[Afonso X o Sábio]
Cantigas de Santa Maria
(Texto crítico completo)
Edição de
José-Martinho Montero Santalha
2021
[Afonso X o Sábio]
Cantigas de Santa Maria
(Texto crítico completo)
À maneira de apresentação [2021]
Pensando que para algumas pessoas interessadas nas Cantigas de Santa Maria pode ser útil
dispor do texto completo de todas as cantigas num único arquivo, apresento neste ficheiro o resultado da minha edição crítica, mas aqui sem aparato crítico nem comentários: só os textos poéticos
das cantigas, unicamente com as epígrafes iniciais em prosa (e final na cantiga 0B).
Não se incluem os textos das legendas das miniaturas. Estão acessíveis na rede nestoutros
trabalhos meus:
«As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códices T e F)», em: ROJosé Luís (dir.) (2000): Estudos dedicados a Ricardo Carvalho Calero: Reunidos
e editados por José Luís RODRÍGUEZ, Santiago de Compostela: Parlamento de Galicia / Universidade de Santiago de Compostela, 2 volumes, volume 2º, pp. 507-552:
DRÍGUEZ,
(PDF) As legendas das miniaturas das "Cantigas de Santa Maria" (códices T e F) [2000] | JoséMartinho Montero Santalha - Academia.edu
«As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códice T: 2ª parte)», em:
Agália, núms. 69-70 (1º semestre de 2002), pp. 43-88:
(PDF) As legendas das miniaturas das Cantigas de Santa Maria (códice T: 2ª parte) [2002] | JoséMartinho Montero Santalha - Academia.edu
Tampouco se incluem os textos dos índices dos códices (os quais índices recolhem substancialmente as epígrafes e os versos inicias das cantigas).
Critérios de edição
Os critérios de edição que aplico aos textos podem ver-se expostos, neste mesmo sítio, em
diversos artigos; especialmente em «Cantigas trovadorescas (edição digital): Critérios de transcrição e de edição de textos»:
(PDF) Cantigas trovadorescas (edição digital): Critérios de transcrição e de edição de textos
[2004] | José-Martinho Montero Santalha - Academia.edu
Para alguns pontos mais específicos dos textos das Cantigas de Santa Maria (elaborados e
transcritos em ambiente de língua castelhana), nomeadamente para o uso dos dígrafos lh e nh (em
vez de ll e nn) e de -m final de palavra, pode ver-se a introdução do artigo antes citado «As legendas [...]» (2000).
Manuscritos das Cantigas de Santa Maria
Note-se que uso a sigla U para o códice conservado na Biblioteca Nacional de Madrid que
habitualmente é denominado To ou Tol. Pode ver-se a justificação que dou para essa nova sigla no
seguinte trabalho (secção A4b "Manuscritos das Cantigas de Santa Maria"):
(PDF) Cantigas trovadorescas (edição digital): Apresentação geral: a poesia trovadoresca galegoportuguesa [2004] | José-Martinho Montero Santalha - Academia.edu
1
As 9 cantigas repetidas no códice E
As Cantigas de Santa Maria são 420, não 429, apesar de que assim pode parecer pela numeração usada. A explicação do facto está em que há 9 cantigas repetidas (no códice E, que se toma
como base da numeração, por ser o mais completo) por descuido dos autores/organizadores da colecção. Isto é, neste códice 9 cantigas aparecem transcritas duas vezes em pontos diferentes da colectânea (e, conseguintemente, com dois diferentes números identificativos, como se fossem cantigas diferentes), com texto e melodia substancialmente idênticos (pois as leves variantes textuais
que por vezes ocorrem entre as duas versões não possuem maior importância que a que podem ter
as versões de uma mesma cantiga em dois códices).
Destarte, nove números de cantigas, segundo a numeração de E, resultam “vazios”, porque
repetem cantigas já numeradas anteriormente. Estas repetições ocorrem todas nas últimas decenas,
a partir da cantiga núm. 373, que é repetição da 267.
Eis a lista dessas 9 cantigas repetidas (na ordem em que ocorrem segundo a nova numeração
que recebem na segunda ocorrência), com indicação da primeira ocorrência: 373 = 267; 387 =
349; 388 = 295; 394 = 187; 395 = 165; 396 = 289; 397 = 192; [412] = 340; [416] = 210.
Como os precedentes editores, conservo esses 9 números vazios, já que, agindo doutra maneira, entre outros inconvenientes resultaria destruída a estuturação decenal que as Cantigas de
Santa Maria possuem.
As Cantigas de Santa Maria na rede
Da abundante informação de toda a índole sobre as Cantigas de Santa Maria disponível na
rede (incluídos os áudios com a execução musical de muitas cantigas), não quero deixar de citar
dois sites especialmente meritórios e recomendáveis:
1. «Cantigas de Santa Maria for Singers»
Cantigas de Santa Maria for Singers
O título geral do sítio («Cantigas de Santa Maria for Singers») quer indicar que a edição vai
destinada especialmente para a execução musical: partituras musicais, com transcrição fonética de
todo o texto. Mas, na realidade, embora esse aspecto seja plenamente verdadeiro, o que aqui se
nos oferece é muito mais do que isso: desde uma rigorosa edição do texto poético, com múltiplas
achegas e inteligentes comentários sobre pontos de ecdótica textual, até um vocabulário completo
e localizado de todo o conjunto textual das Cantigas de Santa Maria, e muitos outros meteriais
complementares. E tudo com grande rigor científico e com uma apresentação visualmente agradável e "amigável", fácil de compreender e de manejar mesmo para o leitor não especializado. Em
resumo, um trabalho extraordinário, mais admirável ainda por ser uma obra de amor desinteressado, de uma única pessoa, o seu autor Andrew Casson, a quem me permito aqui manifestar a minha
admiração e homenagem.
2. «The Oxford Cantigas de Santa Maria database - Centre for the Study of the Cantigas de Santa
Maria of Oxford University»
The Oxford Cantigas de Santa Maria database | Home - <a href="#gt"><i>Inicio</i></a>
Este site encontra-se em processo de elaboração e de enriquecimento constante. Oferece informação muito rica e valiosa sobre todas as cantigas: especialmente sobre fontes e versões antigas
dos relatos, ampla bibliografia sobre cada uma das cantigas e sobre o conjunto em geral, e outros
complementos. Inclui já uma boa parte dos textos poéticos em edição crítica, que se espera ir
completando. Deve-se à iniciativa e à direcção do professor Stephen Parkinson (um dos grandes
especialistas sobre as Cantigas de Santa Maria, a quem igualmente quero manifestar aqui a minha
admiração e homenagem, com o desejo de que a obra em curso continue a enriquecer-se).
José-Martinho Montero Santalha
(Universidade de Vigo)
Em Perlio (Galiza), no dia 15 de agosto (festa litúrgica da Assunção, “Santa Maria de
agosto” (419.0), a “festa grande” (77.30) da Virgem Maria) de 2021 (ano em que se completam 8 séculos do nascimento do rei Afonso X o Sábio, em 23 de novembro de 1221, em
Toledo).
2
Cantigas de Santa Maria 0A
«Dom Afonso, de Castela»
(E [01], T [03], U [01])
I
2
4
II
6
8
III
10
12
IV
14
16
V
18
20
VI
22
24
VII
26
28
Dom Afonso, de Castela,
de Toledo, de Leom
rei, e bem des Compostela
tá o reino d’ Aragom,
de Córdova, de Jaém,
de Sevilha outrossi,
e de Murça (u gram bem
lhe fez Deus, com’ aprendi),
do Algarve, que gãou
de mouros, e nossa fé
meteu i, e ar pobrou
Badalhouz (que reino é
muit’ antig’), e que tolheu
a mouros Nevl’ e Xerez,
Beger, Medina prendeu
e Alcalá doutra vez,
e que «dos romãos rei»
é per dereit’, e senhor,
este livro, com’ achei,
fez a honr’ e a loor
da Virgem Santa Maria,
que éste madre de Deus,
em que ele muito fia.
Porém, dos miragres seus
fezo cantares e sões
saborosos de cantar,
todos de senhas razões,
com’ i podedes achar.
* * *
3
Cantigas de Santa Maria 0B
«Porque trobar é cousa em que jaz»
(E [02], T [02], U [02])
Este é o prólogo das «Cantigas de Santa Maria», ementando as cousas que há mester eno
trobar.
I
2
4
6
II
8
10
12
III
14
16
18
IV
20
22
24
V
26
28
30
VI
32
34
36
VII
38
40
42
Porque trobar é cousa em que jaz
entendimento, porém que-no faz
há-o d’ haver, e de razom assaz,
per que entenda e sábia dizer
o que entend’ e de dizer lhe praz,
ca bem trobar assi s’ há de fazer.
E, macar eu estas duas nom hei
com’ eu querria, pero provarei
a mostrar ende um pouco que sei,
confiand’ em Deus, ond’ o saber vem;
ca per Ele tenho que poderei
mostrar, do que quero, algũa rem.
E o que quero é dizer loor
da Virgem, madre de Nostro Senhor,
Santa Maria, que ést’ a melhor
cousa que El fez; e por aquest’ eu
quero seer hoimais seu trobador,
e rogo-lhe que me queira por seu
trobador e que queira meu trobar
receber, ca per el quer’ eu mostrar
dos miragres que ela fez; e ar
querrei-me leixar de trobar des i
por outra dona, e cuid’ a cobrar
per esta quant’ enas outras perdi.
Ca o amor desta senhor é tal
que que-no há, sempre per i mais val,
e, poi-lo gaanhad’ há, nom lhe fal,
senom se é per sa grand’ ocajom,
querendo leixar bem e fazer mal
(ca per esto o perd’, e per al nom).
Porém dela nom me quer’ eu partir,
ca sei de pram que, se a bem servir,
que nom poderei em seu bem falir
de o haver, ca nunca i faliu
quem lho soube com mercee pedir,
ca tal rogo sempr’ ela bem oiu.
Onde lhe rogo, se ela quiser,
que lhe praza do que dela disser
em meus cantares, e, se lh’ aprouguer,
que me dé galardom com’ ela dá
aos que ama; e que-no souber,
por ela mais de grado trobará.
Aqui se acaba o prólogo das «Cantigas de Santa Maria».
* * *
4
Cantigas de Santa Maria 1
«Des hojemais quer’ eu trobar»
(E 1, T 1, U 1)
Esta é a primeira cantiga de loor de Santa Maria, ementando os [sete] goios que houve de
seu filho.
I
2
4
6
8
10
II
12
14
16
18
20
III
22
24
26
28
30
IV
32
34
36
38
40
V
42
44
Des hojemais quer’ eu trobar
pola senhor honrada
em que Deus quis carne filhar
beita e sagrada,
por nos dar gram soldada
no seu reino e nos herdar
por seus, de sa masnada,
de vida perlongada,
sem havermos pois a passar
per mort’ outra vegada.
E porém quero começar
como foi saudada
de Gabriel, u lhe chamar
foi: “– Bem-aventurada
Virgem, de Deus amada:
do que o mund’ há de salvar
ficas ora prenhada;
e, demais, ta cunhada
Elisabet, que foi dultar,
é end’ envergonhada”.
E, demais, quero-lh’ enmentar
como chegou cansada
a Beleém e foi pousar
no portal da entrada,
u pariu sem tardada
Jesu-Crist’, e foi-o deitar,
como molher menguada,
u deitam a cevada,
no presev’, e apousentar
ontre bêstias d’ arada.
E nom ar quero obridar
com’ ángeos cantada
loor a Deus forom cantar
e «Paz em terra» dada;
nem como a contrada
aos três Reis em Ultramar
houv’ a ’strela mostrada,
por que sem demorada
verom sa oferta dar,
estranha e preçada.
Outra razom quero contar
que lh’ houve pois contada
a Madalena: com’ estar
viu a pedr’ entornada
5
46
48
50
VI
52
54
56
58
60
VII
62
64
66
68
70
VIII
72
74
76
78
80
do sepulcr’ e guardada
do ángeo, que lhe falar
foi e disse: “– Coitada
molher, sei confortada,
ca Jesu, que ves buscar,
resurgiu madurgada”.
E ar quero-vos demostrar
gram lediç’ aficada
que houv’ ela u viu alçar
a nuv’ enlumada
seu filh’; e, pois alçada
foi, virom ángeos andar
entr’ a gent’ assũada,
mui desaconselhada,
dizend’: “– Assi verrá juigar:
est’ é cousa provada”.
Nem quero de dizer leixar
de como foi chegada
a graça que Deus enviar
lhe quis, atám grãada
que por el’ esforçada
foi a companha que juntar
fez Deus, e ensinada,
de ’Spírit’ avondada,
por que souberom preegar
logo, sem alongada.
E, par Deus, nom é de calar
como foi corõada,
quando seu filho a levar
quis, des que foi passada
deste mund’, e juntada
com El no ceo par a par,
e reinha chamada,
filha, madr’ e criada;
e porém nos dev’ ajudar,
ca x’ é noss’ avogada.
* * *
6
Cantigas de Santa Maria 2
«Muito devemos, varões»
(E 2, T 2, U 2)
Esta segunda é de como Santa Maria pareceu em Toledo a Sant’ Alifonso e deu-lh’ ũa alva
que trouxe de paraíso, com que dissesse missa.
R0
2
4
I
5
7
9
11
13
Muito devemos, varões,
loar a Santa Maria,
que sas graças e seus dões
dá a quem por ela fia.
Sem muita de bõa manha,
que deu a um seu prelado,
que primado foi d’ Espanha
e Afons’ era chamado,
deu-lh’ ũa tal vestidura
que trouxe de paraíso,
bem feita a sa mesura,
porque metera seu siso
e-na loar noit’ e dia.
R1 14-17
[Refrão = vv. 1-4]
II
Bem empregou el seus ditos,
com’ achamos em verdade,
e os seus bõos escritos
que fez da virgĩidade
daquesta senhor mui santa,
per que sa loor tornada
foi em Espanha de quanta
a end’ haviam deitada
judeus e a heregia.
18
20
22
24
26
R2 27-30
[Refrão = vv. 1-4]
III
Maior miragre do mundo
lh’ ant’ esta senhor mostrara,
u com rei Recessiundo
ena precissom andara,
u lhes pareceu, sem falha,
Santa Locai’, e, enquanto
lh’ el-rei talhou da mortalha,
disse-lh’: “– Ai Afonso santo,
per ti viv’ a senhor mia!”.
31
33
35
37
39
R3 40-43
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Porque o a groriosa
achou mui fort’ e sem medo
em loar sa preciosa
virgĩidad’, em Toledo
deu-lhe porend’ ũa alva,
que nas sas festas vestisse,
a Virgem santa e salva,
e, em dando-lha, lhe disse:
44
46
48
50
7
52
“– Meu filho esto ch’ envia”.
R4 53-56
[Refrão = vv. 1-4]
V
Pois lh’ este dom tam estranho
houve dad’, e tam fremoso,
disse: “– Par Deus, muit eanho
seria e orgulhoso
quem s’ em esta ta cadeira,
se tu nom és, s’ assentasse,
nem que per nulha maneira
est’ alva vestir provasse,
ca Deus del se vingaria”.
57
59
61
63
65
R5 66-69
[Refrão = vv. 1-4]
VI
Pois do mundo foi partido
este confessor de Cristo,
Dom Siágrio falido
foi arcebispo, pois isto,
que o filhou a seu dano:
ca, porque foi atrevudo
em se vestir aquel pano,
foi logo mort’ e perdudo,
com’ a Virgem dit’ havia.
70
72
74
76
78
R6
80
82
Muito devemos, varões,
loar a Santa Maria,
que sas graças e seus dões
dá a quem por ela fia.
* * *
8
Cantigas de Santa Maria 3
«Mais nos faz Santa Maria»
(E 3, T 3, U 3)
Esta terceira é como Santa Maria fez cobrar a Teófilo a carta que fezera co-no demo, u se
tornou seu vassalo.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Mais nos faz Santa Maria
a seu filho perdõar
que nós per nossa folia
lh’ imos falir e errar.
Por ela nos perdõou
Deus o pecado d’ Adám
da maçãa que gostou,
per que sofreu muit’ afám
e no inferno entrou;
mais a do mui bom talám
tant’ a seu filho rogou
que o foi end’ El sacar.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
Pois ar fez perdom haver
a Teófilo, um seu
servo, que fora fazer
per conselho dum judeu
carta por gãar poder
co-no demo, e lha deu;
e fez-lh’ em Deus descreer,
des i a ela negar.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
Pois Teófilo assi
fez aquesta traiçom,
per quant’ end’ eu aprendi,
foi do demo gram sazom;
mais depois, segund’ oí,
repentiu-s’ e foi perdom
pedir logo, bem ali
u pecador sol achar.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Chorando dos olhos seus
muito, foi perdom pedir,
u viu da madre de Deus
a omagem; sem falir
lhe diss’: “– Os pecados meus
som tam muitos, sem mentir,
que, senom per rogos teus,
nom poss’ eu perdom gãar”.
42
44
46
48
9
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
V
Teófilo dessa vez
chorou tant’, e nom fez al
trões u a que de prez
todas outras donas val,
ao demo, mais ca pez
negro, do fog’ infernal
a carta trager lhe fez,
e deu-lha ant’ o altar.
54
56
58
60
R5
62
64
Mais nos faz Santa Maria
a seu filho perdõar
que nós per nossa folia
lh’ imos falir e errar.
* * *
10
Cantigas de Santa Maria 4
«A madre do que livrou»
(E 4, T 4, U 4)
Esta quarta é como Santa Maria guardou ao filho do judeu que nom ardesse, que seu padre
deitara no forno.
R0
2
4
I
6
8
10
12
A madre do que livrou
dos leões Daniel,
essa do fogo guardou
um meninho d’ Irrael.
Em Beorges um judeu
houve que fazer sabia
vidro, e um filho seu
–ca el ém mais nom havia,
per quant’ end’ aprendi eu–
ontr’ os crischãos liía
na escol’; e era greu
a seu padre Samuel.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
O meninho o melhor
leeu que leer podia,
e d’ aprender gram sabor
houve de quanto oía;
e, por esto, tal amor
com esses moços colhia
com que era leedor,
que ia em seu tropel.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
Porém vos quero contar
o que lh’ avo um dia
de Páscua, que foi entrar
na eigreja, u viía
o abad’ ant’ o altar,
e aos moços dand’ ia
hóstias de comungar
e vinh’ em um cález bel.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
O judeucinho prazer
houve, ca lhe parecia
que hóstias a comer
lhes dava Santa Maria,
que via resprandecer
eno altar u siía
e enos braços ter
seu filho Emanuel.
42
44
46
48
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
11
V
54
56
58
60
Quand’ o moç’ esta visom
viu, tam muito lhe prazia
que, por filhar seu quinhom,
ant[r]’ os outros se metia.
Santa Maria entom
a mão lhe porregia,
e deu-lhe tal comunhom
que foi mais doce ca mel.
R5 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VI
Poi-la comunhom filhou,
logo dali se partia
e em cas seu padr’ entrou
como xe fazer soía;
e ele lhe preguntou
que fezera. El dizia:
“– A dona me comungou
que vi so o chapitel”.
66
68
70
72
R6 73-76
[Refrão = vv. 1-4]
VII
O padre, quand’ est’ oiu,
creceu-lhi tal felonia
que de seu siso saiu;
e seu filh’ entom prendia,
e, u o forn’ arder viu,
mete’-o dentr’, e choía
o forn’; e mui mal faliu
como traedor cruel.
78
80
82
84
R7 85-88
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
Raquel, sa madre, que bem
grand’ a seu filho queria,
cuidando, sem outra rem,
que lhe no forno ardia,
deu grandes vozes porém
e ena rua saía;
e aqué a gente vem
ao doo de Raquel.
