão o filhar foi, e, des i, levo’-o ao logar e disse-lhe: “– Vês ta molher com’ está?!” 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E el matá-la quisera log’ entom, mai-la madre lhe disse: “– Nom faças, nom; mas aa jostiça mostra ta razom, e veerás que dereito che dará”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII El foi e a jostiça fezo vĩir e outros muitos com ele, sem mentir; 46 387 48 e virom a dona no leito dormir e o mouro, e disserom: “– Que será R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX daquesta molher, que tam gram torto fez, que desconhoceu Deus e o mund’ e prez, que fez feito mao, vil e tam rafez?; e por aquesto no fogo arderá, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X ca dereit’ é”. E, per com’ end’ aprix eu, filharom a dona, que lhe foi mui greu quando se viu presa com aquel encreu, e diss’: “– Ai senhor, val-me, ca mester m’ há, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Santa Maria Virgem, se te prouguer, ca em maior coita nunca foi molher; e porém tenho que quem em ti crever que nunca em ta mercee falirá”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E, dizend’ aquesto, logo manamám levarom a don’ a ũa praça gram, outrossi o mouro (que era bem tam negro come pez). E as gentes alá 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII forom mui corrend’, e tod’ em derredor lhes poserom fogo, nom vistes maior; e ardeu o mouro falso traedor, mas ficou a dona como quem está 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV dentr’ em ũa casa, que nunca sentiu rem daquele fogo. E a gente viu cabo dela outra, e falar oiu, que depois nom virom alá nem acá. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E daquesta guisa o mouro ardeu que nium sinal del sol nom pareceu; e a dona do fogo remãeceu salva per aquela que nos salvará. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI 96 E, pois foi del fora, a dona fiel contou que a madre de Deus Manuel a livrara dele, e miragre bel fez aquela que muitos outros fará. 98 Quem na Virgem santa muito fiará, se o vir em coita, acorrê-lo-á. 94 R16 388 Cantigas de Santa Maria 187 «Gram fé devia» (E 187, E 394, T 186) Esta cantiga é dum mõesteiro de Jerusalém, como lhes deu Santa Maria muito trigo em um ano caro e depois muito ouro. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 42 R7 43-44 Gram fé devia hom’ haver em Santa Maria. E dest’, amigos, um miragre direi que fez a Virgem, madre do alto rei, em um mõesteiro de Jerusalém, com’ achei, que fazer mandou aquesta senhor que nos guia, [Refrão = vv. 1-2] que sinagoga primeiro de judeus foi, e vendero-na os maos encreus aos santos apóstolos, muit’ amigos de Deus; esta foi a primeira eigreja de Suria. [Refrão = vv. 1-2] Santa Maria em aquela sazom morava na vila, em Monte Siom, e mandara aquela eigreja fazer entom, que foi depois de monges mui grande abadia. [Refrão = vv. 1-2] Mas um tempo foi que houveram d’ ermar, com fam’, os monges aquel santo logar; mas o seu abade lhes disse: “– Vaamos rogar, ant’, aa Virgem que acorra a sa mongia”. [Refrão = vv. 1-2] Logo o fezerom, sem tardar de rem, e chorarom muit’ ant’ a que nos mantém, e toda aquela noite ar rezarom des ém hinos e cántigos todos a mui gram perfia. [Refrão = vv. 1-2] E outro dia acharom tanto pam que os hórreos forom chos, de pram, que lhes deu Santa Maria sem prender i afám, ond’ o convent’ houve quanto ém mester havia. [Refrão = vv. 1-2] Mas depois a tempo lhes avo mal, que houve na terra gram fame mortal, assi que todos entom cuidaram morrer, sem al; e o abade, muito chorando, lhes dizia: [Refrão = vv. 1-2] 389 VIII 46 48 R8 49-50 IX 52 54 R9 55-56 X 58 60 R10 61-62 XI 64 66 R11 67-68 XII 70 72 R12 74 “– Nembre-vos, amigos, em com’ outra vez a gram mercee que vo-la Virgem fez do triigo, que sabedes que tornou tam rafez que toda a gente do que nos deu guarecia; [Refrão = vv. 1-2] porém lhe roguemos que o filho seu rogue, que aquel pam tam muito nos deu, que nos acorrer queira em est[e] ano tam greu, ca muito mais ca esto por ela nos faria”. [Refrão = vv. 1-2] E os monges todos fezerom assi e orarom muito, per com’ aprendi, toda aquela noit’; e, na luz, acharom ali mui gram cousa d’ ouro no altar, que reluzia. [Refrão = vv. 1-2] O abade muito se maravilhou e ao tesoureiro empreguntou se vir’ algũa gente que na eigreja entrou, que tam gram tesouro com’ aquel sigo tragia. [Refrão = vv. 1-2] El lhe jurou muito par Nostro Senhor que nunca daquelo fora sabedor; entom o convento deu end’ aa Virgem loor, porque lhe atám bem deu quanto mester havia. Gram fé devia hom’ haver em Santa Maria. * * * 390 Cantigas de Santa Maria 188 «Coraçom d’ hom’ ou de molher que a Virgem muit’ amar» (E 188, T 188) Esta é dũa donzela que amava a Santa Maria de todo seu coraçom; e, quando morreu, cuidavam que morria de poçom e abriro-na, porque põía a mão no coraçom, e acharom-lhe no coraçom fegurada a omage de Santa Maria. R0 2 I 4 6 Coraçom d’ hom’ ou de molher | que a Virgem muit’ amar, macá-lo encobrir queiram, | ela o faz pois mostrar. Desto ela um miragre | mostrou, que vos eu direi, a que fiz bom som e cobras, | porque me dele paguei; e, des que o bem houverdes | oído, de certo sei que haveredes na Virgem | porém mui mais a fiar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto por ũa donzela | mostrou a senhor de prez, que mui de coraçom sempre | a amou des meninhez e servia de bom grado; | porém tal amor lhe fez: que o bem que lhe queria | nom lho quis, per rem, negar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta donzela tam muito | Santa Maria amou que, macar no mund’ estava, | por ela o despreçou tanto que, per astença | que fazia, enfermou, e um mês enteiro jouve | que nom pôde rem gostar 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV do que a comer lhe davam | e a bever outrossi. E, pero que nom falava, | segundo com’ aprendi, se lhe de Santa Maria | falavam, em com’ oí, ao coraçom a mão | ia tantoste levar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V A [sa] madre bem cuidava | que era doente mal e que o põer da mão | era bem come sinal que daquel logar morria; | e quis Deus, nom houv’ i al, que a sa madre beita | a fosse sigo levar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI O padr’ e a madre dela, | quando a virom fĩir, cuidarom que poçom fora | e fezero-na abrir; e eno coraçom dentro | lh’ acharom i, sem mentir, omagem da groriosa, | qual x’ ela foi fegurar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 E dest’ a Santa Maria | derom porém gram loor eles e toda-las gentes | que eram em derredor, dizendo: “– Beita sejas, | madre de Nostro Senhor, que a ta gram lealdade | nom há nem haverá par”. 44 Coraçom d’ hom’ ou de molher | que a Virgem muit’ amar, macá-lo encobrir queiram, | ela o faz pois mostrar. 40 R7 391 Cantigas de Santa Maria 189 «Bem pode Santa Maria guarir de toda poçom» (E 189, T 189) Esta é como um home que ia a Santa Maria de Salas achou um dragom na carreira e mato’o, e el ficou gafo de poçom, e pois sãou-o Santa Maria. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 32 Bem pode Santa Maria | guarir de toda poçom, pois madr’ é do que trilhou o | basilisc’ e o dragom. Dest’ avo um miragre | a um home de Valença | que ia em romaria a Salas soo senlheiro, | ca muit’ ele confiava | na Virgem Santa Maria; mas foi errar o caminho, | e anoiteceu-lh’ entom per u ia em um monte, | e viu d’ estranha faiçom [Refrão = vv. 1-2] a si vĩir ũa bescha | come dragom toda feita, | de que foi muit’ espantado; pero nom fugiu ant’ ela, | ca med’ houve, se fogisse, | que seria acalçado; e aa Virgem beita | fez logo sa oraçom que o guardasse de morte | e de dan’ e d’ ocajom. [Refrão = vv. 1-2] A oraçom acabada, | colheu em si grand’ esforço | e foi aa bescha logo e deu-lh’ ũa espadada | com seu espadarrom velho, | que a talhou per meogo, assi que em duas partes | lhe fendeu o coraçom; mas ficou empoçõado | dela des essa sazom. [Refrão = vv. 1-2] Ca o poçom saltou dela | e feriu-o eno rosto, | e outrossi fez o bafo que lhe saía da boca, | assi que a poucos dias | tornou atal come gafo; e pôs em sa voontade | de nom fazer al senom ir log’ a Santa Maria | romeiro com seu bordom. [Refrão = vv. 1-2] Aquesto fez el mui cedo | e meteu-s’ ao caminho | com seu bordom ena mão; e, des que chegou a Salas, | chorou ant’ o altar muito, | e tantoste tornou são. E logo os da eigreja | loarom com procissom a Virgem, que aquel home | guariu de tam gram lijom. Bem pode Santa Maria | guarir de toda poçom, pois madr’ é do que trilhou o | basilisc’ e o dragom. * * * 392 Cantigas de Santa Maria 190 «Pouco devemos preçar» (E 190, T 190) Esta é de loor. I 1 3 R 5 II 6 8 R 10 III 11 13 R 15 IV 16 18 R 20 V 21 23 R 25 VI 26 28 R 30 Pouco devemos preçar o demo, se Deus m’ ampar, pois nos a Virgem guardar, que nos caudela; pois no-la Virgem guardar. Muito faremos mal sém se o temermos de rem, pois no-la Virgem mantém, que nos caudela; pois no-la Virgem mantém. Ca seu poder pouco val, pois nos guarda de seu mal a Virgem espirital, que nos caudela; a Virgem esperital. Seu saber pouco nos nuz, pois é nossa lum’ e luz a que viu seu filh’ em cruz, que nos caudela; a que viu seu filh’ em cruz. No-no devemos creer nem por ele mal fazer, pois nos a Virgem valer, que nos caudela; pois nos a Virgem valer. Seu engano nada é, pois por nós ante Deus sé a em que ficou a fé, que nos caudela; [a em que ficou a fé]. * * * 393 Cantigas de Santa Maria 191 «O que de Santa Maria sa mercee bem gaanha» (E 191, T 191) Como a alcaidessa caeu de cima da pena de Róenas d’ Alvarrazim, e chamou Santa Maria e nom se feriu. R0 2 I 4 6 O que de Santa Maria | sa mercee bem gaanha, de tod’ ocajom o guarda, | já nom será tam estranha. Dest’ avo gram miragre, | per com’ a mi foi contado, a ũa molher que era | dum castelo que chamado é Róenas, que em térmio | d’ Alvarrazim é poblado, encima dũa gram pena, | bem em cabo da montanha. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II O alcaide do castelo | era um pobr’ escudeiro que fora por sa soldada, | cuidand’ end’ algum dinheiro haver; mas, po-lo castelo | nom ficar assi senlheiro, ficou i a alcaidessa, | e que filhar foi per manha 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III d’ ir cada dia por água | mui longe, a ũa fonte que nacia em um vale | juso a pé desse monte, indo per um semedeiro. | É mui bem que vos eu conte como lh’ avo u ia, | pera filhardes façanha 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV de servirdes bem a Virgem, | que esta muito servia. E, quand’ encima da pena | foi, de que decer queria contra a fonte por água, | um tal vento a feria que a espenou de cima, | chamand’ a Virgem sem sanha 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 que lhe valvess’. E tantoste | foi sa oraçom oída: ca, pero caeu mui d’ alte, | nom foi morta nem ferida, mas ergeu-s’ e deu loores | aa Virgem mui comprida de bem. E este miragre | souberom per tod’ Espanha. 32 O que de Santa Maria | sa mercee bem gaanha, de tod’ ocajom o guarda, | já nom será tam estranha. 28 R5 * * * 394 Cantigas de Santa Maria 192 «Muitas vegadas o dem’ enganados» (E 192, E 397, T 192) Como Santa Maria livrou ũu mouro que era cativo em Consogra, do poder do demo, e fezeo tornar crischão. R0 2 4 I 6 8 10 12 14 16 R1 17-20 II 22 24 26 28 30 32 R2 33-36 III 38 40 42 44 46 48 R3 49-52 IV Muitas vegadas o dem’ enganados tem os homes, por que lhes faz creer muitas sandeces; e taes pecados desfaz a Virgem por seu gram saber. E desto contado vos será per mi miragr’ e mostrado quant’ end’ aprendi, fremos’ aficado, e bem ascuitado será, per meu grado, e dev’ a seer, que o muit’ honrado Deus, e acabado pola de que nado foi, quiso fazer. [Refrão = vv. 1-4] Em Consogr’ havia um bom hom’ atal que Santa Maria amava mais dal, e mui gram perfia por ela prendia sempre cada dia, com’ oí dizer, com um d’ Almaria mouro, que dizia que rem nom valia o seu gram poder. [Refrão = vv. 1-4] Aqueste mour’ era daquel hom’, e seu cativo, e ferament’ era encreu; e já o quisera de grad’ e fezera crischão e dera-lhe do seu haver. Mais n[u]n[ca] podera (macar lho dissera) com el, ca tevera sempr’ em descreer [Refrão = vv. 1-4] ena groriosa, 395 54 56 58 60 62 64 R4 65-68 V 70 72 74 76 78 80 R5 81-84 VI 86 88 90 92 94 96 R6 97-100 VII 102 104 106 108 110 112 R7 113-116 VIII 118 e a razõar mal e soberviosament’ e desdenhar que er’ enganosa muit’ e mentirosa sa fé e dultosa e sem prol ter; e tal revoltosa cous’ e embargosa e d’ oir nojosa nom é de caber. [Refrão = vv. 1-4] O hom’ entendudo foi e de bom sém e apercebudo de guardar mui bem o mouro barvudo, fals’ e descreúdo; e, come sisudo, o mandou meter em logar sabudo d’ aljub’ ascondudo, e dentr’ estendudo o fezo jazer. [Refrão = vv. 1-4] El ali jazendo, o demo chegou, e logo correndo em ele travou; mais [se] defendendo o mour’ e tremendo muit’ e contendendo, lh’ o dedo colher na boc’ e gemendo e fort’ estrengendo tod’ e desfazendo, lho fezo perder. [Refrão = vv. 1-4] Daquesta maneira duas noites fez; mais aa terceira a senhor de prez, a mui verdadeira e Virgem enteira, come lumeira se lhe fez veer, e deu-lhe carreira per que na fogueira d’ inferno, que cheira, nom podess’ arder. [Refrão = vv. 1-4] E disse: “– Pagão, se queres guarir, do demo, de chão, 396 120 122 124 126 128 R8 129-132 IX 134 136 138 140 142 144 R9 145-148 X 150 152 154 156 158 160 R10 161-164 XI 166 168 170 172 174 176 R11 177-180 XII 182 184 t’ hás a departir e do falso, vão, mui louco, vilão Mafomete cam (o que te nom valer pode), e crischão te faz e irmão nosso, e loução sei e sem temer”. [Refrão = vv. 1-4] Poi-lo castigara, el lhe respondeu que, em quant’ andara, todo faleceu, e que mal mercara de que nom filhara batism’, e errara em seu conhocer por quanto viltara a fii tam cara. “– Mais manhãa crara querrei receber [Refrão = vv. 1-4] a fé dos romãos; ca conhosco bem” –diss’ el– “que pagãos andam com mal sém a guisa de vãos, ca nom som certãos d’ a lei dos crischãos per rem manter, nem come louçãos, mais com antivãos contra Meca mãos punham de tender”. [Refrão = vv. 1-4] Quando foi manhãa, dali o sacou seu dono; e chãa-mente lhe contou que viu da louçãa Virgem, que nos sãa e nos da maçãa fez perdom haver: “– Porend’ a crischãa, comprida, certãa lee, e nom vãa, quero manter”. [Refrão = vv. 1-4] Sa razom fĩída, fez-lo batizar seu don’, e comprida-ment’ e muit’ honrar. E de bõa vida 397 186 188 190 192 R12 194 196 foi pois, e servida del a que convida nós a gram prazer de dar, sem falida, qual nom foi oída d’ havermos, guarida, sem nunca morrer. Muitas vegadas o dem’ enganados tem os homes, por que lhes faz creer muitas sandeces; e taes pecados desfaz a Virgem por seu gram saber. * * * 398 Cantigas de Santa Maria 193 «Sobe-los fondos do mar e [e]nas alturas da terra» (E 193, T 193) Como Santa Maria guardou de morte um mercador que deitarom no mar por lhe filharem seu haver. R0 2 I 4 6 Sobe-los fondos do mar e | [e]nas alturas da terra há poder Santa Maria, | madre do que tod’ enserra. E daquest’ um gram miragre | vos direi e verdadeiro, que fezo Santa Maria, | madre do rei josticeiro, quand’ o rei Loís de França | a Túnez passou primeiro com gram gente, per navio, | por fazer a mouros guerra. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em ũa nave da hoste, | u gram gente maa ia, um mercador i andava | que mui grand’ haver tragia; e, porque soo entrara | entr’ aquela companhia, pensarom que o matassem | pera despender na guerra 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III o haver que el levava. | E tal conselho preserom: que eno mar o deitassem; | e um canto lhe poserom odeito aa garganta, | e dentro com ele derom. Mais acorreu-lh’ [i] a Virgem, | que nunca errou nem erra, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que, ali u o deitarom, | tantost’ ela foi chegada e guardou-o de tal guisa | que sol nom lh’ i noziu nada o mar nem chegou a ele: | esto foi cousa provada; ca o que em ela fia, | em sa mercee nom erra. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, ele ali jazendo | u [o] a Virgem guardava, a cabo de tercer dia | outra nav’ i aportava; e um home parou mentes | da nav’ e viu com’ estava aquel home so a água, | e diz: “– Mal haja tal guerra 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI u assi os homes matam | em com’ a este matarom”. E dando mui grandes vozes, | os da nave s’ i juntarom, e mostrou-lhes aquel home; | e logo por el entrarom e sacaro-no ém vivo, | em paz e sem outra guerra. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, pois o hom’ a cabeça | houve da água bem fora, catou logo os da nave | e falou-lhes essa hora e disse-lhes: “– Ai amigos, | tirade-me sem demora 40 399 42 daqui u me deitou gente | maa, que ameúd’ erra”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quand’ o os da nav’ oírom | falar, espanto prenderom, ca tĩíam que mort’ era; | mais, poi-lo bem conhocerom e lhes el houve contado | como o no mar meterom, disserom: “– Mal haj’ a gente | que contra Deus tam muit’ erra”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E depois lhes ar contava | como sempre as vigias el jajũava da Virgem | e guardava os seus dias; e porend’ o guardou ela | e feze-lhe no mar vias que o nom tangess’ a água | e lhe nom fezesse guerra. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X “– E porque entendeu ela | que prendera eu engano, log’ entre mi e as águas | pôs com’ em guisa de pano branco, que me guardou sempre, | per que nom recebi dano; porém por servir a ela | seerei em esta guerra”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Quando os da nav’ oírom | esto, mui grandes loores derom a Santa Maria, | que é senhor das senhores; e, pois forom eno porto, | acharom os traedores, e fezerom justiçá-los | como quem atám muit’ erra. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Poi-la jostiça fezerom, | o mercader entregado foi de quanto lhe filharam | quando foi no mar deitado. E el dali adeante | sempre serviu [mui] de grado a Virgem Santa Maria | sem faliment’ e sem erra. 74 Sobe-los fondos do mar e | [e]nas alturas da terra há poder Santa Maria, | madre do que tod’ enserra. 70 R12 * * * 400 Cantigas de Santa Maria 194 «Como o nome da Virgem é aos bõos fremoso» (E 194, T 194) Como Santa Maria livrou um jograr, que enmentou o seu nome, dũus que o queriam matar e lhe queriam filhar o que tragia. R0 2 I 4 6 Como o nome da Virgem | é aos bõos fremoso, assi é contra os maos | mui fort’ e mui temeroso. Dest’ avo um miragre | em terra de Catalonha dum jograr que bem cantava | e apost’ e sem vergonha; e, andando pelas cortes, | fazendo bem sa besonha, a casa dum cavaleiro | foi pousar cobiiçoso, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II que lhe deu aquela noite | bem quanto mester havia. Mais da besta e dos panos | que aquel jograr tragia, aquel cuteif’ avarento | tal cobiça lh’ ém crecia que mandou a um seu home, | mao e mui sobervioso, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que lhe tevess’ a carreira, | com outro de sa companha, em um logar encuberto | dentr’ em algũa montanha. E esto fez el de grado, | ca xo havia por manha, ca em fazer maos feitos | nom vos era vagaroso; 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e dessa natura m[e]sma | levou sig’ um companheiro. E o jograr espediu-se | manhãa do cavaleiro; e, des que foi no caminho | e o virom ir senlheiro, aqueles dous o prenderom | em um logar mui fragoso, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e logo daquel caminho | mui longe o alongarom, e, do que sigo tragia, | nulha rem nom lhe leixarom; des i, que o degolassem | ontre si o acordarom; mais no-no sofreu a Virgem | nem seu filho grorioso. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, estando em perfia | de qual deles o matasse, deitarom ontre si sortes | quem primeiro começasse; mas nom quis Santa Maria | que tal feito s’ encimasse, ca el diss’ a grandes vozes: | “– Madre do rei piadoso, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e val-m’ e, que me nom matem, | me defende sem demora!”. Eles, quand’ aquest’ oírom, | tirarom-se log’ afora, e os sentidos perderom | dos corpos em essa hora, 40 401 42 que sol falar nom poderom. | E o jograr perdidoso R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII de quanto ali trouxera, | pois viu que assi estavam catando-se_ũu com outro | e [ar] que nom se falavam, filhou todo o seu logo | e foi-s’; e eles ficavam com mui gram pavor de morte. | Feito tam maravilhoso 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX se foi nunca nium home | que dele falar oísse!: que, por ementar o nome | da Virgem, rem nom sentisse home do corpo! Mais esto | ant’ a profeta o disse: que come azes paradas | era seu nom’ espantoso. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 O jograr se foi sa via, | dando mui grandes loores aa Virgem groriosa, | acorro dos pecadores. E quantos aquesto_oírom, | os grandes e os mores, teverom este miragre | por nobr’ e por piadoso. 62 Como o nome da Virgem | é aos bõos fremoso, assi é contra os maos | mui fort’ e mui temeroso. 58 R10 * * * 402 Cantigas de Santa Maria 195 «Que-na festa e o dia» (E 195, T 195) Como Santa Maria fez que honrassem o cavaleiro que morreu no torneamento, porque guardou a sa festa. R0 2 4 I 5 7 9 11 Que-na festa e o dia da mui groriosa quiser guardar, todavia ser-lh’-á piadosa. E desto contado per mi mui de grado será e mostrado (que a que nos guia, a mui preciosa, fez) miragre sinaado, come poderosa, R1 12-15 [Refrão = vv. 1-4] II dum bom cavaleiro d’ armas, que senlheiro com seu escudeiro a um tornei ia, e viu mui fremosa meninha em um terreiro e muit’ amorosa. 16 18 20 22 R2 23-26 [Refrão = vv. 1-4] III El nunca quisera casar, mas mui feramente garçom era; porém lhe fazia sa luxuriosa voontade (que houvera sempr’ e boliçosa) 27 29 31 33 R3 34-37 [Refrão = vv. 1-4] IV que a cobiçasse e a demandasse e sigo levasse, e que haveria noite mui viçosa se com ela albergasse, e mui saborosa. 38 40 42 44 R4 45-48 [Refrão = vv. 1-4] V A seu padr’ aginha mandou da meninha, dessa fremosinha, que el lhe daria per que menguadosa nunca fosse nem mesquinha, 49 51 53 403 55 mais sempr’ avondosa. R5 56-59 [Refrão = vv. 1-4] VI E el, com pobreza, por gãar requeza fez grand’ avoleza: disse que querria; e mui vergonhosamente lha deu com vileza, ca nom por esposa. 60 62 64 66 R6 67-70 [Refrão = vv. 1-4] VII 71 Pois lha outorgada houve e levada dentr’ a sa pousada, ela se changia, dizend’: “– Ai coitosa!: nunca mais serei chamada virgem homildosa”. 73 75 77 R7 78-81 [Refrão = vv. 1-4] VIII 82 U ela chorava, el lhe demandava como se chamava. Diss’ ela: “– Maria, a malavegosa, que em quant’ eu receava caí com’ astrosa; 84 86 88 R8 89-92 [Refrão = vv. 1-4] IX ca sempr’ eu guardara, pois sábad’ entrara, sa noit’, e punhara de ter vigia po-la desejosa vida gãar, que achara certa, nom dultosa”. 93 95 97 99 R9 100-103 [Refrão = vv. 1-4] X Quand’ el est’ oído houve, esmarrido foi e mui partido do que cometia; e ant’ a chorosa se conhoceu por falido, pois religiosa 104 106 108 110 R10 111-114 [Refrão = vv. 1-4] XI era bem na mente. Porém mantenente a um seu sergente diz: “– Aa ’badia que é em Tolosa mi leva, de Sam Clemente, esta querelosa; 115 117 119 121 404 R11 122-125 [Refrão = vv. 1-4] XII 126 e di log’ a essa que é abadessa, que nunca condessa sigo colheria que mais proveitosa lhe seja, ca, mià promessa, nom é revoltosa”. 128 130 132 R12 133-136 [Refrão = vv. 1-4] XIII 137 Ei-la no convento, e el, nom com cento, no torneamento, u morte prendia mui perigoosa; e i houv’ enterramento na praça ervosa. 139 141 143 R13 144-147 [Refrão = vv. 1-4] XIV 148 O convent’ estando a el esperando muit’ e preguntando quando chegaria; mais [j]á mui queixosa a moça foi por el quando houve sospeitosa 150 152 154 R14 155-158 [Refrão = vv. 1-4] XV 159 sa vida, e forte temeu del sa morte. Mas deu-lh’ ém conorte de noit’, u durmia, a mui graciosa, dizendo: “– Daquel sa sorte nom é temerosa, 161 163 165 R15 166-169 [Refrão = vv. 1-4] XVI 170 ca já é na vida santa e comprida; mas tu, sem falida, mià messageria faz com’ aguçosa aa ’badessa, que ida faça mui trigosa 172 174 176 R16 177-180 [Refrão = vv. 1-4] XVII 181 ali u lidarom, ca bem i matarom e ar enterrarom aquel que t’ havia por muit’ enganosamente, e a el tirarom daquest’ amargosa 183 185 187 R17 188-191 [Refrão = vv. 1-4] 405 XVIII 192 194 196 198 vida e deserta; de que será certa quando vir abertamente que nascia ũa deleitosa rosa; porém sem referta vaa i goiosa”. R18 199-202 [Refrão = vv. 1-4] XIX 203 A moça, que sage foi, aquel viage fez com’ é usage: foi quant’ ir podia aa mui briosa abadess’, e seu message contou mederosa- 205 207 209 R19 210-213 [Refrão = vv. 1-4] XX 214 ment’; e ela disse: “– Nom foi quem oísse nunca, ne-no visse, est’!; e eu sandia e mui revatosa seria se i saísse por ti, mentirosa”. 216 218 220 R20 221-224 [Refrão = vv. 1-4] XXI 225 A moç’ esperduda se foi, e viúda a Virgem sanhuda houve que dizia: “– Torn’ à orgulhosa abadessa atrevuda e mui desdenhosa, 227 229 231 R21 232-235 [Refrão = vv. 1-4] XXII 236 e dá-lhe sinaes de pecados taes que fez mui mortaes, per que ir devia aa espantosa perdiçom, porque fez maes come vil lixosa”. 238 240 242 R22 243-246 [Refrão = vv. 1-4] XXIII 247 A moça mui quedo lho diss’ e com medo. E a dona cedo meteu-se na via muit’ apressurosament’, e nom guardou degredo, e foi afanosa 249 251 253 R23 254-257 XXIV 258 [Refrão = vv. 1-4] em dessoterrá-lo e dali levá-lo 406 260 262 264 e depois deitá-lo como merecia; ca maravilhosa vertude fez em mostrá-lo a mui vertuosa. R24 265-268 [Refrão = vv. 1-4] XXV 269 Dali adeante foi mui bem andante a moça, que ante muito mal sofria da mui despeitosa abadessa, de talante brava e sanhosa. 271 273 275 R25 277 279 Que-na festa e o dia da mui groriosa quiser guardar, todavia ser-lh’-á piadosa. * * * 407 Cantigas de Santa Maria 196 «Sempre punhou muit’ a Virgem per u fosse conhoçuda» (E 196) Como Santa Maria converteu um gentil que lhe queria gram mal e fezera ũa forma pera deitar ũa imagem do ídolo, que adorasse, e saiu-lhe ũa imagem de Santa Maria com seu filho em braços. R0 2 I 4 6 Sempre punhou muit’ a Virgem | per u fosse conhoçuda dos que a nom conhociam, | e sa bondade sabuda. E desto vos contar quero | um miragre mui fremoso que mostrou Santa Maria | por um gentil perfioso que ídolos aorava, | e o nome grorioso dela oir nom queria: | tanto lh’ era_avorreçuda. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ne-no feito de seu filho, | per rem, creer nom queria, e, se deles lhe falava | alguém, log’ end’ el fugia; e porém vos direi ora | o que lh’ avo um dia, per que pois sa voontade | foi na Virgem concebuda. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El morava em Besanço | (que agora é chamada «Costantinopla», a grande), | que de Costantim pobrada foi; mais ant’ em aquel tempo | a nossa fé começada era, e ant’ os gentiis | a guardavam asconduda- 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV mente. E porend’ aqueste | que vos díxi da primeira, sacerdote dos gentiis, | queria de gram maneira compõer ũa omagem | d’ ídolo, que de certeira cousa lhe désse resposta | faland’, e nom fosse muda. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V El fezera já as formas, | de que se muito pagava, e, pois forom bem caentes, | o metal dentr’ adeitava; mais nom achou i omagem | na forma que el cuidava, ca, par Deus, melhor fegura | lhe foi i apareçuda: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI ca, u el achar cuidava | um demo que aorasse e que lhe resposta désse | de quanto lh’ el preguntasse, achou dona com seu filho, | bem como se o criasse tendo-lh’ a teta ’m boca. | E, pois dele [foi] veúda, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII maravilhou-s’ ende muito | e ficou tam espantado que a todo-los seus templos | foi ém demandar recado 40 408 42 se tal omagem sabiam | dalgum deus, ou fegurado era ou dalgũa gente | aorada e creúda. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Mas, pois que desto recado | nom achou enos pagãos, foi-se logo mui correndo | a preguntar os crischãos se tal fegura haviam. | Disserom: “– Somos certãos que tal omagem da Virgem | é, que Deus houv’ esleúda 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX por sa madre”. E tantoste | o meterom na eigreja; e, pois el viu a omagem | daquela que sempre seja beita, disse: “– Convosco | hoimais nom quero peleja, ca tal com’ esta aquela | é que m’ houv’ apareçuda”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X [E], pois aquesto lhes disse, | fezo-se logo crischão, e o templo que guardava | derribou todo, de chão, e quebrantou as [o]mages, | ca nom quis usar em vão sa vida; e [a] sa morte | foi-lh’ a alma recebuda 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 eno paraíso santo, | u estám todo-los santos a Nostro Senhor loando | com mui saborosos cantos. Esto fez a Virgem madre, | que faz de miragres quantos home contar nom podia, | ca sempre em bem estuda. 68 Sempre punhou muit’ a Virgem | per u fosse conhoçuda dos que a nom conhociam, | e sa bondade sabuda. 64 R11 * * * 409 Cantigas de Santa Maria 197 «Comoquer que gram poder» (E 197) Como Santa Maria de Terena ressocitou um meninho porcariço a que matara o demo. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Comoquer que gram poder há o dem’ em fazer mal, maiô-l’ há em bem fazer a reinha ’spirital. Ca se el algum poder há | [de] nos homees matar pelos pecados que fazem, | e o quer Deus endurar, mui maior poder sa Madre | há e-nos ressucitar; e porend’ um gram miragre | vos direi de razom tal. [Refrão = vv. 1-4] Em um logar que Os Combre[s] | chamad’ é, que preto jaz de Xerez de Badalhouço, | houv’ i um home de paz mui rico, que seus gãados | havia e pam assaz; e est’ um seu filh’ havia | que amava mui mais dal. [Refrão = vv. 1-4] E, porque aquel seu filho | amava mais doutra rem, mandou-lhe que seus gãados | filhasse_e guardasse bem; e, com despeito daquest’, o | filhou o demo porém; mais dest’ a madr’ e o padre | haviam coita mortal. [Refrão = vv. 1-4] Ca tam forte o filhava | o demo, com’ aprendi, cinc’ ou seis vezes no dia, | ou sete, per com’ oí; mais ũa vez atám forte | o filhou que bem ali u estava afogou-o, | e morreu, u nom houv’ al. [Refrão = vv. 1-4] Mas seu padr’ e seus parentes | fezerom doo entom por el mui grand’ e mui fero, | chorando de coraçom. E um seu irmão disse: | “– Oíde-m’ ũa razom, ca tenho que o terredes | por conselho mui leal: [Refrão = vv. 1-4] meu irmão prometera | por em romaria ir a Terena, mais nom quiso | Deus que o fosse comprir; mais eu, porque ele seja | perdõado, sem falir, irei alá de bom grado | e farei este jornal; [Refrão = vv. 1-4] mais ficad’ ant’ os golhos | e a[a] madre de Deus rogade que lhe perdõe | todo-los pecados seus, 410 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 82 84 e eu promet’ a sa obra | dez daquestes porcos meus, em tal que por ele rogue | a senhor que pod’ e val”. [Refrão = vv. 1-4] Por rogo da Virgem madre | Deus sa oraçom oiu, e o que jazia morto | atantoste resurgiu, e des ali adeante | daquel mal rem nom sentiu; esto fez Santa Maria, | que aas coitas nom fal. [Refrão = vv. 1-4] Outro dia madurgada | pera Terena filhou o caminh’, e seu irmão | nunca se dele quitou; e, pois foi ena eigreja, | aqueste feito contou todo como lh’ avera, | e seu dom derom i qual [Refrão = vv. 1-4] ante prometud’ haviam. | E porém todos loor derom a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor, porque resurgiu de morte | o que o demo maior matou, e desfez seu feito | como a água o sal. Comoquer que gram poder há o dem’ em fazer mal, maiô-l’ há em bem fazer a reinha ’spirital. * * * 411 Cantigas de Santa Maria 198 «Muitas vezes volv’ o demo as gentes por seus pecados» (E 198) Esta é como Santa Maria fez fazer paz e que se perdõassem ũus homees que se queriam matar ũus com outros ant’ a sa eigreja em Terena. R0 2 I 4 6 Muitas vezes volv’ o demo | as gentes por seus pecados, que nom quer Santa Maria, | pois lhe som acomendados. Dest’ avo em Terena | um miragre mui fremoso que mostrou Santa Maria, | e d’ oir mui saboroso; e, poi-lo oírem, creo | que por mui maravilhoso o terrám, e que metudo | dev’ a ser ontr’ os preçados. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Naquel logar s’ ajuntarom | d’ homees mui gram companha, que luitavam e faziam | gram festa, a for d’ Espanha; mais o demo, de mal cho, | meteu ontr’ eles tal sanha que por se matarem todos | forom mui corrend’ armados, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III e a lidar começarom, | ferindo-s’ a desmesura; [e] durou o mais da noite | aquesta malaventura, cuidando que se matavam; | mais a nobre Virgem pura nom quis, cujos romeus eram, | que mortos nem sol chagados 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV fossem da lid’ a sa casa, | mais em meogo dum chão, u lidarom bem des quando | começara o serão e u se matar cuidavam, | bem assi de cabo são fez que fossem ũus doutros | muit’ amigos e pagados. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, u andavam buscando | os mortos que soterrassem e os outros mal chagados, | de que bem pensar mandassem, nom quiso Santa Maria | que neũu tal achassem; mas perpontos e escudos | acharom muitos colpados, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI ca nom foi neũu deles | que nom tevesse ferida, mas sol nom tangeu em carne, | ca nom quis a mui comprida reinha Santa Maria; | ca ela nunca obrida de valer aos que ama | nem aos que som cuitados. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Porend’ aqueste miragre | por mui grande o teverom todos quanto-lo oírom, | e porende graças derom grandes a Santa Maria; | e, pois sa festa fezerom, derom i de seus dinheiros, | e, deles, de seus gãados. 40 42 R7 44 Muitas vezes volv’ o demo | as gentes por seus pecados, que nom quer Santa Maria, | pois lhe som acomendados. * * * 412 Cantigas de Santa Maria 199 «Com’ é o mund’ avondado de maes e d’ ocajões» (E 199) Como um peliteiro que nom guardava as festas de Santa Maria, começou a lavrar no seu dia de março, e travessou-se-lhe a agulha na garganta que a nom podia deitar, e foi a Santa Maria de Terena e foi logo guarido. R0 2 I 4 6 Com’ é o mund’ avondado | de maes e d’ ocajões, assi é Santa Maria | de graças e de perdões. Ca, se Deus sofr’ ao demo | que polos nossos pecados nos dé coitas e doores | e trabalhos e coidados, logo quer que por sa madre | sejam todos perdõados por creenças, por jajũus, | por rogos, por orações. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Porém direi um miragre | que fez por um peliteiro que morava na fronteira | em um castelo guerreiro que Burgos éste chamado, | e, demais, está fronteiro de Xerez de Badalhouce, | u soem andar ladrões. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E em aqueste castelo | o peliteiro morava, que da madre de Deus santa | nunca as festas guardava; e pola festa de março, | u el sas peles lavrava, e do mal que lh’ end’ avo, | por Deus, oíde, varões. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca, u meteu a agulha | na boc’, e enderençando as peles pera lavrá-las, | nom catou al senom quando a trociu, e na garganta | se lhe foi atravessando; ca os que o demo servem | ham del taes galardões. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E daquesta guisa seve | muitos dias, que deitá-la per nulha rem nom podia | nem outrossi traspassá-la; demais, inchou-lh’ a garganta | assi que perdeu a fala, e tornou-lh’ o rosto negro | muito mais que os carvões. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, pois el parou [i] mentes | e viu que assi morria, e física que fezesse | nulha prol nom lhe fazia, mandou-se levar tantoste | dereit’ a Santa Maria de Terena, prometendo- | -lhe sas ofertas e dões. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, quando foi na eigreja, | ant’ o altar o deitarom, e log’ a Santa Maria | muito por ele rogarom; e el chorand’ e gemendo | dormeceu, e nom catarom 40 413 42 senom quando lh’ a agulha | saiu sem grandes mixões R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que fezesse por sacá-la; | ca, u jazia dormindo, a Virgem mui groriosa | lha fez deitar, e tossindo, envolta em ũa peça | de carn’. E, esto oindo, as gentes que i estavam | derom grandes beições 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 aa beita reinha, | que em ceo e em terra acorre aos coitados | e perdõa a quem lh’ erra, e, pera haver mercee, | nuncas a sa porta serra, e que os guarda do dem’ e | de sas maas tentações. 56 Com’ é o mund’ avondado | de maes e d’ ocajões, assi é Santa Maria | de graças e de perdões. 52 R9 * * * 414 Cantigas de Santa Maria 200 «Santa Maria loei» (E 200, T -) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Ca, ontr’ os que hoje nados som d’ homees muit’ honrados, a mi há ela mostrados mais bes, que contarei. 8 Santa Maria loei e loo e loarei. 4 R1 II 12 Ca a mi de bõa gente fez vĩir dereitamente, e quis que mui chãamente reinass’ e que fosse rei. 14 Santa Maria loei e loo e loarei. 10 R2 III 18 E, co-nas sas piadades, nas grandes enfermidades m’ acorreu; por que sabiades que porém a servirei. 20 Santa Maria loei e loo e loarei. 16 R3 IV 24 E, dos que me mal queriam e buscavam e ordiam, deu-lhes o que mereciam, assi como provarei. 26 Santa Maria loei e loo e loarei. 22 R4 V 30 A mi de grandes pobrezas sacou, e deu-me requezas, por que sas grandes nobrezas, quantas mais podér, direi. 32 Santa Maria loei e loo e loarei. 28 R5 VI 34 36 R6 Santa Maria loei e loo e loarei. Ca mi fez de bõa terra senhor, e em toda guerra m’ ajudou a que nom erra, nem errou u a chamei. Santa Maria loei 415 38 VII 42 A mi livrou d’ oqueijões, de mortes e de lijões; por que sabiades, varões, que por ela morrerei. 44 Santa Maria loei e loo e loarei. 40 R7 VIII 48 Porém todos m’ ajudade a rogar de voontade que com sa gram piadade mi_acorra, que mester hei. 50 Santa Maria loei e loo e loarei. 46 R8 IX 54 E, quando quiser que seja, que me quite de peleja daquest mund’ e que veja a ela, que sempr’ amei. 56 Santa Maria loei e loo e loarei. 52 R9 e loo e loarei. * * * 416 Cantigas de Santa Maria 201 «Muit’ é mais a piadade de Santa Maria» (E 201, F [2]) de. Esta é como Santa Maria livrou de morte ũa donzela que prometera de guardar sa virgĩidaR0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muit’ é mais a piadade | de Santa Maria que quantos pecados home | fazer poderia. E porém, meus amigos, | agora m’ ascuitade um fremoso miragre, | com’ aprix em verdade, que fez Santa Maria, | de mui gram piadade, que sempre por nós roga | a Deus a noit’ e dia. [Refrão = vv. 1-2] E aqueste miragre | fez por ũa donzela que era de gram guisa, | e aposta e bela, e que lhe prometera | de seer sa ancela e de guardar seu corpo | bem de toda folia. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Assi o fez gram tempo. | Mas o diabr’ antigo, que de virgĩidade | é sempre emigo, a tentou em tal guisa | que lhe fez por amigo filhar um seu padrinho, | com que fez drudaria, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV de guisa que foi prenhe | por sa malaventura e houve del um filho, | mui bela creatura; e, pois que o viu nado, | creceu-lh’ ém tal tristura que o matou mui toste | como molher sandia. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Pois que o houve morto, | nom soub’ haver recado de partir-se do feito, | mas tornou no pecado, e ar fez outro filho; | e, logo que foi nado, mato’-o; ar fez outro, | que pôs per esta via. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois seus três filhos houve | mortos a malfadada per conselho do demo, | foi bem desasperada que, per rem que fezesse, | nunca já perdõada de Deus nem de sa madre | seer nom poderia. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E creceu-lh’ ém tal coita | que houve tal despeito de si que dum cuitelo | se feriu eno peito; e nom morreu do colbe, | ca nom foi a dereito, pero caeu em terra, | ca mui mal lhe doía. 40 42 417 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, que morress’ aginha, | fez cousa muit’ estranha: ergeu-se mui correndo | e prês ũa aranha e comeu-a tantoste; | mas nom era tamanha nem tam empoçõada | em com’ ela querria. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, pois viu que por esto | já morte nom presera, foi comer outra, grande, | empoçõad’ e fera, com que inchou tam muito | que a morrer houvera. E, jazend’ em tal coita, | muito se repentia 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X do mal que feit’ houvera; | e diss’: “– Ai groriosa, nom cates com’ eu sõo | pecador e astrosa, nem sofras que me perça, | mas sei-me piadosa e guarda-me do demo | e da sa gram perfia”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Entom a Virgem santa | lh’ apareceu, de chão, e polo corpo todo | foi-lhe tragend’ a mão, e tornou-lho tam fresco, | tam fremos’ e tam são como nunca mais fora, | e assi a guaria, 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII dizend’: “– E nom te nembra | que prometud’ houveste de ter castidade?; | mas pois no-na teveste; mas se te bem partires | deste mal que fezeste, perdõar-ch’-á meu filho, | ca eu t’ ajudaria”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 Quando lh’ est’ houve dito, | foi-se; e mui guarida ficou assi a dona, | e tantoste saída fez dali e prês ordem, | u acimou sa vida tam bem por que dos santos | foi em sa companhia. 80 Muit’ é mais a piadade | de Santa Maria que quantos pecados home | fazer poderia. 76 R13 * * * 418 Cantigas de Santa Maria 202 «Muito há Santa Maria, madre de Deus, gram sabor» (E 202, F [33]) Esta é como um clérigo arcediago em Paris fazia ũa prosa a Santa Maria e nom podia achar ũa rima, e foi rogar a Santa Maria que o ajudasse i, e acho’-a logo, e se enclinou a omagem ante ele e disse-lhe ‘Muitas graças’ porém. R0 2 I 4 6 R1 Muito há Santa Maria, | madre de Deus, gram sabor d’ ajudar quem lhe cantares | ou prosas faz de loor. E daquesto um miragre | oí, pouc’ há, retraer que a um arcidiago | avo, que gram prazer havia em fazer prosas | de sa loor e dizer sa bondad’ e sa mesura | e seu prez e sa valor. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 El a prosa fazia | que era feita mui bem se nom fosse a rima | soa que minguava ém; e achar no-na podia, | e cuidava que, per rem, per el já nom s’ acharia, | nem per outro sabedor. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 El já por desasperado | de s’ aquela rim’ achar per home daqueste mundo, | foi-s’ entom a um altar da Virgem Santa Maria | e começou-lh’ a rogar de s’ acabar esta prosa | que lhe foss’ ajudador. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Ca ela era bem feita | de sa loor e de Deus e de com’ a Tridade | entendessem os encreus; e el dar nom lhe podia | neum cabo, mas os seus golhos ficou que ela | foss’ end’ [a] acabador. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Estand’ el assi em prezes, | vo-lhe a coraçom a rima que lhe minguava, | que era de tal razom em latim e que mostrava: | “Nobile triclinium”. E nom havia palavra | que i fezesse melhor R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 esta rima que vos digo; | e que quer dizer assi: “Nobre casa de morada, | três moradas há em ti: Deus Padre e o seu Filho | e o Sant’ Espírit’ i verom morar, sem falha, | por nos fazerem amor”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Pois houv’ a pros’ acabada, | Santa Maria loou, que lha tam bem acabara, | e com gram prazer chorou. 419 42 Mais a cabo da peça | a omage s’ enclinou dela e mui passo disse: | “– Muitas graças, meu senhor”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Este miragre que Santa | Maria demostrar quis, conteceu, nom há gram tempo, | na cidade de Paris; e veredes a omagem, | por seerdes ém mais fis, hojedia enclinada | estar dentr’ em Sam Vitor. 50 Muito há Santa Maria, | madre de Deus, gram sabor d’ ajudar quem lhe cantares | ou prosas faz de loor. 46 R8 * * * 420 Cantigas de Santa Maria 203 «Quem polo amor de Santa Maria, do seu, fezer» (E 203) Como Santa Maria acrecentou a farinha a ũa bõa molher porque a dava de grado por seu amor. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem polo amor de Santa | Maria, do seu, fezer algum bem, dar-vo-lh’-á ela | que dé, se o nom tever. Por esto dev’ home sempre | a servir e a guardar a Virgem Santa Maria | e no seu bem confiar; ca vos direi um miragre | que quis, pouc’ i há, mostrar a ũa sua amiga, | que era santa molher. [Refrão = vv. 1-2] E[m] servir Deus e os santos | havia mui gram sabor, e seu tempo despendia | em servir Nostro Senhor; e, se lh’ os pobres pediam | esmolna polo amor da Virgem Santa Maria, | logo lhes dava quequer R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que tevesse em sa casa. | Um dia estand’ assi, muitos pobres vergonhosos | pedir verom ali, e deu-lhes ũa grand’ arca | de farinha cha i; disserom: “– Santa Maria | vos dé bem, se lh’ aprouguer”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV A cabo dũa gram peça | outra companha chegou de pobres, e houve doo | deles grande, e chamou ante si ũa sa filha | e disso: “– Se i ficou jaquê pouca de farinha, | dade-lh’ a que i houver”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 A filha entom lhe disso: | “– Com mià mão varri já a arca”. E diss’ a madre: | “– Ar ide pero alá”. E foi e achou-a cha | de farinha bem atá na cima, e deu-lhes dela | quanto lhes houve mester. 32 Quem polo amor de Santa | Maria, do seu, fezer algum bem, dar-vo-lh’-á ela | que dé, se o nom tever. 28 R5 * * * 421 Cantigas de Santa Maria 204 «Aquel que a Virgem Santa Maria quiser servir» (E 204, F [32]) Esta é como Santa Maria guareceu um frade, arcediago, de grand’ enfermidade que havia, por rogo de Sam Domingo. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Aquel que a Virgem Santa | Maria quiser servir, quand’ houver coita de morte, | be-no pod’ ela guarir. Daquesto a Sam Domingo | um miragre conteceu. El um bom arcediago | em sa ordem recebeu, que era mui leterado, | e por aquest’ entendeu que podia em começo | per ele mui mais comprir. [Refrão = vv. 1-2] El daquel arcediago | havia mui gram sabor, ca com ele preegava | o bem de Nostro Senhor; e, andando preegando, | vo-lhe mui gram door, de guisa que nom podia, | per rem, folgar nem dormir; R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III e era tam mui coitado | que nom havia em si nem sol um sinal de vida; | e os físicos dali diziam que poderia | daquela guarir assi como poderia morto | de so terra resorgir. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El jazend’ assi por morto, | Santo Domingo rogou a Virgem Santa Maria, | que se logo demostrou ao enferm’ u jazia, | e mui be-no confortou, e o doente mercee | começou-lhe de pedir. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Pos ela virges muitas | entrarom e a dizer se filharom orações | e per seus livros leer, e, des i, ar começarom | elas de mui gram lezer a cabeça e o corpo | e os pees a ongir. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI A cabeça log’ ungirom | por lhe Deus i siso dar, e o corpo por já sempre | de forniço se quitar, e os pees por com eles | ir no mundo preegar e que fezesse as gentes | que erravam repentir. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Sam Doming’ em outra casa | jazia, e viu mui bem com’ entrou Santa Maria, | e muito lhe per-proug’ ém, 40 422 42 e viu o enferm’ ongido, | e deu-lhe graças porém e disso: “– Ai groriosa, | quem te poderá gracir R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII tantos bes que tu fazes | aos que o mester ham, e ar qu[a]m bem [que] tu oes | aos que te rogar vam, e de como ced’ acorres | os que em coita estám!, e, demais, nas tas mercees | nunca pod’ home falir”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 Pois que foi mui bem ongido, | Santa Maria saiu-se dali com sas virges | e aos ceos sobiu, e log’ o arcediago | a essa hora guariu. Por esto, de seu serviço | nom se dev’ hom’ a partir. 56 Aquel que a Virgem Santa | Maria quiser servir, quand’ houver coita de morte, | be-no pod’ ela guarir. 52 R9 * * * 423 Cantigas de Santa Maria 205 «Oraçom com piadade oe a Virgem de grado» (E 205, F [5]) Esta é como Santa Maria quis guardar ũa moura que tĩía seu filho em braços u siía em ũa torre ontre duas amas, e caeu a torre, e nom morreu, nem seu filho, nem lhes empeeceu rem, e esto foi per oraçom dos crischãos. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Oraçom com piadade | oe a Virgem de grado, e guard’ há de mal por ela | o que lh’ é encomendado. Ca aquestas duas cousas | fazem mui compridamente gaanhar amor e graça | dela, se devotamente se fazem e como devem; | e assi abertamente parece a sa vertude | sobre tod’ home coitado. [Refrão = vv. 1-2] E sobr’ aquest’ um miragre | vos rogo que m’ [i] ouçades que fezo Santa Maria; | e, se i mentes parades, oiredes maravilha | mui grand’, e certos sejades que per oraçom mostrada | foi ante muit’ hom’ honrado. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Na fronteira um castelo | de mouros mui fort’ havia, que combaterom crischãos | que saíam d’ açaria d’ Ucrês e de Calatrava | com muita cavalaria; e era i Dom Afonso | Têlez, ricome preçado, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que tragia gram companha | de mui bõos cavaleiros, ardidos e arrizados, | e, demais, bõos guerreiros e almogávares muitos, | peões e baesteiros, per que o castelo todo | muit’ aginha foi entrado. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V O castelo fortemente | foi derredor combatudo, e os muros desfezerom, | ond’ em gram medo metudo foi o poblo que dentr’ era; | e, pois que se viu vençudo, colheu-se a ũa torre | mui fort’. E de cada lado 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI na torre meterom cavas, | e fogo po-la queimarem; e os mouros que dentr’ eram, | por se melhor a[m]pararem do fogo, ontr’ as amas | punhavam de se deitarem; e assi morrerom muitos | daquel poblo malfadado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Com esta coita tam grande | do f[um]o, que os cegava, e, doutra parte, do fogo, | que os mui forte queimava, 40 424 42 ũa moura com seu filho, | que mui mais ca si amava, sobiu-se com el encima, | que lhe nom foss’ afogado. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E ontre duas amas | se foi sentar a mesquinha com seu filho pequeninho, | que em seus braços tĩinha; e, pero que mui gram fogo | de todas partes viinha, a moura nom foi queimada, | nem seu filho chamuscado. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O maestre Dom Gonçalvo | Eanes de Calatrava, que em servir Deus em mouros | guerrejar se trabalhava e porend’ aquela torre | muito combater mandava, e outrossi Dom Alfonso | Têlez, de que hei falado, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e quan[t]o[s] virom a torre | que era toda cav[a]da, e virom ontr’ as amas | aquela moura sentada, semelhou-lhes a omagem | de com’ está fegurada a Virgem Santa Maria, | que tem seu filh’ abraçado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E houverom piadade | eles e quantos crischãos a virom, e com gram doo | alçarom a Deus as mãos que os de morte guardasse, | pero que eram pagãos; e desto quis Deus que fosse | um gram miragre mostrado. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E daquela part’ a torre | u eles eram, tam passo se leixou vĩir a terra | sobr’ um gram chão devasso que neũu deles morto | nom foi, ferido nem lasso, ne-na madre ne-no filho; | mas pousou-os em um prado 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 a Virgem Santa Maria, | a que por ela rogavam os crischãos. Porém todos | muito se maravilhavam; a ela e a seu filho | mui grandes loores davam, e a moura foi crischãa | e seu filho batiçado. 80 Oraçom com piadade | oe a Virgem de grado, e guard’ há de mal por ela | o que lh’ é encomendado. 76 R13 * * * 425 Cantigas de Santa Maria 206 «Quem souber Santa Maria bem de coraçom amar» (E 206, F [54]) Esta é como o papa Leom cortou sa mão, porque era tentado d’ amor dũa molher que lha beijara, e pôs-lha Santa Maria e sãou. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem souber Santa Maria | bem de coraçom amar, pero o tent’ o diabo, | em bem xe lh’ há de tornar. E daquesto um miragre | conteu, nom há gram sazom, dum papa que houv’ em Roma, | que nom’ havia Leom, a que punhou o diabo | de meter em tentaçom, porque em Santa Maria | era todo seu cuidar. [Refrão = vv. 1-2] Macar era padre santo, | o diabo trabalhou per como o enganasse; | e tanto pos el andou que por mui gram fremosura | de molher o enganou, que lh’ amostrou u sa missa | dizia sobr’ um altar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El a dona mais fremosa | doutra rem viu, e meteu mentes enas sas feituras, | ca o demo o venceu; e, depois do avangeo, | sa oferta lh’ ofereu a dona, e em golhos | lhe foi a mão beijar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Pois que lhe beijou a mão, | houv’ el tal coita des i que nunca ar parou mentes | ena missa, nem de si nom sabia que fezesse; | e disso: “– Mal dia vi beldade daquesta dona, | que me faz Deus obridar”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Poi-la missa dita houve, | com gram coita (com’ achei escrito) foi-s’ a sa casa, | e fez como vos direi: diss’: “– Esta mão me tolhe | Deus, mas eu a tolherei”. E filhou log’ um cuitelo | e foi a mão cortar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI ũa mui gram sazom houve | que nom pôd’ a missa ir, que as gentes mui de grado | soíam del a oir, e ar preegar nas festas; | e em aquesto falir tĩíam que ia muito, | e em seu feito minguar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII [U] el entendeu aquesto, | foi sa oraçom fazer aa Virgem groriosa, | que lhe quisess’ acorrer e, pola sa gram mercee, | que lhe déss’ algum poder 40 426 42 per que podess’ ant’ as gentes | a sua missa cantar. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, pois viu Santa Maria | que havia tal sabor de a servir, seu enguento | aduss’ a bõa senhor e untou-lhe bem a chaga, | e perdeu log’ a door, e pose-lh’ a sua mão | bem firme em seu logar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E tantoste foi guarido | da mão, apost’ e bem, pola Virgem groriosa, | madre do que nos mantém; e contou est’ aas gentes, | que lhes nom leixou ém rem, e, porque o mais crevessem, | foi-lhes a mão mostrar. 56 Quem souber Santa Maria | bem de coraçom amar, pero o tent’ o diabo, | em bem xe lh’ há de tornar. 52 R9 * * * 427 Cantigas de Santa Maria 207 «Se home fezer de grado pola Virgem algum bem» (E 207, F [17]) Esta é como um cavaleiro poderoso levava a mal outro por um filho que lhe matara, e solto’-o em ũa eigreja de Santa Maria, e disse-lhe a majestade «Graças!» porém. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Se home fezer de grado | pola Virgem algum bem, demostrar-lh’ haverá ela | sinaes que lhe praz ém. Desto vos direi miragre | ond’ haveredes sabor, que mostrou Santa Maria | com merce’ e com amor a um mui bom cavaleiro | e seu quito servidor, que e-na servir metia | seu coraçom e seu sém. [Refrão = vv. 1-2] El havia um seu filho | que sabia mais amar ca si, e um cavaleiro | matou-lho. E, com pesar do filho, foi el prendê-lo, | e quisera-o matar u el seu filho matara, | que lhe nom valvesse rem. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 18 E el, levando-o preso, | em ũa eigreja ’ntrou, e o pres’ entrou pos ele, | e el del nom se nembrou; e, pois que viu a [omagem] | da Virgem, i [o] soltou; e homildou-s’ a omagem, | e disso “Graças!” porém. 20 Se home fezer de grado | pola Virgem algum bem, demostrar-lh’ haverá ela | sinaes que lhe praz ém. 16 R3 * * * 428 Cantigas de Santa Maria 208 «Aquele que ena Virgem carne, por seer veúdo» (E 208, F [94]) Como um herege de Tolosa meteu o Corpo de Deus na colma e deu-o aas abelhas que o comessem. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Aquele que ena Virgem | carne, por seer veúdo, filhou, já per rem nom pode | seer nenlhur ascondudo. Ca assi como dos ceos | deceu e que foi filhar carne da Virgem mui santa | por se nos bem amostrar de com’ era Deus e home, | esto nom é de negar, macar seja o seu Corpo | em qualquer logar metudo. [Refrão = vv. 1-2] Ond’ avo em Tolosa, | em que soía haver hereges de muitas guisas, | que nom queriam creer [nem] em Deus nem em sa madre, | ante de chão dizer iam que que-nos creía, | que o davam por perdudo. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, macar esto diziam, | as missas iam oir e as horas enas festas, | seg[u]nd’ oí departir, e, demais, ar comungavam | por se melhor encobrir; e o que assi fazia, | tĩía-no por sisudo. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde foi em ũa Páscua | que um deles comungou e filhou o Córpus Chrísti, | mais per rem no-no passou, e, tod’ enteiro com’ era, | ena boca o levou; e esto fez mui coberto, | que lhe nom fosse sabudo. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois chegou a sa casa, | foi atal sa entençom de deitá-l’ em algum logo | mao; e, como felom, foi correndo muit’ aginha | a um seu horto, u nom cuidou que o nengum visse | nem ém foss’ apercebudo. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E em ũa sa colma | o deitou, e diss’ assi: “– Abelhas, comed’ aquesto, | ca eu o vinho bevi; e, se vós obrar sabedes, | verei que faredes i”. E, des i, foi-se mui ledo | o traedor descreúdo. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, quando chegou o tempo | que aas colmas vam por filhar o fruito delas, | foi el log’ alá, de pram, veer as suas, e disse: | “– Verei que obra feit’ ham 40 429 42 na hóstia as abelhas”. | E entom, com’ atrevudo, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII abriu mui tost’ a colma, | e ũa capela viu com seu altar estar dentro, | e a omagem cousiu da Virgem co-no seu filho | sobr’ ele, e ar sentiu um odor tam saboroso | que logo foi convertudo. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E foi corrend’ ao bispo | e confessou-se-lhe bem, e contou-lh’ este miragre, | que sol nom lh’ ém leixou rem, ant’ a crerezia toda. | E o bisp[o] fez bom sém e mandou assũar toste | o poblo grand’ e mudo, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e com grandes precissões | forom, e dando loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, e catarom a colma, | e, pois virom o lavor, deitou-s’ o poblo em terra | a prezes tod’ estendudo. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 E repentirom-se muito | e ar chorarom assaz, loando Santa Maria, | que taes miragres faz, com seu filho Jesu-Cristo, | e adusserom em paz aa see a capela, | porque fosse mais sabudo. 68 Aquele que ena Virgem | carne, por seer veúdo, filhou, já per rem nom pode | seer nenlhur ascondudo. 64 R1 * * * 430 Cantigas de Santa Maria 209 «Muito faz grand’ erro, e em torto jaz» (E 209, F [95]) Como el-rei Dom Afonso de Castela adoeceu em Bitória e houv’ ũa door tam grande que coidarom que morresse ende, e poserom-lhe de suso o livro das «Cantigas de Santa Maria», e foi guarido. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito faz grand’ erro, e em torto jaz, a Deus quem lhe nega o bem que lhe faz. Mas em este torto per rem nom jarei que nom cont’ o bem que del recebud’ hei per sa madre Virgem, a que sempr’ amei, e de a loar mais doutra rem me praz. [Refrão = vv. 1-2] E, como nom devo haver gram sabor em loar os feitos daquesta senhor, que me val nas coitas e tolhe door e faz-m’ outras mercees muitas assaz? R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Porém vos direi o que passou per mi, jazend’ em Bitoira enfermo assi que todos cuidavam que morress’ ali e nom atendiam de mi bom solaz. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca ũa door me filhou [i] atal que eu bem cuidava que era mortal, e braadava: “– Santa Maria, val, e por ta vertud’ aqueste mal desfaz”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E os físicos mandavam-me põer panos caentes, mas no-no quix fazer, mas mandei o livro dela aduzer; e poserom-mi_o, e logo jouv’ em paz, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que nom braadei nem senti nulha rem da door, mas senti-me logo mui bem; e dei ende graças a ela porém, ca tenho bem que de meu mal lhe despraz. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ esto foi, muitos eram no logar que mostravam que haviam gram pesar de mià door e filhavam-s’ a chorar, 40 431 42 estand’ ante mi todos come em az. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E, pois virom a mercee que me fez esta Virgem santa, senhor de gram prez, loaro-na muito todos dessa vez, cada um põendo em terra sa faz. 50 Muito faz grand’ erro, e em torto jaz, a Deus quem lhe nega o bem que lhe faz. 46 R8 * * * 432 Cantigas de Santa Maria 210 = 416 «Muito foi noss’ amigo» (E 210, E (FSM) 6, F [96]) De loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Muito foi noss’ amigo | u diss’ «Ave, Maria» aa Virgem beita, | e que Deus prenderia em ela nossa carne, | com que pois britaria o inferno antigo. 8 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. 4 R1 II 12 E nunca nos podia | já maior amizade mostrar que quand’ adusse | mandado, com verdade, que Deus home seria | pola grand’ homildade que houv’ a Virgem sigo. 14 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. 10 R2 III 18 Quem viu nunc’ amizade | que esta semelhasse em dizer tal mandado | per que Deus s’ enserrasse eno corpo da Virgem | e que nos amparasse do mortal emigo? 20 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. 16 R3 IV 24 E esto nom fezera | Deus se ante nom visse a bondade da Virgem, | que per ela comprisse quanto nos prometera, | segund’ El ante disse; gram verdade vos digo. 26 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. 22 R4 V 30 E Gabriel por esto, | o ángeo, devemos amar e honrar muito, | ca per que nos salvemos este troux’ o mandado, | e porque sol nom demos pelo demo um figo. 32 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. 28 R5 Muito foi noss’ amigo Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”. * * * 433 Cantigas de Santa Maria 211 «Apostos miragres faz todavia» (E 211, F [97], U (Ap) 7) º Esta é como Santa Maria fez aas abelhas que comprissem de cera um ciro pascual que se queimara todo da ũa parte, e esto foi em Elche. R0 2 I 4 6 Apostos miragres faz todavia por nós, e fremosos, Santa Maria. Faz-los muit’ apostos porque hajamos sabor de sabê-los e os creamos; e faz-los fremosos porque queramos cobiçar d’ haver a sa companhia. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Porend’ a reinha de piadade fez um gram miragr’ em ũa cidade a que dizem Elche, com’ em verdade achei de gram gente que i havia. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esto foi um dia de Pentecoste, que a sa eigreja verom toste d’ homes e molheres come grand’ hoste, por oir a missa que s’ i dizia, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV mui cantada come em atal festa, e durou até ena mui gram sesta. Entom virom cousa mui mãefesta, ond’ aa gente muito desprazia: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ca virom o ciro pascual queimado muito dũa parte e mui menguado; e desto o poblo foi tam coitado que cada um deles entrestecia. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Eles em aquesto assi cuidando, virom um eixame vĩir voando d’ abelhas mui brancas, que entrou quando o crérig’ a sagra dizer queria. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, tanto que as abelhas chegarom, em um furado da pared’ entrarom, e bem dali o círio lavrarom daquela cera que i falecia. 40 42 434 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quand’ aquesto virom toda-las gentes e eno miragre meterom mentes, loarom a Virgem, e mais creentes quis cada um foi que ante creía. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E as abelhas ir-s’ ém nom quiserom, mas um gram tempo ali esteverom; mel muit’ e cera depois ar fezerom, que nom quedavam, a mui gram perfia. 56 Apostos miragres faz todavia por nós, e fremosos, Santa Maria. 52 R9 * * * 435 Cantigas de Santa Maria 212 «Tod’ aquel que pola Virgem quiser, do seu, bem fazer» (E 212) Como ũa bõa dona de Toledo emprestou um sartal a ũa molher pobre por amor de Santa Maria, e furtarom-lho, e fez-lho ela cobrar. R0 2 I 4 6 Tod’ aquel que pola Virgem | quiser, do seu, bem fazer, cousa que lhe faça míngua | grande nom há de perder. Com’ avo em Toledo | a ũa bõa molher, que, polo amor de Santa | Maria, dava quequer que vess’ a sua mão | aos pobres que mester haviam de lhe pedirem, | por seu amor, seu haver. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Toled’ há um costume | que foi de longa sazom: que, quando i casar querem | as donas que pobres som, pedem aas ricas donas | de suas dõas entom, que possam em suas vodas | mais ricas aparecer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquela dona havia | de seu um rico sartal, e, quand’ as pobres casavam, | emprestava-lho, sem al; e seu marido porende | um dia trouxe-a mal, e que o nom emprestasse | foi-lho muito defender. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ela já no-no ousava | porend’ emprestar, per rem; e aqué-vos ũa dona | mui pobre a ela vem e diss’: “– Ai dona, por Santa | Maria fazede bem e um sartal me prestade | po-la mià filha trager 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V em sa voda”. Mas, com medo, | em lho dar muito dultou; mais, poi-la ela por Santa | Maria esconjurou que por seu amor lho désse, | logo da ucha tirou o sartal e em sa mão | lho foi a furto meter. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ela deu-o a sa filha | e levou-a a banhar, com’ é costum’ em Toledo | de quantas querem casar; e ũa molher furtou-lho | e foi-se per um logar a ’scuso, e no-na pôde | home nem molher veer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII A outra saiu do banho, | e catou muit’ e nom viu o sartal u [o] posera, | e deu vozes e carpiu; e ũa moura da dona | aquelas vozes oiu do sartal que lhe furtaram, | e logo lho foi dizer. 40 42 436 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII A dona com mui gram medo | do marid’ esmoreceu, e foi-s’ a Santa Maria | e em prezes se meteu ant’ a sua majestade, | e chorou muit’ e gemeu e pediu-lhe que aquesta | coita tornass’ em lezer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX A molher que o furtara | fora-se logo sair da vila; e, pois que home | deante nem depois ir viu, prendeu atal conselho: | de s’ a sa casa vĩir, ca nom acharia home | que lho podess’ entender. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, tornando-s’ a sa casa, | teve que era melhor d’ atalhar pela eigreja, | e nom ir a derredor; e, passand’ assi per ela, | a dona, com gram door e porque muito chorara, | filhou-se d’ adormecer. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 E, jazend’ entredormindo, | antolhou-xe-lhe assi: que seu sartal lhe levava | aquela molher per i; e espertou-s’ e chamo’-a, | e tirou-lhe de so si o sartal, que eno so | ela fora asconder. 68 Tod’ aquel que pola Virgem | quiser, do seu, bem fazer, cousa que lhe faça míngua | grande nom há de perder. 64 R11 * * * 437 Cantigas de Santa Maria 213 «Quem serve Santa Maria, a senhor mui verdadeira» (E 213, F [89]) Esta é como Santa Maria livrou um home bõo em Terena de morte dos parentes de sa molher, que o queriam matar a torto ca lh’ apõíam que a matara ele, e nom era assi. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem serve Santa Maria, | a senhor mui verdadeira, de toda cousa o guarda | que lhe ponham mentireira. E de tal razom a Virgem | fez miragre conhoçudo na eigreja de Terena, | que é de muitos sabudo, ca sempre dos que a chamam | é amparanç’ e escudo; e de como foi o feito | contar-vos-ei a maneira. [Refrão = vv. 1-2] Um hom’ em Elvas morava | que Dom Tomé nom’ havia, que sobre tod’ outra cousa | amava Santa Maria, e que ganhava grand’ algo | com sas bêstias que tragia, carrejand’ em elas vinho | e farinha e ceveira. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquest’ hom’ era casado | com molher que el cuidava que era bõa e salva; | mas em seu cuidar errava, ca ela mui mais a outros | ca nom a ele amava, e porém, quando podia, | era-lhe mui torticeira. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde lh’ avo um dia | que de sa casa saído foi el com sas mercaduras; | e, poi-lo ela viu ido, por fazer mais a sa guisa, | des que s’ achou sem marido, fezo como molher maa: | nom quis albergar senlheira. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ela fazendo tal vida, | ũa noite a acharom morta e acuitelada; | e seus parentes chegarom, e, pois que a morta virom, | no marido sospeitarom que a matara a furto | e se fora sa carreira. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Daquest’ o marido dela | sol nom sabia mandado; e, quando chegou a Elvas, | foi logo desafiado dos parentes dela todos, | e, sem esto, recadado o houvera o alcaide; | mas fogiu aa fronteira. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, morand’ em Badalhouce, | entrou-lhe na voontade que em romeria fosse | a Teren’, e piadade haveria del a Virgem | mui comprida de bondade, que de quanto lh’ apõíam | (pois que nom era certeira 40 42 438 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII cousa) que o guardaria | de nom prender mal a torto, e que, tend’ el verdade, | nom fosse preso nem morto; ca todos mui mal juigados | a ela vam por conorto, ca em todo-los seus feitos | sempr’ é mui dereitureira. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Ele, pois foi na eigreja, | deitou-s’ entom mui festinho ant’ o seu altar e disse: | “– Madre do velh’ e meninho, que te does dos coitados, | doe-te de mi, mesquinho, senhor, tu que és dos santos | espelho e lumeira; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e nom queiras que eu moira | a gram tort’ e sem dereito, mas o feito desta cousa | per ti seja escolheito, e faz que meus emigos | em al façam seu proveito, e tol-me dessa companha, | tu que és sem companheira”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E, pois aquest’ houve dit’ e | sa oraçom acabada, compriu bem sa romaria; | e depois aa tornada topou em seus emigos, | que lhe tĩíam ciada, mas veer no-no poderom, | ca nom quis a josticeira 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII madre de Deus Jesu-Cristo, | pero contra el catavam. E, pois que ũa gram peça | em aquel logar estavam, forom-se contra Terena, | u sem dulta o cuidavam achar; mas o dem’ acharom | em forma del na ribeira 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII dum rio que per i corre | (de que seu nome nom digo), indo pos el braadando: | “– Aquest’ é noss’ emigo!”. E o demo contra eles | disse: “– Que havedes migo?: ca nunca eu vos fiz torto, | sabe-o tod’ esta beira”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Mas eles lhe responderom: | “– Dom traedor, morreredes”. E o demo lhes dizia: | “– Mui gram torto me fazedes, ca eu nom hei nulha culpa | daquelo que m’ apõedes”. Mas um foi-o acalçando | com sa azcõa monteira, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV e foi-se a el chegando, | sa azcõa sobre mão, cuidando bem que corria | depos el per um gram chão e que lhe dava gram colbe; | mas saiu-lhe tod’ em vão, ca a ’zcũa chantou toda | per ũa grand’ azinheira. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Demais, em um gram barranco | caeu com el o cavalo, assi que o nom poderom | nunca já dali sacá-lo, e el por um mui gram tempo | no-no podiam sãá-lo, 94 439 96 ca ficou todo britado | dos pés tro ena moleira. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Os outros, quando chegarom | a el e o jazer virom, cuidando que era morto, | muito por ele carpirom; mas a qual parte o demo | foi, per rem no-no sentirom, nem virom sol per u fora | fogind’ em sa égua veira. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E, pois lhes aquest’ avo, | filharom seu companheiro e trouxero-no a Elvas, | onde moveram primeiro; e souberom o engano | que lhes fez o dem’ arteiro, e perdõarom o outro | da sanha homezieira 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX de sa molher, que matara, | com’ eles ante criíam; e que os el perdõasse, | todos por Deus lhe pediam mercee, e por sa madre, | ca bem de certo sabiam que ela o guarecera, | como guariu a primeira 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 chaga que Adám nos fezo, | per que perderom a vida dos ceos muitos e muitas; | mas esta senhor comprida pela sa grand’ homildade | nos deu pera ceo ida e fez cobrar paraíso, | que é vida duradeira. 122 Quem serve Santa Maria, | a senhor mui verdadeira, de toda cousa o guarda | que lhe ponham mentireira. 118 R20 * * * 440 Cantigas de Santa Maria 214 «Como a demais da gente quer gãar per falsidade» (E 214, F [99]) Como Santa Maria fez a um cavaleiro que gãasse ũa igreja que lhe prometera. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Como a demais da gente | quer gãar per falsidade, assi quer Santa Maria | gãar per sa santidade. Ca, se Deus deu aas gentes | jogos pera alegria haverem, todo o tornam | elas em tafuraria, e daquesta guisa querem | gãar; mais Santa Maria nom lhe praz de tal gaança, | mais da que é com verdade. [Refrão = vv. 1-2] E porém contar-vos quero | miragre que hei oído desta razom, que a Virgem | fez, madre do rei comprido, que, por nos guardar d’ inferno, | foi na cruz mort’ e ferido. E porém, se Deus vos valha, | amigos, bem m’ ascuitade. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Dous homes dados jogavam | a gram perfia provada, e um deles era ric’, o | outro nom havia nada senom quant’ ũa eigreja, | com que fazia passada, que fora de seu linhage | e del bem come herdade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, macar que doutros jogos | eram eles sabedores, entom outro nom jogavam | senom aquel que «maiores» [chamam]; e o ric’, em logo | de meter i fiadores, meteu [i] muitos dinheiros | por comprir sa voontade. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas o outro nom havia | outra requeza sobeja que a[o] jogo metesse, | mas meteu i a eigreja de que vos já dit’ havemos, | dizendo: “– Se quer que seja Deus que o jogo gãedes, | esta igreja levade”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI O rico, quand’ oiu esto, | volveu na mão os dados e lançou senas al-terce, | que som de pontos contados dezeoito; e ma[i]s pontos | nom podem seer achados. O outro, quando viu esto, | diss’: “– Ai Virgem de bondade 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII de Rocamador, senhora | de todos bes comprida, vossa mercee nom seja | agora em mi falida; mais dou-vos esta igreja | por vossa, em que servida sejades: venced’ o jogo | e a eigreja filhade”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 441 VIII 46 48 E, des i, pois diss’ aquesto, | logo os dados filho’-os na mão e mui coitado | eno tavleiro lanço’-os. Mas a Virgem, que de reis | vem de todo-los avoos, fez que um daqueles dados | se fendeu per meiadade; R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e, como do ás a face | devia jazer de juso, fez per si dad’ a sa parte, | e tornou-s’ o ás de suso, e de seis o outro meo | pareceu nom a escuso, e os outros dous de senas: | pois dezenov’ i contade. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Assi ganhou a eigreja | Santa Maria por sua, que o virom entom todos | quantos estavam na rua; e o que venceu o jogo | disse: “– Senhor, seja tua, ca per ti a hei cobrada | e por ta gram piadade”. 62 Como a demais da gente | quer gãar per falsidade, assi quer Santa Maria | gãar per sa santidade. 58 R10 * * * 442 Cantigas de Santa Maria 215 «Com gram razom é que seja de Jesu-Crist’ amparada» (E 215, F [61]) Esta é como Santa Maria defendeu ũa sa omage que nom recebesse dano de muitos tormentos que lhe faziam os mouros, que a queriam desfazer e nom poderom. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Com gram razom é que seja | de Jesu-Crist’ amparada a omage da sa madre, | Virgem santa corõada. E daquest’ um gram miragre | vos direi, que na fronteira mostrou i Santa Maria, | a senhor mui verdadeira, quando passou Abo-Iúçaf | (nom da passada primeira, mas da outra), e fez dano | grande daquela passada. [Refrão = vv. 1-2] E, porque dest’ os crischãos | nom eram apercebudos, passou el come a furto | com muitos mouros barvudos; e porém forom as vilas | e os castelos corrudos, e, polos nossos pecados, | muita eigreja britada. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, por mal de nossa lee, | as campãas ém levavam, e roubavam os altares, | que sol rem i nom leixavam; e depois os crucifissos | e as omanhas britavam, e tĩinham a fronteira | em mui gram coita provada. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo que correrom | pela Campinha um dia e britarom ũ’ aldea | que cabo Martos jazia, e romperom a eigreja | da Virgem Santa Maria, e ũa omagem sua | foi deles logo levada; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e log’ aas albergadas | u pousava[m] a levarom, e assentarom-se todos, | e tal conselho filharom: que toda a desfezessem; | e sas espadas sacarom entom, e end’ ũu deles | lhe foi dar ũ’ espadada 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI eno braço e talhou-lhe | del ũa mui gram partida. Mas nom quis Deus que ficasse | a omagem escarnida; e porend’ a aquel mouro | deu-lh’ ũa atal ferida que lhe fez perdê-lo braço | log’, e caeu-lh’ a espada. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Os mouros, quand’ esto virom, | todos grandes vozes derom que logo a pedrejassem; | e muitas pedras t[r]ouxerom, e tirarom-lhe de preto; | mas ferir no-na poderom. Entom houverom acordo | que fosse logo queimada. 40 42 443 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E metero-na no fogo | mui grand’, e jouv’ i dous dias; mas o que em Babilonha | guardou no forn’ Ananias e Misael o meninho | e o terce[i]r’, Azarias, guardou aquesta do fogo, | que sol nom lhe noziu nada. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E do fogo a sacarom, | e houverom tal conselho: que, porque aquest[e] feito | sol nom saíss’ a concelho, que no rio a deitassem, | todo come em trebelho, com ũa pedra mui grande | aa garganta atada. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E tantoste a deitarom | em um peego redondo; mas nom quis Santa Maria, | per rem, que se foss’ a fondo. Quand’ esto virom os mouros, | teverom que grand’ avondo de vertud’ em ela era, | e foi da água sacada. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E tantoste a levarom | u rei de Grãada era, que teve tod’ este feito | por gram maravilha fera, e mandou de seus dinheiros | dar ao que lha trouxera, e ar mandou a omagem | logo levar a Grãada. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Des i, mandou a crischãos | que a el-rei a trouxessem de Leom e de Castela, | e o feito lhe dissessem todo per como passara, | pero, por quanto podessem, que nom foss’ el descoberto | que a havia ’nviada. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E eles toste verom | pera Segóvia aginha, u el-rei era, e derom- | -lh’ a omagem da reinha, Virgem santa groriosa; | e em panos que tĩinha ricos fez que a omagem | fosse log’ envorulhada. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E mandou que a guardassem | mui bem ena sa capela, e a todos fez mostrá-la, | que houvessem ém mazela, e punhassem, come bõos, | com’ aquela alcavela de mouros fosse vençuda | e a omagem vingada. 86 Com gram razom é que seja | de Jesu-Crist’ amparada a omage da sa madre, | Virgem santa corõada. 82 R14 * * * 444 Cantigas de Santa Maria 216 «O que em Santa Maria de coraçom confiar» (E 216, F [34]) Esta é como Santa Maria se mostrou em semelhança da molher do cavaleiro ao demo, e o demo fugiu ant’ ela. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 O que em Santa Maria | de coraçom confiar, nom se tema que o possa, | per rem, o dem’ enganar. Daquest’ ora um miragre | fremoso quero dizer que eu oí, dũa dona | que filhava gram prazer em servir Santa Maria, | e e-no seu bem fazer põía sua fazenda | e todo seu asperar. [Refrão = vv. 1-2] Ela dum bom cavaleiro | mui rico era molher, que perdera quant’ havia, | e era-lhe mui mester de o cobrar, e queria | cobrá-lo já comoquer; e, po-lo cobrar, vassalo | se foi do demo tornar, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que lhe disso: “– Pois meu sodes, | mui grand’ algo vos darei; e vossa molher tragede | a um mont’, e falarei com ela, e porém rico | sem mesura vos farei”. O cavaleir’ oiu esto | e foi-lho log’ outorgar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O diabo, pois menage | do cavaleiro filhou que sa molher lh’ adussesse, | mui grand’ algo lh’ amostrou. Porém como lha levasse | o cavaleiro cuidou, e disso-lh’: “– Ai molher, treides | hoje mig’ a um logar”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V A ela foi-lhe mui grave | por de sa casa sair, ca era dia da Virgem, | a que queria servir em ũa sua igreja; | mas nom lho quis consentir per rem o marid’, e foi-a | per força sigo levar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ela indo per carreira, | viu eigreja cabo si estar de Santa Maria, | e disso: “– Quer’ eu ali folgar ora ũa peça, | e andaremos des i”. E deceu i e deitou-se | a dormir cab’ um altar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E saiu Santa Maria | de tra-lo altar entom, e assi a semelhava | que diríades que nom era senom essa dona; | e disso: “– É já sazom de nos irmos, ai marido”. | E diss’ el: “– Temp’ é d’ andar”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 445 VIII 46 48 Entom foi Santa Maria | com el ao logar u estava o demo. Quando | viu a madre de Jesu-Cristo, o demo lhe disse: | “– Mentira feziche tu em trager Santa Maria | e a ta molher leixar”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Diss’ entom Santa Maria: | “– Vai, demo, cho de mal!: cuidach’ a meter a dano | a mià serventa leal; mas, de quanto tu cuidaste, | eu cho tornarei em al, ca te tolho que nom possas | jamais fazer-lhe pesar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E diss’ ao cavaleiro: | “– Fostes home de mal sém que cuidastes pelo demo | haver requeza e bem; mais filhad’ ém pede[n]ça | e repentide-vos ém, e o que vos deu leixade, | ca vos nom pode prestar”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 O cavaleiro da Virgem | muit’ alegre s’ espediu e foi-s’ u sa molher era | e contou-lhe quanto viu, e do dem’ e de seus dões, | de tod’ ali se partiu; e dessa hor’ adeante | Deus grand’ algo lhes foi dar. 68 O que em Santa Maria | de coraçom confiar, nom se tema que o possa, | per rem, o dem’ enganar. 