90
92
94
96
R8 97-100
[Refrão = vv. 1-4]
IX
Pois souberom, sem mentir,
o por que ela carpia,
forom log’ o forn’ abrir
em que o moço jazia,
que a Virgem quis guarir
como guardou Anania
Deus, seu filh’, e, sem falir,
Azari’ e Misael.
102
104
106
108
R9 109-112
[Refrão = vv. 1-4]
X
O moço logo dali
sacarom com alegria,
e preguntarom-lh’ assi:
se se d’ algum mal sentia.
Diss’ el: “– Nom, ca eu cobri
o que a dona cobria
114
116
118
12
120
que sobe-lo altar vi
com seu filho, bom donzel”.
R10 121-124
[Refrão = vv. 1-4]
XI
Por este miragr’ atal
log’ a judea criía,
e o meninho, sem al,
o batismo recebia;
e o padre, que o mal
fezera per sa folia,
derom-lh’ entom morte qual
quis dar a seu filh’ Abel.
126
128
130
132
R11
134
136
A madre do que livrou
dos leões Daniel,
essa do fogo guardou
um meninho d’ Irrael.
* * *
13
Cantigas de Santa Maria 5
«Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer»
(E 5, T 15, U 19)
Esta é como Santa Maria ajudou a emperadriz de Roma a sofrê-las grandes coitas per que
passou.
R0
2
I
4
6
8
R1 9-10
II
12
14
16
R2 17-18
III
20
22
24
R3 25-26
IV
28
30
32
R4 33-34
V
36
38
40
R5 41-42
Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer,
Santa Maria deve sempr’ ante si põer.
E desto vos quer’ eu ora contar, segund’ a letra diz,
um mui gram miragre que fazer quis pola emperadriz
de Roma, segund’ eu contar oí, per nome Beatriz,
Santa Maria, a madre de Deus (ond’ este cantar fiz),
que a guardou do mundo (que lhe foi mal joiz),
e do demo (que, por tentar, a cuidou vencer).
[Refrão = vv. 1-2]
Esta dona, de que vos disse já, foi dum emperador
molher; mas pero del nome nom sei, foi de Roma senhor
e, per quant’ eu de seu feit’ aprendi, foi de mui gram valor.
Mas a dona tant’ era fremosa que foi das belas fror,
e servidor de Deus, e de sa lei amador,
e soube Santa Maria mais dal bem querer.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquest’ emperador a sa molher queria mui gram bem,
e ela outrossi a el amava mais que outra rem;
mas por servir Deus o emperador, com’ home de bom sém,
cruzou-s’ e passou o mar e foi romeu a Jerusalém.
Mas, quando moveu de Roma por passar além,
leixou seu irmão, e fez i gram seu prazer.
[Refrão = vv. 1-2]
Quando s’ houv’ a ir o emperador, aquel irmão seu
de que vos já diss’, a sa molher a emperadriz o deu,
dizend’: “– Este meu irmão receb’ hoimais por filho meu,
e vós seede-lh’ em logar de madre porém, vos rog’ eu,
e de o castigardes bem nom vos seja greu;
em esto me podedes mui grand’ amor fazer”.
[Refrão = vv. 1-2]
Depoi-lo emperador se foi. A mui pouca de sazom
catou seu irmão a sa molher e namorou-s’ entom
dela, e disse-lhe que a amava mui de coraçom;
mai-la santa dona, quando lh’ oiu dizer tal traiçom,
em ũa torre o meteu em mui gram prijom,
jurando muito que o faria i morrer.
[Refrão = vv. 1-2]
14
VI
44
46
48
R6 49-50
VII
52
54
56
R7 57-58
VIII
60
62
64
R8 65-66
IX
68
70
72
R9 73-74
X
76
78
80
R10 81-82
XI
84
86
88
R11 89-90
XII
92
94
96
R12 97-98
O emperador dous anos e meio em Acre morou,
e tod’ a terra de Jerusalém muitas vezes andou;
e, pois que tod’ est’ houve feito, pera Roma se tornou;
mas ante que d’ Ultramar se partisse, mandad’ enviou
a sa molher, e ela logo soltar mandou
o seu irmão mui falso, que a foi traer.
[Refrão = vv. 1-2]
Quando o irmão do emperador de prijom saiu,
barva nom fez nem cercou cabelos, e mal se vestiu;
a seu irmão foi, e da emperadriz nom s’ espediu;
mas o emperador, quando o atám mal parado viu,
preguntou-lhi que fora, e el lhe recodiu:
“– Em poridade vos quer’ eu aquesto dizer”.
[Refrão = vv. 1-2]
Quando forom ambos a ũa parte, filhou-s’ a chorar
o irmão do emperador e muito xe lhe queixar
de sa molher, que, porque nom quisera com ela errar,
que o fezera porende tantost’ em um cárcer deitar.
Quand’ o emperador oiu, houv’ ém tal pesar
que se leixou do palafrém em terra caer.
[Refrão = vv. 1-2]
Quand’ o emperador de terra s’ ergeu, logo, sem mentir,
cavalgou e, quanto mais pôd’, a Roma começou de s’ ir;
e a pouca d’ hora viu a emperadriz a si vĩir,
e, logo que a viu, mui sanhudo a ela leixou-s’ ir
e deu-lhe gram punhada no rostro, sem falir,
e mandou-a matar se-na verdade saber.
[Refrão = vv. 1-2]
Dous monteiros, a que esto mandou, filharo-na des i
e, rastrand’, a um monte a levarom mui preto dali;
e quando a no monte teverom, falarom ontre si
que jouvessem com ela per força, segund’ eu aprendi.
Mas, ela chamando Santa Maria, log’ i
chegou um conde, que lha foi das mãos tolher.
[Refrão = vv. 1-2]
O conde, poi-la livrou dos vilãos, disse-lhe: “– Senher,
dizede-m’ ora quem sodes ou dond’”. Ela respôs: “– Molher
sõo mui pobr’ e coitada, e de vosso bem hei mester”.
“– Par Deus,” –diss’ el-conde– “aqueste rogo farei volonter,
ca mià companheira tal come vós muito quer
que criedes nosso filh’ e façades crecer”.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois que o cond’ aquesto diss’, entom atantoste, sem al,
a levou consigo aa condessa e disse-lh’ atal:
“– Aquesta molher pera criar nosso filho muito val,
ca vejo-a mui fremosa; demais, semelha-me sem mal;
e porém tenho que seja contra nós leal,
e metamos-lhe des hoimais o moç’ em poder”.
[Refrão = vv. 1-2]
15
XIII
100
102
104
R13 105-106
XIV
108
110
112
R14 113-114
XV
116
118
120
R15 121-122
XVI
124
126
128
R16 129-130
XVII
132
134
136
R17 137-138
XVIII
140
142
144
R18 145-146
XIX
148
150
152
Pois que a santa dona o filho do conde recebeu,
de o criar muit’ apost’ e mui bem muito se trameteu;
mas um irmão que o cond’ havia, mui fals’ e sandeu,
pediu-lhe seu amor; e, porque ela mal lho acolheu,
degolou-lh’ o meninho ũa noit’ e meteu
lh’ o cuitelo na mão po-la fazer perder.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois desta guisa prês mort’ o meninho, como vos dit’ hei,
a santa dona, que o sentiu morto, diss’: “– Ai, que farei?”
O cond’ e a condessa lhe disserom: “– Que hás?” Diz: “– Eu hei
pesar e coita por meu criado, que ora mort’ achei”.
Diss’ o irmão do conde: “– Eu o vingarei
de ti, que o matar foste por nos cofonder”.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois, a dona foi ferida mal daquel, peior que tafur,
e nom via quem lha das mãos sacasse, de nenlhur,
senom a condessa, que lha filhou, mas esto muit’ adur.
Ũus diziam: “– Queime-na!”; e outros: “– Moira com segur!”
Mas poi-la derom a um marinheiro de Sur,
que a fezesse mui longe no mar somerger.
[Refrão = vv. 1-2]
O marinheiro, poi-la ena barca meteu, bem come fol,
disse-lhe que fezesse seu talám, e seria sa prol;
mas ela diss’ entom: “– Santa Maria, de mi nom te dol?,
ne-no teu filho de mi nom se nembra, como fazer sol?”
Entom vo voz de ceo, que lhe disse: “– Tol
tas mãos dela; se nom, farei-te perecer”.
[Refrão = vv. 1-2]
Os marinheiros disserom entom: “– Pois est’ a Deus nom praz,
leixemo-la sobr’ aquesta pena, u pod’ haver assaz
de coita e d’ afám e pois morte, u outra rem nom jaz,
ca, se o nom fezermos, em mal ponto vimos seu solaz”.
E, pois foi feito, o mar no-na leixou em paz,
ante a vo com grandes ondas combater.
[Refrão = vv. 1-2]
A emperadriz, que nom vos era de coraçom rafez,
com’ aquela que tanto mal sofrera, e nom ũa vez,
tornou, com coita do mar e de fame, negra come pez;
mas, em dormindo, a madre de Deus direi-vos que lhe fez:
tolheu-lh’ a fam’ e deu-lh’ ũa erva de tal prez
com que podesse os gafos todos guarecer.
[Refrão = vv. 1-2]
A santa dona, pois que s’ espertou, nom sentiu nulh’ afám
nem fame, come se sempr’ houvesse comudo carn’ e pam;
e a erva achou so sa cabeça, e disse. “– De pram,
madre de Deus, beitos som os que em ti fiúza ham,
ca na ta gram mercee nunca falecerám
enquanto a souberem guardar e gradecer”.
16
R19 153-154
XX
156
158
160
R20 161-162
XXI
164
166
168
R21 169-170
XXII
172
174
176
R22 177-178
XXIII
180
182
184
R23 185-186
XXIV
188
190
192
R24 193-194
XXV
196
198
200
R25 201-202
XXVI
204
206
[Refrão = vv. 1-2]
Dizend’ aquesto, a emperadriz, muit’ amiga de Deus,
viu vĩir ũa nave preto de si, cha de romeus,
de bõa gente, que nom havia i mouros nem judeus.
Pois chegarom, rogou-lhes muito chorando dos olhos seus,
dizendo: “– Levade-me vosc’, ai amigos meus!”
E eles logo consigo a forom colher.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois a nav’ u a emperadriz ia aportou na foz
de Roma, logo baixarom a vea, chamando: “– Aioz!”.
E o maestre da nave diss’ a um seu home: “– Vai, coz
carn’ e pescado do meu haver, que te nom cost’ ũa noz”.
E a emperadriz guariu um gaf’, e a voz
foi end’, e muitos gafos fezerom-s’ i trager.
[Refrão = vv. 1-2]
Ontr’ os gafos que a dona guariu, que forom mais ca mil,
foi guarecer o irmão do conde eno mês d’ abril;
mas ant’ houv’ el a dizer seu pecado, que fez come vil.
Entom a condessa e el-conde changiam a gentil
dona, que perderam por traiçom mui sotil
que lh’ aquel gafo traedor fora bastecer.
[Refrão = vv. 1-2]
Muitos gafos sãou a emperadriz em aquele mês;
mas, de grand’ algo que porém lhe davam, ela rem nom prês,
mas andou em muitas romarias, e depois bem a três
meses entrou na cidade de Roma, u er’ o cortês
emperador, que a chamou e disso-lhe: “– Vês?:
guári-m’ est’ irmão gaf’, e dar-ch’-ei grand’ haver”.
[Refrão = vv. 1-2]
A dona diss’ ao emperador: “– Voss’ irmão guarrá;
mas, ante que eu em el faça rem, seus pecados dirá
ant’ o apostólig’ e ante vós, como os feitos há”.
E, pois foi feito, o emperador diss’: “– Ai Deus, que será?:
nunca maior traiçom desta hom’ oirá”.
E, com pesar, seus panos se filhou a romper.
[Refrão = vv. 1-2]
A emperadriz filhou-s’ a chorar e diss’: “– A mi nom nuz
em vós saberdes que sõo essa, par Deus de vera cruz,
a que vós fezestes atám gram torto, com’ agor’ aduz
voss’ irmão a mãefesto, tam feo come estruz;
mas des hoimais a Santa Maria, que é luz,
quero servir, que me nunca há de falecer”.
[Refrão = vv. 1-2]
Per nulha rem que lh’ o emperador dissesse, nunca quis
a dona tornar a el; ante lhe disse que fosse fis
que ao segre nom ficaria nunca, par Sam Denis,
nem ar vestiria pano de seda nem pena de gris,
mas ũa cela faria d’ obra de Paris,
17
R26
208
u se metesse por mais o mund’ avorrecer.
210
Que-nas coitas deste mundo bem quiser sofrer,
Santa Maria deve sempr’ ante si põer.
* * *
18
Cantigas de Santa Maria 6
«A que do bom rei Davi»
(E 6, T 6, U 5)
Esta é como Santa Maria ressucitou o meninho que o judeu matara porque cantava «Gaude,
Virgo Maria».
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
A que do bom rei Davi
de seu linhage decende,
nembra-lhe, creed’ a mi,
de quem por ela mal prende.
Porend’ a sant’ escritura, | que nom mente nem erra,
nos conta um gram miragre | que fez em Engraterra
a Virgem Santa Maria, | com que judeus ham gram guerra
porque naceu Jesu-Cristo | dela, que os reprende.
[Refrão = vv. 1-4]
Havia em Engraterra | ũa molher menguada
a que morreu o marido | com que era casada;
mas ficou-lhe del um filho, | com que foi mui confortada,
e log’ a Santa Maria | o ofereu por ende.
[Refrão = vv. 1-4]
O meninh’ a maravilha | er’ apost’ e fremoso,
e d’ aprender quant’ oía | era muit’ engenhoso;
e, demais, tam bem cantava, | tam mans’ e tam saboroso
que vencia quantos eram | em sa terr’ e alende.
[Refrão = vv. 1-4]
E o cantar que o moço | mais aposto dizia,
e de que se mais pagava | quenquer que o oía,
era um cantar em que | diz «Gaude, Virgo Maria»,
e pois diz mal do judeu, que | sobr’ aquesto contende.
[Refrão = vv. 1-4]
Este cantar o meninho | atám be-no cantava
que qualquer que o oía, | tantoste o filhava,
e, por levá-lo consigo, | co-nos outros baralhava,
dizend’: “– Eu dar-lh’-ei que jante, | e, demais, que merende”.
[Refrão = vv. 1-4]
Sobr’ esto diss’ o meninho: | “– Madre, fé que devedes,
des hojemais vos conselho | que o pedir leixedes,
pois vos dá Santa Maria | por mi quanto vós queredes,
e leixad’ ela despenda, | pois que tam bem despende”.
[Refrão = vv. 1-4]
Depois, um dia de festa, | em que forom juntados
19
54
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
muitos judeus e crischãos | e que jogavam dados,
entom cantou o meninho; | e forom ém mui pagados
todos senom um judeu, que | lhe quis gram mal des ende.
[Refrão = vv. 1-4]
No que o moço cantava | o judeu meteu mentes,
e levo’-o a sa casa, | pois se forom as gentes;
e deu-lhe tal, dũa acha, | que bem atro enos dentes
o fendeu bes assi bem | como quem lenha fende.
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-lo meninho foi morto, | o judeu muit’ aginha
soterro’-o na adega, | u sas cubas tiinha;
mas deu [i] mui maa noite | a sa madre, a mesquinha,
que o andava buscando | e dalend’ e daquende.
[Refrão = vv. 1-4]
A coitada por seu filho | ia muito chorando,
e, a quantos ela via, | a todos preguntando
se o viram; e um home | lhe diss’: “– Eu o vi bem quando
um judeu o levou sigo, | que os panos revende”.
[Refrão = vv. 1-4]
As gentes, quand’ est’ oírom, | forom alá correndo,
e a madre do meninho | braadand’ e dizendo:
“– Di-me que fazes, meu filho, | ou que estás atendendo,
que nom ves a ta madre, | que já sa mort’ entende”.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois diss’: “– Ai Santa Maria, | senhor, tu que és porto
u arribam os coitados, | dá-me meu filho morto
ou viv’ ou qualquer que seja; | se nom, farás-me gram torto,
e direi que mui mal erra | que-no teu bem atende”.
[Refrão = vv. 1-4]
O meninh’ entom, da fossa | em que o soterrara
o judeu, começou logo | em voz alta e crara
a cantar «Gaude, Maria», | que nunca tam bem cantara,
por prazer da groriosa, | que seus servos defende.
[Refrão = vv. 1-4]
Entom tod’ aquela gente | que i juntada era
forom corrend’ aa casa | ond’ essa voz vera,
e sacarom o meninho | du o judeu o posera,
viv’ e são, e diziam | todos: “– Que bem recende!”
[Refrão = vv. 1-4]
A madr’ entom a seu filho | preguntou que sentira;
e ele lhe contou como | o judeu o ferira,
e que houvera tal sono | que sempre depois dormira,
atá que Santa Maria | lhe disse: “– Leva-t’ ende;
[Refrão = vv. 1-4]
20
XVI
126
128
R16 129-132
XVII
134
136
R17
138
140
ca muito per-hás dormido: | dormidor te feziste,
e o cantar que dizias | meu já escaeciste;
mas leva-t’ e di-o logo | melhor que nunca dissiste,
assi que achar nom possa | nulh’ hom’ i que emende”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ esto diss’ o meninho, | quantos s’ i acertarom
aos judeus forom logo, | e todo-los matarom;
e aquel que o ferira, | eno fogo o queimarom,
dizendo: “– Quem faz tal feito, | desta guisa o rende”.
A que do bom rei Davi
de seu linhage decende,
nembra-lhe, creed’ a mi,
de quem por ela mal prende.
* * *
21
Cantigas de Santa Maria 7
«Santa Maria amar»
(E 7, T 7, U 6)
Esta é como Santa Maria livrou a abadessa prenhe, que adormecera ant’ o seu altar chorando.
R0
2
4
6
I
18
Por ende vos contarei
um miragre que achei
que por ũ’ abadessa
fez a madre do gram rei,
ca, per com’ eu apres’ hei,
era-xe sua essa.
Mas o demo enartar
a foi, por que emprenhar
s’ houve dum de Bolonha,
home que de recadar
havia e de guardar
seu feit’ e sa besonha.
19-24
[Refrão = vv. 1-6]
8
10
12
14
16
R1
Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nós, porque errar
nom nos faça, nem pecar,
o demo sem vergonha.
II
26
28
30
32
34
36
As monjas, pois entender
forom esto, e saber,
houverom gram lediça:
ca, porque lhes nom sofrer
queria de mal fazer,
haviam-lhe maíça;
e foro-na acusar
ao bispo do logar.
E el bem de Colonha
chegou i; e, pois chamar
a fez, vo sem vagar,
leda e mui risonha.
R2 37-42
[Refrão = vv. 1-6]
III
O bispo lhe diss’ assi:
“– Dona, per quant’ aprendi,
mui mal vossa fazenda
fezestes; e vim aqui
por esto: que ante mi
façades end’ emenda”.
Mas a dona, sem tardar,
a madre de Deus rogar
foi; e, come quem sonha,
Santa Maria tirar
lhe fez o filh’ e criar
44
46
48
50
52
22
54
lho mandou em Sansonha.
R3 55-60
[Refrão = vv. 1-6]
IV
Pois s’ a dona espertou
e se guarida achou,
log’ ant’ o bispo vo;
e el muito a catou
e desnuá-la mandou;
e, pois lhe viu o so,
começou Deus a loar,
e as donas a brasmar
(que eram d’ órdim d’ Onha),
dizendo: “– Se Deus m’ ampar,
por salva poss’ esta dar,
que nom sei que lh’ aponha”.
62
64
66
68
70
72
R4
74
76
78
Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nós, porque errar
nom nos faça, nem pecar,
o demo sem vergonha.
* * *
23
Cantigas de Santa Maria 8
«A Virgem Santa Maria / todos a loar devemos»
(E 8, T 8, U 8)
Esta oitava é como Santa Maria fez em Rocamador decender ũa candea na viola do jograr
que cantava ant’ ela.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
A Virgem Santa Maria
todos a loar devemos,
cantand’ e com alegria,
quantos seu bem atendemos.
E por aquest’ um miragre | vos direi, de que sabor
haveredes poi-l’ oirdes, | que fez em Rocamador
a Virgem Santa Maria, | madre de Nostro Senhor;
ora oíd’ o miragre, | e nós contar-vo-lo-emos.
[Refrão = vv. 1-4]
Um jograr, de que seu nome | era Pedro de Sigrar,
que mui bem cantar sabia | e mui melhor violar,
e em toda-las eigrejas | da Virgem que nom há par
um seu lais sempre dizia, | per quant’ ém nós aprendemos.
[Refrão = vv. 1-4]
O lais que ele cantava | era da madre de Deus,
estand’ ant’ a sa omagem, | chorando dos olhos seus;
e pois diss’: “– Ai groriosa, | se vos prazem estes meus
cantares, ũa candea | nos dade, a que cemos”.
[Refrão = vv. 1-4]
De com’ o jograr cantava | Santa Maria prazer
houv’, e fez-lhe na viola | ũa candea decer;
mas o monge tesoureiro | foi-lha da mão tolher,
dizend’: “– Encantador sodes, | e nom vo-la leixaremos”.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas o jograr, que na Virgem | tĩía seu coraçom,
nom quis leixar seus cantares, | e a candea entom
ar pousou-lhe na viola; | mas o frade mui felom
tolheu-lha outra vegada | mais toste ca vos dizemos.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois a candea filhada | houv’ aquel monge des i
ao jograr da viola, | foi-a põer bem ali
u x’ ant’ estav’, e atou-a | mui de rij’, e diss’ assi:
“– Dom jograr, se a levardes, | por sabedor vos terremos”.
[Refrão = vv. 1-4]
O jograr por tod’ aquesto | nom deu rem, mas violou
24
54
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9
74
76
como x’ ante violava, | e a candea pousou
outra vez ena viola; | mas o monge lha cuidou
filhar, mas disse-lh’ a gente: | “– Esto vos nom sofreremos”.
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-lo monge perfiado | aqueste miragre viu,
entendeu que muit’ errara, | e logo s’ arrepentiu;
e ant’ o jograr em terra | se deitou e lhe pediu
perdom por Santa Maria, | em que vós e nós creemos.
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-la Virgem groriosa | fez este miragr’ atal
que deu ao jograr dõa | e converteu o negral
monge, dali adeante | cad’ an’ um grand’ estadal
lhe trouxe a sa eigreja | o jograr que dit’ havemos.
A Virgem Santa Maria
todos a loar devemos,
cantand’ e com alegria,
quantos seu bem atendemos.
* * *
25
Cantigas de Santa Maria 9
«Porque nós hajamos»
(E 9, T 9, U 9)
Esta nova é como Santa Maria fez em Sardonai, preto de Domás, que a sa omagem, que
era pintada em ũa távoa, se fezesse carne e mãass’ oio.
R0
2
4
6
I
8
10
12
14
16
R 1 17-22
II
24
26
28
30
32
R2 33-38
III
40
42
44
46
48
R3 49-54
IV
56
Porque nós hajamos
sempre, noit’ e dia,
dela renembrança,
em Domás achamos
que Santa Maria
fez gram demostrança.
Em esta cidade | que vos hei já dita,
houv’ i ũa dona | de mui santa vida,
mui fazedor d’ alg’ e | de todo mal quita,
rica e mui nobre | e de bem comprida.
Mas, porque sabiamos
como nom queria
do mundo gabança,
como fez digamos
ũ’ albergaria,
u filhou morança.
[Refrão = vv. 1-6]
E, ali morand’ e | muito bem fazendo
a toda-las gentes | que per i passavam,
vo i um monge, | segund’ eu aprendo,
que pousou com ela, | com’ outros pousavam.
Diss’ ela: “– Ouçamos
u tedes via:
se ides a França?”.
Diss’ el: “– Mas cuidamos
dereit’ a Suria
log’ ir, sem tardança”.
[Refrão = vv. 1-6]
Log’ entom a dona, | chorando dos olhos,
muito lhe rogava | que per i tornasse,
des que el houvesse | fito-los golhos
ant’ o Sam Sepulcro | e em el beijasse.
“– E mais vos rogamos:
que, se vos prazia,
ũa semelhança
que dalá vejamos
da que sempre guia
os seus sem errança”.
[Refrão = vv. 1-6]
Pois que foi o monge | na santa cidade
u Deus por nós morte | ena cruz prendera,
26
58
60
62
64
R4 65-70
V
72
74
76
78
80
R5 81-86
VI
88
90
92
94
96
R6 97-102
VII
104
106
108
110
112
R7 113-118
VIII
120
122
124
126
128
comprido seu feito, | rem da majestade
nom lhe vo_a mente, | que el prometera;
mas disse: “– Movamos,”
–a sa companhia–
“que gram demorança
aqui u estamos
bõa nom seria
sem haver pitança”.
[Refrão = vv. 1-6]
Quand’ est’ houve dito, | cuidou-s’ ir, sem falha;
mas a voz do ceo | lhe disse: “– Mesquinho,
e como nom levas, | asse Deus te valha,
a omagem tigo | e vás teu caminho?:
esto nom loamos;
ca mal ch’ estaria
que, per obridança,
se a que amamos
monja nom havia
da Virgem sembrança”.
[Refrão = vv. 1-6]
Mantenent’ o frade | os que com el iam
leixou ir, e logo | tornou, sem tardada,
e foi buscar u as | omages vendiam,
e comprou end’ ũa, | a melhor pintada.
Diss’ el: “– Bem mercamos;
e quem poderia
a esta osmança
põer?; e vaamos
a noss’ abadia
com esta gaança”.
[Refrão = vv. 1-6]
E, pois que o monge | aquesto feit’ houve,
foi-s’ entom sa vi’, a | omagem no so.
E log’ i a preto | um leom, u jouve,
achou, que correndo | pera ele vo
de so ũus ramos,
nom com felonia,
mas com homildança;
por que bem creamos
que Deus o queria
guardar, sem dultança.
[Refrão = vv. 1-6]
Des quando o monge | do leom foi quito
(que, macar se fora, | nom perdera medo
del), a pouca d’ hora | um ladrom maldito,
que romeus roubava, | diss’ aos seus quedo:
“– Por que nom matamos
este, pois desvia?;
dar-lh’-ei com mià lança,
e o seu partamos
logo, sem perfia,
todos per iguança”.
27
R8 129-134
IX
136
138
140
142
144
R9 145-150
X
152
154
156
158
160
R10 161-166
XI
168
170
172
174
176
R11 177-182
XII
184
186
188
190
192
R12 193-198
XIII
200
202
204
206
[Refrão = vv. 1-6]
Quand’ est’ houve dito, | quis em el dar salto,
dizendo: “– Matemo- | lo ora, irmãos!”.
Mas a voz do ceo | lhes disse mui d’ alto:
“– Sandeus, nom ponhades | em ele as mãos;
ca nó-lo guardamos
de malfeitoria
e de malandança,
e bem vos mostramos
que Deus prenderia
de vós gram vingança”.
[Refrão = vv. 1-6]
Pois na majestade | viu tam gram vertude,
o mong’ entom disse: | “– Comoquer que seja,
bõa será esta, | asse Deus m’ ajude,
em Costantinobre | na nossa eigreja;
ca, se a levamos
alhur, bavequia
e gram malestança
serám, nom erramos”.
E ao mar s’ ia
com tal acordança.
[Refrão = vv. 1-6]
E em ũa nave | com outra gram gente
entrou, e gram peça | pelo mar singrarom;
mas ũa tormenta | vo mantenente,
que, do que tragiam, | muit’ em mar deitarom,
por guarir, osmamos.
E ele prendia
com desasperança
a que aoramos,
que sigo tragia
por sa delivrança,
[Refrão = vv. 1-6]
por no mar deitá-la. | Que a nom deitasse
ũa voz lhe disse, | ca era pecado,
mas contra o ceo | suso a alçasse,
e o tempo forte | seria quedado.
Diz: “– Prestes estamos”.
Entom a ergia
e diz com fiança:
“– A ti graças damos,
que és alegria
noss’ e amparança”.
[Refrão = vv. 1-6]
E log’ a tormenta | quedou essa hora,
e a nav’ a Acre | entom foi tornada;
e com sa omagem | o monge foi fora,
e foi-se a casa | da dona honrada.
Ora retraiamos
quam grand’ arteria
fez per antolhança;
mas, como pensamos,
28
208
R13 209-214
XIV
216
218
220
222
224
R14 225-230
XV
232
234
236
238
240
R15
242
244
246
tanto lhe valria
com’ ũa garvança.
[Refrão = vv. 1-6]
O monge, da dona | nom foi conhoçudo,
onde prazer houve, | e ir-se quisera;
logo, da capela | u era metudo
nom viu end’ a porta | nem per u vera.
“– Por que nom leixamos
–contra si dizia–
e sem demorança,
esta que compramos,
e Deus tiraria
nós desta balança?”
[Refrão = vv. 1-6]
El esto pensando, | viu a port’ aberta
e foi aa dona | contar sa fazenda,
e deu-lh’ a omagem, | ond’ ela foi certa,
e sobe-lo altar | a pôs por emenda.
Carne, nom dultamos,
se fez, e saía
dela, mas nom rança,
grossaim: sejamos
certos que corria
e corr’ avondança.
Porque nós hajamos
sempre, noit’ e dia,
dela renembrança,
em Domás achamos
que Santa Maria
fez gram demostrança.
* * *
29
Cantigas de Santa Maria 10
«Rosa das rosas e fror das frores»
(E 10, T 10, U 10)
Esta deza é de loor de Santa Maria, com’ é fremosa e bõa e há gram poder.
R0
2
I
6
Rosa de beldad’ e de parecer
e fror d’ alegria e de prazer,
dona em mui piadosa seer,
senhor em tolher coitas e doores.
8
Rosa das rosas e fror das frores,
dona das donas, senhor das senhores.
4
R1
II
12
Atal senhor dev’ home muit’ amar,
que de todo mal o pode guardar;
e pode-lh’ os pecados perdõar,
que faz no mundo per maos sabores.
14
Rosa das rosas e fror das frores,
dona das donas, senhor das senhores.
10
R2
III
18
Devemo-la muit’ amar e servir,
ca punha de nos guardar de falir;
des i, dos erros nos faz repentir,
que nós fazemos come pecadores.
20
Rosa das rosas e fror das frores,
dona das donas, senhor das senhores.
16
R3
IV
24
Esta dona que tenho por senhor
e de que quero seer trobador,
se eu per rem poss’ haver seu amor,
dou ao demo os outros amores.
26
Rosa das rosas e fror das frores,
dona das donas, senhor das senhores.
22
R4
Rosa das rosas e fror das frores,
dona das donas, senhor das senhores.
* * *
30
Cantigas de Santa Maria 11
«Macar home per folia»
(E 11, T 11, U 11)
Esta XIª é de como Santa Maria tolheu a alma do monge que s’ afogara no rio, ao demo, e
feze-o ressocitar.
R0
2
4
6
I
8
10
12
14
Macar home per folia
aginha caer
pod’ em pecado,
do bem de Santa Maria
nom dev’ a seer
desasperado.
Porém direi todavia
com’ em ũa abadia
um tesoureiro havia,
monge, que trager
com mal recado
a sa fazenda sabia,
por a Deus perder,
o malfadado.
R1 15-20
[Refrão = vv. 1-6]
II
Sem muito mal que fazia,
cada noit’ em drudaria
a ũa sa druda ia
com ela ter
seu gasalhado;
pero, ant’, «Ave, Maria»
sempr’ ia dizer
de mui bom grado.
22
24
26
28
R2 29-34
[Refrão = vv. 1-6]
III
Quand’ esto fazer queria,
nunca os sinos tangia,
e log’ as portas abria
por ir a fazer
o desguisado;
mas, no rio que soía
passar, foi morrer
dentr’ afogado.
36
38
40
42
R3 43-48
[Refrão = vv. 1-6]
IV
E, u lh’ a alma saía,
log’ o demo a prendia,
e com mui grand’ alegria
foi po-la põer
no fog’ irado;
mas d’ ángeos companhia
po-la socorrer
vo privado.
50
52
54
56
31
R4 57-62
[Refrão = vv. 1-6]
V
Gram referta i crecia,
ca o demo lhes dizia:
“– Ide daqui vossa via,
que dest’ alm’ haver
é juigado,
ca fez obras noit’ e dia
sempr’ a meu prazer
e meu mandado”.
64
66
68
70
R5 71-76
[Refrão = vv. 1-6]
VI
Quand’ est’ a companh’ oía
dos ángeos, se partia
dali triste, pois viía
o demo seer
bem rezõado;
mas a Virgem, que nos guia,
nom quis falecer
a seu chamado.
78
80
82
84
R6 85-90
[Refrão = vv. 1-6]
VII
E, pois chegou, lhes movia
sa razom com preitesia
que per ali lhes faria
a alma tolher
do frad’ errado,
dizendo-lhes: “– Ousadia
foi d’ irdes tanger
meu comendado”.
92
94
96
98
R7 99-104
[Refrão = vv. 1-6]
VIII
O demo, quand’ entendia
esto, com pavor fugia;
mas um ángeo corria
a alma prender,
led’ aficado,
e no corpo a metia
e fez-lo erger
ressucitado.
106
108
110
112
R8 113-118
[Refrão = vv. 1-6]
IX
O convento atendia
o sino a que s’ ergia,
ca des peça nom durmia;
porém sem lezer
ao sagrado
forom, e a’ água fria,
u virom jazer
o mui culpado.
120
122
124
126
R9 127-132
[Refrão = vv. 1-6]
X
Tod’ aquela crerezia
dos monges logo liía
sobr’ ele a ledãía,
po-lo defender
134
136
32
138
140
R10
142
144
146
do denodado
demo; mas a Deus prazia,
e logo viver
fez o passado.
Macar home per folia
aginha caer
pod’ em pecado,
do bem de Santa Maria
nom dev’ a seer
desasperado.
* * *
33
Cantigas de Santa Maria 12
«O que a Santa Maria mais despraz»
(E 12, T 12, U 13)
Esta é como Santa Maria se queixou em Toledo eno dia de sa festa de agosto, porque os judeus crucifigavam ũa omagem de cera, a semelhança de seu filho.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6
38
O que a Santa Maria mais despraz
é de quem ao seu filho pesar faz.
E daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora contar,
que a reinha do ceo | quis em Toledo mostrar
eno dia que a Deus foi corõar,
na sa festa que no mês d’ agosto jaz.
[Refrão = vv. 1-2]
O arcebisp’ aquel dia | a gram missa bem cantou;
e, quand’ entrou na segreda | e a gente se calou,
oírom voz de dona, que lhes falou
piadosa e doorida assaz.
[Refrão = vv. 1-2]
E a voz, come chorando, | dizia: “– Ai Deus!, ai Deus!,
com’ é mui grand’ e provada | a perfia dos judeus!,
que meu filho matarom, seendo seus,
e ainda nom querem conosco paz”.
[Refrão = vv. 1-2]
Poi-la missa foi cantada, | o arcebispo saiu
da eigreja, e a todos | diss’ o que da voz oiu;
e toda a gent’ assi lhe recodiu:
“– Esto fez o poblo dos judeus malvaz”.
[Refrão = vv. 1-2]
Entom todos mui correndo | começarom logo d’ ir
dereit’ aa judaria, | e acharom, sem mentir,
omagem de Jesu-Crist’, a que ferir
iam os judeus, e cospir-lhe na faz.
[Refrão = vv. 1-2]
E, sem aquest’, os judeus | fezeram a cruz fazer
em que aquela omagem | queriam logo põer.
E por est’ houverom todos de morrer,
e tornou-se-lhes em doo seu solaz.
O que a Santa Maria mais despraz,
é de quem ao seu filho pesar faz.
* * *
34
Cantigas de Santa Maria 13
«Assi como Jesu-Cristo, estando na cruz, salvou»
(E 13, T 13, U 14)
Esta é como Santa Maria guardou o ladrom que nom morresse na forca, porque a saudava.
R0
2
I
4
6
Assi como Jesu-Cristo, | estando na cruz, salvou
um ladrom, assi sa madre | outro de morte livrou.
E por end’ um gram miragre | vos direi desta razom,
que feze Santa Maria: | dum mui malfeitor ladrom
que Elbo por nom’ havia, | mas sempr’ em sa oraçom
a ela s’ acomendava; | e aquelo lhe prestou.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Onde lh’ avo um dia | que foi um furto fazer,
e o meirinho da terra | houve-o log’ a prender,
e tantoste, sem tardada, | fez-lo na forca põer;
mas a Virgem, de Deus madre, | log’ entom del se nembrou.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, u pendurad’ estava | na forca por s’ afogar,
a Virgem Santa Maria | nom vos quis entom tardar,
ante chegou muit’ aginha | e foi-lh’ as mãos parar
so os pees e alço’-o | assi que nom s’ afogou.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Assi esteve três dias | o ladrom, que nom morreu;
mais o meirinho passava | per i e mentes meteu
com’ era viv’, e um home | seu logo lhe corregeu
o laço, per que morresse; | mas a Virgem o guardou.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
U cuidavam que mort’ era, | o ladrom lhes diss’ assi:
“– Quero-vos dizer, amigos, | ora porque nom morri:
guardou-me Santa Maria, | e aqué-vo-la aqui
que me nas sas mãos sofre, | que m’ o laço nom matou”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Quand’ est’ oiu o meirinho, | deu aa Virgem loor
Santa Maria, e logo | foi decer por seu amor
Elbo, o ladrom, da forca, | que depois por servidor
dela foi sempr’ em sa vida, | ca em ordem log’ entrou.
38
Assi como Jesu-Cristo, | estando na cruz, salvou
um ladrom, assi sa madre | outro de morte livrou.
34
R6
* * *
35
Cantigas de Santa Maria 14
«Par Deus, muit’ é gram razom»
(E 14, T 14, U 15)
Esta é como Santa Maria rogou a seu filho pola alma do monge de Sam Pedro, por que rogaram todo-los santos, e o nom quis fazer senom por ela.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
42
Par Deus, muit’ é gram razom
de poder Santa Maria | mais de quantos santos som.
E muit’ é cousa guisada | de poder muito com Deus
a que o troux’ em seu corpo, | e depois nos braços seus
o trouxe muitas vegadas, | e com pavor dos judeus
fugiu com el a Egipto, | terra de rei Faraom.
[Refrão = vv. 1-2]
Esta senhor groriosa | quis gram miragre mostrar
em um mõesteir’ antigo, | que soía pret’ estar
da cidade de Colonha, | u soíam a morar
monges e que de Sam Pedro | haviam a vocaçom.
[Refrão = vv. 1-2]
Entr’ aqueles bõos frades | havia um frad’ atal
que dos sabores do mundo | mais ca da celestial
vida gram sabor havia; | mas, por se guardar de mal,
beveu ũa meezinha, | e morreu sem confissom.
[Refrão = vv. 1-2]
E, tantoste que foi morto, | o dem’ a alma filhou
dele, e com gram lediça | logo a levar cuidou;
mas defendeu-lho Sam Pedro, | e a Deus por el rogou
que a alma do seu monge | por el houvesse perdom.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois que Sam Pedr’ esto disse | a Deus, respôs-lh’ El assi:
“– Nom sabe-la profecia | que diss’ o bom rei Davi,
que o home com mazela | de pecado ante mi
nom verrá, nem de mià casa | nunca será companhom?”
[Refrão = vv. 1-2]
Mui triste ficou Sam Pedro | quand’ esta razom oiu,
e chamou todo-los santos | ali u os estar viu,
e rogarom polo frade | a Deus; mas El recodiu
bem com’ a el recodira, | e em outra guisa nom.