64 R11 * * * 446 Cantigas de Santa Maria 217 «Nom dev’ a entrar nulh’ home na eigreja da senhor» (E 217) Esta é de como um conde de França que vo a Santa Maria de Vila-Sirga nom p[ô]de entrar na eigreja a mos de se confessar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nom dev’ a entrar nulh’ home | na eigreja da senhor se, ante, de seus pecados | mortaes quito nom for. Ca, par Deus, muit’ é ousado | o que está em mortal pecad’ e se nom repente, | d’ ir ant’ a esperital reinha Santa Maria, | que tant’ avorrec’ o mal; e quem se desto nom guarda, | cae de mal em peor. [Refrão = vv. 1-2] E dest’ um mui gram miragre | mostrou, per com’ aprendi, a Virgem em Vila-Sirga, | dum conde que vo i de França em romaria, | e cuidou entrar ali na eigreja, u os outros | entravam a gram sabor. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aqueste dez cavaleiros | tragia, e quis entrar ant’ eles ena eigreja; | mas, porque mãefestar nom se fora dos pecados, | sol no-no pôd’ acabar, ant’ houv’ a ficar de fora | com’ home mui pecador. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Quand’ esto viu sa companha, | punharom de o meter per força ena eigreja; | mais nom houverom poder, per força que i posessem, | sol dum logar o mover, ca sofrer no-no queria | a madre do salvador. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E eles tant’ empuxarom | que o sangue lhe sair fezerom bem pela boca | e pelos narizes ir; quand’ aquesto viu o conde, | começou-s’ a repentir e disse quanto leixara | a dizer, com gram door. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, pois foi mãefestado, | entrou logo manamám bem dentro ena eigreja | sem trabalh’ e sem afám, chorand’ e chamando muito: | “– Senhor do mui bom talám, que me perdõar quisiste, | a ti dou porém loor”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ aquesto viu a gente, | houverom gram devoçom, e quantos outros i eram, | e todos de coraçom loarom muito a Virgem; | e as novas log’ entom forom ém por toda ’Spanha | bem atá Rocamador. 40 42 R7 44 Nom dev’ a entrar nulh’ home | na eigreja da senhor se, ante, de seus pecados | mortaes quito nom for. * * * 447 Cantigas de Santa Maria 218 «Razom ham de seerem seus miragres contados» (E 218, F [71]) Esta é como Santa Maria guareceu em Vila-Sirga um mercador d’ Alemanha contreito, que era home muito honrado e rico. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Razom ham de seerem | seus miragres contados da senhor que ampara | aos desamparados. E dest’ em Vila-Sirga | miragre mui fremoso mostrou a Virgem, madre | de Deus, rei grorioso, e ontr’ os seus miragres | é d’ oir piadoso, de que ela faz muitos | nobres e mui preçados. [Refrão = vv. 1-2] Em terra d’ Alemanha | um mercador honrado houve, rico sobejo | e muit’ emparentado; mas dũa ’nfermidade | foi atám mal parado per que ficou tolheito | dambos e dous os lados. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E dest’ assi gram tempo | foi end’ atám maltreito que de pees e mãos | de todo foi contreito; e de seu haver tanto | lhe custou este feito, assi que ficou pobre | e com grandes cuidados. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El em esto estando, | viu que gram romaria de gente de sa terra | a Santiago ia, e que com eles fosse | mercee lhes pidia; e eles deste rogo | forom muit’ embargados, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ca, dũa parte, viam | sa grand’ enfermidade, e ar, da outra parte, | a sa gram pobridade; pero, porque haviam | dele gram piadade, e-no levarem sigo | forom end’ acordados. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E ámedes fezerom | log’ em que o levavam; e pera Santiago | sas jornadas filhavam, e a mui grandes pas | alá com el chegavam; mas nom quis que guarisse | Deus, polos seus pecados. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Depois, de Santiago | com ele se tornarom; e, quand’ em Carrom forom, | ar cego o acharom, 40 448 42 e de o i leixarem | todos s’ i acordarom. Mas atá Vila-Sirga | com el forom chegados, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII ca teverom que era | logar pera leixá-lo mui melhor que em outro | e i acomendá-lo. Porend’ aa igreja | punharom de levá-lo, ca de o mais levarem | sol nom forom ousados, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX porque lhes nom morresse. | E assi o mesquinho ficou desamparado, | e eles seu caminho se forom. Mas a madre | do que da água vinho fez, houve del mercee | e oiu seus braados, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que el mui grandes dava, | chamando “– Gloriosa!” e chorando mui forte. | Mas a mui preciosa oiu-o e sãou-o | come mui poderosa, por que quantos i eram | forom maravilhados. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E pois a poucos dias | foi-se pera sa terra por prazer da que nunca | sa mercee enserra. E, pois alá foi, logo | nom fez como quem erra, mas contou o miragre | da por que perdõados 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 somos de Jesu-Cristo, | cujos som os perdões. E este, que fez? Logo | filhou mui bõos dões e pois a Vila-Sirga | os deu em ofreções aa Virgem, que nunca | falec’ aos coitados. 74 Razom ham de seerem | seus miragres contados da senhor que ampara | aos desamparados. 70 R12 * * * 449 Cantigas de Santa Maria 219 «Nom convém aa omagem da madre do grorioso» (E 219, F [72]) Esta é como Santa Maria fez tornar negra ũa figura do demo que era entalhada em mármor b[r]anco, porque sia cabo da sa imagem que era entalhada em aquel mármor meesmo. R0 2 I 4 6 Nom convém aa omagem | da madre do grorioso rei que cabo dela seja | figura do dem’ astroso. Que, assi como tevras | e luz departidos som, assi som aquestas duas | por dereit’ e por razom; ca a ũa nos dá vida | e a outra perdiçom. E, de tal razom, miragre | vos direi mui saboroso. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ena terra de Toscana | ũa gram cidad’ há i que «Sena» éste chamada; | e, como dizer oí, fez o bispo na igreja | maior fazer pera si um logar u preegasse | de mármor ric’ e fremoso. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E fez i vĩir maestres | sabedores de talhar, e eno mármor mui branco | mandou-lhes i fegurar omagem da Virgem Santa | Maria, que nos ampar, que tiinha em seus braços | o seu filho precioso. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Outras histórias muitas | em aquel mármor fazer mandou de muitas naturas; | e houve d’ acaecer que poserom i o demo, | e foro-no compõer mui mal feit’ em sa figura, | segundo x’ el é astroso. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas, porque o mármor era | branco, sem haver sinal, houv’ o dem’ a seer branco, | e nom pareceu tam mal como fezera se negro | fosse; mas nom quis que tal ficasse a Virgem santa, | madre do rei poderoso. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Aquesto todo-lo virom. | Ond’ avo ũa vez que a Virgem groriosa | sobr’ esto miragre fez tam grande que a omagem | do demo tal come pez fez tornar em ũa hora | mui feo e mui lixoso. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Outro dia, quand’ as gentes | verom missa oir e virom o demo negro, | filharom-s’ end’ a riir; mas, quando oiu o bispo | esto, cuidou que mentir 40 450 42 lh’ iam, e em ir veê-lo | nom vos foi mui vagaroso. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E mandou a um seu home | que o lavasse mui bem e, des i, que o raesse; | mais sol nom lhe prestou rem: ca de guisa o tornara | negro a que nos mantém que desfazer no-no pôde. | E o bispo mui choroso 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX foi; ant’ o altar deitou-se | dizendo: “– Senhor, errei, porque cabo da omagem | aquela fazer mandei; porém mercee te peço | que me perdões, ca sei que, se me tu perdõares, | que me nom será sanhoso 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 o teu filho Jesu-Cristo, | que éste home e Deus, ca por ti muitos perdõa | e faz-lhes que sejam seus; e eu aqueste miragre | farei põer entr’ os teus miragres, porque bem creo | que é mui maravilhoso”. 62 Nom convém aa omagem | da madre do grorioso rei que cabo dela seja | figura do dem’ astroso. 58 R10 * * * 451 Cantigas de Santa Maria 220 «E que-na nom loará» (E 220) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Ca muito_é gram dereito, | quem d’ anjos é servida e nos todo mal tolhe | no mundo_e nos dá vida, que sempre a loemos; | ca, de loor, comprida éste e sempre será. 8 E que-na nom loará a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá? 4 R1 II 12 Dereit’ é que loemos a que sempr’ é loada e da corte dos ceos servida e honrada, e que ao seu filho por nós é avogada; e gran[de] razom i há. 14 E que-na nom loará a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá? 10 R2 III 18 Dereit’ é que loemos a que todo-los santos loam dias e noites com mui fremosos cantos, e Deus em nós por ela mostra miragres quantos por outra nom mostrará. 20 E que-na nom loará a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá? 16 R3 E que-na nom loará a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá? * * * 452 Cantigas de Santa Maria 221 «Bem per-está aos reis d’ amarem Santa Maria» (E 221, F [73]) [E]sta é como Santa Maria guareceu em Onha al-rei Dom Fernando quand’ era meninho, dũa grand’ enfermidade que havia. R0 2 I 4 6 Bem per-está aos reis | d’ amarem Santa Maria, ca enas mui grandes coitas | ela os acorr’ e guia. Ca muito a amar devem, | porque Deus nossa figura filhou dela e prês carne; | ar porque de sa natura vo, e porque justiça | tem del e dereitura, e «rei» nome de Deus éste, | ca El reina todavia. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E porend’ um gram miragre | direi, que avo quando era moço pequeninho | o mui bom rei Dom Fernando, que sempre Deus e sa madre | amou e foi de seu bando, por que conquereu de mouros | o mais da Andaluzia. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este meninh’ em Castela | com rei Dom Afonso era, seu avoo, que do reino | de Galiza o fezera vĩir e que o amava | a gram maravilha fera; e ar era i sa madre, | a que muit’ ende prazia, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e sa avoa i era, | filha del-rei d’ Ingraterra, molher del-rei Dom Afonso, | por que el passou a serra e foi entrar em Gasconha | po-la ga[anh]ar per guerra, e houv’ end’ a maior parte, | ca todo bem merecia. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E pois, tornou-s’ a Castela; | des i, em Burgos morava, e um hospital fazia | el, e sa molher lavrava o mõesteiro das Olgas; | e, enquant’ assi estava, dos seus filhos e dos netos | mui gram prazer recebia. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mais Deus nom quer que o home | estê sempr’ em um estado: quis que Dom Fernando fosse, | o seu neto, tam coitado dũa grand’ enfermidade | que foi del desasperado el-rei; mas entom sa madre | tornou tal come sandia. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E oiu falar de Onha, | u havia gram vertude; diss’ ela: “– Levá-lo quero | alô, assi Deus m’ ajude, ca bem creo que a Virgem | lhe dé vida e saúde”. E, quand’ aquest’ houve dito, | de seu padre s’ espedia. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 453 VIII 46 48 Quanto-la ir assi virom, | gram piadad’ end’ haviam, e mui mais polo meninho, | a que todos bem queriam; e iam com ela gentes | chorando muit’, e changiam bem come se fosse morto, | ca atal door havia R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca dormir nunca podia | nem comia nemigalha, e vérmes del saíam | muitos e grandes, sem falha, ca a morte já vencera | sa vida, sem gram baralha. Mas chegarom log’ a Onha | e teverom sa vigia 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X ant’ o altar maior logo | e pois ant’ o da reinha, Virgem santa groriosa, | rogando-lhe que aginha em tam grand’ enfermidade | posesse sa meezinha, se serviço do meninho | em algum tempo queria. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI A Virgem Santa Maria | logo com sa piedade acorreu ao meninho | e de sa enfermidade lhe deu saúde comprida | e de dormir voontade; e, depois que foi esperto, | logo de comer pedia. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E ante de quinze dias | foi esforçad’ e guarido tam bem que nunca mais fora; | demais, deu-lhe bom sentido. E, quand’ el-rei Dom Afonso | houv’ este miragr’ oído, logo se foi de caminho | a Onha em romaria. 74 Bem per-está aos reis | d’ amarem Santa Maria ca enas mui grandes coitas | ela os acorr’ e guia. 70 R12 * * * 454 Cantigas de Santa Maria 222 «Quem houver na groriosa fiança com fé comprida» (E 222, F [93]) Esta é como ũu capelám que cantava missa no mõesteiro das donas d’ Achelas, que é em Portugal, cabo Lisbõa, consumiu ũa aranha que lhe caeu no cáliz, e sangrou-se e saiu-lhe viva pela ferida. R0 2 I 4 6 Quem houver na groriosa | fiança com fé comprida, nom lhe nozirá poçonha, | e dar-lh’-á por sempre vida. Ca ela troux’ em seu ventre | vida e luz verdadeira, per que os que som errados | saca de maa carreira; demais, contra o diabo | tem ela por nós fronteira como nos nozir nom possa | em esta vid’ escarnida. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Pois dizer-vos quer’ eu dela | um miragre mui fremoso, e bem creo que vos seja | d’ oí-lo mui saboroso, e, demais, pera as almas | seer-vos-á proveitoso; e per mi, quant’ hei apreso, | nom será cousa falida. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em Portugal, a par dũa | vila, mui rica cidade que é chamada Lixbõa, | com’ eu achei em verdade, hai um rico mõesteiro | de donas, e castidade mantem, que pois nos ceos | hajam por sempre guarida. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Este mõesteir’ «Achelas» | há nom’ e ’si é chamado; e um capelám das donas, | bõo hom’ e ensinado, estava cantando missa | com’ havia costumado, e avo-lh’ assi: ante | que foss’ a missa fĩída, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V quando [de] consomir houve | o corpo de Jesu-Cristo (per que o demo vençudo | foi já por sempr’ e conquisto), cae[u] dentro [e]no cáliz | (esto foi sabud’ e visto) per um fi’ ũa aranha, | grand’ e negr’ e avorrida. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI O capelám ũa peça | estev’ assi em dultança e nom soube que fezesse; | pero houve confiança na Virgem Santa Maria, | e logo, sem demorança, a aranha co-no sángui | houve logo consumida. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois que houv’ a missa dita, | o capelám logo dessa foi contar est’ aas donas; | des i, aa prioressa. 40 455 42 E, com medo da poçonha, | mandou-o sangrar log’ essa dona e toda-las monjas: | esta cousa foi ordida. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Mas agora oiredes | todos a mui gram façanha que ali mostrou a Virgem, | nunca vistes tam estranha: pelo braço lhe saí[a] | viva aquela aranha ante que sángui saísse, | per u deram a ferida. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX As donas maravilhadas | forom desto feramente e a aranha mostrarom | entom a muita de gente, e loarom muit’ a madre | de Deus Padr’ omnipotente, que todos ao seu reino | comunalmente convida. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Nós outrossi ar loemos | a Virgem Santa Maria por tam fremoso miragre, | e roguemos noit’ e dia a ela que do diabo | nos guard’ e de sa perfia, que pera o paraíso | vaamos dereita ida. 62 Quem houver na groriosa | fiança com fé comprida, nom lhe nozirá poçonha, | e dar-lh’-á por sempre vida. 58 R10 * * * 456 Cantigas de Santa Maria 223 «Todo-los coitados que querem saúde» (E 223, F [55]) Esta é como Santa Maria sãou em [Terena, cabo] Monsaraz, um home bõo que cuidava morrer de rávia. R0 2 I 4 6 Todo-los coitados que querem saúde demandem a Virgem e a sa vertude. Ca ela poder há de saúde dar e vida por sempr’ a quem lha demandar de coraçom. E desto quer’ eu contar um mui bom miragre, assi Deus m’ ajude. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Per todo o mund’ ela miragres faz, mais dũa sa casa, cabo Monsaraz, que chamam «Terena», sei bem que assaz faz muitos miragres a quem i recude. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E porend’ um home bõo, Dom Mateus, que ’m Estremoz mora, prougu’ assi a Deus que raviou mui fort’, e os parentes seus alá o levarom (ca muit’ ameúde 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV de toda-las terras gentes vem i), e, pois i forom, quis a Virgem assi: que foi logo são; e, com’ aprendi, já lh’ ante faziam os seus ataúde 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 em que o metessem por morto, de pram. Porém nom devia ter por afám quem servir podess’ esta de bom talám, e contra o demo daquesta s’ escude. 32 Todo-los coitados que querem saúde demandem a Virgem e a sa vertude. 28 R5 * * * 457 Cantigas de Santa Maria 224 «A reinha em que é comprida toda mesura» (E 224, F [3]) Como Santa Maria de Terena, que é no reino de Portugal, ressucitou ũa meninha morta. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A reinha em que é | comprida toda mesura, nom é sem razom se faz | miragre sobre natura. Ant’ é com mui gram razom, | a quem parar i femença, em haver tal dom de Deus | a de que El quis nacença filhar por dar a nós paz; | e tal é nossa creença; e quem aquesto nom crê, | faz torpidad’ e loucura. [Refrão = vv. 1-2] Porend’ um miragre seu | vos direi, pois m’ ascuitades, da Virgem a que deu Deus | poder sobr’ enfermidades de as tolher; e sei bem | que, se i mentes parades, veredes que há poder | sobre toda creatura. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Assi com’ oí dizer | a quem m’ aquest’ há contado, riba d’ Aguadiana | há um logar muit’ honrado, e «Terena» chamam i, | logar mui sant’ aficado, u muitos miragres faz | a senhor de dereitura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo pois assi | que em Beja, u morava um home casado bem | com sa molher, que amava, almoxerife del-rei | era el, e confiava muit’ em Santa Maria; | mais havia gram tristura 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V porque nom podi’ haver | filho de que gradoasse e que, pois sa mort’, em seu | haver herdeiro ficasse. Mais sa molher emprenhou, | e, u cuidou que folgasse com filh’ ou filha, entom | ar vo-lh’ outra rancura: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI ca, u pariu sa molher, | naceu-lh’ entom ũa filha que bem terredes que foi | muit’ estranha maravilha, ca o braço lhe saiu | ontr’ o corp’ e a verilha juntado dessum assi | que nom era de costura. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O bom hom’ e sa molher | forom entom mui coitados e entenderom que foi | aquesto per seus pecados; chorarom muito porém, | pero forom conortados, e no que Deus quer fazer | cobrarom sa queixadura. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 458 VIII 46 48 E um an’ enteir’, ou mais, | em sa casa a criarom. E dos miragres entom | da Virgem ali contarom que faz grandes em Terena; | porend’ ambos outorgarom de levá-la meninha: | fizerom atal postura. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E ambos de Beja ’ntom | se saírom pois um dia com outra companha di; | e, quando forom na via, ũa légua do logar | u era Santa Maria de Teren’, acharom sa | filha morta. Logo cura 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X houverom de a levar | alá por ser soterrada eno cimiteiro di. | Outro dia madrugada mandarom missas cantar; | e, ũa missa cantada, resorgiu a mort’ entom, | braadando de mesura. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI A volta foi no logar | grand’, e os romeus correrom aa moça, e entom | dos pano-la desbolverom e virom-lh’ o braç’ ali | desapreso, e renderom graças a Santa Maria, | que é senhor d’ apostura. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Pois aquel miragr’ atal em Teren’ e log’ assi | em Bej’ e nos logares; feito tam maravilhoso, 74 A reinha em que é | comprida toda mesura, nom é sem razom se faz | miragre sobre natura. 70 R12 | virom os que i verom, mui grandes ofertas derom | e, pois que esto souberom, | loarom a Virgem pura. * * * 459 Cantigas de Santa Maria 225 «Muito bom miragr’ a Virgem faz estranho e fremoso» (E 225, F [67]) Esta é como um crérigo estava cantando missa e viu jazer ũa aranha no cáliz, e consomiu-a, e andava-lhe ontr’ o coiro e a carne viva, e depois fez Santa [Maria] que lhe saísse viva pela unlha do dedo da mão. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito bom miragr’ a Virgem | faz estranho e fremoso, porque a verdad’ entenda | o nêicio perfioso. E daquest’ um gram miragre | vos será per mi contado, e d’ oir maravilhoso, | pois oíde-o de grado, que mostrou a Santa Virgem, | de que Deus por nós foi nado, dentro_em Cidad[e] Rodrigo. | E é mui maravilhoso [Refrão = vv. 1-2] ontr’ os outros que oístes, | e tenh’ eu que atal éste o que vos contarei ora, | que avo a um preste que dizia sempre missa | da madre do rei celeste; e, porque a bem cantava, | era ém mui desejoso R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III o poblo de lha oírem. | Mas um dia, sem falida, ena gram festa d’ agosto, | desta senhor mui comprida estava cantando missa; | e, pois houve consomida a hósti’, ar quis o sángui | consomir do glorioso 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Jesu-Crist’, e viu no cáliz | jazer ũa grand’ aranha dentro no sángui nadando, | e teve-o por estranha cousa; mais mui grand’ esforço | filhou, a foro d’ Espanha, e de consomi-lo todo | nom vos foi mui vagaroso. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois aquest’ houve feito, | nom quis que lh’ empeecesse Deus o poçom da aranha | nem lhe no corpo morresse; e, pero andava viva, | nom ar quis que o mordesse, mas ontr[e] coir’ e carn’ ia | aquel bestigo astroso. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E andava muit’ aginha | pelo corp’, e nom fazia door nem mal, por vertude | da Virgem Santa Maria; e, se s’ ao sol parava, | log’ a aranha viía, e mostrando-a a todos, | dizend’: “– O rei piadoso 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII quis que polos meus pecados | aqueste marteir’ houvesse; porém rogo aa Virgem | que, se a ela prouguesse, que rogass’ ao seu filho | que cedo mi_a morte désse ou me tolhess’ esta coita, | ca bem é ém poderoso”. 40 42 460 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Esta aranha, andando | per cima do espinhaço e depois pelos costados | e em dereito do baço, des i ia-lh’ aos peitos, | e sol nom leixava braço per que assi nom andasse; | e o corpo mui veloso 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX havia esta aranha. | E um dia, el estando ao sol, hora de nõa, | foi-lh’ o braç’ escaentando, e el a coçar filhou-s’, e | nom catou al senom quando lhe saiu per so a unlha | aquel poçom tam lixoso. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, tantoste que saída | foi, o crérigo filhou-a, e fez logo dela poos, | e em sa bolsa guardo[u]-a; e, quando disse sa missa, | consumiu-a e passou-a, e disse que lhe soubera | a manjar mui saboroso. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 As gentes que i estavam, | quand’ houverom esto visto, loarom muito a madre | do santo rei Jesu-Cristo; e des ali adeante | foi o crérigo por isto mui mais na fé confirmado, | e nom foi luxurioso. 68 Muito bom miragr’ a Virgem | faz estranho e fremoso, porque a verdad’ entenda | o nêicio perfioso. 64 R11 * * * 461 Cantigas de Santa Maria 226 «Assi pod’ a Virgem so terra guardar» (E 226, F [13]) Esta é como o mõesteiro d’ Ingraterra que s’ afondou, a cabo dum ano saiu acima assi como x’ ant’ estava, e nom se perdeu nulh’ home nem enfermou. R0 2 I 4 6 Assi pod’ a Virgem so terra guardar o seu com’ encima dela ou no mar. E dest’ um miragre, per quant’ aprendi, vos contarei ora, grande, que oí que Santa Maria fez, e cred’ a mi que maior deste nom vos posso contar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ena Gram Bretanha foi ũa sazom que um mõesteiro de religiom grand’ houv’ i, de monges que de coraçom serviam a Virgem beita sem par. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E Santa Maria, u todo bem jaz, mostrava ali de miragres assaz e tinha o logo guardad’ e em paz; mais quis Deus por ela gram cousa mostrar: 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que dia de Páscua, u Deus resorgiu, começand’ a missa os monges, s’ abriu a terr’ e o mõesteiro se somiu que nulha rem del nom poderom achar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E log’ assi todo so terra entrou que niũa rem de fora nom ficou; mas Santa Maria alá o guardou que niũa rem nom pôde del minguar: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI eigreja nem claustra ne-no dormidor ne-no cabídoo ne-no refertor ne-na cozinha e ne-no parlador nem enfermaria, u cuidam sãar, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII adega e vinhas com todo o seu, hortas e moinhos, com’ aprendi eu, guardou bem a Virgem, e, demais, lhes deu todo quant’ eles souberom demandar. 40 42 462 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E assi viíam alá dentr’ o sol como sobre terra; e toda sa prol fazer-lhes fazia, e triste nem fol nom foi nium deles, nem sol enfermar, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX per rem, nom leixou mentre forom alá, nem ar que morressem come os dacá morriam de fora: ca poder end’ há de fazer tod’ esto e mais, sem dultar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Um grand’ an’ enteiro assi os ter foi Santa Maria; mais pois foi fazer que dali saíssem polo gram poder que lhe deu seu filho po-la muit’ honrar. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Ca dia de Páscua, em que resorgir Deus quis, forom todos a missa oir; entom fez a Virgem o logar sair todo sobre terra como x’ ant’ estar 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII soía, que sol nom ém menguava rem. E a gente toda foi alá porém, e o convento lhes contou o gram bem que lhes fez a Virgem; e todos loar 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 a forom porém como madre de Deus, que mantém e guarda aos que som seus. Porém a loemos sempr’, amigos meus, ca esta nos ceos nos fará entrar. 80 Assi pod’ a Virgem so terra guardar o seu com’ encima dela ou no mar. 76 R13 * * * 463 Cantigas de Santa Maria 227 «Quem os pecadores guia e aduz a salvaçom» (E 227, F [87]) Como Santa Maria sacou um escudeiro de cativo, de guisa que o nom virom os que guardavam o cárcer em que jazia. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem os pecadores guia | e aduz a salvaçom, bem pode guiar os presos, | pois os saca de prijom. Esta é Santa Maria, | madre do rei de vertude, que fez um mui gram miragre | que creo, se Deus m’ ajude, e que sacou um cativo | de prijom e deu saúde, a que muito mal fezeram | os mouros por sa razom. [Refrão = vv. 1-2] Este foi um escudeiro | de Quintanela d’ Osonha, que ia a Vila-Sirga | cada ano sem vergonha ter a festa d’ agosto; | mas, pois foi por sa besonha a Sevilha ena guerra, | caeu em cativ’ entom. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, em gram coita jazendo, | cada noit’ e cada dia mui de coraçom rogava | a Virgem Santa Maria de Vila-Sirga, u ele | ia sempr’ em romaria, que de cativ’ o tirass[e] | sem dano e sem lijom. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, el aquesto fazendo, | chegou d’ agosto a festa da Virgem mui groriosa, | que aos coitados presta, e el nembrou-s’ end’, e logo | chorou, baixando a testa. E os mouros que o virom | preguntaro-no entom 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V por que siía tam trist’ e | tam muit’ e assi chorava. E el respondeu-lhes logo | de como xe lhe nembrava da gram festa que faziam | na terra u el morava em tal dia, e porende | quebrava-lh’ o coraçom. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quand’ oiu esto seu dono, | foi tam brav’ e tam irado que logo a um seu mouro | o fez açoutar privado, que lhe deu d’ açoutes tantos | que nom ficou no costado ne-no corpo coiro são | atá eno vargalhom. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois mando’-o em um cárcer | deitar fond’ e tevroso; mas el rogou aa Virgem, | madre do rei grorioso, que dele s’ amerceasse, | ca por ela tam astroso o fezeram a açoutes | os mouros, e por al nom. 40 42 464 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, el aquesto dizendo, | pareceu-lh’ a groriosa que alumou o cárcer | (tam muito vo fremosa), e disse-lh’: “– Oí ta coita | e nom fui mui vagarosa em vĩir pera livrar-te | daquesta perseguçom”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, quando lh’ est’ houve dito, | logo s’ os ferros partirom e caeu-lh’ a meadade | deles, que o nom oírom; e passou perant’ os mouros | e viu-os, mas no-no virom, que estavam assũados | por fazer sa oraçom. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, pois deles foi partido, | filhou em seu col’ aginha a meadade dos ferros | que ena perna tiinha, e a Vila-Sirga logo, | a cas da santa reinha, os aduss’ em testimonha, | que é preto de Carrom. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 E entrou pela igreja, | dando mui grandes braados, dizend’: “– Esto fez a Virgem | que acorr’ aos coitados”. E, pois que contou seu feito | a quantos i viu juntados, loarom Santa Maria, | chorando com devoçom. 68 Quem os pecadores guia | e aduz a salvaçom, bem pode guiar os presos, | pois os saca de prijom. 64 R11 * * * 465 Cantigas de Santa Maria 228 «Tant’ é grand’ a sa mercee da Virgem e sa bondade» (E 228, F [88]) Esta é como um home bõo havia um muu que era tolheito de todo-los pees, e o home bõo mandava-o esfolar a um seu mancebo, e, mentre que o mancebo se guisava, levantou-s’ o muu são e foi pera a eigreja. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Tant’ é grand’ a sa mercee | da Virgem, e sa bondade, que sequer nas bestas mudas | demostra sa piadade. E desto fez em Terena | a Virgem Santa Maria gram miragre por um home | que um seu muu havia tolheito d’ ambo-los pees, | que atrás tortos tragia, que sãou por sa vertude; | e porém bem m’ ascuitade. [Refrão = vv. 1-2] Este mal a aquel muu | per gram door lhe vera de gota que aas pernas | e aos pees houvera; e porende no estabro | um mui gram tempo jouvera que sol andar nom podia, | esto vos dig’ em verdade. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Quand’ aquesto viu seu dono, | atám muito lhe pesava que, por delivrar-se dele, | log’ esfolar o mandava a um seu hom’. E, enquanto | o manceb’ ant’ emorçava, foi-s’ o muu levantando | com sua enfermidade, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e saiu passo da casa | e foi contra a eigreja, indo frac’ e mui cansado; | mas a que beita seja, tanto que foi preto dela, | fez maravilha sobeja: ca o fezo logo são, | sem door e sem maldade. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V O manceb’ a que seu dono | já esfolar o mandara, poi-lo nom viu, foi pos ele | per ali per u passara, e viu-o par da eigreja, | mas nom tal qual o leixara; e foi ém maravilhado | e diss’ à gent’: “– Uviade, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e veredes maravilha | estranha com gram proveito deste muu, que ant’ era | dambo-los pees tolheito, como o vej’ ora são | andar e muit’ escorreito; e vejamos se é esse, | e comigo o catade”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E logo forom veê-lo | todos quantos i estavam, e adur o conhociam, | pero o muito catavam, 40 466 42 senom pola coor dele | em que se bem acordavam; mas saco’-os desta dulta | a Virgem por caridade: R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que, ali u o catavam, | andou ele muit’ aginha três vegadas a eigreja | da Virgem Santa reinha a derredor; e a gente, | que lhe bem mentes tĩinha, viro-no com’ entrou dentro, | mostrando grand’ homildade, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 e bem ant’ o altar logo | houv’ os golhos ficados, e pois foi-s’ a cas seu dono, | onde mui maravilhados eram quantos i estavam. | E muitos loores dados forom a Santa Maria, | comprida de santidade. 56 Tant’ é grand’ a sa mercee | da Virgem, e sa bondade, que sequer nas bestas mudas | demostra sa piadade. 52 R9 * * * 467 Cantigas de Santa Maria 229 «Razom é grand’ e dereito que defenda bem a si» (E 229) Como Santa Maria guardou a sa eigreja em Vila-Sirga dos mouros que a queriam derribar, e fez que fossem ende todos cegos e contreitos. R0 2 I 4 6 Razom é grand’ e dereito | que defenda bem a si a que defend’ outros muitos, | per com’ eu sei e oí. E dest’ um mui gram miragre | avo, tempo há já, quando el-rei Dom Alfonso | de Leom aduss’ acá mouros por roubar Castela, | e chegarom bem alá u ora é Vila-Sirga, | segundo que aprendi. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E forom aa eigreja, | em que lavravam entom homees muitos da terra | por haver de Deus perdom; e, quando virom as hostes | dos mouros, log’ a Carrom fogirom, e a igreja | desampararom assi. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E os mouros dentr’ entrarom, | e quiserom derribar toda a igreja logo | e destroir e queimar; mas, per poder que houvessem, | nom poderom acabar d’ arrancar a mor pedra | de quantas estavam i. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Demais, a força dos nembros | lhes fez a Virgem perder, assi que, per nulha guisa, | nom poderom mal fazer, e, sem aquesto, dos olhos | nom poderom rem veer: assi cegos e contreitos | os levarom bem dali. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Desta guisa amparada | a eigr[ej]’ entom ficou pola vertude da Virgem | santa, em que encarnou Jesu-Cristo, e foi home, | e ena cruz nos salvou, per que do poder do demo | ficamos livres des i. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Pois souberom os da terra | esto, derom gram loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, porque o seu bem guardara | e fora defendedor. Porém mercee lhe peço | que queira defender mi. 38 Razom é grand’ e dereito | que defenda bem a si a que defend’ outros muitos, | per com’ eu sei e oí. 34 R6 * * * 468 Cantigas de Santa Maria 230 «Tod’ home deve dar loor» (E 230, F [64]) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Dereit’ é de loores dar a aquela que sempre dá seu bem, que nunca falirá; e porend’, assi Deus m’ ampar, 8 tod’ home deve dar loor aa madre do salvador. 4 R1 II 12 E, pois nos dá tam nobre dom que nos faz o amor de Deus haver e que sejamos seus, porend’, assi Deus me perdom, 14 tod’ home deve dar loor aa madre do salvador. 10 R2 III 18 E, pois tam poderosa é e com Deus há tam gram poder que, quanto quer, pode fazer, por aquesto, per bõa fé, 20 tod’ home deve dar loor aa madre do salvador. 16 R3 Tod’ home deve dar loor aa madre do salvador. * * * 469 Cantigas de Santa Maria 231 «Vertud’ e sabedoria» (E 231, U (Ap) 4) Esta é como Santa Maria fez que três meninhos alçassem em Costantinobre os mármores que nom podiam alçar toda a gente que s’ i ajuntava. R0 2 I 4 6 Vertud’ e sabedoria de bem há Santa Maria. Mui gram vertude provada Deus, seu filho, lh’ houve dada u prês sa carne sagrada por nós, que salvar queria. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ar mui gram sém lh’ houve dado u em ela enserrado foi, ca bem ali mostrado lh’ houve do bem que sabia. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Porém Costantin’ eigreja desta que beita seja fazia, grande sobeja, em que gram custa prendia. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E dava muitos dinheiros aos maestres pedreiros que lhe trouxessem enteiros mármores de Romania, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 os ũus pera altares, e outros pera piares; porém, de muitos logares ali tragê-los fazia. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E tam grande-los trouxerom que depois, quando quiserom alçá-los, nunca poderom per niũa maestria. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Ca, macar s’ i ajuntava toda a gent’ e provava d’ alçá-los, sol nom alçava o mor que i havia. 470 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Ond’ o maestre, coitado, era ém muit’ aficado, porque sol dar i recado per nulha rem nom podia. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 Mai-la da gram piedade, mui sag’ e de gram bondade, mostrou-se com claridade ao maestr’ u dormia, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 e disse: “– Se me creveres e meu mandado fezeres e as pedras alçar queres, porrei-t’ end’ eu ena via: R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 esto é que filhes cedo três meninhos mui sem medo, e farei-lhes alçar quedo as pedras sem gemetria”. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 O maestre s’ espertava e os mininhos filhava, e, bem com’ ela mandava, aquelas pedras ergia R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 sem ajuda de companha nem d’ engenho nem de manha, senom per vertud’ estranha da beita que nos guia, R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 que faz miragres fremosos muitos e maravilhosos por nos fazer desejosos d’ havermos sa companhia. 86 Vertud’ e sabedoria de bem há Santa Maria. 82 R14 * * * 471 Cantigas de Santa Maria 232 «Em toda-las grandes coitas há força grand’ e poder» (E 232, F [65]) Como um cavaleiro que andava a caça perdeu seu açor, e, quando viu que o nom podia achar, levou ũu açor de cera a Vila-Sirga, e acho’-o logo. R0 2 I 4 6 Em toda-las grandes coitas | há força grand’ e poder a madre de Jesu-Cristo | d’ a que-na chama valer. Ca enas enfermidades | há ela poder atal que as tolhe e guarece | a quenquer de todo mal, e outrossi enas perdas | ao que a chama val; e daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora dizer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Trevinh’ um cavaleiro | foi que era caçador, e perdeu, andand’ a caça | ũa vez, um seu açor, que era fremos’ e bõo; | demais, era sabedor de filhar bem toda ave | que açor dev’ a prender. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Des i, era mui fremoso, | e ar sabia voar tam apost’ e tam aginha | que nom lh’ achavam seu par eno reino de Castela; | e um dia, pois jantar, foi com el filhar perdizes, | e houve-o de perder. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Tod’ aquel dia busco’-o, | mais per rem no-no achou; e foi-se pera sa terra, | e seus homes enviou buscá-lo a muitas partes, | e por el tanto chorou, pois viu que o nom achavam, | que cuidou ensandecer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Assi passou quatro meses, | segundo eu aprendi, que o buscou, mais achá-lo | nom pôde, per com’ oí; e com coita mandou cera | filhar, e disso assi: “– Faça-m’ um açor daquesta, | ca o quer’ ir oferer 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI aa Virgem groriosa | de Vila-Sirga, ca sei que, se eu aquesto faço, | que meu açor acharei”. E esto foi logo feito; | e foi-s’ e, com’ apres’ hei, foi aquel açor de cera | sobe-lo altar põer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E rogou Santa Maria, | chorando dos olhos seus, chamando-lhe: “– Piadosa | Virgem e madre de Deus, senhor santa e beita, | mostra dos miragres teus por que meu açor nom perça, | ca be-no podes fazer”. 40 42 472 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Pois que sa oraçom feita | houve, ar tornou-s’ entom a sa casa u morava, | chorando de coraçom; e, pois entrou pela porta, | catou contra um rancom e viu seu açor na vara, | u xe soía, seer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 Quand’ esto viu, os golhos | pôs em terra, e a faz, loando Santa Maria, | que taes miragres faz; e aa vara foi logo | filhar seu açor em paz ena mão, e a Virgem | começou a beizer. 56 Em toda-las grandes coitas | há força grand’ e poder a madre de Jesu-Cristo | d’ a que-na chama valer. 52 R9 * * * 473 Cantigas de Santa Maria 233 «Os que bõa morte morrem e som quitos de pecados» (E 233, F [62]) Esta é como Santa Maria defendeu um cavaleiro que se colheu a ũa eigreja sua, dũus cavaleiros que o queriam matar. R0 2 I 4 6 Os que bõa morte morrem | e som quitos de pecados, som com Deus e com sa madr’ e | sempre fazem seus mandados. Desto direi um miragre | que mostrou Santa Maria por um mui bom cavaleiro | que em ela bem creía e a que seus emigos | quiserom matar um dia, se lh’ ela ’ntom nom valesse, | que val sempr’ aos coitados. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II El muit’ homeziad’ era | e sempr’ após el andavam aqueles seus emigos, | porque matá-lo cuidavam; mas um dia que o soo | eno caminho achavam, a el correr se leixarom, | dando mui grandes braados, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III dizendo-lhe: “– Morreredes!”. | Mas el no-nos esperava, ca tragia bom cavalo, | que o deles alongava; e log’ a ũa ermida | foi da Virgem, u entrava, que é cabo Pena-Cova | (u jaziam soterrados 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV homes bõos do tempo | que se perdera a terra, que os mouros gaanharam, | e os mataram na guerra); e ali Santa Maria | o amparou, que nom erra, em com’ agor’ oiredes | se esteverdes calados. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ele de Santo Domingo | de Silos entom saíra, e, quando foi na carreira | e, como vos dixe, vira seus emigos pos ele | vĩir e que lhes fugira, entrou naquela ermida | dizendo: “– Os meus pecados, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI madre de Deus, som tam muitos | que, se me nom perdõares tu, que o bem fazer podes, | ou se me nom amparares destes que me matar querem, | par Deus, muitos de pesares te farám os malcreentes, | que andam desasperados”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Enquant’ el esto dizia, | os cavaleiros mui toste chegarom po-lo matarem; | mas virom estar grand’ hoste ant’ a porta da eigreja, | que era em um recoste, 40 474 42 e tod’ aquel logar cho | era d’ homees armados, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que lho defender queriam, | se s’ eles a el chegassem. E, quand’ eles esto virom, | med’ houverom que s’ achassem mal de Deus e de sa madre | se i mais fazer provassem, e afastarom-s’ afora, | ca forom muit’ espantados. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Ca bem virom que aqueles | que o ajudar veram, em como toste chegarom, | que deste mundo nom eram; e porende repentidos | forom de quanto fezeram, e perdõarom-lhe logo, | e forom del perdõados, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 e de sũu se tornarom. | E, pois as gentes souberom da terra este miragre, | mui gram prazer end’ houverom; e todos comunalmente | a Santa Maria derom loores, porque som sempre | os seus por ela guardados. 62 Os que bõa morte morrem | e som quitos de pecados, som com Deus e com sa madr’ e | sempre fazem seus mandados. 58 R10 * * * 475 Cantigas de Santa Maria 234 «A que faz os pecadores dos pecados repentir» (E 234) Esta é como Santa Maria de Vila-Sirga fez oir e falar um moço que era sordo e mudo, porque teve vigia ũa noit’ ant’ o seu altar. R0 2 I 4 6 A que faz os pecadores | dos pecados repentir, bem pod’ os mudos e sordos | fazer falar e oir. Ca, macar é mui gram cousa | de fazer mudo falar, e oir o que for sordo, | mui maior, se Deus m’ ampar, é de perdõar pecados; | ca, se de Deus nom ganhar vertude pera fazê-lo, | nom pod’ aquesto comprir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E porend’ a groriosa | Virgem, que o troux’ em si enserrado no seu corpo, | fez, per com’ eu aprendi, falar ũa vez um mudo | que era sord’ outrossi, e destas duas doores | o foi mui toste guarir. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este moço de Saldanha | era, per com’ apres’ hei, natural, e Dom Rodrigo | o criou, per quant’ eu sei, que tiinh’ aquela terra, | ca ricom’ era del-rei, e que com seus cavaleiros | lha havia de servir. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde lh’ avo um dia | que em coraçom lh’ entrou que se foss’ a Vila-Sirga; | e foi i, e pois chegou, aquel moço sord’ e mudo | alá consigo levou e feze-o essa noite | bem ant’ o altar dormir. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Outro dia na manhãa | a missa mandou dizer da Virgem Santa Maria, | de que Deus quiso nacer; e, quando foi ena sagra, | começou-s’ a correger a líng[u]a daquele moço, | e as orelhas d’ abrir. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 E, quand’ a missa foi dita, | que nom faliu ende rem, falou log’ aquele moço, | e outrossi oiu bem. E quantos ali estavam | loarom muito porém a Virgem Santa Maria, | e forom-lh’ alg’ oferir. 38 A que faz os pecadores | dos pecados repentir, bem pod’ os mudos e sordos | fazer falar e oir. 34 R6 * * * 476 Cantigas de Santa Maria 235 «Como gradecer benfeito é cousa que muito val» (E 235) Esta é como Santa Maria deu saúde al-rei Dom Afonso quando foi em Valadolide enfermo que foi juigado por morto. R0 2 I 4 6 Como gradecer benfeito | é cousa que muito val, assi quem no-no gradece | faz falsidad’ e gram mal. E daquest’ um gram miragre | vos direi desta razom, que avo_a Dom Afonso, | de Castel’ e de Leom rei, e, da Andaluzia, | dos mais reinos que i som; e, por Deus, parad’ i mentes | e nom cuidedes em al. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aqueste Santa Maria | mui de coraçom, de pram, loava mais doutra cousa, | e nom prendia afám em servi-la noit’ e dia, | rogando seu bom talám que morress’ em seu serviço, | poi-lo seu bem nunca fal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, desto que lhe pedia, | tam muito a aficou por esto que ũa noite | em sonhos lho outorgou, ond’ ele foi muit’ alegre, | tanto que s’ el espertou, e loou porend’ a Virgem, | a senhor espirital. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Pois, passou per muitas coitas, | e delas vos contarei. ũa vez, dos ricos-homes, | que, segundo que eu sei, se jurarom contra ele | todos que nom fosse rei, seend’ os mais seus parentes | (que dívid’ é natural), 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e, demais, sem tod’ aquesto, | fazendo-lhes muito bem (o que lhe pouco graciam | e nom tiinham em rem); mais conortou-o a Virgem | dizendo: “– Nom dés porém nulha cousa, ca seu feito | destes é mui desleal; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI mas eu o desfarei todo | o que eles vam ordir, que aquelo que desejam | nunca o possam comprir; ca meu filho Jesu-Cristo | sabor há de se servir, e d’ hoimais mui bem te guarda | de gram pecado mortal”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Tod’ aquesto fez a Virgem, | ca deles be-no vingou. E depois, quand’ em Requena | este rei mal enfermou, u cuidavam que morresse, | daquel mal be-no sãou: fez por el este miragre, | que foi começ’ e sinal 40 42 477 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII dos bes que lhe fezera | e lhe queria fazer. E depois, quando da terra | saiu e que foi veer o papa que entom era, | foi tam mal adoecer que o teverom por morto | desta ’nfermidad’ atal. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, pois, a Mompisler vo | e tam mal adoeceu que, quantos físicos eram, | cada ũu bem creeu que sem dúvida mort’ era; | mas be-no per-guareceu a Virgem Santa Maria, | como senhor mui leal. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E feze-lh’ em poucos dias | que podesse cavalgar e que tornass’ a sa terra | por em ela bem sãar; e passou per Catalonha, | em que houve de filhar jornadas grandes no dia, | como quem and’ a jornal. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E, pois entrou em Castela, | verom todos ali, toda-las gentes da terra, | que lhe diziam assi: “– Senhor, tam bom dia vosco!”. | Mas depois, creed’ a mi, nunca assi foi vendudo | rei Dom Sanch’ em Portugal. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Ca os mais dos ricos-homes | se jurarom, per com’ eu sei, por [o] deitar do reino | e que ficasse por seu, que xo entre si partissem; | mas de fazer lhes foi greu, ca Deu-lo alçou na cima, | e eles baixou no val. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E depois, quand’ em Bitória | morou um an’ e um mês, jazendo mui mal doente, | contra el o rei francês se moveu com mui gram gente; | mas depois foi mais cortês, ca Deus desfez o seu feito | com’ água desfaz o sal. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E, depois, de muitos maes | o sãou, grandes e greus, que houve pois em Castela, | u quis o Filho de Deus que filhasse gram vingança | daqueles que eram seus emigos e pois dele; | e, bem com’ ard’ estadal, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV ardeu a carne daqueles | que nom queriam molher; os outros pera o demo | forom (e, se Deus quiser, assi irá tod’ aquele | que atal feito fezer; e do mal que lhes ém venha, | a mi mui pouco m’ incal). 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E, pois sair de Castela, | el-rei com mui gram sabor houve d’ ir aa fronteira; | mas a mui bõa senhor nom quis que entom i fosse, | se nom sãasse melhor; 94 478 96 porend’ em todo o corpo | lhe deu febre geral. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII E com esta ’nfermidade, | das outras sãar o fez; e, u cuidavam que morto | era, foi-se dessa vez dereit’ a Valedolide, | u a senhor mui de prez o guariu do que ficara. | Mas ante quis que em tal 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 ponto vess’ a seu feito, | que nom houvess’ i joiz que de vida o julgasse, | e a santa ’mperadriz lhe fez bem sentir a morte; | mais eno dia fiiz de Páscua quis que vivesse, | u fazem ciro pascual. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX E ar foi-o conortando, | ca maltreit’ era assaz, e de todas sas doores | o livrou bem e em paz, tragendo per el sas mãos, | e nom tiinha enfaz e parecia ma[i]s crara | que é rubi nem crestal. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX E tod’ aquesto foi feito | dia de Páscua, a luz, per ela e per seu filho, | aquel que seve na cruz, que tragia nos seus braços, | que pera nós sempr’ aduz a sa merce’ e sa graça | no perigo temporal. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI 126 Tod’ aquesto faz a Virgem, | de certo creed’ a mim, pera dar-nos bõa vida | aqui, e pois bõa fim; e porende a loemos | que nos meta no jardim de seu filh’ e que nos guarde | do mui gram fog’ ifernal. 128 Como gradecer benfeito | é cousa que muito val, assi quem no-no gradece | faz falsidad’ e gram mal. 124 R21 * * * 479 Cantigas de Santa Maria 236 «A santa madre daquele que a pé sobe-lo mar» (E 236, F [64 bis]) Como ũa molher perigoou no mar, e tragia um filho pequeno nos braços; e feze-a Santa Maria per cima das águas andar de pé, assi como iria per um mui bom chão. R0 2 I 4 6 A santa madre daquele | que a pé sobe-lo mar andou, guaanhar del pode | por fazer i outr’ andar. E dest’ um mui gram miragre | Santa Maria mostrou por ũa molher mesquinha, | que no mar morrer cuidou com seu filho que tragia; | mas a Virgem a livrou, com’ agora oiredes, | se quiserdes ascoitar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta em ũa galea | andava, com’ aprendi, de Marselha, dum c[o]ssairo | que diziam, com’ oí, «Pero Bonifaz» per nome; | mas um dia foi assi que se foi em um penedo | a galea espeçar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E pereceu a galea, | e morrerom log’ entom quantos em ela andavam, | que nom escapou barom nem molher das que i eram, | se aquela soa nom, pero foi ũa vegada | bem ao fondo do mar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E tragendo enos braços | entom aquel filho seu, eno coraçom a Virgem | rogou, com’ aprendi eu, dizendo: “– Senhor mui santa, | por amor do filho teu que sempre muito guardásti, | queiras este meu guardar”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ela aquesto rogando, | foi-lhe log’ aparecer a Virgem Santa Maria , | e foi-a logo prender pela mão, e da água | a começou a erger, dizendo: “– Nom hajas medo, | ca eu te venh’ ajudar”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI [E] bem assi pela mão | a levou bem sem afám tam quedo sobe-la água | assi come per um pram, e pose-a eno porto | de Marselha, u estám muitas gentes cada dia, | a que log’ ela contar 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII foi de como lh’ avera. | E todos logo, sem al, loarom Santa Maria, | reinha esperital, porque sempr’ aos coitados | enas grandes cuitas val; e log’ a aquela pobre | forom porém algo dar. 40 42 R7 44 A santa madre daquele | que a pé sobe-lo mar andou, guaanhar del pode | por fazer i outr’ andar. * * * 480 Cantigas de Santa Maria 237 «Se bem na Virgem confiar» (E 237, F [90]) Esta é como Santa Maria fez em Portugal, na vila de Santarém, a ũa molher pecador que nom morresse atá que fosse bem confessada, porque havia gram fiança em ela e jajũava os sábados e os dias das sas festas a pam e água. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 Se bem na Virgem confiar o pecador sabudo, querrá-o na morte guardar que nom seja perdudo. E desta confiança tal | vos direi, se quiserdes, que houve grand’ ũa molher; | e, pois que o souberdes, loaredes a madr’ entom | de Deus, se me creverdes, e haveredes des ali | o dem’ avorreçudo. [Refrão = vv. 1-4] Esta molher em Santarém, | com’ aprendi, morava, e, pero sa fazenda mal | fazia, confiava na madre do mantedor | do mund’ e jajũava o dia da encarnaçom, | que é ’stabeleçudo. [Refrão = vv. 1-4] As cinque festas da senhor | reinha corõada, jajũava esta molher | e nom comia nada senom pam e água, pero | seendo denodada muit’ em seu corp’ abaldõar: | est’ era conhoçudo. [Refrão = vv. 1-4] Outro costum’ esta molher | vos direi que havia: missa cada sábad’ oir | da madre de Deus ia, e em aquel dia fazer | maldade nom queria por haver nem por outra rem: | assi hei aprendudo. [Refrão = vv. 1-4] Vivend’ esta molher assi, | estand’ em tal estado como vos retraí ant’ eu, | tev’ assi por guisado d’ ir a sa terra; e entom | vestiu-se bem pr[i]vado e saiu-se dali entom, | e nom muit’ ascondudo. [Refrão = vv. 1-4] Mais aquel dia que sair | havia, sábad’ era, e foi missa oir entom, | ca tal costum’ houvera sempre tal di’; e um garçom | seu houv’ ém coita fera, e com outros pos ela foi | como louc’ atrevudo. 481 R6 49-52 VII 54 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 [Refrão = vv. 1-4] E foi-a entom acalçar | caminho de Leira; pelos cabelos a tirou | do caminh’ a gram pa. Ela começou vozes dar: | “– Ai eu em terr’ alha!, a que mal tempo me chegou | meu feito decebudo!”. [Refrão = vv. 1-4] Quis aquel vilão comprir | sa voontade logo com ela, mais disse-lh’ assi | ela: “– Por Deus te rogo que nom seja, ca sábad’ é: | sequer a um moogo, meu abade, o prometi”. | Mais el foi demovudo [Refrão = vv. 1-4] contra ela, o traedor, | e diz: “– Se nom fezeres ora quant’ eu quiser, aqui | o corp’ e quant’ houveres perdud’ hás”. E ela respôs: | “– Podes quanto quiseres fazer, mas ant’ eu morrerei, | vilão, falso, rudo”. [Refrão = vv. 1-4] El com gram despeito travou | dela, e ameúde chamou ela: “– Madre de Deus, | valha-m’ a ta vertude; a meu mal nom queiras catar, | mas o teu bem m’ ajude e os grandes miragres teus, | que o dem’ ham vençudo; [Refrão = vv. 1-4] senhor, senhor de gram poder, | valha-m’ a ta bondade, nom me leixes perder assi, | pola ta piadade; guarda-me polo prazer teu | do dem’ e de sa grade, so que el muitos meter vai, | e do seu dent’ agudo; [Refrão = vv. 1-4] senhor, sempr’ em ti confiei, | comoquer que pecasse, que dos grandes erros que fiz | a emenda chegasse; e nom hei, mal pecado, já | temp’ em que os chorasse, mas tu, madre do alto rei, | sei hoje meu escudo”. [Refrão = vv. 1-4] Daquesta guisa se queixou, | feramente chorando, e nom se mãefestou. Mais | foro-na desnuando de quanto tragia entom, | e, ela braadando, muito lhe mostrou fals’ amor | aquel que foi seu drudo. [Refrão = vv. 1-4] Esbulhou-a aquel ladrom | falso com gram loucura; des i, degolou-a log’ i | sem do’ e sem mesura; mais a de que ’l-rei Salomom | falou, santa e pura, a sa oraçom bem oiu, | que sãa ceg’ e mudo. [Refrão = vv. 1-4] Pois que a assi degolou | mui longe da carreira, fogiu-s’ e leixou-a jazer | so ũa gesteira. E chegou logo bem ali | a santa verdadeira, 482 120 R15 121-124 XVI 126 128 R16 129-132 XVII 134 136 R17 137-140 XVIII 142 144 R18 145-148 XIX 150 152 R19 153-156 XX 158 160 R20 161-164 XXI 166 168 R21 169-172 XXII 174 176 R22 177-180 XXIII 182 184 R23 185-188 XXIV 190 que lhe diss’ entom: “– Erge-t’ ém, | ca, de pram, eu t’ ajudo”. [Refrão = vv. 1-4] Pela mão a foi filhar | a Virgem groriosa, ao caminho a levou; | des i, mui saborosamente a cofortou; entom | diz: “– Nom sejas queixosa, ca serás salva, porque é | já o dem’ abatudo”. [Refrão = vv. 1-4] E pois disse-lhe: “– Sei aqui, | nom temas nemigalha, e pornám que daqui a crás | mãefestes ta falha, quanta hás feita contra Deus; | e crei bem que te valha meu filh’, e viverás com El, | pero te ’stá sanhudo; [Refrão = vv. 1-4] evas um cavaleiro vem | per aquele recoste, que teu mandado levará | a Santarém mui toste; e do concelho sairá | contra ti mui grand’ hoste, e mui long’ este feito teu | seerá retraúdo”. [Refrão = vv. 1-4] Chegou-s’ o cavaleir’ entom | (ca andava aginha), e, pois que viu assi seer | esta molher mesquinha, sinou-s’ entom e diss’ assi: | “– Santa Virgem, reinha!: quem foi o que t’ assi matou?: | seja el cofondudo!”. [Refrão = vv. 1-4] “– Cavaleiro,” –diss’ ela ’ntom– | “– e porque vos sinades?: a mià senhor, madre de Deus, | faz esto, bem creades, que quer que me confess’ ant’ eu | que moira, entendades, que sobre-los santos tal dom | há ela recebudo; [Refrão = vv. 1-4] ca, porque a muito chamei | u m’ assi degolarom homees a que nunca fiz | mal e que me roubarom, porque fiei no seu amor, | sol que m’ eles leixarom por morta, vo log’ a mi, | que m’ há bem acorrudo; [Refrão = vv. 1-4] mais mãefest’ haja por Deus, | se bem fazer queredes, a que possa dizer meu mal; | e depois saberedes da Virgem o gram poder seu, | e já o bem veedes que nom lhe praz de me perder | com’ algum descreúdo”. [Refrão = vv. 1-4] O cavaleir’ a Santarém | se foi dereitamente, e tod’ aqueste feit’ entom | diss’ a toda a gente. E a crerizia dali | saiu[-se] mantenente: do concelho rem nom ficou, | nem grande nem miúdo. [Refrão = vv. 1-4] Adussero-na bem dali | u a o cavaleiro achou, e foi mui bem entom | confessada primeiro, 483 192 R24 194 196 e comungou-s’; e a madre | do filho verdadeiro log’ a alma dela levou, | que lh’ houve prometudo. Se bem na Virgem confiar o pecador sabudo, querrá-o na morte guardar que nom seja perdudo. * * * 484 Cantigas de Santa Maria 238 «O que viltar quer a Virgem, de que Deus carne filhou» (E 238, F [49]) Esta é como Deus se vingou dum jograr tafur que jogava os dados e, porque perdera, descreeu em Deus e em Santa Maria. R0 2 I 4 6 O que viltar quer a Virgem, | de que Deus carne filhou, se pois del filha vinganç’, a | maravilha no-no dou. A senhor que nos adusse | salvaçom e lum’ e luz, e que viu por nós seu filho | morte prender ena cruz, des i tem-nos amparados | do demo (que nos nom nuz), em bõo dia foi nado | que-na serviu e honrou. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E desto vos direi ora | ũa vingança que fez Jesu-Crist’ em Guimarães, | dum jograr mao rafez, que El e sa Virgem madre | santa e o seu bom prez, per que o mundo foi salvo, | ante todos dostou. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aqueste jograr jogava | os dados, com’ aprendi, e descreía tam muito | que quantos siíam i forom ém tam espantados | que se forom os mais di; mais el de viltar a Virgem | e Deus sol nom s’ enfadou. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Nom quis catar o maldito | como prendeu carne Deus na Virgem, e [que] pois prendeu | por el morte dos judeus, mais o coraçom proposo | e todo-los sisos seus em viltar Santa Maria, | de que Deus carne filhou. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E dezia que nom era | Deus nada, ne-no seu bem, e que o da Virgem fora | chufa, ca nom outra rem. E, el est’ e mais dizendo, | ei-vos um capelám vem que levava Córpus Chrísti | a um que i enfermou 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI na vila. E os golhos | ficarom todos entom ant’ aquel que da cada | nos foi tirar do dragom; e o jograr mal-andante | cospiu e disse que nom vira gente tam baveca, | e mui mal os dostou. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O capelám, quand’ o oiu | dizer mal do salvador do mundo, mui gram despeito | houve daquel traedor; e, pois se tornou du ia, | diss’ entom: “– Ai pecador d’ home, porque dostavas | ora o que te formou, 40 42 485 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII o que te fez de niente | e pois há-t’ a desfazer, e no dia do joízo | estarás a seu poder?; cativ’, e nom sabes esto, | nem t’ ar queres conhocer a aquel que do diabo | per seu sángui te livrou?; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e da Virgem groriosa | te nembra, e bem farás, e filha ta pedença | por aquesto que dit’ hás”. El respondeu escarnindo: | “– Crérigo, que torp’ estás!, o bem!; de Deus e da Virgem | reneg’, e aqui me dou 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que nom hajam em mim parte | e que xe me fagam mal e me metam, se podérem, | dentro no fog’ infernal”. Quand’ est’ o crérigo oiu, | diss’: “– Ai groriosa, val!; Deus filhe de ti vingança, | assi como se vingou 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI do traedor Simom Magos | encantador, que viltar foi assi Santa Maria | e seu filho desdenhar”. Esto diss’ o prest’, e foi-s’; e | o demo vo travar eno jograr que vos dixe, | e assi o apertou 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII que o torceu entom todo. | E assi vingar se quis Deus por si e por sa madre. | E desto seede fis: que nunca mais falou nada; | e porém, pa-Sam Dinis, atanto o tev’ o demo | tá que lh’ a alma sacou 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 do corpo e no inferno | a foi logo sobolir (ca assi ir deveria | quenquer que foss’ escarnir da Virgem e do seu filho, | que nos vo remiir): [ca] qual senhor ele serviu, | assi lho gualardõou. 80 O que viltar quer a Virgem, | de que Deus carne filhou, se pois del filha vinganç’, a | maravilha no-no dou. 76 R13 * * * 486 Cantigas de Santa Maria 239 «Guardar-se deve tod’ home de jurar gram falsidade» (E 239, F [21]) Esta é dum miragre que Santa Maria fez em Murça por um home que deu seu haver a guardar a outro, e negou-lho e jurou-lhe por el ant’ a majestade. R0 2 I 4 6 8 R1 9-10 II 12 14 16 R2 17-18 III 20 22 24 R3 25-26 IV 28 30 32 R4 33-34 V 36 38 40 R5 41-42 VI 44 46 Guardar-se deve tod’ home | de jurar gram falsidade ant’ a omagem da Virgem, | que é senhor de verdade. E desto vos quero falar dum gram miragre e contar, que Santa Maria mostrar foi em Murça, na cidade, por um que haver a guardar deu a outr’ em fialdade, [Refrão = vv. 1-2] que lho tevesse, por lho dar quando lho fosse demandar. Mas aquele foi-lho negar, dizendo: “– Gram torpidade fezestes sol desto cuidar, e alhur o demandade; [Refrão = vv. 1-2] ca eu nom tenho voss’ haver nem nunca foi em meu poder; e com’ ides ora dizer tal mentira?; e calade!”. Diss’ o outro: “– Ide fazer jura ant’ a majestade [Refrão = vv. 1-2] da Virgem, de que Deus prender quis carne por nós e nacer”. Disso-lh’ aquel: “– Sol deter nom me quero; pois andade a jura ende receber, e pois do al vos quitade”. [Refrão = vv. 1-2] D’ aquesto jurar nom dultou; e, pois que a jura jurou, da eigreja ir-se cuidou; mas esto foi vãidade, ca o queixo lhe derribou Deus com grand’ enfermidade. [Refrão = vv. 1-2] E quis falar, mas nom falou; e, pero a ir-se filhou, e, u a sa casa chegou, muit’ adur disse: “– Chamade um prest’” (a quem se confessou: 487 48 R6 49-50 VII 52 54 56 R7 57-58 VIII 60 62 64 R8 65-66 IX 68 70 72 R9 73-74 X 76 78 80 R10 81-82 XI 84 86 88 R11 89-90 XII 92 94 96 R12 98 destes mores um frade). [Refrão = vv. 1-2] E começou-s’ a repentir de seus pecados e sentir; mas aquel nom quis descobrir, de que fez grand’ idade, ca outra doô-lo ferir foi porém, par caridade; [Refrão = vv. 1-2] e tam muito o foi seguir que já nom pude mais mentir, e o frade fez [i] vĩir, dizendo: “– Por Deus, uviade; ca a alma mi quer sair, porque menti; e vós dade[Refrão = vv. 1-2] mi conselho, ca fiz gram mal, ca jurei come desleal, par Deus, gram mentira mortal; e a Deus por mi rogade, e, ao que fui mentiral, o seu do meu lho pagade; [Refrão = vv. 1-2] e a Virgem, que pod’ e val, madre do rei espirital, por mi rogad’ em guisa tal que nom cate mià maldade”. E a tercer dia, sem al, foi mort’. E porém loade [Refrão = vv. 1-2] a Virgem mui de coraçom todos com [mui] gram devoçom, que sempre d’ err’ e d’ ocajom nos guarde por sa bondade, e que de seu filho perdom nos dé por sa piedade, [Refrão = vv. 1-2] assi que do demo felom nom entremos em sa prijom, nem caiamos em cofojom, mentindo por livialdade; e, pois El prês por nós paxom, dé-nos no seu rein’ herdade. Guardar-se deve tod’ home | de jurar gram falsidade ant’ a omagem da Virgem, | que é senhor de verdade. * * * 488 Cantigas de Santa Maria 240 «Os pecadores todos loarám» (E 240, F [27]) Esta é [de] loor de Santa Maria. R0 2 I 6 e-na loar e dizer o seu bem e nom cuidar nunca em outra rem; ca, pois que pecam per seu mao sém, roga por eles a do bom talám. 8 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 4 R1 II 12 e-na loar, e sempr’ eu loarei os seus feitos, ca outro bem nom hei; e, por aquesto, dereito farei, e os coitados dereito farám. 14 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 10 R2 III 18 e-na loar e sempr’ esto fazer polas sas coitas, de que faz lezer quando Deus vee irado seer polos pesares que lhe fazer vam. 20 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 16 R3 IV 24 e-na loar e nunca fazer al; ca, u a chamam, sempr’ ela i val, e per ela somos livres de mal e do pecado que fezo Adám. 26 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 22 R4 V 30 e-na loar e dizer o seu prez e quanto bem ela no mundo fez e como roga por nós cada vez que pecamos, por nos salvar, de pram. 32 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 28 R5 VI 36 e-na loar, e dereito será; ca muito bem nos fez sempr’ e fará, e, se nom foss’ ela, fôramos já todos com Abirom e com Datám. 38 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 40 e-na loar, e farám gram razom; ca ela ped’ a seu filho perdom 34 R6 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham VII 489 R7 42 quand’ eles erram, e outro padrom nunca houverom ne-no haverám. 44 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham VIII 48 e-na loar, e quem esto fezer fará dereito, pois sempr’ ela quer rogar por nós u nos há mais mester, por nos tirar de coitas e d’ afám. 50 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 46 R8 IX 54 e-na loar, ca Deus nom lhe fez par; e porém devemos a confiar dela, que por nós Deus verrá rogar ali u todos muito temerám. 56 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham 52 R9 X 60 e-na loar, ca u Nostro Senhor eno juízo mais irado for, perdõar-lhes-á polo seu amor, e estes taes nom se perderám. 62 Os pecadores todos loarám Santa Maria, ca dereit’ i ham. 58 R10 * * * 490 Cantigas de Santa Maria 241 «Parade mentes ora» (E 241, F [52]) Esta é como um meninho que era esposado com ũa meninha caeu de cima dũa muit’ alta pena em fondo, e quebrou per todo o corpo e morreu; e sa madre começo’-o de pedir a Santa Maria, e deu-lho viv’ e são, e ontr’ o moço e sa esposa meterom-s’ em ordem. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Parade mentes ora como Santa Maria d’ acorrer nom demora a quem por ela fia. E, se m’ oir quiserdes | e parardes femença, direi-vos um miragre | em que hei gram creença, que fez a groriosa | em terra de Proença por ũa dona viúva | que um seu filh’ havia. [Refrão = vv. 1-4] Outra don’ a par desta | morava, sa vezinha, viúv’, e ũa filha | havia fremosinha; e o filho da outra | pagou-se da meninha, e, com’ é de costume, | por molher a pedia. [Refrão = vv. 1-4] Assi foi que as donas | prougue-lhes deste feito: esposarom os moços | entom pelo congeito dum crérigo mui santo, | que juntou este preito, prazend’ aos parentes | muito da preitesia. [Refrão = vv. 1-4] Log’ a madre do moço | convidou de bom grado a moça e sa madre, | e mandou bem provado guisar de comer toste; | e, o jantar guisado, nom quis jantar o moço | logo, porque servia. [Refrão = vv. 1-4] O meninho andava, | com prazer da esposa, servindo gram companha | de donas e fremosa que s’ i entom chegara; | mais quis a groriosa mostrar i sa vertude | no meninh’ aquel dia. [Refrão = vv. 1-4] A casa u jantavam | em um pened’ estava muit’ alt’ e muit’ esquivo, | u a dona morava; e o meninho_um vaso | em sa mão filhava contra ũa festra, | e lavar o queria. [Refrão = vv. 1-4] Ao demo nom prougue | dest’, e com grand’ enveja revolveu a pousada | o que maldito seja: 491 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 89-92 XII 94 96 R12 97-100 XIII 102 104 R13 105-108 XIV 110 112 R14 113-116 XV 118 120 R15 121-124 XVI el (que toda maldade | ama sempr’ e deseja) fez o prazer em doo | tornar, ca lhe prazia. [Refrão = vv. 1-4] Estev’ o moç’ o vaso | na festra lavando, e deitou-se de peitos, | e foi jaquê pesando mais de-la cinta suso; | foi o demo puxando da outra part’, e fora | pela pena caía. [Refrão = vv. 1-4] Saiu muit’ ao moço | sangue pelas orelhas, e quebrarom-lh’ os braços, | olhos e sobrencelhas, e houve feramente | desfeita-las semelhas; e foi o moço morto | alá jus’ u jazia. [Refrão = vv. 1-4] Contar nom poderia | do doo que fezerom a sogr’ e a meninha | e quantos i severom; mais a madre do moço, | pero se del dolverom todos, sol nom chorava | por el nem se carpia. [Refrão = vv. 1-4] A madre do meninho, | que havia fiança na Virgem groriosa, | sem neũa dultança, feze-o levar logo | com mui grand’ esperança ant’ o altar da Virgem, | e assi lhe dizia: [Refrão = vv. 1-4] “– Ai Virgem groriosa, | tu que um filh’ houviste por salvaçom do mundo, | e criast’ e nodriste, des i de mort’ esquiva, | senhor, matá-lo viste, e sabes com’ há coita | de filho que-no cria; [Refrão = vv. 1-4] senhor, dá-me meu filho, | ca bem podes fazê-lo, ca de punhar i muito | nom hás, senom querê-lo; porende dá-mi_o vivo, | que eu possa havê-lo pera o teu serviço; | se nom, morta seria”. [Refrão = vv. 1-4] Per oraçom da madre | o moço deu levada do leit’ em que jazia, | e viv’ essa vegada deu vozes contra todos: | diss’: “– Ai!, de que pousada me tirastes, mià madre, | u viçoso vivia!” [Refrão = vv. 1-4] Ficou aquel meninho | viv’ e tam bem guarido que sol nom parecia | per u fora ferido. Deu sa madr’ a Deus graças | que lhe tam bem comprido foi o que demandava | e donde se doía. [Refrão = vv. 1-4] Prometeu aquel moço | que em ordem entrasse 492 126 128 R16 129-132 XVII 134 136 R17 137-140 XVIII 142 144 R18 146 148 e manter castidade | nos dias que durasse, e de toda folia | des ali se quitasse; e outrossi a moça | assi o prometia. [Refrão = vv. 1-4] Ambos filharem órdim | teverom por gram viço, e a Santa Maria | fezerom i serviço sempr’ enquanto viverom, | e destoutro boliço do mundo se quitarom | e de toda folia. [Refrão = vv. 1-4] Este miragr’ escrito | foi logo mantenent’ e deu a Santa Maria | graças toda a gente; e nós assi façamos, | ca bem sei certamente que é dos pecadores | esforç’ e lum’ e via. Parade mentes ora como Santa Maria d’ acorrer nom demora a quem por ela fia. * * * 493 Cantigas de Santa Maria 242 «O que no coraçom d’ home é mui cruu de creer» (E 242, F [68]) Esta é como Santa Maria de Castroxeriz guariu de morte um pedreiro que houvera de caer de cima da obra, e esteve pendorado e teve-se nas pontas dos dedos da mão. R0 2 I 4 6 O que no coraçom d’ home | é mui cruu de creer, pode-o Santa Maria | mui de ligeiro fazer. E d’ ela fazer aquesto | há gram poder, a-la-fé, ca Deus lhe deu tal vertude | que sobre natura é; e porém, macar nos ceos | ela com seu filho sé, mui tost’ acá nos acorre | sa vertud’ e seu poder. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E dest’ um mui gram miragre | vos quer’ eu ora contar que em Castroxeriz fezo | esta reinha sem par por um bom home pedreiro, | que cada dia lavrar ia ena sa igreja, | que nom quis leixar morrer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Est’ era mui bom maestre | de pedra põer com cal, e, mais doutra rem, fiava | na Virgem esperital; e porende cada dia | vĩía i seu jornal lavrar em cima da obra. | E houve d’ acaecer 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV um dia em que lavrava | no mais alto logar di da obr’, e ambo-los pees | lhe falirom e assi cuidou caer, e a Virgem | chamou: per com’ aprendi, os dedos em ũa pedra | deitou, e fê-lo ter 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a Virgem Santa Maria: | enas unlhas atám bem o tevo, macar gross’ era, | que sol nom caeu, per rem; e assi chamand’ estava | a senhor que nos mantém, dependorado das unlhas | e colgado por caer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E estev’ assi gram peça | do dia, com’ apres’ hei, que acorrudo das gentes | nom foi, segund’ eu achei; mas acorreu-lhe a Virgem, | a madre do alto rei, atá que vo a gente | e o fez ém decender. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Todos quantos esto virom | loarom de coraçom a Virgem Santa Maria, | e aquel pedreir’ entom ant’ o seu altar levarom, | chorando com devoçom; e fezerom o miragre | per essa terra saber. 40 42 R7 44 O que no coraçom d’ home | é mui cruu de creer, pode-o Santa Maria | mui de ligeiro fazer. * * * 494 Cantigas de Santa Maria 243 «Carreiras e semedeiros» (E 243) Como ũus falcõeiros que andavam a caça estavam em coita de morte em um regueiro, e chamarom Santa Maria de Vila-Sirga, e ela por sa mercee acorreu-lhes. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 50 52 Carreiras e semedeiros busca a Virgem Maria pera fazer todavia seus miragres verdadeiros. E de tal razom com’ esta | avo ũa vegada um miragre mui fremoso, | que a Virgem corõada mostrou cabo Vila-Sirga | per ũa mui gram geada: como guareceu de morte | estranha dous falcõeiros. [Refrão = vv. 1-4] Estes com el-rei andavam | Dom Afons’, e seus falcões tragiam, e ar caçavam | com eles muitas sazões sem el, mas por seu mandado. | Aquestes dous companhões nom quiserom chamar outro | e forom caçar senlheiros. [Refrão = vv. 1-4] E, pois forom na ribeira, | u muitas aves andavam, aas ãades deitarom | os falcões, que montavam; des i, decerom a elas, | e assi as aaguavam que com coita se metiam | so o geo nos regueiros. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ esto os falcõeiros | virom, verom aginha e chegarom aa água, | cada um como viinha, e britou-s’ entom com eles | o geo; mas a reinha chamarom de Vila-Sirga | que os valess’, e certeiros [Refrão = vv. 1-4] forom bem que lhes valria. | Pero, ant’, ali jouverom ũa peça so o geo, | que sair ém nom poderom; mais, chamand’ a groriosa, | os geos se desfezerom, e saírom ende vivos. | E log’ a seus semedeiros [Refrão = vv. 1-4] cavalgarom. Des i, forom | a Vila-Sirg’, e loores derom a Santa-Maria, | que é senhor das senhores, que sempre nas grandes coitas | acorr’ aos pecadores. E, pois, est’ al-rei contarom | ante muitos cavaleiros. Carreiras e semedeiros busca a Virgem Maria pera fazer todavia seus miragres verdadeiros. * * * 495 Cantigas de Santa Maria 244 «Gram dereit’ é que mal venha ao que tem em desdém» (E 244) Como Santa Maria guareceu um home que inchou que cuidou morrer, porque escarnecia dos que iam a sa igreja. R0 2 I 4 6 Gram dereit’ é que mal venha | ao que tem em desdém os feitos da groriosa, | com que nos faz tanto bem. E daquest’ um gram miragre | em Laredo conteceu, que fezo Santa Maria, | aquela de que naceu Jesu-Cristo, Deus e home, | que por nos salvar morreu; e, por Deus, este miragre | ascuitade-o mui bem. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Lared’ há ũ’ igreja | que fora da vila ’stá, que chamam «Santa Maria», | em que ela mostrad’ há miragres bõos e muitos, | e porende vam alá as gentes e dam i algo, | cada ũu do que tem. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ond’ avo que um dia | ũa bala saiu e, per esse mar andando, | ao porto recodiu; e leixou-s’ ir log’ a ela | a gente quando a viu, que mui poucos i ficarom, | se nom foi ou quem ou quem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, pois a bala morta | foi, filharom-s’ a tornar cada um pera sa casa; | pero, ant’, iam entrar na igreja que vos dixe, | e a Deus s’ acomendar e a sa beita madre, | de que todo bem nos vem. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas um desses marinheiros | filhou-s’ a escarnecer da gente que i entrava, | e começou a dizer: “– Ir quer’ eu aa taverna, | ante, do vinho bever, e em aquesto bem tenho | que os vencerei de sém”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E logo se foi correndo | e na taverna entrou; e, pois que beveu do vinho, | atám ferament’ inchou e creceu-lhe tant’ o ventre | que per pouco rebentou, que semelhava cavalo | que comera muito brem. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O cativo mui cuitado | foi quando se viu assi estar, e a seus parentes | rogou-lhes que fossem i com ele aa igreja; | e, segund’ eu aprendi, 40 496 42 teverom i sa vigia | e derom de seu argém. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Outro dia oiu missa | da madre do salvador, e tornou entom tam são | como nunca foi melhor. E el e todo-los outros | derom graças e loor aa que sempre seu nome | beito seja. Amém. 50 Gram dereit’ é que mal venha | ao que tem em desdém os feitos da groriosa, | com que nos faz tanto bem. 46 R8 * * * 497 Cantigas de Santa Maria 245 «O que em coita de morte mui grand’ ou em prijom for» (E 245, F [51]) Como Santa Maria tirou um home de prijom e o fez passar um rio que era mui fondo, e nom se molhou. R0 2 I 4 6 O que em coita de morte | mui grand’ ou em prijom for, cham’ a Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor. Ca pola nossa saúde | prendeu dela carne Deus, e, por nós seermos salvos, | feze-a sobre-los seus coros dos anjos reinha; | e porend’, amigos meus, dereit’ é que na gram coita | valha ao pecador. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E sobr’ aquest’ um miragre | mui fremoso vos direi que fez em Riba de Límia | a madre do alto rei, em Sam Salvador da Torre, | por um hom’, e mui bem sei que haveredes fiança | [...] [or] 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Entre Doir’ e Minh’ havia, | no reino de Portugal, tal tempo foi, roubadores | que faziam muito mal: escudeiros e peões, | cavaleiros outrotal, aquel que mos roubava, | entr’ eles era peor. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Em aquel tempo morava | um home bõo ali em Sam Salvador d[a] Torre, | e, per quant’ eu aprendi, fazia bem sa fazenda | servindo Deus, e, des i, havia gram confiança | na madre do salvador. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ali no adro havia | ũa capela entom da Santa Virgem, e sempre | fazia sa oraçom est’ hom’ ali ameúde; | des i, mui de coraçom aquele logar honrava | com muita fremosa fror. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI O home bõo havia | nomeada que haver havia grand’; e porende | os que soíam fazer mal e roubavam a terra | foro-no entom prender e, mao pecad’, haviam | de o espeitar sabor. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Metero-no em um barco | e passaro-no além, e ia-no maltragendo | que lhes déss’ algũa rem; e no castelo de Névia | o meterom, e, des ém, 40 498 42 o que o peor julgava | tĩía-s’ ém por [melh]or. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Muitas vezes açoutado, | como contarom a mim, foi, e diziam: “– Vilão, | hoje seerá ta fim se nos nom dás quant’ houveres”. | E jurou par Sam Martim o alcaide que de coita | o faria sofredor. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Em um temom o alcaide | mui fort’ estirá-lo fez e muita da água fria | deitar sobr’ el essa vez, e o corpo com feridas | já chus negr’ era ca pez, e o alcaide dizendo: | “– Dom vilão traedor, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X dizede que nos daredes; | se nom, a vossa molher e os filhos prenderemos”. | Ele diss’ entom: “– Senher, mil soldos de leoneses | vos darei per quant’ houver, ca mais nom som atrevudo | de dar, par Nostro Senhor”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Eles esto nom quiserom | e foro-no açoutar, se poderiam ainda | del mais dinheiros levar; e, pois que o bem ferirom, | assentarom-s’ a jantar: todos a ũa fogueira | severom a derredor. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII O home bõo, jazendo | em coita mui grand’ assaz, diss’: “– Ai Virgem groriosa, | guarda-m’ hoje, se te praz, daquesta prijom tam forte | em que o meu corpo jaz; nembre-te se t’ eu serviço | fiz que foss’ a ta loor”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E, el aquesto dizendo, | ũa dona_entom entrou per meogo do paaço; | e cada um a catou, mais sol falar nom poderom, | nem home nom s’ abalou que se levantar podesse, | mais houverom gram pavor. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E foi-se dereitamente | (que todos a virom ir) ao hom’ e desliou-o, | e disse: “– Porque servir me soes na mià capela, | porém te vim eu guarir desta prijom em que jazes | tam fort’ e tam sem sabor”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E filhou-o pela mão | mui mans’ e mui sem afám e levou-o per ontr’ eles; | e bem creede, de pram, que home nom falou nada | nem fezerom adamám sol de lh’ em ele travarem, | e perderom a coor. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E as portas do castelo | fortes, com’ aprendi eu, estavam mui bem fechadas; | pero pelo poder seu 94 499 96 daquela que o levava | abrirom-s’, e com el deu na riba do rio Límia, | e disse: “– Meu servidor, R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII entra no rio e passa | a além, e acharás as portas do mõesteiro | sarradas, mas entrarás per elas ousadamente | e na eigreja marrás, e dirás est’ aos frades | todos e ao prior”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 El houv’ espanto do rio, | nom ousou i meter pé; e diz: “– Senhor, muit’ é alto!; | des i, u mais baixo é, há i mais de dez braçadas | ou doze, per bõa fé”. Diss’ ela: “– Faz o que digo | e nom sejas dultador”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX E meteu-s’ entom a vao | em aquel rio medês, que sol nom houv’ i molhado | pé, nem outro dano prês; e, ante que s’ i metesse, | disse-lh’ ela entom: “– Vês?: de me fazeres serviço | haverás mais meu amor”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX El, pois’ houv’ além passado, | ante que vess’ a luz entrou dentro na igreja | e deitou-s’ ant’ ũa cruz e ant’ ũa majestade | da senhor que nos aduz quanto de bem nós havemos | e nos é defendedor. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Entrarom entom os frades | nas matinas, e tafur cuidarom entom que era | e entrara per algur; e maravilhados eram, | ca solamente um mur ali entrar nom podia, | pero fosse furador. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII E disserom: “– Tu que jazes, | bom hom’, e quem te meteu em tal logar come este?: | bem louco fust’ e sandeu”. Acordou; e o convento, | des que o bem conhoceu, prougue-lhe muito com ele. | E el foi departidor 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 de quanto lh’ entom vera; | e jurou par Sam Denis que sempr’ a Virgem servisse, | pois a ela prougu’ e quis que de mal fosse livrado. | E per mi seede fis que fez pois bem sa fazenda | e foi grand’ esmolnador. 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 O alcaid’ entom de Névia | com sua companha vil virom que assi perderam | o pres’ e os soldos mil, e que assi ũa dona | lho levara tam sotil-ment’; e virom que a madre | fora do remiidor. 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] XXV Ca bem lhes diss’ o convento | a todos que a que sol 500 148 R25 150 fazer aos pecadores | que façam todos sa prol, que fez aqueste miragre; | porém se teve por fol cada um, e neum deles | nom foi depois malfeitor. 152 O que em coita de morte | mui grand’ ou em prijom for, cham’ a Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor. * * * 501 Cantigas de Santa Maria 246 «A que as portas do ceo abriu pera nos salvar» (E 246, F [1]) Esta é dũa bõa molher que ia cada sábado a ũa eigreja que chamam «Santa Maria dos Mártires», e obridou-xe-lhe, e depois foi alá de noite, e abrirom-xe lhe as portas da eigreja. R0 2 I 4 6 A que as portas do ceo | abriu pera nos salvar, poder há, nas deste mundo, | de as abrir e serrar. Desto direi um miragre, | segundo que aprendi, que avo em Alcáçar, | e creo que foi assi, dũa mui bõa crischãa | molher que morava i, que sabia ena Virgem | mais doutra cousa fiar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Onde por amor da Virgem | ao sábado sempr’ ir punhav’ a ũa igreja | sua, oraçom oir, e levava sa oferta | sigo pera oferir; mas um sábado lh’ avo | que foi aquest’ obridar 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III por fazendas de sa casa | muitas que houv’ a fazer. Mas aa tarde lh’ em mente | vo como falecer fora, e arrepenti[u]-se; | e, por esto correger, foi já tard’ aa eigreja | e cuidou i dentr’ entrar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Esta igrej’ alongada | da vila jaquant’ está. Mas, quando chegou a ela, | cuidou log’ entrar alá, mas as portas bem serradas | achou, e filhou-s’ acá de fora fazer sas prezes, | e começou de chorar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois aquest’ houve feito | e compriu sa oraçom, viu log’ as portas abertas, | e foi em seu coraçom muit’ ende maravilhada, | porque molher nem barom nom vira que lhas abrisse. | E foi log’ ao altar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e pôs i sa oferenda; | des i, logo se saiu da igreja; e, pois fora | foi, as portas serrar viu; e, com gram medo que houve, | logo dali recodiu e foi-se pera a vila, | mas nom de mui gram vagar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, quando foi aas portas | da vila e entrar quis, achou-as assi serradas | que des ali foi bem fis de nom entrar, e cuitada | foi muit’ ém, par Sam Denis; 40 502 42 mas rogou entom a Virgem, | que lhas abriu log’ em par. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Entom ũa dona bela | e nobre lh’ apareceu, que a filhou pela mão | e na vila a meteu e levou-a a sa casa, | ond’ ela prazer prendeu; mas ante que i chegasse, | começou-lh’ a preguntar 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX dizendo: “– Senhor, quem sodes, | que a tam pobre molher com’ eu tam gram bem fezestes?” | Respôs-lh’ ela volonter: “– Eu sõo a que nas cuitas | acorr’ a quem m’ há mester, em que Deus, por sa mercee, | quis de mi carne filhar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quand’ a bõa molher esto | oiu, logo se deitou a seus pees, por beijar-lhos; | mas no-na viu, e ficou ende mui desconortada; | e em sa casa entrou. E aqueste feit’ a todos | outro dia foi contar. 62 A que as portas do ceo | abriu pera nos salvar, poder há nas deste mundo | de as abrir e serrar. 58 R10 * * * 503 Cantigas de Santa Maria 247 «Assi como Jesu-Cristo fez veer o cego nado» (E 247, F [62 bis]) Como ũa meninha naceu cega, e a cabo de dez anos levaro-na a Santa Maria de Salas, e deu-lhe logo seu lume Santa Maria. R0 2 I 4 6 Assi como Jesu-Cristo | fez veer o cego nado, assi veer [fez] sa madre | ũa moça mui privado. Daquest’ um miragre fezo | em Salas Santa Maria dũa moça que nacera | cega, e que nom viía, nem vira pois fora nada; | mas em hora dũu dia guariu-a Santa Maria, | como vos será contado. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esta, ante que nacesse, | sa madre a prometera que serviss’ a sa eigreja | e um estadal de cera oferecess’ i cad’ ano; | mas, porque cega nacera, a madr’ era mui coitada | e o padre mui coitado. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Pero criarom sa filha, | e ela foi bem crecendo; e, pois que compriu dez anos, | seu padre, com’ eu aprendo, morreu, e ficou a madre; | e chorando e tremendo levou a moça a Salas; | e diz: “– Senhor, há-ti grado 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que rogass’ eu a teu filho | que de meu marid’ houvesse linhag[em]?; e naceu-m’ esta | filha; mas, se eu soubesse que cega me naceria, | nom sei rem per que quisesse havê-la; mas tua seja, | pois que cho por dom hei dado; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e porende cha aduxe | a esta tua eigreja, creendo que em ti éste | mui gram vertude sobeja; e, se te praz seu serviço, | dá-lhe lume com que veja, e des hoimais pensa dela, | ca de mi sol um bocado 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI nom haverá”. E tantoste | revolveu-se muit’ aginha pera ir-se da eigreja; | mas a mui santa reinha fezo que a moça visse | co-na santa meezinha que lhe seu filho mostrara, | e viu logo bem provado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Aquesto viu bem a gente | mui grande que i estava, que toda comunalmente | Santa Maria loava, que tal miragre fezera; | e a moça i ficava varrendo sempr’ a eigreja | como lhe fora mandado. 40 42 R7 44 Assi como Jesu-Cristo | fez veer o cego-nado, assi veer [fez] sa madre | ũa moça mui privado. * * * 504 Cantigas de Santa Maria 248 «Sem muito bem que nos faze a senhor esperital» (E 248, F [75]) Esta é como Santa Maria guardou na sa eigreja em Laredo dous marinheiros que se queriam matar ant’ o altar, e pola sa gram mercee guardo’-os que se nom matassem nem se ferissem, e feze-os fazer paz. R0 2 I 4 6 Sem muito bem que nos faze | a senhor esperital, guarda-nos que nom façamos | quanto podemos de mal. Ca, u a nossa natura | quer obrar mais mal ca bem, guarda-nos ela daquesto, | que nom possamos, per rem. E de tam gram piadade | um miragre direi ém que mostrou grand’ em Laredo | a senhor que pod’ e val, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II na sa igreja que dixe, | que sobe-lo mar está e que vam em romaria | as gentes muitas alá rogar aa groriosa, | aquela que sempre dá conselho aos cuitados | e que nas cuitas nom fal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Onde foi ũa vegada | que forom i albergar muitos homees da terra | e sas candeas queimar; e entom dous marinheiros | filharom-s’ a pelejar, bem ant’ o altar estando, | de peleja mui mortal. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E sacarom os cuitelos | log’ ambos por se ferir; mas nom quis a groriosa | que o podessem comprir, ca mover nom se poderom, | nem um ao outro ir; e toda a gent’ i vo | veer este feit’ atal. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, assi como os braços | forom ambos estender por se ferir, nom poderom, | per rem, poi-los encolher; e, estando-se catando, | nom se podiam mover, bem come se fossem feitos | de pedra ou de metal. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, estand’ assi tolheitos, | cada um se repentiu muit’ e a Santa Maria | logo mercee pediu, e, demais, toda a gente | que aqueste feito viu, rogarom Santa Maria | logo, que nom houv’ i al. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 E ela o rogo deles | oiu e sa oraçom; e estes que se queriam | mal, perdõarom-s’ entom. E a gente que i era | loarom de coraçom a Virgem, de que Deus quiso | nacer dia de Natal. 44 Sem muito bem que nos faze | a senhor esperital, guarda-nos que nom façamos | quanto podemos de mal. 40 R7 505 Cantigas de Santa Maria 249 «Aquel que de voontade Santa Maria servir» (E 249, F [69]) Esta é como Santa Maria livrou de morte em Castroxeriz um maestre que lavrava na eigreja que chamam «Santa Maria d’ Almaçám» e que caeu de cima em fondo, e guardo’-o Santa Maria que se nom feriu. R0 2 I 4 6 Aquel que de voontade | Santa Maria servir, d’ ocajom será guardado | e doutro mal, sem mentir. E de tal razom com’ esta | um miragre vos direi que em Castroxeriz fezo | a madre do alto rei, a Virgem Santa Maria, | per com’ eu aprix e sei; e, por Deus, meted’ i mentes | e querede-o oir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Quand’ a igreja faziam | a que chamam d’ Almaçám, que é em cabo da vila, | muitos maestres, de pram, iam i lavrar por algo | que lhes davam, como dam aos que tal obra fazem. | Mas um deles rem pedir 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III nom queria, mas lavrava | ali mui de coraçom pora ga[anh]ar da Virgem | mercee e gualardom. E porend’ or’ ascuitade | o que lh’ avo entom, e sempr’ haveredes ende | que falar e departir. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El maestr’ era de pedra, | e lavrava bem assaz e quadrava bem as pedras | e põía-as em az eno mais alto da obra, | como bom maestre faz. E um dia, fazend’ esto, | forom-lh’ os pees falir, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e caeu bem do mais alto; a Virgem Santa Maria, | ca, pero que da cabeça | assi o guardou a Virgem 28 30 | e em caendo chamou que o mui toste livrou: sobe-los cantos topou, | que sol nom se foi ferir, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI nem sentiu sol se caera | nem recebeu neum mal; ante s’ ergeu mui correndo, | que nom tev’ olho por al, mas foi-s’ ao altar logo | da Virgem espirital por loar a sa mercee | e os seus bes gracir. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 E quantos ali estavam | derom loores porém aa Virgem groriosa, | que os seus val e mantém. E porende lhe roguemos | que sempr’ hajamos seu bem e nos ganh’ o de seu filho, | que nos vo remiir. 44 Aquel que de voontade | Santa Maria servir, d’ ocajom será guardado | e doutro mal, sem mentir. 40 R7 506 Cantigas de Santa Maria 250 «Por nós, Virgem madre» (E 250, F [76]) Esta é de loor de Santa Maria. I 1 R 3 R 5 II 6 R 8 R 10 III 11 R 13 R 15 Por nós, Virgem madre, roga Deus, teu padre, [teu] filh’ e amigo. Roga Deus, teu padre, [teu] filh’ e amigo. A Deus, que nos preste roga-lhe, pois éste teu filh’ e amigo. Roga-lhe, pois éste teu filh’ e amigo. Roga que nos valha, pois El é, sem falha, teu filh’ e amigo. Pois El é, sem falha, teu filh’ e amigo. * * * 507 Cantigas de Santa Maria 251 «Mui gram dereito faz d’ o mund’ avorrecer» (E 251) Como Santa Maria levou consigo a meninha de Proença que pedia o filho aa sa majestade. R0 2 I 4 6 Mui gram dereito faz | d’ o mund’ avorrecer o que pode amor | da Virgem bem haver. Em terra de Proença | um gram miragr’ achei escrito que fezera | a madre do gram rei; e, des que o oirdes, | bem sõo fis e sei que nom oístes doutro | nunca tal retraer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Um burgês i havia | mui rico e que bem casad’ era, mas filhos | nom podia, per rem, haver, ca lhe morriam; | e prometeu porém ũa que lhe nacera | de_em ordem-na meter. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Porend’ a um convento | de donas que dali mui pret’ era, sa madre | levou-a, com’ oí. E a moça na claustra, | per com’ eu aprendi, viu ũa majestade | enos braços ter 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV seu filho; e de pedra | eram ambos, nom dal, mas eram tam bem feitos | que a moça atal amor colheu com eles | que des ali, sem al, nium sabor havia | d’ outra cousa veer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V [E] sempre quand’ a madre | aa eigreja_orar ia e a levava | sigo ant’ o altar, logo_ela s’ esfurtava | e ia-se parar ant’ aquela omagem, | ond’ havia prazer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E levava-lhe sempre | rosa ou outra fror ou fruita que achasse | de mui bõa odor; e com esta omagem | colheu tam grand’ amor que outra rem do mundo | nom sabia querer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quando chegou seu tempo | que em religiom meterom a mininha, | vo-lh’ a coraçom de pedir o seu filho | da omagem entom, que faagar podesse | e em braços colher. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 508 VIII 46 48 Porque a moça tantas | vezes viíam ir as donas aa claustra | e delas se partir, porém a asseitarom, | e virom-lhe pedir o filh’ aa omagem, | e virom-lhe tender R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX os braços que lho désse. | E ela ar tendeu os seus braços e deu-lho; | e, poi-lo recebeu, a moça faago’-o, | e tal amor colheu com el que des i «filho» | começou a dizer, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e mui leda, canta[n]do, | nos braços o filhou. E, aquesto fazendo, | o convento chegou; e a omagem logo | seu filh’ a si tirou, assi que todas elas | bem lho virom fazer. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Ma[n]tenent’ o convento | levarom manamám logo dali a moça, | pero com grand’ afám chorando e dizendo: | “– Monjas, de mal talám sodes, porque meu filho | mi fezestes perder”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Quando a abadessa | a ’ssi falar oiu tam aficadamente, | preguntou-lhe que viu; mas, chorando, a moça | assi lhe recodiu: “– Rogo-vos que meu filho | me querades render”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Sobr’ est’ a madre vo | e preguntou-lh’ assaz que vira; e a moça | lhe diss’: “– A mi nom praz dal senom de meu filho, | e dade-mi_o em paz”. E ergeu-se mui toste | e filhou-s’ a correr, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e foi-se à omagem | e disse: “– Dá-me meu filh’”; e tendeu os braços | como se fosse seu. Quand’ esto viu a madre, | em ela salto deu, cuidando que queria | por el ensandecer. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E sobr’ est’ ao papa | (que tem logar de Deus), que dali mui pret’ era, | a madre e os seus parentes a levarom | dia de Sam Mateus, dizendo: “– Padre santo, | que pod’ esto seer 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI desta moça que «filho» | chama, e al nom diz, por um da majestade | pintad’ e com verniz?; mas vós que s[o]des padre | da lee e joiz, rogad’ a Deus que desto | a quera guarecer”. 94 96 509 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII O papa (que sant’ home | era) respôs-lhes: “– Crás mandarei cantar missa, | e tu a levarás”, –diss’ à ama da moça–, | “e, se de Satanás vem aquesta sandece, | pode-se desfazer”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 A missa foi cantada | logo depo-la luz a grand’ honra da madre | do que morreu na cruz; e, quando foi na sagra, | aqué a madr’ aduz ant’ o altar sa filha | po-lo feito saber. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX A moça teve mentes | e dacá e dalá, e pois [que] viu a hóstia | alçar, disso: “– Ahá, aquel é o meu filho, e dade-mi_o acá”. E o papa fez logo | a hóstia trager 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX e meteu-lha nas mãos; | e diss’ ela: “– Est’ é o meu amado filho, | filho meu, a-la-fé; e porende me quero | ir com el, ca temp’ é”. E meteu-a na boca, | e leixou-se morrer. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI 126 Quand’ esto viu o papa | (que sant’ home fiel era), loou porende | o gram Deus d’ Irrael e a Santa Maria, | que miragre tam bel mostrara; e tantoste | o mandou escrever. 128 Mui gram dereito faz | d’ o mund’ avorrecer o que pode amor | da Virgem bem haver. 124 R21 * * * 510 Cantigas de Santa Maria 252 «Tam gram poder a sa madre deu eno fondo da terra» (E 252, F [63]) Esta é de como Santa Maria guardou ũus homes que nom morressem de juso dum gram monte de ara que lhes caeu de suso. R0 2 I 4 6 Tam gram poder a sa madre | deu eno fondo da terra Deus d’ acorrer os coitados, | bem come em alta serra. E sobr’ aquest’ um miragre | pequen’ e bõo d’ oir direi que Santa Maria | fez fremoso, sem mentir; e per i saber podedes | como guarda quem servir a vai, de mal e de morte, | e daquesto nunca erra. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Castroxeriz foi esto | de que vos quero contar: que por fazer a igreja | de que vos fui já falar, homes so terra entrarom | pera ara cavar; mas caeu logo sobr’ eles | o mont’, e como quem serra 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III porta, assi enserrados | forom todos, e, sem al, cuidarom que eram mortos. | Mais a senhor ’spirital os acorreu muit’ aginha | e os defendeu de mal do demo, que bem cuidava | haver sas almas per guerra. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Os da vila, quand’ oírom | esto, per com’ aprendi, quiserom cavar o monte | pera tirá-los dali, cuidando que mortos eram; | mas acharo-nos assi: todos oraçom fazendo | aa Virgem, que aterra 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 o demo. E porém todos | forom logo dar loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, ant’ o altar da igreja | u faziam o lavor, ca o que o demo mete | em ferros, ela desferra. 32 Tam gram poder a sa madre | deu eno fondo da terra Deus d’ acorrer os coitados, | bem come em alta serra. 28 R5 * * * 511 Cantigas de Santa Maria 253 «De grad’ há Santa Maria mercee e piadade» (E 253, F [31]) Esta é como um romeu de França que ia a Santiago foi por Santa Maria de Vila-Sirga, e nom pôd’ ém sacar um bordom de ferro grande que tragia em pedença. R0 2 I 4 6 De grad’ há Santa Maria | mercee e piadade aos que de seus pecados | lha pede[m] com homildade. Ca pela sa homildade | é ela lum’ e espelho de todo-los pecadores, | e abrigo e conselho; e a sa virgĩidade | legou forte no vencelho o demo, que nos quisera | todos meter so sa grade. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E roga sempr’ a seu filho | esta Virgem corõada, polos erros que fazemos | em esta vida minguada, que nos perdom os pecados, | ca x’ é nossa avogada. Porém dela um miragre | direi, e vós m’ ascuitade. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Um home bõo morava | ena vila de Tolosa que, comoquer que pecasse, | ena Virgem groriosa sempr’ havia gram fiança; | mais a senhor piadosa mostrou-lhe bem que havia | del mercê de voontade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O home bõo entendeu | que andava em pecado, e foi-se confessar logo; | e, pois foi bem confessado, recebeu em pedença | que fosse logo guisado pora ir a Santiago, | ca lhe mandou seu abade. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Des i, um bordom levasse | de ferro, em que houvesse de livras viint’ e quatro, | e, comoquer que podesse, a sas costas ou na mão, | o levass’, e o posesse ant’ o altar de Sam Jame, | e nom foss’ em poridade. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI El fez log’ o mandamento | de seu abade, sem falha, e o bordom fazer toste | mandou, assi Deus me valha, de viint’ e quatro livras, | que nom mingou nemigalha: sequer vi eu que-no vira, | que m’ ém contou a verdade. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E el indo per Castela | com seu bordom francamente, a eigreja do caminho | viu [i] logo mantente que chamam de Vila-Sirga, | e preguntou aa gente por aquel quê logar era; | e disse-lh’ entom um frade: 40 42 512 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII “– Ali chamam Vila-Sirga, | logar mui maravilhoso, em que muito bom miragre | sempre faz e saboroso a santa Virgem Maria, | madre do rei poderoso; e a eigreja é sua | e derredor a herdade”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O romeu, que muit’ amava | a Virgem de bem comprida, desviou-se do caminho | e fez entom alá ida e meteu-se na igreja, | u sa oraçom oída foi da Virgem groriosa, | em que há toda bondade. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E perdom de seus pecados | pediu [el] bem ali logo, e diss’: “– Ai Santa Maria, | por esto perdom te rogo”. E tantost’ o bordom grosso | quebrou pelo meo logo, que posera com sa mão | el ant’ a sa majestade. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI El viu o bordom quebrado | assi, e maravilhou-se, que caeu em duas peças | já feit’, e porém sinou-se, e quantos ali estavam; | des i entom levantou-se por s’ ir e dali levá-lo, | por gãar sa caridade. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E o bordom que jazia | em duas peças no chão, no-no tirou da igreja, | pero era bom crischão, per poder que el houvesse; | e porém teve por vão seu cuid’, e chorando disse: | “– Ai madre de Deus, catade 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII a vossa mui gram mercee | e nom a mià desmesura grand’ e sobeja e fera, | que me fez fazer loucura d’ eu querer o bordom vosso | levar; mais vós, Virgem pura, valha-mi_a bondade vossa, | e esto me perdõade”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E contou a razom toda | como o bordom levava, assi como já oístes; | e cada ũu loava Deus e a sa Virgem madr’, e | a crerizia cantava log’ ali «Salve Regina», | loand’ a virgĩidade 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV [d]esta Virgem groriosa, | que tal miragre fezera. E per aquel’ entenderom | que o home bõo era solto de sa pedença, | pois que lhe tolheu tam fera cárrega que el levava | do ferr’ e de sa maldade. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Des i, log’ a Santiago | foi comprir sa romaria; e, pois tornou a sa terra, | serviu mui bem todavia, enquanto viveu, de grado | a Virgem Santa Maria. E por aqueste miragre | todos lh’ agora rogade 94 96 513 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII 102 que nos dé em este mundo | a fazer o seu serviço, e nos guarde de pecado, | d’ err’ e de mao boliço, ’si que todos merescamos | vivermos por sempr’ em viço com ela e com seu filho; | e porém Amém cantade. 104 De grad’ há Santa Maria | mercee e piadade aos que de seus pecados | lha pede[m] com homildade. 100 R17 * * * 514 Cantigas de Santa Maria 254 «O nome da Virgem santa atám muit’ é temeroso» (E 254, F [6]) Esta é como dous monges que saírom da ordem forom livres dos diabos polo nome de Santa Maria, que ementarom. R0 2 I 4 6 O nome da Virgem santa | atám muit’ é temeroso que, quand’ o oe o demo, | perde seu poder astroso. E dest’ avo em França | um gram miragre provado, que mostrou Santa Maria, | ond’ haja ela bom grado; e porend’ ontr’ estes outros | miragres será contado, porque sei que o terredes | por bõo e por fremoso. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Dous monges foi que saírom | um dia dum mõesteiro pora haverem conorte | do grand’ afám e marteiro que segund’ órdim sofriam; | e tod’ um dia enteiro andarom riba dum rio, | ca era logar viçoso, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III dizendo paravlas loucas, | maas e desordinhadas, e andavam-se jogand’ a | couces e a empeladas; e horas e orações | já haviam obridadas, e em serviço do demo | cada um er’ aguçoso. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, eles assi andando, | pelo rio vĩir virom ũa barqueta pequena | com homes, e dentr’ oírom que muit’ entre si falavam; | e, pois tod’ esto cousirom, preguntarom-lhes: “– Quem sodes?” | Diss’ um deles, mui sanhoso: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V “– Macar homes semelhamos, | diabos somos, sem falha, que a ’lma d’ Ebrom levamos, | um alguazil, sem baralha”. Disserom entom os monges: | “– Santa Maria nos valha e livre de vossas mãos | com seu filho grorioso”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Os diabos responderom: | “– Mester vos foi que chamastes o nome da Virgem santa | e que vos em el fiastes; ca, se por esto nom fosse, | porque vós desemparastes o mõesteiro, connosco | fôrades a tevroso 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII logar, em que muitas cuitas | sofrem os que i entrarom”. Quand’ est’ oírom os monges, | mantenente se tornarom a seu mõesteir’, e logo | mui bem se mãefestarom, e de Deus perdom houverom, | que é Senhor piadoso. 40 42 R7 44 O nome da Virgem santa | atám muit’ é temeroso que, quand’ o oe o demo, | perde seu poder astroso. * * * 515 Cantigas de Santa Maria 255 «Na malandança» (E 255, U 74) Esta é como Santa Maria guareceu a molher que fezera matar seu genro polo mal prez que lh’ apõíam com el, que nom ardeu no fogo em que a meterom. R0 2 4 I 6 8 10 12 R1 13-16 II 18 20 22 24 R2 25-28 III 30 32 34 36 R3 37-40 IV 42 44 46 48 R4 49-52 Na malandança, noss’ amparança e esperança é Santa Maria. Dest’ um miragre vos direi ora que a Virgem quis mui grand’ amostrar, Santa Maria (a que sempr’ ora po-los pecadores de mal guardar), dũa burgesa nobr’ e cortesa, que fora presa por sa gram folia. [Refrão = vv. 1-4] Esta foi rica e bem casada e mui fremosa e de bõo sém, e em Leom do Ródam morada houve mui bõa, per quant’ aprix ém; e houve bela filha donzela, de que mazela lh’ avo um dia. [Refrão = vv. 1-4] Ela e seu senhor ambos derom sa filha a marid’ a seu prazer, e morada de sũu fezerom por se por i mais viçosos ter. Mais mal empeço foi no começo, ca mao preço a sogra havia [Refrão = vv. 1-4] com seu genro; pero a gram torto, ca nom fezeram eles feit’ atal com’ este. Mais ela per que morto foi o genro, fez, e nom houv’ i al: ca mantenente deu muit’ argente a maa gente que o mataria. [Refrão = vv. 1-4] 516 V 54 56 58 60 R5 61-64 VI 66 68 70 72 R6 73-76 VII 78 80 82 84 R7 85-88 VIII 90 92 94 96 R8 97-100 IX 102 104 106 108 R9 109-112 X 114 116 118 E esse dia, pois missa dita, assentarom-s’ a jantar, e mandou chamar seu genr’ a sogra maldita; e sa molher, que por el foi, achou mort’ o marido e_escoorido; e apelido mui grande metia. [Refrão = vv. 1-4] Aqueste feito toste sabudo foi pela vila; e vo log’ i o meirinho dela mui sanhudo, e preguntou como morrer’ assi. E tant’ andando foi, trastornando e preguntando que achou a via [Refrão = vv. 1-4] per que soub’ a verdade do preito; e fez recadar de mui mal talám os que fezeram aquele feito. Mais a sogra mãefestou, a pram, de com’ houvera coita tam fera per que fezer’ a-quela diabria. [Refrão = vv. 1-4] O meirinho, que foi fort’ e bravo, mandou filhar log’ aquela molher, e por queimá-la nom deu um cravo, ca muito fazia bem seu mester; nem fez em jogo nem filhou rogo, mas ao fog[o]_ _a levou que ardia. [Refrão = vv. 1-4] E, u a levavam pela rua ant’ a igreja da madre de Deus (senom da camisa, toda nua), diss’ aos sergentes: “– Amigos meus, por piadade,_ _ant’ a majestade vós me parade, e rogá-la-ia”. [Refrão = vv. 1-4] Eles fezerom-lh’ o que rogava; e ela log’ em terra se tendeu ant’ a omagem; muito chorava, dizendo: “– Madre daquel que morreu por nós, aginha, Virgem reinha,_ _acorr’ a mesquinha 517 120 R10 121-124 XI 126 128 130 132 R11 133-136 XII 138 140 142 144 R12 145-148 XIII 150 152 154 156 R13 157-160 XIV 162 164 166 168 R14 169-172 XV 174 176 178 180 R15 181-184 XVI 186 que em ti [se] fia”. [Refrão = vv. 1-4] E logo tantoste o meirinho disse: “– Varões, levade-a já fora da vila, cab’ o caminho, u ũa casa mui velha está: i a metede dentr’ e odede, des i põede-lh’ o fog’ a perfia”. [Refrão = vv. 1-4] Esto foi feito tost’ e correndo, e a casa dentro e enredor cha de lenha foi, com’ aprendo, e de fogo, dond’ houv’ ela pavor; ca viu a chama queimá-la rama, de que [a] a_ama de Deus defendia. [Refrão = vv. 1-4] Pero a casa toda queimada foi, e a lenha se tornou carvom, a molher desto nom sentiu nada; ca a Virgem, a que fez oraçom, lhe deu saúde per sa vertude e ameúd[e]_ _o fogo lhi tolhia. [Refrão = vv. 1-4] A casa foi per duas vegadas acenduda; mas vede-lo que fez Santa Maria, que as coitadas acorre sempre: nom quis nulha vez que s’ i perdesse nem que ardesse nem que morresse a que bem queria. [Refrão = vv. 1-4] Quand’ est’ o meirinho e as gentes virom, filharom-s’ end’ a repentir, e mandarom log’ aos sergentes que a fezessem do fogo sair log’; e com cantos ela foi tantos levada quantos mui dedur diria. [Refrão = vv. 1-4] E, pois que ela foi na igreja, os crérigos se pararom em az e loarom a que sempre seja 518 188 190 192 R16 194 196 beita polos miragres que faz maravilhosos e piadosos, e saborosos d’ oir todavia. Na malandança, noss’ amparança e esperança é Santa Maria. * * * 519 Cantigas de Santa Maria 256 «Quem na Virgem groriosa esperança mui grand’ há» (E 256, F [7]) Esta é como Santa Maria guareceu a reinha Dona Beatriz de grand’ enfermidade, porque aorou a sa omage com grand’ esperança. R0 2 I 4 6 Quem na Virgem groriosa | esperança mui grand’ há, macar seja muit’ enfermo, | ela mui be-no guarrá. E dest’ um mui gram miragre | vos quero dizer, que vi (e, pero era meninho, | nembra-me que foi assi, ca m’ estava eu deante | e todo vi e oí), que fezo Santa Maria, | que muitos fez e fará. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi em aquel ano | quando_o mui bom rei gãou, Dom Fernando, a Capela | e de crischãos poblou; e sa molher, a reinha | Dona Beatriz, mandou que fosse morar em Conca, | enquant’ el foi acolá 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III na hoste. E seu mandado | fez ela mui volonter; e, quando foi na cidade, | peor enferma molher nom vistes do que foi ela; | ca pero de Mompisler bõos físicos i eram, | diziam: “– Nom viverá”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E por que esto diziam, | nom era mui sem razom, ca d’ haver ela seu filho | estava ena sazom; e havia tam gram féver | que que-na viía_entom dizia: “– Seguramente, | desta nom escapará”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ma-la reinha, que serva | era da que pod’ e val, Virgem santa groriosa, | reinha espirital, fez trager ũa omagem, | mui bem feita de metal, de Santa Mari’, e disse: | “– Esta cabo mi será, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI ca, pois eu a sa fegura | que de todos estes maes porend’ a mi a chegade, as sas mãos e os pees, | 34 36 vir, atal creença hei: | que atantoste guarrei; | e logo lhe beijarei ca mui gram prol me terrá”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E tod’ est’ assi foi feito; | e logo, sem outra rem, de todos aqueles maes | guariu a reinha bem per poder da groriosa, | que nada nom sentiu ém. Porém será de mal siso | o que a nom loará. 40 42 R7 44 Quem na Virgem groriosa | esperança mui grand’ há, macar seja muit’ enfermo, | ela mui be-no guarrá. * * * 520 Cantigas de Santa Maria 257 «Bem guarda Santa Maria pola sa vertude» (E 257, F [44]) Esta é como Santa Maria guardou sas relicas que se nom danassem, entr’ outras muitas que se danarom. R0 2 I 4 6 Bem guarda Santa Maria pola sa vertude sas relicas, per que muitos recebem saúde. Desto direi um miragre grand’ a maravilha, que al-rei Dom Afonso avo. Em Sevilha foi guardar relicas da madre de Deus e filha e de santos; e direi com’, e Deus i m’ ajude. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II As relicas eram muitas, de Santa Maria e de santos e de santas, por que Deus fazia miragres; e el-rei enserro’-as aquel dia e foi-s’ end’, e no-nas mandou catar amiúde. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Foi-s’ el-rei pera Castela, u morou dez anos. E, pois vo a Sevilha, achou grandes danos nas relicas, pero siam envoltas em panos. Mas a Virgem preciosa ao seu recude: 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV toda-las outras relicas achou mal danadas, e as arcas em que siam, mal desbaratadas; mais as de Santa Maria eram bem guardadas, ca o dano das sas cousas mui bem se sacude. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 Quand’ aquesto viu el-rei Dom Afonso, loores deu grandes a Jesu-Cristo, senhor dos senhores; e houve des i da Virgem tam grandes amores que cuido que o coraçom nunca ende mude. 32 Bem guarda Santa Maria pela sa vertude sas relicas, per que muitos recebem saúde. 28 R5 * * * 521 Cantigas de Santa Maria 258 «Aquela que a seu filho viu cinque mil avondar» (E 258) Como Santa Maria acrecentou a ũa bõa dona a massa que tiinha pera pam fazer. R0 2 I 4 6 Aquela que a seu filho | viu cinque mil avondar homees de cinque pães, | quequer pod’ acrecentar. [E] de tal razom com’ esta | um miragre vos direi que mostrou Santa Maria | em Proença, com’ achei escrito ontr’ outros muitos, | e assi o contarei que, se o bem ascuitardes, | fará-vos muit’ alegrar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Um an’ em aquela terra | foi mui caro, com’ oí; e ũa molher mui bõa, | que amava mais ca si a Virgem Santa Maria | e, segund’ eu aprendi, polo seu amor, esmolna, | a quem lha pedia, dar 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III ia mui de bõa mente, | e dava bem a comer a pobres do que havia, | segundo o seu poder; e, por aquesto, farinha | mandava muita fazer, de que pois pães fezessem, | com que os fosse fartar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Mas aquel ano tam caro | foi que todo despendeu quanto pam comprad’ havia | e quanto do seu colheu; e, poi-lo despendeu todo, | um dia lh’ acaeceu que lhe verom i pobres | com gram fame demandar 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V esmolna, como soíam. | E el’ amassando pam entom estava; e logo | os fez colher manamám, e deu-lhes a massa toda | quanta pera si, de pram, tiinha e pera eles, | que rem nom lh’ ém foi ficar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ela enquant’ amassava, | a um seu filho mandou caentar mui bem o forno, | e ele o ca[e]ntou; e, quando foi bem caente, | logo sa madre chamou, dizendo-lhe que os pães | foss’ ao forno levar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII [E] ela com gram vergonha | diss’ ao filho: “– Par Deus, quanta massa eu havia, | dei-[a] aos pobres seus por amor d[a] Santa Virgem, | que é lume destes meus olhos, que os meus pecados | me faç’ a Deus perdõar”. 40 42 522 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quand’ aquest’ oiu o filho, | queixou-se-lhe muit’ entom; e a madre mui cuitada | foi correndo de random u ant’ a massa estava | que já dera, que sol nom minguava ém nulha cousa | dela. E log’ a sinar 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX se filhou; e, depois esto, | ar direi-vo-l’ o que fez: foi-s’ aa rua chorando | e loand’ a do bom prez, a madre de Jesu-Cristo, | por aquesta grãadez tam grande que feit’ havia, | e fez a todos chorar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E chorand’ entom loavam | a madre do salvador por tam fremoso miragre | que fezera por amor daquela que a servia, | e dando-lhe gram loor poserom ricas ofertas | logo sobre seu altar. 62 Aquela que a seu filho | viu cinque mil avondar homees de cinque pães, | quequer pod’ acrecentar. 58 R10 * * * 523 Cantigas de Santa Maria 259 «Santa Maria punha d’ avĩir» (E 259, F [43]) Como Santa Maria fez avĩir na sa eigreja d’ Arraz dous jograres que se queriam mal, e deulhes ũa candea que nom pôde trager outre senom eles. R0 2 I 4 6 Santa Maria punha d’ avĩir os seus por se deles melhor servir. Dest’ um miragre grande foi fazer a Virgem, que vos quero retraer, de dous jograres que fez bem querer; mas o demo provou de os partir. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca, pero se sabiam muit’ amar, feze-os o demo assi gresgar que s’ enviarom logo desfiar; ma-la Virgem nom lho quis consentir. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ca lhes vo em sonhos e assi lhes diss’: “– Amigos, id’ ambos a mi a mià eigreja d’ Arraz, e ali vos direi como vos mando guarir”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Cada um deles, quando s’ espertou, quanto lhes ela disse lhes nembrou; e forom i u lhes ela mandou, e viro-na escontra si vĩir. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E diss’: “– Amigos, vossa entençom partid’, e ambos mui de coraçom amade mi e vós muit’, e al nom façades, ca vos nom hei de falir”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E deu-lhes log’ ũa candea tal com que sãassem as gentes do mal a que chamam «fogo de Sam Marçal», e sãam quantos alô querem ir. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Forom-s’ ambos dali em grand’ amor e sãavam as gentes da door, como lhes foi mandado da senhor 40 524 42 que nunca mentiu nem há de mentir. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII O bispo daquel logar lhes filhou a candea, mas mui mal baratou: ca o fogo no pé lhe começou e queria contra cima sobir. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Quand’ esto viu o bispo de mal sém, pediu-lhes daquela cera porém; e derom-lha a bever, e mui bem lhe fez o fogo logo del fugir. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Hoj’ este dia esta vertud’ ham os jograres da terra que i vam, e tam bem sãam as gentes, de pram, que nom ham pois daquel mal a sentir. 62 Santa Maria punha d’ avĩir os seus por se deles melhor servir. 58 R10 * * * 525 Cantigas de Santa Maria 260 «Dized’, ai trobadores» (E 260, F [46 bis]) Esta é de loor de Santa Maria. I 1 R1 3 II 4 R2 6 III 7 R3 9 IV 10 R4 12 V 13 R5 15 VI 16 R6 18 VII 19 R7 21 Dized’, ai trobadores: a senhor das senhores, porque a nom loades? Se vós trobar sabedes, a por que Deus havedes, porque a nom loades? A senhor que dá vida e é de bem comprida, porque a nom loades? A que nunca nos mente e nossa coita sente, porque a nom loades? A que é mais que bõa e por que Deus perdõa, porque a nom loades? A que nos dá conorte na vida e na morte, porque a nom loades? A que faz o que morre viv’, e que nos acorre, porque a nom loades? * * * 526 Cantigas de Santa Maria 261 «Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer» (E 261, F [36]) Esta é da bõa dona que desejava veer mais dal home bõo e de bõa vida, e bõa dona outrossi, cada que oía deles falar. R0 2 4 I 6 8 10 Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer quiser, em sa vida há de guardar como punhe de lhes fazer prazer e se guarde de lhes fazer pesar. Dest’ um miragre quero retraer que fez a Virgem, que nom houve par, por ũa bõa dona que veer bõos homes queria e honrar, e bõas donas; e foi-lhos mostrar Santa Maria e fez conhocer. R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4] II Um santo bispo, com’ oí dizer, vo a essa terra preegar, e ela, com sabor de o veer, lh’ enviou muito dizer e rogar que, se de Deus quisess’ algo falar, ena eigreja iria seer 16 18 20 R2 21-24 [Refrão = vv. 1-4] III ela. E ele vo sem lezer e começou mui bem a sermõar; e ela, tanto que o foi veer, conhoçe’-o, ca Deus lho quis guisar. E, pois a el se foi mãefestar, descobriu-lh’ entom todo seu querer. 26 28 30 R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4] IV E el assi lhe soube responder: “– Se home bõo queredes catar e bõa dona, eu vo-los veer farei ambos; mas, ant’, a jajũar haveredes, e mui soa estar em ũa casa, e i atender”. 36 38 40 R4 41-44 [Refrão = vv. 1-4] V Ela o fez sem vagar i prender. E, pois nove dias foi acabar, ũa noite quiso Deus que veer o podesse: ca viu gram lum’ entrar per ũa estr’ e per outra passar, como per pont’, e passada fazer 46 48 50 527 R5 51-54 [Refrão = vv. 1-4] VI per i os santos. E ela saber quis quem eram, e log’ a preguntar se filhou o primeiro que veer foi deles, e prês-lo a conjurar que lhe nom fosse verdade negar deles quem eram. E el responder 56 58 60 R6 61-64 [Refrão = vv. 1-4] VII lhe foi assi: “– Estes forom sofrer por Deus em este mund’ e endurar muitas coitas por a Ele veer no paraíso, e porém chamar lhes forom «santos» per todo logar; e vós assi o devedes creer; 66 68 70 R7 71-74 [Refrão = vv. 1-4] VIII e os outros que oídes leer loando_a Deus e aposto cantar, ángeos som, que o sempre veer podem; e aqueles dous que chegar veedes, Jesu-Cristo, sem dultar, ést’ e sa madre, onde foi nacer”. 76 78 80 R8 81-84 [Refrão = vv. 1-4] IX Quando os viu, foi as mãos erger contra o ceo, e prês-s’ a chorar, e disso-lhes: “– Senhores, pois veer quisestes que vos foss’, hoimais levar me querades convosco, sem tardar”. E log’ ant’ eles foi morta caer. 86 88 90 R9 91-94 [Refrão = vv. 1-4] X O santo bispo foi est’ entender da morte dela (e maravilhar se foi muito), ca Deus lhe fez veer dela o feit’ e nom lho quis celar; e fezo sas companhas espertar e punhou logo dali a mover, 96 98 100 R10 101-104 [Refrão = vv. 1-4] XI e foi-s’ aginha, sem se deter; e, pois chegou, fez as portas britar e buscou a dona po-la veer, e viu-a morta e melhor cheirar que nulhas espécias d’ Ultramar daquestas que ende soem trager. 106 108 110 R11 111-114 [Refrão = vv. 1-4] XII Esto mandou em escrito meter o santo bispo, e fez ém loar a Jesu-Cristo que lho fez veer, e a sa madre nom ar quis leixar que nom fossem grandes loores dar, ca tal feito nom lhes quis asconder. 116 118 120 528 R12 122 124 Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer quiser, em sa vida há de guardar como punhe de lhes fazer prazer e se guarde de lhes fazer pesar. * * * 529 Cantigas de Santa Maria 262 «Se nom loássemos por al a senhor mui verdadeira» (E 262) Como Santa Maria guareceu no Poi ũa molher que era sorda e muda. R0 2 I 4 6 Se nom loássemos por al | a senhor mui verdadeira, devemo-la loar porque | nos demostra ém carreira. E daquest’ um gram miragre | fezo a Virgem, que sol fazer outros grandes muitos | por achegar nossa prol; mas eno Poi fez aquesto | a mais fremosa que sol nem que toda-las estrelas: | aquest’ é cousa certeira. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este logar é bispado, | e eigreja nobr’ há i u tod’ aquestes miragres | faz ela, com’ aprendi, e porende muitas gentes | de todas partes vam i; onde fez grand’ ũa noite | miragr’ em esta maneira. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III A hora de madodinhos | fezo a terra tremer com torvões, e coriscos | de todas partes caer, assi que todos fogirom, | no-no podendo sofrer, e desta guis’ a eigreja | ficou d’ homees senlheira. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV As portas e as festras | serrarom-se log’ em par, e os santos e as santas | começarom de cantar ant’ a Virgem (que poseram | ant’ encima do altar) em bom som «Salve, regina» | (e esta foi a primeira 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V [v]ez que nunca foi cantada). | Mas ũa molher ficou, sord’ e muda, na eigreja, | que com medo se deitou tra-lo altar, e viu logo | com seus olhos e falou, e ficou bem de seus nembros | toda sãa e enteira. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, comoquer que falasse | nas outras razões bem, «Salve, reinha» sabia | dizer melhor doutra rem, toda mui compridamente, | que rem nom minguava ém, como lhe mostrou a Virgem, | que nom houve companheira. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Em outro dia as gentes | verom missa oir, e virom as portas clusas | e quisero-nas abrir, mas nom poderom; e logo | filharom-s’ a repentir de seus pecados, e foi-lhes | entom a Virgem porteira. 40 42 530 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, pois forom na eigreja, | logo a molher saiu de tra-lo altar, u era, | e contou-lhes como viu a Virgem Santa Maria | e como_a todos oiu bem cantar «Salve, regina». | E mais gente que em feira 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX foi log’ ali ajuntada, | que todos em mui bom som cantarom «Salve, regina», | chorando de coraçom. E des ali adeante | estabilirom que nom albergasse na eigreja | leigo nem leiga nem freira. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E porend’ esto creede, | e nom creades end’ al, que por outros trobadores | mostrasse tam gram sinal a Virgem Santa Maria, | senom que a muitos val; e, se faz grandes miragres, | esto lh’ é cousa ligeira. 62 Se nom loássemos por al | a senhor mui verdadeira, devemo-la loar porque | nos demostra ém carreira. 58 R10 * * * 531 Cantigas de Santa Maria 263 «Muit’ é bem-aventurado» (E 263, F [70]) Esta é como Santa Maria guareceu em Cudeio, preto de Santander, ũu home que era tolheito de todo o corpo. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Muit’ é bem-aventurado e em bom ponto naceu o que da Virgem mandado fez e a obedeceu. Ca ela sempre a nós dá | que façamos o melhor per que nos guardemos d’ erro | e hajamo-lo amor de Deus, e que ar sejamos | sem coita e sem door; porém que-na nom crevesse | seria muito sandeu. [Refrão = vv. 1-4] E daquest’ um gram miragre | mui preto de Santander fez a Virgem, em Cudeio, | dum home que gram mester havia d’ haver saúde, | que qual de seus nembros quer perdera em tal maneira | per que o corpo perdeu. [Refrão = vv. 1-4] E, deste mal, tam cuitado | era que sol se volver nom podia nem erger-se | eno leito nem seer, e chorando e gemendo | nom quedava de dizer que o acorress’ a Virgem, | que a muitos acorreu. [Refrão = vv. 1-4] Um dia fazend’ aquesto, | mostrou-se-lhe, sem dultar, a Virgem Santa Maria | e disse: “– Se tu sãar queres dessa ’nfermidade, | fais-te tantoste levar a esta eigreja logo”. | E el espavoreceu; [Refrão = vv. 1-4] pero falou como pôde | e disse: “– Alá irei u me mandades que vaa; | mas, pois i for, que farei?” Diss’ ela: “– Faz ũa missa | cantar, ca de certo sei que, pois que o Corpo vires | de Deus, que por ti morreu, [Refrão = vv. 1-4] que tantoste gram saúde | no corpo receberás; onde faz-t’ i levar logo | sol que vires a luz crás; mas a missa que te digo, | da madre de Deus farás dizer, e verá-lo Corpo | daquel que dela naceu, [Refrão = vv. 1-4] e logo serás guarido | e ar cobrarás teu sém”. E el, poi-la viu fremosa | e ar vestida tam bem, 532 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 74 76 disse-lhe: “– Por Deus, ai dona, | dizede quem sodes, quem?” Diss’ ela: “– Santa Maria, | de que Deus carne prendeu”. [Refrão = vv. 1-4] Foi-s’ a Virgem. Ficou ele | e fez quanto lhe mandou; e, pois foi ena igreja | e a missa ascuitou e viu o Corpo de Cristo | (que chorando aorou), logo foi guarid’ e são, | e du jazia s’ ergeu [Refrão = vv. 1-4] e ao altar dereito | se filhou corrend’ a ir. Quand’ aquesto viu a gente, | todos logo, sem mentir, loarom Santa Maria, | porque nunca quer falir de valer a que-na chama, | com’ a aqueste valeu. Muit’ é bem-aventurado e em bom ponto naceu o que da Virgem mandado fez e a obedeceu. * * * 533 Cantigas de Santa Maria 264 «Pois aos seus, que ama, defende todavia» (E 264) Como Santa Maria fez perecer as naves dos mouros que tiinham cercada Costantinopla, tanto que os crischãos poserom a sa imagem na riba do mar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Pois aos seus, que ama, | defende todavia, dereit’ é que defenda | a si Santa Maria. E daquest’ um miragre | vos quero contar ora que fez Santa Maria, | a que nunca demora de rogar a seu filho, | ca sempre por nós ora que nos valha nas coitas | mui grandes todavia. [Refrão = vv. 1-2] E ela, por vertude | que del há, nos defende e defende_a si misma | quand’ algum torto prende; ond’ aqueste miragre | que vos direi, porende fez em Costantinopla, | u gram torto prendia. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Ca os mouros verom | cercá-la com gram brio per mar com sas galeas | e com mui gram navio; e assi os cuitarom | que, per força, do rio lhes tolherom a água, | ond’ a gente bevia. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Assi que os crischãos | com mui gram cuita fera forom aa omagem | que Sam Lucas fezera da Virgem groriosa, | que já muitos houvera feitos grandes miragres | e sempre os fazia. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Esta omagem era | em távoa pintada mui bem e muit’ aposto, | e assi fegurada como molher que fosse | mui[to] bem faiçõada: como a Virgem santa | pareceu, parecia. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E, ante que morresse | a Virgem, fora feita a semelhante dela, | por destroir a seita dos judeus e do demo, | que sempre nos espreita por fazer que caiamos | em err’ e em folia. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Esta põer mandara | na riba, mantente, do mar um cavaleiro | que era mui creente na Virgem groriosa, | porque viu que a gente 534 42 cuitada e seu preito | todo pera mal ia. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 E, quand’ ali foi posta, | chorando lhe rogarom dizend’: “– Aquestes mouros | que nos assi cercarom, dá-lhes tu maa cima | desto que começarom, que contra o teu filho | filham tam gram perfia”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 Quand’ est’ houverom dito, | eno mar a poserom u a feriss’ as ondas, | e assi lhe disserom: “– A ti e nós defende | destes que nom creverom nem creem no teu filho, | ca mester nos seria”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 En[t]om toda a gente | aos ceos as mãos alçarom; e tantoste | as naves dos pagãos eno mar s’ afondarom | per rogo dos crischãos e da beita madre, | que os guiou e guia. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 E por este miragre | d[e]rom grandes loores todos comũalmente, | maiores e mores, aa Virgem beita, | que aos pecadores acorr’ e a coitados | nas coitas noit’ e dia. 68 Pois aos seus, que ama, | defende todavia, dereit’ é que defenda | a si Santa Maria. 64 R11 * * * 535 Cantigas de Santa Maria 265 «Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom» (E 265, F [22]) Como Santa Maria guareceu a Joám Damasco da mão que lhe mandara talhar o emperador. R0 2 I 4 6 Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom aos seus que torto prendem sem razom. Um miragre desto (que escrit’ achei em um livr’ antigo) vos ora direi que a Virgem madre fez do alto rei, ond’ hajades piadad’ e devoçom. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Joám Damasc’ houve nome, sei bem, por quem o miragre fez a que nos tem em firm’ esperança de nos fazer bem eno paraíso, u os santos som. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Est’ home de linhage foi nom rafez, mais de grand’, e sempre des sa meninhez aprendeu nas artes, por que maior prez houve dos que eram em [e]ssa sazom 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV de saber; e soube sempre bem, sem mal, e Santa Maria, a que pod’ e val, amou mais que al rem, e por lhe leal seer entrou logo em religiom. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E sas horas todas sempre bem rezou, e, pois foi de missa, mui be-na cantou, a Virgem loando. Mais pois cativou de mouros, e levado foi em prijom 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI a Pérsia; e um mouro rico deu por el seu haver, e ficou servo seu. E, ali jazendo, per quant’ aprix eu, sempr’ a Deus rogava mui de coraçom 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e a Santa Maria, que ajudar o quisess’ e daquela coita tirar. E ela o fez a seu senhor amar, 40 536 42 assi que o leixou entrar a baldom R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII em sa casa, e amostrar a leer a seu filh’, e outrossi a escrever com’ el escrevia, que sol conhocer nom podiam nem fazer estremaçom 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX qual deles escrevia mais nem melhor. E, pois esto soube o emperador, enviou dizer a aquel seu senhor que logo, sem al, lho enviass’ em dom; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e ele o fezo logo manamám. E o emperador, poi-lo viu, mui gram prazer com el houv’, e em ordem de Sam Beito o fez logo meter entom, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI [em] um mõesteiro, per quant’ aprendi, que era em Roma; e ia-no i veer ameúd’, e, el estand’ ali, seu conselh’ oía sempr’ e seu sermom. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E sempre lhe conselhava que com Deus se tevesse muit’ e, des i, aos seus sempre bem fezess’, e pobres [e] romeus houvessem mui gram part’ e mui gram quinhom. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Mas, em Pérsia, o filho do burgês cujo preso fora, tal enveja prês que fezo de cartas dous pares ou três e enviou sobre atal entençom, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV porque sa lêtera estremar adur poderia home da sua nenlhur poi-las achassem, ca nunca mur com mur se mais semelharom em sua faiçom. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E disse_a um seu home: “– Vai-te, senher, bem ali u o emperador sever; aquestas cartas deitarás comoquer, long’ ũa doutra, ca ajuntadas nom”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E o mandadeiro desto nom falir quis, e foi deitar as cartas, sem mentir, 94 537 96 u o emperador achou, que abrir as foi, e tornou bravo com’ um leom. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Ca as cartas diziam: “– Aos dalá, nossos amigos que em África há: eu, Joám Damasco, que viv’ acá, vos envio saudar com beiçom 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 de Deus, nosso Padre, que em ceo sé; que eno empério pouca gent’ é sabede, e mal bastido, a-la-fé, está; por que vós toste de sujeçom 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX poderedes sair ora, se vos praz”. O emperador, pois viu esto, assaz catou as lêteras e diss’: “– O malvaz Joám Damasc’ aquesta traiçom 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX fez, ca destas lêteras sõo bem fis que ele as escreviu, par Sam Denis; mais farei-vo-lh’ eu o que mal fazer quis, que el de si veja mui maa vijom”. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Log’ entom aos seus conselho pediu sobr’ aqueste feito; e, pois que o ’iu, a Dom Joám Damasco, u o viu o póboo, mandou-lhe fazer lijom. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII E a um seu home disse logo: “– Tol-lh’ a mão destra, por que fez come fol aquela carta; e pois faça sa prol per u mais podér”. E el em oraçom 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 se foi deitar, per com’ o escrito diz, ant’ o altar da santa emperadriz e dizend’ assi: “– Se t’ eu serviço fiz, mostra teu miragr’ em tam grand’ ocajom 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 que colhi da mão; mas quant’ ũa noz nom dou pela chaga, ca nom dol nem coz; mais tu, que és madre daquel que «Aioz» chamad’ é dos gregos, fas ta petiçom 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] 538 XXV 148 150 que me dé mià mão, ca eu nunca fix esta traiçom, nem fazê-la nom quix; e, se cantar ou loor eu de ti dix que te prouguesse, fas-lhe tu este som”. R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XXVI 154 Toda a noite bem até ena luz jouv’, esto dizendo e tendud’ em cruz ant’ o altar. Mai-la que sempre aduz bem, trouxe a mão, e eno tocom 156 R26 157-158 [Refrão = vv. 1-2] XXVII 160 162 lha pôs, e foi são eno mês d’ abril; e logo ant’ o emperador gentil e ante outros homes bem cem mil cantou sa missa e fez gram precissom. 164 Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom aos seus que torto prendem sem razom. R27 * * * 539 Cantigas de Santa Maria 266 «De muitas guisas miragres a Virgem esperital» (E 266) Como Santa Maria de Castroxer[i]z guardou a gente que siía na igreja oindo o sermom, dũa trave que caeu de cima da igreja sobr’ eles. R0 2 I 4 6 De muitas guisas miragres | a Virgem esperital faz, por que em Deus creamos | e por nos guardar de mal. E por esto, contar quero | dum escrito em que diz um mui fremoso miragre | que fez em Castroxeriz a Virgem Santa Maria, | ond’ aqueste cantar fiz; e, por Deus, parad’ i mentes | e nom faledes em al. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesto foi na igreja | que chamada é, de pram, de todos «Santa Maria», | e muitas gentes i vam ter ali sas vegias, | e de grad’ i do seu dam por se fazer a eigreja | e a torr’ e o portal. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E por aquesto, madeira | faziam ali trager, pedra e cal e ara; | e desta guis’ a fazer começarom a igreja | tam grande que bem caber podess’ i muita de gente, | pero nom descomunal. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde avo um dia | que, estando no sermom mui gram gente que i era, | conteceu assi entom: que caeu ũa gram trave | sobre-la gente; mas nom quis a Virgem que ferisse | a nulh’ hom’. E quem viu tal 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V miragre?: ca tam espessa | siía a gent’ ali, aquele sermom oindo, | como contarom a mi, que de cima nom podia | niũa rem caer i que nom matass’ ou ferisse | e fezesse gram sinal. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Mas a Virgem groriosa, | cujo era o lavor, nom quis que aquela trave | fezesse senom pavor. Porém quantos i estavam | derom a ela loor, que sempr’ aos seus acorre | nas grandes coitas e val. 38 De muitas guisas miragres | a Virgem esperital faz, por que em Deus creamos | e por nos guardar de mal. 34 R6 * * * 540 Cantigas de Santa Maria 267 «A de que Deus prês carn’ e foi dela nado» (E 267, E 373, F [53]) Esta é como Santa Maria livrou um mercador de Portogal do perígoo das ondas do mar em que andava u caera dũa nave. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A de que Deus prês carn’ e foi dela nado, bem pode valer a todo perigoado. Ca per ela foi a morte destroída, e nossa saúde cobrada e vida: tod’ est havemos pola senhor comprida. Pois um seu miragre vos direi de grado [Refrão = vv. 1-2] que fez esta Virgem santa e reinha, que é dos coitados todos meezinha; contar-vo-lo-ei brevement’ e aginha quant’ end’ aprendi a quem mi_o há contado. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Entre Doir’ e Minh’, em Portugal, morava um mercador rico muito que amava Santa Maria e por ela fiava, e e-na servir sempr’ era seu cuidado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Comoquer que el pelas terras mercasse, se dõa fremos’ e aposta achasse que pera o seu altar lhe semelhasse, de lha aduzer era muit’ entregado. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Porque amava muito Santa Maria de coraçom, disse ca em romaria a Rocamador de bõa ment’ iria tanto que o el podess’ haver guisado. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Assi foi que el sa nav’ houve fretada pera ir a Frandes; e essa vegada, pois que houve bem sa fazenda guisada, foi-se com quant’ haver havia mercado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Mas pela costeira do gram mar d’ Espanha ind’ aquela nave com mui gram companha, levantou-s’ o mar com tormenta tamanha que muito per-foi aquel dia irado. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 541 VIII 46 48 Levarom-s’ as ondas fortes feramente sobr’ aquela nave, que aquela gente cuidou i morrer, e logo mantenente chorou cada um entom i seu pecado. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E o mercador eno bordo da nave estava entom encima da trave, e ũa onda vo fort’ e mui grave que lhe deu no peit’, e no mar foi deitado. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X A nav’ alongada foi, se Deus me valha, del ũa gram peça pelo mar, sem falha; mais o demo, que sempre nosco trabalha, quisera que morress’ i log’ afogado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI El andand’ assi em aquela tormenta, nembrou-se da Virgem, que sempr’ acrecenta eno nosso bem; ca, pero que nos tenta o demo, nom pode nosc’, a Deus loado. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII “– Ai madre de Deus” –diss’ el– “teu bem m’ ajude: tu, que és senhor santa de gram vertude, pois a todo-los coitados dás saúde, nembra-te de mi, que ando tam coitado: 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII senhor, por mercee, nom me desampares por algũu tempo t’ eu fazer pesares, e, se m’ ora daquestas ondas tirares, servir-t’-ei eu sempr’ e farei teu mandado; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV nembra-te, senhor, que t’ hei eu prometudo d’ ir aa ta casa, est’ é bem sabudo; mas tu, dos coitados esforç’ e escudo, val-me, senhor, ca muit’ and’ atormentado”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV El esto dizendo, log’ a Virgem santa vo, que o dem’ e seus feitos quebranta: come senhor bõa, que os seus avanta, fora dontr’ as ondas o houve tirado. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E fez entom i gram maravilha fera, ca tornou o mar manso de qual ant’ era. Se lh’ el algum tempo serviço fezera, mui bem lho per-houv’ ali gualardõado. 94 96 542 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII E levou-o salvo a terra segura, que sol nom sentiu [nem] coita nem rancura: esto fez a da virgĩidade pura, que por nós viu seu filho crucifigado. 100 102 R17 103-4 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E ante dez dias (oí por verdade) que a nave foss’ em aquela cidade u portar havia, pola piedade de Santa Maria foi el i chegado. 108 R18 109-0 [Refrão = vv. 1-2] XIX E, tanto que os da nav’ ali chegarom, pois o virom, todos se maravilharom; e os seus entom mui ledos per-tornarom, e contou-lhes el quant’ havia passado. 112 114 R19 115-6 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 E o mercador, pois se tornou de França e foi em sa terra, sem longa tardança a Rocamador se foi, e confiança na Virgem sempr’ houv’. Hei-vo-lo acabado. 122 A de que Deus prês carn’ e foi dela nado, bem pode valer a todo perigoado. 118 R20 * * * 543 Cantigas de Santa Maria 268 «Gram confiança na madre de Deus sempr’ haver devemos» (E 268) Como Santa Maria guareceu em Vila-Sirga ũa dona filhadalgo de França, que havia todolos nembros do corpo tolheitos. R0 2 I 4 6 Gram confiança na madre | de Deus sempr’ haver devemos por muitos bõos miragres | que faz, de que nós loemos. Ca o que gram confiança | em ela houver, sem falha, em toda coita que haja | bem creede que lhe valha; e porend’ um seu miragre | oíde, se Deus vos valha, que fezo em Vila-Sirga, | ond’ outros muitos sabemos. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II ũa dona filhadalgo, | que bem de terra de França era natural, havia | na Virgem gram confiança; e, servindo-a de grado | sempre, sem nulha dultança, houv’ em seu corpo doores | grandes, que todos t[e]memos. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta dona que vos digo | havia todo tolheito o corpo, que nom havia | neum dos nembros dereito; des i, em ũa carreta | a tragiam, e proveito nom lh’ haviam romarias | de santos, com’ aprendemos. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ela assi mui coitada | per santuairos andando, romeus que de Santiago | iam forom-lhe contando os miragres que a Virgem | faz em Vila-Sirg’; e, quando os oiu [aqu]esta dona, | fez o que nós vos diremos: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V chorou muito dos seus olhos | e aos ceos as mãos alçou, e diz: “– Virgem santa | (que nom creem os pagãos), a ti ofer’ estes nembros | mancos, que nom tenho sãos, ca todo-los pecadores | em ti esperanç’ havemos; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e promet’ eu, Virgem santa, | que eu aa ta eigreja de Vila-Sirga de grado | vaa, que eu sãa seja per ti desta mià gram coita | que eu padesc’ e sobeja, ca nós vida e saúde | todos de ti atendemos”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois que prometeu aquesto | com devoçom atamanha, esta dona em carreta | se fez trager a Espanha; e, pois foi em Vila-Sirga, | fez, como sol seer manha dos romeus, muitas candeas, | assi como entendemos. 40 42 544 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E mandou que na eigreja | a metessem muit’ aginha; e, pois ant’ o altar jouve | da Virgem santa, reinha, diz: “– Ai senhor poderosa, | nembra-te de mi, mesquinha, ca todo-los pecadores | coitados a ti corremos; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX senhor mansa, senhor bõa, | de todos bes comprida, tu és corõa dos santos | e tu dos ángeos vida; dá-me pola ta vertude | a este corpo guarida, ca muit’ aginha o podes | fazer, como nós creemos”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Pois que a oraçom feita | houv’ esta molher coitada, log’ a Virgem preciosa, | dos pecadores vogada, deu-lhe saúd’ em seu corpo, | e foi sãa e cobrada de quantos nembros havia | mais toste ca vos dizemos. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Pois esta dona guarida | foi da coita que havia, tornou-se pera sa terra; | e foi de Santa Maria servidor mentre foi viva. | E porém nós todavia por tam fremoso miragre | sirvamo-la e loemos. 68 Gram confiança na madre | de Deus sempr’ haver devemos por muitos bõos miragres | que faz, de que nós loemos. 64 R11 * * * 545 Cantigas de Santa Maria 269 «A que poder há d’ os mortos de os fazer resorgir» (E 269, F [98]) Como um meninho que era sordo e mudo resucito’-o Santa Maria per rogo de sa madre do meninho e fez-lhe cobrar o falar e o oir. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que poder há d’ os mortos | de os fazer resorgir, pod’ os mudos e os sordos | fazer falar e oir. Dest’ um gram miragre fezo | por ũa bõa molher a Virgem Santa Maria, | que faz muitos quandoquer, grand[e]s e maravilhosos, | e acorr’ u há mester a aqueles que a chamam | ou que a sabem servir. [Refrão = vv. 1-2] Aquesta molher havia | um filho que mui gram bem queria mais doutra cousa, | pero nom oía rem nem falava nemigalha; | e a mesquinha porém quant’ havia despendera | pera fazê-lo guarir. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Pois viu que lhe nom prestava | nem meezinha nem al, tornou-s’ a rogar a Virgem, | a senhor esperital, porque sempr’ aos coitados | nunca lhes erra nem fal, e vegias das sas festas | jajũava sem falir. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 O filho, que era mudo, | per sinas lhe preguntou porque tanto jajũava; | e ela lhe dessinou que pola Virgem beita | o fazia. El filhouse a jajũar com’ ela | e mercee lhe pedir R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 na voontad’ e per sinas, | esto com gram devoçom. Mas ũa enfermidade | grande lh’ avo entom que por morto o teverom | seus parentes; pero nom lhe prougu’ a Santa Maria | que assi fosse fĩir. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Ca, eno leito jazendo, | aginha se foi erger, e falou dereitamente | e começou a dizer: “– Mià senhora, bem venhades”. | E ar, com’ em responder, diz: “– Senhor, de bõa mente | o farei eu, sem mentir”. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 E ar diss’ outra vegada: | “– De bõa mente verrei”. Quand’ esto oiu sa madre, | disse como vos direi: “– Meu filho, com quem falades?” | Diss’ el: “– No-no negarei: 546 42 falo com Santa Maria, | que me fezo resorgir R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 e me disse “– Deus te salve!”; | e eu respondi que bem fosse vĩúd’; e ar disse | que nom leixasse per rem que me bem nom confessasse; | e eu respondi porém que me queria de grado | dos pecados repentir; R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 ar disse-m’ outra vegada | que, se eu pesseverar em seu serviço quisesse, | que me faria levar mui ced’ ao paraíso; | e eu logo sem tardar respondi que mui de grado | queria com ela ir”. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Des quand’ aquest’ houve dito, | são do leito s’ ergeu, que nom foi mudo nem sordo, | mas comeu log’ e beveu. Quand’ aquesto viu a gente, | log’ aa Virgem rendeu loores. E de nós seja | loada, se por bem [vir]. 62 A que poder há d’ os mortos | de os fazer resorgir, pod’ os mudos e os sordos | fazer falar e oir. 58 R10 * * * 547 Cantigas de Santa Maria 270 «Todos com alegria cantand’ e em bom som» (E 270, F [56]) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Pero que noit’ e dia | punhamos de pecar, sirvamo-la um pouco | ora ’m nosso cantar, pois que a Deus no mundo | por avogada dar quis aos pecadores, | que pecam sem razom. 8 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 4 R1 II 12 Com gram dereito todos | a devemos loar, pois ela a sobêrvia | do demo foi britar; e porém lhe roguemos | que aqueste cantar que ora nós cantamos | nos receba por dom. 14 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 10 R2 III 18 Quanto nossa primeira | madre nos fez perder per desobediença, | todo nos fez haver aquesta, a que vo | o ángeo dizer «Ave, gratia plena» | por nossa salvaçom. 20 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 16 R3 IV 24 Per Adám e per Eva | fomos todos caer em poder do diabo; | mais quise-se doer de nós quem nos fezera, | e vo-se fazer nov’ Adám que britass’ a | cabeça do dragom. 26 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 22 R4 V 30 Gram merce’ ao mundo | fez por esta senhor Deus; e mui gram dereito | faz quem é servidor desta, que nos adusse | Deus, hom’ e salvador, que compriu quanto disse | Davi e Salomom. 32 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 28 R5 VI 34 36 R6 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. Com esta juntar quise | Deus verdadeir’ amor, e foi end’ Isaías | seu profetizador; e Daniel profeta, | que dita de pastor era, disse que Cristus | haveria onçom. Todos com alegria | cantand’ e em bom som 548 38 VII 42 Aquesta foi chamada | «fiscella Moysi», e foi por nossa vida | madre d’ Adonaí; e desta jaz escrito | em livro Genesi que seu fruito britass’ o | demo brav’ e felom. 44 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 40 R7 VIII 48 [N]a Velha Lei, daquesta | Moisém, com’ aprendi, falou, e de seu filho | profetizou assi, dizendo que profeta | verria, e des i quem em Aquel nom creess’ | iria_a perdiçom. 50 Todos com alegria | cantand’ e em bom som devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. 46 R8 devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom. * * * 549 Cantigas de Santa Maria 271 «Bem pode seguramente demandá-lo que quiser» (E 271, F [46]) Esta é de como ũa nave de crischãos estedera três meses em um rio e nom podia sair porque a combatiam mouros, e Santa Maria sacou-a em salvo. R0 2 I 4 6 Bem pode seguramente | demandá-lo que quiser aa Virgem tod’ aquele | que em ela bem crever. Desto direi um miragre | que fez aquesta senhor grand’ e mui maravilhoso | eno rio d’ Azamor que Morabe é chamado, | pelo alcaide maior dũa nave que i era | del-rei senhor d’ Alanquer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquela nav’ i meteram | per cordas, com’ aprendi, no rio, que estreit’ era, | e nom podia pois di sair per nulha maneira; | porend’ estava assi a nave come perduda, | que atá em Mompesler 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III melhor dela nom havia. | Porend’ os mouros haver todavia a cuidavam, | e vinha-na combater; mas os que na nave eram | sabiam-se defender mui bem deles, mas bom vento | haviam muito mester. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Assi jouverom três meses | que nom poderom sair pela foz daquele rio, | e cuidavam i fĩir; mas o alcaide da nave | fez aos outros oir, dizendo-lhes: “– Por Deus seja, | oíde, se vos prouguer: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ca, comoquer que bem cream | em Deus os de Portugal, eu hei tam grand’ esperança | na Virgem espirital que, se lh’ algo prometemos, | sacar-nos-á deste mal; porém cada um prometa | de grado do que tever; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e, se vos a Virgem santa | deste logar nom tirar, eu quero que me façades | pelos pees pendorar do masto per ũa corda, | e quer’ enforcad’ estar desta guisa se tantoste | mui bom vento nom ver”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ est’ houve dito, logo | cada ũu deles deu ajuda pera um cález | do haver que era seu; e o alcaide lhes disse: | “– Por Deus, nom vos seja greu, 40 550 42 e guisad’ os aparelhos | quis como melhor podér; R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII e todos Santa Maria | roguemos de coraçom del Poi, que aqueste cález | receba em ofreçom, e que nom cate com’ éste | pera ela pouco dom; e confonda Deus quem contra | esto nulha rem disser”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois esto foi outorgado, | a vea alçar mandou; e, pois suso foi alçada, | o mar creceu e chegou-lhes bom vento qual queriam, | que log’ a nave sacou fora do rio a salvo. | E porende quem fezer 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 serviç’ a Santa Maria, | muito será de bom sém, ca nas cuitas deste mundo | acorrê-lo-á mui bem, e ena hora da morte | no-no leixará, per rem; e porém servi-la deve | tod’ hom’ e toda molher. 62 Bem pode seguramente | demandá-lo que quiser aa Virgem tod’ aquele | que em ela bem crever. 58 R10 * * * 551 Cantigas de Santa Maria 272 «Maravilhosos miragres Santa Maria mostrar» (E 272, F [60]) Como Santa Maria fez em Sam Joám de Leterám, em Roma, que se mudasse ũa sa omagem da ũa parede da igreja na outra. R0 2 I 4 6 Maravilhosos miragres | Santa Maria mostrar vai por nós, que no-lo demo | nom faça desasperar. Que quand’ em desasperança | nos quer o demo maior meter, bem ali nos mostra | ela mercê e amor, porque nom desasperemos; | e porend’ atal senhor devemos mais doutra cousa | sempre servir e loar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E, de tal razom, miragre | vos contarei que oí mui grande, que fez a Virgem | em Roma, com’ aprendi, em ũa igreja nobre, | de Leterám, que há i, por ũa molher errada | que s’ i foi mãefestar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta molher que vos digo, | com’ este miragre diz, tam muit’ havia errado | e era tam pecadriz que em al nom se fiava | senom na emperadriz dos ceos, ca bem cuidava | por ela perdom gãar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E assi a adussera | o demo a cofujom que sol nunca a leixava | que prendesse confissom; mas a Virgem, de Deus madre, | lh’ amolgou o coraçom, per que entrou na eigreja | e começou de chorar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E confessou seus pecados | a um preste que achou; e, pois que lhos houv’ oídos, | muito se maravilhou de tanto mal que fezera, | e sobr’ aquesto cuidou. E ela foi mui coitada | e começou-lh’ a falar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e disse-lh’: “– Ai senhor preste, | se pode inda seer que daquestes meus pecados | podess’ eu perdom haver?” Diss’ el: “– Quand’ esta omagem | que eu vejo, se mover desta pared’ a estoutra | e s’ alá toda mudar 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII (que éste da groriosa | Virgem e madre de Deus), entom serás perdõada, | cuid’ eu, dos pecados teus”. Quand’ a molher oiu esto, | chorou tam muito os seus pecados que ũa peça | de terra ant’ o altar 40 42 552 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII molhou, e muito rogando | aquela que Deus pariu que mercê houvesse dela; | e a Virgem a oiu. E o preste parou mentes | e log’ a omagem viu estar na outra pared’; e | foi-se log’ agolhar 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ant’ a molher e rogou-lhe | que muito lh’ era mester que a Deus por el rogasse, | ca nunca já per molher maior miragre mostrara | sa madr’: “– E pois ela quer que tu perdõada sejas, | queras-me tu perdõar 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X do grand’ erro que te dixe, | come home de mal sém; ca em mudar-s’ a omagem | por ti, mostrou-te que bem de coraçom t’ há parcida | a senhor que nos mantém; e porém por mi lhe roga | que me nom queira culpar 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI daquest’ erro que hei feito”. | E filhou-s’ a repentir; e, pois que foi repentido, | começou-se logo d’ ir braadando pelas ruas, | e as gentes fez vĩir e mostrou-lhes o miragre | que fez a Virgem sem par. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E todos entom chorando, | segund’ eu escrit’ achei, loarom Santa Maria, | a madre do alto rei; e a molher depois sempre | a serviu, e porém sei que lhe foi gualardõado | u nunca verá pesar. 74 Maravilhosos miragres | Santa Maria mostrar vai por nós, que no-lo demo | nom faça desasperar. 70 R12 * * * 553 Cantigas de Santa Maria 273 «A madre de Deus que éste do mundo lum’ e espelho» (E 273, F [39]) Esta é como Santa Maria deu fios a ũu home bõo pera coser a savãa do seu altar. R0 2 I 4 6 A madre de Deus, que éste | do mundo lum’ e espelho, sempre nas cousas minguadas | acorre e dá conselho. Desta razom um miragre | direi apost’ e fremoso, que fezo Santa Maria, | e d’ oir mui saboroso; esto foi em Aiamonte, | logar jaquanto fragoso, pero terra avondada | de perdiz e de cõelho. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ali há ũa eigreja | desta Virgem groriosa, que é dentro no castelo, | nem bem feita nem fremosa, mas pequena e mui pobre | e de todo m[i]nguadosa, e campãa há tamanha | qual convém ao concelho. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E os panos com que era | ende o altar coberto eram ricos e mui nobres, | esto sabemos por certo; e per cima da eigreja | era o teito coberto; e hóstias i minguavam | e vinho branc’ e vermelho. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo na gram festa | desta Virgem em agosto que entrou um home bõo, | e viu estar desaposto o altar, e disse logo: | “– Par Deus, muit’ é gram dosto d’ o feito da Virgem santa | seer metud’ a trebelho; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e, pero ora nom tenho | pera dar i oferenda, coserei aquestes panos | daquest’ altar, sem contenda, se podér achar agulha | ou fios ou quem mi_os venda, pois que malparado vejo | jazer aqueste zarelho; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e maa ventura venh’ a | quem altar assi desbulha: e porém buscade fios, | amigos, ca eu agulha tenho que nom há tam bõa | daqui atá Ribadulha pera cosê-los mui toste, | pero que velho semelho”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Per cousa que el fezesse | nem dissesse nem rogasse a todos, nom foi em preito | que sol um fio achasse (nem ainda enos panos | do altar, pero provasse de sacar end’ um enteiro), | nem quem lhe disse sedelho. 40 42 554 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Estand’ assi aquel home | por estes fios coitado que os haver nom podia, | catou e viu a seu lado pender de cima do ombro | dous fios, e espantado foi ém muit’ a maravilha, | dizendo: “– Nom é anelho 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX este miragre, mas novo; | e por aquesto, varões, ena Virgem groriosa | bem ted’ os corações”. E log’ ant’ o altar todos | fezerom sas orações, e mais lágrimas chorarom | ca cho um gram botelho. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E levantarom-se logo, | dando grandes adianos todos a Santa Maria; | e el[e] coseu os panos mui bem com aqueles fios | e [end’] encobriu os danos, a pesar do dem’ astroso, | que é peor que golpelho. 62 A madre de Deus, que éste | do mundo lum’ e espelho, sempre nas cousas minguadas | acorre e dá conselho. 58 R10 * * * 555 Cantigas de Santa Maria 274 «Poi-lo pecador punhar em servir Santa Maria» (E 274, F [38]) Esta é como Santa Maria fez ao frade que lh’ acabasse a garnacha que havia começada d’ orações, e disse-lhe qual dia havia de morrer. R0 2 I 4 6 Poi-lo pecador punhar | em servir Santa Maria, nom temades que perder | se possa per sa folia. Por vos provar ora esto, | miragre quero dizer que pouc’ há conteu em Burgos, | dum frade que quis fazer aa Virgem sa garnacha | d’ orações, e poder seu meteu em acabá-la, | assi noite come dia. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Por fazer esta garnacha | estev’ ũa gram sazom que nom foi dia nem noite | que nom foss’ em oraçom; e, estando-a fazendo, | o demo em coraçom lhe meteu que se saísse | da ordem, ca bem seria. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Estando el em serviço | da Virgem, foi-o tentar atám muito o diabo | que o houve de forçar que lhe fez que a garnacha | leixasse por acabar, e fez-lhe leixar a ordem, | e foi-s’ ende sua via. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El indo per um caminho, | a Virgem lh’ apareceu, e ficou-s’ el em golhos | (e mui bem per-entendeu que Santa Maria era | e logo a conhoceu). E ela em sua mão | ũa garnacha tragia 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que ademais era bela | e de mui rico lavor, senom que era mui curta, | come d’ algũa pastor pequena. E diss’ o frade: | “– Seeria mui melhor esta garnacha se fosse | comprida como devia”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Diss’ entom Santa Maria: | “– Esta garnacha per si ést’ a que me tu fazias, | e leixache-ma assi por acabar; mas aginha | te torna logo daqui ao mõesteir’, e, se mi_a | comprisses, gracir-cho-ia”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Depois que lh’ a Virgem santa | esto disso, foi-lhe mal e disso-lhe: “– Senhor, madre | daquel que pod’ e que val, se mi_aquesto perdõasses, | ir-m’-ia logo, sem al, ao mõesteir’, e esta | garnacha acabaria”. 