[Refrão = vv. 1-2]
Quando viu Sam Pedr’ os santos | que assi foram falir,
entom a Santa Maria | mercee lhe foi pedir
que rogass’ ao seu filho | que nom quisess’ consentir
que a alma do seu frade | tevess’ o dem’ em prijom.
36
R7 43-44
VIII
46
48
R8 49-50
IX
Log’ entom Santa Maria | a seu filh’, o Salvador,
foi rogar que aquel frade | houvesse, por seu amor,
perdom. E diss’ El: “– Farei-o, | pois end’ havedes sabor;
mas torn’ a alma no corpo, | e compra sa profissom”.
[Refrão = vv. 1-2]
54
U Deus por Santa Maria | este rogo foi fazer,
o frade que era morto | foi-s’ em pees log’ erger,
e contou ao convento | como s’ houver’ a perder,
senom por Santa Maria, | a que Deu-lo deu em dom.
56
Par Deus, muit’ é gram razom
de poder Santa Maria | mais de quantos santos som.
52
R9
[Refrão = vv. 1-2]
* * *
37
Cantigas de Santa Maria 15
«Todo-los santos que som no ceo, de servir muito ham gram sabor»
(E 15, T 5, U 33)
Esta é como Santa Maria defendeu a cidade de Cesaira do emperador Juião.
R0
2
I
4
6
8
10
Todo-los santos que som no ceo | de servir muito ham gram sabor
Santa Maria a Virgem, madre | de Jesu-Cristo, Nostro Senhor.
E de lhe seerem bem mandados,
esto dereit’ e razom aduz,
pois que por eles encravelados
houve seu filh’ os nembros na cruz;
demais, per ela «santos» chamados
som, e de todos é lum’ e luz;
porend’ estám sempr’ aparelhados
de fazer quanto lh’ em prazer for.
R1 11-12 [Refrão = vv. 1-2]
II
14
16
18
20
Ond’ em Cesaira, a de Suria,
fez um miragre, há gram sazom,
por Sam Basilho Santa Maria
sobre Juião fals’ e felom,
que os crischãos matar queria,
ca o demo no seu coraçom
metera i tam grand’ heregia
que per rem nom podia maior.
R2 21-22 [Refrão = vv. 1-2]
III
24
26
28
30
Este Juião havia guerra
com persiãos, e foi sacar
hoste sobr’ eles, e pela terra
de Cesaira houve de passar;
e Sam Basilh’ a pé dũa serra
saiu a el por xe lh’ homilhar,
e diss’ assi: “– Aquel que nom erra,
que Deus é, te salv’, emperador”.
R3 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
IV
34
36
38
40
Juião diss’ ao home santo:
“– Sabedor és, e muito me praz;
mas quer’ agora que sábias tanto:
que mui mais sei eu ca ti assaz,
e de tod’ esto eu bem m’ avanto
que sei o que em natura jaz”.
Basilho diz: “– Será est’ enquanto
tu conhoceres teu Criador”.
R4 41-42 [Refrão = vv. 1-2]
V
44
O sant’ home tirou de seu so
pam d’ horjo, que lhe foi ofrecer
38
46
48
50
dizend’: “– Esto nos dam do alho,
por Deus, com que possamos viver;
pois ta pessõa nobr’ aqui vo,
filha-o, se te jaz em prazer”.
Juião disse: “– Dem-ti do fo,
pois me cevada dás por amor;
R5 51-52 [Refrão = vv. 1-2]
VI
54
56
58
60
e mais ti digo: que, se conqueiro
terra de Pérsia, quero vĩir
per aqui log’, e teu mõesteiro
e ta cidade ti destroir;
e fo comerás por fazfeiro,
ou te farei de fame fĩir;
e, se t’ aqueste pam nom refeiro,
terrei-me por doutr’ home peior”.
R6 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
VII
64
66
68
70
Pois Sam Basilh’ o fo filhado
houve, tornando-se diss’ atal:
“– Juião, deste fo que dado
mi_hás, que comesse, feziste mal;
e est’ orgulho que mi_hás mostrado,
Deus ti_o demande, que pod’ e val;
e, quant’ eu hei, tenh’ encomendado
da Virgem, madre do Salvador”.
R7 71-72 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
74
76
78
80
Pois se tornou aos da cidade,
fez-los juntar, chorando dos seus
olhos, contand’ a deslealdade
de Juião, e disse: “– Por Deus,
de quem é madre de piadade
Santa Mari’, ai amigos meus,
roguemos-lhe pola sa bondade
que nos guarde daquel traedor”.
R8 81-82 [Refrão = vv. 1-2]
IX
84
86
88
90
Demais, fez-lhes jejũar três dias
e levar gram marteir’ e afám,
andando per muitas romarias,
bevend’ água, comendo mal pam;
de noite lhes fez ter vigias
na eigreja da do bom talám,
Santa Maria, que désse vias
per que saíssem daquel pavor.
R9 91-92 [Refrão = vv. 1-2]
X
94
96
98
100
Poi-lo sant’ hom’ aquest’ houve feito,
bem ant’ o altar adormeceu
da Santa Virgem, lass’ e maltreito;
e ela logo lh’ apareceu
com gram poder de santos afeito,
que a terra toda ’sclareceu,
e dizendo: “– Pois que hei conjeito,
vingar-m’-ei daquele malfeitor”.
39
R10 101-102 [Refrão = vv. 1-2]
XI
104
106
108
110
Pois esto disse, chamar mandava
Sam Mercuiro, e disse-lh’ assi:
“– Juião falso, que rezõava
mal a meu filh’, e peior a mi,
por quanto mal nos ele buscava
dá-nos dereito del bem ali
du vai ontr’ os seus, em que fiava,
e sei de nós ambos vingador”.
R11 111-112 [Refrão = vv. 1-2]
XII
114
116
118
120
E mantenente, sem demorança,
Sam Mercuiro log’ ir se leixou
em seu cavalo branc’, e sa lança
muito brandind’; e toste chegou
a Juião, e deu-lhe na pança
que em terra morto o deitou
ontr’ os seus todos; e tal vingança
filhou del come bom lidador.
R12 121-122 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
124
126
128
130
Tod’ aquesto que vos ora dito
hei, Sam Basilh’ em sa visom viu;
e Santa Maria deu-lh’ escrito
um livro, e ele o abriu,
e, quant’ i viu, no coraçom fito
teve bem, e logo s’ espediu
dela. E, pois da visom foi quito,
ficou ém com med’ e com tremor.
R13 131-132 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
134
136
138
140
Depós aquest’, um seu companheiro
Sam Basilho [i] logo chamou,
e catar foi logo de primeiro
u as sas armas ante leixou
de Sam Mercuiro, o cavaleiro
de Jesu-Crist’, e no-nas achou;
e teve que era verdadeiro
seu sonh’, e deu a Deus ém loor.
R14 141-142 [Refrão = vv. 1-2]
XV
144
146
148
150
Essa hora logo, sem tardada,
Sam Basilho, com’ escrit’ achei,
u a gente estav’ assũada
foi-lhes dizer como vos direi:
“– Gram vengança nos há ora dada
Sam Mercuiro daquel falso rei,
ca o matou dũa gram lançada,
que nunca atal deu justador;
R15 151-152 [Refrão = vv. 1-2]
XVI
154
156
e, se daquesto, pela ventura,
que digo, nom me creedes ém,
eu fui catar a sa sepultura,
e, das sas armas, nom vi i rem;
40
158
160
mas tornemos i log’ a cordura,
por Deus, que o mund’ em poder tem,
ca este feit’ é de tal natura
que dev’ hom’ ém seer sabedor”.
R16 161-162 [Refrão = vv. 1-2]
XVII
164
166
168
170
Logo tantoste forom correndo
e as armas todas essa vez
acharom, e a lança jazendo,
com que Sam Mercuir’ o colbe fez,
sangoent’; e per i entendendo
forom que a Virgem mui de prez
fez fazer esto em defendendo
os seus de Juião chufador.
R17 171-172 [Refrão = vv. 1-2]
XVIII
174
176
178
180
Eles assi a lança catando,
que creer podiam muit’ adur,
maestre Libano foi chegando,
filósofo natural de Sur,
que lhes este feito foi contando,
ca se nom detevera nenlhur
des que leixara a host’ alçando
e Juião morto sem coor.
R18 181-182 [Refrão = vv. 1-2]
XIX
184
186
188
190
E contou-lhes a mui gram ferida
que lh’ um cavaleiro branco deu,
per que a’ lma tantoste partida
lhe foi do corp’: “– Aquesto vi eu”
–diss’ el–; “porém quero santa vida
fazer vosc’, e nom vos seja greu,
e receber vossa lei comprida,
e serei dela preegador”.
R19 191-192 [Refrão = vv. 1-2]
XX
194
196
198
200
R20
E log’ a água sobe-la testa
lhe deitarom, e batismo prês;
e começarom log’ i a festa
da Virgem, que durou bem um mês;
e cada dia pela gram sesta
vinham da host’ um e dous e três,
que lhes contarom da mort’ a gesta
que prês Juião a gram door.
Todo-los santos que som no ceo | de servir muito ham gram sabor
202 Santa Maria a Virgem, madre | de Jesu-Cristo, Nostro Senhor.
* * *
41
Cantigas de Santa Maria 16
«Quem dona fremosa e bõa quiser amar»
(E 16, T 16, U 12)
Esta é como Santa Maria converteu um cavaleiro namorado, que s’ houver’ a desasperar
porque nom podia haver sa amiga.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem dona fremosa e bõa quiser amar,
am’ a groriosa, e nom poderá errar.
E desta razom vos quer’ eu agora dizer
fremoso miragre, que foi em França fazer
a madre de Deus, que nom quiso leixar perder
um namorado que s’ houver’ a desasperar.
[Refrão = vv. 1-2]
Este namorado foi cavaleiro de gram
prez d’ armas, e mui fremos’ e apost’ e mui fram;
mas tal amor houv’ a ũa dona que, de pram,
cuidou a morrer por ela ou sandeu tornar.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, po-la haver, fazia o que vos direi:
nom leixava guerra nem lide nem bom tornei
u se nom provasse tam bem que conde nem rei,
polo que fazia, o nom houvess’ a preçar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, com tod’ aquesto, dava seu haver tam bem
e tam francamente que lhe nom ficava rem;
mas, quando dizia aa dona que o sém
perdia por ela, nom lho queri’ ascoitar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Macar o cavaleir’ assi despreçar se viu
da que el amava, e seu desamor sentiu,
pero, com tod’ esto, o coraçom nom partiu
de querer seu bem e de o mais dal cobiçar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mas com coita grande que tinha no coraçom,
com’ home fora de seu siso, se foi entom
a um sant’ abade, e disse-lh’ em confissom
que a Deus rogasse que lha fezesse gãar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O sant’ abade, que o cavaleiro sandeu
viu com amores, atám toste s’ apercebeu
que pelo dem’ era; e porém se trameteu
de buscar carreira pera o ende tirar.
40
42
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E porém lhe disse: “– Amigo, creed’ a mi,
se esta dona vós queredes, fazed’ assi:
a Santa Maria a pedide des aqui,
que é poderosa e vo-la poderá dar;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e a maneira em que lha devedes pedir
é que duzentas vezes digades, sem mentir,
«Ave, Maria», d’ hoj’ a um ano, sem falir,
cada dia, em golhos ant’ o seu altar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
O cavaleiro fez todo quanto lh’ el mandou,
e tod’ ess’ ano sas avesmarias rezou,
senom poucos dias que na cima ém leixou
com coita das gentes que iam com el falar.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Mas o cavaleiro tant’ havia gram sabor
de comprir o ano, cuidand’ haver sa senhor,
que em ũ’ ermida da madre do Salvador
foi comprir aquelo que fora ant’ obridar.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E, u el estava em aqueste preit’ atal,
mostrand’ a Santa Maria sa coit’ e seu mal,
pareceu-lhe log’ a reinha espirital,
tam fremos’ e crara que a nom pod’ el catar;
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
e disse-lh’ assi: “– Tolh’ as mãos dante ta faz
e pára-mi mentes, ca eu nom tenho anfaz:
de mi e da outra dona, a que te mais praz
filha qual quiseres, segundo teu semelhar”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
O cavaleiro disse: “– Senhor, madre de Deus,
tu és a mais fremosa cousa que estes meus
olhos nunca virom; porém seja eu dos teus
servos que tu amas, e quer’ a outra leixar”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E entom lhe disse a senhor do mui bom prez:
“– Se me por amiga queres haver, mais rafez,
tanto que est’ ano rezes por mi outra vez
quanto pola outra antano fuste rezar”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Poi-la groriosa o cavaleiro por seu
filhou, des ali rezou el (e nom lhe foi greu)
quanto lhe mandara ela; e, com’ oí eu,
94
43
R16
96
na cima do ano foi-o consigo levar.
98
Quem dona fremosa e bõa quiser amar,
am’ a groriosa, e nom poderá errar.
* * *
44
Cantigas de Santa Maria 17
«Sempre seja beita e loada»
(E 17, T 17, U 7)
Esta é de como Santa Maria guardou de morte a honrada dona de Roma a que o demo acusou po-la fazer queimar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Sempre seja beita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.
Maravilhoso miragre d’ oir
vos quer’ eu ora contar, sem mentir,
de como fez o diabre fogir
de Roma a Virgem de Deus amada.
[Refrão = vv. 1-2]
Em Roma foi, já houve tal sazom,
que ũa dona mui de coraçom
amou a madre de Deus; mas entom
sofreu que fosse do demo tentada.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
A dona mui bom marido perdeu,
e com pesar del per poucas morreu;
mas mal conorto dum filho prendeu
que del havia, que a fez prenhada.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
A dona, pois que prenhe se sentiu,
gram pesar houve; mas depois pariu
um filh’, e, u a nengũu nom viu,
mato’-o, dentr’ em sa cas’ enserrada.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Em aquel tempo o demo maior
tornou-s’ em forma d’ home sabedor,
e, mostrando-se por devinhador,
o emperador lhe fez dar soldada.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, ontr’ o al que soub’ adevinhar,
foi o feito da dona mesturar;
e disse que lho queria provar,
em tal que fosse log’ ela queimada.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, pero lh’ o emperador dizer
oiu, já per rem nom lho quis creer;
mas fez a dona ante si trager,
e ela vo bem acompanhada.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
45
VIII
46
48
Poi-lo emperador chamar mandou
a dona, logo o dem’ ar chamou,
que lhe foi dizer per-quanto passou,
de que foi ela mui maravilhada.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O emperador lhe disse: “– Molher
bõa, de responder vos é mester”.
“– O bem,” –diss’ ela– “se prazo houver
em que eu possa seer conselhada”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
O emperador lhes pôs praz’ atal:
“– D’ hoj’ a três dias, u nom haja al,
venha provar o maestr’ este mal;
se nom, a testa lhe seja talhada”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
A bõa dona se foi bem dali
a ũ’ eigreja, per quant’ aprendi,
de Santa Maria, e diss’ assi:
“– Senhor, acorre a tua coitada”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Santa Maria lhe diss’: “– Est’ afám
e esta coita que tu hás, de pram,
faz o maestre; mas mos que cam
o tem em vil, e sei bem esforçada”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
A bõa dona sem nium desdém
ant’ o emperador aqué-a vem;
mas o demo entom per nulha rem
no-na conhoceu nem lhe disse nada.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
Diss’ o emperador: “– Par Sam Martim,
maestre, mui pret’ é a vossa fim”.
Mas foi-s’ o demo, e fez-lh’ o bocim,
e derribou do teit’ ũa braçada.
86
Sempre seja beita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.
82
R14
* * *
46
Cantigas de Santa Maria 18
«Por nos de dulta tirar»
(E 18, T 18, U 16)
Esta é como Santa Maria fez fazer aos babous que criam a seda duas toucas, porque a dona
que os guardava lhe prometera ũa e nom lha dera.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Por nos de dulta tirar,
praz a Santa Maria
de seus miragres mostrar
fremosos cada dia.
E por nos fazer veer
sa apostura,
gram miragre foi fazer
em ’Stremadura,
em Segóvia, u morar
ũa dona soía
que muito sirgo criar
em sa casa fazia.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
Porque os babous perdeu
e houve pouca
seda, porém prometeu
dar ũa touca
per’ a omagem honrar
que no altar siía
da Virgem, que nom há par,
em que muito criía.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
Pois que a promessa fez,
sempre crecerom
os babous bem dessa vez
e nom morrerom;
mas a dona, com vagar
grande que i prendia,
d’ a touca da seda dar
sempre lh’ escaecia.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Onde lh’ avo assi
ena gram festa
d’ agosto, que vo i
com mui gram sesta
ant’ a omagem orar;
e ali u jazia
a prezes, foi-lhe nembrar
a touca que devia.
42
44
46
48
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
V
Chorando de coraçom
foi-se correndo
54
47
56
58
60
a casa, e viu entom
estar fazendo
os bichocos e obrar
na touca a perfia,
e começou a chorar
com mui grand’ alegria.
R5 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VI
E, pois que assi chorou,
meteu bem mentes
na touca; des i, chamou
muitas das gentes
i, que vessem parar
mentes como sabia
a madre de Deus lavrar
per santa maestria.
66
68
70
72
R6 73-76
[Refrão = vv. 1-4]
VII
As gentes, com gram sabor,
quand’ est’ oírom,
dando aa madre loor
de Deus, saírom
aas ruas braadar,
dizendo: “– Via, via!,
o gram miragre catar
que fez a que nos guia!”.
78
80
82
84
R7 85-88
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
Um e um, e dous e dous,
log’ i verom;
ontretanto os babous
outra fezerom
touca, per que fossem par,
que, se alguém queria
a ũa delas levar,
a outra leixaria.
90
92
94
96
R8 97-100
[Refrão = vv. 1-4]
IX
Porém Dom Afons’, el-rei,
na sa capela
trage, per quant’ apres’ hei,
end’ a mais bela,
que faz nas festas sacar
por tolher heregia
dos que na Virgem dultar
vam per sa gram folia.
102
104
106
108
R9
110
112
Por nos de dulta tirar
praz a Santa Maria
de seus miragres mostrar
fremosos cada dia.
* * *
48
Cantigas de Santa Maria 19
«Gram sandece faz quem se por mal filha»
(E 19, T 19, U 18)
Esta é como Santa Maria filhou vingança dos três cavaleiros que matarom seu emigo ant’
o seu altar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
Gram sandece faz quem se por mal filha
co-na que de Deus é madre e filha.
Desto vos direi um miragre fremoso,
que mostrou a madre do rei grorioso
contra um ricome fol e sobervioso,
e contar-vos-ei end’ a gram maravilha.
[Refrão = vv. 1-2]
El[e] e outros dous um dia acharom
um seu emig’, e pos el derranjarom
e em ũa eigreja o enserrarom
por prazer do demo, que os seus aguilha.
[Refrão = vv. 1-2]
O enserrado teve que lhe valria
aquela eigreja de Santa Maria;
mas ant’ o altar, com sa gram felonia,
peças del fezerom, per sa pecadilha.
[Refrão = vv. 1-2]
E, pois que o eles peças feit’ houverom,
logo da eigreja sair se quiserom;
mas aquesto, per rem, fazer nom poderom,
ca Deus os trilhou, o que os maos trilha.
[Refrão = vv. 1-2]
Nom foi quem podesse arma nem escudo
ter nium deles: assi foi perdudo
do fogo do ceo, ca tod’ encendudo
foi bem da cabeça tro ena verilha.
[Refrão = vv. 1-2]
Poi-los malapresos arder s’ assi virom,
logo por culpados muito se sentirom;
a Santa Maria mercee pedirom
que os nom metesse o dem’ em sa pilha.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois se repentirom, forom melhorados
e dum santo bispo mui bem confessados,
que lhes mandou, por remiir seus pecados,
49
42
R7 43-44
VIII
46
48
R8
49
50
que fossem da terra como quem s’ eixilha.
[Refrão = vv. 1-2]
Demais lhes mandou que aquelas espadas
com que o mataram, fossem pecejadas,
e cintas ém feitas, com que apertadas
trouxessem as carnes per toda Cezilha.
Gram sandece faz quem se por mal filha
co-na que de Deus é madre e filha.
* * *
50
Cantigas de Santa Maria 20
«Virga de Jesse»
(E 20, T 20, U 20)
Esta XXª é de loor de Santa Maria, por quantas mercees nos faz.
R0
2
4
6
I
8
10
12
14
16
R1
18
20
22
II
24
26
28
30
32
R2
34
36
38
III
40
42
44
Virga de Jesse,
quem te soubesse
loar como mereces,
e sém houvesse
per que dissesse
quanto por nós padeces!
Ca tu noit’ e dia
sempr’ estás rogando
teu filh’, ai Maria,
por nós que, andando
aqui pecando
e mal obrand’ –o
que tu muit’ avorreces–
nom quera, quando
sever julgando,
catar nossas sandeces.
Virga de Jesse,
quem te soubesse
loar como mereces,
e sém houvesse
per que dissesse
quanto por nós padeces!
E ar todavia
sempr’ estás lidando
por nós a perfia,
o dem’ arrancando,
que, sossacando,
nos vai tentando
com sabores rafeces;
mas tu guardando
e amparando
nos vás, poi-lo couseces.
Virga de Jesse,
quem te soubesse
loar como mereces,
e sém houvesse
per que dissesse
quanto por nós padeces!
Miragres fremosos
vás por nós fazendo,
e maravilhosos,
per quant’ eu entendo,
e corregendo
muit’ e sofrendo,
ca nom nos escaeces,
51
46
48
R3
50
52
54
IV
56
58
60
62
64
R4
66
68
70
e, contendendo,
nos defendendo
do demo, que ’sterreces.
Virga de Jesse,
quem te soubesse
loar como mereces,
e sém houvesse
per que dissesse
quanto por nós padeces!
Aos soberviosos
d’ alto vás decendo,
e os homildosos
em honra crecendo,
e adendo
e provezendo
tas santas grãadeces.
Porém comendo-[m’] a ti e rendo,
que òs teus nom faleces.
Virga de Jesse,
quem te soubesse
loar como mereces,
e sém houvesse
per que dissesse
quanto por nós padeces!
* * *
52
Cantigas de Santa Maria 21
«Santa Maria pod’ enfermos guarir»
(E 21, T 21, U 26)
Esta é como Santa Maria fez haver filho a ũa molher maninha, e depois morreu-lhe, e ressocitou-lho.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Santa Maria pod’ enfermos guarir
quando xe quiser, e mortos resorgir.
Na que Deus seu Sant’ Espírit’ enviou,
e que forma d’ home em ela filhou,
nom é maravilha se del gaanhou
vertude per que podess’ esto comprir.
[Refrão = vv. 1-2]
Porend’ um miragr’ aquesta reinha
santa fez mui grand’ a ũa mesquinha
molher, que com coita de que maninha
era, foi a ela um filho pedir.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Chorando dos olhos mui de coraçom,
lhe diss’: “– Ai senhor, oe mià oraçom,
e, por ta mercee, um filho barom
me dá, com que goi’ e te possa servir”.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Log’ o que pediu lhe foi outorgado,
e, pois, a seu temp’ aquel filho nado
que a Santa Maria demandado
houve, ca lhe nom quis eno dom falir.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Mas o meninh’, a pouco pois que naceu,
dũa forte féver mui cedo morreu;
mas a madre per poucas ensandeceu
por el, e sas faces filhou-s’ a carpir.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Entom a cativa com gram quebranto
ao mõesteir’ o levou, e ant’ o
altar o pôs, fazendo tam gram chanto
que toda-las gentes fez a si vĩir.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
E braadando começou a dizer:
“– Santa Maria, que me fuste fazer
em dar-m’ este filh’ e logo mi_o tolher,
porque nom podesse com ele goir?;
53
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
senhor, que de madre nome me déste,
em tolher-mi_o logo mal me fezeste;
mas polo prazer que do teu houveste
filho, dá-m’ este meu que veja riir;
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
ca tu soa és a que mi_o podes dar,
e porend’ a ti o venho demandar;
onde, groriosa senhor, sem tardar
dá-mi_o vivo, que haja que ti gracir”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
Log’ a oraçom da molher oída
foi, e o meninho tornou em vida
por prazer da Virgem santa comprida,
que o fez no leit’ u jazia bolir.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Quand’ esto viu a molher, houve pavor
da primeir’, e, pois, tornou-se-lh’ em sabor;
e deu porém graças a Nostro Senhor
e a sa madre, porque a quis oir.
68
Santa Maria pod’ enfermos guarir
quando xe quiser, e mortos resorgir.
64
R11
* * *
54
Cantigas de Santa Maria 22
«Mui gram poder há a madre de Deus»
(E 22, T 22, U 22)
Esta XXIIª é como Santa Maria guardou a um lavrador que nom morresse das feridas que lhe
dava um cavaleiro e seus homes.
R0
2
I
4
6
Mui gram poder há a madre de Deus
de defender e ampará-los seus.
Gram poder há, ca seu filho lho deu,
em defender quem se chamar por seu;
e dest’ um miragre vos direi eu
que ela fez grande nos dias meus.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Armenteira foi um lavrador,
que um cavaleiro, por desamor
mui grande que havi’ a seu senhor,
foi po-lo matar, per nome Mateus.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E, u o viu seu milho debulhar
na eira, mandou-lhe lançadas dar;
mas el começou a madr’ a chamar
do que na cruz matarom os judeus.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Duas lançadas lhe deu um peom,
mas nom lh’ entrarom, e escantaçom
cuidou que era; o coteif’ entom
mais bravo foi que Judas Macabeus.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Entom a sa azcũa lhe lançou,
e feriu-o, pero no-no chagou;
ca el a Santa Maria chamou:
“– Senhor, val-me como vales os teus,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
e nom moira, ca nom mereci mal”.
Eles, pois virom o miragr’ atal
que fez a reinha esperital,
creverom bem, ca ant’ eram encreus.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
E filharom-se log’ a repentir,
e ao lavrador perdom pedir,
e derom-lh’ alg’; e el punhou de s’ ir
a Rocamador com outros romeus.
Mui gram poder há a madre de Deus
de defender e ampará-los seus.
* * *
55
Cantigas de Santa Maria 23
«Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho»
(E 23, T 23, U 23)
Esta
tanha.
XXIIIª
é como Santa Maria acrecentou o vinho no tonel por amor da bõa dona de BreR0
2
I
4
6
Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho,
bem assi depois sa madr’ acrecentou o vinho.
Desto direi um miragre que fez em Bretanha
Santa Maria por ũa dona mui sem sanha,
em que muito bom costum’ e muita bõa manha
Deus posera, que quis dela seer seu vezinho.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Sobre toda-las bondades que ela havia,
era que muito fiava em Santa Maria;
e porende a tirou de vergonha um dia
del-rei, que a sa casa vera de caminho.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
A dona po-lo servir foi muit’ afazendada,
e deu-lhe carn’ e pescado e pam e cevada;
mas de bom vinho pera el era mui menguada,
ca nom tinha senom pouco em um tonelcinho.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E dobrava-xe-lh’ a coita, ca, pero quisesse
havê-lo, nom era end’ em terra que podesse,
por dinheiros nem por outr’ haver que por el désse,
se nom fosse pola madre do Velh’ e Meninho.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E com aquesta ’sperança foi aa eigreja
e diss’ “– Ai Santa Maria, ta mercee seja
que me saques daquesta vergonha tam sobeja;
se nom, nunca vestirei já mais lãa nem linho”.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Mantenent’ a oraçom da dona foi oída,
e el-rei e sa companha toda foi comprida
de bom vinh’, e a adega nom ém foi falida
que nom achass’ i avond’ o ric’ e o mesquinho.
38
Como Deus fez vinho d’ água ant’ Archetecrinho,
bem assi depois sa madr’ acrecentou o vinho.
34
R6
* * *
56
Cantigas de Santa Maria 24
«Madre de Deus, nom pod’ errar quem em ti há fiança»
(E 24, T 24, U 17)
Esta é como Santa Maria fez nacer ũa fror na boca ao crérigo depois que foi morto (e era
em semelhança de lílio), porque a loava.
R0
1
I
3
5
R1
6
II
8
10
R2
11
III
13
15
R3
16
IV
18
20
R4
21
V
23
25
R5
26
VI
28
30
R6
31
VII
33
35
R7
36
Madre de Deus, nom pod’ errar | quem em ti há fiança.
Nom pod’ errar nem falecer
quem loar te sab’ e temer.
Dest’ um miragre retraer
quero, que foi em França.
[Refrão = v. 1]
Em Chartes hou[v]’ um crerizom
que era tafur e ladrom,
mas na Virgem de coraçom
havia esperança.
[Refrão = v. 1]
Quand’ algur ia mal fazer,
se via omagem seer
de Santa Maria, correr
ia lá sem tardança;
[Refrão = v. 1]
e, pois fazia oraçom,
ia comprir seu mal entom.
Porém morreu sem confissom,
per sua malandança.
[Refrão = v. 1]
Porque tal morte foi morrer,
no-no quiserom receber
no sagrad’, e houv’ a jazer
fora, sem demorança.
[Refrão = v. 1]
Santa Maria em visom
se mostrou a pouca sazom
a um prest’, e disse-lh’ entom:
“– Fezestes malestança,
[Refrão = v. 1]
porque nom quisestes colher
o meu crérigo, nem meter
no sagrad’, e longe põer
o fostes por viltança;
[Refrão = v. 1]
57
VIII
38
40
R8
41
IX
43
45
R9
46
X
48
50
R10
51
XI
53
55
R11
56
XII
58
60
R12
61
mas crás, asse Deus vos perdom,
ide por el com procissom,
com choros e com devoçom,
ca foi grand’ a errança”.
[Refrão = v. 1]
O preste logo foi-s’ erger
e mandou os sinos tanger,
por ir o miragre veer
da Virgem, sem dultança.
[Refrão = v. 1]
Os crérigos em mui bom som
cantando «Kirieleison»,
virom jazer aquel barom,
u fez Deus demostrança:
[Refrão = v. 1]
que, porque fora bem dizer
de sa madre, fez-lhe nacer
fror na boca e parecer
de liro semelhança.
[Refrão = v. 1]
Esto teverom por gram dom
da Virgem, e mui com razom;
e, pois fezerom ém sermom,
levaro-no com dança.
Madre de Deus, nom pod’ errar | quem em ti há fiança.
* * *
58
Cantigas de Santa Maria 25
«Pagar bem pod’ o que dever»
(E 25, T 25, U 38)
Esta é como a imagem de Santa Maria falou em testimónio entr’ crischão e o judeu.
R0
2
I
4
6
8
10
Pagar bem pod’ o que dever
o que a madre de Deus fia.
E desto vos quero contar
um gram miragre mui fremoso
que fezo a Virgem sem par,
madre do gram rei grorioso,
por um home que seu haver
todo já despendud’ havia
por fazer bem e mais valer,
ca nom já em outra folia.
R1 11-12
[Refrão = vv. 1-2]
II
Quand’ aquel bom home o seu
haver houv’ assi despendudo,
nom pôd’ achar, com’ aprix eu,
d’ estranho nem de conhoçudo
quem sol lh’ empréstido fazer
quisess’; e, pois esto viía,
a um judeu foi, sem lezer,
provar se lh’ alg’ emprestaria.
14
16
18
20
R2 21-22
[Refrão = vv. 1-2]
III
E o judeu lhe diss’ entom:
“– Amig’, aquesto que tu queres
farei eu mui de coraçom
sobre bom penhor, se mi_o deres”.
Disse-lh’ o crischão: “– Poder
d’ esso fazer nom haveria,
mas fiador quero seer
de cho pagar bem a um dia”.
24
26
28
30
R3 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O judeu lhe respôs assi:
“– Sem penhor nom será já feito
que o, per rem, leves de mi”.
Diz o crischão: “– Fas um preito:
ir-t’-ei por fiador meter
Jesu-Crist’ e Santa Maria”.
Respôs el: “– Nom quer’ eu creer
em eles; mas filhar-chos-ia,
34
36
38
40
R4 41-42
[Refrão = vv. 1-2]
V
porque sei que santa molher
foi ela, e El home santo
e profeta; porém, senher,
filhar-chos quer’, e dar-ch’-ei quanto
quiseres, tod’ a teu prazer”.
E o crischão respondia:
44
46
48
59
50
“– Sas omages, que veer
posso, dou-t’ em fiadoria”.
R5 51-52
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois o judeu est’ outorgou,
ambos se forom mantenente,
e as omages lhe mostrou
o crischão, e ant’ a gente
tangeu, e filhou-s’ a dizer
que por fiança lhas metia
porque lh’ o seu fosse render
a seu prazo, sem tricharia.
54
56
58
60
R6 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
VII
“– E Vós, Jesu-Cristo, Senhor,
e vós, sa madre muit’ honrada,”
–diss’ el– “se daqui longe for
ou mià fazenda embargada,
nom possa per prazo perder,
se eu pagar nom lho podia
per mi, mas vós ide põer
a paga u mi_a eu porria;
64
66
68
70
R7 71-72
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
ca eu a vó-lo pagarei,
e vós fazed’ a el a paga,
porque nom diga pois: “– Nom hei
o meu”, e em preito me traga,
nem mi_o meu faça despender
com el andand’ em preitesia;
ca, se de coita a morrer
houvesse, desta morreria”.
74
76
78
80
R8 81-82
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Poi-lo crischão assi fis
fez o judeu, a poucos dias
com seu haver quant’ ele quis
gãou em bõas merchandias,
ca bem se soub’ entrameter
dest’, e bem fazê-lo sabia;
mas foi-lh’ o praz’ escaecer
a que o el pagar devia.
84
86
88
90
R9 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
X
O crischão, que nom mentir
quis daquel prazo que posera,
ant’ um dia que a vĩir
houvesse, foi em coita fera;
e por esto fez compõer
ũ’ arca, e dentro metia
quant’ el ao judeu render
houv’, e diss’: “– Ai Deus, Tu o guia”.
94
96
98
100
R10 101-102
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Dizend’ est’, em mar a meteu;
e o vento moveu as ondas,
104
60
106
108
110
e outro dia pareceu
no porto das águas mui fondas
de Besanç’. E po-la prender
um judeu mui toste corria,
mas log’ i houv’ a falecer,
que a arc’ ant’ ele fogia.
R11 111-112
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E, pois o judeu esto viu,
foi, metendo mui grandes vozes,
a seu senhor, e el saiu
e disse-lhe: “– Sol duas nozes
nom vales, que fuste temer
o mar com mui gram covardia;
mas esto quer’ eu cometer:
bem leu a mi Deu-la daria”.
114
116
118
120
R12 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Pois esto disse, nom fez al,
mas correu alá sem demora,
e a arca em guisa tal
fez que aportou ant’ el fora;
entom foi sa mão tender
e filhou-a com alegria,
ca nom se podia sofrer
de saber o que i jazia.
124
126
128
130
R13 131-132
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Des i, feze-a levar ém
a sa casa, e seus dinheiros
achou em ela; e mui bem
se guardou de seus companheiros,
que nom lh’ houvessem d’ entender
de como os el ascondia:
poi-los foi contar e volver,
a arca pôs u el dormia.
134
136
138
140
R14 141-142
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Pois houve feito de sa prol,
o mercador ali chegava,
e o judeu bem come fol
mui de rijo lhe demandava
que lhe déss’ o que lh’ acreer
fora; se nom, que el diria
atal cousa per que caer
em gram vergonha o faria.
144
146
148
150
R15 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
O crischão disse: “– Fiel
bõo tenho que t’ hei pagado:
a Virgem, madre do donzel
que no altar ch’ hôuvi mostrado,
que te fará bem conhocer
como foi, ca nom mentiria;
e tu nom queras contender
com ela, que mal t’ ém verria”.
154
156
158
160
61
R16 161-162
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Diss’ o judeu: “– Desso me praz;
pois vaamos aa eigreja,
e, se o disser em mià faz
a ta omagem, feito seja”.
Entom filharom-s’ a correr,
e a gente pos eles ia,
todos com coita de saber
o que daquel preit’ averria.
164
166
168
170
R17 171-172
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
174
Pois na eigreja forom, diz
o crischão: “– Ai majestade
de Deus, se esta paga fiz,
rogo-te que digas verdade
per que tu faças parecer
do judeu sa aleivosia,
que contra mi cuida trager
do que lhe dar nom deveria”.
176
178
180
R18 181-182
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
Entom diss’ a madre de Deus,
per como eu achei escrito:
“– A falsidade dos judeus
é grand’; e tu, judeu maldito,
sabes que fuste receber
teu haver, que rem nom falia,
e fuste a arc’ asconder
so teu leito com felonia”.
184
186
188
190
R19 191-192
[Refrão = vv. 1-2]
XX
200
Quand’ est’ o judeu entendeu,
bes ali logo, de chão,
em Santa Maria creeu
e em seu filh’, e foi crischão;
ca nom vos quis escaecer
o que profetou Isaía:
como Deus verria nacer
da Virgem por nós todavia.
202
Pagar bem pod’ o que dever
o que a madre de Deus fia.
194
196
198
R20
* * *
62
Cantigas de Santa Maria 26
«Nom é gram cousa se sabe bom joízo dar»
(E 26, T 26, U 24)
Esta é como Santa Maria juigou a alma do romeu que ia a Santiago, que se matou na carreira por engano do diabo, que tornass’ ao corpo e fezesse pedença.
R0
2
I
4
6
8
R1 9-10
II
12
14
16
R2 17-18
III
20
22
24
R3 25-26
IV
28
30
32
R4 33-34
V
36
38
40
R5 41-42
Nom é gram cousa se sabe | bom joízo dar
a madre do que o mundo | tod’ há de joigar.
Mui gram razom é que sábia dereito
quem Deus troux’ em seu corp’, e de seu peito
mamentou, e del despeito
nunca foi filhar;
porém, de sém, me sospeito
que a quis avondar.
[Refrão = vv. 1-2]
Sobr’ esto, se m’ oíssedes, diria
dum joízo que deu Santa Maria
por um que cad’ ano ia,
com’ oí contar,
a Sam Jam’ em romaria,
por que se foi matar.
[Refrão = vv. 1-2]
Este romeu com bõa voontade
ia a Santiago de verdade;
pero desto fez maldade:
que, ant’, albergar
foi com molher sem bondade,
sem com ela casar.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois esto fez, meteu-s’ ao caminho,
e nom se mãefestou o mesquinho;
e o demo mui festinho
se lhe foi mostrar
mais branco que um arminho,
po-lo tost’ enganar:
[Refrão = vv. 1-2]
semelhança filhou de Santiago,
e disse: “– Macar m’ eu de ti despago,
a salvaçom eu cha trago
do que fust’ errar,
por que nom caias no lago
d’ inferno, sem dultar;
[Refrão = vv. 1-2]
63
VI
44
46
48
R6 49-50
VII
52
54
56
R7 57-58
VIII
60
62
64
R8 65-66
IX
68
70
72
R9 73-74
X
76
78
80
mas, ante, farás esto que te digo,
se sabor hás de seer meu amigo:
talha o que trages tigo
que te foi deitar
em poder do emigo,
e vai-te degolar”.
[Refrão = vv. 1-2]
O romeu, que sem dôvida cuidava
que Santiag’ aquelo lhe mandava,
quanto lhe mandou talhava;
poi-lo foi talhar,
log’ entom se degolava,
cuidando bem obrar.
[Refrão = vv. 1-2]
Seus companheiros, poi-lo mort’ acharom,
por nom lhes apõer que o matarom,
forom-s’; e logo chegarom
a alma tomar
demões, que a levarom
mui toste sem tardar.