40 42 556 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Entom diss’ a groriosa: | “– Meu filho perdõará a ti quanto tu cuidaste, | pois que t’ end’ achas mal já; e torna-t’ a tua ordem, | ca mui cedo ch’ haverá mester de t’ alá tornares, | ca eu teu mal nom querria; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ainda de ta fazenda | mais te desenganarei: deste dia a um ano | serás morto, eu o sei; e a esto pára mentes: | ca eu ant’ a ti verrei que moiras; e no meu filho, | que te fez, sempre confia”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Quando lh’ esto diss’ a Virgem, | logo xe lh’ el espediu. E foi-s’ u eram os frades | e seu hábito pediu, e contou-lhes quanto vira; | e cada um escriviu o dia em que dissera | a Virgem que morreria. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI El entom no mõesteiro | sa pedença filhou e na obra que leixara | por fazer ar começou; e mui bem ontre seus frades | tod’ aquel tempo passou, e cada um parou mentes | ena Virgem se verria. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Em véspera daquel dia | aqué-vo-la Virgem vem, e pareceu ao frade | e disso-lh’: “– Amigo, bem acabach’ a mià garnacha, | mas mui bem t’ acharás ém, ca sairás crás do mundo, | e prend’ ém grand’ alegria”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Entom vo-s’ aos frades | e disso: “– Senhores meus, aqui u ora orava, | vo a madre de Deus e disso que eu salria | crás do mundo; e os seus feitos sempre vós loade | de tal senhor todavia, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 que quiso que dos pecados | me podesse repentir, e porém me diss’ a morte, | que me podess’ ém sentir”. E estando sempr’ em prezes, | em outro dia sair lhe foi a alma do corpo, | pero que lhe nom doía. 86 Poi-lo pecador punhar | em servir Santa Maria, nom temades que perder | se possa per sa folia. 82 R14 * * * 557 Cantigas de Santa Maria 275 «A que nos guarda do gram fog’ infernal» (E 275, F [81]) Esta é como Santa Maria de Terena guariu dous freires da ordem do Hespital que raviavam. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que nos guarda do gram fog’ infernal sãar-nos pode de gram rávia mortal. Dest’ em Terena fez, per com’ aprendi, miragr’ a Virgem, segundo que oí dizer a muitos que s’ acertarom i, de dous raviosos freires do Hespital [Refrão = vv. 1-2] que no convento soíam a seer de Moura; mas foi-lhes atal mal prender de rávia que se filhavam a morder come cam bravo que guarda seu curral. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Assi raviando filhavam-s’ a travar de si ou doutros que podiam tomar, e por aquesto foro-nos bem liar de liadura forte descomunal. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E a Terena os levarom entom, que logar éste de mui gram devoçom, que os guarisse a Virgem, ca já nom lhes sabiam i outro conselho tal. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E, levando-os ambos a grand’ afám, que cada ũu mordia come cam, passarom com eles um rio mui gram d’ Aguadiana, entrant’ a Portugal. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E o primeiro deles mentes parou de cima dum outeiro u assomou, des i mui longe ante si devisou a Terena, que jaz em meo dum val. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 E disse logo como vos eu direi: “– Soltade-me, ca já eu rávia nom hei, ca vejo Santa Maria, e bem sei que ela me guariu mui bem deste mal; R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 558 VIII 46 48 mas água me dade que beva, por Deus, ca a Virgem, que sempr’ acorr’ aos seus, me guariu ora, nom catand’ aos meus pecados, que fiz come mui desleal”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 O outro diss’ esto meesmo pois viu a eigreja, ca logo se bem sentiu da rávia são, e água lhes pediu, e derom-lha dũa fonte peranal. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 E, pois beverom, ar filharom-s’ a ir dereitament’ a Terena por comprir sa romaria; e, porque os guarir fora a Virgem, derom i por sinal R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 cada um deles desso que s’ atreveu de seu haver, que eno logar meteu; e, des i, cada um deles acendeu ant’ o altar da Virgem seu estadal. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Este miragre mostrou aquela vez Santa Maria, que muitos outros fez como senhor mui nobr’ e de mui gram prez, que sempr’ acorre com seu bem e nom fal. 74 A que nos guarda do gram fog’ infernal sãar-nos pode de gram rávia mortal. 70 R12 * * * 559 Cantigas de Santa Maria 276 «Que-na Virgem por senhor tever, de todo mal guarrá» (E 276, F [80]) Como Santa Maria do Prado, que é cabo Segóvia, guariu um monteiro del-rei dum badalo da campãa que lhe dera na cabeça. R0 1 I 2 4 6 R1 7 II 8 10 12 R2 13 III 14 16 18 R3 19 IV 20 22 24 R4 25 V 26 28 30 R5 31 VI 32 34 36 R6 37 VII 38 Que-na Virgem por senhor | tever, de todo mal guarrá. Ond’ um miragre que fez vos direi, saboroso, em Prad’ a senhor de prez, em um logar viçoso,_ _u há [Refrão = v. 1] ũa sa eigrej’ ali, mui fremosa capela, em que fez, com’ aprendi, esta que nos caudela_ _e dá [Refrão = v. 1] saúde e salvaçom, que deu a um monteiro que na sa eigreja ’ntom entrou mui deanteiro_ _alá [Refrão = v. 1] u viu os sinos estar, e foi que os tangesse, mas um deles se britar foi e caeu sobr’ esse._ _“– Ahá,” [Refrão = v. 1] –disserom todos– “par Deus, mort’ é, sem nulha falha; porend’ a que val òs seus, mester há que lhe valha já; [Refrão = v. 1] ca de guisa ferid’ é que nom há osso são na cabeça, a-la-fé, nem pod’ andar por chão, ca [Refrão = v. 1] mais mol’ a cabeça tem 560 40 42 R7 VIII 43 44 46 48 R8 49 IX 50 52 54 R9 55 X 56 58 60 R10 61 XI 62 64 66 R11 67 XII 68 70 72 R12 73 ca nom é pera-fole nem manteiga; e porém, pois que a tem tam mole,_ _alá [Refrão = v. 1] ant’ o seu altar põer da Virgem o vaamos”. E forom assi fazer, com’ em verdad’ achamos; a [Refrão = v. 1] noit[e] ant’ essa senhor jouve tal come morto; mas, ant’ a luz, gram sabor lhe deu a que conforto dá [Refrão = v. 1] que s’ ergesse pera ir co-nos outros monteiros, e tantoste foi sentir tantoste ‘imediatamente’ os ossos muit’ enteiros da [Refrão = v. 1] testa. E porém loou muito a groriosa, porque em ele mostrou sa vertude fremosa_ _e sa [Refrão = v. 1] mercee que nunca fal, de que é mui grãada; porém de todos, sem al, sempre é mui loada,_ _e será. Que-na Virgem por senhor | tever, de todo mal guarrá. * * * 561 Cantigas de Santa Maria 277 «Maravilho-m’ eu com’ ousa a Virgem rogar, per rem» (E 277) Como Santa Maria guardou oito almograves em ũa fazenda que houverom com mouros, porque nom comerom carn’ em sábado. R0 2 I 4 6 Maravilho-m’ eu com’ ousa | a Virgem rogar, per rem, aquele que as sas festas | nom guarda e_em pouco tem. E dest’ um mui gram miragre | demostrou Santa Maria em dezesseis almograves | que forom em açaria aa terra que chamada | ést’ Algarv[e], u soía haver gram gente de mouros | (que s’ ém forom, e foi bem). R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Eles de Lisbõa eram, | e atal preito poserom ontre si: que correr fossem | o Algarv’; e ’ssi fezerom. E porém de sũu todos | forom correr, e houverom d’ achar um cervo no monte, | mui mais grosso ca de brem, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que punhou de fogir deles; | mas toste o acalçarom e mataro-no aginha; | des i, logo o assarom, e, des que foi bem assado, | log’ a comer s’ assentarom, ca de tod’ outra vianda | eles nom tĩíam rem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Sábad’ era aquel dia | quand’ a comer s’ assentavam daquel cervo; mas os oito | que o sábado guardavam por honra da Virgem santa, | sol de comer nom pensavam daquel cervo, mas comiam | pam, qual em guerra convém. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Os outros oito disserom | que da carne comeriam quanta mais dela podessem | e que a nom leixariam; e bem assi o fezerom; | e fartos dali s’ ergiam aqueles oito da carne, | dizendo: “– Nom vai nem vem 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI de jajũar em tal terra | e andand’ em cavalgada; porém quequer comeremos, | que nom leixaremos nada”. E tantoste começarom | d’ andar per essa ’ncontrada, e acharom-se com mouros; | mas a todos nom proug’ ém. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ca os que i jajũavam | forom sãos e guaridos, e os que comerom carne, | maltreitos e mal feridos; e, macar que se preçavam | de fortes muit’ e d’ ardidos, nom foi tal que nom dissesse: | “– Quem foss’ hoj’ em Santarém!” 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 562 VIII 46 48 Ca, assi como lhes davam | lançadas pelos costados, per cada ũa ferida | saíam grandes bocados daquel cervo que comeram. | E desto maravilhados forom end’ os outros oito, | que fezeram melhor sém R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX porque jajũad’ haviam; | porend’ os mouros vencerom, e correrom depos eles, | e matarom e prenderom todos com quantos lidarom, | e chaga nom receberom; porém disserom: “– Ai Virgem, | beita sejas, amém”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Os outros, quand’ esto virom, | prometerom que leixassem d’ em sábado comer carne, | e que o muito guardassem por honra da Virgem santa, | e sempre o jajũassem por tal miragre que fezo | a senhor que nos mantém. 62 Maravilho-m’ eu com’ ousa | a Virgem rogar, per rem, aquele que as sas festas | nom guarda e_em pouco tem. 58 R10 * * * 563 Cantigas de Santa Maria 278 «Como sofre mui gram coita o hom’ em cego seer» (E 278, F [74]) Esta é como ũa bõa dona de França, que era cega, vo a Vila-Sirga e teve i vigia, e foi logo guarida e cobrou seu lume; e ela indo-se pera sa terra, achou um cego que ia em romaria a Santiago, e ela conselhou-lhe que fosse per Vila-Sirga e guareceri[a]. R0 2 I 4 6 Como sofre mui gram coita | o hom’ em cego seer, assi faz gram piadade | a Virgem em lh’ acorrer. E desto contar-vos quero | miragre fremos’ e bel que mostrou em Vila-Sirga | a madre de Manuel, u faz ameúde muitos, | que som mais doces ca mel, pera quem em ela fia | de gram sabor i haver. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi em aquel tempo | que a Virgem começou a fazer em Vila-Sirga | miragres, per que sãou a muitos d’ enfermidades | e mortos ressocitou. E porend’ as gentes algo | começavam d’ i fazer, 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III e de muitas terras eram | os que vĩíam ali. Mas ũa dona de França, | cega, per quant’ aprendi, rominha a Santiago | foi, mas avo-lh’ assi: que nom sãou dessa ida | que sol podesse veer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E depois aa tornada, | quando chegou a Carrom, ũa sa filha lhe disse: | “– Treides, se Deus vos perdom, albergar mais adeante | a ũas choças que som preto de nosso caminho, | e i podemos jazer”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois saírom da vila, | mui preto daquel logar filhou-s’ a chover mui forte, | e houverom a entrar com coita ena eigreja, | e, des i, ant’ o altar se deitarom; e a cega | foi sa oraçom fazer, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI rogando Santa Maria, | a senhor esperital, que s’ amercasse dela | e lhe tolhess’ aquel mal, per que houvesse seu lume. | E log’ a que pod’ e val fez que foi logo guarida. | E filhou-s’ a beizer 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII a Virgem Santa Maria. | E outro dia filhou seu caminh’; e, assi indo, | um home cego achou que a Santiago ia; | mas ela lh’ aconselhou que fosse por Vila-Sirga | se quisesse lum’ haver. 40 42 564 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E contou todo seu feito, | como fora com romeus muitos pera Santiago, | mas pero nunca dos seus olhos o lum’ i cobrara, | mas pois a madre de Deus lho dera em Vila-Sirga | pelo seu mui gram poder. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O cego creeu a dona, | e tantoste se partiu dela e foi sa carreira | tanto que s’ el espediu; e, pois foi em Vila-Sirga, | fez sa oraçom e viu, ca nom quis Santa Maria | e-no sãar deter. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quantos aquesto souberom | todos logo manamám loarom Santa Maria, | a senhor do bom talám, por tam aposto miragre | que fez, e tam sem afám, como em fazer dous cegos | tam aginha guarecer. 62 Como sofre mui gram coita | o hom’ em cego seer, assi faz gram piadade | a Virgem em lh’ acorrer. 58 R10 * * * 565 Cantigas de Santa Maria 279 «Santa Maria, valed’, ai senhor» (E 279, U (Ap) 10) Esta é como el-rei pediu mercee a Santa Maria que o guarecesse dũa grand’ enfermidade que havia; e ela, como senhor piadosa, oiu-lhe seu rogo e deu-lhe saúde. R0 1 3 I 5 7 9 Santa Maria, valed’, ai senhor, e acorred’ a vosso trobador, que mal lhe vai. A tam gram mal e a tam gram door, Santa Maria, valed’, ai senhor, como sofr’ este vosso loador; Santa Maria, valed’, ai senhor, e sãe já, se vos ém prazer for, do que diz “«-- Ai!». R1 10-12 [Refrão = vv. 1-3] II Pois vos Deus fez doutra cousa melhor Santa Maria, valed’, ai senhor, e vos deu por nossa rezõador, Santa Maria, valed’, ai senhor, seede-mi_ora bõ’ ajudador em est’ ensai 14 16 18 R2 19-21 [Refrão = vv. 1-3] III que me faz a mort’, ond’ hei gram pavor, Santa Maria, valed’, ai senhor, e o mal que me tem tod’ enredor, Santa Maria, valed’, ai senhor, que me fezo mais verde mià coor que dum cambrai. 23 25 27 R3 28-30 [Refrão = vv. 1-3] IV Que fez entom a galardõador Santa Maria, valed’, ai senhor, de todo bem e do mal sãador? Santa Maria, valed’, ai senhor, Tolheu-lh’ a féver e aquel humor mao e lai. 32 34 36 R4 37 39 Santa Maria, valed’, ai senhor, e acorred’ a vosso trobador, que mal lhe vai. * * * 566 Cantigas de Santa Maria 280 «Santa Maria beita seja» (E 280) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 6 Ca em ela os santos se catam, e pelo seu rogo se desatam os pecados dos que bem baratam, de que o dem’ há mui grand’ enveja. 8 Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 4 R1 II 12 Per ela se corregem os tortos, e ar faz ressocitá-los mortos, e aos coitados dá conortos, e co-no demo por nós peleja. 14 Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 10 R2 III 18 Ela é lume dos confessores e avogada dos pecadores e a melhor das santas melhores; demais, nosso bem sempre deseja. 20 Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 16 R3 IV 24 Dos mártires é lum’ e corõa, e das virges ar é padrõa, e os grandes pecados perdõa: atant’ é sa mercee sobeja. 26 Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 22 R4 V 30 Porém lhe rogo que por bem tenha que, quando for que mià morte venha, que a mià alma nom se detenha d’ ir a logar u a sempre veja. 32 Santa Maria beita seja, ca espelh’ é de Santa Eigreja. 28 R5 * * * 567 Cantigas de Santa Maria 281 «U alguém a Jesu-Cristo por seus pecados negar» (E 281) Como um cavaleiro vassalo do demo nom quis negar Santa Maria, e ela o livrou do seu poder. R0 2 I 4 6 U alguém a Jesu-Cristo | por seus pecados negar, se bem fiar em sa madre, | fará-lh’ ela perdõar. Dest’ avo um miragre | em França a um francês, que nom havia no reino | duc nem conde nem marquês que fosse de maior guisa, | e tal astragueza prês: que, quanto por bem fazia, | em mal xe lh’ ia tornar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II El nom era de mal siso | nem deserrado em al, senom que, quanto fazia | por bem, saía-lh’ a mal; e, passand’ assi seu tempo | com esta ventura tal, de grand’ algo que houvera | nom lh’ houv’ ém rem a ficar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Pois que se viu em pobreza, | diss’ um dia entre si: “– Mesquinho desamparado, | que será_agora de mi?: a requeza que havia, | nom sei por que mi_a perdi; mais, se a cobrar nom posso, | ir-m’-ei algur esterrar”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El estand’ assi coidando, | um home lh’ apareceu, e aquel era o demo, | e assi o cometeu: “– Cuidas tu no que perdische?: | já outr’ home mais perdeu ca tu, e fez meu mandado, | e fiz-lho todo cobrar; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e, se tu assi fezeres, | todo cho eu cobrarei”. Diss’ el: “– Di-me que che faça, | e logo cho eu farei”. Diss’ o demo: “– Por vassalo | meu t’ outorga, e dar-ch’-ei mui mais ca o que perdische”. | E el foi-lho outorgar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois que lhe beijou a mão, | diss’ o demo: “– Um amor me farás, pois meu vassalo | és: nega Nostro Senhor e nega todos seus santos”. | E filhou-xe-lhe pavor de os negar; e nego’-os: | tanto lh’ houv’ a preegar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Despós esto, disso: “– Santa | Maria renegarás”. Diss’ entom o cavaleiro: | “– Este poder no-no hás: 40 568 42 que me faças que a negue, | nem tanto nom me darás que negue tam bõa dona; | ante m’ iria matar”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Diss’ o demo: “– Pois negaste | Deus, nom mi_há rem que fazer de sa madre nom negares, | mais dou-che mui grand’ haver; demais, negach’ os seus santos, | mais al mi_hás de prometer: que nom entres em eigreja”. | E jurou d’ i nom entrar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX El anda[n]do por do demo, | passou ũa gram sazom; e foi com el-rei de França | um dia a um sermom, e el-rei ena eigreja | entrou, e el com el nom entrou, e houve vergonha | de se del assi quitar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X A majestade de Santa | Maria viu u ficou de fora o cavaleiro, | e a sa mão levou contra el e sinal fizo | que entrass’; e espantou-s’ a gente por neum home | a majestade chamar. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Diss’ entom el-rei: “– Amigos, | algum sant’ entre nos há e nom entrou na eigreja, | mais algur de fora ’stá”. E fezo catar de fora | quaes estavam alá, e virom o cavaleiro | soo senlheiro estar. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Diss’ el-rei: “– Santa Maria | mui pagada de vos é, ca a sua majestade | vos chamou, que aqui sé”. Disso el: “– Mais é m’ irada, | com dereito, a-la-fé, e fez sinal que ant’ ela | sol nom m’ ousasse parar: 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII ca eu fiz tam mao feito | que nunca viu home quem tam mao feito fezesse | por algo, nem tam mal sém: ca, porque pobre tornara, | vassalo tornei porém do dem’, e Deus e os santos | neguei por m’ enrequentar; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV mais des hojemais do demo | m’ espeço, e nego eu el e todas suas obras, | e leixo quanto m’ el deu, e torno-m’ a Jesu-Cristo | e outorgo-me por seu, e peço-lhe que se queira | de mi, pecador, nembrar”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Poi-lo viu el-rei queixar-se | e mui bem se repentir, preguntou-lhe se jaquando | trabalhara em servir a Virgem Santa Maria; | e el disso: “– Consintir nunca quix ao diabo | que mi_a fezesse negar”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Diss’ entom el-rei: “– Amigo, | eu fui errado, par Deus, 569 94 R16 96 de vós haverdes pobreza | em meu rein’ e ontr’ os meus”. E deu-lh’ entom por herdade | mui mais ca houveram seus avoos, e ficou rico | com’ home do seu logar. 98 U alguém a Jesu-Cristo | por seus pecados negar, se bem fiar em sa madre, | fará-lh’ ela perdõar. * * * 570 Cantigas de Santa Maria 282 «Par Deus, muit’ há gram vertude na paravla comunal» (E 282) Como Santa Maria acorreu a um moço de Segó[v]ia que caeu dum sobrado mui alto, e nom se feriu porque disse: “– Santa Maria, val-me!”. R0 2 I 4 6 Par Deus, muit’ há gram vertude | na paravla comunal u dizem todos nas coitas: | “– Ai Santa Maria, val!” Ca muito é gram vertude | e piadad’ e mercê d’ acorrer sol por um vervo | a quem em ela bem crê; ca, estando com seu filho, | tod’ o sab’ e tod’ o vê: pero que-na aqui chama, | sa mercee nom lhe fal. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E daquest’ um seu miragre | mui fremoso contarei que mostrou grand’ em Segóvi’ a | (com’ eu em verdad’ achei) um filho de Diag Sánchez, | [um] cavaleiro que sei que na cidade morava | e era ém natural. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Est’ havia um seu filho | que amava mais ca si; e um dia trebelhando | andava, com’ aprendi, encima dũu sobrado | muit’ alt’, e caeu dali de costas, cabeça juso, | e foi caer ena cal. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV A ama que o criava | foi corrend’ a aquel som do meninho que caera, | e o padre log’ entom, e outrossi fez a madre | (que o mui de coraçom amava mais doutra cousa, | como seu filho carnal), 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V coidando que morto era, | e forom po-lo filhar. E, quando pararom mentes, | viro-no em pé estar trebelhando e riindo, | e foro-no preguntar se era jaquê ferido | ou [se] se sentia mal. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Diss’ el: “– Nom, ca em caendo | chamei a madre de Deus, que me filhou atantoste | logo enos braços seus; ca, se aquesto nom fosse, | juro-vos, par Sam Mateus, que todo fora desfeito, | quando caí, come sal”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ est’ oí[rom] o padre | e a madre, gram loor derom a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor; e log’ o moço levarom | aa eigreja maior com muitas candeas outras | e com um seu estadal. 40 42 R7 44 Par Deus, muit’ há gram vertude | na paravla comunal u dizem todos nas coitas: | “– Ai Santa Maria, val!” * * * 571 Cantigas de Santa Maria 283 «Quem vai contra Santa Maria» (E 283, F [8]) Esta é como um crérigo que defendia aas gentes que nom fossem a Santa Maria de Terena fazer oraçom se tolheu do corpo e da fala, e, tanto que se repentiu, foi guarido. R0 I 2 3 5 7 9 Quem vai contra Santa Maria com sobêrvia, faz mal a si. Ca sobêrvia nom dev’ haver home contra a que vencer foi ao demo per saber ser homildosa e fazer per que Deus quis dela nacer; ca doutra guisa nom querria ser Deus home, nem si nem si. R1 10-11 [Refrão = vv. 1-2] II E por esto vos contarei um gram miragre que achei que fez a madre do gram rei em Terena (e mui bem sei que outros i, com’ apres’ hei, fez muitos e faz cada dia aos que os vam buscar i). 12 14 16 18 R2 19-20 [Refrão = vv. 1-2] III Mui pret’ um crérigo morar fora daquel santo logar desta groriosa sem par; e um dia quis preegar em sa eigreja e mostrar aas gentes que “– Gram folia será,” –diss’ el– “creed’ a mi, 21 23 25 27 R3 28-29 [Refrão = vv. 1-2] IV de quantos vos fordes partir de vossas eigrejas e ir a Terena por i servir nem dar do voss’ e oferir; e juro-vos eu, sem mentir, que por est’ escomungaria quantos alá fossem daqui; 30 32 34 36 R4 37-38 [Refrão = vv. 1-2] V e, se per ventura avém que, em esta festa que vem d’ agosto, per vosso mal sém, fordes i per neũa rem, escomungar-vos-ei porém”. E, u esto dizer queria, torceu-xe-lh’ a boca, assi 39 41 43 45 572 R5 46-47 [Refrão = vv. 1-2] VI que nulha cousa nom falou ne-na missa nom ar cantou; e de guisa torto ficou que pé nem mão nom mudou, per poder da que despreçou por aquelo que dit’ havia. E foi tolheito log’ ali 48 50 52 54 R6 55-56 [Refrão = vv. 1-2] VII 57 que, u quis descomungaçom dizer, nom disse si nem nom, nem ar pôde mostrar razom, mais braadou come cabrom. Entom todos de coraçom loarom muit’ a que nos guia e temero-na mais des i. 59 61 63 R7 64-65 [Refrão = vv. 1-2] VIII 66 72 Mas, quando s[e] atal sentiu que tolheit’ era e se viu tam maltreito, bem se partiu daquel err’ e se repentiu, assi que logo bem guariu; e fez assi que todavia deu i do seu, com’ aprendi. 74 Quem vai contra Santa Maria com sobêrvia, faz mal a si. 68 70 R8 * * * 573 Cantigas de Santa Maria 284 «Quem bem fiar na Virgem de todo coraçom» (E 284, F [66]) Esta é como Santa Maria livrou um monge do poder do demo, que o tentava. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem bem fiar na Virgem | de todo coraçom, guardá-lo-á do demo | e da sa tentaçom. E daquest’ um miragre | mui fremoso direi que fez Santa Maria, | per com’ escrit’ achei em um livr’, e dentr’ outros | traladar o mandei, e um cantar ém fige | segund’ esta razom. [Refrão = vv. 1-2] Um frade foi doente | dum mõesteiro mal, e todos bem cuidavam | que mort’ era sem al; e, se nom foss’ a Virgem, | reinha_esperital, a sa alma levara | o dem’ a perdiçom. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Ca ante que morresse | um sinal lhe mostrou que contra ũa porta | mui de rijo catou; mas um frad’ i estava | que o empreguntou porque esto fazia, | que lhe dissess’ entom. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E aquel frad’ enfermo | entom nom respondeu, mas muita de paravla | sobeja lhe creceu com’ em desasperando, | e todo se torceu; e aa cima disse, | mui trist’ e em mal som, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 que quantos bes feitos | havia, nulha rem prestar nom lhe poderam, | e tal era seu sém, e tam gram prol lh’ havia | fazer mal come bem. E, quand’ est’ houve dito, | disse-lh’ [o] companhom R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 que aquesto o demo que lhe metia medo mas, se ele quisesse da Virgem groriosa, | | | | fazia, sem dultar, po-lo desasperar; ũu vesso rezar log’ o demo felom R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 se partiria dele. | E o frade rezou o vesso muit’ aginha | que lh’ o frad’ ensinou; e atám tost’ o demo | se foi e o leixou, que o nom viu pois nunca; | e vedes porque nom: 574 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 porque em aquel vesso | aa Virgem assi dizia: “– Com ta graça, | senhor, acorr’ a mi, ca tu de piadade | madr’ és; porend’ aqui me guarda do diabo | cho de traiçom”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E, quand’ est’ houve dito, | começou de riir e disso aos frades: | “– Nom veedes vĩir a Virgem groriosa?: | com ela me quer’ ir”. E logo ante todos | fezo sa confissom, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 e repentiu-se muito | do que foi descreer e comungou. E logo | começou a dizer que o do leit’ ergessem, | e mandou-se põer em terra, e a alma | foi dar a Deus em dom. 62 Quem bem fiar na Virgem | de todo coraçom guardá-lo-á do demo | e da sa tentaçom. 58 R10 * * * 575 Cantigas de Santa Maria 285 «Do dem’ a perfia» (E 285, F [28], U (Ap) 9) Esta é como Santa Maria fez aa monja que nom quis por ela leixar de s’ ir com um cavaleiro, que se tornass’ a sua ordem, e ao cavaleiro fez outrossi que filhasse religiom. R0 2 I 4 6 8 10 R1 11-12 II 14 16 18 20 R2 21-22 III 24 26 28 30 R3 31-32 IV 34 36 38 40 R4 41-42 V 44 Do dem’ a perfia no-na tolh’ outra cousa | come Santa Maria. Dest’ um fremoso miragre | vos quer’ eu ora contar que por ũa monja fazer quis a santa reinha, que, per com’ eu aprendi, era de mui bom semelhar e de fremoso parecer e aposta mininha; e gram crerizia e grand’ ordinhamento | esta dona havia, e, demais, sabia amar mais doutra cousa | a Virgem, que nos guia. [Refrão = vv. 1-2] Sem tod’ esto, de linhage | muit’ alt’ era, e melhor falava doutra molher. E por aquesto a essa filhou por sa companheira e por sa aguardador, porque muito a preçava de sém, a abadessa; e, uquer que ia, jamais aquela monja | nunca de si partia, ante a metia em todo-los seus feitos | cada que os fazia. [Refrão = vv. 1-2] Um sobrinh’ est’ abadessa | havi’, a que mui gram bem queria, que era meninh’ e apost’ e fremoso. Este, des que viu a monja, quis-lhe melhor doutra rem, e em guisar que a houvesse foi tam aguçoso que nom era dia que lh’ el muitas vegadas | sa coita nom dizia e lhe prometia que, se com el se fosse, | com ela casaria, [Refrão = vv. 1-2] e, demais, que grand’ herdade | lhe daria e haver, e a terria sempr’ honrada, rica e viçosa, e que nunca del pesar receberia, mais prazer. E tanto lhe diss’ aquesto que ela saborosa foi e d’ alegria lhe jurou em sas mãos | que com ele s’ iria e que leixaria log’ aquel mõesteiro, | u al nom haveria. [Refrão = vv. 1-2] Essa noit’ aquela monja | todas sas cousas guisou por se com seu amigo ir; mas em ũa capela da Virgem Santa Mari’ ant’ o altar s’ agolhou, 576 46 48 50 R5 51-52 VI 54 56 58 60 R6 61-62 VII 64 66 68 70 R7 71-72 VIII 74 76 78 80 R8 81-82 IX 84 86 88 90 R9 91-92 X 94 96 98 100 chorand’ ant ũa sa omagem, que era mui bela, e se lh’ espedia. Mas, quando foi na porta, | per ela nom podia sair, ca via deant’ a majestade, | que lh’ a porta choía. [Refrão = vv. 1-2] Desto foi tam espantada | e houve pavor atal que se foi, quanto ir mais pôde, ao dormidoiro. Mai-la Virgem groriosa, reinha esperital, fezo que a el essa noite enganou agoiro, e foi-se sa via, maldizendo que nunca | por molher creeria. E ela jazia coitada em seu leito, | que per rem nom durmia. [Refrão = vv. 1-2] Outro dia gram manhãa, | atanto que a luz viu, a abadessa se levou, e a monja com ela. E log’ aquel seu amigo vo, que lh’ arreferiu como nom saiu a ele, de que mui gram querela sempr’ haver devia; mas ela lhe jurava | que mui mal se sentia, pero todavia, quando vess’ a noite, | que pera el ir-s’-ia. [Refrão = vv. 1-2] Pois vo a outra noite, | como na primeira fez, e, por ir-s’ ende sa carreira, foi aa eigreja; e, quando s’ ém quis sair, a Virgem santa do bom prez parou-se-lh’ em cruz ena porta e disse: “– Nom seja que tam gram folia faças contra meu filho, | nem tam grand’ ousadia, ca eu nom seria túda de rogar-lhe | por ti, nem m’ oiria”. [Refrão = vv. 1-2] A monja com mui gram coita | de com seu amigo s’ ir, macar de noit’ aa igreja foi, na majestade sol mentes nom quis ter, ante foi a porta abrir, e saiu per ela e foi-se. E fez i maldade. Mas muit’ ém prazia a aquel seu amigo, | e be-na recebia, e logo tragia um palafrém mui branco, | em que a el subia. [Refrão = vv. 1-2] Poi-la levou a sa terra | e com ela juras prês, mui bem lh’ houve comprid’ aquelo que lhe convera; ainda mui mais lhe deu, que ante que passass’ um mês a fez senhor de sa herdade, mais ca lh’ el dissera. E ela vivia a mais viçosa dona | que viver poderia, e, quanto queria, tod’ aquel seu amigo | lhe dava e compria. 577 R10 101-102 XI 104 106 108 110 R11 111-112 XII 114 116 118 120 R12 121-122 XIII 124 126 128 130 R13 132 [Refrão = vv. 1-2] Assi ambos esteverom | viçosos a seu talám, e Deus sofreu que houvessem filhos muitos e filhas mui grandes e mui fremosos. Mas a Virgem (que mui gram pesar houve daqueste feito) fez i maravilhas, que aparecia a ela em dormindo | e mal a reprendia dizendo: “– Sandia, e como começaste | atám gram bavequia [Refrão = vv. 1-2] em leixar teu mõesteiro, | u vivias, com’ eu sei, mui bem e muit’ honradamente, e ir ta carreira e desdenhares a mi e a meu filh’, o santo rei, e nom haveres vergonha em niüa maneira?; por est’ eu terria por bem que te tornasses | pera a ta mongia, e eu guisaria logo com Deus, meu filho, | que te perdõaria”. [Refrão = vv. 1-2] A dona daqueste sonho | foi espantada assi que, tremendo muit’ e chorando, diss’ a seu marido toda a visom que vira. E, per quant’ eu aprendi, quiso Deus que da sa graça foss’ ele bem comprido, e, o que lh’ oía, todo lho outorgava; | e dela se partia, e doutr’ abadia religiom filhava, | em que a Deus servia. Do dem’ a perfia no-na tolh’ outra cousa | come Santa Maria. * * * 578 Cantigas de Santa Maria 286 «Tanto quer Santa Maria os que ama defender» (E 286, F [4]) Esta é como caeu o portal sobre dous judeus que escarneciam a um home bõo polo cam que o mordera u jazia em oraçom. R0 2 I 4 6 Tanto quer Santa Maria | os que ama defender que nom sofr’ em nulha guisa | leixá-los escarnecer. Ca, sem que lhes dá sa graça, | com que possam fazer bem, guarda-os nas grandes coitas, | que se nom perçam per rem, e nom sofre que maltreitos | ar sejam, nem em desdém túdos, nem outras gentes | nom lhes possam mal dizer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E mui fremoso miragre | vos direi desta razom que mostrou Santa Maria | (que nunca faz se bem nom) por um home que sempr’ ia | rogar-lhe de coraçom que eno seu paraíso | o quisesse receber. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este fora da eigreja | fazia eno portal oraçom, jazend’ em prezes, | que o guardasse de mal a Virgem Santa Maria, | a senhor esperital. E, jazend’ assi um dia, | houve-lhe de contecer 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que, el fazendo sas prezes, | um gram cam per i passou, e chegou-se muit’ a ele, | e atal o adobou que houv’ a leixar sas prezes; | e logo se levantou, ca, pois se sentiu maltreito, | nom quis mais ali jazer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E filhou log’ ũa pedra | pera esse cam ferir, e viu dous judeus que logo | se filharom a riir do que o cam lhe fezera, | e muito o escarnir; e el foi ém tam coitado | que nom soube que fazer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mas diss’ a Santa Maria: | “– Ai senhor, destes judeus me dá, se te praz, dereito, | ca som emigos teus, que matarom a teu filho, | que era home e Deus, e por ti me escarnecem, | como tu podes veer”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Des quand’ aquest’ houve dito, | ao cam s’ ar remeteu por dar-lhe com ũa pedra; | mas viu de como caeu sobr’ aqueles judeus logo | um portal; mas nom tangeu 40 579 42 a outro senom a eles, | que foi todos desfazer. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Todos quantos esto virom | derom logo gram loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, que tam grand’ é sa bondade | que sempre faz o melhor; e o home que vingara | filhou-a a beizer. 50 Tanto quer Santa Maria | os que ama defender que nom sofr’ em nulha guisa | leixá-los escarnecer. 46 R8 * * * 580 Cantigas de Santa Maria 287 «O que em Santa Maria todo seu coraçom tem» (E 287) Como Santa Maria de Scala, que é a par de Génua, livrou ũa molher de mor[te] que ia alá per mar em romaria. R0 2 I 4 6 O que em Santa Maria | todo seu coraçom tem, quequer que lhe por mal façam, | todo lho torna em bem. E daquest’ um gram miragre | vos direi, se vos prouguer, que mostrou Santa Maria | por ũa bõa molher que em Génua morava; | e que-no logar quiser saber: foi ena ermida | de Scala, que pret’ é ém. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesta casada era | com um home que peor lhe queria doutra cousa | do mund’, e a pecador daquesto nom se guardava; | e o falso traedor buscou como a matasse, | e fez em elo mal sém. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta em Santa Maria | fiava, per com’ oí, mais doutra cousa que fosse, | e avo-lh’ end’ assi: que a guareceu de morte, | com’ oiredes per mi; e, de como foi aquesto, | nom vos ém negarei rem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O marido por matá-la | mostrou aquesta razom: “– Ai molher, por Deus, vaamos | ambos fazer oraçom aa ermida de Scala, | per mar, ca per terra nom, e aqueste meu conselho | nom tenhades em desdém”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ela cree’-o, e foi-se | com el a aquel logar; mais o falso (que havia | gram sabor de a matar) filhou-a, indo na barca, | e deitou-a eno mar. Mas sãa a pôs na riba | a senhor que nos mantém. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quand’ esto viu o marido, | de coraçom lhe pesou e foi logo pera [e]la | e tam muito a rogou que entrou com el na barca; | e tantoste a filhou e meteu-a em um saco, | por que nunca saíss’ ém. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E atou-a bem no saco | aquel falso desleal e deitou-a no mar logo, | ca lhe queria gram mal; mais tantoste foi com ela | a reinha ’sperital, 40 581 42 e pôs-la em salvo fora. | E aqué o falso vem, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII cuidando que era morta, | e foi da barca decer e dereit’ aa ermida | foi por oraçom fazer; e, quando foi aa porta, | viu sa molher i seer com seu saco ena mão, | dizendo: “– Nom te convém 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX que hoimais comigo sejas: | ca a Virgem me guariu quando me no mar deitaste, | e mià oraçom oiu e bem eno mar mui fondo | aqueste saco abriu, ca nom quis que i morresse; | beita seja, amém”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quand’ esto viu o marido, | aos pees lhe caeu e perdom pediu chorando | por aquele que naceu da Virgem Santa Maria; | e ela o recebeu, e ambos em romaria | forom a Jerusalém. 62 O que em Santa Maria | todo seu coraçom tem, quequer que lhe por mal façam, | todo lho torna em bem. 58 R10 * * * 582 Cantigas de Santa Maria 288 «A madre de Jesu-Cristo vedes a quem aparece» (E 288, F [19]) Esta é como um home bõo de religiom foi veer a igreja u jazia o corpo de Sant’ Agostinh’, e viu i de noite Santa Maria e grandes coros d’ ángeos que cantavam ant’ ela. R0 2 I 4 6 A madre de Jesu-Cristo, | vedes a quem aparece: a quem o bem de seu filho | e dela haver merece. E dest’ um mui gram miragre | vos contarei mui fremoso, que mostrou Santa Maria | a um bom religioso que de lhe fazer serviço | sempr’ era muit’ aguçoso, e era de bõa vid’ e | quite de toda sandece. R1 7-8 ão = vv. 1-2] II El natural dũa terra | foi que ora é chamada «Cantaária» per nome, | viçosa e avondada; e ali sempre fazia | sa vida e sa morada, servind[o] a groriosa, | que aos seus nom falece. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Onde foi ũa vegada | que se meteu em caminho pora veer o sepulcro | em que jaz Sant’ Agostinho; e, pois foi ena eigreja, | deitou-se logo festinho ant’ a capela da Virgem, | que os ceos escrarece. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, el de noite jazendo, | chegarom i muitos santos co-na Virgem groriosa, | cantando mui dulces cantos; e tantos santos cantavam | que vos nom sei dizer quantos, loand’ a Santa Maria, | seu bem e sa grãadece. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E ar cantavam um vesso | em que diz de com’ honradas som as almas enos ceos | dos santos, e corõadas (aqueles que as carreiras | de Deus houverom andadas e por El prenderom morte, que ao dem’ avorrece). 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E as vírges cantavam | bem ante Santa Maria, e ũa dessas donzelas | contra as outras dizia: “– Amigas, mui bem cantemos | ant’ aquesta que nos guia, que a sa gram fremosura | mais ca o sol esprandece”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O home bõo tod’ esto | viu, e deu porém loores a Deus e pois a sa madre, | que é senhor das senhores; e, se bem costumad’ era, | outros costumes melhores 40 583 42 filhou dali adeante; | e em mui bõa velhece R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 morreu, e foi a sa alma | pera Deus dereitamente, segund’ disse Jesu-Cristo | (que nunca mentiu nem mente): que, aos que o servirem, | nunca lhes falrá niente do gram bem do paraíso, | ca a eles pertece. 50 A madre de Jesu-Cristo, | vedes a quem aparece: a quem o bem de seu filho | e dela haver merece. 46 R8 * * * 584 Cantigas de Santa Maria 289 «Pero que os outros santos a vezes prendem vingança» (E 289, E 396, F [12 bis]) Como Santa Maria de Tocha guariu um lavrador que andava segando em dia de Sam Quírez, que se lhe cerrarom os punhos ambos. R0 2 I 4 6 Pero que os outros santos | a vezes prendem vingança dos que lhes erram, a madre | de Deus lhes val sem dultança. Desto direi um miragre | grande que cabo Madride fez, na igreja de Tocha, | a Virgem. Porém m’ oíde todos mui de voontade, | e mercee lhe pedide que vos ganhe, de seu filho, | dos pecados perdõança. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Onde foi assi um dia | que um lavrador na festa de Sam Quíreze segava | ũa messe per gram sesta, tendo sa fouc’ em mão | e um sombreir’ em sa testa, de palhas, per que cuidava | do sol haver amparança. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, porque em aquel dia | de Sam Quíreze segava, Deus, por honra daquel santo, | a mão com que cuidava o mãolh’ alçar de terra, | com ele se lh’ apertava de guisa que nom podia | haver ende delivrança. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Outrossi a mão destra | co-na fouce apertada foi, assi como se fosse | com forte grud’ engrudada; e bem assi o levarom | tolheito a sa pousada os outros. E aquel dia | sol nom houverom ousança 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V de segarem; mais tantoste | aquel lavrador levarom, como x’ estava, a Tocha, | e muito por el rogarom a Virgem Santa Maria, | e ant’ o altar chorarom dela, que lhe perdõasse | aquela mui grand’ errança 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que fezera, e chorando | el muit’, e de voontade rogando Santa Maria | que pela sa piadade lhe valess’ e nom catasse | aa sa gram neicidade, e que daquela gram coita | o tirasse sem tardança. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois assi houve chorado, | log’ a senhor das senhores lhe valeu, que sempr’ acorre | de grad’ aos pecadores, e desaprendeu-lh’ as mãos | e tolheu-lh’ end’ as doores. Por que todos bem devemos | haver em ela fiança. 40 42 R7 44 Pero que os outros santos | a vezes prendem vingança dos que lhes erram, a madre | de Deus lhes val sem dultança. * * * 585 Cantigas de Santa Maria 290 «Maldito seja quem nom loará» (E 290) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Maldito seja o que nom loar a que de bondades nom houve par nem haverá mentr’ o mundo durar, ca Deus nom fez outra tal, nem fará. 8 Maldito seja quem nom loará a que em si todas bondades há. 4 R1 II 12 Beito seja sempr’ o loador de tam nobr’ e tam honrada senhor, de que naceu Deus, hom’ e salvador, ca pois gualardõado lhe será. 14 Beito seja o que loará a que em si todas bondades há. 10 R2 III 18 Maldito seja quem nom disser bem daquela em que nom falece rem de quant’ a bondad’ e a prez convém, e esto jámais nom lhe falirá. 20 Maldito seja quem nom loará a que em si todas bondades há. 16 R3 IV 24 Beit[o] seja quem sempre servir a madre de Deus, Virgem sem falir; ca, pois [que] deste mundo se partir, ant’ o seu filho o presentará. 26 Beito seja o que loará a que em si todas bondades há. 22 R4 V 30 Maldito seja quem bem nom disser da melhor das bõas e nom quiser haver seu amor enquanto podér, ca por aquest’ o de Deus haverá. 32 Maldito seja quem nom loará a que em si todas bondades há. 28 R5 Maldito seja quem nom loará a que em si todas bondades há. VI 36 Beito seja o que gram prazer há de loar tal senhor, que haver nos fez amor de Deus e conhocer ela que por nós todos rogará. 38 Beito seja o que loará a que em si todas bondades há. 34 R6 * * * 586 Cantigas de Santa Maria 291 «Cantand’ e em muitas guisas dev’ hom’ a Virgem loar» (E 291, F [47]) Como Santa Maria tirou um escolar de prijom em Touro porque lhe fezera ũa cantiga eno cárcer jazendo. R0 2 I 4 6 Cantand’ e em muitas guisas | dev’ hom’ a Virgem loar, ca, u houver maior coita, | valer-lh’-á se a chamar. Ca loada de tod’ home | devia sempr’ a seer, e assi conhoceria | jaquanto do seu poder, ca lhe pode nas sas coitas | toste conselho põer; e sobr’ aquesto vos quero | um seu miragre contar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquele que o miragre | sabia, disso-m’ assi: que ũu ’scolar liía | em Salamanca, e i houv’ ũa molher per força; | e, com medo, fugiu di e foi-s’ entom pera Touro, | u cuidou a escapar 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III dos parentes da manceba | e das justiças (ca nom guarira se o colhessem | na mão, [e] per razom). Mas, pero fugiu a Touro, | forom pos el, e entom disserom aa jostiça | que o fosse recadar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O escolar recadado | foi logo, nom houv’ i al, e derom com el no cárcer, | u sofria muito mal da prijom, que era forte. | E ele, jazendo tal, houve gram medo da morte, | e começou-s’ a nembrar 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V de quanto pesar fezera | a Deus e como pecou eno mundo mui sem guisa, | e conselho nom achou a que se tornass’; e logo | Santa Maria chamou, chorando muito dos olhos, | e começou-lh’ a rogar: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI “– Virgem santa, de Deus madre, | que font’ és de todo bem, nom cates a meus pecados | nem ao meu mao sém; mas tu que nunca faliste | a quem te chamou, de rem, nom me queiras em tal coita, | mià senhor, desamparar, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII mais pola ta piadade, | que sempr’ ao pecador acorreu ena gram coita, | por mercee, mià senhor, te peço que tu m’ acorras, | e, enquant’ eu vivo for, nunca me de teu serviço, | senhor, querrei alongar”. 40 42 587 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Entom, no cárcer jazendo, | a esta senhor de prez fez ũu cantar, que disse | a gram mercee que fez Deus por ela ao mundo; | e, pois log’ aquela vez que o cantar houve feito, | o começou de cantar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX El ena prijom cantando | o cantar, chorand’ assaz, apareceu-lh’ [i] a Virgem, | a que de todo bem praz, e filhou-o pelo braço, | e diz: “– Quero-t’ eu em paz põer desta prijom fora, | pois que por meu hás d’ andar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E logo aquela hora, | assi com’ aprendi eu, do cárcer em que jazia | e da vila, com el deu for’, e em paz e em salvo | o pôs, e diz: “– Vai por meu home, ca, se me servires, | sempre i podes gãar”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 El, pois que se viu em salvo | pela madre do gram rei, deu-lhe loores e graças, | e, assi com’ apres’ hei, serviu bem Santa Maria | sempr’. E porém vos contei este feito: que hajades | gram sabor de a honrar. 68 Cantand’ e em muitas guisas | dev’ hom’ a Virgem loar, ca, u houver maior coita, | valer-lh’-á se a chamar. 64 R11 * * * 588 Cantigas de Santa Maria 292 «Muito demostra a Virgem, a senhor esperital» (E 292, F [10]) Como el-rei Dom Fernando vo em visom a maestre Jorge, que tirassem o anel do seu dedo e o metessem no dedo da omagem de Santa Maria. R0 2 I 4 6 Muito demostra a Virgem, | a senhor esperital, sa lealdad’ a aquele | que acha sempre leal. E de tal razom com’ esta | vos direi com’ ũa vez a Virgem Santa Maria | um mui gram miragre fez polo bom rei Dom Fernando, | que foi comprido de prez, d’ esforç’ e de grãadeza | e de todo bem, sem mal. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II De manhas e de costumes, | per quant’ eu del aprendi, no-nas pod’ haver melhores | outre que el houv’ em si; e sobre tod’ outra cousa, | assi com’ eu del oí, amava Santa Maria, | a senhor que pod’ e val. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Se el leal contra ela | foi, tam leal a achou que em todo-los seus feitos | atám bem o ajudou que, quanto começar quiso | e acabar, acabou; e, se bem obrou por ela, | bem lh’ ar pagou seu jornal. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Assi que em este mundo | fez-lh’ acabar o que quis, e morrer honradamente, | e, morrendo, seer fis que a paraís’ iria, | bem u éste Sam Denis, u veeria seu filho | e a ela outrotal. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Assi estes dous leaes | lealdade fez amar, ca el sempre a servia | e a sabia loar; e, quand’ algũa cidade | de mouros ia gãar, sa omagem na mezquita | põía eno portal. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E ar fezo-lh’ a sa morte | que polo melhor morreu rei que em seu logar fosse, | e fez per que o meteu el-rei seu filh’ em Sevilha, | que Mafomete perdeu per este rei Dom Fernando, | que é cidade cabdal. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, poi-lo houv’ i metudo, | segundo com’ aqui diz, muitos miragres o filho | da santa emperadriz mostrou por el sempr’, e mostra. | E sa molher Beatriz aduss’ i depois seu filho, | nom passand’ a Muradal. 40 42 589 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Ond’ avo que seu filho, | rei Dom Alfonso, fazer fez mui rica sepoltura, | que costou mui grand’ haver, feita em fegura dele, | po-los ossos i meter se o achassem desfeito; | mas tornou-xe-lhe em al: 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca o achou tod’ enteiro | e a sa madre, ca Deus nom quis que se desfezessem, | ca ambos eram bem seus quites, que nunca mais forom | Sam Marcos e Sam Mateus, outrossi da Santa Virgem, | que do mund’ é estadal. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Esto foi quando o corpo | de sa madre fez vĩir de Burgos pera Sevilha, | que jaz cabo d’ Alquivir, e em ricos mõimentos | os fez ambos sepelir, obrados mui ricamente | cada um a seu sinal. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Depois que esto foi feito, | el-rei apost’ e mui bem a omagem de seu padre | fez põer como convém de seer rei: em cadeira, | e que sa espada tem na mão, com que deu colbe | a Mafomete mortal. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII O logar u a omagem | del-rei Dom Fernando sé tam rico e tam fremoso | e atám aposto é que tod’ home que o veja | bem dirá, per bõa fé, que o tem por mui mais nobre | ca se fosse de cristal. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII No dedo desta omagem | metera seu filh’ el-rei um anel d’ ouro com pedra | mui fremosa, com’ achei por verdad’; e maravilha | mui grande vos ém direi que mostrou em este feito | o que naceu por Nadal. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Ca o bom rei Dom Fernando | se foi mostrar em vijom a aquele que fezera | o anel, e disse: “– Nom quer’ est’ anel ter migo, | mas dá-lo em ofreçom aa omagem da Virgem, | que tem vestido cendal, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV com que vim bem des Toledo; | e logo crás manamám di a meu filho que ponha | esta omagem de Santa Maria u a minha | está, ca nom é, de pram, guisado de ser tam alte | com’ ela, nem tam igual; 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI mas ponham-m’ i em golhos, | e que lhe de[m] o anel, ca dela tiv’ eu o reino | e de seu filho mui bel, e sõo seu quitamente, | pois fui cavaleir novel 94 590 96 na sa eigreja de Burgos | do mõesteiro reial”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Maestre Jorge havia | nom’ o que aquesto viu em sonhos; e mantenente | fora do leito saiu e foi log’ [a]a eigreja, | e fez tanto que lh’ abriu o tesoureiro as portas | (d’ our’ e nom doutro metal). 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E em catar a omagem | havia mui gram sabor, e viu-lh’ a sortelha fora | do dedo, onde pavor houve grand’ a maravilha, | e diss’: “– Ai Nostro Senhor!, quem m’ adubaria este | anel?: soubess’ ora qual 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX seria que o fezesse!”. | Maestre Jorge diss’: “– Eu, ca eu fix aquesta obra | toda e est’ anel seu del-rei”. E o tesoureiro | logo o anel lhe deu, dizend’: “– É gram maravilha | como do dedo lhe sal”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX Disse “– Nom faz”, o maestre, | “– mas direi, e nom vos pês, que esta noit’ hei sonhado | vel duas vezes ou três”. Entom lhe contou o sonho, | bem de tal guisa medês com’ a vós hei já contado, | e nom foi ém mentiral. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI 126 Entom ambos o contarom | al-rei, a que proug’ assaz, des i ao arcebispo, | a que com tal feito praz; e al-rei muito loarom | Dom Fernando (por que faz Deus mui fremosos miragres, | que aos seus nunca fal). 128 Muito demostra a Virgem, | a senhor esperital, sa lealdad’ a aquele | que acha sempre leal. 124 R21 * * * 591 Cantigas de Santa Maria 293 «Par Deus, muit’ é gram dereito de prender grand’ ocajom» (E 293, F [37]) Como um jograr quis remedar como siía a omagem de Santa Maria, e torceu-se-lhe a boca e o braço, e levaro-no aa eigreja ter vigia, e guareceu. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Par Deus, muit’ é gram dereito | de prender grand’ ocajom o que contrafazer cuida | aquel de que há faiçom. Ca, segund’ escrit’ achamos, | Deus a fegura de si fez o home, e porende | dev’ amar mui mais ca si o hom’ a Deus. E daquesto, | segundo eu aprendi, avo mui gram miragre, | onde fiz cobras e som. [Refrão = vv. 1-2] Esto foi em Lombardia | dum jograr remedador que atám bem remedava | que haviam ém sabor todos quanto-lo viíam, | e davam-lhe com amor panos e selas e fros | e outro muito bom dom. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E el, com sabor daquesto, | jamais nom fazia al senom remedar a todos, | ũus bem e outros mal; mas o dem’, a que criía | de conselho, fez-lh’ atal remedilho fazer onde | recebeu mui gram lijom. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 E assi foi que um dia | per ũa porta entrar da vila foi, mui bem feita, | e viu sobr’ ela estar ũa mui bela omagem | da Virgem que nom há par, tendo seu filh’ em braço; | mas nom fez i oraçom, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 mas parou-lhe muito mentes, | e, pois que a bem catou, com gram sandez o astroso | a remedar a cuidou. Mas pesou a Jesu-Cristo, | e atal o adobou que bem cabo da orelha | pôs-lh’ a boc’ e o granhom. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E o colo co-no braço | tam forte se lh’ estorceu que em pés estar nom pôde | e log’ em terra caeu; mas a gente que viu esto | o filhou e o ergeu, e, correndo, à eigreja | o levarom de random. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 E teverom i vigia, | e rogarom muit’ a Deus que mostrasse por sa madre | ali dos miragres seus; e o jograr lhe rogava, dizend’: “– Os pecados meus 592 42 som tam muitos que aquesto | mi_avo com gram razom”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Outro dia, quand’ a missa | começarom a dizer, a Virgem Santa Maria | quis dele mercê haver, e o rosto e o braço | lhe fez logo correger e torno’-o mui bem são; | por que mui gram devoçom R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 houverom quantos i eram, | loand’ a senhor de prez, que tam fremoso miragre | assi ante todos fez. E o bispo da cidade, | que o oiu, dessa vez vo log’ aa eigreja | e fez ende gram sermom. 56 Par Deus, muit’ é gram dereito | de prender grand’ ocajom o que contrafazer cuida | aquel de que há faiçom. 52 R9 * * * 593 Cantigas de Santa Maria 294 «Nom é mui gram maravilha seerem obedientes» (E 294, F [18]) Esta é como ũa molher que jogava os dados em Pulha lançou ũa pedra aa omagem de Santa Maria, porque perdera, e parou um ángeo de pedra que i estava a mão e recebeu o colbe. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nom é mui gram maravilha | seerem obedientes os ángeos aa madre | daquel cujos som sergentes. Onde vos rogo, amigos, | que um gram miragr’ ouçades que fezo Santa Maria | em Pulha; e bem sabiades que, des que o bem oirdes, | certo sõo que tenhades mais o coraçom em ela | e sejades chus creentes. [Refrão = vv. 1-2] Esto foi a ũa festa | desta Virgem groriosa, que ant’ ũa sa eigreja, | mui bem feita e fremosa, filhou-s’ a jogar os dados | ũa molher muit’ astrosa com outros tafures muitos, | que nom eram seus parentes. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquesta molher cativa | foi de terra d’ Alemanha; e, perdendo aos dados, | creceu-lh’ ém [a]tám gram sanha que fez ũa gram sandece, | e oíd’ ora quamanha, por que guardados sejades | de seerdes descreentes. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV ũa omagem fremosa | da Virgem Santa Maria, de pedra mui bem lavrada | sobre-la porta siía, e dous ángeos ant’ ela, | e qualquer deles havia senlhas mãos enos peitos; | e enas outras tentes 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V eram come senlhos livros | de mui gram sinificança, porque todo-los saberes | sabem eles, sem dultança; as outras mãos nos peitos | tĩíam por semelhança que em Deus sas voontades | tem sempre mui ferventes. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ond’ esta molher sandia | viu ũa pedr’ e filhou-a, e catou aa omagem | da Virgem e dostou-a e lançou-lh’ aquela pedra, | por feri-la; mas errou-a, ca os ángeos que eram | ant’ ela forom presentes 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII por a sa senhor guardarem: | um deles alçou a mão e recebeu a ferida, | mas ficou-lh’ o braço são. E quantos aquesto virom | filharom logo de chão 40 594 42 a molher, e dar com ela | forom nas chamas ardentes. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 O ángeo teve sempre | depois a mão tenduda que parou ant’ a omagem | pera seer defenduda; onde aquela omagem | foi depois em car tuda mui mais ca ante nom era | de todas aquelas gentes. 50 Nom é mui gram maravilha | seerem obedientes os ángeos aa madre | daquel cujos som sergentes. 46 R8 * * * 595 Cantigas de Santa Maria 295 «Que por al nom devess’ hom’ a Santa Maria servir» (E 295, E 388) Como Santa Maria apareceu em visom a um rei que a servia em todas aquelas cousas que a el sabia e podia servir, e semelhava-lhe que se homildava contra el em galardom do serviço que lhe fazia. R0 2 I 4 6 Que por al nom devess’ hom’ a | Santa Maria servir, deve-o fazer por quam bem | sabe serviço gracir. E daquest’ um gram miragre | vos quer’ ora retraer que mostrou Santa Maria, | per com’ eu pud’ aprender, a um rei que sas figuras | mandava sempre fazer muit’ apostas e fremosas; | e fazia-as vestir R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II de mui ricos panos d’ ouro | e de mui nobre lavor, e põía-lhes nas testas, | pera parecer melhor, corõas com muitas pedras | ricas, que grand’ esprandor davam sempr’ aa omagem | e fazia-na luzir. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E outrossi nas sas festas | ar fazia-lhe mudar sempr’ outros panos mais ricos, | po-la festa mais honrar, e bem assi as fazia | põer sobe-lo altar. Demais, trobava per ela, | segund’ oí departir; 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV des i, aqueles cantares | eram dos miragres seus muitos e maravilhosos | que mostra por ela Deus (e faz i mui gram dereito, | ca, segum diz Sam Mateus e Sam Joám e Sam Marcos, | sa madr’ éste, sem falir). 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Onde, por estas razões, | a servia aquel rei e loava e dizia | muito bem, com’ apres’ hei, dela; e porém lh’ avo | o que vos ora direi, onde vos rog’, ai amigos, | que o queirades oir. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Onde foi a ũa Páscua | Maior, que Deus resorgiu, que el-rei fez sa omagem | da Virgem; e, poi-la viu bem feita e bem fremosa, | ricamente a vestiu e sobr’ o altar a pose, | e fez monjas i vĩir, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII que a vissem com’ estava | e houvessem devoçom em ela e que rogassem | por el-rei de coraçom. E elas assi fezerom; | e a Virgem em vijom lhes diss’: “– O que me rogades, | farei-o se el-rei vir”. 40 42 596 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII ũa delas mantenente | foi al-rei e o chamou; e el-rei vo tantoste, | e, logo que i chegou, a omagem os golhos | ant’ el em terra ficou, e as mãos que beijasse | lhe começou a pedir. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Mas el-rei deitou-s’ em terra | ant’ ela, tendud’ em cruz, chorando muit’ e dizendo: | “– A ti, senhor, que és luz, beijarei pees e mãos, | ca ta vertude m’ aduz sempre saúd’ e me guarda | dos que me querem nozir”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X “– Nom,” diss’ ela, “– mais as vossas | mãos vos beijarei eu por quanta honra fazedes | a mi sempr’ e ao meu filho, que é Deus e home; | e porém no reino seu vos meterei pois morrerdes: | esto será, sem mentir”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Pois s’ as monjas espertarom | desta visom, foi-lhes bem, e al-rei em outro dia | lho contarom, e de rem nada nom lhe falecerom; | e ele logo porém chorou muit’ ant’ a omagem | e fez tod’ est’ escrevir. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E des ali adeante | serviu mais, com’ aprendi, aa Virgem groriosa, | e loou-a mais des i; e ela fez-lhe mercees | grandes, segund’ eu oí, e de muitas de maneiras, | a que-no bem comedir. 74 Que por al nom devess’ hom’ a | Santa Maria servir, deve-o fazer por quam bem | sabe serviço gracir. 70 R12 * * * 597 Cantigas de Santa Maria 296 «Quem aa Virgem santa mui bem servir quiser» (E 296, F [11]) Esta é como Santa Maria apareceu em visom a um monge na cibdade de Conturbel e ensinou-lhe de qual guisa a servisse. R0 2 I 4 6 Quem aa Virgem santa | mui bem servir quiser, convém-lhe que a sêrvia | com’ a ela prouguer. Ca servir no-na pode | bem que-na nom amar, nem amar nunca muito | o que a nom honrar, e, fazendo tod’ esto, | ar deve-a loar por muitos de miragres | que faz quand’ ela quer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E dest’ um gram miragre | ora vos contarei que em Conturbe fezo, | per com’ escri’ achei, por um monge, sant’ home; | e sõo cert’ e sei que sempre fará est’ a | que-na servir souber. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este muit’ ameúde | fazia oraçom sempr’ ant’ o altar dela | com mui gram devoçom, os golhos ficados, | e mui de coraçom pedia que lhe désse | (ca lh’ era mui mester) 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV siso per que podesse | a saber bem servir; e outra cousa nunca | lhe queria pedir. E a Virgem nom quiso | que em seu dom falir foss’, e aparecer-lhe | foi como vos disser: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V mais fremosa e crara | que lũa nem sol é; e disse-lh’: “– O que pedes | praz-me, per bõa fé; e eu dizer-cho quero | ca meu filh’, u El sé, tem por bem que cho diga, | e direi-cho, senher: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI se bem queres servir-me, | primeiro amar-m’-ás muit’ ena voontade, | outrossi honrar-m’-ás, e, sobre tod’ aquesto, | sempre me loarás, pois me filhou por madre | Deus, seend’ eu molher”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quanto a Virgem disse, | todo o ascoitou aquel frade de grado, | e, quanto lhe mandou fazer, todo foi feito; | e depois lhe levou 40 598 42 aos ceos a alma. | Porém que-na crever, R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 sempr’ em aqueste mundo | bõa vida fará, e quem servir a ela, | seu filho servirá, e, pois que del for fora, | paraíso verá; demais, valrá-lhe sempre | u a mester houver. 50 Quem aa Virgem santa | mui bem servir quiser, convém-lhe que a sêrvia | com’ a ela prouguer. 46 R8 * * * 599 Cantigas de Santa Maria 297 «Com’ é mui bõ’ a creença do que nom vê hom’ e cree» (E 297, F [41]) Esta é como Santa Maria mostrou vertude na sa omagem, porque dizia um frade que nom havia vertude no madeir’ entalhado. R0 2 I 4 6 Com’ é mui bõ’ a creença | do que nom vê hom’ e cree, bem assi é mal creente | de nom creer o que vee. Dest’ um fremoso miragre | vos rog’ ora que ouçades, e, des que o entenderdes, | fará-vos que bem creades em Deus e ena sa madre, | per que seu amor hajades, o que nunca haver pude | quem em eles bem nom cree. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E porém creer devemos | que Deus comprida vertude éste, e que del os santo- | -la ham per que dem saúde a aqueles que o creem; | e porém, se Deus m’ ajude, mui ceg’ é d’ entendimento | o que aquesto nom vee. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, pois a sa gram vertude | assi ést’ aparelhada d’ obrar em aquela cousa | que acha enderençada pera a receber logo, | esto razom é provada que na omagem vertude | acha o que o bem cree. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca bem com’ a cousa viva | recebe por asperança vertude, sol que a creem, | bem assi por semelhança a recebe a omagem | mantenent’ e sem tardança daquel de que é fegura, | macar hom’ a El nom vee. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Onde foi ũa vegada | que um rei sigo tragia ũa omagem mui bela | da Virgem Santa Maria, por que Deus muitos miragres | demostrava cada dia, em que foi travar um falso | frade, que em Deus nom cree, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI dizendo: “– Muito per-tenho | que é home sem recado o que cree que vertude | há no madeir’ entalhado, que nom fala nem se move: | est’ é bem sandeu provado, e tenho que é mui cego | o que aquesto nom vee”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ el diss’ esta paravla, | mui preto del-rei estava, que todas estas sandeces | que dizia ascuitava; e, demais, contra um frade, | seu companhom, se tornava dizendo: “– Este rei tenho | que enos ídolos cree”. 40 42 600 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quand’ o frad’ aquesto disse, | tornou-s’ el-rei mui sanhudo, e diss’ aos que estavam | ant’ el: “– Muit’ é atrevudo e sandeu aqueste frade, | e tenho-o por perdudo, ca nom vee bem dos olhos, | mas pelo toutiço vee; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e des hoimais sa fazenda | nunca irá adeante, ante tornará a redr’, e | sempre será malandante; e a Virgem groriosa | nom querrá que s’ el avante daquesto que el há dito, | pois que em ela descree”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Tod’ aquest’ assi avo: | ca sempre fez sa fazenda mui mal aquel frade falso, | ca foi louco, sem contenda, sempre dali adeante, | e Deus quis filhar emenda del por si e por sa madre | come d’ home que nom [v]ee. 62 Com’ é mui bõ’ a creença | do que nom vê hom’ e cree, bem assi é mal creente | de nom creer o que vee. 58 R10 * * * 601 Cantigas de Santa Maria 298 «Graça e vertude mui grand’ e amor» (E 298, F [9]) Esta é como Santa Maria guareceu em Seixom ũa molher a que filhava o demo. R0 2 I 4 6 Graça e vertude mui grand’ e amor mostra Santa Maria no pecador. Gram vertude faz em doentes sãar, e graça de no-los erros perdõar; amor nos ar mostra de por nós rogar sempr’ ao seu filho, nosso salvador. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E porend’ ora um miragre direi que em Seixom fez a madre do gram rei: quant’ end’ aprendi, rem nom vos negarei, e de o oir haveredes sabor. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III ũa molher bõa, por vos nom mentir, demónio havia, e, per rem, guarir dele nom podia, e prometeu d’ ir a Seixom, que lhe tolhess’ esta door. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV (E Santa Maria tev’ assi por bem: de nom tardar muito). E guisou porém candeas e cera e al que convém a tod’ aquel que em romaria for. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Des i, confessou-se bem, com’ aprendi, e saiu-s’ entom esta molher assi e foi-s’ a Seixom. E, depois que foi i, entrou na eigreja, e, com gram pavor 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que do dem’ havia, fez sa oraçom bem ant’ o altar da Virgem; e [e]ntom a filhou mui fort’ o diabo felom, que houverom todos ém mui gram temor. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, poi-la assi ant’ o altar filhou, gram peça a tev’; e, pois se levantou, a molher daquesta guisa começou sa oraçom quant’ ela pôde melhor, 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 602 VIII 46 48 e diz: “– Groriosa Virgem, que nacer Jesu de ti quiso, se for teu prazer, de mi t’ amerca e o teu poder aqui mostra sobr’ aqueste traedor, R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX que me filhou ora ante ti tam mal e nom quis catar ta eigreja nem al; mas, Virgem, reinha santa ’sperital, guarda-me daqueste fals’ enganador; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X senhor, os pecados nom cates que fiz assi como faz molher mui pecadriz; mas tu, que dos ceos és emperadriz, roga teu filho, nosso remĩidor, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que me dé saúde polo amor teu; e, pois El tal honr’ aas molheres deu que de ti prês carne, Virgem, rogo-t’ eu que t’ amercees de mi, que sofredor 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII sõo de gram coita que mi_o demo dá, qual nunca molher houve nem haverá; ai madre de Deus, senhor, tolhe-mi_o já, e seerei sempre tua servidor”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII A Virgem Maria log’ aquela vez ao demo mao, negro chus ca pez, daquela molher que se quitasse fez, e des ali nom foi dela tomador. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E a bõa dona, pois se viu, de pram, fora do poder daquel peor que cam, deu loor a Deus, e a do bom talám, sa madre, serviu, e foi esmolnador. 86 Graça e vertude mui grand’ e amor mostra Santa Maria no pecador. 82 R14 * * * 603 Cantigas de Santa Maria 299 «De muitas maneiras Santa Maria» (E 299, F [78]) Como Santa Maria vo em visom a um freire e mandou-lhe que désse ũa sa omagem que tragia a um rei. R0 2 I 4 6 De muitas maneiras Santa Maria mercees faz aos que por seus tem. Dest’ um miragre mostrar-vos querria, e de mi_o oirdes vos rogaria de bõa ment’, e per el vos faria saber servir a comprida de bem. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Est’ avo a um rei que servia esta senhor quant’ ele mais podia, e, em loá-la, gram sabor prendia; e direi-vos que lh’ avo porém. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Um freire dos da Estrela tragia a seu colo, em que muito criía, ũa omagem desta que nos guia, d’ almafi, que seu filh’ em braços tem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E ũa noit’ em seu leito jazia; nem era bem esperto nem dormia; viu a madre de Deus, que lhe dizia: “– Essa omagem nom tragas, per rem, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que trages, ca fazes i gram folia e-na trager assi; mas vai ta via al-rei e dá-lha, ca me prazeria se lha désses, e farias bom sém”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quand’ esto lh’ houve dito, logo s’ ia; e o freir’ a outros freires dizia est’, e cada um deles respondia: “– Aquest’ é sonho que nom vai nem vem”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E o freire, quand’ aquesto oía, de a nom dar al-rei filhou perfia; mas depois bem três vegadas vií’ a que lhe diss’ assi em mui gram desdém: 40 42 604 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII “– E como filhaste tal ousadia de nom dar o que te mandad’ havia que désses al-rei, e gracir-cho-ia?; mas dá-lha; se nom, mal te verrá ém”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX O freire, log’ ante de tercer dia, a seu maestr’ aquesto descobria, que lhe respôs: “– Fezestes bavequia eno tardar, e a vós nom convém 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X tal omagem, mas al-rei converria; e por aquesto vos conselharia que lha déssedes, ca el saberia honrá-la muit’; e vós buscad’ alguém 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que vaa vosc’”. E ele logo s’ ia, e achou el-rei, que missa oía, e deu-lh’ a omagem, que alegria houve com ela grande veramém. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E co-nas mãos ambas a ergia, e graças por aquesto lhe rendia e o seu santo nome beizia, dizendo: “– Beita sejas!”. Amém. 74 De muitas maneiras Santa Maria mercees faz aos que por seus tem. 70 R12 * * * 605 Cantigas de Santa Maria 300 «Muito deveria» (E 300) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 4 I 6 8 10 12 14 R1 16 18 II 20 22 24 26 28 R2 30 32 III 34 36 38 40 42 R3 44 Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. Ca bem deve razõada seer a que Deus por madre quis, e seend’ El seu Padre e ela filha_e criada, e honrada e amada a fez tanto que sem par é preçada e loada, e será quant’ El durar. Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. Outrossi loar devemos a por que somos honrados de Deus e ar perdõados dos pecados que fazemos; ca temos que devemos por aquesto lazerar, mas creemos e sabemos que nos pod’ ela guardar. Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. Razõá-la bem, sem falha, devemos, ca nos razõa bem ante Deus, e padrõa é noss’, e por nós trabalha; e baralha e contralha o dem’, e faz-lo estar que nom valha nemigalha, nem nos possa mal buscar. Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, 606 46 IV 48 50 52 54 56 R4 58 60 V 62 64 66 68 70 R5 72 74 VI 76 78 80 82 84 R6 86 88 e seu bem rezõar. E por esto lhe [de]mando que lhe nom venha emente do que diz a maa gente porque sõo de seu bando, e que ando-a loando e por ela vou trobar, e cuidando e buscando como a possa honrar; Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. mas que lhes dé galardões bem quaes eles merecem, porque me tam mal gradecem meus cantares e meus sões e razões, e tenções que por ela vou filhar; ca felões corações me vam porende mostrar. Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. E ar haja piadade de como perdi meus dias, carreiras buscand’ e vias por dar haver e herdade u verdad’ e lealdade per rem nunca puid’ achar, mais maldad’ e falsidade, com que me cuidam matar. Muito deveria home sempr’ a loar a Santa Maria, e seu bem rezõar. * * * 607 Cantigas de Santa Maria 301 «Macar faz Santa Maria miragres dũa natura» (E 301, F [82]) Como Santa Maria de Vila-Sirga tirou um escudeiro de prijom, que o tiinham preso em Carrom pera matar. R0 2 I 4 6 Macar faz Santa Maria | miragres dũa natura, muitas vezes i os cámbia | por mostrar sa apostura. E daquest’ um gram miragre | demostrou ũa vegada a Virgem em Vila-Sirga, | na sa eigreja honrada, por um escudeiro preso | que, ena prijom, rogada a houve que o livrasse | daquela prijom tam dura. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ca el em mui grandes ferros | e em cadas jazia pres’ em Carrom, ca fezera | por que a morrer devia; pero sempre jajũava | dias de Santa Maria, na sa mercee fiando, | mui comprida de mesura. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Quando soube que julgado | era que lhe dessem morte, chorou muito dos seus olhos | e fezo chanto mui forte, dizend’: “– Ai Santa Maria, | tu que és lum’ e conorte dos coitados, tu me guarda | de tam gram malaventura: 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que em tal prijom nom moira | nem ar seja justiçado, mas ta mercee me valha | e nom cates meu pecado, e, se t’ algum pesar fige, | que seja eu perdõado, e des hoimais te prometo | que me guarde de loucura”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Des quand’ aquest’ houve dito, | apareceu-lh’ a reinha dos ceos com gram companha | d’ ángeos que sigo tinha, e filhou-o pela mão | e solto’-o muit’ aginha dos ferros, e disse logo: | “– Sal desta prijom escura”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E logo se sentiu livre | da prijom o escudeiro u jazia (e aquesto | foi ao sono primeiro), e achou-s’ em Vila-Sirga, | e foi ende bem certeiro que o fezera a Virgem, | cujo bem por sempr’ atura. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E quantos ena eigreja | achou, fezo bem certãos deste feito, pois lhe virom | ter os ferros nas mãos ant’ o altar a desora, | e todos seus nembros sãos; e porém loarom todos | a Virgem santa e pura. 40 42 R7 44 Macar faz Santa Maria | miragres dũa natura, muitas vezes i os cámbia | por mostrar sa apostura. * * * 608 Cantigas de Santa Maria 302 «A madre de Jesu-Cristo, que é senhor de nobrezas» (E 302, F [84]) Esta é como Santa Maria de Monsarrat descobriu um furto que se fez na sa igreja: do home que furtou a seu companhom os dinheiros da esmolneira em Santa Maria de Monsarraz, e nom pôde sair da eigreja atá que lhos deu. R0 2 I 4 6 A madre de Jesu-Cristo, | que é senhor de nobrezas, nom sofre que em sa casa | façam furtos nem vilezas. E dest’ um mui gram miragre | vos direi que me jurarom homees de bõa vida, | e por verdade mostrarom, que fezo Santa Maria | de Monsarrat, e contarom do que fez um ávol home | por mostrar sas avolezas. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Este com outra gram gente | vo i em romaria, e acolheu-s’ a um home | com que filhou companhia; e, quando chegou a noite, | os dinheiros que tragia lhe furtou da esmolneira | por crecer em sas requezas. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Outro dia de manhãa, | des que as missas oírom, os que ali albergarom | da eigreja se saírom; mas el ém sair nom pôde | (e esto muitos o virom), ca nom quis Santa Maria, | que é com Deus nas altezas, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV atá que bem repentido | foss’ e bem mãefestado, e todo quanto furtara | houvess’ ao outro dado, e que dissess’ ante todos | de com’ havia errado, e saíss’ ém com vergonha | por sas maas astruguezas. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 Tod’ aquest’ assi foi feito, | ca o quis a verdadeira madre de Deus piadosa, | santa e mui justiceira, que nom quis que em sa casa | fossem per nulha maneira feitas cousas desguisadas | nem cobiças per pobrezas. 32 A madre de Jesu-Cristo, | que é senhor de nobrezas, nom sofre que em sa casa | façam furtos nem vilezas. 28 R5 * * * 609 Cantigas de Santa Maria 303 «Por fol tenho quem na Virgem nom há mui grand’ asperança» (E 303, F [29]) Esta é como ũa omagem de Santa Maria falou nas Olgas de Burgos a ũa meninha que havia gram medo de sa tia por travessura que fezera. R0 2 I 4 6 Por fol tenho quem na Virgem | nom há mui grand’ asperança, ca noss’ esforç’ é nos medos, | e nas coitas amparança. Desto direi um miragre | que conteu no mõesteiro de Burgos (e, se m’ oirdes, | direi-vo-lo tod’ enteiro), que mostrou Santa Maria | por tolher med’ e fazfeiro dua moça que havia | tod’ esto, sem dovidança. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Costum’ é que as meninhas | que ena ordem criadas som, que grandes travessuras | fazem algũas vegadas; porém freiras que as guardam | lhes dam, per que castigadas sejam e nom façam cousas | per que caiam em errança. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Onde daquesto avo | que ũa moça fazia amiúd’ i travessuras | que pesavam a sa tia; e castigava-a ende, | ca maior bem lhe queria ca si nem a outra cousa. | E porende, sem dultança, R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 atám gram medo havia | dela que sol nom ousava aparecer u a visse | quand’ algũa vez errava. E a freira, dua parte, | a feri’ e castigava, e, da outra, lhe fazia | muit’ alg’ e muita criança. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Onde um dia lh’ avo | que fez mui gram travessura, por que aquela sa tia | houve dela gram rancura e buscou-a por feri-la; | mas ela, por sa ventura bõa, foi-s’ aa omagem | da Virgem sem demorança, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 e chorando e tremendo | diss’: “– Ai Virgem groriosa, acorre-m’ a esta coita, | tu que és tam piadosa que acorre-los coitados; | porém, senhor preciosa, fais que est’ erro que fige | que caia em obridança R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 de mià tia, que aquesto | nunca lhe venha emente”. Respôs-lh’ entom a omagem | mans’ e em bom contenente: “– Aquesto que me tu rogas | farei eu de bõa mente, 610 42 tanto que hoimais teu feito | no-no metas em balança”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 Desto que diss’ a omagem | foi a moça espantada, pero recebeu esforço | de que foi mui conortada. E, pois vo outro dia, | sa tia a houv’ achada, e, depois que soub’ o feito, | houve na Virgem fiança. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E a sa sobrinha logo | pera sa casa levou-a, e des ali adeante | amou-a muit’ e honrou-a, e, em logar de com’ ante | a feria, faagou-a, e, do que sabor havia, | fez-lh’ end’ amor e pitança. 56 Por fol tenho quem na Virgem | nom há mui grand’ asperança, ca noss’ esforç’ é nos medos, | e nas coitas amparança. 52 R9 * * * 611 Cantigas de Santa Maria 304 «Aquela em que Deus carne prendeu, e nos deu por lume» (E 304, F [77]) Esta é como Santa Maria de Ribela nom quer que arça outr’ oio ant’ o seu altar senom d’ olivas que seja bem claro e muit’ esmerado. R0 2 I 4 6 Aquela em que Deus carne | prendeu, e nos deu por lume, das cousas límpias se paga | sempre: tal é seu costume. E desto mostrou miragre | a Virgem Santa Maria grand’ em ũa sa eigreja, | e demostra cada dia, em ũ’ aldea que nome | há Ribela, u soía haver bem d’ antiguedade | um mõesteir’ a costume R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II d’ órdim de Sam Beíto. | E ora chus da eigreja nom ficou, que é da Virgem | (que sempre beita seja), em que há bem cinc’ altares, | u gram vertude sobeja mostra Deus no que é dela: | ca nom pod’ i arder lume 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III doutr’ oio senom d’ olivas | mui límpi’_e muit’ esmerado; ca, macar ard’ ant’ os outros | de linhaça, sol pensado nom é que ant’ o da Virgem | arça; e est’ é provado muitas vezes eno ano, | e há-no já por costume. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Ca o provam ameúde | cavaleiros, lavradores, clérigos, monges e frades | descalços, preegadores; ca, pero i acenderom | outros oios ardedores, atantoste se matavam | que sol nom deitavam lume. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 E porend’ os dessa terra | nom ousam seer ousados d’ outr’ oio ali queimarem, | ca saem por denodados ende cada que o provam, | e por esto som tornados a queimar oio d’ oliva | nas lámpadas por costume. 32 Aquela em que Deus carne | prendeu, e nos deu por lume, das cousas límpias se paga | sempre: tal é seu costume. 28 R5 * * * 612 Cantigas de Santa Maria 305 «Sempre devemos na Virgem a teer os corações» (E 305, F [35]) Como Santa Maria fez a carta de pedença que tragia ũa bõa molher pesar mais em ũa balança que quant’ haver poserom na outra. R0 2 I 4 6 Sempre devemos na Virgem | a ter os corações, ca per ela guaanhamos | de Deus mui grandes perdões. E porém dizer-vos quero, | um mui fremoso miragre; | gram prol de vossa fazenda de fazer per que perçades | se me mui bem ascuitardes, e, se i mentes parardes, | vos terrá, se vos guardardes d’ haver de Deus galardões. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Esto foi dua mesquinha | molher que pecador era, e confessou-s’ a um frade | dos pecados que fezera; e, por haver perdom deles, | havia coita tam fera que do perdom pediu carta, | mostrando muitas razões 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III por que a haver devia, | ao frade que lha désse. E el deu-lha de tal guisa: | mandando-lhe que fezesse serviç’ a Santa Maria, | per que sa mercee_houvesse, e jajũass’ as sas festas, | e oísse seus sermões. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Tod’ esto lhe pôs em carta, | e, des i, ar seelou-a; e a molher mui de grado | a filhou e pois guardo[u]-a em seu so, e tantoste | pera sa casa levou-a. Mas atám muit’ era pobre | que pidia as rações; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e, uquer que ela ia, | sempre sa carta levava dentr’ em ũa seeleira, | em que a mui bem guardava; mas pola Virgem beita | as rações demandava, sofrendo frio e fame | e muitas trebolações. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E ela, assi andando, | chegou a ũa cidade e viu seer [e]na rua, | com’ eu achei por verdade, um cambiador que cambiava | d’ haver mui gram quantidade (esterlĩis e torneses, | burgaleses, pepiões, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e inda daquestes novos | e dos pretos e da guerra); e ela pediu-lhe algo | por aquela que nom erra. El disse: “– Fazê-lo quero | sobre penhor, ca na terra u somos nom é costume | de dar doutra guisa dões”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 613 VIII 46 48 Ela respondeu-lhe logo: | “– Juro-vos per mià creença que nom trag’ erg’ esta carta, | que é de mià pedença”. E diss’ el: “– Veê-la quero, | e meterei i femença se é carta de soltura | ou se é de petições”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX El entom leeu a carta, | e, ante que lha tornasse, disse-lhe que lhe daria | sobr’ ela quanto pesasse, e que esto lhe faria, | e dal nom se trabalhasse, per rem, ca el nom amava | truães nem arlotões. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Ela havendo na Virgem, | madre de Deus, gram fiança, outorgou-lhe que posesse | a carta ena balança; mas que lhe désse o peso | dela logo, sem tardança, que nom morresse de fame | a ’scusa polos rancões. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Ela meteu na balança | a carta, e tam pesada se fez logo que na outra | nom pôde pois meter nada que tanto per rem pesasse | (esto foi cousa provada), e o cambiador com sanha | depenava seus granhões. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII O cambiador filhou outra | balança maior daquela, e cuidou aquela carta | per maior peso vencê-la; mas pero nom meteu tanto | na balança que movê-la per rem podesse de terra. | Entom filhou dous bolsões 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII que meteu [e]na balança, | chos de prata e d’ ouro; mas mui mais pesou a carta, | em que havia tesouro daquel que perdõar pode | crischão, judeu e mouro, atanto que em Deus hajam | bem firmes sas entenções. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Quand’ o cambiador viu esto, | pediu por Santa Maria mercee que se leixasse | do peso, e lhe daria quant’ ela do seu quisesse, | per que sempre viviria bem e avondadamente. | E molheres e barões, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 quantos este feito virom, | tantoste lhe conselharom que o fezess’, e foi feito; | e log’ a Virgem loarom por tam fremoso miragre, | e com gram prazer chorarom todos, golhos ficados, | com mui grandes devoções. 92 Sempre devemos na Virgem | a ter os corações, ca per ela guaanhamos | de Deus mui grandes perdões. 88 R15 * * * 614 Cantigas de Santa Maria 306 «Por gram maravilha tenho de nulh’ home s’ atrever» (E 306, F [20]) Como Santa Maria fez converter um herege em Roma que dizia que Santa Maria nom podia seer virgem e haver filho. R0 2 I 4 6 Por gram maravilha tenho | de nulh’ home s’ atrever a dizer que Deus nom pode | quanto xe quiser fazer. E com’ é hom’ atrevudo | em querer saber razom por que fezo Deus as cousas | que nom eram ant’ e som ora? Muit’ é de mal siso; | ca as obras de Deus nom som pera saber-se todas, | nem pode per rem seer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E daquest’ um gram miragre | avo, per com’ oí, a um herege em Roma, | e contam que foi assi, dũa omagem que era | da Virgem, com’ aprendi, pintada ena eigreja, | como vos quero dizer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta eigrej’ é aquela | que chamam de Leterám, que do ’mperador foi casa | que nom’ houv’ Octaviám; mas depois ar foi eigreja | do apóstol’ Sam Joám, mui nobre e mui bem feita | e que costou grand’ haver. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ali ést’ ũa omagem | da Virgem que nom há par pintada ena parede, | e como a saudar vo_o ángeo do ceo, | per que s’ houve d’ emprenhar ela de ’Spirito Santo | logo sem neum lezer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E tam bom maestre era | o pintor que a pintou que fezo que semelhasse | que, quando a saudou o ángeo, como logo | atantoste s’ emprenhou; e porém lhe fez o ventre | mui creçudo parecer, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e fez que tevesse cinta | bem como prenhada sol cengir per cima do ventre | quando lh’ a prenhece dol. Esta omagem um dia | viu-a um herege fol, e disse aos crischãos: | “– Vede que ides creer!: 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII que Santa Maria virgem | foi!; sol nom dizedes rem, ca vedes que tem a cinta | como molher prenhe tem suso per cima do ventre; | muito sodes de mal sém 40 615 42 em creer ataes cousas | nem sol i mentes meter”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quando aquest’ houve dito | aquel herege sandeu, log’ a aquela omagem | a cinta lhe decendeu juso como_a molher virgem, | e logo lhe descreceu o ventr’, assi come ante | que foss’ ela conceber. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Pois esto viu o herege, | repentiu-se muit’ entom, e aa Virgem beita | pidiu chorando perdom. Esto fez Deus por sa madre, | por mostrar que, com razom, foi prenhe seendo virgem, | e pois que El foi nacer. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Esta omagem beita | des entom assi está com sa cinta abaixada, | e sempr’ assi estará; e Deus miragres por ela | mostrou pois e mostrará, por nos fazer de sa madre | a verdade conhocer. 62 Por gram maravilha tenho | de nulh’ home s’ atrever a dizer que Deus nom pode | quanto xe quiser fazer. 58 R10 * * * 616 Cantigas de Santa Maria 307 «Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor» (E 307, F [79]) Como Santa Maria tolheu ũa gram tempestade de fogo em terra de Cezilha. R0 2 I 4 6 Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor toda tempestade se lh’ ém prazer for. E dest’ em Cezilha mostrou ũa vez um mui gram miragre a senhor de prez que é madr’ e filha daquel Deus que fez a terra e pôs os ceos enredor. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Cezilha é ũa ínsoa de mar rica e viçosa, com’ oí contar, de toda-las cousas que pod’ hom’ achar por haver avondo e viç’ e sabor. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em aquesta terra um mui gram mont’ há que veem de longe os que vam alá, que «Mongibel» chamam, e de fogos dá chamas aas vezes, ond’ ham gram pavor 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV todo-los da terra. Onde conteceu que em aquel monte fogo s’ acendeu mui grande, e toda a terra tremeu, e choveu tam muito come no maior 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V inverno do mundo chove, com’ oí, volta com gram pedra, e ar outrossi caíam coriscos tantos bem ali que cuidarom todos morrer a door. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quaraenta dias aquesto durou e quarenta noites, que nunca quedou atá que Santa Maria se mostrou a um bõo home com gram resprandor. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E disse-lh’ a reinha esperital: “– Se tu queres que se tolha este mal, um cantar me façam que seja atal qual a mi convém, bem feit’ a mià loor”. 40 42 617 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII O home bõo, que aquesto veer foi em visom, muit[o] houve gram prazer; des i, começou seu cantar a fazer, rimado segund[o] el soube melhor, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 e segund’ as paravlas lhe fez o som; e depois canto’-o com gram devoçom; e a tempestade quedou log’ entom, e perdeu ém logo a gente temor. 56 Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor toda tempestade se lh’ ém prazer for. 52 R9 * * * 618 Cantigas de Santa Maria 308 «De todo mal pod’ a Virgem a que-na ama sãar» (E 308) Como Santa Maria guariu ena cidade de [C]ara ũa molher hidrópica. R0 2 I 4 6 8 De todo mal pod’ a Virgem | a que-na ama sãar, sol que am’ a Deus, seu filho, | que soub’ ela muit’ amar. E dest’ um mui gram miragre | vos quer’ eu ora mostrar [Refrão = v. 1] que mostrou em ũa vila | que [C]ara soem chamar, [Refrão = v. 1] que em terra de Sosonha | é, per com’ oí contar, por ũa molher a Virgem, | que nom houve nem há par. R1 9-10 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesta molher punhava | sempr’ em servir e honrar [Refrão = v. 1] a Virgem Santa Maria | e, ma[i]s dal-rem, se guardar [Refrão = v. 1] de lhe fazer nulha cousa | que lhe jouvess’ em pesar; e porém na sa eigreja | ia candeas queimar, 12 14 16 R2 17-18 [Refrão = vv. 1-2] III e ant’ ũa sa omagem | a prezes s’ ia deitar, [Refrão = v. 1] rogando-lhe que do demo | a guardass’, e de pecar, [Refrão = v. 1] e de caer em grand’ erro, | e de mui mal enfermar. Mas Deus, que dá as doores | a muitos po-los provar, 20 22 24 R3 25-26 [Refrão = vv. 1-2] IV lhe deu tal enfermidade | que começou a inchar [Refrão = v. 1] mui mais ca d’ hidropisia | nem por razom d’ e[m]prenhar, [Refrão = v. 1] assi que todos cuidavam | que quisesse rebentar; e comer já nom podia | nem sol a água passar. 28 30 32 R4 33-34 [Refrão = vv. 1-2] V Estando em esta coita, | esforçou-se de falar, [Refrão = v. 1] e a quantos i estavam | começou muit’ a rogar [Refrão = v. 1] que, por Deus, aa eigreja | punhassem de a levar, que ant’ o altar podesse | o Corpo de Deus filhar. 36 38 40 R5 41-42 [Refrão = vv. 1-2] VI E log’ entom a filharom | e foro-na i deitar, [Refrão = v. 1] 44 619 46 48 e chorando seus pecados | se fez logo comungar; [Refrão = v. 1] e, des que foi comungada, | mantente, sem tardar, deitou três pedras do corpo | sem se doer nem queixar. R6 49-50 [Refrão = vv. 1-2] VII A primeira foi tam grande | (ca as forom mesurar) [Refrão = v. 1] como d’ ánsar um grand’ ovo; | a outra, por nom chufar, [Refrão = v. 1] foi com’ ovo de galinha; | a terceira, sem dultar, era come de poomba: | muito-las forom catar. 52 54 56 R7 57-58 [Refrão = vv. 1-2] VIII E log’ a molher foi sãa, | e fezo missa cantar [Refrão = v. 1] a honra da Virgem santa, | e as pedras fez furar [Refrão = v. 1] e ant’ o altar da Virgem | as fez logo pendurar. E quantos aquesto virom | filharom muit’ a loar 60 62 64 R8 65-66 [Refrão = vv. 1-2] IX 72 a Virgem Santa Maria, | que se sab’ amercear [Refrão = v. 1] dos coitados que a chamam, | e sabe galardõar [Refrão = v. 1] bem serviç’ a quem lho faze, | e pois paraíso dar, u é todo bem comprido, | que nunca pode menguar. 74 De todo mal pod’ a Virgem | a que-na ama sãar, sol que am’ a Deus, seu filho, | que soub’ ela muit’ amar. 68 70 R9 * * * 620 Cantigas de Santa Maria 309 «Nom devem por maravilha ter em querer Deus Padre» (E 309, F [15]) Esta é de como foi feita a primeira eigreja de Santa Maria em Roma: Santa Maria vo em visom ao papa e ao emperador e disse-lhes em qual logar fezessem a eigreja. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nom devem por maravilha | ter em querer Deus Padre mostrar mui grandes miragres | pola beita sa madre. Dest’ um fremoso miragre | vos direi que foi verdade que mostrou Santa Maria | em Roma, nobre cidade, eno tempo que já era | tornada em creschandade, por acrecentar a lee | de Deus, seu filh’ e seu Padre. [Refrão = vv. 1-2] Em aquel tempo em Roma | um papa santo havia, e um emperador bõo | per quant’ ele mais podia servia muit’ e amava | a Virgem Santa Maria (em que Deus quis prender carne | e fazer dela sa madre). R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em aquel tempo tam bõo, | de que vos eu ora digo, era o pobro de Roma | todo atám muit’ amigo da Virgem Santa Maria, | e havia bem consigo a creença de seu filho | Jesu-Crist’ e de Deus Padre. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, porque em todo Roma | nom era entom eigreja desta Virgem groriosa | (que sempre beita seja), queriam fazer end’ ũa | mui grand’ e nobre sobeja, em que fosse Deus loado | e ela, que é sa madre. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas per rem nom s’ acordavam | o logar u a fezessem; e porend’ um home bõo | lhes disse que se tevessem de fazê-la atá quando | de Deus tal sinal houvessem do logar u a fariam | a sa madr’, und’ El é Padre. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Onde foi pois ũa noite | que o papa xe jazia em seu leito e dormindo, | e em sonhando viía a si vĩir ũa dona | mui nobre, que lhe [di]zia: “– Tu amas a Jesu-Cristo | muito e a mi, sa madre; 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e porém te rog’ e mando | que digas a esta gente de Roma que mià eigreja | façam logo mantenente u virem, meant’ agosto, | caer nev’ espessamente, ca ali quer o meu filho | Jesu-Crist’, e Deus seu Padre”. 40 42 621 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Outra tal visom com’ esta | o emperador dormindo viu essa meesma noite | que o papa; e, sentindo que de Deus aquesto era, | foi chorand’ e nom riindo a el e falou com ele | a honra da Virgem madre, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX contando-lhe tod’ a feito | em qual maneira dormira e, em jazendo dormindo, | a Santa Maria vira, que lhe mandou que fezesse | sa eigreja, sem mentira, em que foss’ ela loada | e Deus, verdadeiro Padre. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X “– E, demais, por sinal deu-me, | por que eu esto creesse, que, na sa festa d’ agosto, | u eu visse que caesse muita nev’, em aquel logo | a sa eigreja ergesse, em que fosse Jesu-Cristo | load’ e ela, sa madre”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Entom lhe respôs o papa: | “– Outro tal sonh’ hei sonhado, e bem é que atendamos | aquel dia sinaado; e, quando virmos a neve, | ponhamos logo recado como seja a eigreja | feita, do filh’ e do Padre”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Entom ambos atenderom. | E, quand’ aquel dia vo, virom caer tanta neve | que tod’ um campo foi cho; e entom comprar mandarom | aquel logar, que alho era, em que hoj’ é feit’ a | eigreja da Virgem madre. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Quand’ aqueste feito soube | o póboo dos romãos, verom a aquel logo | muit’ a guisa de crischãos, os ũus dando dinheiros, | outros metend’ i as mãos, e deitarom os cimentos | bem per u nevou Deus Padre. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 E fezerom sa eigreja, | grand’ e rica e fremosa, a honra da Santa Virgem, | filha de Deus e esposa, de que Ele prendeu carne | (que foi mui maravilhosa cousa: da que El criara, | fazer pois dela sa madre). 86 Nom devem por maravilha | ter em querer Deus Padre mostrar mui grandes miragres | pola beita sa madre. 82 R14 * * * 622 Cantigas de Santa Maria 310 «Muito per-dev’ a reinha» (E 310, F [30]) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 4 I 6 8 R1 10 12 II 14 16 R2 18 20 III 22 24 R3 26 28 IV 30 32 R4 34 36 V 38 40 Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. Ca sempre santivigada foi des que a fez seu padre eno corpo de sa madre, u jouve des pequeninha. Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. E ar foi de Deus amada, ca sempre fez bõa vida, e de todo bem comprida ar foi seendo meninha. Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. E porende saudada foi do ángeo atanto que lhe disso: “– Deus o santo de ti nacerá aginha”. Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. E depois ficou prenhada de Deus poderos’ e forte, [o] que por nós prendeu morte e resorgiu manhãinha. Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. E com Deus é eixalçada, e El lhe deu tal vertude que, por dar a nós saúde, no-la deu por meezinha. 623 R5 42 44 VI 46 48 R6 50 52 Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. E porém, senhor honrada, ta mercee em mi seja que me leves u te veja daquesta vida mesquinha. Muito per-dev’ a reinha dos ceos seer loada de nós, ca no mundo nada foi bem come fror d’ espinha. * * * 624 Cantigas de Santa Maria 311 «O que diz que servir home aa Virgem rem nom é» (E 311, F [50]) Esta é como Santa Maria ressoscitou um home bõo a que matou um corisco indo em romaria a Monsarrat. R0 2 I 4 6 O que diz que servir home | aa Virgem rem nom é, aquest’ é de mal recado | e home de maa fé. Ca, se em fazer serviço | a um bom home prol tem, quanto mais na Virgem santa, | ond’ havemos todo bem; e quem aquesto nom cree, | sa creença nom val rem, ca descre’ em Deus, seu filho, | e em ela, que madr’ é. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E de tal razom miragre | vos quero ora [cont]ar, que d’ entender é mui bõo | a quem i mentes parar, que a Virgem groriosa | de Monsarraz quis mostrar por um home que a sempre | servia com mui gram fé. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El ali em romaria | d[ua]s vezes ia_ou três no ano; e amizade | havia com um borgês, e rogou-lhe que na festa | que é ’m meogo do mês d’ agosto dessũu fossem, | dizendo: “– Logar sant’ é”. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Entom ambos s’ acordarom | por em romaria ir a Monsarraz. Mas primeiro, | per quant’ end’ eu puid’ oir, passarom per Barçalona; | e, u quiserom sair da vila, começou logo | mal tempo, per bõa fé. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E fezo ventos mui grandes, | e começou de chover, e alampos com torvões, | des i coriscos caer, assi que feriu um deles | aquel home, que morrer o fez logo mantenente: | ca do corisc’ assi é 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que, em quem fer, log’ afoga | ou talha ou queimar faz. Mas aquel hom’ afogado | foi, que pera Monsarraz ia sempre, com’ oístes; | e seu companhom assaz chorou por el, e ar disse | paravlas contra a fé, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII dizendo: “– Par Deus, amigo, | muito empregásti mal quanto a Santa Maria | serviste, pois te nom val nem te guardou desta morte, | per que o dem’ infernal levou já de ti a alma; | e, mal pecad’, assi é”. 40 42 625 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E outro dia por ele | ũa missa dizer fez; des i, que o soterrassem, | ca tal era come pez tornado daquel corisco; | e ar disse dessa vez paravras contra a Virgem, | onde naceu nossa fé, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX indo com el aa cova, | chorand’ e dizend’ assi: “– Mal empregásti teu tempo | na Virgem, com’ aprendi, demais, perdísti grand’ algo | que lhe désti; mais a mi nunca averrá aquesto, | ca o meu na arca é”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X El aquest’ assi dizendo, | resorgiu o mort’ entom e assentou-se no leito, | e diss’ aquesta razom: “– Mentes a guisa de mao, | ca mià alm’ a perdiçom fora se nom foss’ a Virgem, | que chav’ é de nossa fé, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que me livrou de sas mãos, | u era em poder seu; e porend’, enquant’ eu viva, | sempre no coraçom meu a terrei pera servi-la, | e nunca me será greu de rem que por ela faça, | ca mui bem empregad’ é”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Quand’ esto virom as gentes, | derom todos gram loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor (que sempre seja loada | enquanto o mundo for, ca é nossa avogada, | des i padrõa da fé). 74 O que diz que servir home | aa Virgem rem nom é, aquest’ é de mal recado | e home de maa fé. 70 R12 * * * 626 Cantigas de Santa Maria 312 «Nom convém que seja feita niua desapostura» (E 312, F [45]) Esta é como um cavaleiro quis comprir sa voontade com sa amiga em ũa casa em que fora entalhada a omage de Santa Maria, e nunca o pôde comprir. R0 2 I 4 6 Nom convém que seja feita | niũa desapostura eno logar em que seve | da Virgem a sa fegura. Ca muit’ é cousa sem guisa | de fazerem avolezas os que creem ena Virgem, | que é senhor de nobrezas, que mais ama limpidõe | que avarento requezas, e piadad’ e mercee | ca judeu dar a usura. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E daquest’ um gram miragre | fez apost[o] e fremoso, nom há muit’, em Catalonha, | a madre do poderoso Deus e rei, que por tirar-nos | do inferno tevroso deceu dos ceos e carne | filhou ena Virgem pura. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esto foi dum cavaleiro | que apost’ e fremos’ era e grand’ e muit’ arrizado, | e a maravilha fera amava Santa Maria, | e por seu amor fezera fazer ũa sa omagem | de mui nobr’ entalhadura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E rogou a um maestre | que mui bem a entalhasse; e porém dentr’ em sa casa | lhe deu em que a lavrasse ũa cámara fremosa | e hort’, em que s’ apartasse por obrar mais a sa guisa, | e nom houvesse dal cura. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Aquel maestr’ a omagem | fezo mui bem entalhada em semelhança da Virgem | santa bem-aventurada, bem feita d’ entalhamento | e depois mui bem pintada; e, pois, pagou o maestr’ e | diss’: “– Id’ a bõa ventura”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Des que tod’ esto foi feito, | o cavaleiro filhou-a, e a um bom mõesteiro | que havia i levou-a, a que a el prometera, | e tantost’ apresentou-a, porque ali escolhera | pera a sa sepoltura. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois ali deu a omagem | e a sa casa tornado foi, viu ũa mui fremosa | donzela, e namorado ficou dela em tal guisa | que sol comer nem bocado 40 627 42 nom podia, e por ela | foi coitad’ a desmesura. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, se a bever lhe davam, | el bever sol nom podia; e, pero que se deitava | pera dormir, nom dormia; e, cuidand’ em sa amiga | e ’m como a haveria, o sém a perder houvera | e caer em gram loucura. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Mas entrou-lh’ em voontade | que aquelo nom fezesse, mas que s’ esforçasse muito, | o mais que ele podesse, e que buscasse carreira | per que a mui ced’ houvesse, e desta guisa seria | quite de toda rancura. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E entom ergeu-se logo | e buscou muitas carreiras per que a haver podesse, | e ar catou mandadeiras, que lh’ enviou, alcaiotas | velhas e mui sabedeiras de fazer molher manceba | sair toste de cordura. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Elas com ela falarom | e tanto bem lhe disserom del per que, a poucos dias, | a vencerom; e verom a el, e fezerom tanto: | que a casa lha trouxerom. E el deitou-se com ela | em ũa casa escura 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII u fezeram a omagem | da senhor mui verdadeira, e quis i jazer com ela; | mas per neua maneira aquesto fazer nom pôde, | empero que prazenteira era muit’ ende_a donzela, | e el muito sem mesura. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Ambos log’ em outra noite | dessa casa se mudarom e forom jazer a outra; | e, logo que se deitarom, comprirom sas voontades | e seu prazer acabarom. Mas o logar foi pequeno | e de mui grand’ angostura; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV onde, com nojo da casa | que houve, o cavaleiro tornou-se log’ aa outra | u jouvera de primeiro; mas pero seer nom soube | tam sabedor nem arteiro que sol podesse com ela | haver prazer nem folgura. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Entom aquel cavaleiro | entendeu que [muit’] errara em querer com sa amiga | jazer u fazer mandara omagem da Virgem santa, | e que a ela pesara daquel feito; e porende | caeu em mui gram tristura. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E contou aqueste feito | aa dona, sem dultança; e logo em outro dia, | sem neũa demorança, 94 628 96 fez com ela beições | por emendar a errança que aa Virgem fezera, | que com Deus é na altura. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII 102 Demais, fezo fazer logo | ũa lámpada de prata que pose ant’ a omagem | da por que o mundo cata; e foi pois de bõa vida, | e quitou-se de barata maa e de mao siso | e de toda travessura. 104 Nom convém que seja feita | niũa desapostura eno logar em que seve | da Virgem a sa fegura. 100 R17 * * * 629 Cantigas de Santa Maria 313 «Ali u todo-los santos nom ham poder de põer» (E 313, F [16]) Esta é da nave que andava em perígoo do mar, e os que andavam em ela chamarom Santa Maria de Vila-Sirga, e quedou logo a tormenta. R0 2 I 4 6 Ali u todo-los santos | nom ham poder de põer conselho, pó-no a Virgem, | de que Deus quiso nacer. Ca razom grand’ e dereito | é de mais toste prestar sa graça ca doutro santo, | pois que Deus quiso filhar sa carn’ e fazer-se home | por nos per ela salvar, e feze-a de vertudes | font’ e deu-lhe seu poder. R1 7-8 ão = vv. 1-2] II E porém dizer-vos quero | dela um miragr’, e sei que loaredes seu nome; | ainda vos mais direi: conhoceredes de certo | que sabença do gram rei, seu filho, de pram há ela | por tal miragre fazer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aqueste miragre fezo, | a Virgem Santa Maria | poder; e parad’ i mentes ca eu de loar seus feitos 16 18 assi com’ aprendi eu, de Vila-Sirga com seu | e rem nom vos seja greu, | hei sabor e gram prazer. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV ũa nave periguada | andava, com’ aprendi, pelo mar em gram tormenta, | e quanta gent’ era i estavam em mui gram coita; | e, assi com’ eu oí, a nav’ era já quebrada. | Des i, o mar a crecer 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V começou tam feramente | e engrossar cada vez, e volvendo-s’ as aras; | des i, a noite se fez, co-na tormenta mui forte, | negra bem com’ é o pez; demais, viíam da nave | muitos a olho morrer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E porende braadavam | e chamavam «Senhor Deus!», e «Sam Pedr’!» e «Santiago!”, | «Sam Nicolás!», «Sam Mateus!», e santos muitos e santas, | outorgando que romeus de grado seus seeriam | se lhes quisesse valer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Todos em perígoo_eram | e em gram coita mortal, e bem cuidavam que fossem | mortos, nom houvess’ i al. 40 630 42 Mais um crérigo que era | i, pois viu a coita tal (e oíra dos miragres | da Santa Virgem dizer R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que ela em Vila-Sirga | fez e faz a quantos vam i mercee e ajuda | pedir das coitas que ham, des i das enfermidades | som bem guaridos de pram), o seu corp’ e os da nave | lhe foi logo ofrecer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E diz: “– Varões, chamemos | ora de bom coraçom a Virgem Santa Maria | de Vila-Sirga, e nom se faça end’ hom’ afora, | e peçamos-lhe perdom, ca a sa vertude santa | no-nos há de falecer”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E os golhos ficarom | como poderom melhor, e o crérigo dizendo: | “– Madre de Nostro Senhor, pois gaanhas de teu filho | perdom ao pecador, a nossos erros nom cates, | por mercee; mas doer 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI te queiras de nós, coitados, | e valha-nos o teu bem e a ta virgĩidade, | per que s’ o mundo mantém; acorre-nos, senhor bõa, | pois poder hás end’ e sém, ca sem ti no-nos podemos | desta coita defender; 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII pois que tu em Vila-Sirga | aos cegos lume dás, e ressuscita-los mortos | pela vertude que hás, acorre-nos, Virgem santa, | ca nom cuidamos a crás chegar; mas tu esta coita | nos podes toda tolher”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII O crérigo, pois diss’ esto, | os olhos a ceo_alçou, e logo de mui bom grado | Salve Regina cantou a honra da Virgem madr’; e | ũa poomba entrou branca em aquela nave, | com’ a neve sol caer. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E a nav’ alumeada | aquela hora medês foi toda com craridade; | e cada ũu emprês a fazer sas orações | aa senhor mui cortês; des i, todos começarom | o seu nom’ a beizer. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV E o mar tornou mui manso, | e a noit’ escrareceu; e a nav’ em otro dia, em salvo, | porto prendeu; e cada um dos da nave, | assi como prometeu oferta a Vila-Sirga, | e nom quise falecer. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E da oferta fezerom | um cáliz mui grand’ assaz 631 94 R16 96 que o crérigo adusse | a Vila-Sirga, u faz a Virgem muitos miragres, | assi com’ a ela praz. E porende lhe roguemos | que nos faça bem viver. 98 Ali u todo-los santos | nom ham poder de põer conselho, pó-no a Virgem, | de que Deus quiso nacer. * * * 632 Cantigas de Santa Maria 314 «Quem souber Santa Maria loar, será de bom sém» (E 314, F [12]) Como Santa Maria prendeu vingança dum cavaleiro em Segóvia, que havia perdido o lume dos olhos porque desdenhou a sa eigreja, e depois guariu-o. R0 1 I 5 E desto vos dizer quero que fezo Santa Maria, | e, de como foi o feito, | pero prazer-m’-ia muito 6 [Refrão = v. 1] 3 R1 II 10 11 [Refrão = v. 1] III 15 Ela seu marid’ havia, | cavaleir’ e caçador, e de se ter viçoso | havia mui gram sabor; porém foi veer sa fonte, | que era end’ a melhor de toda aquela terra, | e diss’ a sa molher: “– Vem 16 [Refrão = v. 1] 13 R3 IV 20 logo comig’, ai irmãa, | e amostrar-ch’-ei logar u podemos quinze dias | ou três domaas estar viçosos cab’ ũa fonte | que eu hei; des i, caçar me veeredes andando, | e prazer-vos-á muit’ ém”. 21 [Refrão = v. 1] 18 R4 V 25 Pois est’ acordad’ houverom, | pensarom logo de s’ ir; e o cavaleiro foi-se | deante, e fez ferir sa tenda cabo da fonte, | e, des i, mandou vĩir sa molher, que i folgasse. | Mais a que o mundo tem 26 [Refrão = v. 1] 23 R5 VI 30 em poder e que é madre | de Deus, fezo que decer foss’ a ũa sa eigreja | e i oraçom fazer; e ela orou tam muito | que filhou ém desprazer seu marido u estava, | e disso: “– Há i alguém 31 [Refrão = v. 1] 28 R6 VII 35 que a mià molher dissesse | que vesse pera mi?” E um home lhe respose: | “– Senhor, per quant’ aprendi, oraçom faz na eigreja, | e semelha que há i sabor”. E o cavaleiro | disse come em desdém: 36 [Refrão = v. 1] 33 R7 | um miragre que eu sei segund’ em verdad’ achei; todo vo-lo contarei, | se m’ oíssedes mui bem. Em Segóvia est’ avo, | e nom há mui gram sazom, que ũa dona i era | que muito de coraçom amava Santa Maria | mais que quantas cousas som; e, do que porém lh’ avo, | nom vos ém negarei rem. 8 R2 Quem souber Santa Maria | loar, será de bom sém. 633 VIII 40 “– Em fazer oraçom longa | muito o tenho por mal, e, demais, que foi fazê-la | em um ávol muradal, u nom há nulha vertude; | e porém, logo sem al, dizede-lhe que se venha, | ou que se vaa daquém”. 41 [Refrão = v. 1] 38 R8 IX 45 Enquant’ el foi pola dona, | o cavaleiro perdeu o lume d’ ambo-los olhos, | e em terra se tendeu, volcando-s’ e braadando | come se fosse sandeu, dizendo: “– Quem me posesse | ora em Jerusalém!” 46 [Refrão = v. 1] 43 R9 X 50 E logo chegou a dona | aas vozes que oiu; e, pois deceu [e]na tenda | e tal seu marido viu, chorand’ a[a] groriosa | por el mercee pediu que seu lume lhe tornasse, | ca: “– Muitas vezes avém 51 [Refrão = v. 1] 48 R10 XI 55 que erram por seus pecados | os homes muit’ a Deus; mais tu, Virgem, de Deus madre, | nom cates os erros seus, e mostr’ aqui ta vertude, | ca el e eu somos teus, e rogar polos coitados, | est’ a ti muito convém”. 56 [Refrão = v. 1] 53 R11 XII 60 Pois est’ a don’ houve dito, | o cavaleiro cobrou logo o lume dos olhos | e diss’: “– Este logar dou todo a Santa Maria | e outorgo-me por sou; e beita seja ela | porque nos assi mantém”. 61 [Refrão = v. 1] 58 R12 XIII 65 Quantos derredor estavam | e virom como a luz cobrou aquel cavaleiro | pola Virgem (que aduz sempr’ a nós bem e saúde, | que guanha do que na cruz viu estar), todos disserom: | “– Beita sejas!”. Amém. 66 Quem souber Santa Maria | loar, será de bom sém. 63 R13 * * * 634 Cantigas de Santa Maria 315 «Tant’ aos pecadores a Virgem val de grado» (E 315) Esta é como Santa Maria guareceu em Tocha, que é cabo Madride, um meninho que tiinha ũa espiga de trigo no ventre. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Tant’ aos pecadores | a Virgem val de grado per que seu santo nome | dev’ a ser mui loado. E daquesto avo | miragre mui fremoso que fez Santa Maria, | e d’ oir saboroso, cabo Madrid’, em Tocha, | logar religioso, que vos contarei ora, | se me for ascuitado. [Refrão = vv. 1-2] Em ũa_aldea preto | de Madride morava ũa molher mesquinha, | e seu filho criava que havia pequeno, | que mais ca si amava, que a perder houvera, | se nom fosse guardado R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III pola Virgem beita, | de como vos diremos. Ca aquela mesquinha | foi, em com’ aprendemos, a espigar com outras | e, com’ oíd’ havemos, seu filh’, aquel meninho, | em braç’ houve levado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, quand’ entrou na messe, | u outras espigavam, agarimou o moço | a feixes que estavam feitos d’ espigas muitas, | que todos apanha[va]m, e a Santa Maria | o houv’ acomendado 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que lho guardass’. E logo | o meninho achada hou[v]’ ũa grand’ espiga, | de graõs carregada de trigo, que na boca | meteu e que passada a houve muit’ aginha; | onde pois foi coitado 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI tam muito que o ventre | lhe creceu sem mesura. Quand’ esto [vi]u a madre, | houv’ ém tam gram rancura, porque cuidou que era | morto per sa ventura maa; e a Madride | o levou muit’ inchado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E cuidando que era | de poçonh’ aquel feito de coovr’ ou d’ aranha | (ca sol seer tal preito), teve-o muitos dias | assi atám maltreito que sempre sospeitava | que morress’ afogado. 40 42 635 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E mentr’ assi estava, | derom-lhe por conselho que a Santa Maria | (que éste noss’ espelho) de Tocha o levasse, | e esto per concelho, ca Deus i mostraria | miragre sinaado. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX A molher filhou logo | seu filh’ e foi correndo com el, chorando muito, | braadand’ e dizendo: “– Virgem Santa Maria, | com’ eu creo e_entendo, sãar podes meu filho | sem tempo alongado”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Quando foi na eigreja, | o meninho filharom ela e sas vezinhas | e logo o deitarom ant’ o altar, e logo | todo o desnuarom por veer se parara | algur bic’ ou furado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI O moço desnuando, | catarom e cousirom com’ era tod’ inchado; | mais [al] nom lhe sentirom senom que a espiga | logo lha sair virom tod’ enteira e sãa | pelo sestro lado. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Quand’ esto viu a gente, | derom todos loores a Deus e a sa madre, | a senhor das senhores, que faz taes miragres | e outros mui maiores; e porend’ o seu nome | seja grorificado. 74 Tant’ aos pecadores | a Virgem val de grado per que seu santo nome | dev’ a ser mui loado. 70 R12 * * * 636 Cantigas de Santa Maria 316 «Par Deus, nom é mui sem guisa de s’ ende mui mal achar» (E 316, F [85]) Como Santa Maria de Triana (ũa eigreja d’ Alanquer) filhou vingança do crérigo que mandou queimar a ermida, e fez-lha fazer nova. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Par Deus, nom é mui sem guisa | de s’ ende mui mal achar o que a Santa Maria | s’ atrev’ a fazer pesar. Desto direi um miragre | que conteu em Portugal, em Alanquer, um castelo, | e quero-vos dizer qual; e vos punhad’ em oí-lo | por aquel que pod’ e val, ca per ele saberedes | Santa Maria guardar [Refrão = vv. 1-2] de fazer com que lhe pese, | nem vos atrever, per rem, de provar neũa cousa | per u perçades seu bem, nem que tenhades em pouco | seus feitos, nem em desdém, mais que sempre a sabiades | servir, temer e amar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em aquela vila houve | um crérigo trobador, que sas cantigas fazia | d’ escarnho mais ca d’ amor, e era daquela vila | dũa eigreja prior, e Martim Alvítez nome | havia, se Deus m’ ampar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, demais, sem tod’ aquesto, | mui privad’ era del-rei Dom Sancho em aquel tempo; | e, com’ em verdad’ achei, além do rio da vila, assi | com’ eu apres’ hei, vertudes se descobrirom, | e fezerom i altar 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a honra da groriosa, | a Virgem madre de Deus, assi que de muitas partes | vĩíam ali romeus; ca ali mostrava ela | muitos dos miragres seus em guarir çopos e mancos, | e cegos alumar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quand’ esto viu Dom Martinho, | pesou-lhe de coraçom, porque da sua eigreja | perdia sa oblaçom por estoutra que vos digo; | e mandou log’ um tiçom filhar, e põer-lhe fogo, | assi que a fez queimar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Deste feito que fez ele, | muit’ aa Virgem pesou, e Jesu-Cristo, seu filho, | logo sa madre vingou, assi que dambo-los olhos | Martim Alvítez cegou, estand’ assi ante todos; | e filhou-s’ a braadar 40 42 637 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII dizend’: “– Ai Santa Maria, | est’ eu mi_o fui merecer, por quanto na ta ermida | mandei o fogo põer; mas, por emenda daquesto, | farei-a nova fazer, toda de cal e de pedra”. | E logo a fez lavrar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, des que foi toda feita, | fez missa dizer ali da Virgem, mui bem cantada, | e mandou-se levar i; e, tantoste que foi dita, | per quant’ end’ eu aprendi, viu log[o], e foi bem são; | e começou de chorar 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X de gram prazer que havia | (ca aquest’ avĩir sol: que home com prazer chora); | e diss’ el: “– Senhor, eu fol fui de que trobei por outra | dona, ca niũa prol nom houv’ i aa mià coita; | porém te venho jurar 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 que, enquant’ eu vivo seja, | nunca por outra molher trobe nem cantares faça | hoimais, ca nom mi_há mester; mais por ti direi de grado | quanto bem dizer podér, e des aqui adeante | quero já por ti trobar”. 68 Par Deus, nom é mui sem guisa | de s’ ende mui mal achar o que a Santa Maria | s’ atrev’ a fazer pesar. 64 R11 * * * 638 Cantigas de Santa Maria 317 «Mal s’ há end’ achar» (E 317, F [92], U 84) Esta é como Santa Maria se vingou do escudeiro que deu couce na porta da sa eigreja. R0 1 3 I 5 7 R1 8-10 II 12 14 R2 15-17 III 19 21 R3 22-24 IV 26 28 R4 29-31 V 33 35 R5 36-38 VI 40 42 R6 43-45 VII 47 49 Mal s’ há end’ achar quem quiser desonrar Santa Maria. Como s’ achou, nom há i mui gram sazom, em Galiza um escudeiraz peom que quis mui felom britá-la eigreja com felonia. [Refrão = vv. 1-3] «Santa Maria» a ermida nom’ há «do Monte», porque em logar alt’ está; e forom alá de gentes entom mui gram romaria [Refrão = vv. 1-3] em ũa festa, per com’ eu aprendi, de meant’ agosto. E pois chegou i gram gent’, e, des i, começarom a ter sa vigia. [Refrão = vv. 1-3] O escudeiro que vos dixe chegou e viu ũa moça, de que se pagou, que forçar cuidou; mais ela per rem nom lho consentia. [Refrão = vv. 1-3] E, travando dela, cuidou-a forçar; mais proug’ a Deus e no-no pôd’ acabar, ca foi-lh’ escapar, e fogind’ à eigreja se colhia. [Refrão = vv. 1-3] Aos braados a gente recodiu, e a mininha mercee lhes pediu que daquel que viu a quisessem guardar de sa perfia. [Refrão = vv. 1-3] As gentes, temendo de lhes vĩir mal, forom sarrá-las portas logo, sem al, e chamando: “– Val, madre de Deus, ca mester nos seria!”. 639 R7 50-52 VIII 54 56 R8 57-59 IX 61 63 R9 64-66 X 68 70 R10 71-73 XI 75 77 R11 78-80 XII 82 84 R12 85-87 XIII 89 91 R13 92 94 [Refrão = vv. 1-3] O escudeiro, tanto que viu fugir a moça, leixou-se depos ela ir dizendo: “– Guarir nom me podes, rapariga sandia!”. [Refrão = vv. 1-3] E, quando as portas sarradas achou, per poucas que de sanha sandeu tornou, e logo jurou que a couces toda-las britaria. [Refrão = vv. 1-3] E, com’ era atrevudo e sandeu, quis acabar aquelo que prometeu, e o pé ergeu e ena porta gram couce dar ia. [Refrão = vv. 1-3] Mas avo-lh’ em como vos eu direi: britou-xe-lh’ a perna, segund’ apres’ hei, per prazer do rei, filho da Virgem, a que desprazia. [Refrão = vv. 1-3] E dal lh’ avo ainda mui peor: esmoreceu com coita e com door, e Nostro Senhor, sem tod’ aquest’, a fala lhe tolhia [Refrão = vv. 1-3] em tal guisa que, pois, nunca disse rem ergo «Ai Santa Maria!». E, des ém, tolheit’ e sem sém, viveu gram temp’, e per portas pidia. Mal s’ há end’ achar quem quiser desonrar Santa Maria. * * * 640 Cantigas de Santa Maria 318 «Quem a Deus e a sa madre escarnho fazer quiser» (E 318, F [48]) Esta é como Santa Maria filhou vingança, na sa eigreja em Fita, do crérigo que furtou a prata da cruz. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem a Deus e a sa madre | escarnho fazer quiser, muito será gram dereito | se lh’ ende pois mal ver. E desto, se m’ ascuitardes, | vos direi, per com’ oí, um miragre mui fremoso | (e creo que foi assi) que fez a que do linhage | deceu do bom rei Davi, e tal miragre com’ este | de contar é u xe quer. [Refrão = vv. 1-2] Em Fita conteceu esto | (em ũa vila que jaz eno reino de Toledo, | e é logar fort’ assaz), ena eigreja da madre | de Deus, a que muito praz com nosso bem e acorre | nós cada u é mester. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ali um crérig’ havia | de missa, que devoçom mostrav’ acá aa gente, | mais nom era assi, nom; e bõa paravl’ havia, | mas dentro no coraçom em com’ era de mal cho | vos direi, se vos prouguer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Este, cada que podia, | mui de grad’ ia furtar; e furtou na sa eigreja, | per com’ eu oí contar, ũa cruz grande coberta | de prata, e esfolar a foi toda, e a prata | deu a ũa sa molher. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Outro di’ aa eigreja | foi, como soía ir, e mostrou a cruz a todos | chorando, e enfengir se foi que rem nom sabia | daquel feit’, e a mentir se filhou, dizendo muito: | “– Hom’ ou molher que souber 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI de como foi este feito, | e o nom diz, dé-lhe Deus compridamente sa ira, | e perça lume dos seus olhos”. E diss’: “– Ai beita | Virgem, dos miragres teus mostra sobre quem tal feito | fez; e o que nom disser 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Paternostro por aquesto, | Deu-lo cofonda porém”. E, poi-lo todos disserom, | a que o mundo mantém o cegou dambo-los olhos, | que deles sol nom viu rem, nem ar valer nom lhe pôde | física de Mompesler. 40 42 641 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E outra lijom mui forte, | sem esto, lhe conteceu: que se lhe fez atám grande | o nariz que lhe deceu sobre-la boca, e dambas | partes tanto s’ estendeu que chegou aas orelhas. | E quem verdade quiser 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX dizer: per rem, nom podia | pouco nem muito comer se ant’ aquel nariz todo | nom lh’ alçassem, nem bever; e mil vezes eno dia | desejava de morrer. Porém tenho por mui louco | quem desto graças nom der 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 aa Virgem groriosa, | reinha esperital, que nom quis matar aqueste, | mas pose-lhe tal sinal por que quanto-lo pois vissem | leixassem de fazer mal; e dereit’ é que tal haja | que-na em pouco tever. 62 Quem a Deus e a sa madre | escarnho fazer quiser, muito será gram dereito | se lh’ ende pois mal ver. 58 R10 * * * 642 Cantigas de Santa Maria 319 «Quem-quer mui bem pod’ a Virgem groriosa» (E 319, F [58]) Esta é como Santa Maria guariu em Terena ũa manceba raviosa. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quenquer mui bem pod’ a | Virgem groriosa de door guarir, nom | será tam coitosa. Ca tam muitas graças | deu e piadades a ela seu filho | que enfermidades de muitas maneiras | tolh’; e bem creades que a que-na chama | nom é vagarosa. [Refrão = vv. 1-2] Porém quer’ eu dela | um miragr’ honrado dizer, se m’ oirdes; | e, poi-lo contado houver, saberedes | que faz mui guisado o que faz serviço_a | esta piadosa. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Riba d’ Odian’ há | ũa sa eigreja desta Virgem santa | que beita seja, que chamam Teren’; e | quenquer que deseja saúd’ em seu corpo | de door dultosa R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 que haja de rávia | ou doutra doença, logo dali são | vai pela sabença desta Virgem santa, | que nos atrevença dá que a sirvamos | come graciosa. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Além Badalhouce, | em Xerez, morava um home que muito | na Virgem fiava; e ũa sa filha, | a que muit’ amava, doeceu de rávia; | e foi tam raviosa R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 que a nom podiam | ter em prijões, nem valiam ervas | nem escantações, nem ainda santos | a que orações faziam por ela: | tant’ era queixosa. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Viviam em coita | com ela mui forte, nom haviam dela | já neum conorte nem sabiam que lhe | valvess’ ergo morte; seu padr’ era ’m coita, | sa madre chorosa R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 por ela, ca outro | filho nom haviam. Des i, prometerom | que a levariam 643 48 a Terena, ca já | per al nom sabiam que saúd’ houvesse. | E porém trigosa R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 foi desto sa madr’, e | levou-a correndo dali a Terena, | gram doo fazendo, e pela carreira | ind’ assi dizendo: “– Virgem, de Deus madre, | santa, preciosa, R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 sobr’ esta mià filha | mostra ta vertude, que a ta mercee | santa i ajude: fonte de bondades, | tu lhe dá saúde, ca mui be-na podes | dar, Virgem fremosa”. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 Foi a bõa dona | tanto demandando a Santa Maria | mercee, chorando muito dos seus olhos | que forom chegando preto da eigreja | da de Deus esposa. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 Tanto que a moça | que era doente viu [i] a eigreja, | logo mantente foi mui bem guarida; | e diss’ aa gente que a desliassem, | ca a merceosa R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 76 78 madre de Deus, Virgem, | saúde lhe dera tal que se sentia | que bem sãa era. A companha toda | gram lediça fera houve deste feito | e foi mui goiosa. R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 82 84 Ela diz: “– Amigos, | as sogas talhade, ca já sãa soom | pola piadade de Santa Maria; | ca da sa bondade, ao que a chama, | é muit’ avondosa”. R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 88 90 Seu padr’ e sa madre | gram prazer houverom quand’ a filha virom | sãa, e fezerom ali sa vegia, | e ofertas derom quanto s’ atreverom | aa saborosa R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI 96 que é de Deus madr’, e | muito a loarom; des i, a sa terra | com ela tornarom sãa e guarida,_e | da Virgem contarom que a sa mercee | nom é dovidosa. 98 Quenquer mui bem pod’ a | Virgem groriosa de door guarir, nom | será tam coitosa. 94 R16 644 Cantigas de Santa Maria 320 «Santa Maria leva» (E 320, F [40]) De loor de Santa Maria. R0 2 I 4 R1 6 II 8 R2 10 III 12 R3 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. O bem que perdeu Eva, | a nossa madr’ antiga. cobrou Santa Maria | u foi de Deus amiga. O bem que perdeu Eva | du perdeu paraíso, cobrou Santa Maria | pelo seu mui bom siso. 18 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. 22 VI 24 O bem que perdeu Eva | u perdeu de Deus medo, cobrou Santa Maria | creend’ em El mui cedo. Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. O bem que perdeu Eva | britand’ o mandamento, cobrou Santa Maria | per bom entendimento. 26 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. 28 Quanto bem perdeu Eva | fazendo gram folia, cobrou a groriosa | Virgem Santa Maria. 30 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. VII R7 O bem que perdeu Eva | pela sa gram loucura, cobrou Santa Maria | co-na sa gram cordura. 16 20 R6 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. V R5 O bem que perdeu Eva | pela sa neicidade, cobrou Santa Maria | per sa grand’ homildade. 14 IV R4 Santa Maria leva o bem que perdeu Eva. * * * 645 Cantigas de Santa Maria 321 «O que mui tarde ou nunca se pode por meezinha» (E 321, F [24]) via. Esta é como Santa Maria guareceu em Córdova ũa moça dũa grand’ enfermidade que haR0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 O que mui tarde ou nunca | se pode por meezinha sãar, em mui pouco tempo | guarec’ a santa reinha. Ca o que física manda | fazer, por haver saúde o enferm’ em grandes tempos, | sãa per sa gram vertude tantoste Santa Maria; | porém, se ela m’ ajude, vos direi um seu miragre | que fez em ũa meninha. [Refrão = vv. 1-2] Esta de Córdova | era natural, e padecia enfermedade mui forte | que na garganta havia, a que chamam «lamparões», | que é maa maloutia; e passara já três anos | que esta door tiinha. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Sa madre, com coita dela, | em tal que lha bem guarissem, nom catou de dar a meges | todo quanto lhe pedissem, nem a físicos da terra, | rogando-lhes que a vissem, e maravedis quinhentos | ou mais lhes deu a mesquinha. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Mais eles, por nulha cousa | que lhes désse, nom poderom sãá-la, nem prol lhes houve | quanta física fezerom, pero todo-los dinheiros | que ela lhes deu houverom, assi que a molher bõa | ficou ém co-na espinha. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V A molher, com esta coita, | nom sabia que fezesse, e do haver e da filha | que conselho i presesse. Mas entom um home bõo | conselhou-lhe que dissesse est’ al-rei e lha levasse, | ca pera el conviinha. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E disse-lh’: “– Ai molher bõa, | se Nostro Senhor m’ ajude, todo-los reis crischãos | ham aquesto por vertude: que, sol que ponham sas mãos | sobre tal door, saúde ham; e porém vos conselho | que sejades manhaninha 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII ant’ el-rei, e irei logo | vosco, se Deus me defenda de mal, e de vossa filha | lhe contarei a fazenda; e, des que lho houver dito, | bem sei, logo, sem contenda, que el-rei por sa mercee | vos acorrerá aginha”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 646 VIII 46 48 El foi al-rei e contou-lho; | e respôs-lh’ el-rei: “– Amigo, a esto que me dizedes | vos respond’ assi e digo: que o que me conselhades | sol nom val um mui mal figo, pero que falades muito | e toste com’ andorinha; R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca dizedes que vertude | hei, dizedes neicidade; mais fazed’ agora tanto: | eu direi, e vós calade, e levarei a meninha | ant’ a bela majestade da Virgem, que é envolta | ena púrpura sanguinha; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e, pois for a missa dita, | lave-na da água crara a ela e a seu filho, | todo o corp’ e a cara, e beva-o a meninha | do cález que sobr’ a ara está, u se faz o sángui | de Deus do vinho da vinha; 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI e beva-a tantos dias | quantas letras som achadas eno nome de Maria | escritas e feguradas; e, assi, no dia quinto | serám todas acabadas, e desta enfermidade | guarrá log’ a pastorinha”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Esto foi feit’; e a moça | a quatro dias guarida foi do braç’ e da garganta | pola senhor que dá vida aos que amam seu filho, | e tal saúde comprida houve sem bever sarope | nem haver banho de tinha. 74 O que mui tarde ou nunca | se pode por meezinha sãar, em mui pouco tempo | guarec’ a santa reinha. 70 R12 * * * 647 Cantigas de Santa Maria 322 «A Virgem, que de Deus madre ést’, e filha e criada» (E 322, F [25]) Como Santa Maria guariu um home em Évora que houvera de morrer dum osso que se lh’ atravessara na garganta. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A Virgem, que de Deus madre | ést’, e filha e criada, d’ acorrer os pecadores | sempr’ está aparelhada. Ca nos nom acorr’ em dia | sinaado nem em hora, mas sempr’ e em todo tempo | d’ acorrer nom nos demora, e punha em todas guisas | como nom fiquemos fora do reino de Deus, seu filho, | ond’ é reinha alçada; [Refrão = vv. 1-2] demais, sinaadamente | nas grandes enfermidades, de doores e de coitas | acorre com piadades. E de tal razom com’ esta | vos direi, se m’ ascuitades, um gram miragre que fezo | esta senhor muit’ honrada. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em Évora foi um home | que ena Virgem fiava muito e que cada dia | a ela s’ acomendava; e avo-lh’ ũa noite | em sa casa, u cava, que houver’ a seer morto | a desora, sem tardada. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca el gram comedor era | e metia os bocados muit’ ameúde na boca, | grandes e desmesurados; e aa noit’, [u] cava | dũus cõelhos assados, atravessou-xe-lh’ um osso | na garganta, e sarrada 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a houve de tal maneira | que cuidou ser afogado; ca aquel osso lh’ havia | o gorgomel’ atapado, assi que em pouca d’ hora | o houve tam fort’ inchado que fôlego nom podia | colher nem ar falar nada. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Assi esteve gram tempo | que sol comer nom podia nem bever neũa cousa | senom cald’ ou água fria, atá que chegou a festa | da Virgem Santa Maria que cae no mês d’ agosto, | quand’ ela foi corõada. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Entom todos seus parentes | e amigos o filharom e aa egreja desta | nobre senhor o levarom, e, tendo-o por morto, | ant’ o altar o deitarom. E tev’ i aquela noite; e contra a madurgada, 40 42 648 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII quand’ a missa já diziam, | filho’-o tosse tam forte que todos cuidarom logo | que era chegad’ a morte. Mas a Virgem groriosa, | que dos coitados conorte éste, nom quis que morresse | ali daquela vegada, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 mas guisou que, em tossindo, | lhe fez deitar mantenente aquel osso pela boca, | ante toda quanta gente i estava; e tantoste | loores de bõa mente derom a Santa Maria, | a madre de Deus amada. 56 A Virgem, que de Deus madre | ést’, e filha e criada, d’ acorrer os pecadores | sempr’ está aparelhada. 52 R9 * * * 649 Cantigas de Santa Maria 323 «Ontre toda-las vertudes que aa Virgem som dadas» (E 323, F [26]) Como Santa Maria ressucitou ũu meninho em Coira (ũa aldea que é preto de Sevilha). R0 2 I 4 6 Ontre toda-las vertudes | que aa Virgem som dadas, é de guardar bem as cousas | que lhe som acomendadas. Ca ela, que é guardada, | pode guardar, sem contenda, bem o que lh’ a guardar derem | e ter em sa comenda. E porend’ um gram miragre | direi, se Deus me defenda, que fez esta, que já outros | há feitos muitas vegadas. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Em Coira, cabo Sevilha, | foi este miragre feito no tempo que Abo-Iúcef | passou bem pelo estreito d’ Algizira e a terra | de Sevilha tod’ a eito correu, e muitas aldeas | forom dos mouros queimadas. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ali era um bom home | que um filhinho havia pequeno, que tant’ amava | com’ a vida que vivia; a este deu ũa féver | e foi mort’ a tercer dia. O padre, com coita dele, | em sas faces deu palmadas, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e depenou seus cabelos, | e fez por ele gram doo dizendo: “– Ai eu, meu filho, | como fico de ti soo!; quisera eu que tu visses | mim com’ eu vi teu avoo, meu padre, que me fazia | muitas mercees grãadas”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E el aquesto dizendo, | os mouros logo deitarom sas algaras, e correrom | e roubarom quant’ acharom; e os de Coira, correndo, | todo o logar leixarom e fugirom, e ficarom | as casas desamparadas. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Aquel home que seu filho | pera soterrar estava, quando viu correr a vila, | o filho desamparava, e aa Virgem beita | logo o acomendava e todo quant’ el havia, | chorando a saluçadas. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Fois-s’ o home; e os mouros | tod’ aquel logar correrom, mais na casa daquest’ home | nom entrarom nem tangerom; e pero todo-los outros | quant’ haviam i perderom, nom perdeu o home bõo | valor de três dinheiradas. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 650 VIII 46 48 Ca log’ em aquela casa | entrou a senhor comprida de todo bem, e tantoste | deu ao mininho vida, e guardou as outras cousas, | que nom achou pois falida home de rem em sa casa, | nem sol as portas britadas. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E achou seu filho vivo | e preguntou-lhe que era, ond’ e como resorgira, | ca por morto o tevera; e el lhe disse que ũa | dona com el estedera que o guardara dos mouros; | e sas cousas bem guardadas 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X foram, que sol nom tangeram | em elas, nem nium dano fezeram nem eno leito | nem na mesa nem no ’scano. Quand’ est’ oiu o bom home, | com’ era mui sem engano, foi chamar a seus vezinhos; | e, pois lhes houve mostradas 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 todas estas maravilhas, | loores porende derom aa Virgem groriosa; | e a quantos lho disserom beizerom o seu nome, | e gram festa lhe fezerom, e houv’ i com alegria | muitas lágrimas choradas. 68 Ontre toda-las vertudes | que aa Virgem som dadas, é de guardar bem as cousas | que lhe som acomendadas. 64 R11 * * * 651 Cantigas de Santa Maria 324 «A senhor que mui bem soube per sa língua responder» (E 324, F [23]) Esta é como Santa Maria guareceu na sa eigreja em Sevilha ũu mudo que havia dous anos que nom falara. R0 2 I 4 6 A senhor que mui bem soube | per sa língua responder a Gabriel, mui bem pode | língua muda correger. Daquest’ um mui gram miragre | vos direi, sem rem mentir, mui fremos’ e muit’ aposto, | e saboroso d’ oir, que mostrou Santa Maria, | aquela que foi parir Deus e home Jesu-Cristo, | que por nós quis pois morrer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Aquesto foi em Sevilha, | por quant’ end’ eu aprendi, dũa omagem mui bela | que trouxera el-rei i da Virgem Santa Maria, | que eu per meus olhos vi fazer mui grandes miragres | em enfermos guarecer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta era tam fremosa | e de tam bõa feiçom, que quenquer que a viía | folgava-lh’ o coraçom; e porend’ el-rei e todos | haviam gram devoçom em ela, e amiúd’ i | a iam porém veer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo pois na festa | do dia em que naceu esta Virgem groriosa | (que nos muito mal tolheu que o demo nos fazia, | e ena graça meteu de seu filho Jesu-Cristo, | que quis hom’ e Deus seer); 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V esse dia que vos digo | el-rei sa missa oiu na grand’ eigreja da see, | que se nunca ém partiu atá que foi toda dita; | mais o poblo lhe pediu que aquela sa omagem | lhes fezess’ ali trager. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E el-rei, com amor grande | que havia do logar (porque seu padr’ e sa madre | fezera i soterrar), outorgou-lhes a omagem, | que nom quis per rem tardar que lha nom trouxesse logo, | sem filhar neum lezer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E foi log’ a sa capela, | que se nom deteve rem, e levou-lhes a omagem | apostament’ e mui bem, com mui grandes procissões, | com’ a tal feito convém, loand’ a que é loada | e deve sempre seer. 40 42 652 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E tanto que a omagem | aa eigreja chegou, um mudo que dentr’ estava | per sinas empreguntou que er’; e, pois lho disserom, | a língua se lhe soltou faland’, e a Virgem santa | começou a beizer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Dous anos forom que nunca | falara el tal nem qual; mas o que primeiro disse | foi: “– Santa Maria, val, ca por ti sõo guarido, | ai senhor esperital”. E começou log’ as mãos | contra os ceos erger. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 El-rei e quantos i eram | derom porém gram loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor, porque a el e a todos | lhes mostrou atal amor que tam fremoso miragre | foi bem ant’ eles fazer. 62 A senhor que mui bem soube | per sa língua responder a Gabriel, mui bem pode | língua muda correger. 58 R10 * * * 653 Cantigas de Santa Maria 325 «Com dereit’ a Virgem santa há nom’ “Estrela do dia”» (E 325, F [104]) Como Santa Maria de Tudia sacou ũa manceba de cativo, que jazia em Tánjar. R0 2 I 4 6 Com dereit’ a Virgem santa | há nom’ «Estrela do dia», ca assi pelo mar grande | come pela terra guia. Ca a que nos abr’ os braços | e o inferno nos serra, tam bem faz pelo mar vias | come pela chãa terra; e quem aquesto nom cree, | maravilhosament’ erra e de Deus em neum tempo | perdom haver nom devia. R1 7-8 [Refrão = vv. 1]-2] II E de tal razom com’ esta | direi mui maravilhoso miragre que fez a Virgem, | e d’ oir mui saboroso; e quem parar i bem mentes | terrá-o por piadoso e haverá mais fiança | eno seu bem todavia. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Na terra d’ África houve, | em Tánjar, ũa cativa molher a que davam pa | cada dia muit’ esquiva com pouco pam e mui mao, | e mui mais morta ca viva era se lhe nom valvesse | a Virgem Santa Maria. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Aquesta natural era | do gram reino de Sevilha, dum logar em que miragres | faz a de Deus madr’ e filha, que Tudia é chamado; | e d’ oir a maravilha que avo deste feito | muito m’ ende prazeria. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Esta com outra cativa | jaziam em prijom forte dũa moura que o demo | filhou pera si em sorte, que enfermidade grande | adusse mui tost’ a morte; mais enante que morresse | amba-las chamar fazia. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E conselhou-lhes que fossem | mouras, e crischãidade leixassem, e fossem fora | daquela catividade, e lhes faria grand’ algo | e dar-lhes-ia herdade, e que com mouros mui ricos | a ambas casá-las-ia. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII [E] se fazer nom quisesse[m] | esto, logo nas cadas ambas metê-las faria | e dar-lhes tam g[ra]ndes pas que lhes nom ficassem sãos | coiros nem nervos nem vas; e, demais, sobre tod’ esto, | escabeçá-las faria. 40 42 654 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII A ũa disse, com medo, | que o faria de grado; mais a outra mui sanhuda | disse: “– Sol nom é pensado, ca mià alma e meu corpo | todo hei acomendado aa eigreja da madre | de Deus que é em Tudia”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX A moura com mui gram sanha | mandou-as log’ essa hora no cárcer deitar ontrambas; | mais aquela sem demora adormeceu, e a Virgem | lhe disse: “– Sal acá fora deste logar, e trei migo, | ca eu te porrei na via”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Pois a cativa esperta | foi, achou-s’ em um caminho ancho e chão, sem pedras, | e andou-o mui festinho, que pam nom comeu bocado | nem beveu água nem vinho, atá que preto de Silve | foi quando aluzecia. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E ascuitou ũa peça | e oiu falar os mouros que iam cavar as vinhas, | deles brancos, deles louros; e oiu mogir as vacas | e oiu bruiar os touros, e diss’: “– Em terra de Tánjar | me sõo, como soía”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII A pouco rato pois esto, | [v]iu gram peça de crischãos que iam veer sas vinhas, | todos sas lanças nas mãos; e entendeu que seus sonhos | nom forom falsos nem vãos, mais verdade mui certeira | qual com seus olhos viía. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E, pois entrou ena vila, | foi-se log’ aa eigreja da Virgem Santa Maria, | que é beita e seja, e viu estar ajuntada | i mui gram gente sobeja, e, de com’ o feito fora, | todo lhe-lo retraía. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV E eles grandes loores | derom logo da primeira aa Virgem groriosa, | madre de Deus verdadeira; mais o colar da cada | tolher per nulha maneira do colo nom lho poderom, | nem per nulha maestria. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Entom a molher lhes disse: | “– Eu sõo pobr’ e mesquinha, e se m’ alg’ a dar havedes | por Deus, dade-mi_o aginha, e ir-m’-ei pera Tudia, | a cas da santa reinha, que me sacou de cativo, | u mui coitada jazia”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Eles derom-lh’ alg’, e foi-se. | E logo que foi entrada em Tudia, na eigreja | da reinha corõada, caeu-lh’ o colar do colo, | que se nom deteve nada; 94 655 96 e o sancristám tantoste | a gram campãa tangia. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII 102 E quantos ali estavam | e este feito souberom, todos aa Virgem santa | porende loores derom; des i, aa molher bõa | porend[e] algo fezerom, e ela dend’ adeante | ena eigreja servia. 104 Com dereit’ a Virgem santa | há nom’ «Estrela do dia», ca assi pelo mar grande | come pela terra guia. 100 R17 * * * 656 Cantigas de Santa Maria 326 «A Santa Maria muito lh’ é greu» (E 326, F [27 bis]) Como Santa Maria de Tudia prendeu os ladrões que lhe furtarom as colmas. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A Santa Maria muito lh’ é greu de quem s’ atreve de furtá-lo seu. Ca a senhor que o atám bem dá nom há home razom de lhe furtar, nem de roubar-lh’ o seu nem lho filhar, ca, servindo-a bem, havê-lo-á. [Refrão = vv. 1-2] E daquesta razom vos contarei um gram miragre que fez ũa vez em Tudia esta senhor de prez, e daqueles que forom i o sei. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 A aqueste logar com devoçom vem i as gentes e som romeus por servir a nobre madre de Deus, e dam i todos mui grand’ ofreçom. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Onde foi que um home mui fiel desta senhor foi ali ofrecer sas colmas, de que podess’ haver a eigreja muita cera e mel. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 E que-na verdade saber quiser, saberá que as poserom ali derredor da eigreja,_e, com’ oí, guardava-as ũa pobre molher. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E ladrões ũa noit’ ant’ a luz furtaro-nas todas e forom-s’ ém, assi que nom envergonharom rem a ela ne-no que morreu na cruz. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 [O]utro dia, pois virom este mal, os do logar filharom-s’ a carpir, e log’ a Santa Maria pedir forom vingança deste feito tal. 657 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 E log’ um cavaleir’ ali chegou que de toda a terra arredor era jostiça, e, pois sabedor foi deste feito, buscá-los mandou. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E el meesmo nom foi i dedur em pos eles, buscando-os assaz, atá que os viu jazer como jaz o cõelho ascondud’ ou o mur. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] 60 E as colmas tĩíam atrás deitadas, e nom podiam, de pram, fogir com elas; entom manamám os prendeu, que nom atendeu a crás. 62 A Santa Maria muito lh’ é greu de quem s’ atreve de furtá-lo seu. X 58 R10 * * * 658 Cantigas de Santa Maria 327 «Porque bem Santa Maria» (E 327) Como Santa Maria guariu o crérigo que se lhe tornaram as pernas atrás porque fez ũus panos mores dum pano que furtou de sobe-lo altar. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Porque bem Santa Maria sabe os seus dões dar, muito per-faz gram folia quem lhe vai o seu furtar. Onde, se m’ oir quiserdes, | daquesto vos contarei um miragre mui fremoso | que fez a madre do rei Jesu-Crist’ em Odimira, | como vos ora direi, u ela fez ende muitos | outros em aquel logar. [Refrão = vv. 1-4] Mas este foi muit’ aposto | e feito com gram razom; ca ũa molher seu pano | foi dar em ofereçom a ũa eigreja sua, | feita des mui gram sazom, que está fora da vila, | assi com’ oí contar. [Refrão = vv. 1-4] Pouco mais ca ũa vara | o pan’ era, com’ oi, e era mui bem teçudo | e mui delgad’ outrossi; e porend’ a molher bõa | fora-o põer ali na eigreja, u o vissem | estar sobe-lo altar. [Refrão = vv. 1-4] Um crérigo da eigreja, | que o viu ali seer, creceu-lh’ ém tal cobiíça | que o foi log’ ém tolher, e levou-o a sa casa | e mandou ende fazer panos com que cobriss’ ende | o com que ia pecar. [Refrão = vv. 1-4] [E] pois que os houve feitos | e com eles se cobriu, deitava-s’ a dormir logo; | mais pero pouco dormiu, ca os calcanhares ambos | pelos lombos os sentiu que lh’ entrarom tam de rijo | que os nom pôd’ ém tirar. [Refrão = vv. 1-4] [E] com mui gram coita fera | que havia de door, braadou muit’ e dizendo: | “– Ai madre do Salvador, rogo-te que eu nom moira | assi, se t’ ém prazer for”. E do erro que fezera | filhou-s’ a mãefestar [Refrão = vv. 1-4] ante todos, e chorando | ar filhou-s’ a repentir, e dum gram pano de lenço | fez log’ o altar cobrir. E porende, meus amigos, | quem este miragr’ oir 659 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 66 68 nunca seja atrevudo | e-na Virgem desonrar. [Refrão = vv. 1-4] E, sobr’ esto, à eigreja | o levarom manamám, e todos por el rogarom | a senhor do bom talám; e ela guariu-o logo, | que nom prendeu i afám; porém todos começarom | o seu nome de loar. Porque bem Santa Maria sabe os seus dões dar, muito per-faz gram folia quem lhe vai o seu furtar. * * * 660 Cantigas de Santa Maria 328 «Sabor há Santa Maria, de que Deus por nós foi nado» (E 328) Esta é como Santa Maria filhou um logar pera si eno reino de Sevilha e fez que lhe chamassem «Santa Maria do Porto». R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Sabor há Santa Maria, | de que Deus por nós foi nado, que seu nome pelas terras | seja sempre nomeado. Ca se ela quer que seja | o seu nom’ e de seu filho nomeado pelo mundo, | desto nom me maravilho, e corrudo del Mafomet | e deitado em eixilho el e o diab’ antigo, | que o fez seu avogado. [Refrão = vv. 1-2] E desto mui gram miragre | a que éste madr’ e filha mostrou, e mui saboroso | d’ oir, a gram maravilha, preto de Xerez, que éste | eno reino de Sevilha, um logar que «Alcanate» | soía seer chamado. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este logar jaz em terra | mui bõa e mui viçosa de pam, de vinho, de carne | e de fruita saborosa e de pescad’ e de caça; | ca de todo deleitosa tant’ é que dedur seria | em um gram dia contado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca este logar é posto | ontr’ ambos e dous os mares: o grand’, e o que a terra | parte per muitos logares, que chamam «Mediterrano»; | des i, ambos e dous pares s’ ajuntam i com dous rios, | per que ést’ o log’ honrado: 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Guadalquivir é um deles, | que éste mui nobre rio em que entram muitas águas | e per que vem gram navio; o outro é Guadalete, | que corre de mui gram brio; e em cada um daquestes | há muito bõo pescado. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ond’ em este logar bõo | foi pousar ũa vegada el-rei Dom Afonso, quando | sa frota houv’ enviada, que Çalé britarom toda, | gram vila e muit’ honrada, e o haver que gãarom, | dedur seria osmado. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII El pousand’ em aquel log[o], | e sa frota enviando, e indo muitas vegadas | a Cádiz e ar tornando, e do que mester havia | a frota bem avondando, per que fosse mais aginha | aquel feit’ enderençado, 40 42 661 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII nom catou al senom quando | o alguazil mui sanhudo de Xerez a ele vo, | mouro mui ric’ e sisudo, dizendo: “– Senhor, com’ ousa | seer nulh’ hom’ atrevudo d’ Alcanate, u pousades, | haver-lh’ o nome cambiado 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e ar dizer-lh’ outro nome | (de que ham gram desconorto os mouros, porque lhe chamam | «Santa Maria d[o] Porto», de que vem a nós gram dano | e a vós fazem i torto)?; e atal feito com’ este | deve ser escarmentado”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X El-rei, quand’ oiu aquesto, | houve gram sanha provada, e mandou a sa jostiça | que logo, sem detardada, que pola host’ ascuita[n]do | de pousada em pousada andass’, e a quem oísse | tal nome, foss’ açoutado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Sobr’ esto muitos chrischãos | forom mui mal açoutados, e outros a paancadas | os costados bem britados, e ar outros das orelhas | porende forom fanados; e, per tod’ esto, nom pôde | aquel nom’ haver vedado; 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII ante, quanto mais punhava | e provava e queria de vedar aquele nome, | a gente mai-lo dizia; ca a Virgem groriosa, | reinha Santa Maria, queria que do seu nome | foss’ aquel logar chamado. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Ond’ el-rei em mui gram coita | era daquesto, sem falha, temendo que nom crecesse | sobr’ esto volt’ ou baralha ontre mouros e crischãos; | mais a Virgem, que trabalha por nós, tragia o preito | doutra guisa ordinhado. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Ca ao alguazil mouro | fezo logo que falasse com el-rei e por mercee | lhe pediss’ e lhe rogasse que aquel logar tam bõo | pera crischãos filhasse. El-rei, quand’ oiu aquesto, | foi ém mui ledo provado, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV ca entendeu bem que Cádiz | mais toste pobrad’ houvesse; mas, temendo que o mouro | por engano o fezesse, nom lhe quis responder nada | a cousa que lhe dissesse; ond’ o alguazil por esto | foi ém mui maravilhado, 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI e disso com’ em sanhudo | al-rei: “– Nom saia dest’ ano se esto que vos eu rogo | o faço por nulh’ engano, mas por meter paz na terra | e por desviar gram dano 94 662 96 que pode seer se este | feito nom for acabado”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII 102 E, demais, lhe deu com este | logar toda a ribeira doutras aldeas que eram | do gram mar todas na beira, Esto fez a Virgem santa, | a senhor dereitoreira, de cujo nome o mundo | será cho per meu grado. 104 Sabor há Santa Maria, | de que Deus por nós foi nado, que seu nome pelas terras | seja sempre nomeado. 100 R17 * * * 663 Cantigas de Santa Maria 329 «Muito per-é gram dereito de castigado seer» (E 329) Como Deus fez a um mouro que filhou a oferta do altar de Santa Maria que se nom mudasse do logar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito per-é gram dereito | de castigado seer quem s’ atrev’ ao da Virgem, | pera furtar, contanger. E com’ é hom’ atrevudo | de pensar nem comedir de furtar rem do da Virgem, | que faz os ceos abrir e dar-nos de Deus sa graça?: | tal é como quem cospir quer suso contra o ceo, | e vai-lhe na faz caer. [Refrão = vv. 1-2] [D]est’ um fremoso miragre | avo, com’ aprendi, em Tudia, na eigreja | da Virgem. E foi assi: que de mouros mui gram gente | verom correr ali tod’ enredor pela terra | e mui gram dano fazer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E com quant’ entom roubarom | forom bem ali pousar tod’ enredor da eigreja, | e do seu forom filhar mealhas d’ our’ e dinheiros | que poserom no altar a honra da Virgem santa, | de que Deus quiso nacer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca, segund’ lhes deu escrito | Mafomat no Alcorám, bem creem mouros, sem falha | (e desto dulta nom ham), que do Esperito Santo | s’ emprenhou, sem nulh’ afám prender, nem dan’ a sa carne, | e assi foi conceber 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V virgem; e des que foi prenhe, | ar pariu filho barom e depois ar ficou virgem, | e, demais, houve tal dom que sobre-los anjos todos | quantos eno ceo som a fezo Deus mais honrada, | e de todos mais valer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Onde, pero que os mouros | nom temam a nossa fé, tod’ esto da Virgem santa | tem [que] gram verdad’ é; e porend’ ali orarom | u a sa eigreja sé, e cada um do que teve | foi sobr’ o altar põer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quand’ aquest’ houverom feito, | logo se partirom ém; mas um mour’ avizimao, | atrevud’ e de mal sém, leixou ir os outros todos | e foi em mui gram desdém filhar quant’ oferecerom | e em sa bulsa meter. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 664 VIII 46 48 E, pois los houve filhados, | atám tost’ ir-se cuidou; mais, ante que aa porta | chegasse, cego tornou e perdeu todo o siso, | e tam irto se parou bem come madeiro duro, | que se nom pode mover. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Os outros seus companheiros | catarom-s’ a derredor e acharom este mos, | e houverom gram pavor de se [for] mort’ ou cativo; | e o alcaide maior mandou que buscá-lo fossem | e pera el o trager. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Eles a buscá-lo forom | e chegarom bem alá aa eigrej’, e um deles | lhes diss’: “– Entremos acá; ca mui toste os crischãos | o filharom, e está ascondudo na eigreja | pera, quand’ escurecer, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI o levarem”. E tantoste | entrarom, com’ apres’ hei, ena eigreja, e virom | estar aquele sem lei ceg’ e tal com’ ũa pedra. | Diz um deles: “– Que farei?: aquest’ hom’ está já morto | ou mui preto de morrer”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E um deles foi a ele | e falou-lh’ e o tangeu, mais aquel per nulha guisa | nom falou nem se moveu; outros ao altar forom, | e de quant’ ofereceu a companha que se fora, | nom vi[rom] i rem seer. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Entonce disserom todos: | “– Quiçai aqueste rapaz foi furtar a oferenda, | [por] que lhe Deus esto faz; e catemos se a trage | e tornemo-la em paz sobre-lo altar u ante | a forom of[e]recer”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Aquel mouro, que estava | mui mais negro que o pez, foi todo escodrunhado, | e logo aquela vez acharom-lh’ a oferenda, | e aa senhor de prez a derom outra vegada. | E aquel mouro s’ erger 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV 90 foi, e os olhos tantoste | se lh’ abrirom, e a luz viu polo prazer da madre | daquel que morreu na cruz. E o miragre sabudo | foi bem daqui atá Suz, e dos mouros os crischãos | o houverom de saber. 92 Muito per-é gram dereito | de castigado seer quem s’ atrev’ ao da Virgem, | pera furtar, contanger. 88 R15 * * * 665 Cantigas de Santa Maria 330 «Qual é a santivigada» (E 330) Esta é de loor de Santa Maria. I 2 R1 3 5 II 7 R2 8 12 Qual é a que sem mazela pariu e ficou donzela? 13 IV 17 18 Em qual per sa homildade s’ enserrou a Trĩidade? 20 22 Qual é a que sempre bõa foi e dos santos corõa? 23 25 Madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador. 27 Qual é a que per seu siso nos fez haver paraíso? VI R6 Madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador. Madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador. V R5 A qual diss’ Ave, Maria Gabriel e que seria 10 15 R4 Madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador. madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador? III R3 Qual é a santivigada ant’ e depois que foi nada? 28 30 Madre de Deus, Nostro Senhor, de Deus, Nostro Senhor, e madre de nosso salvador. * * * 666 Cantigas de Santa Maria 331 «Ena que Deus pôs vertude grand’ (e sempr’ em ela crece)» (E 331) Como Santa Maria de Rocamador [deu sãidade a ũa molher sandia]. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Ena que Deus pôs vertude | grand’ (e sempr’ em ela crece), poder há d’ enfermidades | sãar e toda sandece. Ca tant’ é a sa vertude | grande daquesta reinha que o que em ela cree | nom busc’ outra meezinha; que quant’ é o mal chus forte, | tanto o tol mais aginha, ca a cada door sabe | ela quant’ i pertece. [Refrão = vv. 1-2] Onde daquest’ um miragre | em Rocamador avo na sa igreja da Virgem, | onde tod’ o mund’ é cho de sas graças e mercees, | e que por nosso bem vo Jesu-Crist’ em ela carne | filhar, com que nos nodrece. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ũa molher houv’ um filho | que mui mais ca si amava, boinho dũus doz’ anos, | e sempre s’ em el catava em com’ era fremosinho, | e mil veze-lo beijava como madr’ a filho beija | com que muit’ afám padece, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e faagava-o tanto | quanto faagar podia. Mais o moç’ a pouco tempo | dũa gram féver morria; e o doo que por ele | entom sa madre fazia, e contar-vos de com’ era | grande, muito mi_avorrece. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E braadava mui forte, | depenando seus cabelos, des i os dedos das mãos | nom quedava de torcê-los, e outrossi a seus braços | nom leixava de metê-los, dizendo: “– Sem ti, meu filho, | este mundo m’ escurece”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E[n]quant’ a missa disserom, | sempre fez aqueste doo, dizendo: “– Sem ti mui soa | fico, e tu sem mi soo; e hoimais jarás so terra | bem como jaz teu avoo, e muit’ hei coraçom forte | que agora nom perece”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, pois a missa foi dita, | o meninho soterrarom, e a madre come morta | de sobr’ ele a tirarom; e bem assi seus parentes | a sa casa a levarom come a molher transida | que nium nembro nom mece. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 667 VIII 46 48 Assi jouv’ aquela noite; | outro dia madurgada foi veer u soterra[r]am | seu filho a malfadada [...] | achou e foi tam coitada que tornou porém sandia; ca muitas vezes contece R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX que, com gram coita, o siso | perdem os que mui coitados som. E assi fez aquesta | pelos seus maos pecados, assi que todo-los santos | eram já dela nojados andando dũus em outros. | Mas a que nunca falece, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Virgem santa groriosa, | houve dela piedade; e, pois foi ena sa casa | de Rocamador, verdade foi assi que atantoste | lhe deu logo sãidade: ca u chega sa vertude, | logo sem dulta guarece. 62 Ena que Deus pôs vertude | grand’ (e sempr’ em ela crece), poder há d’ enfermidades | sãar e toda sandece. 58 R10 * * * 668 Cantigas de Santa Maria 332 «Atám gram poder o fogo nom há, per rem, de queimar» (E 332) Esta é como em ũu mõesteiro em reino de Leom levantou-se fogo de noite, e mato’-o a omagem de Santa Maria co-no veo que tiinha na cabeça. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Atám gram poder o fogo | nom há, per rem, de queimar como há Santa Maria, | quandoquer, de o matar. Ca, macar grand’ elemento | foi Deus do fogo fazer, e de queimar toda cousa | lhe foi dar tam gram poder, maior o deu a sa madre, | de que Ele quis nacer, e pois ena carne dela | foi os infernos britar. [Refrão = vv. 1-2] Ond’ um mui maravil[hoso] | miragre vos contarei que avo em Carriço, | per com’ em verdad’ achei, um mõesteiro que éste | preto de Leom, e sei que o fez Santa Maria | por sa vertude mostrar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquel mõesteiro éste | desta órdim de Cistel, e há i ũa omagem | que tem seu filho, mui bel meninho, ontre seus braços, | e sé em um chapitel fremos’ e mui bem lavrado, | posto sobe-lo altar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV As donas daquel convento | todas mui gram devoçom ham em aquesta omagem, | e vam i de coraçom cada noit’ e cada dia | e fazem grand’ oraçom, e vem com sas candeas | por o log’ alumear. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Onde foi ũa vegada | que palha deitarom i muita na eigreja toda, | e era mester assi por gram frio que fazia, | e ar deitarom log’ i estadaes encendudos, | como soíam deitar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E um estadal daqueles | ũa monja encendeu ontr’ o altar e o coro, | e o fogo s’ aprendeu del aa palha, e logo | tam feramente correu a chama del que s’ houvera | ao altar a chegar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Mais a Virgem groriosa | nom quis esto consentir, nem quis que aquele fogo | podesse adeant’ ir; e porend’ a sa omagem | filhou logo, sem mentir, o veo da sa cabeça | e ant’ o fogo lançar 40 42 669 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII o foi; e depois o fogo | sol nom queimou nulha rem, ante foi tantoste morto | polo prazer da que tem em poder os elementos; | ca nem-um nom vai nem vem senom quanto o seu filho | quer em eles ordinhar, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX que ordinhou que o veo | delgado mais ca cendal podess’ amatar o fogo | e nom sofrer que mais mal fezesse do que fezera, | por vertud’ esperital da Virgem, ond’ a omagem | havia o semelhar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Entonce a sancreschãa, | que dormia, s’ espertou e, pera tanger os sinos, | duas consigo levou monjas e aa eigreja | foi; e, pois que dentr’ entrou, viu tod’ esto que já dixe | e foi-o logo contar 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI ao convent’ u durmia, | e disse: “– Por esto vim: por vos mostrar gram miragre | que ora conteu a mim; e sei que, poi-lo oirdes, | diredes, par Sam Martim, que doutro maior daqueste | nunca oístes falar”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Log’ entom a abadessa, | que era bõa molher, foi alá, e o convento | ar foi i mui volonter; e pois virom o miragre, | disserom: “– Muit’ é mester que dest’ a Santa Maria | sabiamos loores dar”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 Entom começarom tod[a]s | cantando a dar loor aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor; e pois deitarom-s’ a prezes | cab’ o altar enredor, rezando per seus salteiros | quanto podiam rezar. 80 Atám gram poder o fogo | nom há, per rem, de queimar como há Santa Maria, | quandoquer, de o matar. 76 R13 * * * 670 Cantigas de Santa Maria 333 «Conhoçudamente mostra miragres Santa Maria» (E 333) Como Santa Maria de Terena guariu ũu home contreito que andava em carreta mais havia de XV anos. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Conhoçudamente mostra | miragres Santa Maria em aqueles que a chamam | de coraçom noit’ e dia. Ca por esto quis Deus dela | nacer: que dos pecadores foss’ ant’ El por avogada; | des i, que todas doores guariss’, e enfermidades. | E daquesto sabedores somos: que sobre-los santos | todos há tal melhoria. [Refrão = vv. 1-2] E porém vos direi ora | um miragre que há feito em Terena esta Virgem, | madre do filho beito, em um mesquinho que era | de todos nembros contreito si que em carret’ andava | mais de quinz’ anos havia. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este tiinha os braços | tortos atrás, e as mãos tortas assi e os dedos, | e os pees nom bem sãos, ca eram outrossi tortos | atrás; e esto crischãos virom e judeus e mouros: | daquest’ enquisa dari’. A 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV muitos santo-lo trouxerom | u Deus miragres mostrava grandes; mais nom lhe valia | nada, ca Deus o guardava pera a sa madre Virgem | que o gu[ari]ss’; e rogava el sempre a groriosa | que daquela malautia 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V lhe désse por sa bondade | saúd’. E assi andado [já] houve per muitas terras, | assi que houve chegado a Terena, u a Virgem | fez muito miragr’ honrado, ca ela é dos coitados | esforço e luz e via. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Pois que foi ena eigreja | da senhor de bem comprida, fez fazer candeas logo, | que sa oraçom oída foss’, e diss’: “– Ai Virgem madre, | se algũa vez servida fuste de mi algum tempo, | val, ca mester me seria”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII [C]horou muito dos seus olhos | aquela noite, jazendo na eigreja sa carreta, | e no coraçom gemendo feramente seus pecados | e sa oraçom fazendo aa Virgem groriosa | o melhor que el podia. 40 42 671 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII As gentes que o viíam | assi tolheit’ e perdudo, maravilhavam-se dele; | mais quise Deus que sabudo foss’ ante que fosse são, | e de todos i veúdo, por que foss’ este miragre | mais provado todavia. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Jazend’ assi na eigreja | sempre gemend’ e chorando, a Virgem Santa Maria | e de coraçom rogando que lh’ houvesse piadade, | foi-se-lh’ o temp’ alongando, que nom [pud’] haver saúde | tam toste com’ el queria. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Ca des Páscoa i jouve | assi como vos eu digo atá setembro meado | a conselh’ e a abrigo da Virgem Santa Maria; | e, el jazend’ i mendigo, ũa noite, de sa terra | foi i mui gram romaria. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Aquela noite fezerom | vegia grand’ e honrada; mais, que fez a Virgem santa, | dos pecadores vogada? De noit’ a aquel mesquinho | foi e log’ essa vegada pôs as sas mãos mui toste | ali per u mal sentia. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Des i estirou-lh’ os nembros | todos, e per sa vertude foi tantost’ o corpo todo | guarid’ e houve saúde, ca xe sol ela de taes | feitos fazer ameúde; e ergeu-s’ o home logo | da carre[t]a u jazia, 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 loando a groriosa. | E as gentes s’ espertarom todos [a] aquestas vozes; | e, poi-lo são [acha]rom, a Virgem Santa Maria | mui de coraçom loarom, porque tam apost’ acorre | a quem por ela confia. 80 Conhoçudamente mostra | miragres Santa Maria em aqueles que a chamam | de coraçom noit’ e dia. 76 R13 * * * 672 Cantigas de Santa Maria 334 «De resorgir home morto deu Nostro Senhor poder» (E 334) Como Santa Maria de Terena resorgiu ũu home que morrera de sandece e torno’-o são. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 De resorgir home morto | deu Nostro Senhor poder a sa madr’, e toda cousa | guardar de se nom perder. E desto fez em Terena, | ond’ haveredes sabor, um miragr’ a Virgem santa, | madre de Nostro Senhor, que hou[v]’ ũa vez guarido | um mancebo lavrador dum mui gram mal que ha[via], | que lhe fezeram fazer. [Refrão = vv. 1-2] Este, per quant’ hei apreso, | em Aroches gram sazom morou com um bõo home, | que el mui de coraçom servia muit’ e amava; | e, po-lo guardar entom de mort’, houv’ em si filhado | tal mal ond’ houv’ a morrer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Daquesto dizer-vos quero | assi como conteceu. Bartolomeu a aqueste | chamavam, e doeceu; des i, o home, seu amo, | pesou-lh’ ém muit’, e prendeu seus bois com que lavrar fosse, | pois viu que se nom erger 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV seu mancebo nom podia; | e porende o leixou, e que mui bem del pensassem | a sa companha mandou. E sa molher com maldade | entom vinho temperou com ervas, como o désse | a seu marid’ a bever. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E diss[e] ao mancebo: | “– Se ora podess[es] ir ao agro a teu amo, | punharei em cho gracir, e levasses-lh’ este vinho, | podes el e mi servir muit’; e sei ora com ele, | por Deus, ante [de] comer; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e dar-lh’-ás aqueste vinho, | e fas como te direi: nom bevas [ém] nemigalha, | e vem-t’ e eu te darei algo, se esto fezeres, | e, demais, gracir-cho-ei, e a mi e a teu amo | farás ora gram prazer”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII O mancebo_oiu aquesto | e foi logo sospeitar que no vinho mal havia, | e diz: “– Pero me mandar foi mià ama que lho désse | a meu am’, ant’ eu provar o quero”. E, pois, provou-o, | e foi log’ ensandecer. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 673 VIII 46 48 E assi andou um ano | tolheit’ e fora de sém que siíra nom havia. | E seus parentes porém levaro-no a Terena, | que long’ é de Santarém; e, indo pela carreira, | houve morte de prender. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E atal morto com’ era | levaro-no bem assi dereitament’ a Terena | e posero-no log’ i ant’ o altar da mui nobre | Virgem; e, com’ aprendi, resorgiu e foi [bem] são | como soía seer. 56 De resorgir home morto | deu Nostro Senhor poder a sa madr’, e toda cousa | guardar de se nom perder. 52 R9 * * * 674 Cantigas de Santa Maria 335 «Com’ em si naturalmente a Virgem há piadade» (E 335, F [103]) Como Santa Maria converteu um gentil que adorava os ídolos, porque havia em si piadade e fazia caridade aos pobres. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Com’ em si naturalmente | a Virgem há piadade, assi naturalment’ ama | os em que há caridade. Em amar os que bem fazem | Deus, [eu] nom me maravilho, pois aquel que é bondade | comprida se fez seu Filho, que fez os montes mui grandes | e fez o grão do milho, por mostrar em nós sas obras | quaes som e sa bondade. [Refrão = vv. 1-2] E por dar a cada ũu | segundo o que merece, fez todo quanto veemos | e o al que nom parece; e o que nom cree esto | muito per-faz gram sandece e que a cabeça toda | tem cha de vãidade. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E de tal razom com’ esta | mostrarom gram maravilha Jesu-Cristo e a Virgem | (que é sa madr’ e sa filha) eno tempo dos gentiis | a um home em Cezilha, que rico e avondado | era d’ haver e d’ herdade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, pero que gentil era | e que em Deus nom criía, dava de grad’ aos pobres | o mais do que el havia. Esto muit’ a Jesu-Cristo | prougu’ e a Santa Maria, e a provar o verom | por saber ém mais verdade. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Onde foi que aquel home, | bõo e sem tod’ engano, quanto de comer havia | dera em um mao ano e caro todo a pobres, | que nom catou prol nem dano que lh’ ende porém vesse. | Mais a que por homildade 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI soube de Deus seer madre | apareceu-lh’ em figura de molher com filh’ em braço | com mui pobre vestidura, e disse-lh’: “– Ai home bõo, | pera esta creatura, por Deus, dade-lhe que cômia, | e a nós mentes parade 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII com’ andamos lazerados | com est’ ano tam minguado”. Respondeu-lh’ o home bõo: | “– Esto faria de grado; mais todo quanto tĩía, | a pobre-lo hei já dado”. Diss’ entom a molher bõa: | “– Vel da farinha me dade, 40 42 675 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII de que papelinhas faça | que dé a este meninho, que me nom moira de fame, | ca nom peço pam nem vinho”. O home bõo, com doo | dela, ergeu-se festinho e filhou-a pela mão | e disse-lh’: “– Acá entrade, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e irei catar as arcas | se me ficou i farinha”. E achou ende mui pouca | e filhou-a muit’ aginha em sas mãos, e foi logo | dereito aa cozinha e diss’ entom a seus homes: | “– Da água me caentade”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Eles fezero-no logo; | e, des que foi bem caente, filhou-s’ aquel home bõo | e nom quis outro sergente, mas el per si fez as papas | mui bem e apostamente e levou-as em sa mão | de mui bõa voontade. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E a bõa molher logo | foi catar u a leixara, pera dar-lh’ aquelas papas | que a seu filh’ adubara e achar sol no-na pôde, | e cuidou que se mudara por pedir a outras portas, | e diss’ aos seus: “– Buscade 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII ũa molher com seu filho, | que agor’ aqui estava”. Eles se partirom logo, | e cada um a buscava quanto mais buscar podia, | mais neũm no-na achava. Entom s’ acordarom todos | que faziam neicidade 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII buscar o que nom podiam | achar, per nulha maneira; entom tornarom a ele | e disserom: “– Verdadeiramente nom ficou na vila | rua nem cal nem carreira que buscada nom hajamos: | sem dúvida end’ estade”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Pois que lh’ aquesto disserom, | a sa casa deu tornada e achou-a toda cha | de triíg’ e de cevada, e as arcas de farinha | chas, e tam avondada que avondar poderia | a todo-los da cidade. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Entom aquel bõo home | seve gram peça cuidando de como viu este feito, | e muito mentes parando; e fez chamar os gentiles | e esteve-lhes rogando muito que daquesta cousa | lhe dessem certãidade: 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI se podi’ haver ontr’ eles | algũa tal deoessa que filh’ em braço trouxesse, | ou que nom’ havia essa, que lh’ a verdade dissessem, | e fezo-lhes gram promessa. E eles lhe responderom: | “– Atal, alhur a catade”. 94 96 676 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Quando lh’ est’ houverom dito, | el foi log’ aos crischãos e mostrou-lhes este feito | e disse-lhes: “– Ai irmãos, se há ontre vós omagem | que nom ham estes pagãos, de molher com filh’ em braço, | de dúvida m’ ém sacade”. 100 102 R17 103-4 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 Eles disserom: “– Havemos | a Virgem mui groriosa, que de Deus foi madr’ e filha, | e criada e esposa, e pariu e ficou virgem, | cousa mui maravilhosa”. Entom diss’ o gentil logo: | “– A omagem m’ amostrade”. 108 R18 109-0 [Refrão = vv. 1-2] XIX Eles log’ aa eigreja | muit’ aginha o levarom e a omagem da Virgem, | madre de Deus, lh’ amostrarom, com seu meninho em braços, | e o feito lhe contarom de seu filho Jesu-Cristo, | hom’ e Deus em Trĩidade. 112 114 R19 115-6 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 Quand’ o gentil oiu esto, | rogou que o batiçassem, e esto foi logo feito; | e ar rogou que rogassem a Virgem e a seu filho, | e consigo o levassem, quando do mundo saísse, | aa santa craridade. 121-122 [Refrão = vv. 1-2] 118 R20 XXI 126 E deste miragre todos | derom mui grandes loores aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores, que mostra grandes miragres | sempre aos pecadores, por fazer que sejam bõos | e se partam de maldade. 128 Com’ em si naturalmente | a Virgem há piadade, assi naturalment’ ama | os em que há caridade. 124 R21 * * * 677 Cantigas de Santa Maria 336 «Bem como punha o demo em fazer-nos que erremos» (E 336, F [101]) Esta é como um cavaleiro que era mui luxurioso, per rogo que fezo a Santa Maria houve cambiada a natura que sol depois nunca por tal preito catou. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Bem como punha o demo | em fazer-nos que erremos, outrossi a Virgem punha | como nos d’ errar guardemos. Ca assi com’ ele sempre | anda buscando carreiras pera mal fazer no mundo, | falsas e mui mentireiras, assi ar busca a Virgem | santas e mui verdadeiras, por que mercee hajamos | de Deus, que sempr’ atendemos. [Refrão = vv. 1-2] E daquest’ um gram miragre | que oí, dizer-vos quero, que fezo ũa vegada | maravilhos’ e mui fero a Virgem mui groriosa, | de que gram mercee ’spero; e se bem nos ascuitardes, | de grado vo-lo diremos. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esto foi dum cavaleiro | que de coraçom amava a esta mui groriosa | e que sempre a loava quant’ el mais loar podia, | e por seu amor ar dava a pobres e a mesquinhos; | esto de certo sabemos. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Este cavaleiro era | grand’ e apost’ e fremoso, mans[o] e de bom talante, | sem orgulh’ e homildoso e mesurad’ em seus feitos, | pero tam luxurioso era que mais nom podia | seer, per quant’ aprendemos. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Pero quando lhe nembrava | a senhor de bem comprida, quedava-lh’ aquela coita | e era de bõa vida; mais depois lh’ escaecia, | como home que s’ obrida e que nom é em seu siso | (e de taes conhocemos). 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI El aquest’ assi fazendo | e co-no demo luitando, nom estand’ em um estado, | mais caend’ e levantando, viu em visom a reinha | dos ceos, e el chorando lhe disse: “– Senhor, mercee, | ca em ti a acharemos 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII cada que fezermos erro; | porend’ a ta santidade rogo que m’ hajas mercee | e pola ta piadade nom cates a como sõo | mui comprido de maldade, eu e os mais deste mundo, | por pecados que fazemos”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 678 VIII 46 48 Entom a Virgem mui santa | cato’-o come sanhuda e disse-lh’: “– A esperança | que hás em mi é perduda se daquesto que tu fazes | teu coraçom nom se muda e nom leixas aquel erro | que nós muit’ avorrecemos”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Entom diss’ o cavaleiro: | “– Mià senhor, eu sõo vosso, e a vós per nulha guisa | mentir nom devo nem posso; mais est’ erro per natura | bem des Adám é-xe nosso, de que nom seremos sãos | se per vós nom guarecemos”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Entom respondeu a Virgem | mui comprida de mesura: “– Porque teu bem conhocemos | e entendes ta loucura, eu farei que o meu filho | te cambiará a natura que já mais esto nom faças, | ca desto poder havemos”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Entom foi-s’ a Virgem santa; | e logo em outro dia por poder da groriosa | beita Santa Maria o cavaleiro que ante | com gram luxúri’ ardia tornou mais frio ca neve: | nos miragre-lo leemos. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E viveu depois sa vida, | quamanha Deus quis e quanta, mui bõa, assi com’ home | que sempr’ em seu bem avanta, por prazer da groriosa, | que ao demo quebranta, a que sempre pecadores | porende loores demos. 74 Bem como punha o demo | em fazer-nos que erremos, outrossi a Virgem punha | como nos d’ errar guardemos. 70 R12 * * * 679 Cantigas de Santa Maria 337 «Tam gram poder há a Virgem aos da terra guardar» (E 337, F [102]) Como Santa Maria guareceu um moço, filho dum home bõo, que nom morresse quando caeu com um cavalo de cima dũa ponte muit’ alta. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Tam gram poder há a Virgem | aos da terra guardar de mal, come aos outros | que nunca passarom mar. E daquest’ um gram miragre | direi, onde devoçom haveredes poi-l’ oirdes, | que conteu a um barom que a Ultramar queria | ir, e foi i em visom, e vira i muitas cousas, | mais foro-no espertar. [Refrão = vv. 1-2] E colheu tal antolhança | po-lo fazer entender que com todos contendia; | e, macar lh’ iam dizer que ém bem se soltaria, | nom lho queria creer, ant’ ia travar em muitos, | e dos panos lhes tirar, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III assi que lhe-los tolhia, | segundo que aprendi. E esta door havia | tam forte, creed’ a mi, que toda rem que achasse | entom arredor de si travava dela de grado, | e depois a braadar 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV se filhava mui de rijo, | segundo aprendi eu. E este barom havia | um meninho filho seu que mui mais ca si amava; | porend’ um dia lhe deu um seu caval’ em que fosse, | po-lo mais apessõar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, ind’ em aquel cavalo, | houv’ assi de contecer: que dũa muit’ alta ponte | foi o meninho caer e o cavalo com ele, | e houverom de morrer. Mais o padr’ abriu a boca | e a Virgem foi chamar, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI dizend’ a mui grandes vozes: | “– Val-me, reinha, senhor!”. Entom a Virgem beita, | que seu filho salvador tiinha ontre seus braços, | houve da voz tal pavor como quando rei Herodes | lhe quis seu filho matar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E mandou a esses santos | que o fossem acorrer que i estavam, e ela | foi o seu filh’ asconder com medo daquel braado, | que o nom podess’ haver 40 680 42 rei Herodes, e porende | foi logo passar o mar: R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 desta guisa com seu filho | fugiu a Jerusalém a Virgem Santa Maria. | E guariu acá mui bem o meninh’ e o cavalo, | que se nom ferirom rem; e o padr’ a boc’ aberta | filhou-se Deus a loar. 50 Tam gram poder há a Virgem | aos da terra guardar de mal, come aos outros | que nunca passarom mar. 52 Assi soub’ a groriosa | co-no seu filh’ escapar da boca de rei Herodes, | que lho queria tragar. 46 R8 F * * * 681 Cantigas de Santa Maria 338 «Muitos que, pelos pecados que fazem, perdem o lume» (E 338) Como Santa Maria guareceu na cidade de Évora um home que era cego. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muitos que, pelos pecados | que fazem, perdem o lume, guarece Santa Maria, | ca atal é seu costume. Desto direi um miragre | que fezo a Virgem santa, madre de Deus groriosa, | que nos faz mercee tanta que nos dá saúd’ e siso | e ao demo quebranta, que nos quer ao inferno | levar, em que nos afume. [Refrão = vv. 1-2] Um home bõo havia | em Évora na cidade que havia seu mancebo, | per com’ aprix em verdade, que lhe fazia serviço | lavrando-lhe sa herdade, e a que muitas vegadas | dizia: “– Vai e adu-me R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 tal ou tal cous’”; e el logo | mui de grado o fazia. E porend’ o home bõo | atám gram bem lhe queria que a mais de sa fazenda | toda per ele tragia, ca nom lhe fazia cousa | de que houvesse queixume. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Onde lh’ avo um dia | a aquel manceb’ andando com seus bois ena arada | e mui de grado lavrando, que cegou dambo-los olhos, | e forom-se-lh’ apertando como se fossem apresos | com visco ou com betume. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Tantost’ os que com el eram | pelas mão-lo filharom e a casa de seu amo | adestrado o levarom; e, poi-lo viu tam maltreito, | el e os outros chorarom, dizendo: “– Rei Jesu-Cristo, | tu que em Jordám, no frume, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 Senhor, fuste batiçado, | fas que aquest’ home veja”. Pois bem a cabo do ano | forom aa grand’ eigreja que é de Santa Maria, | u gram vertude sobeja mostra de sãar enfermos, | ond’ ham feit’ um gram volume. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 Ena eigrej’ aquel dia | ardiam muitas candeas que faziam chama crara | sem fumo, nom come teas; entom viu aquel mancebo | e diz: “– Nom som estas feas”. E jurou que em tal dia | nom comess’ erga legume. 44 Muitos que pelos pecados | que fazem, perdem o lume guarece Santa Maria, | ca atal é seu costume. 40 R7 * * * 682 Cantigas de Santa Maria 339 «Em quantas guisas os seus acorrer» (E 339, F [100]) Esta é como Santa Maria guardou ũa nave que nom perigoasse no mar, que ia de Cartagena a Alicante. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Em quantas guisas os seus acorrer sab’ a Virgem, nom se podem dizer. Ca acorr’ em coita e em pesar e em door a que-na vai chamar, e acorre nas tormentas do mar; ond’ um miragre quero retraer. [Refrão = vv. 1-2] No reino de Murça um logar é mui forte e mui nobre e que sé sobe-lo mar, e jur’ em bõa fé que muit’ adur pod’ hom’ atal veer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este logar Alecante nom’ há, e homes per mar muitos vam alá e per terra, ca em logar está d’ as gentes muit’ i de sa prol fazer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Porend’ em Cartagena se partiu ũa nave (e eu vi que-na viu); e, ind’ alá, pelo fondo s’ abriu assi que muita d’ água foi colher. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Os que na nave iam log’ entom aos santos fezerom oraçom; mais um home bõo lhes disse: “– Nom há i quem nos possa tanto valer 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI como a Virgem, que madr’ é de Deus, que sempr’ ajuda e acorr’ os seus; e porend’ ora, ai amigos meus, mercee lhe peçamos sem lezer”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E eles o fezerom log’ assi, e pois catarom a nave des i per u entrava a água, e i forom todos, por conselh’ i põer. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 683 VIII 46 48 E o conselho deles foi atal: que sacassem, e nom fezessem al, a água da nave. Mais a que val aos coitados lhes foi i valer: R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca, per u a nave se foi abrir, foi i três peixes entom enxerir, assi que nom pôd’ entrar nem sair água per i pois nem empeecer. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Aos da nave foi entom gram bem quand’ esto virom, e derom porém graças a aquela que nos mantém; des i, forom logo porto prender 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI em Alecant’. E logo que chegou a nav’, o maestre dela catou per u entrara a águ’ e achou três peixes engastõados jazer 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII na nave, que nom há tam sabedor maestre nem tam calafetador que podesse calafetar melhor per cousa que i podesse meter. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Entom o maestr’ os peixes prendeu, e os dous que eram mortos comeu; e o que ficara vivo tendeu ant’ o altar, po-lo todos veer, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 na eigreja da madre do gram rei, que fez muitos miragres, com’ eu sei, por que a loo sempr’ e loarei enquant’ em aqueste mundo viver. 86 Em quantas guisas os seus acorrer sab’ a Virgem, nom se podem dizer. 82 R14 * * * 684 Cantigas de Santa Maria 340 = 412 «Virgem madre groriosa» (E 340, E (FSM) 2) Esta é de loor de Santa Maria. I 1 3 5 7 9 II 10 12 14 16 18 III 19 21 23 25 27 IV 28 30 32 34 36 V 37 Tu és alva dos alvores, que faze-los pecadores que vejam os seus errores e conhoscam sa folia, que desvia d’ haver hom’ o que devia, que perdeu por sa loucura Eva, que tu, Virgem pura, cobraste, por que és alva. Tu és alva dos mesquinhos, que nom errem os caminhos, a grandes e pequeninhos; ca tu lhes mostras a via per que ia o teu filho todavia, que nos sacou da escura carreira maa e dura per ti, que és nossa alva. Tu és alva dos culpados, que cegos por seus pecados eram; mais alumeados som per ti, Santa Maria. Quem diria nem quem contar poderia teu bem e ta gram mesura? Ca sempre em ti atura Deus a luz, ond’ és tu alva. 45 Tu és alva per que visto foi o sol, que éste Cristo, que o mund’ houve conquisto e sacado du jazia e jaria, e de que nom sairia; mais Deus por ti da altura quis de ti, sa creatura, nacer, e fez de ti alva. 46 Tu és alva dos que creem 39 41 43 VI Virgem madre groriosa, de Deus filha e esposa, santa, nobre, preciosa, quem te loar saberia ou podia? Ca Deus, que é lum’ e dia, segund’ a nossa natura nom víramos sa figura senom por ti, que fust’ alva. 685 48 50 52 54 VII 55 57 59 61 63 e lume dos que nom veem a Deus, e que por mal teem o bem per sa bavequia d’ heresia, que é maa ousadia, e Deus nom há destes cura; mais pela ta gram cordura lhes dás lume come alva. Tu és alva que pareces ante Deus, e escrareces os ceos, e que mereces d’ haveres sa companhia. E querria-t’ eu ver com El, ca seria quito de maa ventura e metudo na folgura u és com Deus, ond’ és alva. * * * 686 Cantigas de Santa Maria 341 «Com’ há gram pesar a Virgem dos que gram pecado fazem» (E 341) Como Santa Maria do Poi salvou ũa dona d’ erro que lh’ apoinha seu marido. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Com’ há gram pesar a Virgem | dos que gram pecado fazem, outrossi em salvar punha | os que em torto nom jazem. Desto direi um miragre | que em terra de Gasconha fez a Virgem groriosa, | que sobre nós mão ponha, porque ao gram joízo | nom vaamos com vergonha ant’ aquel que as maldades | e os erros se desfazem. [Refrão = vv. 1-2] Ali foi um cavaleiro | grand’ e apost’ e fremoso e emparentado muito | e rico e poderoso; mais casou com ũa dona, | e foi dela tam ceoso como se fezesse torto | em que outras muitas jazem. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em coidando que lh’ errara, | dava-lhe mui maa vida, e muitas vezes maltreita | era del e mal ferida; e, de comer, pouc’ havia; | ar andava mal vestida: ca molheres com maridos | ceosos tal vida fazem. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV A dona maravilhada | foi desto que lhe fazia, e mui coitada, chorando, | com ele falou um dia e disse-lh’ assi: “– Marido, | de grado saber querria de vós se ham d’ haver pa | os que em torto nom jazem”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Diz el: “– Porque mi_o dizedes?” | Diss’ ela: “– Porque vos vejo andar contra mi sanhudo, | de que hei medo sobejo; e de saber porque éste, | rem tam muito nom desejo; e os que me mezcram vosco, | par Deus, mui gram torto fazem”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Disse-lh’ el: “– A mim disserom | que me fazedes [gram] torto, e tam gram pesar hei ende | que querria seer morto; ca de tal cousa com’ esta | nom poss’ eu haver conorto, e maa ventura venha | a quantos em esto jazem”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Diss’ ela: “– Já Deus nom queira | que [eu] em tal torto jaça, e nom há no mundo salva | que eu sobr’ esto nom faça; e sequer em um gram fogo | em meo daquela praça me meterei, ca nom sõo | daquelas que est[o] fazem”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Diss: ele: “– Par Deus, no fogo | nom quero que vos que[i]medes, mais em aquel altar santo | do Poi quero que juredes 46 687 48 que torto nom me fezestes, | e ar quero que saltedes de cima daquela pena | com esses que juso jazem”. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Diss’ ela: “– De mui bom grado | farei o que me mandades, em tal que maa sospeita | per rem de mi nom hajades”. E pera o Poi se forom, | e de certo bem sabiades que forom i grandes gent[e]s | come enas festas fazem. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, pois disserom a missa, | sobr’ o altar pôs as mãos, jurando que nom lh’ errara | pela lee dos crischãos [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ãos] [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . jazem] 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Des que aquest’ houve dito, | log’ ante toda a gente sobiu encima da pena, | correndo_esforçadamente, e diss’ a mui grandes vozes: | “– Madre daquel que nom mente, val-me, ca tu sempre vales | aos que torto nom fazem”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Pois sa razom acabada | houv’, em um brial bem feito ficou, sem nulh’ outro pano, | e catou e viu o jeito muit’ alt’ e muit’ espantoso; | mais pavor per nium preito nom houve, com’ ham aquelas | que em culpa mortal jazem. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E leixou-se caer logo | sem niũa detença, havendo_em Santa Maria, | que é verdade, creença, que quis que as cousas duras | lhe fezessem reverença em lhe seer saborosas | bem come as moles fazem. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Assi que nom foi ferida | nem em pee nem em mão nem em nium outro nembro, | ant’ houv’ o corpo bem são; e o logar, que esquivo | era, tornou-se-lhe chão, pero o logar é duro | e muitas pedras i jazem. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV O marido, pois viu esto, | perdeu todos seus antolhos e foi mui corrend’ ant’ ela | logo ficar os golhos e disse-lh’: “– Ai santa dona”, | –muito chorando dos olhos– “perdõa-me, ca perdõa | Deus aos que erro fazem”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI 96 Ela perdõou-lhe logo, | e derom todos loores aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores; e tantoste o miragre | meterom ontr’ os maiores miragres eno gram livro | em que outros muitos jazem. 98 Com’ há gram pesar a Virgem | dos que gram pecado fazem, outrossi em salvar punha | os que em torto nom jazem. 94 R16 688 Cantigas de Santa Maria 342 «Com razom nas creaturas figura pode mostrar» (E 342) Como Santa Maria fez parecer a sa omage dontre ũas pedras mármores que asserravam em Costantinopla. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Com razom nas creaturas | figura pode mostrar Deus de si ou de sa madre, | pois El as quis fegurar. Ca em fegurar as cousas | da fegura que hoj’ ham nem doutras naturas muitas, | nom prendeu nem prend’ afám Deus, nem sol filha cuidado | de as fegurar, ca tam gram poder há no começo | bem come no acabar. [Refrão = vv. 1-2] E porende, se nas pedras | faz feguras parecer, nom deve_aquesto nulh’ home | por maravilha ter, nem outrossi enas ervas, | ca El[e] xas faz nacer e dá-lhes muitas coores | por a nós bem semelhar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Porend’ em Costantinopla | avo, com’ aprendi, que Dom Manuel, o bõo | emperador, mandou i fazer eigreja mui nobre; | e mármores, com’ oí, mandou trager de mui longe | e per meo asserrar, R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 por fazer távoas grandes | pora põer enredor do altar da Virgem santa, | madre de Nostro Senhor. E, u serravam um deles, | virom dentro de coor a sa omagem pintada, | bem qual xa quis Deus pintar, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 [t]endo seu filh’ em braço, | que dela carne filhou. Poi-lo emperador esto | soube, logo cavalgou, e, pois que viu a omagem, | tantoste a aorou e fez-la põer na porta | per u haviam d’ entrar, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 E ali sé hojedia, | em que ham gram devoçom todos. E a Santa Virgem | fez esto por tal razom: porque pode do culpado | omanhar-lh’ o coraçom da sa graça, poi-la pedra | mui dura foi omanhar. 38 Com razom nas creaturas | figura pode mostrar Deus de si ou de sa madre, | pois El as quis fegurar. 34 R6 * * * 689 Cantigas de Santa Maria 343 «A madre do que o demo fez no mudo que falasse» (E 343) Como Santa Maria de Rocamador guariu ũa manceba demoniada de demónio mudo e fez que falasse. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A madre do que o demo | fez no mudo que falasse, fezo a outro diabo | fazer como se calasse. Ca diz eno evangeo | dum home que nom falava, em que jazia o demo; | mais aquel Deus que sãava toda-las enfermidades | e mortos ressucitava, [a]tanto que o viu, logo | mandou-lhe que nom leixasse [Refrão = vv. 1-2] de falar e que dissesse | todo quanto que sabia. E del aquesta vertude | houve pois Santa Maria, que fezo um gram miragre | de que vos dizer querria em tal que gente m’ oíss’ e | que me mui bem ascuitasse. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ond’ avo em Caorce | dũa molher que sa filha houve mui grand’ e fremosa; | mais o diabo, que trilha aos seus, filhou-a forte- | mente a gram maravilha, e dizia toda cousa | a quem lha empreguntasse. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV A madre, com coita dela, | foi corrend’ aa eigreja, e ao capelám disse: | “– Por Deus, mercee vos seja que acorrades mià filha, | que co-no demo peleja,” dizendo ca med’ havia | que no fogo a deitasse. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V El filhou água beita | e foi alá mui de grado; e log’ o demo lhe disse: | “– Ai crérigo_escomu[n]gado, e como sol falar ousas?; | ca agora tal pecado feziste que gram dereito | faria quem te matasse; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e, demais, que trages água | beita e és maldito: a per poucas nom m’ é hora | que os olhos nom te brito”. Quando_o crérigo_oiu esto, | punhou de seer del quito, ca mui gram pavor havia | que o chus nom dostasse. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Poi-lo capelám foi ido, | a todos quantos entravam por veê-la, lhes dizia | aquelo em que pecavam, ond’ haviam gram vergonha; | e porém se receavam tanto dela que apas | achavam quem i entrasse. 40 42 690 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII A madre, pois viu aquesto, | com pesar e com vergonha a Rocamador levou-a, | que é preto de Gasconha, e diss’: “– Ai Santa Maria, | roga teu filho que ponha conselh’ em esta mià filha | com’ o demo a leixasse; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca, sem que a tem coitada, | faz-lhe que diga nemiga a todos, ond’ hei vergonha | tal que sol nom sei que diga; mas tu que és verdadeira | madre de Deus e amiga, mandasses-lhe que se fosse | dela e se desterrasse”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 A oraçom desta dona | log’ a Virgem houv’ oída, e fezo calar o demo, | e foi a moça guarida. E derom porém loores | aa senhor mui comprida, a que quenquer as daria | que se migo co[n]selhasse. 62 A madre do que o demo | fez no mudo que falasse, fezo a outro diabo | fazer como se calasse. 58 R10 * * * 691 Cantigas de Santa Maria 344 «Os que a Santa Maria sabem fazer reverença» (E 344) Como Santa Maria de [Tudia] fez a ũa cavalgada de crischãos e outra de mouros que maserom ũa noite cabo da sa eigreja e nom se virom, por nom haverem ontr’ eles desavença. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Os que a Santa Maria | sabem fazer reverença, macar se nom amem eles, | ela met’ i avença. Ca a que éste comprida | de bem e de santidade, ama paz e avença | e amor e lealdade. E dest’ um mui gram miragre | direi (e bem m’ ascuitade) que ela fez em Tudia; | e meted’ i bem femença. [Refrão = vv. 1-2] No tempo quando de mouros | foi o reino de Sevilha, em aquela sa eigreja | de T[u]dia maravilha conteceu ũa vegada; | e mui gram sabor me filha de dizer como foi esto, | por haverdes mais creença. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Gram cavalgada de mouros | saiu pera os crischãos correr e fazer-lhes dano, | e passou serras e chãos, e chegarom a Tudia, | todos sas lanças nas mãos, e bem a par da eigreja | pousarom sem detença. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Assi foi que essa noite | muit’ em paz ali jouverom. E, doutra parte, crischãos | sa cavalgada fezerom, e cabo dessa eigreja | bes os outros maserom, ca daquel logar partir-se | nom houverom atrevença. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E tam cerca essa noite | ũus doutros albergarom que mais cerca nom podiam; | e na font’ abeverarom seus cavalos a beverem, | e tanto nom braadarom que s’ oíssem nem se vissem | nem soubessem conhocença. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Assi tod’ aquela gente | foi de sũu albergada a derredor da eigreja, | que sol nom sentirom nada ũus doutros, por vertude | da reinha corõada, a que todos essa noite | fezerom obedeença. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Outro dia madurgada | todos dali se partirom; e depois que cavalgarom | e sem sospeita se virom, muito s’ ém maravilharom; | des i, tréguas se pedirom 40 692 42 por haverem deste feito, | como fora, conhocença. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Pois que a trégua houverom | e eles todos juntados forom. e de com’ o feito | fora, forom acordados em como fora miragre; | e partirom-se pagados, e fo[ro]m-s’ ũus a Elvas, | os outros a Olivença. 50 Os que a Santa Maria | sabem fazer reverença, macar se nom amem eles, | ela met’ i avença. 46 R8 * * * 693 Cantigas de Santa Maria 345 «Sempr’ a Virgem groriosa faz aos seus entender» (E 345) Como Santa Maria mostrou em visom a um rei e a ũa reinha como havia gram pesar porque entrarom mouros a sa capela de Xerez. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Sempr’ a Virgem groriosa | faz aos seus entender quando em algũa cousa | filha pesar ou prazer. E desta gram maravilha | um chanto mui doorido vos direi que end’ avo, | sol que me seja oído, que conteceu em Sevilha | quando foi o apelido dos mouros, como gãarom | Xerez com seu gram poder. [Refrão = vv. 1-2] Entom el-rei Dom Afonso, | filho del-rei Dom Fernando, reinava, que da reinha | dos ceos tĩía bando contra mouros e crischãos | maos, e, demais, trobando andava dos seus miragres | grandes que sabe fazer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este dous anos havia, | ou bem três, que gaanhara Xerez e que o castelo | de crischãos bem pobrara; pero a vila dos mouros | como [x’] estava leixara, e avo que por esto | a_houvera pois a perder. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca os mouros espreitarom | quando el-rei bem seguro estava deles, e toste | forom fazer outro muro ontr’ o castel’ e a vila, | muit’ ancho e fort’ e duro; e dali os do castelo | filharom-s’ a combater 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V tam feramente em guisa | que um ricome honrado muito, que dentro jazia | e Dom Nun’ era chamado, com peça de cavaleiros, | foi de tal guisa coitado que al-rei enviou logo | que o mandass’ acorrer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI El-rei, quand’ oiu aquesto, | fez logo toda sa hoste mover, e ar mandou logo | sacar seu pendom mui toste de Sevilha, e sa tenda | e cozinha e reposte, querendo_ir aquela noite | a Guadeira mãer. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, el estand’ em aquesto, | ar vo-lh’ outro mandado de Dom Nuno, que lhe disse | de com’ estava cercado e que, per seu corpo, fosse | lh’ acorrer; se nom, pagado per outr’ home nom seria. | E el-rei foi aprender 40 42 694 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII que esto que lh’ enviava | dizer que o ajudasse, que por al no-no fazia | senom que, quando chegasse el-rei a Xerez, que logo | o castelo lh’ entregasse, que per dereit’ e per foro | nom devia a seer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Quand’ el-rei oiu aquesto, | conhoceu as maestrias com que lh’ andava, | e logo filhou sas cavalerias, que lh’ enviou em acorro, | e forom i em dous dias; e tantoste que chegarom, | foi-os logo a veer. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E el disse-lhes que grande | prazer com eles havia, mais que aquele castelo | per rem ter nom podia e que per nulha maneira | em el morrer nom queria, e a eles rogou muito | que o fossem receber. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Eles, quand’ oírom esto, | atal acordo tomarom: que leixassem no castelo | poucos homes; e leixarom maos e tam mal guisados | e assi o aguisarom que ante de meio dia | s’ houv’ o castel’ a perder. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E prenderom quantos eram | em ele, sem demorança, e britarom a capela | da que é noss’ amparança, e filharom a omagem | feita a sa semelhança, e forom po-la queimarem, | mais sol nunca pôd’ arder. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII Aa hora que aquesto | faziam, bem em Sevilha jazia el-rei dormindo | na sesta, e maravilha viu em sonhos: com’ aquela | que é de Deus madr’ e filha oía ena capela | de Xerez vozes meter, 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e tragia em seus braços | um tam fremoso mininho que mais seer nom podia, | pero era pequeninho; e, correndo, aa porta | da capela mui festinho vĩía com el fugindo, | ca via fog’ acender 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV dentro, e de grandes chamas | arder toda a capela. E porend’ ela, changendo, | se chamava: “– Ai mesela!, se perec’ este mininho, | que é cousa atám bela!: querria eu mil vegadas | ante ca Ele morrer”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI E a el-rei semelhava | que lhe dizia: “– Uviade e, por Deus, este mininho | que trag’ em braços filhade que o nom queim’ este fogo, | e sequer a mi leixade, ca, se Ele ficar vivo, | eu mal nom posso haver”. 94 96 695 R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII El-rei, quand’ aquest’ oía, | foi logo filhar, correndo, ao meninh’ e a madre | do fogo, que muit’ ardendo estava a grandes chamas. | E el chorand’ e gemendo despertou daqueste sonho; | e filhou-o a dizer 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 a sa molher a reinha, | que jazia eno leito cabo del, e este sonho | lhe contava tod’ a eito. E ela lhe respondia: | “– Bem de dereit’ em dereito outro tal hei eu sonhado, | que vos quero retraer”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX [E] entom lhe contou todo | aquel sonho que sonhara, e como a Santa Virgem | bem do fogo a chamara que lhe tirass’ o mininho, | e que ela os tirara ambos do fogo e ’m salvo | os fora entom põer. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX Logo_el-rei e a reinha | por aquesto entendudo houverom que o alcáçar | de Xerez era perdudo, e a omagem da Virgem | havia mal recebudo; e porende se filharom | daquesto muit’ a doer. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Mas depois a poucos dias | quiso Deus que gaanhada Xerez este rei houvesse | e de crischãos pobrada, e a omagem da Virgem | ena capela tornada com mui gram precissom fosse, | segum devia seer. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII 132 E el-rei e a reinha e seus filhos, | que verom i com eles, a Deus graças | porende mui grandes derom. E quantos aqueste feito | oírom pois e souberom, o nome da santa Virgem | filharom a beizer. 134 Sempr’ a Virgem groriosa | faz aos seus entender quando em algũa cousa | filha pesar ou prazer. 130 R22 * * * 696 Cantigas de Santa Maria 346 «Com’ a grand’ enfermidade em sãar muito demora» (E 346) Como Santa Maria guariu ũa molher d’ Estremoz do braço e da garganta que lh’ inchara. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Com’ a grand’ enfermidade | em sãar muito demora, assi quem guarec’ a Virgem | é guarid’ em pouca d’ hora. Onde, desta razom, grande | miragre contar vos quero que fezo Santa Maria, | a madre do gram Deus vero que no dia do joízo | verrá mui brav’ e mui fero e juigará o mundo | tod’ em mui pequena hora. [Refrão = vv. 1-2] Em Estremoz, ũa vila | de Portugal, foi aquisto: que guariu ũa enferma | a madr’ onde Jesu-Cristo naceu por salvar o mundo, | que foi conhoçud’ e visto, ond’ o sol, quand’ el prês morte, | tornou mais negro ca mora. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquesta molher manceba | era e grand’ e fremosa, mais ũa enfermidade | houve mui perigoosa; ca o braço lh’ inchou tanto, | de que foi [mui] temerosa de o perder, e o corpo. | Mais a inchaçom foi fora, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV e em mui pequeno tempo | foi o braço tam inchado que mais seer nom podia, | e vermelh’ e ampolado muit’ e de maa maneira; | e sol carne nem pescado nom comia, nem al nada. | Mais aquela que sempr’ ora 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a Deus, s’ amercou dela; | ca, pois foi ena eigreja sua, a que a levarom, | log’ a que beita seja a guariu [mui] bem daquela | enfermidade sobeja por mostrar a sa vertude, | que [atan]toste lavora. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Quand’ esto virom as gentes, | derom loores grãadas aa Virgem groriosa, | a que sempre sejam dadas, que as portas do inferno | tem por noss’ amor sarradas e o dem’ avezimao | eno avisso ancora. 38 Com’ a grand’ enfermidade | em sãar muito demora, assi quem guarec’ a Virgem | é guarid’ em pouca d’ hora. 34 R6 * * * 697 Cantigas de Santa Maria 347 «A madre de Jesu-Cristo, o verdadeiro Messias» (E 347) Esta é como Santa Maria de Tudia resorgiu um meninho que era morto de quatro dias. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A madre de Jesu-Cristo, | o verdadeiro Messias, pode resorgir o morto | de mui mais ca quatro dias. Desto direi um miragre | que em Tudia avo, e porrei-o co-nos outros, | ond’ um gram livro é cho, de que fiz cantiga nova | com som meu, ca nom alho, que fez a que nos amostra | por ir a Deus muitas vias. [Refrão = vv. 1-2] Eno reino de Sevilha | ũa molher bõa era: em riba d’ Aguadiana | morava; mais, pois houvera marido, del neum filho | haver per rem nom podera, per física que provasse | nem per outras maestrias. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E com gram coita d’ havê-lo, | foi fazer sa romaria aa eigreja da Virgem | santa que é em Tudia; e, des que foi i chegada, | teve mui bem sa vigia i com mui grand’ homildade | e nom mostrand’ ufanias. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, os golhos ficados | ant’ o altar, e chorando, estev’ ant’ a Virgem santa | e muito lhe demandando que filh’ ou filha lhe désse; | e prometeu-lhe que, quando o houvesse, lho levasse | e tevess’ i sas vegias. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Santa Maria seu rogo | oiu daquela coitada. E logo com seu marido | albergou, e foi prenhada e houve del ũu filho, | com que foi mui conortada; pero nom quis a Tudia | com el fazer romarias. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Assi, a Santa Maria | fez aquela molher torto, que pesou a Jesu-Cristo; | porend’ o mininho morto foi depois bem a três anos. | Mais tal foi o desconorto que sandia foi sa madre | por el, com’ outras sandias. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Pois que viu seu filho morto, | log’ entonce na carreira se meteu pera Tudia, | dizend’: “– Eu fui mentireira contra ti, madre de Cristo; | mas tu, que és verdadeira, se tu queres, dá-mi_o vivo, | ca fazer o poderias”. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 698 VIII 46 48 Quando chegou a Tudia | e o meninho poserom ant’ o altar, log’ a madre | e seus parentes fezerom gram doo por el sobejo; | e, pois a missa disserom, rezarom sobr’ ele salmos | muitos e pois ledãias. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Eles aquesto fazendo, | tantoste, se Deus m’ ajude, houve piadade deles | a reinha de vertude, e fez viver o meninho | e chorar do ataúde, assi que os que choravam | fezerom pois alegrias. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E o ataúd’ abrirom | e sacarom o mininho, de quatro dias já morto, | são e tam fremosinho; e pediu-lhes que comesse, | e derom-lhe pam e vinho; ca os seus miragres dela | nom som feitos d’ arlotias. 62 A madre de Jesu-Cristo, | o verdadeiro Messias, pode resorgir o morto | de mui mais ca quatro dias. 58 R10 * * * 699 Cantigas de Santa Maria 348 «Bem parte Santa Maria sas graças e seus tesouros» (E 348) Como Santa Maria demostrou a ũu rei que trobava por ela gram tesouro d’ ouro e de prata. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Bem parte Santa Maria | sas graças e seus tesouros aos que servem seu filho | bem e ela contra mouros. Desto direi um miragre | que avo em Espanha, que mostrou Santa Maria, | a piadosa sem sanha, contra um rei que de gente | levava mui gram companha por honrar a fé de Cristo | e destroir a dos mouros. [Refrão = vv. 1-2] Aquel rei tesouros grandes | despendera, que havia, pera conquerer a terra | que chamam Andaluzia; mais atám muito fiava | na Virgem Santa Maria que nunca jamais cuidava | haver míngua de tesouros. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Onde foi ũa vegada | que sacara mui grand’ hoste, e os que o seu guardavam | nom lh’ acorrerom tantoste, nem er achava dinheiros | muitos ena sa reposte per que manter podesse | muito a guerra dos mouros. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El em aquesto cuidando, | ũa noite em dormindo viu a Virgem groriosa | e foi contra ela indo, chorando muito dos olhos | e mercee lhe pedindo que se del amerceasse, | per que houvesse tesouros. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ela lhe disse: “– Teu rogo | de meu filh’ é já cabudo; onde por míngua que hajas | nom dés rem, mais atrevudo sei bem, ca mui gram tesouro | te darei que ascondudo jaz so terra, que meterom | i mui peiores ca mouros”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Quando lh’ aquest’ houve dito, | foi-se. E el-rei pagado ficou muito daquel sonho, | e chamou um seu privado e disse-lh’ o que sonhara; | e, pois lho houve contado, foi ali u el cuidava | achar aqueles tesouros 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e já ante lhe disserom | que aquel haver, sem falha, jazia homees certos; | nom achou i nemigalha; e disso com mui gram coita: | “– Santa Maria me valha, porque a minguar nom haja | de fazer gram mal a mouros”. 40 42 700 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Assi quis Deus que daquela | vez nom achass’ el-rei nada. Mais depois bem a um ano | fez hoste sobre Grãada, e, indo pera a hoste, | fez per ali sa passada; e mostrou-lhe doutra parte | a Virgem grandes tesouros 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX de prata, d’ our’ e de pedras | mui ricas e mui preçadas, e panos muitos de seda | e citaras bem lavradas e outras dõas mui nobres | de prata, todas douradas, dos judeus, seus emigos, | a que quer peor ca mouros. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quand’ el-rei achou tod’ esto, | foi mui led’ a maravilha e bezeu muit’ a Virgem, | que é de Deus madr’ e filha; e tantost’ est’ haver dado | enviou pera Sevilha pera servir Deus e ela | dest’ e dos outros tesouros. 62 Bem parte Santa Maria | sas graças e seus tesouros aos que servem seu filho | bem e ela contra mouros. 58 R10 * * * 701 Cantigas de Santa Maria 349 «Muito praz à Virgem santa, que Deus filhou por parenta» (E 349, E 387) Como Santa Maria mostrou muitos miragres por ũa sa omagem mui fremosa que tragia um rei em sa capela. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito praz à Virgem santa, | que Deus filhou por parenta, de quem lh’ as saudações | de Dom Gabriel ementa. Ca, pero é mais que santa, | sempre lhe crec’ a vertude quando oe que lh’ ementam | do ángeo a saúde; e, de quequer que lhe roguem, | entom com seu bem recude, porque do Santi ’Spirito | log’ outra vez s’ escaenta. [Refrão = vv. 1-2] Onde daquest’ um miragre | vos direi, se mi_ascuitardes, mui fremos’ a maravilha; | e, se i mentes parardes, sa mercee haveredes | dela, e, se a guardardes, do inferno seeredes | quitos e de sa tormenta. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Um rei consigo tragia | ũa omagem fremosa daquesta Virgem beita, | madre de Deus groriosa, que a quanto-la viíam | era atám graciosa que achar nom poderiam | tal ontre mil e setenta. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Aquesta fazia muitos | miragres e maravilhas, sãand’ homes e molheres, | e seus filhos e sas filhas. E os que aquest’ oíam | de mais longe ca cem milhas vĩinham por seer sãos | por esta, que acrecenta 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V nosso bem per sa vertude, | que ela grande mostrava em sãar enfermidades; | e esta se lhe dobrava quand’ o avangeo santo | dizia como falava o anjo de Deus com ela, | u ela disse: “– Sergenta 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI sõo do Senhor que dizes, | e estou aparelhada de receber a sa graça”. | E por aquesto dobrada houv’ a omagem vertude | quando lh’ era ementada esta saúde tam nobre; | e porém bem quaraenta 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII sãou d’ homes e molheres | enfermos e mal coitados em prazo de poucos dias. | E loores porém dados forom aa Virgem santa, | porque sempr’ aos culpados, macar é mui justiceira, | com piadad’ escarmenta. 40 42 R7 44 Muito praz à Virgem santa, | que Deus filhou por parenta, de quem lh’ as saudações | de Dom Gabriel ementa. * * * 702 Cantigas de Santa Maria 350 «Santa Maria, senhor» (E 350) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 12 E val-nos, Santa Maria, ca mester é que nos valhas, ca tu por nós noit’ e dia co-no diabo baralhas, e ar punhas todavia por encobrir nossas falhas, e por nos dar alegria com Deus sempre te trabalhas, ca tu és razõador a El polo pecador. 14 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. 4 6 8 10 R1 II 24 Val-nos, Virgem groriosa, co-na ta mui gram vertude, pois ta carne preciosa prês Deus por nossa saúde; e porend’, ai piadosa, ta mercee nos escude contra a companh’ astrosa do demo, e nos ajude; ca tu na coita maior vales ao pecador. 26 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. 16 18 20 22 R2 III 36 E val-nos, nobre reinha, com tas grandes piadades, e sei nossa meezinha nas grandes enfermidades, e nossa carne mesquinha guarda de fazer maldades; ca tu nos podes aginha acorrer com tas bondades, e por ti Nostro Senhor perdõa o pecador. 38 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. 28 30 32 34 R3 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. IV 40 42 Val-nos, senhor de mesura, ca por nós no mundo nada fuste, e o da altura Deus filhou em ti pousada e fez de ti, Virgem pura, 703 44 48 madre e nossa_avogada, por nos meter na folgura u te fez El corõada, e [te] fez dos santos fror e guarda do pecador. 50 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. 46 R4 V 60 E val-nos por ta bondade tam grande, que sempr’ houviste, por que a gram deidade de Deus em ti enchoíste; e mantém-nos com verdade, que tu sempre manteviste, e de mui gram falsidade nos guarda, que mal quisiste e queres, e hás sabor de valer o pecador. 62 Santa Maria, senhor, val-nos u nos mester for. 52 54 56 58 R5 * * * 704 Cantigas de Santa Maria 351 «A que Deus avondou tanto que quiso dela nacer» (E 351, F [57]) Esta é como Santa Maria acrecentou o vinho na cuba em A[r]conada, ũa aldea que é preto de Palença. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que Deus avondou tanto | que quiso dela nacer, bem pod’ avondar as outras | cousas e fazer crecer. E desta razom miragre | mui fremoso vos direi, que mostrou Santa Maria, | com’ eu em verdad’ achei, na eigreja d’ A[r]conada, | ũ’ aldea que eu sei que é preto de Palença; | e oíde-m’ a lezer. [Refrão = vv. 1-2] Ena sa festa d’ agosto | mui gram gente vem ali por oir toda-las horas, | e é costumad’ assi: que tragem i pam e vinho | em carretas, e bem i o dam por seu amor dela | a que-no quer receber. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ond’ avo, nom há muito | tempo, que s’ i ajuntou gram gent’ a aquela festa, | e cada ũu punhou em fazer grand’ alegria: | quem soube luitar, luitou, e quem soube chacotares | bõos, i os foi dizer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Outros ar corriam vacas, | que faziam pois matar, que coziam em caldeiras | grandes e ia-nas dar a pobres que as comessem. | Em tod’ est’, a lazerar houve per força o vinho, | ca del foi grand’ o bever. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pero que bem comiam, | nom tinham que era rem se daquele bõo vinho | nom bevessem a seu sém; e porende foi minguando, | ca aquesto sempr’ avém: que, du colhem e nom põem, | que há sempr’ a falecer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ond’ ũa gram cuba cha | de vinho pararom tal que, se nom foi a madeira, | em ela nom ficou al. Entonce disserom todos: | “– Se nos a Virgem nom val, com coita deste bom vinho | nos poderemos perder”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E porend’ aquela gente | se quisera ir entom; mas chegou um home bõo, | que lhes diss’ esta razom: “– Vaamos catar a cuba | e tiremo-lh’ o tapom 40 705 42 mais de fond’, e per ventura | pod’ i algum pouc’ haver. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Entom log’ aquela gente | aa cuba se chegou, e o que lhes diss’ aquesto | bem per cima a catou, e achou-a toda cha | e a todo-la mostrou; e porend’ a Virgem santa | filharom-s’ a beizer. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 E os que ante choravam | começarom a riir, e beverom daquel vinho, | e jurarom, sem mentir, que nunca atal beveram; | e os enfermos guarir forom, quantos del beverom, | e pois mui sãos seer. 56 A que Deus avondou tanto | que quiso dela nacer, bem pod’ avondar as outras | cousas e fazer crecer. 52 R9 * * * 706 Cantigas de Santa Maria 352 «Fremosos miragres mostra a madre da fremosura» (E 352) Esta é como Santa Maria d[o] Viso guariu um açor dum cavaleiro. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Fremosos miragres mostra | a madre da fremosura e grandes, ca há vertude | do mui gram Deus sem mesura. Dest’ um fremoso miragre | vos direi, se m’ ascuitardes, que fezo Santa Maria; | e, se i mentes parardes, por mui grande o terredes | quant’ em ele mais cuidardes, e veredes com’ a Virgem | há poder sobre natura. [Refrão = vv. 1-2] Aquest’ a um cavaleiro | conteceu que vassal’ era dum fi de rei, e por ele | fazia jostiça fera, e que um açor mui bõo | ũa vegada lhe dera, que fora dum cavaleiro | natural d’ Estremadura. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Est’ açor filhava garças | e ãades e betouros e outras prijões muitas; | e nem crischãos nem mouros atal açor nom haviam, | e davam de seus tesouros muito por el, que lho désse. | Mas nom havia ém cura 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV o cavaleiro, de dar-lho, | nem sol, por haver, vendê-lo; mais havia voontade | d’ ante seu senhor tragê-lo, porque mui mais doutra cousa | lhe prazeria d’ havê-lo, ante que o haver outre | ou perdê-lo per ventura. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E el com el cada dia | muit’ a sa caça andava, e, quantas aves podia | filhar com ele, filhava; pero forom bem dous anos | que o açor nom mudava, e o cavaleiro_havia | desto pesar e tristura. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E meteu muitos dinheiros | em lhe fazer meezinhas que nulha rem nom valverom. | Pois, no tempo quand’ as vinhas vendímiam, foi-se com ele | aa senhor das reinhas, a sa eigreja do Viso, | que jaz em ũa altura. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E quando chegou a Touro, | houv’ outro gram descono[r]to do açor: que nom queria | comer, e tal come morto era, e o bic’ inchado | muito e o colo torto, dizendo todos: “– Mort’ éste | se lhe dous dias atura”. 40 42 707 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII O cavaleiro, de cera | fez log’ ũa semelhança do açor, e foi com ela, | havendo grand’ esperança ena Virgem groriosa | e creendo sem dultança que seu açor lhe daria | viv’ e são sem laidura. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E foi-se logo com ela, | quanto pôd’, aa eigreja da Virgem Santa Maria, | que é beita e seja, que lh’ amostrou essa noite | mui gram mercee sobeja, ca tornou o açor são | e a el tolheu loucura. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, demais, fez-lh’ outra cousa: | que as penas que mudadas ante haver nom podera, | houve-as logo deitadas, e meteu outras tam bõas | e atám bem cooradas que per rem nom poderiam | taes pintar de pintura. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Esto fez Santa Maria, | madre do que formou suso os ceos maravilhosos | e ar pôs a terra juso, que miragres mui fremosos | fez sempr’, e há-o por uso, por nos fazer bem creentes | e guardar-nos de loucura. 68 Fremosos miragres mostra | a madre da fremosura e grandes, ca há vertude | do mui gram Deus sem mesura. 64 R11 * * * 708 Cantigas de Santa Maria 353 «Quem a omagem da Virgem e de seu filho honrar» (E 353) Como um meninho que criava um abade em sa c[l]a[u]stra tragia de comer ao meninho que tiinha a omagem enos seus braços, e disso-lh’ a omagem que comeria com ele mui cedo, e o abade. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem a omagem da Virgem | e de seu filho honrar, deles será muit’ honrado | no seu bem, que nom há par. E de tal razom com’ esta | vos direi, se vos prouguer, miragre que fez a Virgem, | que sempre nosso bem quer, per que hajamos o reino | de seu filh’, ond’ a molher primeira nos deitou fora, | que foi malament’ errar [Refrão = vv. 1-2] em comer ũa maçãa, | que ante lhe defendeu Deus que per rem nom comesse; | e, porque dela comeu e fez comer seu marido | Adám, logo lhes tolheu o reino do paraíso | e foi-os end’ eixerdar. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Mas depois Santa Maria, | em que há bondad’ e sém, buscou e busca carreiras | com’ hajamos aquel bem de Deus, seu Padr’ e seu filho, | que El pera os seus tem, em que vivam com El sempre | sem coita e sem pesar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Este miragre mui grande | foi, segundo que oí dizer a homees bõos, | que o contarom a mi, dum ricome que morava | em terra de Venexi, a que morriam os filhos, | que nom podiam durar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E com mui gram pesar desto, | um deles, que lhe ficou, a um abade mui santo | dum mõesteir’ enviou, o deu-lho, que lho criasse, | e tam muito o rogou, que o filhou, por seu rogo, | e feze-o bem criar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI consigo no mõesteiro. | E, per com’ aprendi eu, cada que o faagava | chamava-lhe filho meu, e dizia-lh’ ameúde: | “– Quant’ aqui há, tod’ é teu”. E mandava-lhe que fosse | pela claustra trebelhar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Andand’ assi trebelhando, | na eigreja ’ntrou, e viu omagem da Virgem santa | com seu filho, e cousiu com’ era mui fremosinho, | e cato’-o e riiu, 40 709 42 e log’ em sa voontade | o filhou muit’ a amar. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E tam gram bem lhe queria | que ameúde veer o ia muitas vegadas, | ca em al neum prazer tam grande nom recebia. | Pero, porque de comer nom viía que lhe davam, | filhou-s’ a maravilhar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E log’ em aquela hora | pôs eno seu coraçom que, daquelo que lhe davam, | que lhe déss’ ém seu quinhom. E, des i, foi comer logo, | e apartou da raçom sua a maior partida, | e foi-lha logo guardar. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, pois comeu, trebelhando | começou-se logo d’ ir aa eigreja correndo, | e eno altar sobir foi de pees, e, daquelo | que lhe davam, a servir se filhou ant’ o meninho, | e começou-lh’ a rogar 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI que comesse, e dizendo: | “– Cada dia t’ adurei desta raçom que me derem | e tigo a partirei; e porém te rog’, amigo, | que cômias, ca mui bem sei que, se desto nom comeres, | outro nom cho verrá dar”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Depois bem a quinze dias | o meninho esto fez cada dia. Mais o filho | da Virgem de mui bom prez lhe diss’ um dia: “– Contigo | nom comerei outra vez, se crás mig’ e com meu Padre | nom quiseres ir jantar”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII O abad’ ao meninho | viu-lhe cambiar a faz e ar enmagrecer muito, | e disso com’ em solaz ao meninho: “– Meu filho, | se tu nom comes assaz, eu te darei bem que cômias, | ca te vejo magr’ andar”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Entom respôs o meninho: | “– Carne e vinho e pam vossos homees, ai padre, | me dam bem e sem afám; mas eu ao bom meninho, | daquelo que mi_a mim dam, dou end’ a maior partida, | e vou-lho sempre levar”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Quand’ est’ oiu o abade, | disse-lh’: “– Ai filh’ e senhor, e qual é aquel meninho | a que fazes ess’ amor?” Diss’ el: “– O filho da dona | que sé no altar maior, a que nom dam rem que cômia, | e vejo-o lazerar”. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Entom lhe diss’ o abade, | a que chamavam Fiiz: “– Meu filho, o que lhe levas, | come-o?, ou que che diz?” 94 710 96 Diss’ el: “– Come cada dia; | mas des que lh’ aquesto fiz, nunca m’ ante falou nada, | mais foi-m’ hoje convidar R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII que com El e com seu Padre | eu fosse a jantar crás”. Entom lhe diss’ o abade: | “– Pois que tu est’ oíd’ hás, e creo certãamente | que com eles jantarás, rogo-t’ eu que vaa tigo | comer de tam bom manjar”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 Entom se foi o abade | e chamou os monges seus, e disse-lhes: “– Ai amigos, | crás m’ irei eu [ém], par Deus, esto sei certãamente; | e porend’ a Dom Mateus, vosso monge, por abade | escolhed’ em meu logar”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX E contou-lhes em qual guisa | esto sabia e qual razom ém com seu criado | houvera; e diss’: “– Atal galardom aos que ama | a senhor esperital dá, com seu filho beito, | a que-na bem sab’ amar”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 Aquela noite passada, | outro dia ant’ a luz o abad’ e o meninho | enfermarom, com’ aduz o feito deste miragre; | e a sesta, quand’ em cruz morreu por nós Jesu-Cristo, | morrerom eles a par. 122 Quem a omagem da Virgem | e de seu filho honrar, deles será muit’ honrado | no seu bem, que nom há par. 118 R20 * * * 711 Cantigas de Santa Maria 354 «E no pouco e no muito, em todo lhes faz mercee» (E 354) Como Santa Maria guardou de morte ũa bestiola que chamam «donezinha». R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 E no pouco e no muito, | em todo lhes faz mercee aos seus servos a Virgem, | madre do que todo vee. Desto direi um miragre | grande que fez a reinha, madre de Deus Jesu-Cristo, | a um rei que muito tinha em ela sa asperança, | ca lhe fez veer aginha pesar e prazer mui grande | dũa rem por sa mercee. [Refrão = vv. 1-2] Este pesar foi por ũa | bestiola que muit’ amava el-rei, que sigo tragia | e a que mui bem criava, a que chamam «donezinha» | os galegos, e tirava com ela aves das covas, | e de taes home vee. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Pero esta outras cousas | muitas e bõas fazia trebelhando e saltando, | onde gram prazer havia aquel rei; e por aquesto | atám gram bem lhe queria que tiínha que fezera | Deus, em dar-lha, gram mercee. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E por esto lhe fezera | de fust’, em que a guardava, ũa arca mui bem feita, | e dentro a enserrava porque mal nom recebesse, | ca muito se receava do gato, que ena noite | melhor ca no dia vee. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Onde lh’ avo um dia, | indo per ũa carreira, que a quis tirar da arca; | e, com’ ela é ligeira, caeu ontr’ os pés das bestas, | e foi em atal maneira que el-rei com coita disse: “– Santa Maria, mercee!: 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI guarda-me mià donezinha, | que a nom perça per morte”. E quantos ali estavam | houverom gram desconorte; ca lhe pose o cavalo | del-rei o pé atám forte sobr’ ela; e el-rei disse: | “– Ai varões, que-na vee?; 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII dade-mi_a qualquer que seja, | sequer viva, sequer morta, e conortar-m’-ei com ela | come quem se mal conorta”. Entom fez Santa Maria, | a que é dos ceos porta, que de so o pé saísse | viva pola sa mercee. 40 42 712 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Entom quantos ali eram | e virom tal maravilha que fezo a groriosa, | que é de Deus madr’ e filha, em fazer que o cavalo, | que com seu pé tam mal trilha, no-na matasse. E esto | fez aquel que todo vee, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 per prazer da groriosa, | sa madr’, a que comendada a houv’ el-rei, u do pee | do cavalo foi trilhada. Porém seja El beito, | e ela seja loada, e sempr’ ambos de nós hajam | piedade e mercee. 56 E no pouco e no muito, | em todo lhes faz mercee aos seus servos a Virgem, | madre do que todo vee. 52 R9 * * * 713 Cantigas de Santa Maria 355 «O que a Santa Maria serviço fezer de grado» (E 355) Esta é como Santa Maria de Vila-Sirga livrou um home da forca, que nom morreu, por um canto que dera a sa eigreja. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 O que a Santa Maria | serviço fezer de grado, na mui gram coita que haja | seer-lh’-á galardõado. Ca o que lhe faz serviço | mui de grado, ou dá dõa em algũa sa eigreja, | mui bem lho per-galardõa; ca lhe dá, por ũu, cento, | como senhor nobr’ e bõa, e nas coitas deste mundo | pom-lhe conselho guisado. [Refrão = vv. 1-2] E porend’ um seu miragre | vos direi de bõa mente que fez esta Virgem, madre | de Deus, ante muita gente em um home de Mansela, | mancebo barva pungente; o miragr’ é mui fremoso | e bõo e muit’ honrado. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este manceb’ em Mansela, | com’ eu aprendi, morava, e ũa moça da vila | feramente o amava; el nom queria seu preito | nem por ela nom catava, porque cuidava que fosse | com outra melhor casado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV O mancebo prometera | por ir [ém] em romaria a Vila-Sirg’; e guisou-se, | e foi-[se] logo sa via; mais soube-o a manceba, | e depos el se saía por comprir sa voontade | e o meter em pecado. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V El catou, e a manceba | viu [i] vĩir, e pesou-lhe, e esteve_e atendeu-a. | E, pois chegou, preguntou-lhe e disse-lh’ a que viinha; | e ela entom rogou-lhe que por Deus no[m] lhe pesasse | d’ ir dela acompanhado. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E diss’ el: “– E nom iredes | comigo, se Deus me valha, ca nom querria com vossos | parentes haver baralha; demais, vou em romaria, | e nom querria em falha seer do que prometudo | hei, mui gram temp’ há passado”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Nunca tanto dizer pôde | que s’ ela tornar quisesse, per rogos nem per maças | nem per rem que lhe dissesse. O mancebo foi mui triste | [e] nom soube que fezesse, 40 714 42 pero foi já sa carreira | com ela muit’ anojado. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Eles indo per caminho | ambos per ũa montanha, rogou-lh’ ela que quisesse | seu amor e sa companha. El foi mui maravilhado | e disse-lh’ em mui gram sanha: “– Ante vós fôssedes morta | nem eu nunca fosse nado 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca eu tal erro fezesse | escontra a groriosa, indo pera a sa casa: | nom te tes por astrosa de tal cousa demandares?” | Ela foi ém vergonhosa, e atá em Vila-Sirga | nom lho ar houv’ enmentado. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Quando forom na igreja | da madr’ e Virgem honrada, mandou fazer o mancebo | candeas logo d’ entrada, e dormiu [i] na igreja, | e aa nossa_avogada pediu mercee_e ajuda | que lh’ houvesse perdõado. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E comprou em outro dia | por seus dinheiros um canto de pedra pera a obra | de Vila-Sirga, e, quanto s’ atreveu, fez sa oferta | e sas orações ant’ o altar de Santa Maria; | e, pois que houve jantado, 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII tornou-se pera sa terra. | E indo pela carreira, a manceba que vos dixe | disse-lhe desta maneira: “Porque nom casades migo?” | Diss’ el: “– Já vos eu pr[i]meiramente dixe mià fazenda | e vos dei todo recado: 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII ca, se mi_a Virgem Maria | guardar, que é meu espelho, nunca me casarei v[o]sco, | nom vo-lo digo_em trebelho, mais digo-vos gram verdade; | e porend’ outro conselho havede, pois vos daquesto | meu coraçom hei mostrado”. 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV Ela houve gram despeito | del por esto que dissera, porende lhe buscou morte, | poi-lhe tal resposta dera; e a entrante da vila | ond’ ele natural era, meteu mui fort’ apelido | e houve_o rostro rascado, 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV e meteu mui grandes vozes, | e disse que a forçara o mancebo na carreira | e ferir’ e desonrara e a força per cabelos | do caminho a sacara, que rem valer no-lhe pôde, | pero houve braadado. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Os parentes da manceba | aas justiças fezerom queixume; e eles logo | aquel mancebo preserom 94 715 96 e, sem saber a verdade, | aa forca com el derom. E el, pois viu que seria | de tod’ em tod’ enforcado, R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII fezo sa oraçom logo | muit’ e dos olhos chorando, e diss’: “– Ai Santa Maria | de Vila-Sirga, e quando eu fui ena ta igreja, | por meus dinheiros, estando, comprei pera a ta obra | um bom canto, hei-cho dado; 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 porém, Virgem groriosa, | madre de gram piedade, nom cates a meus pecados, | mais, senhor, por ta bondade vei como moir’ a gram torto, | ca tu sabes a verdade deste feito que mi_apõem; | se eu nom sõo culpado, 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX mostr[a] aqui teu miragre, | ai Virgem santa comprida, vogada dos pecadores, | de todo-los santos vida; se tu, senhor poderosa, | em algum tempo servida de mi algum pouco fuste, | fais esto que ch’ hei rogado”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX Pois que a oraçom feita | houve, tantoste lh’ atarom as mãos atrás e logo | aginha o enforcarom; e seus parentes por ele | mui feramente chorarom; e assi sev’ aquel dia | o mancebo pendorado. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Mais a Virgem gloriosa, | que chamam os pecadores e que ela mui de grado | acorr’ aas sas doores, log’ a santa verdadeira | madr’ e senhor das senhores troux’ aquel canto meesmo | que el houvera comprado 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII quando foi em Vila-Sirga, | assi como já contamos, e pose-lho a seus pees, | como por verdad’ achamos; e teve-o viv’ e são | esta senhor que chamamos aquel dia e a noite, | e de todo mal guardado. 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 Em outro dia verom | aa forca seus parentes po-lo dece[n]derem dela, | e da vila outras gentes, e virom so el o canto; | des i, estando presentes, oírom como falava | e dizia: “– Deus loado 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 seja, ca eu estou vivo, | ca ’ssi quis a Virgem Santa Maria de Vila-Sirga; | ca sa mercee é tanta que todo o mund’ avonda | e nosso bem sempre_avanta, e per ela hei eu vida, | pero que estou colgado”. 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] XXV Quando o todos oírom | falar atám estrevudo, 716 148 150 talharom-lhe log’ a soga; | e, pois que foi decendudo, preguntarom como fora, | e el houve retraúdo daqueste feito_a verdade, | que nom houv’ ém rem negado. R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XXVI 154 156 Quand’ a verdade souberom | de tod’, assi com’ oístes, forom ém maravilhados | que nunca tam muit[o] vistes; e derom todos loores | aa que nos faz, de tristes, seer ledos e pagados, | ca est’ há ela usado. 158 O que a Santa Maria | serviço fezer de grado, na mui gram coita que haja | seer-lh’-á galardõado. R26 * * * 717 Cantigas de Santa Maria 356 «Nom é mui gram maravilha se sabe fazer lavor» (E 356) Como Santa Maria do Porto fez vĩir ũa ponte de madeira pelo rio de Guadalete pera a obra da sa igreja que faziam, ca nom haviam i madeira com que lavrassem. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nom é mui gram maravilha | se sabe fazer lavor a madre do que o mundo | fezo e é del senhor. Desto direi um miragre | que no Port’ aconteceu, que fezo Santa Maria, | madre daquel que prendeu paixom e ena cruz morte | por nós, e que nos tolheu das mãos do emigo, | o diab’ enganador. [Refrão = vv. 1-2] Esto foi quando lavravam | a igreja, com’ oí, daquel logar; e haviam | avondo, com’ aprendi, de cal, de pedra, d’ ara | e d' água [ar] outrossi; mais madeira lhes falia, | de que estavam peor R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III ca doutra cousa neũa | que i houvesse mester, ca de tod’ avond’ haviam; | e porend’ a com[o]quer punhavam de a haverem. | Mais esta santa molher os tirou daquel enxeco, | ca de tod’ é sabedor. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, por fazer que a obra | s’ acabasse bem, sem al, fez vĩir ũa gram cha | d’ água, que pelo Portal passou, e troux’ ũa ponte | de madeira, toda tal enteira como x’ estava: | nunca home viu melhor. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E per Guadalet’, o rio, | a fez logo, sem mentir, chegar assi com’ estava | e bes ali vĩir u faziam a igreja, | por a obra nom falir de s’ acabar ao tempo | que o maestre maior 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI outorgara d’ acabá-la, | per como eu apres’ hei, a um tempo sinaado | que posera [com] el-rei; mais fazer no-no podera, | como por verdad’ achei, se a Virgem desta guisa | nom lhe foss’ ajudador. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, quando virom a ponte | vĩir a aquel logar pera fazer-lhes ajuda, | forom-na logo filhar; e, pois, a Santa Maria | ar forom loores dar dizendo: “– B[]eita sejas, | santa do[s] santos maior”. 40 42 R7 44 Nom é mui gram maravilha | se sabe fazer lavor a madre do que o mundo | fezo e é del senhor. * * * 718 Cantigas de Santa Maria 357 «Como torc’ o dem’ os nembros do home per seus pecados» (E 357) Como Santa Maria do Porto guareceu ũa molher que vera a sa casa em romaria e havia a boca torta e os nembros. E começa assi: R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Como torc’ o dem’ os nembros | do home per seus pecados, assi os correg’ a Virgem | poi-los há mãefestados. E desto fez um miragre | a que é chamada «horto dos viços do paraíso», | na sa igreja do Porto, em ũa molher coitada | que o rostro todo torto muit’ havia e a boca, | e os olhos mal torvados. [Refrão = vv. 1-2] Dona Sancha nom’ havia | esta molher, e vera ali por cobrar saúde, | e que mui gram coita fera daquela door sofria, | que des longo temp’ houvera, que comer já nom podia | nem sol trocir três bocados. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Mais pois entrou na igreja chorando muit’ e dizendo: ca em tal coita com’ esta | se nom, conta que agora | 16 18 | daquesta santa reinha, | “– Senhor, acorre-m’ aginha, tu soa és meezinha; meus dias som acabados”. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E quand’ aquest’ houve dito, | pôs ant’ o altar candeas e teve i nove dias. | E, pois compriu sas noveas, solto’-a a Virgem santa, | como soltam de cadeas os reis aos seus presos | que nom sejam justiçados, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 30 assi que o rostro todo | e a boca com’ ant’ era lhe tornou fremos’ e são | como nunca mais houvera. E entom aquela gente | toda que ali vera, os seus miragres teverom | por dos outros ma[i]s preçados. 32 Como torc’ o dem’ os nembros | do home per seus pecados, assi os correg’ a Virgem | poi-los há mãefestados. 