[Refrão = vv. 1-2]
E, u passavam ant’ ũa capela
de Sam Pedro, muit’ aposta e bela,
Sam James de Compostela
dela foi travar,
dizend’: “– Ai fals’ alcavela,
nom podedes levar
[Refrão = vv. 1-2]
a alma do meu romeu que filhastes,
ca por razom de mi o enganastes:
gram traiçom i pensastes,
e, se Deus m’ ampar,
pois falsament’ a gãastes,
nom vos pode durar”.
R10 81-82 [Refrão = vv. 1-2]
XI
84
86
88
Responderom os demões louçãos:
“– Cuja est’ alma foi, fez feitos vãos,
por que somos bem certãos
que nom dev’ entrar
ante Deus, pois com sas mãos
se foi desperentar”.
R11 89-90 [Refrão = vv. 1-2]
XII
92
94
96
Santiago diss’: “– Atanto façamos:
pois nós e vós est’ assi rezõamos,
ao joízo vaamos
da que nom há par,
e o que julgar, façamos
logo sem alongar”.
R12 97-98 [Refrão = vv. 1-2]
64
XIII
100
102
104
Log’ ante Santa Maria verom,
e rezõarom quanto mais poderom.
Dela tal joíz’ houverom:
que fosse tornar
a alma onde_a trouxerom,
por se depois salvar.
R13 105-106 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
108
110
112
R14
Este joízo logo foi comprido,
e o romeu morto foi resorgido,
de que foi pois Deus servido;
mas nunca cobrar
pôd’ o de que foi falido,
com que fora pecar.
Nom é gram cousa se sabe | bom joízo dar
114 a madre do que o mundo | tod’ há de joigar.
* * *
65
Cantigas de Santa Maria 27
«Nom devemos por maravilha ter»
(E 27, T 27, U 25)
Esta é como Santa Maria filhou a sinagoga dos judeus e fez dela eigreja.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nom devemos por maravilha ter
d’ a madre do vencedor sempre vencer.
Vencer dev’ a madre daquel que deitou
Locifer do ceo, e depois britou
o ifern’, e os santos dele sacou,
e venceu a mort’ u por nós foi morrer.
[Refrão = vv. 1-2]
Porend’ um miragre a madre de Deus
fez na sinagoga que foi dos judeus
e que os apóstolos, amigos seus,
compraram e foram eigreja fazer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Os judeus houverom desto gram pesar,
e a César se forom ende queixar,
dizendo que o haver queriam dar
que pola venda foram ém receber.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O emperador fez chamar ante si
os apóstolos, e disse-lhes assi:
“– Contra tal querela que or’ ante mi
os judeus fezerom, que ides dizer?”
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Os apóstolos, com’ homes de bom sém,
responderom: “– Senhor, nós fezemos bem,
pois que lha compramos e fezemos ém
eigreja da que virgem foi conceber”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Sobr’ esto deu César seu joíz’ atal:
“– Serrem a eigreja, u nom haja al,
e a quaraenta dias, qual sinal
de lei i acharem, tal a dev’ haver”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Os apóstolos log’ a Monte Siom
forom, u a Virgem morava entom
Santa Maria, e mui de coraçom
a rogarom que os vess’ acorrer.
40
42
66
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Assi lhes respôs a mui santa senhor:
“– Daqueste preito nom hajades pavor,
ca eu vos serei i tal ajudador
per que a os judeus hajam de perder”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, pois que o prazo chegou, sem falir,
mandou entom César as portas abrir,
e amba-las partes fez log’ alá ir
e dos seus, que fossem a prova veer.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Des que forom dentr’, assi lhes conteceu:
que logo Sam Pedr’ ant’ o altar varreu,
e aos judeus tantost’ apareceu
omagem da Virgem pintada seer.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Os judeus disserom: “– Pois que a Deus praz
que esta omagem a Maria faz,
leixemos-lh’ aqueste seu logar em paz
e nom queramos com ela contender”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Forom-s’ os judeus, e gãou dessa vez
aquela eigreja a senhor de prez,
que foi a primeira que se nunca fez
em seu nome dela, sem dulta prender.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Depois Juião, emperador cruel,
que a Santa Maria nom foi fiel,
mandou ao póboo dos d’ Irrael
que lh’ aquela omagem fossem trager.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E os judeus, que sempr’ acostumad’ ham
de querer gram mal a do mui bom talám,
forom i; e assi os catou, de pram,
que a nom ousarom, per rem, sol tanger.
86
Nom devemos por maravilha ter
d’ a madre do vencedor sempre vencer.
82
R14
* * *
67
Cantigas de Santa Maria 28
«Todo logar mui bem pode seer defendudo»
(E 28, T 28, U 27)
Esta é como Santa Maria defendeu Costantinobre dos mouros, que a combatiam e a cuidavam filhar.
R0
2
I
4
6
8
10
R1 11-12
II
14
16
18
20
R2 21-22
III
24
26
28
30
R3
31-32
IV
34
36
38
40
R4
41-42
V
44
46
Todo logar mui bem pode | seer defendudo
o que a Santa Maria | há por seu escudo.
Onde daquesta razom
um miragre vos quero
contar mui de coraçom,
que fez, mui grand’ e fero,
a Virgem, que nom há par,
que nom quis que perdudo
foss’ o poblo que guardar
havia, nem vençudo.
[Refrão = vv. 1-2]
De com’ eu escrit’ achei,
pois que foi de crischãos
Costantinobre, um rei
com hoste de pagãos
vo a vila cercar
mui brav’ e mui sanhudo,
po-la per força filhar
por seer mais temudo.
[Refrão = vv. 1-2]
E começou a dizer,
com sanha que havia,
que, se per força prender
a cidade podia,
que faria ém matar
o póboo miúdo,
e o tesour’ ém levar
que tinham ascondudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Na cidade, com’ oí,
se Deus m’ ajud’ e parca,
Sam Germám dentr’ era i,
um santo patriarca,
que foi a Virgem rogar
que dela acorrudo
foss’ o poblo, sem tardar,
daquel mour’ atrevudo.
[Refrão = vv. 1-2]
E as donas ar rogou
da mui nobre cidade
mui de rij’ e conselhou
que ant’ a majestade
da Virgem fossem queimar
68
48
50
R5
51-52
VI
54
56
58
60
R6
61-62
VII
64
66
68
70
R7
71-72
VIII
74
76
78
80
R8
81-82
IX
84
86
88
90
R9
91-92
X
94
96
98
100
R10 101-102
XI
candeas, que traúdo
o póboo do logar
nom fosse, nem rendudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas aquel mouro soldám
fez-lhes põer pedreiras
per aos de dentr’ afám
dar de muitas maneiras,
e os arqueiros tirar;
e assi combatudo
o muro foi sem vagar,
que toste foi fendudo.
[Refrão = vv. 1-2]
E coita sofrerom tal
os de dentro, e tanta,
que presos foram, sem al,
se a Virgem mui santa
nom fosse, que i chegar
com seu mant’ estendudo
foi, po-lo mur’ amparar
que nom fosse caúdo.
[Refrão = vv. 1-2]
E bem ali u deceu,
de santos gram companha
com ela apareceu;
e ela mui sem sanha
o seu manto foi parar,
u muito recebudo
colb’ houve dos que i dar
fez o soldám beiçudo.
[Refrão = vv. 1-2]
E avo dessa vez
aos que combatiam
que Deus por sa madre fez
que, dali u feriam
os colbes, iam matar
daquel soldám barvudo
as gentes, e arredar
do muro já movudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquel soldám, sem mentir,
cuidou que per abete
nom queriam envair
os seus, e Mafomete
começou muit’ a chamar,
o falso conhoçudo,
que os vess’ ajudar;
mas foi i decebudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Ali u ergeu os seus
69
104
106
108
110
R11 111-112
XII
114
116
118
120
R12 121-122
XIII
124
126
128
130
R13 131-132
XIV
134
136
138
140
R14 141-142
XV
144
146
148
150
R15
152
olhos contra o ceo,
viu log’ a madre de Deus,
coberta de seu veo,
sobe-la vila estar
com seu manto tendudo,
e as feridas filhar.
Pois est’ houve veúdo,
[Refrão = vv. 1-2]
teve-se por pecador,
ca viu que aquel feito
era de Nostro Senhor;
porém per nium preito
nom quis combater mandar,
e fez come sisudo,
e na vila foi entrar,
dos seus desconhoçudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Pera Sam Germám se foi
aquel soldám pagão
e disse-lhe: “– Senhor, hoi-mais me quer’ eu crischão
per vossa mão tornar
e seer convertudo,
e Mafomete leixar,
o falso recreúdo;
[Refrão = vv. 1-2]
e o por que esto fiz,
direi-vo-lo aginha:
segundo vossa lei diz,
a mui santa reinha
vi, que vos vo livrar;
pois m’ est’ apareçudo
foi, quero-me batiçar,
mas nom seja sabudo”.
[Refrão = vv. 1-2]
Poderia-vos dedur
dizer as grandes dõas
que aquel soldám de Sur
deu i, ricas e bõas;
demais, foi-os segurar
que nom fosse corrudo
o reino, se Deus m’ ampar,
e foi-lhe gradeçudo.
Todo logar mui bem pode | seer defendudo
o que a Santa Maria | há por seu escudo.
* * *
70
Cantigas de Santa Maria 29
«Nas mentes sempre ter»
(E 29, T 29, U 29)
Esta XXIXª é como Santa Maria fez parecer nas pedras omages a sa semelhança.
R0
2
4
I
6
8
10
Nas mentes sempre ter
devemo-las sas feituras
da Virgem, pois receber
as forom as pedras duras.
Per quant’ eu dizer oí
a muitos que forom i,
na santa Gessemani
forom achadas figuras
da madre de Deus assi
que nom forom de pinturas.
R1 11-14
[Refrão = vv. 1-4]
II
Nem ar entalhadas nom
forom, se Deus me perdom,
e havia i faiçom
da senhor das aposturas
com seu filh’, e per razom
feitas bem per sas mesuras.
16
18
20
R2 21-24
[Refrão = vv. 1-4]
III
Porém as resprandecer
fez tam muit’ e parecer
per que devemos creer
que é senhor das naturas,
que, nas cousas, há poder
de fazer craras d’ escuras.
26
28
30
R3 31-34
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Deus xas quise figurar
em pedra por nos mostrar
que a sa madre honrar
devem todas creaturas,
pois deceu carne filhar
em ela das sas alturas.
36
38
40
R4
42
44
Nas mentes sempre ter
devemo-las sas feituras
da Virgem, pois receber
as forom as pedras duras.
* * *
71
Cantigas de Santa Maria 30
«Muito valvera mais, se Deus m’ ampar»
(E 30, T 30, U 40)
Esta é de loor de Santa Maria, de como Deus nom lhe pode dizer de nom do que lhe rogar,
nem ela a nós.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Muito valvera mais, se Deus m’ ampar,
que nom fôssemos nados
se nos nom désse Deus a que rogar
vai por nossos pecados.
Mas daquesto nos fez El o maior
bem que fazer podia,
u filhou por madr’ e deu por senhor
a nós Santa Maria,
que lhe rogue, quando sanhudo for
contra nós, todavia
que da sa graça nem do seu amor
nom sejamos deitados.
R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4]
II
18
20
22
24
[T]al foi El meter entre nós e si
e deu por avogada,
que madr’, amiga lh’ é, creed’ a mi,
e filha e criada;
porém nom lhe diz de nom mas de si,
u a sent’ aficada
rogando-lhe por nós, ca log’ ali
somos del perdõados.
R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4]
III
30
32
34
36
Nem ela outrossi a nós de nom
pode, se Deus m’ ajude,
dizer, que nom rogue de coraçom
seu filh’, ond’ há vertude;
ca por nós lhe deu El aqueste dom,
e por nossa saúde
filhou dela carn’ e sofreu paxom,
por fazer-nos honrados
R3 37-40 [Refrão = vv. 1-2]
IV
42
44
46
48
R4
50
52
no seu reino, que El pera nós tem,
se o nós nom perdermos
per nossa culpa, nom obrando bem,
e o mal escolhermos.
Mas seu bem nom perderemos, per rem,
se nós firme creermos
que Jesu-Crist’ e a que nos mantém
por nós forom juntados.
Muito valvera mais, se Deus m’ ampar,
que nom fôssemos nados
se nos nom désse Deus a que rogar
vai por nossos pecados.
* * *
72
Cantigas de Santa Maria 31
«Tanto, se Deus me perdom»
(E 31, T 31, U 32)
Esta é como Santa Maria levou o boi do aldeão de Segóvia, que lh’ havia prometudo e nom
lho queria dar.
R0
Tanto, se Deus me perdom,
som da Virgem conhoçudas
sas mercees que quinhom
querem end’ as bêstias mudas.
2
4
I
6
8
10
R1
11-14
II
16
18
20
R2
26
28
30
36
38
40
R4
46
48
50
R5
[Refrão = vv. 1-4]
E, porque o aldeão | desto muito se temia,
ante sa molher estando, | diss’ assi: “– Santa Maria,
dar-t’-ei o que trag’, em dom,
a vaca, se bem m’ ajudas
que de lob’ e de ladrom
mi_a guardes; ca defendudas
41-44
V
[Refrão = vv. 1-4]
E porend’ um aldeão | de Segóvia, que morava
na aldea, ũa vaca | perdera que muit’ amava;
e em aquela sazom
foram i outras perdudas,
e de lobos log’ entom
comestas ou mal mordudas.
31-34
IV
[Refrão = vv. 1-4]
Ali vam muitos enfermos, | que recebem sãidade,
e ar vam-x’ i muitos sãos, | que dam i sa caridade;
e per aquesta razom
som as gentes tam movudas
que vam i de coraçom
ou enviam sas ajudas.
21-24
III
R3
Desto mostrou um miragre | a que é chamada «Virga
de Jesse», na sa eigreja | que éste em Vila-Sirga,
que a preto de Carrom
é duas léguas sabudas,
u vam fazer oraçom
gentes grandes e miúdas.
[Refrão = vv. 1-4]
som as cousas que tu queres; | e por aquesto te rogo
que mi_aquesta vaca guardes”. | E a vaca vo logo
sem dan’ e sem ocajom,
com sas orelhas merjudas,
e fez filho sem lijom
com sinaes pareçudas.
51-54
[Refrão = vv. 1-4]
73
VI
56
58
60
R6
61-64
VII
66
68
70
R7
76
78
80
86
88
90
[Refrão = vv. 1-4]
Pois foi em Santa Maria, | mostrou-se por bêstia sage:
meteu-se na sa eigreja | e parou-s’ ant’ a omage;
e, por haver sa raçom,
foi u as bêstias metudas
eram, que ena maisom
foram dadas ou vendudas.
81-84
IX
[Refrão = vv. 1-4]
Dizend’ esto aa noite, | outro dia o vilão
quis ir vendê-lo almalho; | mas el saiu-lhe de mão,
e correndo de random
foi a jornadas tendudas,
come se com aguilhom
o levassem de corrudas.
71-74
VIII
R8
Pois creceu aquel bezerro | e foi almalh’ arrizado,
a sa molher o vilão | diss’: “– Irei crás a mercado;
mas este novelo nom
irá nas ofereçudas
bêstias que ’m ofereçom
som aos santos rendudas”.
[Refrão = vv. 1-4]
E des ali adeante | nom houv’ i boi nem almalho
que tam bem tirar podesse | o carr’ e sofrer trabalho,
de quantas bêstias i som
que ham as unhas fendudas,
sem feri-lo de bastom
nem d’ aguilhom a ’scodudas.
[Refrão = vv. 1-4]
R9
91-94
X
O lavrador que pos ele | a mui gram pressa vera,
poi-lo viu em Vila-Sirga, | houv’ ém maravilha fera;
e fez chamar a pregom,
98
e gentes forom vĩúdas,
a que das cousas sermom
100
fez que lh’ eram conteçudas.
96
R10
102
104
Tanto, se Deus me perdom,
som da Virgem conhoçudas
sas mercees que quinhom
querem end’ as bêstias mudas.
* * *
74
Cantigas de Santa Maria 32
«Quem loar podia»
(E 32, T 32, U 34)
Esta é como Santa Maria amaçou o bispo que descomungou o crérigo que nom sabia dizer
outra missa senom a sua.
R0
Quem loar podia,
com’ ela querria,
a madre de quem
o mundo fez, seria de bom sém.
2
4
I
5
7
9
11
Dest’ um gram miragre | vos contarei ora,
que santa Maria | fez, que por nós ora,
dũu que al, fora
a sa missa, ora-çom nunca per rem
outra sabia
dizer mal nem bem.
R1
12-15
II
16
18
20
22
Onde ao bispo | daquele bispado
em que el morava | foi end’ acusado;
e ant’ el chamado
e empreguntado
foi se era rem
o que oía
del. Respôs: “– O bem”.
R2
23-26
III
27
29
31
33
34-37
IV
38
42
44
[Refrão = vv. 1-4]
Aquela noit’ houve | o bispo veúda
a Santa Maria | com cara sanhuda,
dizendo-lhe: “– Muda
a muit’ atrevuda
sentença, ca tem
que gram folia
fezist’; e porém
R4
45-48
V
49
51
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-lo bispo soube | per el a verdade,
mandou-lhe tantoste, | mui sem piedade,
que “a vezindade
leixas da cidade
tost’ e sem desdém”,
e que sa via
logo se foss’ ém.
R3
40
[Refrão = vv. 1-4]
[Refrão = vv. 1-4]
te dig’ e ti mando | que destas perfias
te quites; e, se nom, | d’ hoj’ a trinta dias
morte prenderias,
e alá irias
75
53
55
u dem’ os seus tem
na sa bailia,
ond’ home nom vem”.
R5
56-59
[Refrão = vv. 1-4]
VI
60
62
64
66
R6
68
70
O bispo levou-se | mui de madurgada,
e deu ao preste | sa raçom dobrada.
“– E missa cantada
com’ acostumada
hás,” –disse– “mantém
da que nos guia,
ca assi convém”.
Quem loar podia,
com’ ela querria,
a madre de quem
o mundo fez, seria de bom sém.
* * *
76
Cantigas de Santa Maria 33
«Gram poder há de mandar»
(E 33, T 33, U 35)
Esta é como Santa Maria levou em salvo o romeu que caera no mar, e o guiou per so a água
ao porto ante que chegass’ o batel.
R0
1
3
I
Gram poder há de mandar
o mar e todo-los ventos
a madre daquel que fez | todo-los quatr’ elementos.
4
10
Desto vos quero contar
um miragre, que achar
houv’ em um livr’, e tirar
o fui bem dontre trezentos,
que fez a Virgem sem par
por nos a todos mostrar
que seus som os mandamentos.
R1
11-13
[Refrão = vv. 1-3]
II
14
20
ũa nav’ ia per mar,
cuidand’ em Acre portar;
mas tormenta levantar
se foi, que os bastimentos
da nave houv’ a britar,
e começou-s’ afondar
com romeus mais d’ oitocentos.
R2
21-23
[Refrão = vv. 1-3]
III
24
30
Um bispo fora entrar
i, que cuidava passar
com eles; e, pois torvar
o mar viu, seus pensamentos
forom dali escapar;
e porém se foi cambiar
no batel bem com duzentos
R3
31-33
[Refrão = vv. 1-3]
IV
34
40
homes. E um saltar
deles quis e se lançar
cuidou no batel; mas dar
foi de pees em xermentos
que i eram, e tombar
no mar foi e mergulhar
bem até nos fondamentos.
R4
41-43
[Refrão = vv. 1-3]
V
44
Os do batel a remar
se filharom, sem tardar,
per se da nav’ alongar
e fugir dos escarmentos
de que oíram falar,
6
8
16
18
26
28
36
38
46
48
77
50
dos que querem perfiar
sem haver acorrimentos.