28 R5 * * * 719 Cantigas de Santa Maria 358 «A que as cousas coitadas d’ ajudar muit’ é teúda» (E 358) Como Santa Maria do Porto mostrou per sa vertude um logar u jaziam muitos cantos lavrados, que meterom ena sa igreja. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que às cousas coitadas | d’ ajudar muit’ é túda, nom vos é gram maravilha | se x’ ela a si ajuda. Desto fezo eno Porto | que de seu nom’ é chamado gram miragr’ a groriosa, | que será per mim contado, no lavor da sa igreja. | que faziam per mandado de Dom Afonso (que éste | seu rei, cousa é sabuda). [Refrão = vv. 1-2] Ali homes lavravam | cada dia bem quinhentos e tragiam muitas pedras | pera fazer fundamentos; mas o mar foi mui torvado | um tempo per grandes ventos, que a mor pedra delas | nom podia ser movuda R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III per barcas nem per engenhos, | nem per arte nem per manha. Entom diss’ a maestr’ Ali | um home de sa companha: “– Eu vos mostrarei um canto | dũa medida tamanha que, se muitos end’ houverdes, | a lavor será creçuda 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV mui tost’”. E log’ amostrou-lho, | e sacaro-no de fondo de terra; e, pois lo virom | quadrado, ca nom redondo, cavarom, e doutros taes | acharom tam grand’ avondo per que a lavor mui toste | foi mui de longe veúda. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Pois maestr’ Ali viu esto, | empero que x’ era mouro, entendeu que bem guardadas | tevera com’ em tesouro a Virgem aquelas pedras | que tam preçadas com’ ouro foram pera lavrar toste | e mais ca pedra múda. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Entom, quando todos virom | que assi foram achados aqueles cantos so terra, | grandes e mui bem quadrados (por que a lavor foi feita | tost’ e os muros iguados e as torres acabadas, | est’ é cousa conhoçuda), 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII derom porende loores | aa Virgem gloriosa, que quis pera si igreja | fazer nobr’ e mui fremosa e fort’, em que s’ acolhesse | a gente, que pavorosa era porque nom havia | ant’ u fosse defenduda. 40 42 R7 44 A que as cousas coitadas | d’ ajudar muit’ é túda, nom vos é gram maravilha | se x’ ela a si ajuda. * * * 720 Cantigas de Santa Maria 359 «As mãos da Santa Virgem, que tangerom acarom» (E 359) Como Santa Maria do Porto se doeu dũa molher que vo aa sa igreja em romaria, a que cativaram um seu filho; e saco’-o de cativo de terra de mouros e poso-lho em salvo. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 As mãos da Santa Virgem, | que tangerom acarom Jesu-Cristo, mui bem podem | sacar presos de prijom. E daquest’ um gram miragre | avo em um logar que é chamado o Porto | da Virgem que nom há par, a um home que vera | a Xerez, e i morar fora com molher e filhos, | que el mui de coraçom [Refrão = vv. 1-2] amava mais doutra cousa. | E, des que chegou ali, fazia mui bõa vida, | segundo quant’ aprendi, e era mui bom vizinho | a quantos moravam i a Sam Salvador, ond’ era | chamada a colaçom. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este dous filhos havia, | e Domingo o maior chamavam, e ao outro | Pedro, que era mor. Estes ambos o serviam | muito, [de] que gram sabor havia o home bõo | (e fazia gram razom). 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde lh’ avo um dia | que ao maior mandou que foss’ a ũa sa vinha | veer, que ele chantou; e, o moç’ alá estando, | avo que cativou, e levara-no a Ronda | por haver del remissom. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E logo na almoeda | o meterom essa vez; des i, compro’-o um mouro | que deu por ele seu prez de por quanto lho venderom, | e ma[n]tenent’ al nom fez e enviou-o na récua | a Aljazira entom. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E alá u [o] levavam, | a Virgem que nos mantém o foi filhar pela mão | e disse: “– Nom temas rem, ca eu te porrei em salvo | (e esto verás tu bem) mui cedo em cas teu padre, | e sem mal e sem lijom”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Mais o padre e a madre | cuidarom morrer, sem al, com coita daquele filho; | e fezerom estadal e forom log’ ao Porto | da senhor espirital 40 721 42 e pedirom-lh’ aquel filho, | chorando com devoçom. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII [E] eles, assi estando, | virom seu filho vĩir Pedro, o mor; e logo | lhes foi contar, sem mentir, que Domingo_era vĩúdo | a sa casa, e, se ir quisessem i, o veriam. | E eles de gram random 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 forom logo, sem tardança, | e acharom com mui gram par de ferros a seu filho; | e tornarom manamám com el a Santa Maria | e derom loores tam grandes que de mui de longe | foi end’ oído o som. 56 As mãos da Santa Virgem, | que tangerom acarom Jesu-Cristo, mui bem podem | sacar presos de prijom. 52 R9 * * * 722 Cantigas de Santa Maria 360 «Loar devemos a Virgem porque nos sempre gaanha» (E 360, F [91]) Esta e de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Ca, em quant’ é de Deus filha | e criada e amiga, em rogar-lhe que nos ame, | sol nom há Deus que lhe diga, e em quant’ El é seu filho, | pero o mundo juíga, de nos perdõar por ela | nom é cousa muit’ estranha. 8 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. 4 R1 II 12 E, pois Deus quis seer home | filhando a carne dela, dali nos fez seus parentes | pora amar-nos por ela; e per esta razom m[e]sma | dev’ El a perder querela de nós, e guardar do demo, | que nos engana per manha. 14 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. 10 R2 III 18 Demais, que dirá Deus Padre | a seu Filh’ o dia forte do juízo, quando lh’ Ele | mostrar a cruz u prês morte e as chagas eno corpo, | que prês pera dar conorte a nós? Nunca piedade | foi nem será já tamanha. 20 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. 16 R3 IV 24 E, demais, como Deus pode | seer contra nós irado quando lhe sa madr’ as tetas | mostrar com que foi criado e disser: “– Filho, por estas | te rogo que perdõado este meu póboo seja | e contig’ em ta companha”. 26 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. 22 R4 V 30 E por aquesto te rogo, | Virgem santa corõada, pois que tu és de Deus filha | e madr’ e noss’ avogada, que esta mercee haja | por ti de Deus acabada: que de Mafomet’ a seita | possa eu deitar d’ Espanha. 32 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. 28 R5 Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha. * * * 723 Cantigas de Santa Maria 361 «Nulh’ home, per rem, nom deve a dultar nem a ter» (E 361, F [83]) Como Santa Maria fez nas Olgas de Burgos a ũa sa omagem que se volveu na cama u a deitarom. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Nulh’ home, per rem, nom deve | a dultar nem a ter que nom pode na omagem | da Virgem vertud’ haver. E dest’ um mui gram miragre, | meus amigos, vos direi que avo na cidade | de Burgos (e mui bem sei que foi e é gram verdade, | ca por assi o achei provad’; e porende quero | del um bom cantar fazer [Refrão = vv. 1-2] a loor da Virgem santa, | a senhor de mui gram prez), que fezo no mõesteiro | das Olgas, que el-rei fez Dom Afonso de Castela, | aquel que primeira vez venceu o senhor dos mouros | po-la fé de Deus creer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Em aquele mõesteiro, | segundo aprendi eu, Dom Afonso, seu bisneto, | ũa omagem i deu da Virgem Santa Maria, | ca aquel rei todo seu era dela, e porende | a mandou ali põer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Em esta, tam gram vertude | meteu Deus, com’ aprendi, que as monjas que moravam | em aquel logar, assi tiinham por gram dereito | de pedir-lhe que log’ i lhes comprisse sas demandas, | e nom lhe davam lezer 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V de pedir-lhas; e tantoste | a reinha_espirital fazia por sa omagem | come se fosse carnal, ca lhes dava seu conorte | e guardava-as de mal e fazia-lhes saúdes | de sas doores haver. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Demais, era tam bem feita | e de tam homil faiçom que quenquer que a viía, | em ela gram devoçom havia. Porend’ as monjas | todas mui de coraçom a honravam e serviam | a todo o seu poder. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ond’ avo ena noite | de Navidad’ (em que faz Santa Igreja gram festa) | que as monjas, por solaz, fezerom mui rico leito, | e, come molher que jaz, 40 724 42 deitarom i a omagem | e fezerom-na jazer R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII come molher que parira. | E as monjas arredor do leito pousarom todas; | e seend’ a gram sabor catand’ aquela omagem, | virom-lhe mudar coor na face e dũu lado | ao outro revolver. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Entom todo o convento | se filhou muit’ a chorar, porque tam gram maravilha | lhes quisera Deus mostrar pola sa beita madre, | em que El quis encarnar e em tal noite com’ esta | por nós sem door nacer. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E entom toda-las monjas | s’ ergerom cantando bem: “– Santa Virgem sem mazela, | que per bondad’ e per sém feziste que Deus o Padre, | que o mundo em si tem e em que os ceos cabem, | que podess’ em ti caber”. 62 Nulh’ home, per rem, nom deve | a dultar nem a ter que nom pode na omagem | da Virgem vertud’ haver. 58 R10 * * * 725 Cantigas de Santa Maria 362 «Bem pode Santa Maria seu lum’ ao cego dar» (E 362, F [42], U 95) Esta é como Santa Maria fez cobrar o lume a um ourívez que era cego, em Chartes. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Bem pode Santa Maria | seu lum’ ao cego dar, pois que dos pecados pode | as almas alumar. E de tal razom com’ esta um miragre mui fremoso a Virgem Santa Maria, | bem ena vila de Chartes, | vos quer’ eu ora dizer | que foi em França fazer que fez um cego veer | como vos quero contar. [Refrão = vv. 1-2] Este ceg’ ourívez fora, | que nom houvera melhor em tod’ o reino de França | ne-nas terras arredor, e em servir sempr’ a Virgem | havia mui gram sabor; e porend’ ũ’ arca d’ ouro | fora mui rica lavrar R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III pora trager as relíquias | sempre ena precissom. E porém vendê-la fora | ena see de Leom, e dera dela por algo | e dela dera em dom, pois que soube que haviam | as relíquias i andar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Esta foi aquela arca | de que vos eu já falei que tragiam pelo mundo | por gãar, segund’ achei escrito, porque s’ a vila | queimara (como contei outrossi) e a igreja | toda senom o altar 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V u estas relíquias eram. | E tantoste manamám as filhou logo correndo | um que era i daiám, e levou-as pelas terras | e sofreu mui grand’ afám por gãar com elas algo | com que podessem cobrar 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI a igreja que perderam. | E grandes miragres fez por elas Santa Maria, | como vos dix outra vez; ca eram i sas relíquias | desta senhor de gram prez, e queria Deus por elas | grandes miragres mostrar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Andand’ assi pelas terras, | a Chartes houverom d’ ir, u aquel ourívez era | cego; e, pois foi oir da arca com’ era feita, | disso logo, sem falir: “– Par Deus, eu fiz aquel’ arca | ante que fosse cegar”. 40 42 726 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E mandou-se levar logo | alá a homees seus, dizendo: “– Se alá chego, | bem hei fiúza em Deus e na sa madre beita | que veerei destes meus olhos, que por meus pecados | muit’ há se forom serrar”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, pois que foi ant’ a arca, | se deitou e lhe pediu mercee muito chorando; | e da água que saiu, com que a arca lavaram, | pelos olhos troux’, e viu mui melhor que ante vira. | E filhou-s’ a braadar, 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 chamando “– Santa Maria, | madre do bom rei Jesu, porque vejo dos meus olhos, | mui beita sejas tu; e, pois m’ este bem feziste, | quando me for mester, u teu filho sever julgando, | queiras por mi razõar”. 62 Bem pode Santa Maria | seu lum’ ao cego dar, pois que dos pecados pode | as almas alumar. 58 R10 * * * 727 Cantigas de Santa Maria 363 «Em bom ponto vimos esta senhor que loamos» (E 363, F [59]) Como Santa Maria livrou de prijom um cavaleiro por ũa cantiga que lhe fez, que tiinha preso el-com Simom. R0 2 I 6 Um trobador em Gasconha | era, e trobava al-com Simom e a muitos, | ’si que se queixava a gente del, ca diziam | que os dostava; mas quantos somos no mundo, | enquanto vivamos, 7 8 em bom ponto vimos esta | senhor que loamos, que nos tam cedo acorre | quando a chamamos. 4 R1 Em bom ponto vimos esta | senhor que loamos, que nos tam cedo acorre | quando a chamamos. II 10 12 El-com Simom era conde | rico_e poderoso e disse_a um seu home, que | nom foi preguiçoso: “– Vai-me logo prender aquel | trobador astroso, e busca fortes prijões | em que o metamos”. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El indo per um caminho | mui dessegurado, chegou aquel mandadeir’ e | filhou-o privado e adusse-o al-cond’; e | foi logo deitado em prijões (u jouvessem | quantos desamamos!). 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El-com Simom muitas vezes | jurado havia que o trobador matasse | log’ em outro dia; mais a nossa avogada, | reinha Maria, a vegadas nos estorva | do mal que pensamos. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V [U] el se viu nas prijões, | cuidou que morresse, e chamou Santa Maria | que lhe socorresse, e jurou-lh’, ali jazendo, | que, mentre vivesse, polo seu amor trobasse, | de que nós trobamos. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 Pois que o trobador houv’ a | oraçom comprida, achou-s’ encima dum monte, | cabo dũa ’rmida da Virgem Santa Maria, | que lhe dera vida e o guardou de tal morte | que todos dultamos. 38 Em bom ponto vimos esta | senhor que loamos, que nos tam cedo acorre | quando a chamamos. 34 R6 * * * 728 Cantigas de Santa Maria 364 «Quem por serviço da Virgem mete seu corp’ em ventura» (E 364) Como Santa Maria do Porto guardou [trinta] homes que cavavam terra pera sa igreja, e caeu ũa torre sobr’ eles e nom lhes empeeceu. R0 2 I 4 6 Quem por serviço da Virgem | mete seu corp’ em ventura, de tod’ ocajom o guarda, | ca é senhor de mesura. Desto direi um miragre | que eno gram Port’ avo que chamam «da Groriosa», | que cabo do Mar Terro éste e cabo do Grande | (que tem a terra no so e cerca todo o mundo, | segum diz a Escritura). R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Ali faziam eigreja, | em que lavrava gram gente, pera esta senhor santa, | todos de mui bõa mente; e faziam fondamentos | fondos, per que mais tente foss’ a obra, e mais firme, | todo de pedra mui dura. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E havia-na tam fonda | feita que que-na bem visse cuidaria que nulh’ home, | per rem, dela nom saísse se dentr’ em ela caesse, | mais que tantoste fĩísse, ca o logar era fondo | muit’, e a cova escura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ali jaziam cavando | um dia trinta obreiros s[o] esquina dũa torre, | por gaanhar seus dinheiros; e a torre, que estava | posta sobre terronteiros, leixou-se caer sobr’ eles. | Mais nom houverom ém cura; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ca a Virgem gloriosa, | em cujo serviço_estavam lavrando na sa igreja, | em que de grado lavravam, guardo’-os entom de guisa | que nium mal nom filhavam em nium nembro do corpo | nem sol ena conjuntura. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Ante, ficarom tam sãos | bem como quand’ i entraram [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]aram [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]aram [. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]ura. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E, se ante bem lavravam, | mui melhor depois lavrarom, assi que em pouco tempo | a egreja acabarom mui fremosa e mui forte, | tal que quanto-la catarom disserom que nom havia | tal em tod’ Estremadura. 40 42 R7 44 Quem por serviço da Virgem | mete seu corp’ em ventura, de tod’ ocajom o guarda, | ca é senhor de mesura. * * * 729 Cantigas de Santa Maria 365 «Bem tira Santa Maria, pela sa gram piedade» (E 365) Esta CCC e LXV é como Santa Maria tirou de dulta um frade noviço que dizia que a alma nom era nada, no mõeste[i]ro de Fontefria, em Narbona. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Bem tira Santa Maria, | pela sa gram piedade, ao pecador de dulta | e de maa torpidade. E sobr’ aquest’ um miragre | ora contar-vos querria que por um monge noviço | mostrou a Virgem Maria, que era dum mõesteiro | que chamam de Fontefria, que [é] no arçobispado | de Narbona, a cidade. [Refrão = vv. 1-2] Este monge, com loucura | grande que lh’ o demo dava, sempre, a noit’ e o dia, | em seu coraçom dultava que a ’lma nada nom era | senom vento que passava tost’ e que se desfazia | come fum’; e em verdade R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III tiinha de tod’ em todo | aquesto que assi era. Assi andava perdudo | per sém que lh’ o demo dera, que o metia em dulta, | e cuidava i mui fera-ment[e] a noit’ e o dia | por sua gram ne[i]cidade. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E est’ andava cuidando | tanto que disse, sem falha, que na órdim nom querria | viver: “– Ca, si Deus me valha,” –diss’ el– “pois que ést’ a alma | atal como nemigalha, quer’ hoimais andar viçoso | e comprir mià voontade”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V ũa noit’ assi jazendo, | cuido[u] como se saísse do mõesteir’ e da órdim | que o nengũu nom visse; vistiu-se log’ e calçou-se, | ca, atá que nom comprisse seu cuido, nom folgaria. | E, por fazer tal maldade, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI pareceu-lh’ a Gloriosa | com d’ ángeos gram companha, que levavam ũa alma | dum pobre, mans’ e sem sanha, a ceos, com claridade | e alegria tamanha que contar nom saberia. | E diss’ ela_: “– Estade,_estade, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e verá aqueste monge | que anda em gram loucura em cuidar que nom é nada | a alma, ca da altura deceu meu filh’ e prês morte | por ela fort’ e mui dura; e quem nom cree aquesto, | ment’ e faz gram falsidade”. 40 42 730 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Quand’ aquesto viu o monge, | teve-se por mui culpado e tornou-s’ ao dormidoiro | e foi mui led’ aficado daquela visom que vira | e de [sa] dulta tirado, e viveu sempr’ em sa ordem | com bem e com homildade. 50 Bem tira Santa Maria | pela sa gram piedade ao pecador de dulta | e de maa torpidade. 46 R8 * * * 731 Cantigas de Santa Maria 366 «A que em nossos cantares nós chamamos “Fror das frores”» (E 366) Esta CCC e LXVI é como Santa Maria do Porto fez cobrar a Dom Manuel um açor que perdera. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que em nossos cantares | nós chamamos «Fror das frores», maravilhoso miragre | fez por ũus caçadores. E de tal razom com’ esta | ũa maravilha fera avo já em Sevilha | eno tempo que i era el-rei, e que de Grãada | de fazer guerra vera aos mouros dessa terra, | que i eram moradores, [Refrão = vv. 1-2] e outros muitos genetes | que d’ África i passaram; ca todos filharom dano | dele, qual nunca filharam, em pães, hortas e vinhas | e em quanto lhes acharam. E, pois aquesto foi feito, | el-rei com seus lidadores, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III quand’ este feito fezerom, | tornarom pera Sevilha. E el-rei mui mal doente | foi i, a gram maravilha, mais guariu pela mercee | da que é madr[e] e filha de Deus, que o guarecera | já doutras grandes doores. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV [E], enquant’ el guarecia, | Dom Manuel, seu irmão, vo i, e foi enfermo; | e, pois guariu e foi são, filhou-se com seus falcões, | que mudara no verão, a caçar, que é dos viços | do mundo um dos maiores. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, ind’ a aquela caça, | levou poucos cavaleiros, mais levou outra gram gente | de mui bõos falcõeiros que levavam seus falcões | de garça, e ar grueiros; mais, ante que se tornasse, | perdeu ũu dos melhores, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI que se foi da outra parte | d’ Aguadalquivir voando, de guisa que foi perdudo. | E andaro-no buscando bem preto de três domaas, | e sempre apregoando, cuidando que o achara | algum desses lavradores 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII que os acham a vegadas | e os tem ascondudos e os vam vender a furto | por nom serem conhoçudos. Porém mandou o infante | que fossem apercebudos 40 732 42 seus falcõeiros, e logo | filhou dos mais sabedores R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII e foi com eles a caça | ao Chão de Tablada, em dereito da aldea | que Coira éste chamada; e virom da outra parte, | no Exarafe, coitada ũa ave que tragia | um falcom dos montadores 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX por filhá-la. E tantoste | aquel falcom conhocerom que era o que perderam, | e em el mentes meterom, e o falcom e a ave | virom como se mergerom e forom caer em terra. | Mais os que conhocedores 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X eram de conhocer aves, | que doral era bem virom. E Dom Manuel e todos | logo mercee pidirom a[a] Virgem do gram Porto, | de que falar muit’ oírom, que, se lhes o falcom désse, | que de cera com loores 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI um falcom lhe dessem feito, | que mui de grado fariam, e que ena sa igreja | ant’ o seu altar porriam; e, pois esto_houverom dito, | chamarom quanto podiam o falcom que lhes vesse. | Mais, macar braadadores 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII eram muito em chamá-lo, | nem per siso nem per arte sol vĩir nom lhes queria; | ca falcom, tra u se farte da caça que há filhada, | com medo que o enarte o que o trage_em tolher-lha, | punha d’ haver seus sabores 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII em comer quanto mais pode. | Mais Dom Manuel, com manha d’ aquele falcom havê-lo, | apartou-se da companha e chamou-o mui de rígio; | e maravilha estranha foi, ca log’ a ele vo | em um campo_u aradores 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV 84 com seus bois ali aravam. | O falcom passou aginha de Guadalquivir o rio | com seu doral que tiinha e pôs-lo ant’ o infante, | que loou muit’ a reinha dos ceos, Santa Maria, | que é senhor das senhores. 86 A que em nossos cantares | nós chamamos «Fror das frores», maravilhoso miragre | fez por ũus caçadores. 82 R14 * * * 733 Cantigas de Santa Maria 367 «Grandes miragres faz Santa Maria» (E 367) [C]omo Santa Maria do Porto guareceu a rei Dom Afonso dũa grand’ enfermedade de que lhe inchavam as pernas tam muito que lhe nom podiam caber enas calças. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Grandes miragres faz Santa Maria e fremosos a quem s’ em ela fia. Ca em aquele que s’ a ela chama e a serv’ e a loa e a ama, macar jaça em leito ou em cama com gram door, sãa-o todavia. [Refrão = vv. 1-2] Dest’ um miragre quero que sabiades que fez mui grande na que esperades todos mercee e u a achades em todo tempo, de noit’ e de dia. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 Aquest’ avo al-rei de Castela e de Santiago de Compostela quand’ ia veer a igreja bela que el fezera na Andaluzia, R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 que em mui pouco tempo acabada foi a honra da Virgem corõada, e de torres e de muro cercada, segund’ aquel logar mester havia. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Aquel rei fora enferm’ em Sevilha de grand’ enfermidade_a maravilha, de que guariu por aquela que trilha mui mal o demo cho de perfia. R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 E, pois [guariu] desta enfermidade, el-rei houv’ entom mui gram voontade d’ ir a logar u tam gram santidade há com’ ali; e el em romaria R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 foi alá logo per mar e per terra. E, macar lh’ o tempo fez mui gram guerra, guio’-o bem aquela que nom erra 734 42 R7 43-44 VIII 46 48 a que-na serve bem sem oufania. [Refrão = vv. 1-2] E, ind’ el-rei per mar, tanto lh’ incharom as pernas ambas e se lhe pararom assi vermelhas que todos cuidarom que daquel mal mui tarde sãaria. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 Ca já de tal guisa inchad’ haviam que enas hosas caber nom podiam; demais, os coiros delas se fendiam e água amarela ém saía. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 58 60 Mais el-rei, que toda sa esperança havia ena Virgem, sem dultança, nom quis por esto fazer demorança, mais foi-s’ ao Porto quant’ ir podia. R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 64 66 E chegou vernes aa sa igreja daquesta Virgem que beita seja, e com esta_enfermidade sobeja foi ant’ o seu altar ter vegia. R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 70 72 E, quando os madudinhos começarom os seus clérigos, que os bem cantarom, log’ amba-las pernas lhe desincharom e guareceu daquela maloutia. R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 E el-rei log’ e toda sa companha, que virom a maravilha tamanha, loarom muit[o] a que nos gaanha de Deus saúd’ e nos dá alegria. 80 Grandes miragres faz Santa Maria e fremosos a quem s’ em ela fia. 76 R13 * * * 735 Cantigas de Santa Maria 368 «Como nos dá carreiras a Virgem, que façamos» (E 368) [C]omo Santa Maria do Porto guariu ũa molher dũa coobra que tragia eno ventre, e havia bem três anos. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Como nos dá carreiras | a Virgem, que façamos bem, outrossi nos mostra | como mal nom hajamos. De tal razom com’ esta | um miragre mui grande direi, que fez a Virgem | (a que queira que ande eu ena sa companha | e ao demo mande que no inferno more, | u nunca o vejamos). [Refrão = vv. 1-2] ũa molher morava | cabo Santa Maria de Córdova, a grande, | e o seu nom’ havia; e dentro no seu corpo | cuidava e creía que tragia coobra, | donde nos espantamos. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E com aquesta coita | bem per Estremadura passou e a Castela | foi; e tal aventura lh’ avo: que em sonhos | lhe disserom: “– Loucura fazes porque a Silos | nom vás, u nós moramos, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que fomos end’ abade; | e dar-t’-emos conselho per que bem guarir possas, | ca nom é por trebelho esto que te dizemos; | que a que é espelho de nós todo-los santos | e por senhor catamos, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V guiará ta fazenda, | per que sejas guarida”. E ela foi-s’ a Silos; | e, pois que fez sa ida, ar disserom-lh’ em sonhos: | “– Ainda tu comprida nom hás ta romaria, | per como nós cuidamos; 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI mais, se tu perder queres | doores e pesares, vai-t’ a Santa Maria | que jaz ontre do[u]s mares, que chamam o Gram Porto; | e, pois que i chegares, log’ haverás conselho: | desto nom dovidamos”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII A molher outro dia | meteu-se na carreira; e, quando foi no Porto | da senhor verdadeira, tevo i sa vigia, | e, jazendo senlheira 40 736 42 dormindo, viu em sonhos | quem lhe disse: “– Vaamos R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII a Cáliz atantoste | que for a madurgada, aa see que éste | de Santa Cruz chamada (em que meu filho posto | foi, ond’ eu fui prenhada), e haverás saúde, | ca nós por ti rogamos”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Ela fez outro dia | bem como lhe mandarom, e log’ em ũa barca | entrou, e pois entrarom no mar ela e outros; | e, pois Cáliz catarom e virom a igreja, | disserom: “– Deus loamos 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e a Virgem, sa madre, | a que nom há parelha”. Entom abriu a boca | a molher, e vermelha deitou ũa coobra | per ela, a semelha dũa anguia grossa; | de certo o creamos. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Quantos aquesto virom | forom maravilhados, e a Deus e sa madre | forom loores dados; e, pois forom de Cáliz | ao Porto tornados, loarom muit’ a Virgem, | cujo bem asperamos. 68 Como nos dá carreiras | a Virgem, que façamos bem, outrossi nos mostra | como mal nom hajamos. 64 R11 * * * 737 Cantigas de Santa Maria 369 «Como Jesu-Cristo fezo a Sam Pedro que pescasse» (E 369) Como Santa Maria guardou ũa bõa molher de Santarém de mal dum alcaide malfeitor, que a quisera meter em pérdeda de quant’ havia por ũa sortelha que lhe deitara em penhor. R0 2 4 I des, Como Jesu-Cristo fezo | a Sam Pedro que pescasse um pe[i]xe_em que achou ouro | que por si e el peitasse, outrossi fez que sa madre | per tal maneira livrasse a ũa molher mesquinha, | e de gram coit’ a tirasse. E de tal razom com’esta | vos direi um gram miragre, | sol que me bem ascoite- 6 que fezo Santa Maria, | porque mui mais doutra cousa | sempr’ em ela confie- des; 8 ca nunca o atal fezo | que s’ ém mui bem nom achasse e que lho a Santa Virgem | pois bem nom gualardõasse. [Refrão = vv. 1-4] R1 9-12 II 14 16 Em Santarém contiu esto | a ũa molher tendeira, | que sa cevada vendia, e dizia ameúde: | “– Aquel é de mal guardado | que guarda Santa Maria”. E colhera-o por uso | em quequer que razõasse e em toda merchandia | que vendess’ e que comprasse. [Refrão = vv. 1-4] R2 17-20 III 22 24 Um alcaid’ era na vila, | de mal talám e sanhudo, | soberv’ e cobiiçoso, que per el nium dereito | nunca bem era juigado; | demais, era orgulhoso e cobiiçava muito | por achar em que travasse a quenquer, ou pobr’ ou rico, | per que algo del levasse. [Refrão = vv. 1-4] R3 25-28 IV 30 Ond’ avo que um dia | seus homees do alcaide, | estand’ ant’ el, razõavam daquela molher, dizendo | que a tiinha[m] por louca, | e muit’ ende pos- façavam. 32 Diss’ o alcaide: “– Quem lh’ ora | fezesse per que errasse e que daquela paravla | por mentiral ém ficasse!; [Refrão = vv. 1-4] R4 33-36 V 38 40 mais hei agora osmado | ũa cousa per que logo | em est’ erro a metades: filhad’ esta mià sortelha: | e dade-lha por cevada, | que me log’ aqui tragades”. E enviou dous, dizendo | a cada um que punhasse em lhe furtar a sortelha, | per que pois se lh[e] achasse. [Refrão = vv. 1-4] R5 41-44 VI 46 48 E eles assi fezerom; | ca forom ali correndo | e comprarom-lh’ a cevada e ar derom-lh’ a sortelha, | que em penhos a tevesse | atá que fosse pagada. Mais nom quiso ũu deles | que o anel lhe durasse, ante buscou soteleza | per que lho logo furtasse: 738 [Refrão = vv. 1-4] R6 49-52 VII 54 56 ca enquanto ũu deles | recebia a cevada | que lh’ a bõa molher dava, o outro de sobr’ um leito, | u posera a sortelha, | atantoste lha furtava. E tornarom-s’ a seu dono | dizendo que s’ alegrasse, e a sortelha lhe derom, | mais que os nom mesturasse. [Refrão = vv. 1-4] R7 57-60 VIII 62 64 Outro dia o alcaide | mandou aos dous ma[n]cebos | que enviara primeiros, que fossem logo correndo | a aquela molher bõa | e lhe dessem seus dinheiros, que logo a sa sortelha | mantenente lhe tornasse, e, se nom, que, quant’ havia | a molher, que lho filhasse. [Refrão = vv. 1-4] R8 65-68 IX te Eles forom muit’ aginha | e pagarom seus dinheiros | bem e mui compridamen70 72 a aquela molher bõa, | e pedirom-lh’ a sortelha (d’ ouro fim, | ca nom d’ arente, ond’ a pedra foi vermelha, | que [quen]quer que a catasse, por rubi, sem nulha dulta, | cuido que [a] juigasse). [Refrão = vv. 1-4] R9 73-76 X 78 80 A dona, quand’ oiu esto, | foi por filhar a sortelha | dali onde a posera, mas nom achou nemigalha, | pero a andou buscando; | e foi em gram coita fera, e rogou a um daqueles | que o alcaide rogasse que se sofresse um pouco | até em que [a] achasse. [Refrão = vv. 1-4] R10 81-84 XI 86 O alcaide, mui sanhudo, | disse que o nom faria, | mais que lhe déss’ a sortelha, de que o vinc’ era d’ ouro, | mui bem feit[o] e fremoso, | e a pedr’ era vermelha; 88 [Refrão = vv. 1-4] R11 89-92 XII A molher, quando viu esto, | com mui gram coita chorando diss’: “– Ai Virgem gloriosa, 94 96 R12 97-10 XIII R13 105-8 XIV R14 113-6 XV e, se lh[a] logo nom désse, | que quant’ havia lh’ entrasse, até em que a valia | da sortelha lhe dobrasse. aquel é de mal guardado, | mià senhor, a quem tu guardas; e porend’, ai piadosa, nom quisesses, senhor bõa, | que a tal coita chegasse que, com pobreza mui grande, | pelas portas mendigasse”. [Refrão = vv. 1-4] [E], ela dizend’ aquesto, | o alcaide mui sobêrvio | cavalgou em seu cavalo 102 e deceu-se pera Tejo, | por dar-lhe_a bever no rio | e o topete lavá-lo; e, lavando-o de rejo, | quis Deus que lh’ escorregasse 104 aquel seu anel do dedo | e ena água voasse. [Refrão = vv. 1-4] O alcaide, pois viu esto, | tornou-se trist’ e coitado | pera sa casa aginha; 110 des i, todo seu despeito | daquel anel que perdera | tornou sobre-la mesquinha, e mandou a um seu home | que tam muito a coitasse 112 atá que, de quant’ havia, | de todo a derrancasse. [Refrão = vv. 1-4] A bõa molher coitada | foi tanto daqueste feito | que sol nom soube conselho 739 118 de si nem ar que fezesse; | e diss’: “– Ai Santa Maria, | tu que és lum’ [e] espelho 120 [Refrão = vv. 1-4] R15 121-4 XVI u se catam os coitados, | ca nom foi quem se catasse em ti, co-na mui gram coita, | que se bem no[m] conortasse”. Ela havendo gram coita | e fazendo mui gram doo, | vo a ela sa filha 126 dizendo: “– Madre, comede | e havede_algum conorto; | ca seria maravilha, se com tal coita morrerdes, | que voss[a] alma entrasse 128 em paraíso, ca nunca | i entrou quem se matasse”. [Refrão = vv. 1-4] R16 129-3 XVII Des que lh’ aquest’ houve dito, | foi-se corrend[o] a Tejo, | u o pescado vendiam, 134 e preguntou os dos barcos | que lhe dissessem verdade | se algum pe[i]xe tragiam. Diss’ um deles: “– Eu o trago, | que com mià molher casse, 136 mais pero vender-mi_o-ia | a quem mi_o mui bem comprasse”. [Refrão = vv. 1-4] R17 137-1 XVIII Disse-lh’ ela: “–E som muitos?” | Respôs el: “–Par Deus de ceo, | nom é mais dũ[u] senlheiro, 142 que filhei ora no rio, | u andávamos pescando | eu e um meu companheiro”. Rogou-lh’ ela entom muito | que, por Deus, que lho mostrasse 144 e que, quanto x’ el quisesse, | dinheiros por el filhasse. [Refrão = vv. 1-4] R18 145-8 XIX Des que lh’ houv’ assi comprado | aquele pe[i]xe,_a meninha | foi-s’ a sa madre correndo, 150 e disse-lh’: “– Ai madre bõa, | mais val de car daqueste | ca jazer assi gemendo”. 152 R19 153-156 XX [Refrão = vv. 1-4] Entom filho’ a meninha; | e, pois lavou aquel peixe, | quando foi que o abrisse, 158 em abrindo catou dentro | e viu jazer a sortelha, | e log’ a sa madre disse como_aquel anel achara. | E ela que lho mostrasse 160 mandou; e, poi-lo viu, logo | ar mandou que se calasse. R20 161-164 XXI Entom lhe mandou a madre | que o peixe lh’ adubasse e o lavasse de dentro | e de fora escamasse. [Refrão = vv. 1-4] Outro dia o alcaide | vo, irad’ e sanhudo, | a sa casa por prendê-la 166 se lh’ a sortelha nom désse, | pois lhe dava seus dinhe[i]ros, | que morreria por ela. 168 R21 169-172 XXII Entom chorand’ a mesquinha | rogou que a ascoitasse, dizendo que lha daria, | sol que lh’ o seu entregasse. [Refrão = vv. 1-4] El disse que lhe prazia. | Entom ela ante todos | tirou o anel do dedo 174 e deu-lho. E ele, logo | que o houve conhoçudo, | filhou-se-lh’ ém mui gram medo; 176 R22 177-80 XXIII e ant’ o póboo todo | lhe rogou que lhe contasse em qual guisa o houvera, | que nulha rem nom leixasse. [Refrão = vv. 1-4] E ela contou-lho todo | em qual guisa o hou[v]era; | e, pois lho houve contado, 182 ar disse-lh’ el a verdade | em como a enganara, | e deu-s’ ende por culpado, 740 184 R23 185-88 XXIV R24 e ante toda a gente | rogou que lhe perdõasse, e do seu, que lhe tolhera, | deu que-na apoderasse. [Refrão = vv. 1-4] Entonce toda a gente | que i era assũada | derom mui grandes loores 190 por tam fremoso miragre | aa Virgem gloriosa, | que é senhor das senhores; e, dando vozes, diziam: | “– Quem foi quem te semelhasse 192 de guardar os seus de dano | nem tam be-nos amparasse?” 194 196 Como Jesu-Cristo fezo | a Sam Pedro que pescasse um pe[i]xe_em que achou ouro | que por si e el peitasse, outrossi fez que sa madre | per tal maneira livrasse a ũa molher mesquinha, | e de gram coit’ a tirasse. * * * 741 Cantigas de Santa Maria 370 «Loemos muit’ a Virgem Santa Maria» (E 370) Esta é de loor de Santa Maria. R0 2 I 6 Devemos-lhe dar mais de cem mil loores, pois que a Deus progue, Senhor dos senhores, que dela prês carn’, e as nossas doores em si quis sofrer, como diss’ Isaía. 8 Loemos muit’ a Virgem Santa Maria, madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia. 4 R1 II 12 E de a servir sol nom nos enfademos, outrossi temer e loar, ca sabemos que nos gãará, dos erros que fazemos, perdom pera sempr’, e vid’ e alegria. 14 Loemos muit’ a Virgem Santa Maria, madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia. 10 R2 III 18 Esta nos quis dar Deus por noss’ [a]vogada quando fez dela madr’ e filha juntada; e porém deve seer de nós loada; e atal senhor, quem-na nom loaria? 20 Loemos muit’ a Virgem Santa Maria, madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia. 16 R3 Loemos muit’ a Virgem Santa Maria, madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia. * * * 742 Cantigas de Santa Maria 371 «Tantos vai Santa Maria eno seu Porto fazer» (E 371) Como Santa Maria do Porto guariu ũa molher que perigoara dũa pinaça e caera no mar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Tantos vai Santa Maria | eno seu Porto fazer de miragres que trobando | nom poss’ os mos dizer. Pero direi um daqueles, | que pouco temp’ há que fez, mui grande e mui fremoso, | esta reinha de prez em Barrameda, que éste | muit’ a preto de Xerez; e, po-lo melhor saberdes, | oíde-mi_o a lezer. [Refrão = vv. 1-2] Quand[o] el-rei Dom Afonso | pobrava aquel logar do Porto da Santa Virgem, | e fezera já lavrar a igreja, e vera | i de Sevilha per mar por veer como pobravam | e haver ende prazer, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III muitas gentes i viinham | a aquel logar entom, os ũus em romaria, | havend’ i gram devoçom, os outros pera pobrarem | e por haverem quinhom das herdades que partissem, | segundo podess’ haver. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Outros vinham per lavrarem | e gãar i seu jornal, que lhes davam por britarem | pedra ou por fazer cal ou por lavrar na igreja | da senhor espirital; e porém de muitas partes | viinham i guarecer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Porém per mar e per terra | punhavam i de vĩir muitos e de longas terras, | e por quant’ iam oir que os mortos resurgia | e os doentes guarir fazia ali a Virgem, | e iam-no i veer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Onde foi que de Sevilha | ũa pinaça chegou carregada de farinha, | e d’ homees i entrou companha, e de molheres, | e tanto se carregou que feriu em ũas penas | e houve de perecer, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII assi que morrerom todos | quantos andavam ali; mais ũa molher i era | e chamou, segund’ oí, Santa Maria do Porto, | dizendo: “– Eu vou a ti; porém livra-me de morte | pelo teu mui gram poder”. 40 42 743 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Quando aquest’ houve dito, | travou logo manamám dum gram saco de farinha | e deitou-s’ em el, de pram, de peitos; e, macar era | mui pesado, tornou tam leve come se de palhas | fosse por nom se merger, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ant’ ia sobre-la água | como se fosse_um batel, e ela encima dele, | chus liviãa que froxel, chamando Santa Maria, | madre de Deus Manuel. Assi chegou a Sam Lucas, | u a forom receber 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 as gentes aa ribeira. | E, pois que souberom bem seu feit’ em com’ escapara, | loarom muito porém a madre de Jesu-Cristo, | que o mund’ em poder tem, e ela foi-s’ a[o] Porto | aa Virgem oferer. 62 Tantos vai Santa Maria | eno seu Porto fazer de miragres que trobando | nom poss’ os mos dizer. 58 R10 * * * 744 Cantigas de Santa Maria 372 «Muit’ éste maior cousa em querer-se mostrar» (E 372) [C]omo vo ũa molher de Nevra que raviava, a Santa Maria do Porto, e apareceu-lhe Santa Maria de noit’ e guareceu-a. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muit’ éste maior cousa | em querer-se mostrar a Virgem aos homes | ca d’ enfermos sãar. E dest’ um gram miragre | direi, se vos prouguer, que a Virgem b[]eita | fez por ũa molher na igreja do Porto; | e quem mi_oir quiser direi-lhe com’ avo, | se mi_o bem ascoitar. [Refrão = vv. 1-2] ũa molher de Nevla | forom trager ali, que bem havia cinque | dias, com’ aprendi, que raviava tam forte, | segundo que oí, que mordia as gentes | e come cam ladrar R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III se filhava de rijo. | E por esta razom forom-lh’ atar as mãos | e os pees entom; demais, eram passados | cinque dias que nom comera nem bevera | nem podia folgar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, pois foi na igreja | e o altar catou, aquela rávia grande | toda se lh’ amansou; e, pois dormiu um pouco, | a Virgem a filhou pela mão e disse- | -lh’: “– Eu te venho sãar; 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e des hoimais nom hajas | medo de mal haver, mais há mester que cómias | e que queiras bever; ca eu sõo aquela | que posso guarecer tod’ aquel que na coita | que houver me chamar”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Foi-s’ entom a reinha, | Virgem espirital, e leixou bem guarida | a molher daquel mal; e pediu que comesse | e bevess’ outrotal, e os que i estavam | forom-lho logo dar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Quando viu o marido | que cobrara seu sém sa molher e que era | já guarida mui bem daquela mortal rávia, | deu loores porém 40 745 42 aa Virgem beita, | que se quis mercear R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 dela; e quantos eram | eno logar loor derom porém mui grand[e] | aa santa senhor Virgem e groriosa | madre do Salvador Jesu-Cristo, que vo | em ela encarnar. 50 Muit’ éste maior cousa | em querer-se mostrar a Virgem aos homes | ca d’ enfermos sãar. 46 R8 * * * 746 Cantigas de Santa Maria 373 = 267 «A de que Deus prês carn’ e foi dela nado» (E 267, E 373, F [53]) * * * 747 Cantigas de Santa Maria 374 «Muito quer Santa Maria, a senhor de bem comprida» (E 374) [C]omo ũus almogávares que sempre entravam a terra de mouros e eram desbaratados, teverom vigia na capela do al[cá]çar de Xerez e prometerom-lhe ũa dõa, e entrarom em cavalgada e gãarom mui grand’ algo. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito quer Santa Maria, | a senhor de bem comprida, que, quand’ aos seus ajuda, | que seja deles servida. Desto direi um miragre | grande que me foi mostrado que fezo Santa Maria | (de que Deus quis seer nado) em Xerez, na sa capela | do alcáçar (que gãado foi de mouros per sa graça, | que nunca será falida [Refrão = vv. 1-2] aos que a haver querem). | E porend’ ũus peõ[e]s, almogávares mui bõos | pero jaquanto ladrões, foram mal fazer a mouros | com mui bõos corações; mais gãar rem nom podiam | d’ entrada nem de saída, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III ca sempr’ eram descubertos | e mui mal desbaratados. Mais, depois que entenderom | que esto per seus pecados era, logo mantenente | se teverom por culpados, e em correger cuidavam | muito depois em sa vida. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E houverom seu acordo | que fossem ter vegia ena fremosa capela | da Virgem Santa Maria, e logo em cavalgada | movessem em outro dia, e, se gãassem, a Virgem | houvess’ ém, de sa partida, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V a cousa que mais fremosa | e mais rica i filhassem. E porend’ a gloriosa | lhes fez que desbaratassem ũa récova mui grande | de mouros, e que achassem ũa púrpura mui rica, | feita d’ ouro, mui velida. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, tantoste que a virom, | nom houv’ i quem nom dissesse que aquel pano tam rico | Santa Maria houvesse; e logo_oferer-lho forom | e derom que-no posesse ant’ o altar (e tamanho | foi com’ ele per medida). 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 42 E logo dessa companha | foi a Virgem mui loada; e des ali adeante | nom fezerom cavalgada em que nom gãassem muito, | ca a Virgem corõada lhes guisou cada que forom | que fezerom bõa ida. 44 Muito quer Santa Maria, | a senhor de bem comprida, que, quand’ aos seus ajuda, | que seja deles servida. 40 R7 748 Cantigas de Santa Maria 375 «Em todo nos faz mercee» (E 375) [C]omo Santa Maria do Porto guariu um cavalo dum escrivám del-rei que lhe queria morrer. R0 2 I 4 6 R1 Em todo nos faz mercee a senhor que todo vee. Mercee por humildade nos faz, e por sa bondade acorre com piadade a quem lhe pede mercee. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II 10 12 Sequer enas bêstias mudas nos mostra muitas ajudas grandes e mui conhoçudas a senhor que todo vee. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 E de tal razom, fremoso miragre maravilhoso a madre do Glorioso fez, [e] comprida mercee R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 na cidade de Sevilha (que é grand’ a maravilha) mostrou a madr’ e a filha de Deus, que nos sempre vee, R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 a Bonamic, que havia seu caval’ e lhe morria. Porend’ a Santa Maria do Porto pidiu mercee R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 que, se lh’ o cavalo désse vivo, poren[de] posesse um de cera que sevesse ant’ ela, que todo vee. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 Este_escrivám del-rei era, que do cavalo presera mui gram coita e soubera 749 42 que morria; e mercee R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 46 48 pidiu aa Gloriosa, que é senhor piadosa, que de lho dar poderosa é, ca nossas coitas vee. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 52 54 E u jazia tendudo já come mort’ e perdudo, fez-lho a que noss’ escudo é, viver por sa mercee. R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 E tantoste deu levada, e comeu muita cevada. E porém foi mui loada a senhor que todo vee. 62 Em todo nos faz mercee a senhor que todo vee. 58 R10 * * * 750 Cantigas de Santa Maria 376 «A Virgem, cuja mercee é pelo mundo sabuda» (E 376) [C]omo um home levava um anel a Dom Manuel, irmão del-rei, e perde’-o na carreira, e fez-lho Santa Maria cobrar. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A Virgem, cuja mercee | é pelo mundo sabuda, fazer achar pod’ a cousa | aos que a ham perduda. Ca nom é gram maravilha | d’ enderençar, bem sabiades, as cousas mui mal paradas | [a] que faz as voontades enderençar dos culpados; | porém nunca vos partades, amigos, nas vossas coitas, | de demandar sa ajuda. [Refrão = vv. 1-2] E dest’ um mui gram miragre | avo ũa vegada na cidade de Sevilha, | u fazia sa morada el-rei por guardar a terra, | e que fosse bem pobrada e houvesse per mar frota, | per que fosse mais temuda. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III El em Sevilha morando, | avo que seu irmão Dom Manuel com el era, | que o amava de chão; e o bem que lh’ el fezera | nom lhe saíra em vão, ca em servi-lo sa vida | [el] havia despenduda. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Porend’ el-rei o amava, | e gram dereito fazia. E, u estavam falando | el-rei e ele um dia, um anel lhe mostrou logo | el-rei, que sigo tragia, que dum jáspis mui ric’ era, | pedra nobre conhoçuda, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V e disse que lha daria. | E, pois foi em sa pousada Dom Manuel, el-rei logo | nom quis mais fazer tardada, mais enviou-lh’ a sortelha, | em ouro engastõada, per um home de sa casa; | e diz: “– Muito me saúda 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Dom Manuel e dá-lhe_este | anel, que lh’ hei prometudo”. E o home foi-se logo; | mais nom foi apercebudo de o guardar com’ houvera | a guardá-lo, e perdudo o houve ena carreira; | e, com’ ũa cousa muda, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII nemigalha nom falava. | Mais diss’ em sa voontade: “– Muit’ é mester que me valha, | senhor, a ta piedade, Santa Maria do Porto, | e prometo-ch’ em verdade 40 751 42 seis livras de bõa cera | que em ta casa arduda R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII seja, senhor, e tu val-me | a esta coita tam fera”. El dizendo est’, outr’ home, | que logo pos el vera, achou aquela sortelha | e viu bem que sua era daquele que a levava; | e, pois que houv’ entenduda 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX esta cousa, foi pos ele | em tal que o preguntasse se aquel anel perdera, | e, des i, que o filhasse. E o outro tornou logo, | dizendo-lhe se achasse tal sortelha, que lha désse | e nom lhe foss’ asconduda. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E o outr’ o anel logo | lhe deu, dizendo-lhe:_”– Amigo, nom querria por mià culpa | que vós valia dum figo perdêssedes; mais tomade- | -o logo, ca bem vos digo que, se outro a achasse, | de vós nom fora veúda 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI esta sortelha”. E logo | foi-se com ela correndo u Dom Manuel pousava, | que o estav’ atendendo, e deu-lha; e, poi-lo feito | lhe contou, com’ eu aprendo, tornou-se_al-rei. E, pois lh’ houve | esta cousa retraúda, 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 el-rei e quantos i eram | derom porende loores aa Virgem groriosa, | que mercees e amores nos faz em muitas maneiras, | macar somos pecadores, e d’ acorrer-nos nas coitas | está sempr’ apercebuda. 74 A Virgem, cuja mercee | é pelo mundo sabuda, fazer achar pod’ a cousa | aos que a ham perduda. 70 R12 * * * 752 Cantigas de Santa Maria 377 «Sempr’ a Virgem groriosa ao que s’ em ela fia» (E 377) Como um [rei] deu ũa escrivania dũa vila a um seu criado, e havia muitos contrários que o estorvavam contra el-rei, e prometeu algo a Santa Maria do Porto, e fez-lh[a] haver. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Sempr’ a Virgem groriosa | ao que s’ em ela fia ajuda-o per que vença | gram braveza e perfia. E de tal razom com’ esta | fez um miragr’ a reinha Santa Maria do Porto | por um home que se tinha com ela, e os seus livros | pintava bem e aginha, assi que [a] muitos outros | de saber pintar vencia. [Refrão = vv. 1-2] E porend’ ũa vegada | ũa obra mui fremosa pintava da Santa Virgem, | madre de Deus groriosa; e el-rei, cuj’ hom’ el era, | por amor da preciosa senhor, que el muit’ amava, | prometeu que lhe daria R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III herdade ou outra cousa | que ele dar-lhe podesse, em tal que aquesta obra | sempre a mui bem fezesse; mais o home por mercee | lhe pediu que [el] lhe désse em Vila-Real a meia | dũa sa escrivania. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV El-rei entom outorgou-lha | e mandou que, sem tardada, a carta desta mercee | aberta lhe fosse dada; mais o que tinha os selos | lha houve mui mal parada bem preto de quinze dias; | mais el-rei no-no sabia. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mais, depois que a verdade | deste feit’ houve sabuda, mandou logo que a carta | nom lhe fosse detúda e que lhe déss’ outra toste; | se nom, pa conhoçuda lhe faria que peitasse, | em que al nom haveria. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mais aquele, por meaças | que el-rei lh’ ameaçasse, sol fazer no-no queria, | mais dizia que leixasse aquel[e] outro a carta | e que dela se quitasse, ca seu amig’ o outr’ era | que a meadade_havia. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Sobr’ esto muitas vegadas | mandou el-rei que lha dessem e que, per nulha maneira, | de dar nom lha detevessem, e, se nom, que a sa ira | haveriam, se fezessem 40 753 42 contra esto; mais aqueles | alongavam cada dia. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Mais aquel Pedro Lourenço | que a carta demandava rogou a Santa Maria | do Port’, em que se fiava, que, se el a cart’ houvesse | e per ela a gãava, que maravedis duzentos | lhe désse, ou a valia. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Tanto que esta promessa | el houv’ assi prometuda, logo foi Santa Maria | de tod[o] em sa ajuda e fez contra o notário | que el-rei cara sanhuda lhe mostro’, e log’ a carta | houv’ aquel que a pedia. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quand’ esto Pedro Lourenço | viu, loores deu porende aa Virgem groriosa, | que aos seus [bem] defende, e teve por de mal siso | quem contra ela contende; e filhou logo sa carta | e foi com ela sa via. 62 Sempr’ a Virgem groriosa | ao que s’ em ela fia ajuda-o per que vença | gram braveza e perfia. 58 R10 * * * 754 Cantigas de Santa Maria 378 «Muito nos faz gram mercee Deus Padre, Nostro Senhor» (E 378) [C]omo um home bõo, com sa molher, que morava na colaçom de Sam Salvador de Sevilha, tiinha ũa sa filha doente pera morte, e jouve três dias que nom falou; e prometero-na a Santa Maria do Porto, e guareceu. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Muito nos faz gram mercee | Deus Padre, Nostro Senhor, u fez sa madr’ avogada | e seu Filho salvador. Ca, pois ela avogada | é, e nossa razom tem, nom pod’ al fazer seu filho | senom juigar-nos bem; porend’ estorvo do demo | no-no temos em rem, macar s’ el muito trabalha | de nos ser destorvador. [Refrão = vv. 1-2] Ca nos torva na saúde | fazendo-nos enfermar, creendo o seu conselho, | com que nos faz el pecar, e faz mal aos meninhos | po-lo seu poder mostrar que há de fazer nemiga, | ca dos maos é peor. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Mais a nossa avogada, | que tem bem nossa razom, roga por nós a seu filho | que nos de sa tentaçom daquel astroso nos guarde | e nos livre d’ ocajom e que nos dia saúde | cada que nos mester for. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Onde daquest’ em Sevilha | fez ela miragr’ atal qual vos ora contar quero; | e, des que oirdes qual foi, por grande o terredes, | ca ela, que pod’ e val, mostrou i sa gram vertude, | ca sempre fez o melhor. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E porend’ atal miragre | é d’ oir, se vos prouguer, que fezo Santa Maria | do Porto, e quem quiser sabê-lo, que em Sevilha | avo dũa molher que era mui bem casada | com um home mercador. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Estes haviam sa filha | a que prês enfermidade que per narizes e olhos deitava tanto de sangre 34 36 que amavam mais ca si, | tam grande, com’ aprendi, | e da boca outrossi | que foi perder a coor. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII [E] esteve bem três dias | e noites que nom falou; e, tendo-a por morta, | a mortalha lhe mandou talhar seu padr’, e aginha | as candeas ar comprou. Mais [um] seu compadre logo | se fez seu conselhador, 40 42 755 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII e disse: “– Se vós fezerdes | o que vos quero dizer, esta meninh’ ao Porto | ide logo prometer da Virgem Santa Maria, | e, se sãar, ofrecer lha ide, e mantenente | perderá esta door; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX ca eu mià molher tiinha | que já queria transir, mais, pois lha houv’ outorgado, | Santa Maria guarir a fez; e porém vos rogo | que me queirades oir, e prometede-lh’ a filha, | e seede sabedor 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X que, logo que ofrecerdes, | que a meninha guarrá”. E eles lhe prometerom | que a levassem alá com sas ofertas mui grandes. | E a moça log’ acá viveu, e abriu os olhos | e catou enderredor. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI E, pois, pediu que comesse, | e derom-lhe manamám um ov’ assado mui mole, | e come’-o com do pam. E todos entom loarom | a senhor do bom talám, dizendo: “– Beita sejas, | que dos teus és guardador”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 Entom a moça filharom | e forom-se dessa vez dereitament’ ao Porto | e passarom per Xerez; e, pois forom na igreja | da rainha de gram prez, teverom i sas noveas | sempr’ ant’ o altar maior. 74 Muito nos faz gram mercee | Deus Padre, Nostro Senhor, u fez sa madr’ avogada | e seu Filho salvador. 70 R12 * * * 756 Cantigas de Santa Maria 379 «A que defende do demo as almas dos pecadores» (E 379) Como Santa Maria do Porto se vengou dos cossários do mar que roubavam os homees que viinham pobrar em aquela sa vila. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que defende do demo | as almas dos pecadores, os seus defender bem pode | d’ homes maos roubadores. Dest’ avo no gram Porto | que el-rei pobrar mandava, que é de Santa Maria, | em que el muito punhava de fazer i bõa vila; | porém término lhe dava grande per mar e per terra, | ca logar é dos melhores [Refrão = vv. 1-2] do mundo pera gram vila | fazer ou mui gram cidade. E el-rei de veer esto | havia gram soidade; porém quanto lhe pediam | lhes dava de voontade, em tal que pobrar vessem | i mui ricos mercadores. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E por aquesto sas cartas | lhes mandava, que vessem ali salvos e seguros | com quanto trager quisessem, e que nom houvessem medo, | enquant’ ali estevessem, de perderem, do seu, nada | nem prenderem dessabores 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV per homes de sa terra. | Sobr’ esto, de muitas partes viinham pera pobrarem, | des Génua té em Chartes; mais lenho[s] de catalães, | cossários chos d’ artes, faziam danos nos portos, | ca desto som sabedores. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E roubavam aos mouros | que ali per mar queriam vĩir, e muitos matavam | deles e muitos prendiam; e neũa reverença | aaVirgem nom haviam em cujo término era, | come_homees malfeitores. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Onde foi ũa vegada | que ali um salto derom a mouros que i viinham, | e a todo-los preserom, e quiseram-s’ a sa terra | tornar-se; mais nom poderom, pero tiinham navios | ligeiros e corredores. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Ca a Virgem gloriosa, | cujos som aqueles mares, fez-lhes que se nom podessem | mover daqueles logares du estavam, com mal tempo, | e todo-los seus chufares 40 757 42 fezo que nada nom fossem, | macar eram chufadores. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Assi que pela tormenta, | que foi grand’ a maravilha, nom souberom que fezessem, | senom ir pera Sevilha a tornar o que filharam | a pesar da madr’ e filha de Deus, a que desonraram. | E daquesto fiadores 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX derom al-rei em Sevilha; todo quant’ ali filharam, ca já, per nulha maneira, tornar daquela vegada. | 52 54 | e, depois que entregarom | em seu serviço ficarom, | a sas terras nom ousarom E desto derom loores R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X todos quanto-los oírom | aa Virgem gloriosa, que faz ataes miragres | come senhor poderosa, madre do rei justiceiro. | Ca, pero que piadosa é, nom quer que mal recebam, | per rem, os seus pobladores 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 nem outros que a sa casa | venham per mar e per terra; e, empero que os mouros | a vezes lhe fazem guerra, aos que vee coitados | nunca lhe-la porta serra d’ acorrer com sa mercee, | que é maior das maiores. 68 A que defende do demo | as almas dos pecadores. os seus defender bem pode | d’ homes maos roubadores. 64 R11 * * * 758 Cantigas de Santa Maria 380 «Sem calar» (E 380) [E]sta é de loor de Santa Maria. R0 2 4 6 I 8 10 12 14 16 R1 18 20 21 II 24 26 28 30 32 R2 34 36 38 III 40 42 44 46 Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. Ca ela nom tardou quando nos acorreu e da prijom sacou du Eva nos meteu (u pesar e cuidar sempre nos crecia), mais guiar e levar foi u Deus siía. Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. E amar outrossi devemos mais dal rem; e, com’ eu vej’ e vi, sempre quer nosso bem, ca britar e deitar foi da senhoria quem mezcrar e buscar mal com Deus queria Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. a nós, que somos seus quitamente sem al dela, porque de Deus é madre, que nos val quand’ errar e pecar per nossa folia imos, ar perdõar 759 48 R3 50 52 54 IV 56 58 60 62 64 R4 66 68 70 V 72 74 76 78 80 R5 82 84 86 nos faz cada dia. Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. Ar em dar-lhe loor havemos gram razom, ca Deus a fez melhor de quantas cousas som, que sem par, sem dultar, ést’; e quem diria, em trobar nem cantar, quant’ i converria? Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. Porém nom quedarei de sempre lhe pedir mercee,_e rogar-lh’-ei que se de mi servir quer’ e dar me logar u, quant’ eu querria eixalçar e pojar seus feitos, ma[r]ria. Sem calar nem tardar deve todavia hom’ honrar e loar a Santa Maria. * * * 760 Cantigas de Santa Maria 381 «Como_a voz de Jesu-Cristo faz aos mortos viver» (E 381) [C]omo Santa Maria do Porto resucitou um meninho que morrera, filho dum home bõo que morava em Xerez. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Como_a voz de Jesu-Cristo | faz aos mortos viver, assi fez a de sa madre | um morto vivo erger. Desto direi um miragre | que no Porto conteceu que é de Santa Maria, | dum meninho que morreu, de Xerez, por que sa madre | porém tal coita prendeu que a poucas a mesquinha | houvera d’ ensandecer. [Refrão = vv. 1-2] Seu padre deste meninho | morava na colaçom de Sam Marcos, e Joane | havia nom’; e entom de sa molher Deus lhe dera | aquele filho barom, com que muito s’ alegrava | e prendia gram prazer. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Sancha sa madre chamavam | per nome, com’ aprendi, e amava aquel filho | atanto, segund’ oí, que mais amar nom podia | outra rem; e foi assi que, bem como lho Deus dera, | assi lho ar foi tolher. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca enfermou o meninho | dũa gram féver mortal, e o padre e a madre | com coita del, nom por al, levaro-no ao Porto | da rainha_espirital; e, tendo-o a madre | nos braços, lhe foi morrer. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Sa madre, pois viu que morto | era, ũa gram voz deu dizend’: “– Ai Santa Maria, | dá-m’ aqueste filho meu; se nom, leva-me com ele, | ca mais nom viverei eu eno mundo”. E com coita | foi logo esmorecer. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Da gram voz que deu a madre | quando a Virgem chamou, Jesu-Cristo, o seu filho, | aquel que resucitou Lázaro de quatro dias | e per nome o chamou, fez levantar o meninho | tantost’ e vivo seer 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII mui são e muit’ alegre. | E quantos eno logar estavam e esto virom, | começarom de chorar, e, em chorando, a Virgem | ar filharom-s’ a loar por tam fremoso miragre | que fora ali fazer. 40 42 R7 44 Como_a voz de Jesu-Cristo | faz aos mortos viver, assi fez a de sa madre | um morto vivo erger. * * * 761 Cantigas de Santa Maria 382 «Verdad’ éste a parávoa que disse Rei Salamom» (E 382) [C]omo um ricome pidia um herdamento al-rei que lhe havia a dar por outro que lhe filhara, e no-no podia haver dele; e prometeu algo a Santa Maria, e fez-lho haver logo mui bõo. R0 2 I 6 E Ele assi as cámbia | como lhe vem a prazer, ca, segund’ é Deus e home | e rei, pode-o fazer: Deus porque há gram vertude, | e rei por seu gram poder, e home porque há siso, | entendement’ e razom. 7-8 [Refrão = vv. 1-2] 4 R1 Verdad’ éste a parávoa | que disse rei Salamom: que dos reis as voontades | enas mãos de Deus som. II 10 12 E de tal razom com’ esta | vos quero contar que fez gram miragre_a Santa Virgem | do Porto, cab[o] Xerez, dum ricome que pedia | al-rei herdade_ũa vez, que de dar tudo lh’ era, | mais dizia-lhe de nom. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E [a]l-rei muit’ aficava | que lha désse sem tardar; mais [a]l-rei nom lhe prazia, | ca lha ia demandar em logares que já dera, | que nom podia tomar sem fazer tort’ e pecado. | Porém lhe respôs entom: 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV “– Se queredes que vos herde, | de grado vos herdarei ali u o fazer possa, | ca, per rem, nom filharei cousa que eu dada haja; | mais tal logar buscarei per que sejades herdado | mui bem e vos dé bom dom”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mentr’ el-rei esto catava, | foi-se-lh’ alo[n]gand’ assi ao ricom’ este preito | que houv’ a morar ali muit’, e o seu despendendo; | e, segundo que oí, era Sevilha mui cara | de tod’ a essa sazom 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI u el-rei entom morava. | E porend’ ameúd’ ir havia muit’ a sa casa | o ricom’ e lhe pedir que lhe déss’ o herdamento, | e, se nom, que s’ espedir queria dele e ir-se | ao reino d’ Aragom. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Mais al-rei muito pesava | e tiinha-o por mal, porque ele o criara | e era seu natural, e em Toledo casara | e leixara i sinal 40 762 42 de filhos que lhe naceram. | E aquel ricom’ entom R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII com gram coita que havia | quis al-rei entrar porém; mais, porque o nom colherom, | acordou-s’ (e fez bom sém) e em terra os golhos | ficou e disse: “– Per rem, nom poss’ estar que nom faça | ora ũa oraçom 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX a[a] Virgem gloriosa, | u toda mesura jaz, que ela na voontade | al-rei meta, se lhe praz, que dé aos monges cámbio | por Alvaç[a]; e assaz haverei se me der esto, | e será bom gualardom; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e, se m’ aquesta mercee | Santa Maria fezer do gram Port’, eu lhe prometo | que lhe darei comoquer dez livras de bõa cera, | e filhe-as quem quiser; demais, irei a sa casa | e levarei meu bordom”. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Mentr’ a oraçom fazia | o ricom’, el-rei chamou Dom Manuel, seu irmão, | e com el se conselhou de lhe dar aquel meesmo | que o ricom’ enmentou em sa oraçom; e disse | a um seu de criaçom: 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII “– Vai e chama a Reimondo | de Rocaful, se nom for ido”. E el vo logo | e diz: “– Qué vos praz, senhor?” Diss’ el-rei: “– Eu dar-vos quero | Alvaça, que é melhor pera vós ca outr’ herdade, | ca val muit’ e sem mixom”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 Reimom, pois lh’ el-rei diss’ esto, | porém graças lhe rendeu e loores aa Virgem | do Porto, porque meteu al-rei est’ em voontade; | e o que lh’ el prometeu de cera, fez-lho dar logo, | chorando com devoçom. 80 Verdad’ éste a parávoa | que disse rei Salamom: que dos reis as voontades | enas mãos de Deus som. 76 R13 * * * 763 Cantigas de Santa Maria 383 «O fondo do mar tam chão faz come a terra dura» (E 383) Como Santa Maria de Seg[o]nça guardou ũa molher que queria entrar em ũa nave e caeu n[o] mar, e guareceu e saco’-a Santa Maria. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 O fondo do mar tam chão | faz come a terra dura aos seus Santa Maria, | senhor de mui gram mesura. Dest’ avo um miragre | grand’ e mui maravilhoso, que fezo a santa Virgem, | madre do rei glorioso, por ũa molher que tinha | o coraçom desejoso de a servir noit’ e dia; | e foi em Estremadura. [Refrão = vv. 1-2] Na cidade de Segonça | (que é mui rico bispado) e cabo da grand’ igreja | há um logar apartado que chamam Santa Maria | a Velha, a que de grado ia essa molher bõa, | e em est’ era sa cura. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Esta molher ũa filha | havia que muit’ amava, e a cada ũa delas | ena voontad’ entrava d’ irem veer o sepulcro | de Jerusalém, e dava do seu a que-na guiasse | por poder ir mais segura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, pois aquest’ houve feito, | foi-se logo sa carreira e levou sigo sa filha | porque nom fosse senlheira, ca achar nom poderia | pera si tal companheira. E passou per muitas terras, | e atal foi sa ventura 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que passou o mar em salvo | sem neum detemento, ca, enquanto per el forom, | sempr’ houverom mui bom vento; e, des que forom em Acre, | sem outro delongamento forom veer o sepulcro | no tempo da caentura. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, poi-lo houverom visto, | ar fezerom romarias pelos logares mais santos | dessa terra, u Messias Jesu-Cristo, Deus e home, | andou. E a poucos dias forom em Acre tornadas, | mais nom como quem atura 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII fazendo mui gram morada | em Acre: nom i ficarom, mais aginha se colherom | ao porto e rogarom a aquel cuj’ a nav’ era | que as levass’, e punharom d’ entrar mui toste na nave. | Mais foi tam grand’ a pressura 40 42 764 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII d’ i entrar, e em querendo do batel e[m] essa nave, | mente, e depois a madre | de sobir tost’, e na água | 46 48 | sobir per ũa_escaeira sobiu a filha primeiracuidou a seer arteira caeu com sa vestidura. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, em caendo, chamando | a grandes braados ia: “– Acorre-me, gloriosa, | a Velha Santa Maria de Segonça, em que fio, | e fais que mià romaria acabe compridamente”. | E tantoste da altura 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X dos ceos a Virgem santa | acorreu-a e passou-a bes per fondo da água | su a nave, e sacou-a mui longe da outra parte | eno mar, e pois torno[u]-a arriba viva e sãa | com fremosa catadura. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Todos quantos esto virom | forom mui maravilhados, e os golhos em terra | houverom logo ficados e aa Virgem mui santa | porende loores dados, dizendo: “– B[e]ita sejas, | dos coitados cobertura”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 E, pois esta molher bõa | pela Virgem foi g[u]ardada assi como já oístes, | e, a sa terra tornada, teve na Velha ig[r]eja | noveas, e mui loada foi logo Santa Maria | per ela; e fez cordura. 74 O fondo do mar tam chão | faz come a terra dura aos seus Santa Maria, | senhor de mui gram mesura. 70 R12 * * * 765 Cantigas de Santa Maria 384 «A que por mui gram fremosura éste chamada “Fror das frores”» (E 384) Como Santa Maria levou a alma dum frade que pintou o seu nome de três coores. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 37-38 VII 40 42 R7 43-44 A que por mui gram fremosura | éste chamada «Fror das frores», mui mais lhe praz quando lhe loam | seu nome que doutras loores. Desto direi um miragre, | segundo me foi contado, que avo a um monge, | bõo e bem ordinhado, que as horas desta Virgem | dizia de mui bom grado, e maior sabor havia | desto que doutras sabores. [Refrão = vv. 1-2] Este mui bom clérigo_era | e mui de grado liía nas «Vidas dos Santos Padres» | e ar mui bem escrivia; mai[s] uquer que el achava | nome de Santa Maria, fazia-o mui fremoso, | escrito com três colores. [Refrão = vv. 1-2] A primeira era ouro, | coor rica e fremosa a semelhante da Virgem, | nobre e mui preciosa; e a outra d’ azur era, | coor mui maravilhosa que ao ceo semelha | quand’ é com sas [e]splandores; [Refrão = vv. 1-2] a terceira chamam «rosa», | porque é coor vermelha; onde cada ũa destas | coores mui bem semelha aa Virgem que é rica, | mui santa, e que parelha nunca houv’ em fremosura, | ar é melhor das melhores. [Refrão = vv. 1-2] Ond’ aqueste nome santo | o monge tragia sigo da Virgem Santa Maria, | de que era muit’ amigo, beijando-o ameúde | por vencer o emigo diabo, que sempre punha | de nos meter em errores. [Refrão = vv. 1-2] Onde foi ũa vegada | que jazia mui doente dũa grand’ enfermidade, | de que era empossente; e, pero assi jazia, | viinha-lhe sempre_a mente de seer da Virgem santa | um dos seus mais loadores. [Refrão = vv. 1-2] O abade e os monges | todos veer o verom, e, poi-lo virom maltreito, | um frade com el poserom que lhe tevesse companha; | e, pois ali esteverom um pouco, forom-se logo. | Mais a senhor das senhores [Refrão = vv. 1-2] 766 VIII 46 48 R8 49-50 IX 52 54 R9 55-56 X 58 60 R10 61-62 XI 64 66 R11 67-68 XII 70 72 R12 73-74 XIII 76 78 R13 80 apareceu ao frade | que o guardav’, em dormindo, e viu que ao [seu] leito | se chegava, passo indo, e dizia-lhe: “– Nom temas, | ca te farei ir sobindo mig’ ora a paraíso, | u veerás os maiores; [Refrão = vv. 1-2] ca, por quanto tu pintavas | meu nome de três pinturas, leva[r]-t’-ei suso_ao ceo, | u verás as aposturas, e eno Livro da Vida | escrit’ ontr’ as escrituras serás ontr’ os que nom morrem, | nem ham coitas nem doores”. [Refrão = vv. 1-2] Entom levou del a alma | sigo a santa reinha. E o frade_espertou logo | e foi ao leit’ aginha; e, pois que o achou morto, | fez sõar a campainha, segund’ estableçud’ era | polos seus santos doctores. [Refrão = vv. 1-2] Mantenente o abade | chegou i co-no convento, que eram i de companha | bem oiteenta ou cento; e aquel monge lhes disse: | “– Senhores, por cousimento o que vi vos direi todo, | se m’ ém fordes oidores”. [Refrão = vv. 1-2] Entom contou o que vira, | segundo vos hei já dito; e o abade tantoste | o fez meter em escrito pera destruir as obras | do emigo maldito, que nos quer levar a logo | u sempr’ hajamos pavores. [Refrão = vv. 1-2] E, pois souberom o feito, | loarom de voontade a Virgem Santa Maria, | a senhor de piedade; e, se em algũa cousa | lh’ erraram per necidade, punharom de se g[u]ardarem | que nom fossem pecadores. A que por mui gram fremosura | éste chamada «Fror das frores», mui mais lhe praz quando lhe loam | seu nome que doutras loores. * * * 767 Cantigas de Santa Maria 385 «De toda enfermidade maa e de gram ferida» (E 385) [C]omo Santa Maria do Porto guareceu um home dũa pedrada mui grande, de que nunca cuidara a guarecer, ca tiinha a tela sedada e tornou-se paralítico, e guarece’-o Santa Maria. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 De toda enfermidade | maa e de gram ferida pode bem sãar a Virgem, | que de vertud’ é comprida. Est’ avo em Sevilha | per vertude da rainha dos ceos, Santa Maria | do Porto, u muit’ aginha igreja, u mui loada | fosse, fez i na marinha pera guardar os creschãos | dos mouros e ser bastida [Refrão = vv. 1-2] pera guerrejar or mouros | d’ Espanh’ e os africãos. E porende_em aquel logo | mostrou miragres certãos de muitos que i verom | enfermos e forom sãos, ca os que a sa mercee | mester ham, nunca obrida. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E tam gram sabor haviam | os homes de que sãava os enfermos que quem coita | havia logo chamava: “– Santa Maria do Porto, | val-me!”, e s’ acomendava a ela; e, pois guariam, | faziam alá s[a] ida. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo em Sevilha | que derom ũa pedrada a um home na cabeça | mui grand’, assi que britada lh’ houverom toda a fronte | e a tea assedada, assi que nunca cuidava | da chaga haver guarida. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois viu que nom sãava, | prometeu que ao Porto da Virgem Santa Maria | fosse, que éste conorto dos coitados, se daquela | ferida nom fosse morto, e que de cera levasse | um estadal, sem falida. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mais ante celorgiãos | mostrou com’ era maltreito, dizendo que o sãassem; | mais esto nom foi em preito que conselho lhe posessem. | Porend’ o home contreito houv[e] a seer dum lado, | e foi daquela partida 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII em que a chaga havia, | u foi da pedra ferido. E el, quando viu aquesto, | teve-se por escarnido; mais acomendou-se logo | ao Port’, e foi guarido 40 768 42 e são, bem com’ aqueles | que tornam de mort’ a vida. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E porende deu loores | aa Virgem, e noveas foi ter [en]a sa casa, | e levou i sas candeas de cera, ca nom de sevo | nem d’ azeite nem de teas nem como doutras que ardem | em algũa pobr’ ermida. 50 De toda enfermidade | maa e de gram ferida pode bem sãar a Virgem, | que de vertud’ é comprida. 46 R8 * * * 769 Cantigas de Santa Maria 386 «A que avondou do vinho aa dona de Bretanha» (E 386) [C]omo Santa Maria avondou de pescado al-rei Dom Afonso com mui gram gente que convidara em Sevilha. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que avondou do vinho | aa dona de Bretanha, ar avondou de pescado | um rei com mui gram companha. Desto direi um miragre | que avo em Sevilha, ena cidade mui nobre | que fez Deus por maravilha, ca nom há o[u]tra cidade | que nom semelhasse filha, daquelas que som mais grandes | no senhorio d’ Espanha. [Refrão = vv. 1-2] Ali el-rei Dom Afonso, | filho del-rei Dom Fernando, fez ajuntar mui gram corte; | esto foi no tempo quando tornou da hoste da Veiga | de Grãada, e talhando a andou enredor toda, | o chão e a montanha. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III E, pois que se partiu ende, | vo a Sevilha cedo, em que fazia sas cortes | ajuntar, que des Toledo bem atá em Santiago | e depois dalém d’ Arnedo nom houv’ i quem nom vesse | por nom caer em sa sanha. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Des que todos i chegarom | e el-rei lhes houve dito porque os vĩir fezera, | por paravr’ e por escrito, todos mui bem lho couberom, | dizendo: “– Seja maldito o que passar contra esto | que mandades; ca tamanha 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V prol sua nunca fezerom | homes como nós faremos em fazer vosso mandado; | e, demais, que seeremos vosc’ em assessegamento, | por que pois nom temeremos enquisas de mascarade, | que contra todos reganha”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E, pois aquest’ outorgarom, | foi deles el-rei pagado, e ar outorgou-lhes logo | quant’ houverom demandado em todas sas petições (nas que pediam guisado, ca quem a senhor demanda | sem guisa, é cousa_estranha). 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Enquant’ as cartas faziam | desto, forom convidados todos del-rei que comessem | com el, e que av[o]ndados seriam de quant’ houvessem | mester; e dest’ acordados forom quantos que i eram, | des Tui atá Ocanha. 40 42 770 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Mais sábado aquel dia | era, e muitos cuidavam que pescado nom houvessem, | ca, per rem, no-no achavam a vend[ê]-lo em Sevilha; | e porende se queixavam al-rei os seus despenseiros | dizen[do]: “– Obra d’ aranha 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX é, senhor, se Deus nos valha, | aquesto que vós fazedes!: em convidar tam gram gente, | e pescado nom tedes!” E respôs-lhes el-rei logo: | “– Asperad’ e veeredes que fará Santa Maria, | u jaz mercee quamanha 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X nom poderia contada | seer, per rem, nem escrita; e por aquesto vos mando | que vaades tod’ a fita logo catar os canales | meus, que som mià renda quita, e, se algo i achardes, | no-no paredes per manha, 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI mais aduzede-mi_o logo; | ca eu hei grand’ asperança na Virgem Santa Maria, | que ést[e] mià amparança, que nos dará tal avondo | de pescado que em França nom acharíamos tanto | nem em toda Alemanha”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Eles forom mantenente | a um canal, e acharom de pescado carregadas | quatro barcas, e chegarom com elas log’ a Sevilha; | e a todos avondarom, que sol nom lhes mi[n]g[u]ou dele | que valves [s]’ ũa castanha. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII 78 E quand’ el-rei viu aquesto, | houve mui grand’ alegria, e chorando loou muito | a Virgem Santa Maria que o assi de pescado | avondara aquel dia; ca [o] que a mui bem serve | sempre com ela gaanha. 80 A que avondou do vinho | aa dona de Bretanha, ar avondou de pescado | um rei com mui gram companha. 76 R13 * * * 771 Cantigas de Santa Maria 387 = 349 «Muito praz à Virgem santa, que Deus filhou por parenta» (E 349, E 387) * * * Cantigas de Santa Maria 388 = 295 «Que por al nom devess’ hom’ a Santa Maria servir» (E 295, E 388) * * * 772 Cantigas de Santa Maria 389 «A que pera paraíso irmos nos mostra caminhos» (E 389) [C]omo Santa Maria do Porto guareceu um filho de maestre Pedro de Marselha. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A que pera paraíso | irmos nos mostra caminhos, poder há de sãar velhos | e mancebos e meninhos. Poder há de sãar velho | se é tal que o merece, e outrotal o mancebo | se faz bõa mancebece, outrossi ao meninho | se algum mal lhe contece quand’ ham sas enfermidades | seendo mui pequeninhos. [Refrão = vv. 1-2] E daquesto em Sevilha | mostrou miragre mui grande a Virgem Santa Maria | (que rog’ a seu filh’ e mande que polos nos[sos] pecados | mui sanhudo nom nos ande, mas que do seu paraíso | nos queira fazer vezinhos). R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Este miragre foi feito | em Sevilha, na cidade, por um meninho que era | mui mal doente_em verdade, filho de maestre Pedro | de Marselha, que abade foi já e tornou-se leigo; | e dous filhos fremosinhos 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV de sa molher el havia, | que mui mais ca si amava. E o mor foi enfermo; | ond’ a el muito pesava, de tam grand’ enfe[r]midade | que por morto o juigava: el e sa madre, com coita | del, chamavam-se mesquinhos. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E com gram coita sobeja | que a madre del havia comendo’-o ao Porto | que é de Santa Maria, dizendo que, se vivesse, | que logo em romaria a sa casa o levasse, | e espécias e cominhos 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI com el alá ofrecessem; | ca nom tiinham dinheiros que partir de si podessem, | nem ovelhas nem carneiros dos seus dar nom i queriam, | ca os santos som arteiros, mais dar-lh’-ia dous capões | ou bem leu dous ansarinhos. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E tal promessa com’ esta, | comoquer que pequeninha foss’, assi proug’ aa Virgem, | que dos ceos é reinha: fez que o moço pedisse | de comer, e foi aginha guarid’, e trebelhou logo | co-nos outros mocelinhos. 40 42 773 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 Quand’ esto maestre Pedro | viu, desta guisa loores deu log’ a[a] groriosa: | ca fez filhar dos maiores dous capões que criava, | que fez assar, e sabores filhou grand[es] em comê-los | e em bever bõos vinhos. 50 A que pera paraíso | irmos nos mostra caminhos, poder há de sãar velhos | e mancebos e meninhos. 46 R8 * * * 774 Cantigas de Santa Maria 390 «Sempre faz o melhor» (E 390) Esta [é] de loor de Santa Maria. R0 1 3 I 5 7 R1 8 10 II 12 14 R2 15 18 III 19 21 R3 22 24 IV 26 28 R4 29 31 V 33 35 R5 36 38 Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. A nós faz que nom possamos errar, e a Deus que nos queira perdõar e eno seu paraíso nos dar gram sabor. Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. A nós faz que queiramos Deus servir, e a El que nos faça repentir dos erros e a emenda vĩir com amor. Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. A nós faz que sabiamos Deus temer, e a Ele que queira receber nosso serviço, por nos pois meter u El for. Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. A nós faz que conhoscamos a Deus, e a Ele que nos tenha por seus, pois por nós prês morte pelos judeus com door. Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. A nós faz que o amemos mais dal, e a Ele que nos guarde de mal e do fogo do inferno mortal queimador. Sempre faz o melhor a madre do Senhor salvador. * * * 775 Cantigas de Santa Maria 391 «Como pod’ a groriosa os mortos fazer viver» (E 391) Como Santa Maria do Porto corregeu ũa moça contreita dos nembros que levarom alá em romaria. R0 2 I 4 6 Como pod’ a groriosa | os mortos fazer viver, bem outrossi pod’ os nembros | dos contreitos correger. Desto direi um miragre | que eno gram Porto fez, que é seu desta reinha | gloriosa de gram prez, a ũa moça que vo | i contreita de Xerez, que bes assi nacera, | segum que oí dizer. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II E esta em tal maneira | os pees tortos assi havia: o que [é] d[i]ante, | atrás, com’ eu aprendi, tragia. Porém seu padre | em romaria ali a troux’, e teve noveas | por daquel mal guarecer. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ond’ avo ũa noite | que gram door a filhou aos pees em dormindo, | e tantoste despertou; e a door foi tam grande, | e tam forte braadou come se ferida fosse | ou que cuidass’ a morrer. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E seu padre, que jazia | cabo dela, preguntar lhe foi porque braadara. | Diss’ ela: “– Porque britar me foi os pees a Virgem, | e tornou-s’ a seu altar, e houve door tam grande | qual nunca cuidei haver”. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Logo forom ajuntados | quantos i eram entom, e os pees lhe catarom | e viro-nos de feiçom que os a ter devia, | e tam bem sãos que nom podiam melhor seê-lo. | E porende beizer 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI se filharom a reinha | que taes miragres faz, e cada ũ[u] chorando | poso em terra sa faz, dizendo: “– Beita sejas, | ca toda mesura jaz em ti e toda mercee | pora nos sempr’ acorrer; 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII onde te damos loores | com’ a tam bõa senhor que perdõas os pecados | e sãas toda door; o porende te rogamos | que, se ta mercee for, que no santo paraíso | nos faças tigo caber”. 40 42 R7 44 Como pod’ a groriosa | os mortos fazer viver, bem outrossi pod’ os nembros | dos contreitos correger. * * * 776 Cantigas de Santa Maria 392 «Macar é Santa Maria senhor de mui gram mesura» (E 392) [C]omo Santa Maria do Porto consentiu que enforcassem um home que jurou mentira pelo seu nome. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Macar é Santa Maria | senhor de mui gram mesura, muit’ estranha quem por ela | mente ou faz falsa jura. Ca aquel’ hora que mente | jurando pelo seu nome, tal hora é juigado | que o diabo o tome e que dentro no inferno | o tormente e o dome, ca diabos som monteiros | de Deus, segund’ Escritura. [Refrão = vv. 1-2] E dest’ um mui gram miragre | avo eno gram Porto, dum home que com dereito | foi enforcado e morto, porque jurou jura falsa | na igreja u conorto acham todo-los coitados: | aquest’ é verdade pura. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Est’ hom’ era pastorinho | entom, e barvas pungentes, quando pelos seus pecados | em al nom metia mentes senom furtar quant’ achava, | a vezinhos e parentes; e, macar o castigavam, | sol nom havia ém cura. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo que um dia | furtou a ũa mesquinha um alfamar, e vendê-lo | foi a casa da reinha, madre de Deus, do gram Porto; | mais foi preso muit’ aginha, e ant’ o alcaide vo | por sa gram malaventura, 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V que lhe disse se verdade | era o que querelava aquela molher mesquinha. | E el todo-o negava, e ela no-no podia | provar. E porém mandava o alcaide que jurasse | (ca for’ é d’ Estremadura 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI de jurar sobre tal feito). | E el a jura fazia, e o alcaide meesmo | del a jura recebia. E el meteu-lhe na jura | a Deus e Santa Maria: que ambo-lo cofondessem | se fezera tal loucura, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII e que ante tercer dia | enas sas mãos tornasse do alcaide, em tal guisa | que logo o enforcasse. Entom mandou a um home | que da prijom o tirasse. 40 777 42 E el foi-se_e fez um furto, | em que passou a postura. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII E, logo que fez o furto, | tantoste foi recadado dentro na vila do Port’, e | ant’ o alcaide levado foi com esso que furtara, | que lhe disse: “– Malfadado, já outro furto hás feito | como maa criatura”. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E respôs ao alcaide: | “– Por Deus e por caridade, fazede de mim justiça, | ca jurei gram falsidade; porém nom vos detenhades | em destruir gram maldade, ca d’ hoimais ena mià vida | nom é senom amargura”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X 60 Quand’ est’ oírom as gentes, | loarom os justiceiros Jesu-Cristo e sa madre, | senhores dereitureiros; e logo aquel astroso | filharo-no os monteiros e posero-no na forca | suso na maior altura. 62 Macar é Santa Maria | senhor de mui gram mesura, muit’ estranha quem por ela | mente ou faz falsa jura. 58 R10 * * * 778 Cantigas de Santa Maria 393 «Macar é door a rávia maravilhosa e forte» (E 393) [C]omo Santa Maria do Porto guareceu a um meninho que trouxerom a sa casa ravioso. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Macar é door a rávia | maravilhosa e forte, aginha a tolh’ a madre | do que ena cruz prês morte. Ca segund’ enfermidade, | rávia de melanconia vem, que é negra e forte | e dura e de perfia. Tod’ aquesto há no demo, | e porém Santa Maria, que éste dele contralha, | a tolhe e dá conorte. [Refrão = vv. 1-2] Desto mostrou no gram Porto | mui gram maravilha fera a Virgem Santa Maria | a um home que vera d’ Arcos, e que já raivoso | seu neto ali trouxera em tal que chegass’ i ante | que uviasse prender morte. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Aquel [me]ninho Afonso | nome de batism’ havia, assi come seu avoo | que o ali aduzia; e chegarom ao Porto | mércores, prime[i]ro dia d’ abril, e ena igreja | entrarom com gram conorte, 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV que a Virgem groriosa | aquel mininho sãasse, que atal rávia havia | que quenquer que lh’ ementasse que bevess’ água ou vinho, | que logo nom s’ espantasse, e tam forte se torcia | come quem coita a morte. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Desta guisa quatro dias | passara, que nom bevera cousa que de bever fosse, | e tam gram coita sofrera que tod’ home que o visse | terria que já morrera; mas nom quis a que nas coitas | acorre e dá conorte. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E ena primeira noite | que teve ena igreja vigia da Virgem santa, | que sempre beita seja, de sa enfermidad’ houve | melhoria tam sobeja que beveu [tam] muita d’ água | com que guareceu de morte. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E des ali adeante | foi guarid’ e mui bem são; e, pois desto Dom Afonso, | seu avoo, foi certão: entendeu quem bem servia | aa Virgem, que em vão nom fazia seu serviço, | ca nas coitas dá conorte. 40 42 779 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 E porend’ el e os outros | todos quantos i estavam as mãos contra o ceo | de [con]sũu as alçavam, e log’ a Santa Maria | porende loores davam, porque assi o meninho | guariu de tam cruel morte. 50 Macar é door a rávia | maravilhosa e forte, aginha a tolh’ a madre | do que ena cruz prês morte. 46 R8 * * * 780 Cantigas de Santa Maria 394 = 187 «Gram fé devia» (E 187, E 394, T 186) * * * Cantigas de Santa Maria 395 = 165 «Nium poder deste mundo de gente nada nom val» (E 165, E 395, T 165) * * * Cantigas de Santa Maria 396 = 289 «Pero que os outros santos a vezes prendem vingança» (E 289, E 396, F [12 bis]) * * * Cantigas de Santa Maria 397 = 192 «Muitas vegadas o dem’ enganados» (E 192, E 397, T 192) * * * 781 Cantigas de Santa Maria 398 «A madre do pastor bõo, que conhoceu seu gãado» (E 398) R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 A madre do pastor bõo | que conhoceu seu gãado, bem pode guardar aquele | que lhe for acomendado. Ca o dia da gram ca, | pois houv’ os pees lavados a seus discípulos, disse | que per ele mui guardados seriam, ca pastor era | bõo e que seus gãados conhoci[a] si meesmo | por dar a todos recado. [Refrão = vv. 1-2] [O]nde_em atal semelhança | demostrou Santa Maria gram miragre no seu Porto, | que ant’ o seu nom’ havia, que de Xerez é mui preto, | na fim da Andaluzia, u o mar Mediter[r]ano | co-no mui grand’ é juntado. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ali el-rei Dom Afonso | de Leom e de Castela fez fazer ũa egreja | muit’ aposta e mui bela, que deu a Santa Maria | por casa e por capela, em que dela foss’ o nome | de muitas gentes loado. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E, enquanto a lavravam, | demostrou i mui fremosos miragres Santa Maria, | e d’ oir mui saborosos, pera os que sa mercee | d’ havê-la som desejos[os]; mais um deles ontr’ os outros | vos será per mim contado. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Um poblador i morava | que vera dos primeiros, e Dom Domingo havia | nom’, e triinta cordeiros que i tiinha perdera; | e per vales e outeiros os andou tod’ aquel dia | busca[n]do, o mui coitado. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Enquanto os el buscava | com mui gram coita sobeja, a sa molher, Dona Sancha, | foi chorand’ aa igreja e diss’: “– Ai Santa Maria, | pela ta mercee seja que aquel gãado haja | de lobos per ti guardado”. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E seu marido, com coita | de os achar, nom quedava de buscá-los pelos montes, | e pero no-nos achava; mais depois a tercer dia | viu o gãad’ u estava de consũu, e de lobos | tod’ em derredor cercado. 40 42 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] 782 VIII 46 48 E do pesar que houvera | grand[e] houv’ entom conorto, e foi filhar seu gãado | e levo’-o ao Porto, que nunca daqueles lobos | um dos cordeiros foi morto; ca o Bom Pastor tiinha | a sa madre por caiado. R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX 54 Pois esto virom as gentes, | derom porende loores aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores, porque fez que os cordeiros | houvessem por guardadores os lobos. E porém seja | seu nome sempr’ eixalçado. 56 A madre do pastor bõo | que conhoceu seu gãado, bem pode guardar aquele | que lhe for acomendado. 52 R9 * * * 783 Cantigas de Santa Maria 399 «Quem usar na de Deus madre falar, e amiga» (E 399) Esta CCCXCVIIII é como ena vila d’ Elvas ũa molher quiso matar seu filho e meteu-lhe ũa agulha pela cabeça, e apareceu-lhe Santa Maria ante que o matasse e disse-lhe que tomasse pedença. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Quem usar na de Deus madre | falar, e amiga, nom lhe falirám razões | mui bõas que diga. Ca bem assi cada dia | lhe crece vertude, como crec’ a Deus, seu filho, | assi El m’ ajude; e porende_o poder dela | e [o] del recude a crecerem em bem sempre | e tolher nemiga. [Refrão = vv. 1-2] Porend’ um miragre dela | direi mui fremoso que mostro[u] na vila d’ Elvas, | e maravilhoso, a ũa molher mui pobre, | e des i astroso, que quisera dum seu filho | seer emiga. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Ela se preçava muito | de sa fremosura, e havia um seu filho, | bela creatura; mais tanto cobiiçava | a fazer loucura que nom dava, por matá-lo, | sol ũa formiga. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ond’ avo que um dia, | seend’ enserrada em sa casa, foi cuidando | muit’ a malfadada como matass’ o meninho; | ca desembargada seria se o colgasse | sequer dũa viga. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pois cuidou muit’ aquesto, | filhou eno braço o meninho e deito’-o | eno seu regaço, buscando redor si pedra; | e achou um maço, e filhou ũa agulha | longa com’ espiga, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI e diss’ assi: “– Par Deus, filho, | mui pouco me presta de perder por ti meu tempo”. | E logo na testa lhe foi põer a agulha, | e diss’: “– Hoje festa será pera mi ta morte”. | Mais a que abriga 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII os pobres e os coitados | pareceu-lhe logo, seend’ as portas serradas, | e diss’: “– Eu te rogo 40 784 42 que nom mates o meninho, | mais a um moogo te vai confessar correndo; | ca Deus, que castiga R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII os maos feitos, dar-t’-ia | porém maa morte, e levaria o demo | ta alma em sorte; mais contra todas tas coitas | darei gram conorte; porém maa voontade | de ti derraíga; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e porém filha teu filho | nos braços privado e vai log’ aa igreja | dizer teu pecado, e tantoste nas tas coitas | porrei eu recado; e come molher nom faças | maa que se triga 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X a fazer mal sa fazenda”. | E foi-s’ a reinha dos ceos, pois lh’ esto disse. | E log’ a mesquinha mãefestou-s’; e em ordem | entrou muit’ aginha, e contra o demo froque | vestiu por loriga. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI 66 Quantos aque[ste] miragre | tam grande souberom, a Santa Maria graças | logo porém derom; des i, aquele meninho | criar o fezerom, e a madre polo demo | nom deu ũa figa. 68 Quem usar na de Deus madre | falar, e amiga, nom lhe falirám razões | mui bõas que diga. 64 R11 * * * 785 Cantigas de Santa Maria 400 «Pero cantigas de loor» (E 400) Esta é de loor de Santa Maria. I 1 3 5 7 9 II 10 12 14 16 18 III 19 21 23 25 27 IV 28 30 32 34 36 Pero cantigas de loor fiz de muitas maneiras, havendo de loar sabor a que nos dá carreiras como de Deus hajamos bem, sol nom tenho que dixe rem: ca atant’ é comprida a loor da que nos mantém que nunca há fĩída. Pero fiz com’ oí dizer que fez Santa Sofia, que sa mealha ofrecer foi, ca mais nom havia, a Deus de mui bom coraçom; mais o meu é mui mor dom, que lhe dou mui de grado, e cuid’ end’ haver gualardom mui grand’ e muit’ honrado. Ca pero o dom mui pouc’ é, segund’ a mià pobreza, nom catará est’, a-la-fé, a senhor da franqueza; ca por um dom, esto sei já, que lh’ eu dé, cento me dará dos seus mui nobres dões, e a mià míngua comprirá co-nos seus gualardões. E porém lhe quero rogar que meu dom pequen[inh]o receb’ e o queira filhar por aquel que meninho no seu corpo se figurou e se fez hom’ e nos salvou por nos dar paraíso, e, pois, consigo a levou (e foi i de bom siso). * * * 786 Cantigas de Santa Maria 401 «Macar poucos cantares acabei e com som» (E 401, U [100b]) Esta é a petiçom que fez el-rei Dom Afonso a Santa Maria, por galardom dest[e]s cantares que houve feitos dos seus miragres a loor dela. I 2 4 6 8 10 II 12 14 16 18 20 III 22 24 26 28 30 IV 32 34 36 38 40 V 42 44 46 48 Macar poucos cantares | acabei e com som, Virgem, dos teus miragres, | peço-ch’ ora por dom que rogues a teu filho | Deus que El me perdom os pecados que fige, | pero que muitos som, e do seu paraíso | nom me diga de nom, nem eno gram joízo | entre mig’ em razom, nem que polos meus erros | se me mostre felom; e tu, mià senhor, roga- | -lh’ agora e entom muit’ aficadamente | por mi de coraçom, e por este serviço | dá-m’ este galardom. Pois a ti, Virgem, prougue | que dos miragres teus fezess’ ende cantares, | rogo-te que a Deus, teu filho, por mi rogues | que os pecados meus me perdom e me queira | receber ontr’ os seus no santo paraíso, | u éste Sam Mateus, Sam Pedr’ e Santiago, | a que vam os romeus, e que em este mundo | queira que os encreus mouros destruir possa, | que som dos filisteus, com’ a seus emigos | destruiu Macabeus Judas, que foi gram tempo | caudelo dos judeus. E al te rog’ ainda: | que lhe queiras rogar que do diab’ arteiro | me queira El guardar, que punha todavia | pera hom’ enartar per muitas de maneiras, | por fazê-lo pecar, e que El me dé siso | que me poss’ amparar dele e das sas obras, | com que el faz obrar mui mal a que-no cree | e pois s’ ém mal achar, e que contra os mouros, | que terra d’ Ultramar tem, e em Espanha | gram part’ a meu pesar, me dé poder e força | pera os ém deitar. Outros rogos, sem estes, | te quer’ ora fazer: que rogues a teu filho | que me faça viver, per que servi-lo possa, | e que me dé poder contra seus emigos | e lhes faça perder o que tem forçado, | que nom devem haver, e me guarde de morte | per ocajom prender, e que de meus amigos | veja sempre prazer, e que possa miàs gentes | em justiça ter, e que sempre bem sábia | empregar meu haver, que os que mi_o filharem | mi_o sábiam gradecer. E ainda te rogo | Virgem, bõa senhor, que rogues a teu filho | que, mentr’ eu aqui for em este mundo, queira | que faça o melhor, per que del e dos bõos | sempr’ haja seu amor; e, pois rei me fez, queira | que rein’ a seu sabor, e de mi e dos reinos | seja El guardador, que me deu e dar pode | quando lh’ ém prazer for; e que El me defenda | de fals’ e traedor, e outrossi me guarde | de mal conselhador 787 50 VI 52 54 56 58 60 VII 62 64 66 68 70 VIII 72 74 76 78 80 IX 82 84 86 88 90 X 92 94 96 98 100 e d’ home que mal serve | e é mui pedidor. E, pois hei começado, | senhor, de te pedir mercees que me gães, | se o Deus por bem vir, roga-lhe que me guarde | de quem nom quer gracir algo que lh’ home faça | ne-no ar quer servir, outrossi de quem busca | razom pera falir, nom havendo vergonha | d’ errar nem de mentir, e de quem dá joízo | se-no bem departir nem outro gram conselho | sem ant’ i comedir, e d’ home mui falido | que outro quer cousir, e d’ home que mal joga | e quer muito riir. Outrossi por mi roga, | Virgem do bom talám, que me guard’ o teu filho | daquel que adamám mostra sempr’ em seus feitos, | e daqueles que dam pouco por gram vileza, | e vergonha nom ham, e por pouco serviço | mostram que grand’ afám prendem uquer que vaam, | pero longe nom vam; outrossi que me guardes | d’ home torp’ alvardám, e d’ home que assaca, | que é peor que cam, e dos que lealdade | nom preçam quant’ um pam, pero que sempr’ em ela | muito faland’ estám. E ainda te rogo, | senhor espirital, que rogues a teu filho | que El me dé atal siso per que nom caia | em pecado mortal, e que nom haja medo | do gram fog’ infernal, e me guarde meu corpo | d’ ocajom e de mal e d’ amig’ encoberto, | que a gram coita fal, e de quem tem em pouco | de seer desleal, e daquel que se preça | muit’ e mui pouco val, e de quem em seus feitos | sempr’ é descomunal. Esto por dom cho peço; | e ar pedir-ch’-ei al: senhor Santa Maria, | pois que começad’ hei de pedir-che mercee, | nom m’ ende partirei; porém te rog’ e peço, | pois que teu filho rei me fez, que del me gães | siso, que mester hei, com que me guardar possa | do que me nom guardei, per que d’ hoj’ adeante | nom erre com’ errei nem meu haver empregue | tam mal com’ empreguei em algũus logares, | segundo que eu sei, perdend’ el e meu tempo | e aos que o dei; mas des hoimais me guarda, | e guardado serei. Tantas som as mercees, | senhor, que em ti há, que porende te rogo | que rogues o que dá seu bem aos que ama | (ca sei que o fará se o tu por bem vires), | que me dé o que já lhe pedi muitas vezes: | que, quando for alá no paraíso, veja | a ti sempr’, e acá mi_acorra em miàs coitas | por ti, e haverá-me bom galardom dado; | e sempre fiará em ti quem souber esto, | e mais te servirá por quanto me feziste | de bem, e t’ amará. * * * 788 Cantigas de Santa Maria 402 «Santa Maria, nembre-vos de mi» (E 402) R0 2 I 6 Nom catedes a como pecador sõo, mais catad’ a vossa valor, e, por um mui pouco que de loor dixe de vós (em que rem nom menti), 8 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. 4 R1 II 12 Nom catedes como pequei assaz, mais catad’ o gram bem que em vós jaz; ca vós me fezestes como quem faz sa cousa quita toda pera si. 14 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. 10 R2 III 18 Nom catedes a como pequei greu, mais catad’ o gram bem que vos Deus deu; ca outro bem senom vós nom hei eu nem houve nunca des quando naci. 20 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. 16 R3 IV 24 Nom catedes em como fui errar, mas catad’ o vosso bem, que sem par ést’, e de como Deus a perdõar nos há por vós; e sei que ést’ assi. 26 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. 22 R4 V 30 Nom catedes a como fui falir, mais catade como nom sei u ir senom a vós por mercee pedir, u a achei cada que a pedi. 32 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. 34 E querede que vos veja ali u vós sodes, quando me for daqui. 28 R5 Santa Maria, nembre-vos de mi e daquelo pouco que vos servi. F * * * 789 Cantigas de Santa Maria 403 «Haver nom poderia» (U 50) Esta Lª é dos sete pesares que viu Santa Maria do seu filho. I 2 4 6 8 II 10 12 14 16 III 18 20 22 24 IV 26 28 30 32 V 34 36 38 40 VI 42 44 Haver nom poderia lágrimas que chorasse quantas chorar querria, se m’ ante nom nembrasse como Santa Maria viu com que lhe pessasse do filho que havia, ante que a levasse. Um daquestes pesares foi quando a Egito fugiu: polos milhares, segund’ achei escrito, dos mininhos a pares, que Herodes maldito fez matar a logares, por seu rein’ haver quito. O segundo foi quando seu filh’ houve perdudo três dias, e cuidando que judeus ascondudo lho tinham, e osmando que morto ou traúdo foss’, e, por El chorando, ant’ ela foi vĩúdo. E o pesar terceiro foi mui grand’ aficado: quando lh’ um mandadeiro disse que recadado seu filho verdadeiro, Jesu-Crist’, e liado levavam mui senlheiro, dos seus desamparado. Do quarto foi coitada u seu filho velido viu levar a pesada cruz, e El mal ferido d’ açoutes e messada a barva e cospido, e a gent’ assũada sobr’ El em apelido. O quinto pesar forte foi quando o poserom na cruz, e por conorte azed’ e fel lhe derom, sobre seus panos sorte 790 46 48 VII 50 52 54 56 VIII 58 60 62 64 deitarom, e fezerom per que chegou a morte, onde prazer houverom. O sesto foi, sem falha, quando o despregarom da cruz e com mortalha a soterrar levarom, e, temendo baralha, o sepulcro guardarom; mais pois, se El me valha, ali no-no acharom. Segund’ a Escritura conta, foi o seto pesar de gram tristura e de gram doo cho: quando viu na altura Deus sobir, onde vo, e ficou com rancura pois em poder alho. * * * 791 Cantigas de Santa Maria 404 «Nom é sem guisa d’ enfermos sãar» (U 76) Esta LXXVIª é como Santa Maria guareceu com seu leite o crérigo de grand’ enfermidade, porque a loava. R0 2 I 4 6 Nom é sem guisa d’ enfermos sãar o santo leite que Deus quis mamar. Tolher deve mal e aduzer bem o leite que criou o que nos tem em seu poder e nos fez de nom rem e desfará quando lhe semelhar. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Porend’ um miragre desta razom vos direi, que xe valrá um sermom: de como guareceu um crerizom Santa Maria, que el foi loar. 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III De bom linhage foi aquest’ assaz e mui fremoso de corp’ e de faz, e leterado e de bom solaz, que em sa terra nom havia par. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Cantar sabia el bem e leer e ar dava de grado seu haver; mas nom leixav’ ao demo fazer obras que xas ant’ el nom foss’ obrar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E, pero fazia tam muito mal, Santa Maria amava mais dal; e em aquesto era tam leal que, cada u viía seu altar, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI agolhava-se, dizend’ assi, catand’ a sa omagem, com’ oí: “– Santa Maria, eu venho a ti po-lo bem que Deus pôs em ti loar: 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII entr’ as molheres beita és tu; ca tal come ti, u acharám, u?; ca tu parist’ o bom senhor Jesu, 40 792 42 que fez o ceo e terra e mar; R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII porend’ o teu ventr’, u s’ El enserrou, beito seja, ca em el filhou carne teu filho, que Deus enviou por salvar-nos e por a ti honrar; 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e as tas tetas, que El mamar quis, beitas sejam, ca per elas fis somos de nom irmos, par Sam Dinis, a iferno, se per nós nom ficar”. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X Assi loando a madre de Deus foi el caer, polos pecados seus, em tal enfermidad’ a que judeus nem crischãos nom podiam prestar. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Ca frenesia o tornou sandeu tam muito que sa léngua xe comeu, e ar os beiços desfez e mordeu e comera se lhe dessem vagar. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E porend’ a boca e o nariz lh’ encharom tanto, com’ o livro diz, que nom podiam dele a serviz ne-no rostro, qual era, estremar. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E, assi jazendo pera fĩir, um ángeo viu pera si vĩir que o queria guardar de falir, se podesse, e filhou-s’ a chorar 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e dizend’ agrandes vozes: “– Senhor Santa Maria, nembre-t’ o amor que ti_havia aqueste pecador, que em golhos t’ ia saudar; 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV e já sa léngua, que de bom talám te saudava, comeu come cam, e os seus beiços, que feos estám, com que soía no teu bem falar; 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI porém, senhor, val ao servo teu, 793 94 96 que se nom perça, ca eu sõo seu ángeo, e acomendad’ é meu, e porém te venho por el rogar R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII e que nom queras que aquesta vez se perça polos pecados que fez, nem que o demo, mais negro ca pez o possa ao iferno levar”. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 Esto dizendo, a madre do rei dos ceos toste, com’ escrit’ achei, chegou e disse-lhe: “– Porque tardei venho-ti_agora grand’ emenda dar”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX E entom a sa teta descobriu, e de seu leit’ o rostro lhe ungiu, e os peitos, e assi o guariu que com sabor o fez adormentar. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX 120 E, pois dormiu com’ home são sol dormir, sãou do mal ond’ era fol, e entendeu que fezera sa prol em se a Santa Maria deitar. 122 Nom é sem guisa d’ enfermos sãar o santo leite que Deus quis mamar. 118 R20 * * * 794 Cantigas de Santa Maria 405 «De muitas guisas mostrar» (U 79) Esta LXXVIIIIª é como Santa Maria faz em Costantinobre decer um pano ante sa omagem. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 De muitas guisas mostrar xe nos quer Santa Maria | por xe nos fazer amar. Nas grandes enfermidades s’ amostra com piedades, e, po-las nossas maldades tolher, se leixa catar. [Refrão = vv. 1-2] Dest’ um miragre mui nobre mostrou em Costantinobre aquela que nos encobre e que nos faz perdõar, R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III madre do que nos governa, e que é nossa lenterna, ena que chamam Luzerna, igreja cabo do mar. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ali há ũa fegura da Virgem santa e pura, fremosa sobre mesura, posta sobe-lo altar. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Ant’ ela está um pano colgado todo o ano, que poo nem outro dano no-na possa afolar. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI Mas sesta-feira ergendo se vai e aparecendo a omagem, e correndo a vam todos aorar. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII E diz um a outr’: “– Aqué o ángeo que vem do ceo, que alça aquele veo e faz no aire parar”. 40 42 795 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII Tod’ essa noit’ e o dia de sábado romaria vem i e gram crerezia pera as horas cantar. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX E, pois veem descoberta a omagem, grand’ oferta dam i, est’ é cousa certa; demais, filham-s’ a chorar 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X todos mui de voontade, pois veem a majestade, loand’ a gram piedade da Virgem, que nom há par. 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI Poi-lo sábad’ acabado é, o ángeo privado há log’ o pano deitado como x’ ante sol estar 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII 72 ant’ a omagem. E isto é cada sábado visto por prazer de Jesu-Cristo, que se quer sa madr’ honrar. 74 De muitas guisas mostrar xe nos quer Santa Maria | por xe nos fazer amar. 70 R12 * * * 796 Cantigas de Santa Maria 406 «Bem venhas, maio, e com alegria» (U (Ap) 1) Depois que el-rei fez estas cinco cantigas das cinco festas de Nostro Senhor, fez estas outras cantigas de miragres de Santa Maria. Esta primeira é das maias. I 1 3 R1 5 II 6 8 R2 10 III 11 13 R3 15 IV 16 18 R4 20 V 21 23 R5 25 VI 26 28 R6 30 VII 31 33 R7 35 VIII 36 38 R8 40 Bem venhas, maio, | e com alegria; porém roguemos | a Santa Maria que a seu Filho | rogue todavia que El nos guarde | d’ err’ e de folia. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com toda saúde, por que loemos | a de gram vertude que a Deus rogue | que nos sempr’ ajude contra o dem’, e | des i nos escude. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | e com lealdade, por que loemos | a de gram bondade que sempre haja | de nós piadade e que nos guarde | de toda maldade. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com muitas requezas; e nós roguemos | a que há nobrezas em si mui grandes, | que nos de tristezas guard’ e de coitas | e ar d’ avolezas. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | coberto de fruitas; e nós roguemos | a que sempre duitas há sas mercees | de fazer ém muitas, que nos defenda | do dem’ e sas luitas. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com bõos sabores; e nós roguemos | e demos loores aa que sempre | por nós pecadores roga Deus, que nos | guarde de doores. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com vacas e touros; e nós roguemos | a que nos tesouros de Jesu-Cristo | é, que aos mouros cedo cofonda, | e brancos e louros. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | alegr’ e sem sanha; e nós roguemos | a que nos gaanha bem de seu Filho, | que nos dé tamanha força que saiam | os mouros d’ Espanha. Bem venhas, maio! 797 IX 41 43 R9 45 X 46 48 R10 50 XI 51 53 R11 55 XII 56 58 R12 60 XIII 61 63 R13 65 XIV 66 68 R14 70 Bem venhas, maio, | com muitos gãados; e nós roguemos | a que os pecados faz que nos sejam | de Deus perdõados, que de seu Filho | nos faça privados. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com bõo verão; e nós roguemos | a Virgem, de chão, que nos defenda | d’ home mui vilão e d’ atrevud’ e | de torp’ alvardão. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com pam e com vinho; e nós roguemos | a que Deus mininho troux’ em seus braços, | que nos dé caminho por que sejamos | com ela festinho. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | mans’ e nom sanhudo; e nós roguemos | a que noss’ escudo é, que nos guarde | de louc’ atrevudo e d’ hom’ anho | e desconhoçudo. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | alegr’ e fremoso; porend’ a madre | do rei grorioso roguemos que nos | guarde do nojoso hom’, e de falso | e de mentiroso. Bem venhas, maio! Bem venhas, maio, | com bõos manjares; e nós roguemos | em nossos cantares a Santa Virgem, | ant’ os seus altares, que nos defenda | de grandes pesares. Bem venhas, maio! * * * 798 Cantigas de Santa Maria 407 «Como o demo cofonder» (U (Ap) 12[b]) Esta XIIª é como Santa Maria fez veer ao home que cegara porque se comendara ao demo. R0 2 4 I 6 8 R1 9-12 II 14 16 R2 17-20 III 22 24 R3 25-28 IV 30 32 R4 33-36 V 38 40 R5 41-44 VI 46 48 R6 49-52 VII 54 Como o demo cofonder, nos quer acorrer Santa Maria, e valer e del defender. Dest’ um miragre vos contarei que vi escrit’ em livro, e dizia assi com’ oiredes adeante per mi, que foi a Virgem fazer [Refrão = vv. 1-4] e[m] um cativo d’ home que foi errar porque do pee em ũa pedra dar foi e doeu-s’, e porém [a] braadar começou e descreer: [Refrão = vv. 1-4] “– Aquesta pedra o demo a ficou aqui por mi que mi meu pee britou; e, pois que pode tam muit’, a el mi dou e nom quer’ em Deus creer”. [Refrão = vv. 1-4] Aquesto disse com gram sanha mortal; e log’ ali o prendeu um tam gram mal que come tolheito se parou atal que cuidou log’ a morrer, [Refrão = vv. 1-4] e demai-la vista dos olhos perdeu, e o poder do corpo si lh’ ar tolheu e com mui gram coita em terra caeu que se nom pod’ end’ erger. [Refrão = vv. 1-4] Mas seus parentes o filharom dali e o levarom a sa casa, e i o deitarom em um leito, e assi leixaro-no i jazer. [Refrão = vv. 1-4] E, pidindo por Deus, jouv’ i gram sazom, chorand’ e rogando-lhe de coraçom que dos seus erros podess’ haver perdom 799 56 R7 57-60 VIII 62 64 R8 65-68 IX 70 72 R9 73-76 X 78 80 R10 81-84 XI 86 88 R11 90 92 e que lhe foss’ ém prazer. [Refrão = vv. 1-4] Mas pois, na festa em que Deus resurgiu, dos madodinhos a campãa oiu, e ũa dona cabo si estar viu, e começou-lh’ a dizer: [Refrão = vv. 1-4] “– Porque sofriste teu mal e ta door em paz, porende praz a Nostro Senhor que cedo sães e recebas sabor per que possas bem viver; [Refrão = vv. 1-4] e cre’ i ora esto que ti dig’ eu: fas que te levem tost’ ant’ o altar meu; e, pois i fores, saúd’ o corpo teu logo poderá haver”. [Refrão = vv. 1-4] Respôs el: “– Esto farei logo de pram”. E feze-s’ entom levar i manamám, e tornou são, pela do bom talám, a de que Deus quis nacer. Como o demo cofonder, nos quer acorrer Santa Maria, e valer e del defender. * * * 800 Cantigas de Santa Maria 408 «D’ espirital cilurgia» (F [14]) Esta é como Santa Maria sãou o escudeiro a que derom a saetada polo costado. R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 R2 13-14 III 16 18 R3 19-20 IV 22 24 R4 25-26 V 28 30 R5 31-32 VI 34 36 R6 38 De ’spirital cilurgia bem obra Santa Maria. Ca nom vos obra com ervas, | nem com raízes nem frores, nem com espécias outras, | macar x’ ham bõos odores; mas val aos pecadores com vertude que em si há. [Refrão = vv. 1-2] [D]est’ avo um miragre | que mostrou ũa vegada em Salas, u mostra muitos, | esta bem-aventurada dum que gran[de] saetada recebeu em Lombardia. [Refrão = vv. 1-2] Este de que vos eu falo | era fidalg’ escudeiro, e foi em ũa fazenda | bõo, ardid’ e ligeiro; mas foi per um baesteiro mui mal chagad’ aquel dia. [Refrão = vv. 1-2] Ca lhe falsou os costados | a saeta, que de forte baesta fora tirada; | e colheu tal desconorte que bem cuidou prender morte, que al i nom haveria. [Refrão = vv. 1-2] Porend’ a Santa Maria | s’ houve log’ acomendado; e tirarom-lh’ a saeta | bem pelo outro costado; des i, o logar sarrado foi, que rem nom parecia. [Refrão = vv. 1-2] E, desto, Santa Maria | de Salas quantos estavam no logar, que o miragre | virom, muito a loa[va]m, e a aquel conselhavam que foss’ i em romaria. De ’spirital cilurgia bem obra Santa Maria. * * * 801 Cantigas de Santa Maria 409 «Cantando e com dança» (F [86]) De loor de Santa Maria. R0 2 4 I 6 8 10 12 14 16 18 R1 20 22 II 24 26 28 30 32 34 36 R2 38 40 III 42 44 Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada que é nossa ’sperança. Seja por nós loada, e dereito faremos, pois seu bem atendemos e d’ haver o temos por cousa mui guisada, ca é noss’ avogada; e de certo sabemos que de Deus haveremos perdom e guanharemos sa merce’ acabada per ela, que há dada per muitas de maneiras a nós, e dá carreiras d’ havermos perdoança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. Porende se loada é de Santa Eigreja, esto convém que seja, pois gram graça sobeja per ela ham gãada de Deus, per que honrada é de quanto deseja, de que o dem’ enveja há, e por que peleja nosco muit’ aficadament’, e nom gãa nada; ca ela todavia destrue sa perfia e dá-nos del vingança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. Reis e emperadores, todos comũalmente a todo seu ciente devem de bõa mente 802 46 48 50 52 54 R3 56 58 IV 60 62 64 66 68 70 72 R4 74 76 V 78 80 82 84 86 88 90 R5 92 94 VI 96 98 100 dar-lhe grandes loores, ca per ela senhores som de toda a gente, e cada ũu sente dela compridamente mercees e amores; e, macar pecadores sejam, a Virgem bõa mui toste os perdõa, sem nulha dovidança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. Des i os oradores e os religiosos, macar som homildosos, devem muit’ aguçosos seer e sabedores em fazer-lhe sabores, cantando saborosos cantares e fremosos dos seus maravilhosos miragres, que som frores doutros e mui melhores, est’ é cousa sabuda, ca por nossa ajuda os faz sem demorança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. Outrossi cavaleiros e as donas honradas, loores mui grãadas devem per eles dadas seer, e mercee[i]ros e, demais, deanteiros em fazer sinaadas cousas e mui preçadas por ela, que contadas sejam, que verdadeiros lhes som e prazenteiros, ca serám perdõados porende seus pecados, e guardados d’ errança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. Donzelas, escudeiros, burgeses, cidadãos, outrossi aldeãos, mesteiraes, ruãos, des i os mercadeiros, nom devem postremeiros 803 102 104 106 108 R6 110 112 seer; mais com’ irmãos, todos alçand’ as mãos, com corações sãos, em esto companheiros devem seer obreiros, loand’ a Virgem santa, que o demo quebranta por nossa amparança. Cantando e com dança seja por nós loada a Virgem corõada, que é nossa ’sperança. * * * 804 Cantigas de Santa Maria 410 «Quem Santa Maria servir» (E (FSM) [0]) [Prólogo; cantiga de refrão]. Prólogo das cantigas das cinco festas de Santa Maria. R0 2 I 6 E, porque eu gram sabor hei de a servir, servi-la-ei, e, quanto podér, punharei d’ os seus miragres descobrir. 8 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. 4 R1 II 12 Pero direi ant’, em bom som, das sas cinque festas, que som mui nobres, e direi razom que praza a que-na oir. 14 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. 10 R2 III 18 Santa Egreja ordinhou cinque festas, porque achou cinque letras no nome sou, como vos quero depa[r]tir. 20 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. 16 R3 IV 24 A primeira, que M [= eme] é, mostra de com’ a nossa fé, nacend’ ela, naceu, e sé i firm’, a que-no comedir. 26 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. 22 R4 V 30 A mostra a saudaçom d’ Ave, que Gabriel entom lhe disse que filho barom, Deus e hom’, iria parir. 32 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. 28 R5 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. VI 34 36 R [= erre] mostra como reinou ontr’ as virges u amou sa virgĩidad’ e guardou, por toda bondade comprir. 805 R6 38 42 I, indo de bem em melhor, foi ofrecer o salvador, seu filh’, a Deus, com gram sabor, de fazer-nos a ceo ir. 44 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. VII 40 R7 48 A ar mostrou carreira tal u desta vida temporal sobiu aa celestial por nos fazer alá sobir. 50 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. VIII 46 R8 Quem Santa Maria servir, nom pode no seu bem falir. * * * 806 Cantigas de Santa Maria 411 «Beito foi o dia, e bem-aventurada» (E (FSM) 1, U (FSM) 1) Esta é a primeira, da nacença de Santa Maria, que cae no mês de setembro. E começa assi: R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Beito foi o dia, | e bem-aventurada a hora que a Virgem, | madre de Deus, foi nada. E daquesta nacença | falou muit’ Isaía, e profetando disse | que árvor sairia bem da raiz de Jesse, | e que tal fror faria que do Sant’ Espirito | de Deus fosse morada. [Refrão = vv. 1-2] Outros profetas muitos | daquesto profetarom, e os evangelistas | desta senhor falarom com’ era de gram guisa, | e dos reis ar contarom do linhag’ onde vinha | esta senhor honrada. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Mas pero de seu padre, | que Joaquim chamado foi, e sa madre Ana, | direi-vos seu estado: quanto no mund’ houverom, | partirom, per recado que, de quanto haviam, | nom lhes ficava nada. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Ca Joaquim e Ana | tal acordo preserom: que fezerom três partes | de quant’ haver houverom: a ũa pera pobres, | a outra reteverom pera si, a terceira | ao templ’ era dada. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Enquant’ esta companha Deus toda-las sas cousas mas nom lhes dava filho, muit’ end’ ele; mas ela | 28 30 | santa assi obrava, | dous tant’ acrecentava; | por que coitad’ andava era ém mais coitada, R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI porque os rezõavam | por malditos as gentes. E porém filhou ele | ofertas e presentes que levass’ ao templo | com outros seus parentes; mas Rubém e Simeom | vedarom-lh’ a entrada, 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII que lhe disserom logo: | “– Daqui entrar és quito, Joaquim; porém vai-te, | pois de Deus és maldito, que te nom quis dar filho, | ca assi é escrito; 40 807 42 porend’ entrar nom deves | em casa tam sagrada”. R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII El houve dest’ embargo | e vergonha tamanha que nom foi a sa casa, | ne-no viu sa companha; mas filhou seus gãados | e foi-s’ aa montanha, assi que por gram tempo | nom fez ali tornada. 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX Ana, quando viu esto, | houvo tam gram despeito que, com coita, chorando, | se deitou em seu leito, e de grado morrera; | mas nom lh’ houve proveito, ca Deus pera gram cousa | xa tiinha guardada. 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X E, ali u jazia | gemend’ e sospirando e sa desaventura | a Deus muit’ ementando de que era sem filhos | de Joaquim, chorando, quis Deus que do seu ángeo | foss’ ela confortada; 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI e disse-lhe: “– Nom temas, | Ana, ca Deus oída a ta oraçom houve; | e porém, sem falida, de teu marido filha | haverás, que comprida será de todos bes | mais doutra, e preçada”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII E, pois lh’ est’ houve dito, | foi-s’ o ángeo logo a Joaquim, que era | metudo no meogo dũas grandes montanhas, | e disse-lh’: “– Eu te rogo que tornes a ta casa | logo, sem alongada”. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII El, cuidando que era | home, respôs-lh’ atanto: “– Com’ irei a mià terra, | u recebi quebranto grand’ entre meus vezinhos, | que eu, palo Deus santo, quisera que a testa | me foss’ ante talhada?: 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV ca à porta do templo | disserom-mi_os porteiros, pois nom havia filhos | como meus companheiros, nom entraria dentro, | nem aves nem cordeiros nem rem de mià oferta | nom seria filhada; 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV e por esta vergonha | e por este dosto fogi a esta terra, | e hei já assi posto: que nunca alá torne; | e eno mês d’ agosto haverá bem seis meses | que fiz aqui estada, 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI entr’ aquestas montanhas, | que é terra esquiva, com estes meus gãados; | ca mais me val que viva 94 808 96 em logar apartado | que vida mui cativa fazer entre miàs gentes, | vergonhos’ e viltada”. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII O ángeo lhe disse: | “– Eu söo mandadeiro a ti de Deus do ceo, | por te fazer certeiro que de ta molher Ana | haverás tal herdeiro per que toda a terra | será enlumada; 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 e, se esto que digo | tes por maravilha, certãamente cree | que te dará Deus filha que o que perdeu Eva | per sa gram pecadilha, cobrar-s’-á per aquesta, | que será avogada 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX entre Deus e as gentes | que forem pecadores; porém vai-te ta via | e leixa teus pastores que guardem teus gãados; | ca muito som maiores de Deus as sas mercees | ca rem que foss’ osmada”. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX Quando Joaquim esto | oiu, log’ esmorido caeu, e jouv’ em terra | fora de seu sentido ates que o ánge- | -o foi dali partido, que seus homes o forom | erger, sem detardada, 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI e que lhe preguntarom | logo o que houvera, que tal peça em terra | esmorido jouvera. E el contou-lhes quant’ o | ángeo lhe dissera; e eles lhe disserom: | “– De vos ir é guisada 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII cousa, e nom passedes | de Deus seu mandamento, e id’ a vossa casa | logo sem tardamento; ca, se o nom fezerdes, | quiçai por escarmento vos dará Deus tal morte | que será mui sõada”. 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 Tanto lh’ esto mostrarom | e per tantas razões que lhes respôs chorando: | “– Pois que vos praz, varões, farei vosso conselho; | mas, por Deus, companhões, guardade-mi_os gãados | em aquesta malhada”. 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 E, pois lhes esto disse, | meteu-s’ aa carreira por s’ ir pera sa casa | veer sa companheira, que o beito ángeo | fezera já certeira que Joaquim verria | pela porta dourada, 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] 809 XXV 148 150 e que a el saísse | recebê-lo aginha, ca Deus enas sas coitas | porria meezinha e lhe daria filha | dele, tal que reinha seria deste mundo | e dos ceos chamada. R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XXVI 154 Quand’ aquest’ oiu Ana, | que jazia gemendo e sospirand’, ergeu-se | e foi alá correndo, e levou seus parentes | sigo, com’ eu aprendo, bem como se houvess’ a | casar outra vegada. 156 R26 157-158 [Refrão = vv. 1-2] XXVII 160 E, pois viu seu marido, | obridou seus pesares, e com muitas saúdes | e muitos abraçares o acolheu mui leda, | e, pois, muitos manjares lhe guisou, e sa casa | mui bem encortinhada, 162 R27 163-164 [Refrão = vv. 1-2] XXVIII 166 na qual aquela noite, | est’ é cousa sabuda, foi na beita Ana | a Virgem concebuda, a que pelos profetas | nos fora prometuda ante que esto fosse | mui gram sazom passada. 168 R28 169-170 [Refrão = vv. 1-2] XXIX 172 E, logo que foi viva | no corpo de sa madre, foi quita do pecado | que Adám, nosso padre, fezera per conselho | daquel que, pero ladre por nos levar consigo, | a porta lh’ é serrada 174 R29 175-176 [Refrão = vv. 1-2] XXX 180 do inferno; ca esta | lhe pôs a serradura, e abriu paraíso, | que per malaventura serrou nossa madr’ Eva, | que com mui gram loucura comeu daquela fruita | que Deus lh’ houve vedada. 182 Beito foi o dia, | e bem-aventurada a hora que a Virgem, | madre de Deus, foi nada. 178 R30 * * * 810 Cantigas de Santa Maria 412 = 340 «Virgem madre groriosa» (E 340, E (FSM) 2) * * * 811 Cantigas de Santa Maria 413 «Tod’ aqueste mund’ a loar deveria» (E (FSM) 3, U (FSM) 3) Esta terceira é da virgĩidade de Santa Maria, e esta festa é no mês de dezembro, e feze-a Sant’ Alifonso. E começa assi: R0 2 I 4 6 Tod’ aqueste mund’ | a loar deveria a virgĩidade | de Santa Maria. Ca ela foi virgem | ena voontade, e foi-o na carne | com tam gram bondade, por que Deus do ceo | con sa deidade em ela prês carne, | que El nom havia, R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II ond’ ela foi prenhe; | ficou virgem, que foi ca tant’ houve door | que houvesse filho. | 10 12 mas como x’ ant’ era | maravilha fera, como x’ ant’ houvera Que-no cuidaria R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III que aquestas cousas | de sũu juntadas fossem e em corpo | de mulher achadas?: que houvess’ as tetas | de leit’ avondadas, e pariss’, e fosse | virgem todavia. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV Mas aquesta virgem | amou Deus atanto que a emprenhou do | Espírito Santo, sem prender end’ ela | dano nem espanto; e bem semelha de | Deus tal drudaria. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V E desto vos mostro | prova verdadeira: do sol quando fer dentro ena vidreira, que, pero a passa, | em nulha maneira nom fica britada | de como siía, 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 36 que, macar o vidro | do sol filha lume, nulha rem a luz do | vidro nom consume. Outrossi foi esto: | que, contra costume, foi madre e virgem, | ca Deus xo queria. 38 Tod’ aqueste mund’ | a loar deveria a virgĩidade | de Santa Maria. 34 R6 * * * 812 Cantigas de Santa Maria 414 «Como Deus é comprida Trĩidade» (E (FSM) 4) Esta quarta é da Trĩidade de Santa Maria. I 1 3 5 7 8 II 10 12 14 16 III 18 20 22 24 IV 26 28 30 32 V 34 36 38 40 VI 42 44 46 48 Como Deus é comprida Trĩidade, sem ader nem minguar de si nada, éste cousa certa e mui provada: três pessoas e ũa deidade. Segund’ esto quero mostrar razom per que sábiam quantos no mundo som de como foi virgem Santa Maria em três guisas dũa virgĩidade. Ca ela foi virgem na voontade e ena carn’ ante que fosse dada a Josep[e], com que foi esposada; e foi virgem tendo castidade; e ar foi-o em aquela sazom que foi prenh’ e pariu filho barom, e ficou virgem como xe soía; e assi forom três em unidade. E porend’, amigos, mentes parade e veredes obra muit’ ordinhada de como Deus buscou carne sagrada em que nos mostrasse humanidade comprida de todo bem, e dal nom, com que podesse pois sofrer paxom e morrer, e viver a tercer dia, e destruir o dem’ e sa maldade. E macar é senhor, quis igualdade com sa madre, a bem-aventurada; ca, seendo sa filha e criada, nom catou grandeza nem quantidade de si a ela, mais filhou faiçom d’ home na carne dela, e entom foi filho da que el criad’ havia, e da filha fez madr’: est’ é verdade. E tant’ houv’ ela em si homildade que dos ceos, u era sa morada, o fez decer na sa santivigada carne comprida de toda bondade, em que El pose tam gram beiçom e deu sa graça e dema[i]s tal dom que quantos o dem’ enfermar fazia recebessem per ela sãidade. Porém lhe roguemos por piadade que rog’ a Deus, de que ficou prenhada quando foi do ángeo saudada, que nos guarde de toda tempestade que nos nom nuza, e ar d’ ocajom e do demo cho de traiçom que nos nom enarte com arlotia que nos enarta, e com falsidade. * * * 813 Cantigas de Santa Maria 415 «Tam beita foi a saudaçom» (E (FSM) 5, U (FSM) 2) Esta quinta é de como o ángeo Gabriel vo saudar a Santa Maria, e esta festa é no mês de março. E começa assi: R0 2 I Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 6 Esta troux’ o ángeo Gabriel a Santa Maria come fiel mandadeiro, por que Emanuel foi logo Deus e prês encarnaçom. 8 Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 4 R1 II 12 Ca bem ali u lhe diss’ el “Avé”, foi logo Deus home feit’, a-la-fé; e, macar El atám poderos’ é, ena Virgem foi enserrad’ entom. 14 Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 10 R2 III 18 E u “Gratia plena” lhe dizer foi o ángeo, nos fez conhocer a Deus, que nom podíamos veer ante; mais pois vimos bem sa faiçom. 20 Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 16 R3 IV 24 E u lhe disse “Contigo é Deus”, entom foi prenhe do que, po-los seus salvar, quis morte prender per judeus, por nos tirar da infernal prijom. 26 Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 22 R4 V 30 E u lhe disse “Beita és tu entr’ as molheres”, logo de Jesu-Cristo foi prenhe, que naceu pois u três Reis lhe derom cada um seu dom. 32 Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! 28 R5 VI 34 36 R6 38 E u lhe disse “Beito será aquel fruito que de ti nacerá”, ali nos deu carreira por que já houvéssemos sempre de Deus perdom. Tam beita foi a saudaçom per que nós vemos a salvaçom! * * * 814 Cantigas de Santa Maria 416 = 210 «Muito foi noss’ amigo» (E 210, E (FSM) 6, F [96]) * * * 815 Cantigas de Santa Maria 417 «Nobre dom e mui preçado foi Santa Maria dar» (E (FSM) 7, U (FSM) 4) Esta VII. é como Santa Maria levou seu filho ao templo e o ofereceu a Sam Simeom; e esta festa é no mês de fevreiro. E começa assi: R0 2 I 6 Quem viu nunca tam preçada | cousa nem tam rico dom como deu Santa Maria | no templ’ a Sam Simeom quando lhe deu Jesu-Cristo, | seu filh’, em ofereçom, que filhou el nos seus braços, | ledo, sobe-lo altar? 8 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. 4 R1 II 12 Esto fez a santa Virgem, | pois que o tempo compriu, que forom quaranta dias | des que seu filho pariu, e porém segund’ a lee | no templo o oferiu com duas tórtores mansas | e de paombas um par. 14 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. 10 R2 III 18 Simeom, aquel sant’ home | a que o foi oferer, sempr’ a Deus esto pedia: | que, ante que a morrer houvesse, que lhe leixasse | El o seu filho veer, que a enviar havia | pera o mundo salvar. 20 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. 16 R3 IV 24 Logo que viu o meninho, | enos braços o filhou, e, beijando-lhe os pees, | com alegria chorou dizendo: “– Pois este vejo, | Deus, que viver me leixou trões aqui, bem me pode | des hoimais em paz levar; 26 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. 22 R4 V 30 pois que veem os meus olhos | a ti, que és salvador daqueles que t’ asperamos, | e d’ Irrael guardador, e que Deus comprid’ e home | és, e do mundo senhor, te rogo que me nom queiras | hoimais no mundo leixar”. 32 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. 28 R5 Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar. * * * 816 Cantigas de Santa Maria 418 «Os sete dões que dá» (E (FSM) 8) R0 2 I 6 E daquestes sete dões | vos quer’ ora departir como os deu a sa madre, | por que quanto-lo oir forem, punhem em servi-la | e se guardem de falir, por que sa mercee hajam; | ca beit’ é que-na há. 8 Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 4 R1 II 10 12 R2 14 III 20 Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 22 24 26 V 28 30 R5 32 VI 34 36 R6 Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 18 IV R4 O primeiro destes sete | dões é pera saber todo bem compridamente, | por fazer a Deus prazer; aqueste Santa Maria | houv’ em si, por que prender vo Deus em ela carne, | com que nos pois julgará. D’ entendemento mui grande, | este o segundo é; aqueste Santa Maria | houv’ em si, per bõa fé, por que fez dela sa madre | Deus, e cabo dele sé nos ceos, onde sa graça | envia a nós acá. 16 R3 Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 38 O terceiro de conselho | ést’, e com mui gram razom o houve Santa Maria; | porque quantas ora som molheres nem forom ante | nom houverom beiçom de Deus com’ aquesta houve, | nem outra nom haverá. Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. O quarto é fortaleza; | e aquesta houv’ em si tam grande per que o demo | perdeu seu poder dali u Deus em ela prês carne | e foi home, ca des i foi britad’ e mal apreso, | e jamais nom cobrará. Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. O quinto dom é ciente, | a Virgem Santa Maria, | quando lh’ o ángeo disse seria madr’, e diss’ ela: | que houve grand’ e bom sém que a fez responder bem | que do que todo mantém “– Por serva m[e] achará”. Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 817 VII 40 42 R7 44 VIII 46 48 R8 50 IX Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. O sétimo destes dões | é haver de Deus temor; aquest’ houv a groriosa, | pero sempre com amor; e por aquesto foi ela | madre de Nostro Senhor Jesu-Cristo, Deus e home, | que por sempre reinará. Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 54 Onde por aquestes sete | dões lhe devemos dar loores, e ar rogar-lhe | que nos faça perdõar a seu filho os pecados, | e que nos guarde d’ errar, de guisa que no seu reino | vivamos com El alá. 56 Os sete dões que dá Deus, a sa madr’ os deu já. 52 R9 O sesto dom piadade | é, que houv’ e há, de pram, a quantos nas grandes coitas | a chamam e chamarám; e porém Santa Maria | os pecadore-la ham ante Deus por avogada, | e por sempr’ assi será. * * * 818 Cantigas de Santa Maria 419 «Des quando Deus sa madre aos ceos levou» (E (FSM) 9, U (FSM) 5) Esta IX é da vigília de Santa Maria d’ agosto, como ela passou deste mundo e foi levada ao ceo; e esta festa é no mês d’ agosto meiante. E começa assi: R0 2 I 4 6 R1 7-8 II 10 12 Des quando Deus sa madre | aos ceos levou, de nos levar consigo | carreira nos mostrou. Ca, pois levou aquela | que nos deu por senhor e El filhou por madre, | mostrou-nos que amor mui grande nos havia, | nom podia maior, ca pera o seu reino | logo nos convidou. [Refrão = vv. 1-2] Mas como passou ela | deste mundo, contar vos quer’, e em qual guisa | a vo Deus levar consigo ao ceo, | u a foi corõar por reinha dos santos: | tam muito a honrou. R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III Assi foi que o dia | que Deus morte prendeu, a sa beita madre | viu quanto padeceu na cruz por nós; e logo | tal pesar recebeu que a filhou quartãa, | que nunca ém sãou. 16 18 R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV E depois morou sempre | dentr’ em Jerusalém, e nom vinha a ela | enfermo que log’ ém são se nom partisse; | mas a ela, per rem, nom leixou a quartãa | ates que finou. 22 24 R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V Mas no templ’ u estava | a comprida de fé, um ángeo lhe disse: | “– Madre de Deus, avé: o teu filho te manda | dizer que já temp’ é que leixes este mundo | mao u t’ El leixou”. 28 30 R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI E um ramo de palma | lhe deu log’ em sinal que dend’ a tercer dia | (nom haveria al) que verria por ela | o rei espirital, seu filho Jesu-Cristo, | que em ela_encarnou. 34 36 R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII Disso-lh’ a Santa Virgem: | “– Senhor, e qual nom’ hás?” O ángeo respôs-lhe: | “– Esto nom saberás, 40 819 42 ca meu nom’ é mui grande; | mas cedo veerás os apóstolos tigo, | que Deus vĩir mandou R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII por honrar-t’ em ta morte”. | E foi-se log’ entom o ángeo. E ela | foi fazer oraçom bem a Mont’ Olivete, | u aquela sazom morava; e tantoste | em seu banho entrou, 46 48 R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2] IX e vestiu os melhores | panos que pôd’ haver; e Sam Joám fez logo | chamar, e a dizer lhe começou seu feito: | de como a veer o ángeo vera | que lhe Deus enviou; 52 54 R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2] X e disse-lhe chorando: “– Nembre-te, Sam Joám, de com’ em ta comenda | o do mui bom talám me leixou, o meu filho; | porém, guardar, de pram, me deves em mià morte, | pois te mi_acomendou; 58 60 R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2] XI e, com’ eu hei oído, | estes maos judeus, que matarom meu filho | como falsos encreus, meaçam de queimarem | a carn’ e estes meus ossos pois for passada: | um deles mi_o contou”. 64 66 R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2] XII Enquant’ eles em esto | falavam entre si, ũas nuves mui craras | adusserom log’ i os apóstolos onze; | e nom vo ali Santo Tomás com eles, | ca chegar nom oviou. 70 72 R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2] XIII E logo que chegarom, | com’ a_Escritura diz, os recebeu mui leda | a santa ’mperadriz e disso-lhes: “– Amigos, | este dia fiiz foi que Deus vos adusse | aqui e vos juntou; 76 78 R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2] XIV e, pois juntados sodes, | esto vos rogarei: que vigiedes migo; | ca eu de certo sei que crás em aquel dia | deste mundo m’ irei, ca um ángeo santo | comig’ esto falou”. 82 84 R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2] XV Eles, quand’ est’ oírom, | chorarom log’ assaz; pois disserom: “– Faremos, | senhor, o que vos praz”. E rezarom seus salmos | com’ ena lee jaz; e ela em seu leito | ant’ eles se deitou. 88 90 R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2] XVI Outro dia Sam Pedro | a voz de Deus oiu 820 94 96 que lhes diss: “– Aqui sõo | vosc’”. E logo sentiu tod’ aquela companha | mui bom odor, e viu claridade, que todo | o log’ enlumeou. R16 97-98 [Refrão = vv. 1-2] XVII Mas a hora de sesta | direi-vo-lo que fez Deus, que foi Padr’ e filho | desta Virgem de prez: vo levar-lh’ a alma, | que El já outra vez lhe metera no corpo, | u a santivigou. 100 102 R17 103-104 [Refrão = vv. 1-2] XVIII 106 E disso a Sam Pedro: | “– Direi-ch’ o que farás: pois mià madr’ é finada, | nom esperes a crás, mas enterra seu corpo | no Val de Josafás, em atal sepultura | com’ ela t’ ensinou”. 108 R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2] XIX Esto foi em agosto, | em meiante do mês, que Jesu-Crist’ a alma | de sua madre prês; e o corpo Sam Pedro | filhou com set’ e três apóstolos e em Jo- | -safá-lo enterrou. 112 114 R19 115-116 [Refrão = vv. 1-2] XX E, poi-la enterrarom | em sepulcro mui bel, forom-s’ aa cidade; | mas logo Sam Miguel levou o corpo dela | com outro gram tropel d’ ángeos que verom, | e cada um cantou. 118 120 R20 121-122 [Refrão = vv. 1-2] XXI Eles indo cantando, | Santo Tomás subir os viu, que Deus fezera | ena nuve vĩir; e viu Santa Maria | entr’ eles todos ir, e, por saber quem era, | logo lhes preguntou. 124 126 R21 127-128 [Refrão = vv. 1-2] XXII E ela respondeu-lhe: | “– Tomás, amigo meu, a mià alma meu filho | levou, bem ti dig’ eu, e meu corp’ ora levam | pera o reino seu estes ángeos santos, | e com eles me vou”. 130 132 R22 133-134 [Refrão = vv. 1-2] XXIII 136 E Sam Tomás lhe disse: | “– Senhor, mui m’ é mester, por que creúdo seja | desto, se vos prouguer, que algum sinal haja, | que, quando o disser, que eu amostrar possa”. | E ela lhe lançou 138 R23 139-140 [Refrão = vv. 1-2] XXIV 142 a cinta que cingia, | que vos nom foi dom vil, ant’ era mui bem feita | e d’ obra mui sotil. E el deu end’ a ela | porém loores mil, e, sa cinta na mão, | aa vila chegou. 144 R24 145-146 [Refrão = vv. 1-2] 821 XXV 148 150 Os onze, poi-lo virom, | disserom: “– Tol-t’ alá, e, que te Deus nom ama, | gram mostra ch’ ém feit’ há, que nom viste sa madre | morrer, nem fust’ acá u a nós soterramos: | tanto te despreçou”. R25 151-152 [Refrão = vv. 1-2] XXVI 154 Santo Tomás, chorando, | respondeu-lhes adur: “– Dized’ u a metestes; | mas sei eu que nenlhur achar no-na podedes, | quant’ o bretom Artur, ca eu a vi na nuve | subir, e me chamou; 156 R26 157-158 [Refrão = vv. 1-2] XXVII 160 e, porque me creades, | esta cinta me quis dar, e que de seu feito | sejades todos fis que eu vi o seu corpo | mui mais branco ca lis ir subind’ aos ceos, | e mui pouc’ i tardou”. 162 R27 163-154 [Refrão = vv. 1-2] XXVIII 166 Entom disse Sam Pedro: | “– Tenho que será prol d’ irmos provar aquesto | que nos diz este fol; e, se nom for verdade, | ũa folha de col nom demos mais por ele, | ca sempr’ este dultou”. 168 R28 169-170 [Refrão = vv. 1-2] XXIX 172 Entom forom dizendo: | “– Mentira nos aduz”. E catarom a fossa | daquela que na cruz viu morrer o seu filho; | mas pero, senom luz, nulha rem nom acharom. | E muito se sinou 174 R29 175-176 [Refrão = vv. 1-2] XXX 180 Sam Pedro, e os outros | todos a ũa voz em terra se deitarom, | pedindo por Aioz perdom a Santo Tomas; | e diss’ el: “– ũa noz nom daria por esto, | pois com verdad’ estou”. 182 Des quando Deus sa madre | aos ceos levou, de nos levar consigo | carreira nos mostrou. 178 R30 * * * 822 Cantigas de Santa Maria 420 «Beita és, Maria, filha, madr’ e criada» (E (FSM) 10) Esta décima é no dia, aa processom, como as processões do ceo receberom a Santa Maria quando sobiu aos ceos. I 2 4 6 8 10 12 II 14 16 18 20 22 24 III 26 28 30 32 34 36 IV 38 40 42 Beita és, Maria, | filha, madr’ e criada de Deus, teu padr’ e filho: | est’ é cousa provada. Beita foi a hora | em que tu gerada fuste, e a ta alma | de Deus santivigada; e beito [o dia] | em que, pois, fuste nada, e d’ Adám o pecado | quita e perdõada; e beito-los panos | u fust’ envurulhada, e outrossi a teta | que houviste mamada; e beita a água | em que fuste banhada, e a santa vianda | de que fust’ avondada; e beita a fala | que houviste falada, e outrossi a letra | de que fust’ ensinada. E beita a casa | u feziste morada, e outrossi o tempro | u fuste presentada; e beita a seda | que houviste fiada, e outrossi a obra | que end’ houv[i]ste_obrada; e beita u fuste | com Josep’ esposada, nom que tigo casasse, mas del fosses guardada; e beita a hora | u fuste saudada pelo ángeo santo, | e ar de Deus prenhada; e beita a culpa | de que fust’ acusada, onde ficaste quita | e santa e salvada; e beita_a ta carne | em que jouv’ enserrada a de teu filho Cristo | e feita e formada. E beita u fust[e] | a Beleém chegada e, por parir teu filho, | ena cova entrada; beita u pariste | hom’ e Deus sem tardada, sem door que houvesses | del, nem fosses coitada; e beita a tua | virgindade sagrada, que ficou como x’ era | ant’, e nom foi danada; beita a ta leite | onde foi governada a carne de teu filho | e creçud’ e uviada; beita-las tas mãos | com que foi faagada a sa pessõa santa | e bem-aventurada; beita foi a vida | que, pois, com El usada houviste, macar fuste | mui pobr’ e lazerada. E beita, beita | u houvist’ acabada a vida deste mundo | e del fuste passada; e beita u vo | a ti, a ta pousada, teu filho Jesu-Cristo, | e per El foi tomada a ta alma beita | e do corpo tirada, que a Sam Miguel houve | tantost’ acomendada; beita a companha | que t’ houv’ acompanhada, 823 44 46 48 V 50 52 54 56 58 60 VI d’ ángeos mui fremosos | precissom ordinhada; e beita a outra | d’ arcángeos honrada que te receber vo, | de que fuste loada; e beita a hoste | que «Tronos» é chamada e «Dominationes», | que te foi enviada. Beita u houviste, | em sobind’, encontrada Príncepes, Podestades, | deles grand’ az parada; beita u Querubim | e Serafim achada t’ houverom, ca tantoste | deles fust’ aorada; e beita u fuste | das vertudes cercada dos ceos, e per eles | a ta loor cantada; beita u teu filho | vo apressurada-ment’ a ti muit’ aginha | com toda sa masnada; beita u El disse | aos santos: “– Leixada logo seja mià madr[e] | a mi, ca vem cansada”; beita u t’ El houve | dos braços abraçada; e tu com piedade | sobr’ El fuste_acostada. 72 Beita u os santos | em mui gram voz alçada disserom: “– Bem venhades, | senhor mui desejada”; beita u teu filho | a Deus t’ houve mostrada dizendo: “– Padr’, aquesta | madre m’ houviste dada”; beita u Deus quis[o] | que ta carne juntada fosse co-na ta alma | e per El corõada. Beita és por esto, | amiga e amada de Deus e ar dos santos, | e nossa avogada. E porende, beita, | te rog’ eu aficada-ment[e] que a ta graça | me seja outorgada, por que a ta mercee | beita mui grãada haja em este mundo, | e me dés por soldada 74 que, quando a mi’ alma | daqui fezer jornada, que a porta do ceo | nom lhe seja vedada. 62 64 66 68 70 F * * * 824 Cantigas de Santa Maria 421 «Nembre-se-te, madre» (E (FSM) 11) Esta XI, em outro dia de Santa Maria, é de como lhe venha emente de nós ao dia do joízo e rogue a seu filho que nos haja mercee. 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 Nembre-se-te, madre de Deus, Maria, que a El, teu padre, rogues todavia (pois estás em sa companhia e és aquela que nos guia) que, pois nos Ele fazer quis, sempre, noit’ e dia, nos guarde, per que sejamos fis que sa felonia nom nos mostrar queira, mais dé-nos enteira a sa grãada mercee, pois nossa fraqueza vee e nossa folia com ousadia, que no[s] desvia da bõa via que levaria nós u devia, u nos daria sempr’ alegria, que nom falria nem menguaria, mas creceria e pojaria e compriria e ’ncimaria a nós. * * * 825 Cantigas de Santa Maria 422 «Madre de Deus, ora» (E (FSM) 12, U 100) Esta XII é de como Santa Maria rogue por nós a seu filho eno dia do joízo. R0 2 I 4 R1 6 II 8 R2 10 III 12 R3 14 IV 16 R4 18 V 20 R5 22 VI 24 R6 26 VII 28 R7 30 VIII 32 R8 34 IX U verrá na carne | que quis filhar de ti, madre, joigá-lo mundo | co-no poder de seu Padre, madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E u El a todos | parecerá mui sanhudo, entom fás-lh’ emente | de como foi concebudo: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E em aquel dia, | quand’ Ele for mais irado, fais-lhe tu emente | com’ em ti foi enserrado: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U verás dos santos | as companhas espantadas, mostra-lh’ as tas tetas | santas que houv’ El mamadas: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U ao joízo | todos, per com’ é escrito, verrám, di-lhi como | com El fogist’ a Egito: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U leixarám todos | os viços e as requezas, di-lhe que sofriste | com Ele muitas pobrezas: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U queimará fogo | serras e vales e montes, di com’ em Egito | nom achast’ águas nem fontes: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U verás os ángeos | estar ant’ Ele tremendo, di-lhe quantas vezes | o tu andast’ ascondendo: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. 38 U dirám as trompas | “– Mortos, levade-vos logo!”, di-lh’ u o perdiste, | que ta coita nom foi jogo: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. 40 U será o aire | de fog’ e de sufr’ aceso, di-lh’ a mui gram coita | que houviste pois foi preso: 36 R9 Madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. X 826 R10 42 XI 44 R11 46 XII 48 R12 50 XIII 52 R13 54 XIV 56 R14 58 XV 60 R15 62 XVI 64 R16 66 XVII 68 R17 70 madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U verrá do ceo | sõo mui fort’ e rogido, di-lh’ o que sofriste | u d’ açoutes foi ferido: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. U terrám escrito | nas frontes quanto fezerom, di-lh’ o que sofriste | quand’ o ena cruz poserom: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E quando s’ iguarem | montes e vales e chãos, di-lh’ o que sentiste | u lhe pregarom as mãos: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E u o sol craro | tornar mui negro de medo, di-lh’ o que sentiste | u beveu fel e azedo: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E du o mar grande | perderá sa semelhança, di-lh’ o que sofriste | u lhe derom co-na lança: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E u as estrelas | caerem do firmamento, di-lh’ o que sentiste _u | foi posto no monumento: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. E du o inferno | levar os que mal obrarom, di-lh’ o que sentiste | u o sepulcro guardarom: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. XVIII 72 R18 74 E u todo-los reis | forem ant’ El homildosos, di-lhe como ves | deles dos mais poderosos: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. XIX E u mostrar Ele | tod’ estes grandes pavores, fás com’ avogada: | tem voz de nós, pecadores: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora, 76 R19 78 XX 80 R20 82 que polos teus rogos | nos lev’ ao paraíso seu, u alegria | hajamos por sempr’ e riso: madre de Deus, ora por nós teu filh’ essa hora. * * * 827 Cantigas de Santa Maria 423 «Como podemos a Deus gradecer» (U [FJC] 1) Pois que el-rei fez cinco cantigas das cinco festas de Santa Maria, teve por bem de fazer outras cinco cantigas das cinco festas de Nostro Senhor Jesu-Cristo. Esta primeira é de com’ El fez o ceo e a terra e o mar e o sol e a lũa e as estrelas e toda-las outras cousas que som, e como fez o home a sa semelhança. R0 2 I Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 6 Por nós fez El ceo, terra e mar, ca pera si no-n’ havia mester; e quem aquesto creer nom quiser, a piedade de Deus quer negar. 8 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 4 R1 II 12 De com’ El fez a luz e a criou, bem semelha seu feit’, amigos meus; pero ma[i]s foi u, por salvá-los seus, o seu lume na Virgem enserrou. 14 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 10 R2 III 18 E u os ceos fez e estendeu, bem semelha obra de mui gram sém; mas maior foi, a que-no catar bem, u, por ser home, deles decendeu. 20 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 16 R3 IV 24 E u a terra fez, mostrou bem qual poder havia; mas quem comidir, por mais terrá u, por nos remiir, andou em ela e sofreu gram mal. 26 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 22 R4 30 E u a lũa e o sol, que luz, criou, grand’ obra e mui nobre fez; pero mais foi u chus negros ca pez tornarom u por nós prês mort’ em cruz. 32 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 34 E u as ’strelas fez, de certo sei que em fazê-las nom filhou afám; V 28 R5 VI 828 36 pero mais foi u per elas, a pram, dos [três] Reis foi aorado por rei. 38 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? R6 VII 42 E u os peixes, per com’ aprendi, criou das águas, com’ escrito jaz, gram cousa foi; mas mui maior assaz u sobr’ elas andou por nós aqui. 44 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 40 R7 VIII 48 E u as aves, com’ El por bem viu, que voassem no air[e] fazer quis, muito foi; mas desto vos faço fis: que mais fez por nós u per el subiu. 50 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 46 R8 IX 54 E [u] bêstias, com’ o escrito diz, fez de naturas muitas mais ca mil, muito foi; pero mais u eno vil presev’ ontr’ elas jouvo mui fiiz. 56 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 52 R9 X 60 E u fez [o] hom’ apost’ e mui bel, a que deu entendiment’ e razom, muito foi; pero mais u prês paxom po-lo salvar, e morte mui cruel. 62 Como podemos a Deus gradecer quantos bes El por nós foi fazer? 58 R10 * * * 829 Cantigas de Santa Maria 424 «Pois que dos reis Nostro Senhor» (T [0], U [FJC] 2) Esta segunda é de como os três Reis Magos verom a Beleém aorar a Nostro Senhor JesuCristo e lhe ofererom seus dões. R0 2 4 I 6 8 10 12 R1 14 16 II 18 20 22 24 R2 26 28 III 30 32 34 36 R3 38 40 IV Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. Esto foi quand’ em Beleém de Santa Maria naceu e a treze dias des ém aos três Reis apareceu, que cada ũu per seu sém ena estrela conhoceu com’ era Deus rei; e porém de longe o forom veer, Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. bem das ínsoas de Sabá e de Tarso, que som no mar, e d’ Arábia, u gram gent’ há e muitas terras de passar; mas pero eram long’ alá, mui toste os fezo chegar a Beleém aquel que há sobre todas cousas poder. Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. Ena estrela lhes mostrou com’ era hom’ e rei e Deus; porém cada um lhe levou oferta dos tesouros seus. E a estrela os guiou até na terra dos judeus, u Herodes lhes demandou: “ – Que vestes aqui fazer?” Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. Eles responderom-lh’ assi: 830 42 44 46 48 R4 50 52 V 54 56 58 60 R5 62 64 VI 66 68 70 72 R6 74 76 VII 78 80 82 84 R7 86 88 “ – Na estrela vimos que rei mui nobre nacera aqui, senhor dos judeus e da Lei”. Diss’ Herodes: “ – Creed’ a mi, ca bom conselho vos darei: id’, e pois tornardes des i, ar i-lo-ei eu conhocer”. Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. Eles forom-se log’ entom e virom a estrela ir ante si de mui gram random, e começaro-n’ a seguir; mas quand’ em Beleém foi, nom se quis de sobr’ ela partir, atá que entraron u Dom Jesu-Cristo virom seer Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. nos braços da que muit’ afám sofreu com El e muito mal. E eles logo manamám derom-lhe sa oferta tal: ouro (de que aos reis dam), encenso (por espirital), mirra (de que os mortos vam ungir por nunca podrecer). Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. Esto, ca nom maravidis, ofererom a Deu-los Reis; porend’ assi os guardar quis aquele que juntou as leis, que per sonhos os fez bem fis, que sonharom vel cinc’ ou seis vezes que fossem a Tarsis passá-lo mar por guarecer. Pois que dos reis Nostro Senhor quis de seu linhage decer, com razom lhes fez est’ amor: em que lhes foi aparecer. * * * 831 Cantigas de Santa Maria 425 «Alegria, alegria» (U [FJC] 3) Esta terceira é como Nostro Senhor resurgiu e como se mostrou aos apóstolos e aas três Marias. R0 2 I 6 Mui grand’ alegria fazer devemos, ca Deus quis morrer por nós, e a morte vencer morrendo, que nos vencia. 8 Alegria, alegria façamos já todavia! 4 R1 II 12 Quem tam grand’ alegria viu com’ esta? Ca nos reemiu Deus por sa mort’ e resurgiu do sepulcr’ a tercer dia. 14 Alegria, alegria façamos já todavia! 10 R2 III 18 Grand’ alegria nos creceu quando do ceo decendeu o ángeo, e que tremeu a terra u el decia. 20 Alegria, alegria façamos já todavia! 16 R3 IV 24 Grand’ alegria nos deu Deus quando com pavor os judeus do ángeo, esses encreus, cada um deles caía. 26 Alegria, alegria façamos já todavia! 22 R4 V 30 Grand’ alegria, a-la-fé, foi pois Maria Salomé e Jacobe com aloé e Madalena Maria, 32 Alegria, alegria façamos já todavia! 28 R5 VI 34 36 R6 Alegria, alegria façamos já todavia! mui grand’ alegria nos dar foi Deus u o forom buscar ao mõiment’, e achar niũa delas podia. Alegria, alegria 832 38 VII 42 Grand’ alegria houv’ ali entom quando lhes diss’ assi o ángeo: “– Nom ést’ aqui”, que sobr’ a pedra seía. 44 Alegria, alegria façamos já todavia! 40 R7 VIII 48 Grand’ alegria, sem mentir, foi u lhes disse: “– Resurgir quis Jesu-Crist’, e se vos ir queredes u El dizia, 50 Alegria, alegria façamos já todavia! 46 R8 IX 54 grand’ alegria vos será, ca o veeredes alá em Galilea, u está segund’ vos El dit’ havia”. 56 Alegria, alegria façamos já todavia! 52 R9 X 60 Alegria de coraçom houverom elas. E entom forom alá, e Simeom Pedr’ i foi, a que prazia. 62 Alegria, alegria façamos já todavia! 58 R10 XI 66 Mai-la alegria maior foi a da madre do Senhor que resurgiu, e gram sabor, porque viu o que creía. 68 Alegria, alegria façamos já todavia! 64 R11 façamos já todavia! * * * 833 Cantigas de Santa Maria 426 «Subiu ao ceo o filho de Deus» (U [FJC] 4) Esta quarta é como Nostro Senhor subiu aos ceos [a]nte seus dicípolos. R0 2 I 4 6 Subiu ao ceo o filho de Deus por dar paraís’ aos amigos seus. Subiu ao ceo, onde quis decer em terra por nós, e da Virgem nacer, e depois paixom e morte foi prender mui forte na cruz per mão dos judeus. R1 7-8 [Refrão = vv. 1-2] II Onde foi assi que em Jerusalém teve sa gram festa, como senhor tem, com sa companha; e, pois comerom bem, trouxe-os mui mal porque eram encreus: 10 12 R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2] III 16 18 porque nom quiserom creer nem oir os que o viram de morte resurgir. Porend’ ant’ eles aos ceos subir quis, segundo conta[m] Marcos e Mateus. R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2] IV 22 24 Mas ante lhes disse: “ – Ide preegar o meu evangeo per cada logar, e quantos creverem e se batiçar quiserem de grado, logo serám meus. R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2] V 28 30 Os que nom creverem, perdudos serám; mai-los outros os diabres deitarám dos homees, e lenguages falarám mais que aqueles que albergam romeus; R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2] VI 34 36 nem lhes nuzirá se beverem poçom, e guarrám de todo mal e de lijom aos enfermos.” E aqueste sermom fez em Mont’ Olivete ant’ os hebreus. R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2] VII 40 42 Pois est’ houve dito, nas nuves subiu, e a gent’ aos ceos subi-lo viu, que a voz dos ángeos logo oiu que lhes diss’ assi: “ – Varões galileus, 834 R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2] VIII 48 ena maneira que o vedes dacá subir ao ceo, bem assi verrá joigá-lo mund’, e os mortos fará resurgir, que nom creem os fariseus”. 50 Subiu ao ceo o filho de Deus por dar paraís’ aos amigos seus. 46 R8 * * * 835 Cantigas de Santa Maria 427 «Todo-los bes que nos Deus» (U [FJC] 5) Esta quinta é como Nostro Senhor enviou o seu Sant’ Isprito sobre-los seus dicípolos. R0 1 3 5 I 7 9 R1 10-14 II 16 18 R2 19-23 III 25 27 R3 28-32 IV 34 36 R4 37-41 V 43 45 R5 46-50 VI 52 54 R6 55-59 Todo-los bes que nos Deus quis fazer polo Filho seu, nos compriu quando aos seus o seu Sant’ Espírito deu que prometeu. Ca per El o sabemos conhocer, e, conhocendo, amar e temer, e, demais, dá-nos grand’ esforço de prender morte por El, nembrando-nos de com’ El por nós morreu. [Refrão = vv. 1-5] E porende vos quer’ ora dizer com’ est’ Espírito fezo decer Deus sobre-los seus dicípolos, que seer dessuu fez, por que cada um gram sém del recebeu. [Refrão = vv. 1-5] Muitas vezes lhes fora prometer Deus que per seu Espírito saber lhes faria toda-las cousas entender melhor que nunca sage em todo o mund’ aprendeu. [Refrão = vv. 1-5] E porend’ os dicípolos meter se foram dessuu e atender em ua casa por aquel dom receber; e estand’ ali, direi-vos eu o que lhes conteceu. [Refrão = vv. 1-5] A terça começou muit’ a tremer a terra, e som come de caer o aire fez; e entom virom decender línguas de fogo sobre si, que os todos encendeu [Refrão = vv. 1-5] d’ Espírito; e dali sem lezer se saírom sem rem se deteer, e pela vila se filharom a correr; e diziam por eles: “ – Aquesta gent’ ensandeceu; [Refrão = vv. 1-5] 836 VII 61 63 R7 64-68 VIII 70 72 R8 73-77 IX 79 81 R9 82-86 X 88 90 R10 91-95 XI 97 99 R11 100-104 XII 106 108 R12 109 110 113 ca sabemos que nom sabem leer nem ar houverom tempo d’ aprender, e falam todos lenguages, e responder sabem melhor a toda rem que aquel que mais leeu. [Refrão = vv. 1-5] E por esto nom devemos creer que o vinho lhes faz esto fazer, mai-la vertude daquel Deus que há poder de fazer que os lenguages entendam, que cofondeu [Refrão = vv. 1-5] em Babilonha, u forom erger a torre que podessem atanger bem so aos ceos; mais foi-lhes Deus tolher os lenguages, assi que um a outro nom entendeu”. [Refrão = vv. 1-5] E dali adeante, sem temer, souberom preegar e retraer os dicípolos, e as gentes converter a Jesu-Crist’, e cada um deles muitos converteu. [Refrão = vv. 1-5] E muitas coitas ar forom sofrer por El e, ’ncima, morte padecer; e em tal guisa quis Nostro Senhor vencer o demo pelos seus, e aqueste mundo conquereu. [Refrão = vv. 1-5] E nós roguemos a que gram prazer viu de seu Filho quando a põer foi enos ceos a par de si, que haver nos faça del o Sant’ Espírito, pois dela naceu. Todo-los bes que nos Deus quis fazer polo Filho seu, nos compriu quando aos seus o seu Sant’ Espírito deu que prometeu. * * * * * * 837