R5
51-53
[Refrão = vv. 1-3]
VI
54
60
E, com coita d’ arribar,
sa vea forom alçar,
e terra forom filhar
com pavor e medorentos;
e entom virom estar
aquel que perigoar
viram enos mudamentos.
61-63
[Refrão = vv. 1-3]
56
58
R6
VII 64
70
Começarom-s’ a sinar,
e foro-no preguntar
que a verdad’ ensinar
lhes fosse sem tardamentos:
se guarira per nadar,
ou que-no fora tirar
do mar e dos seus tormentos.
71-73
[Refrão = vv. 1-3]
66
68
R7
VIII 74
80
E el filhou-s’ a chorar
e disse: “– Se Deus m’ ampar,
Santa Maria guardar
me quis por merecimentos
nom meus, mas por vos mostrar
que quem per ela fiar,
valer-lh’-am seus cousimentos”.
R8
81-83
[Refrão = vv. 1-3]
IX
84
Quantos eram no logar
começaro-na loar
e «mercee» lhe chamar,
que dos seus ensinamentos
os quisess’ acostumar
que nom podessem errar
nem fezessem falimentos.
76
78
86
88
90
R9
91
93
Gram poder há de mandar
o mar e todo-los ventos
a madre daquel que fez | todo-los quatr’ elementos.
* * *
78
Cantigas de Santa Maria 34
«Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento»
(E 34, T 34, U 36)
Esta é como Santa Maria filhou dereito do judeu pola desonra que fezera a sua omagem.
R0
2
I
4
6
Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento
quem contra Santa Maria filha_atrevimento.
Porém direi um miragre, que foi gram verdade,
que fez em Costantinoble, na rica cidade,
a Virgem, madre de Deus, por dar entendimento
que quem contra ela vai, palha é contra vento.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
ũa omage pintada na rua siía
em távoa, mui bem feita, de Santa Maria
(que nom podiam achar, entr’ outras mais de cento,
tam fremosa), que furtar foi um judeu a tento
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
de noit’. E, poi-la levou so sa capa furtada,
em sa cas’ a foi deitar na cámara privada;
des i, assentous-s’ ali e fez gram falimento;
mas o demo o matou, e foi a perdimento.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Pois que o judeu assi foi mort’ e cofondudo,
e o demo o levou que nunc’ apareçudo
foi, um crischão entom com bom ensinamento
a omagem foi sacar do logar balorento.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pero que o logar muit’ enatio_estava,
a omagem, quant’ em si, mui bõo cheiro dava,
que ’spécias d’ Ultramar, bálsamo nem onguento,
nom cheiravam atám bem com’ esta que emento.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois que a sacou dali, mantenente lavou-a
com água, e log’ entom a sa casa levou-a,
e em bom logar a pôs, e fez-lhe comprimento
de quant’ houve de fazer por haver salvamento.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois lhe tod’ esto feit’ houve, mui gram demostrança
fez i a madre de Deus, que d’ oio semelhança
correu daquela omage grand’ avondamento,
que ficasse deste feito por renembramento.
40
42
R7
44
Gram dereit’ é que filh’ o demo por escarmento
quem contra Santa Maria filha atrevemento.
* * *
79
Cantigas de Santa Maria 35
«O que a Santa Maria der algo ou prometer»
(E 35, T 35, U 92)
Esta é como Santa Maria fez queimar a lãa aos mercadores que ofereram algo a sua omagem e lho tomaram depois.
R0
2
I
4
6
O que a Santa Maria | der algo ou prometer,
dereit’ é que s’ em mal ache | se lho pois quiser tolher.
Ca muit’ é home sem siso | quem lhe de dar alg’ é greu,
ca o bem que nós havemos, | Deus por ela no-lo deu,
e por esto nom lhe damos | rem do nosso, mas do seu;
onde quem lho tolher cuida, | gram sobêrvia vai fazer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Desta razom um miragre | direi fremoso, que fez
a Virgem Santa Maria, | que é senhor de gram prez,
por ũas sas relíquias | que levarom ũa vez
ũus crérigos a França, | de que vos quero dizer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Estes forom da cidade | que é chamada Leom
do Rodão, u havia | mui grand’ igreja entom,
que ardeu tam feramente | que se fez toda carvom;
mas nom tangeu nas relicas: | esto devedes creer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca havia i do leite | da Virgem espirital,
outrossi dos seus cabelos | envoltos em um cendal,
tod’ aquest’ em ũa arca | feita d’ ouro, ca nom dal;
estas nom tangeu o fogo, | mai-lo al foi tod’ arder.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Os crérigos, quando virom | que a igreja queimar
se fora, como vos digo, | houverom-se d’ acordar
que se fossem pelo mundo | co-nas relicas gãar
per que sa igreja feita | podess’ aginha seer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Maestre Bernald’ havia | nom’ um que er’ em daiám
da igreja, home bõo, | mans’ e de mui bom talám,
que, por haver paraíso, | sempre sofria afám;
este foi co-nas relicas | po-las fazer conhocer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E andou primeiro França, | segundo com’ aprendi,
u fez Deus muitos miragres | per elas; e foi assi
que depois a Ingraterra | ar passou e, com’ oí,
po-las levar mais em salvo, | foi-as na nave meter
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
80
VIII
46
48
dum mercador que havia | per nome Colistanus,
que os levass’ a Bretanha, | a que pobrou rei Brutus;
e entrou i tanta gente | que nom cabiam i chus,
de mui ricos mercadores | que levavam grand’ haver.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E u já pelo mar iam | todos a mui gram sabor,
houverom tam gram bõaça | que nom podiam maior;
e, estando em aquesto, | ar houverom gram pavor,
ca virom bem seis galeas | leixar-s’ a eles correr,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
de cossários, que faziam | em aquel mar mal assaz.
Mas pois o senhor da nave | os viu, disse: “– Nom me praz
com estes que aqui vem; | mas paremo-nos em az,
e ponhamos as relicas | alt’ u as possam veeer”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Logo que esto foi dito, | maestre Bernalt sacou
a arca co-nas relicas; | e, tanto que as mostrou,
dos mercadores que iam | ena nav’ um nom ficou
que tantoste nom vessem | mui grand’ alg’ i oferer.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Todos entom mui de grado | oferiam i mui bem:
os ũus davam i panos, | os outros our’ ou argém,
dizendo: “– Senhor, tod’ esto | filha, que nom leixes rem,
sol que nos guardes os corpos | de mort’ e de mal prender”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Em tod’ est’, as seis galeas | nom quedavam de vĩir,
cada ũa de sa parte, | por ena nave ferir.
E o que tĩí’ a arca | das relicas, sem mentir,
alçou-a contra o ceo, | pois foi-a alte põer.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
O almiral das galeas | vĩía muit’ ant’ os seus;
e o que tĩía_a arca | da Virgem, madre de Deus,
lhes diss’ a mui grandes vozes: | “– Falsos, maos e encreus,
de Santa Maria somos, | a de que Deus quis nacer;
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
e, porém, mal nom nos faças; | se nom, logo morrerás,
e, com quantos tigo trages, | ao inferno irás,
e, de quant’ acabar cuidas, | rem ém nom acabarás,
ca a nav’ estas relicas | querem de ti defender”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Quant’ o crérigo dizia, | o almiral tev’ em vil,
e fez tirar das galeas | saetas mui mais de mil,
por matarem os da nave; | mas um vento nom sotil
se levantou muit’ aginha, | que as galeas volver
94
96
81
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
fez, que a do almiralho | de fond’ a cima fendeu,
e britou logo o maste, | e sobr’ el entom caeu,
e deu-lhe tam gram ferida | que os olhos lhe verteu
logo fora da cabeça, | e fez-lo no mar caer.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E fez as outras galeas | aquele vento de sur
alongar entom tam muito | que as nom virom nenlhur;
e apareceu-lhes Dovra, | a que pobrou rei Artur.
E entom cuidarom todos | o seu em salvo ter.
108
R18 109-110 [Refrão = vv. 1-2]
XIX
112
114
E logo aas relicas | correndo mui gram tropel
vo desses mercadores, | e cada um seu fardel
filhou e quant’ ali dera, | e nom catarom o bel
miragre maravilhoso, | per que os fez guarecer
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
a Virgem Santa Maria, | madre do muit’ alto rei,
que matou seus emigos, | como vos eu já dit’ hei.
E maestre Bernal disse: “– Um preito vosco farei:
dar-vos-ei a meadade, | e leixad’ o al jazer”.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Todos responderom logo: | “– Preit’ outr’ i nom haverá
que o todo nom tomemos, | mas tornaremos dacá;
daquelo que gaanharmos | cada ũu i dará
o que vir que é guisado, | como o podér sofrer”.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
Os mais desses mercadores | de Frandes e de Paris
eram; e, pois s’ apartarom, | cada ũu deles quis
comprar de seu haver lãa, | cuidando seer bem fis
que em salvo a sa terra | a poderia trager.
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
E, poi-l’ houverom comprada, | um dia ante da luz
moverom do porto Dovra; | mais o que morreu na cruz,
querendo vingar sa madre, | fez com’ aquel que aduz
gram poder de meter medo | que lh’ hajam de correger
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
o gram torto que fezeram | a sa madr’ emperadriz,
a que é senhor do mundo. | E porém, par Sam Fiiz,
feriu corisco na nave, | e com’ o escrito diz,
queimou tod’ aquela lãa | e nom quis o al tanger.
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
XXV
Quand’ este miragre virom, | tornarom mui volonter
u leixaram as relicas, | e disserom: “– Pois Deus quer
que a sa madre do nosso | demos, quis do que tever
148
82
150
dará i de bõa mente, | e ide-o receber”.
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XXVI
154
156
Disso maestre Bernaldo: | “– Esto mui gram dereit’ é:
de vos nembrar das relicas | da Virgem, que com Deus sé,
a que fezestes gram torto | guardando mal vossa fé”.
E nom quis ém mais do terço, | que fezo logo colher.
158
O que a Santa Maria | der algo ou prometer,
dereit’ é que s’ em mal ache | se lho pois quiser tolher.
R26
* * *
83
Cantigas de Santa Maria 36
«Muit’ amar devemos em nossas voontades»
(E 36, T 36, U 37)
Esta é de como Santa Maria apareceu no maste da nave, de noite, que ia a Bretanha, e a
guardou que nom perigoasse.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2
13-14
III
16
18
R3
19-20
IV
22
24
R4
25-26
V
28
30
R5
31-32
VI
34
36
R6
37-38
VII
E desto mostrou a Virgem maravilha quamanha
nom pode mostrar outro santo, no mar de Bretanha,
u foi livrar ũa nave, u ia gram companha
d’ homees por sa prol buscar, no que todos punhades.
[Refrão = vv. 1-2]
E, u singravam pelo mar, atal foi sa ventura
que se levou mui gram tormenta, e a noit’ escura
se fez, que rem nom lhes valia siso nem cordura;
e todos cuidarom morrer, de certo o sabiades.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois virom o perigo tal, gemendo e chorando
os santos todos a rogar se filharom, chamando
por seus nomes cada um deles, muito lhes rogando
que os vessem acorrer polas sas piedades.
[Refrão = vv. 1-2]
Quand’ est’ oiu um sant’ abade que na nave ia,
disse-lhes: “– Tenho que fazedes ora gram folia,
que ides rogar outros santos, e Santa Maria,
que nos pode desto livrar, sol no-na ementades”.
[Refrão = vv. 1-2]
Quand’ aquest’ oírom dizer a aquel sant’ abade,
entom todos dum coraçom e dũa voontade
chamarom a Virgem santa, madre de piedade,
que lhes valvess’ e nom catasse as suas maldades.
[Refrão = vv. 1-2]
E diziam: “– Senhor, val-nos, ca a nave se sume!”
E, dizend’ esto, catarom, com’ er é de costume,
contra o masto, e virom em cima mui gram lume,
que alumeava mui mais que outras craridades.
[Refrão = vv. 1-2]
42
E, pois lhes est’ apareceu, foi o vento quedado,
e o ceo virom craro e o mar amansado,
e ao porto chegarom cedo, que desejado
haviam; e, se lhes prougu’ ém, sol dulta nom prendades.
44
Muit’ amar devemos em nossas voontades
a senhor que coitas nos tolh’ e tempestades.
40
R7
Muit’ amar devemos em nossas voontades
a senhor que coitas nos tolh’ e tempestades.
84
Cantigas de Santa Maria 37
«Miragres fremosos»
(E 37, T 37, U 39)
Esta é como Santa Maria fez cobrar seu pee ao home que o talhara com coita de door.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
42
Miragres fremosos
faz por nós Santa Maria, e maravilhosos.
Fremosos miragres faz, que em Deus creamos,
e maravilhosos, porque o mais temamos;
porend’ um daquestes é bem que vos digamos,
dos mais piadosos.
[Refrão = vv. 1-2]
Est’ avo na terra que chamam Berria,
dum home coitado a que o pé ardia,
e na sa eigreja ant’ o altar jazia
ent[r]’ outros coitosos.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquel mal do fogo atanto o coitava
que, com coita dele, o pé talhar mandava;
e depois eno conto dos çopos ficava,
desses mais astrosos;
[Refrão = vv. 1-2]
pero, com tod’ esto, sempr’ ele confiando
em Santa Maria, e mercee chamando
que dos seus miragres em el fosse mostrando,
nom dos vagarosos,
[Refrão = vv. 1-2]
e dizendo: “– Ai Virgem, tu que és escudo
sempre dos coitados, queras que acorrudo
seja per ti; se nom, serei hoimais tudo
por dos mais nojosos”.
[Refrão = vv. 1-2]
Logo a Santa Virgem a el em dormindo
per aquel pé a mão indo e vĩindo
trouxe muitas vezes, e de carne comprindo
com dedos nerviosos.
[Refrão = vv. 1-2]
E, quando s’ espertou, sentiu-se mui bem são,
e catou o pé; e, pois foi del bem certão,
nom semelhou log’, andando per esse chão,
dos mais preguiçosos.
85
R7 43-44
VIII
46
48
R8
50
[Refrão = vv. 1-2]
Quantos aquest’ oírom, log’ ali verom
e aa Virgem santa graças ende derom,
e os seus miragres entr’ os outros teverom
por mais groriosos.
Miragres fremosos
faz por nós Santa Maria, e maravilhosos.
* * *
86
Cantigas de Santa Maria 38
«Pois que Deus quis da Virgem filho»
(E 38, T 38, U 41)
Esta é de como a omagem de Santa Maria tendeu o braço e tomou o de seu filho, que queria
caer da pedrada que lhe dera o tafur, de que saiu sangue.
R0
2
4
I
6
8
10
12
R1 13-16
II
18
20
22
24
R2 25-28
III
30
32
34
36
R3 37-40
IV
42
44
46
48
R4 49-52
Pois que Deus quis da Virgem filho
seer por nós pecadores salvar,
porende nom me maravilho
se lhe pesa de quem lhe faz pesar.
Ca ela e seu filho som juntados
d’ amor, que partidos per rem nunca podem seer;
e porém som mui nêicios provados
os que contra ela vam, nom cuidand’ i El tanger.
Esto fazem os malfadados
que est’ amor nom querem entender:
como madr’ e filh’ acordados
som em fazer bem, e mal castigar.
[Refrão = vv. 1-2]
Daquest’ avo, tempos som passados
grandes, que o conde de Peiteus quis batalh’ haver
com rei de Franç’; e forom assũados
em Castro Radolfo, per com’ eu oí retraer,
um mõesteiro d’ ordinhados
monges que ’l-conde mandou desfazer,
porque os houv’ el sospeitados
que a franceses o queriam dar.
[Refrão = vv. 1-2]
Poi-los monges forom ende tirados,
mui maas companhas se forom tantost’ i meter:
ribaldos e jogadores de dados
e outros que lhes tragiam i vinho a vender;
e, ontr’ os malaventurados,
houv’ i um que começou a perder,
per que forom del dostados
os santos e a reinha sem par.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas ũa molher, que por seus pecados
entrara na eigreja, como sol acaecer,
bem u soíam vesti-los sagrados
panos os monges quando iam sas missas dizer,
porque viu i bem entalhados
em pedra Deus com sa madre seer,
os golhos logo ficados
houv’ ant’ eles, e filhou-s’ a culpar.
[Refrão = vv. 1-2]
87
V
54
56
58
60
R5 61-64
VI
66
68
70
72
R6 73-76
VII
78
80
82
84
R7 85-88
VIII
90
92
94
96
R8 97-100
IX
102
104
106
108
R9 109-112
X
114
116
O tafur, quand’ esto viu, com irados
olhos a catou, e começou-a mal a trager
dizendo: “– Velha, som muit’ enganados
os que nas omages de pedra querem creer;
e, porque vejas com’ errados
som, quer’ eu ora logo cometer
aqueles ídolos pintados”.
E foi-lhes log’ ũa pedra lançar;
[Refrão = vv. 1-2]
e deu no filho, que ambos alçados
tĩía seus braços em maneira de beizer;
e, macar nom lhos houv’ ambos britados,
britou-lh’ end’ um, assi que lh’ houvera log’ a caer;
mas sa madre os seus deitados
houve sobr’ El, com que lho foi erger,
e a fror que com apertados
seus dedos tinha foi logo deitar.
[Refrão = vv. 1-2]
Maiores miragres houv’ i mostrados
Deus: que sángui craro fez dessa ferida correr
do meninho, e os panos dourados
que tĩía a madre, fez bem so as tetas decer,
assi que todos desnuados
os peitos lh’ houverom de parecer;
e, macar nom dava braados,
o contenente parou de chorar.
[Refrão = vv. 1-2]
E, demais, houve os olhos tornados
tam bravos que quantos a soíam ante veer,
atám muit’ eram dela espantados
que sol ena face nom lh’ ousavam mentes ter.
E demões log’ assembrados
contra o que esto fora fazer,
come monteiros bem mandados
o forom logo tantoste matar.
[Refrão = vv. 1-2]
Outros dous tafures demoniados
houv’ i, porque foram aquel tafur mort’ asconder;
porém sas carnes os endiabrados
com gram rávia as começarom todas de roer;
e pois no rio afogados
forom, ca o demo nom lhes lezer
deu, que todos escarmentados
fossem quantos dest’ oíssem falar.
[Refrão = vv. 1-2]
O conde, quando’ est’ oiu, com armados
cavaleiros vo, e ant’ a eigreja decer
foi; e um daqueles mais arrufados
diss’ assi: “– No meu coraçom nom pod’ esto caber,
se a pedra que me furados
88
118
120
R10 121-124
XI
126
128
130
132
R11
134
136
os queixos houv’, e mi_a vedes trager,
e por que dinheiros pagados
hôuvi muitos, se me nom quer sãar”.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois esto disse, pernas e costados
e a cabeça foi log’ ant’ a omagem merger,
e log’ os ossos forom bem soldados,
e a pedra houv’ ele pela boca de render.
Desto forom maravilhados
todos, e el foi a pedra põer,
estand’ i homees honrados,
ant’ a omagem sobe-lo altar.
Pois que Deus quis da Virgem filho
seer por nós pecadores salvar,
porende nom me maravilho
se lhe pesa de quem lhe faz pesar.
* * *
89
Cantigas de Santa Maria 39
«Torto seria grand’ e desmesura»
(E 39, T 39, U 43)
Esta é como Santa Maria guardou a sa omagem, que a nom queimass’ o fogo.
R0
2
I
4
6
Torto seria grand’ e desmesura
de prender mal da Virgem sa figura.
Ond’ avo em Sam Miguel de Tomba,
no mõesteiro (que jaz sobre lomba
dũa gram pena que jaquant’ é comba),
em que corisco feriu noit’ escura.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Toda a noite ardeu a perfia
ali o fog’, e queimou quant’ havia
na eigreja, mas nom foi u siía
a omagem da que foi Virgem pura.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, comoquer que o fogo queimasse
enredor da omagem quant’ achasse,
Santa Maria nom quis que chegasse
o fum’ a ela, ne-na caentura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Assi guardou a reinha do ceo
a sa omagem que nem sol o veo
tangeu o fogo, come o hebre’ o
guardou no forno com sa vestidura.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Assi lhe foi o fog’ obediente
a Santa Maria que sol niente
nom tangeu sa omagem veramente,
ca de seu filh’ el era creatura.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Daquesto forom mui maravilhados
quantos das terras i forom juntados,
que solament’ os fios defumados
nom virom do veo, ne-na pintura
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
da omagem nem ar foi afumada,
ante semelhava que mui lavada
fora bem toda com água rosada:
assi cheirava com sa cobertura.
44
Torto seria grand’ e desmesura
de prender mal da Virgem sa figura.
40
R7
* * *
90
Cantigas de Santa Maria 40
«Deus te salve, groriosa»
(E 40, U 30, Be 467)
Esta é de loor de Santa Maria, das maravilhas que Deus fez por ela.
R0
2
4
I
6
8
10
12
R1
14
16
II
18
20
22
24
R2
26
28
III
30
32
34
36
R3
38
40
IV
42
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que concebiste
mui contra natura,
e, pois, teu padre pariste
e ficaste pura
virgem, e porém sobiste
sobe-la altura
dos ceos, porque quisiste
o que El queria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que enchoíste
Deus gram sem mesura
em ti, e dele feziste
hom’ e creatura:
esto foi porque houviste
gram sém e cordura
em creer quando oíste
sa messageria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca nos diste
em nossa figura
o seu Filho, que trouxiste,
de gram fremosura,
e com El nos remiíste
da mui gram loucura
que fez Eva, e venciste
o que nos vencia.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca tolhiste
de nós gram tristura
u por teu filho frangiste
91
44
46
48
R4
50
52
a cárcer escura
u íamos, e metiste
nós em gram folgura;
com quanto bem nos vĩíste,
que-no contaria?
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
* * *
92
Cantigas de Santa Maria 41
«A Virgem, madre de Nostro Senhor»
(E 41, T 41, U 44)
Esta é como Santa Maria guareceu o que era sandeu.
R0
2
4
I
R
6
R
8
10
12
A Virgem, madre de Nostro Senhor,
bem pode dar seu siso
ao sandeu, pois ao pecador
faz haver paraíso.
Em Seixons fez a Garim, cambiador,
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
que tant’ houve de o tirar sabor
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
do poder do demo, ca de pavor
del perdera o siso;
mas ela tolheu-lh’ aquesta door
e deu-lhe paraíso.
R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4]
II
R
18
R
20
22
24
Gram bem lhe fez em est’ e grand’ amor
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
que o livrou do dem’ enganador,
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
que o filhara come traedor
e tolhera-lh’ o siso;
mas cobrou-lho ela, e por melhor
ar deu-lhe paraíso.
R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4]
III
R
30
R
32
34
36
R3
38
40
Loada será mentr’ o mundo for
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
de poder, de bondad’ e de valor,
a Virgem, madre de Nostro Senhor,
porque a sa mercee_é mui maior
ca o nosso mal siso,
e sempre a seu filh’ é rogador
que nos dé paraíso.
A Virgem, madre de Nostro Senhor,
bem pode dar seu siso
ao sandeu, pois ao pecador
faz haver paraíso.
* * *
93
Cantigas de Santa Maria 42
«A Virgem mui groriosa»
(E 42, T 42, U 57)
Esta é de como o crerizom meteu o anel eno dedo da omagem de Santa Maria, e a omagem
encolheu o dedo com el.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
A Virgem mui groriosa,
reinha espirital,
dos que ama é ceosa,
ca nom quer que façam mal.
Dest’ um miragre fremoso | (ond’ haveredes sabor)
vos direi, que fez a Virgem, | madre de Nostro Senhor,
per que tirou de gram falha | a um mui fals’ amador,
que amiúde cambiava | seus amores dum em al.
[Refrão = vv. 1-4]
Foi em terra d’ Alemanha | que queriam renovar
ũas gentes sa eigreja, | e porém foram tirar
a majestad’ ende fora, | que estava no altar,
e posero-na na porta | da praça, so o portal.
[Refrão = vv. 1-4]
Em aquela praç’ havia | um prado mui verd’ assaz,
em que as gentes da terra | iam ter seu solaz
e jogavam a pelota, | que é jogo de que praz
muit’ a homes mancebos | mais que outro jog’ atal.
[Refrão = vv. 1-4]
Sobr’ aquest’ ũa vegada | chegou i um gram tropel
de mancebos por jogarem | a pelot’, e um donzel
andava i namorado, | e tragia seu anel
que sa amiga lhe dera, | que end’ era natural.
[Refrão = vv. 1-4]
Este donzel, com gram medo | de xe lh’ o anel torcer
quando feriss’ a pelota, | foi buscar u o põer
podess’; e viu a omage | tam fremosa parecer,
e foi-lho meter no dedo, | dizend’: “– Hoimais nom m’ enchal
[Refrão = vv. 1-4]
daquela que eu amava, | ca eu be-no jur’ a Deus
que nunca tam bela cousa | virom estes olhos meus;
porém daqui adeante | serei eu dos servos teus,
e est’ anel tam fremoso | ti dou porend’ em sinal”.
[Refrão = vv. 1-4]
E, os golhos ficados | ant’ ela com devoçom,
94
54
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
dizendo avemaria, | prometeu-lhe log’ entom
que des ali adelante | nunca no seu coraçom
outra molher bem quisesse | e que lhe fosse leal.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois feit’ houve sa promessa, | o donzel logo s’ ergeu,
e a omagem o dedo | co-no anel encolheu;
e el, quando viu aquesto, | tam gram pavor lhe creceu
que diss’ a mui grandes vozes: | “– Ai Santa Maria, val!”
[Refrão = vv. 1-4]
As gentes, quand’ est’ oírom, | correndo chegarom i
u o donzel braadava, | e el contou-lhes des i
como vos já dit’ havemos; | e conselharom-lh’ assi:
que ordem logo filhasse | de monges de Claraval.
[Refrão = vv. 1-4]
Que o fezesse cuidarom | logo todos dessa vez;
mas, per conselho do demo, | ele doutra guisa fez,
que o que el prometera | aa Virgem de gram prez,
assi lho desfez da mente | como desfaz água sal.
[Refrão = vv. 1-4]
E da Virgem groriosa | nunca depois se nembrou,
mas da amiga primeira | outra vez se namorou,
e per prazer dos parentes | logo com ela casou,
e sabor do outro mundo | leixou polo terral.
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-las vodas forom feitas |
deitou-s’ o nóvio primeiro |
e el, dormindo, em sonhos |
que o chamou mui sanhuda:
e o dia se saiu,
e tantoste s’ adormiu;
a Santa Maria viu,
| “– Ai meu fals’ e mentiral!,
[Refrão = vv. 1-4]
de mi porque te partiste | e fuste filhar molher?:
mal te nembrou a sortelha | que me dést’; ond’ há mester
que a leixes e te vaas | comigo a comoquer,
se nom, daqui adeante | haverás coita mortal”.
[Refrão = vv. 1-4]
Logo s’ espertou o nóvio, | mas pero nom se quis ir;
e a Virgem groriosa | fez-lo outra vez dormir,
que viu jazer ontr’ a nóvia | e si pera os partir,
chamand’ a el mui sanhuda: | “– Mao, falso, desleal,
[Refrão = vv. 1-4]
vês?: e por que me leixaste | e sol vergonha nom hás?;
mas se tu meu amor queres, | daqui te levantarás,
e vai-te comigo logo, | que nom esperes a crás;
erge-te daqui correndo | e sal desta casa, sal!”
[Refrão = vv. 1-4]
95
XVI
126
128
R16 129-132
XVII
134
136
R17
138
140
Entom s’ espertou o nóvio, | e desto tal medo prês
que s’ ergeu e foi sa via, | que nom chamou dous nem três
homes que com el fossem; | e per montes mais dum mês
andou, e em ũ’ ermida | se meteu cab’ um pinhal,
[Refrão = vv. 1-4]
u pois em toda sa vida, | per com’ eu escrit’ achei,
serviu a Santa Maria, | madre do muit’ alto rei,
que o levou pois consigo | per com’ eu creo e sei,
deste mund’ a paraíso, | o reino celestial.
A Virgem mui groriosa,
reinha espirital,
dos que ama é ceosa,
ca nom quer que façam mal.
* * *
96
Cantigas de Santa Maria 43
«Porque é Santa Maria leal e mui verdadeira»
(E 43, T 43, U 56)
Esta é como Santa Maria ressucitou um meninho na sa eigreja de Salas.
R0
2
I
4
6
Porque é Santa Maria | leal e mui verdadeira,
porém muito lh’ avorrece | da paravla mentireira.
E porend’ um home bõo | que em Darouca morava,
de sa molher, que havia | bõa e que muit’ amava,
nom podia haver filhos, | e porende se queixava
muit’ end’ el; mas disse-lh’ ela: | “– Eu vos porrei em carreira
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
com’ hajamos algum filho, | ca, se nom, eu morreria;
porém dou-vos por conselho | que log’ a Santa Maria
de Salas ambos vaamos, | ca quem se em ela fia,
o que pedir dar-lh’-á logo, | aquest’ é cousa certeira”.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Muit’ ém proug’ ao marido, | e tantoste se guisarom
de fazer sa romaria, | e em seu caminh’ entrarom.
E, pois forom na eigreja, | Santa Maria rogarom
que podessem haver filho | ontr’ el e sa companheira.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E a molher fez promessa | que, se ela filh’ houvesse,
que com seu peso de cera | a um ano lho trouxesse,
e por seu servidor sempre | na sa eigreja o désse;
e que aquesto comprisse | entrou-lh’ ende por maneira.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois aquesto dit’ houve, | ambos fezerom tornada
a Darouca, u moravam; | mas nom houv’ i gram tardada
que log’ a poucos de dias | ela se sentiu prenhada,
e a seu temp’ houve filho | fremoso de gram maneira.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Des que lhe naceu o filho, | em logar que adianos
déss’ end’ a Santa Maria | teve-o grandes set’ anos
que lhe nom vo emente | nem da cera nem dos panos
com que o levar devera, | e cuidou seer arteira.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ca u quis tê-lo filho | e a cera que tĩinha,
deu féver ao meninho | e mato’-o muit’ aginha,
que lhe nunca prestar pôde | física nem meezinha;
mas gram chanto fê-la madre | pois se viu dele senlheira.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
97
VIII
46
48
Que o soterrassem logo | o marido bem quisera;
ma-la madre do meninho | disse com gram coita fera
que el’ a Santa Maria | o daria, que lho dera,
com sa cera como lh’ ela | prometera da primeira.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E logo em outro dia | entrarom em seu caminho,
e a madr’ em ataúde | levou sig’ aquel meninho;
e forom em quatro dias, | e ant’ o altar festinho
o pôs, fazendo gram chanto, | depenando sa moleira
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e dizend’ a grandes vozes: | “– A ti venho, groriosa,
com meu filh’ e co-na cera, | de que te fui mentirosa
em cho dar quand’ era vivo; | mas, porque és piadosa,
o adug’ ante ti morto, | e dous dias há que cheira;
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
mas se mi_o tu dar quisesses | (nom porque seja dereito
mas porque sabes mià coita) | e nom catasses despeito
de como fui mentirosa, | mas quisesses meu proveito
e nom quisesses que fosse | nojosa e mui parleira!”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Toda a noit’ a mesquinha | estev’ assi braadando
ant’ o altar em golhos, | Santa Maria chamando
que s’ amercasse dela | e seu filho lh’ enmentando,
a quem polas nossas coitas | roga sempr’ e é vozeira.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Mas, que fez Santa Maria, | a senhor de gram vertude,
que dá aos mortos vida | e a enfermos saúde?
Logo fez que o meninho | chorou eno ataúde,
u jazia muit’ envolto | em panos dũa liteira.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Quando o padr’ e a madre, | que faziam muit’ esquivo
doo por seu filho, virom | que o meninh’ era vivo,
britarom o ataúde | u jazia o cativo.
Entom vo i mais gente | que nom vem a ũa feira,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
90
por veer o gram miragre | que a Virgem demostrara:
de como aquel meninho | de morte ressucitara,
que, a cabo de seis dias, | jazendo morto, chorara
por prazer da groriosa, | santa e dereitureira.
92
Porque é Santa Maria | leal e mui verdadeira,
porém muito lh’ avorrece | da paravla mentireira.
88
R15
* * *
98
Cantigas de Santa Maria 44
«Quem fiar na madre do salvador»
(E 44, T 44, U 58)
Esta é de como o cavaleiro que perdera seu açor, foi-o pedir a Santa Maria de Salas, e, estando na eigreja, po[u]sou-lhe na mão.
R0
2
I
4
6
R1
Quem fiar na madre do salvador
nom perderá rem de quanto seu for.
Quem fiar em ela de coraçom,
averrá-lhe com’ a um ifançom
avo eno reino d’ Aragom,
que perdeu a caça um seu açor,
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
que grand’ e mui fremos’ era, e rem
nom achava que nom filhasse bem
de qual prijom açor filhar convém,
d’ ave pequena tro ena maior.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E daquest’ o ifançom gram pesar
havia de que o nom pôd’ achar,
e porende o fez apregõar
pela terra toda em derredor.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E, pois que por esto no-no achou,
pera Salas seu caminho filhou,
e de cera semelhança levou
de sa av’, e diss’ assi: “– Ai senhor
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Santa Maria, eu venho a ti
com coita de meu açor que perdi,
que mi_o cobres; e tu fá-lo assi,
e haver-m’-ás sempre por servidor.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E, demais, esta cera ti darei
em sa figura, e sempr’ andarei
pregõando teu nome e direi
como dos santos tu é-la melhor”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Pois esto disse, missa foi oir
mui cantada; mas ante que partir
s’ ém quisesse, fez-lh’ o açor vĩir
99
42
Santa Maria, ond’ houv’ el sabor.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
E, que houvess’ end’ el maior prazer,
fez-lh’ o açor ena mão decer,
come se houvesse log’ a prender
caça com el como faz caçador.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E el entom muit’ a madre de Deus
loou, e chorando dos olhos seus,
dizend’: “– Ai senhor, tantos som os teus
bes que fazes a quem hás amor!”
56
Quem fiar na madre do salvador
nom perderá rem de quanto seu for.
52
R9
* * *
100
Cantigas de Santa Maria 45
«A Virgem Santa Maria tant’ é de gram piedade»
(E 45, T 45, U 83)
Esta é como Santa Maria gãou de seu filho que fosse salvo o cavaleiro malfeitor que cuidou
de fazer um mõesteiro e morreu ante que o fezesse.
R0
2
I
4
6
A Virgem Santa Maria | tant’ é de gram piedade
que ao pecador colhe | por feito a voontade.
E desta guisa avo | pouc’ há a um cavaleiro
fidalg’ e rico sobejo, | mas era brav’ e terreiro,
sobervios’ e malcreente, | que sol por Deus um dinheiro
nom dava, nem polos santos, | esto sabed’ em verdade.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aqueste, de fazer dano, | sempre s’ ende trabalhava,
e a todos seus vezinhos | feria e dostava;
sem esto, os mõesteiros | e as igrejas britava,
que vergonha nom havia | do prior nem do abade.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E todo seu cuidad’ era | de destroí-los mesquinhos
e de roubar os que iam | seguros pelos caminhos,
e per rem nom perdõav’ a | molheres nem a meninhos,
que s’ em todo nom metesse | por de mui gram crueldade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, esta vida fazendo, | tam brava e tam esquiva,
um dia meteu bem mentes | como sa alma cativa
era cha de pecados | e mui mais morta ca viva,
se mercee nom lh’ houvesse | a comprida de bondade.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, porque sempre os bõos | lhe davam mui gram fazfeiro
do muito mal que fazia, | pensou que um mõesteiro
faria com bõa claustra, | igreja e cimiteiro,
estar e enfermaria, | e todo em sa herdade.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, des i, ar cuidou logo | de meter i gram convento
de monges, se el podesse, | ou cinquaenta ou cento;
e per que mui bem vivessem | lhes daria comprimento,
e que, por Santa Maria | servir, seria i frade.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Tod’ aquesto foi cuidando | mentre siía comendo;
e, pois lh’ alçarom a mesa, | foi catar logo correndo
logar em que o fezesse, | e acho’-o, com’ aprendo,
40
101
42
muit’ apost’ e mui viçoso, | u compriss’ a caridade.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Em este cuidad’ estando, | muit’ aficad’ e mui forte,
ante que o começasse, | door o chegou a morte;
e os demões a alma | filharom del em sa sorte;
mai-los ángeos chegarom | dizendo: “– Estad’, estade!;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca nom quer Santa Maria | que a vós assi levedes”.
E disserom os diabos: | “– Mas vós, que razom havedes
d’ havê-la?: ca sempr’ est’ home | fezo mal, como sabedes,
por que est’ alma é nossa, | e alhur outra buscade”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Os ángeos responderom: | “– Mas vós folia fezestes
em filhardes aquest’ alma: | mao conselh’ i houvestes,
e mui mal vos acharedes | de quanto a já tevestes;
mas tornad’ a vosso fogo, | e nossa alma leixade”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Os diabos ar disserom: |
ca Deus é mui justiceiro,
que esta alma fez obras |
toda bem enteiramente, |
64
66
“– Esto per rem nom faremos,
| e por esto bem sabemos
por que a haver devemos
sem terç’ e sem meadade”.
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E um dos ángeos disse: | “– O que vos dig’ entendede:
eu sobirei ao ceo, | e vós aqui mi_atendede,
e o que Deus mandar desto, | vós entom esso fazede;
e hoimais nom vos movades | nem faledes, mais calade”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Depos aquestas palavras | o ángeo logo s’ ia
e contou aqueste feito | mui tost’ a Santa Maria;
ela log’ a Jesu-Cristo | aquela alma pidia,
dizend’: “– Ai meu filho santo, | aquesta alma me dade”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E ele lhe respondia: | “– Mià madr’, o que vós quiserdes
hei eu de fazer sem falha, | pois vós ém sabor houverdes;
mais torn’ a alma no corpo, | se o vós por bem teverdes,
e faça o mõesteiro, | u viva em homildade”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E, pois Deus est’ houve dito, | um pano branco tomava,
feito bem come cogula, | que ao ángeo dava,
e sobe-la alma logo | o pano deitar mandava,
porque a leixass’ o demo, | comprido de falsidade.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Tornou-s’ o ángeo logo; | e atantoste que virom
os diabos a cogula, | todos ant’ ela fugirom;
94
102
96
e os ángeos correndo | pos eles mal os ferirom,
dizendo: “– Assi perdestes | o ceo per neicidade”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Pois que s’ assi os diabos | forom dali escarnidos
e maltreitos feramente, | dostados e feridos,
forom pera seu iferno, | dando grandes apelidos,
dizendo aos diabos: | “– Varões, oviad’, oviade”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
108
Os ángeos depos esto | aquela alma filharom,
e cantando «Surgat Deus» | eno corpo a tornarom
daquel cavaleiro morto, | e vivo o levantarom;
e fezo seu mõesteiro, | u viveu em castidade.
110
A Virgem Santa Maria | tant’ é de gram piadade
que ao pecador colhe | por feito a voontade.
R18
* * *
103
Cantigas de Santa Maria 46
«Porque hajam de seer»
(E 46, T 46, U 59)
Esta é como a omagem de Santa Maria, que um mouro guardava em sa casa honradamente,
deitou leite das tetas.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Porque hajam de seer
seus miragres mais sabudos
da Virgem, deles fazer
vai ant’ homes descreúdos.
E dest’ avo assi
como vos quero contar
dum mouro, com’ aprendi,
que com host’ em Ultramar
grande foi, segund’ oí,
por crischãos guerrejar
e roubar,
que nom eram percebudos.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
Aquel mouro astragou
as terras u pôd’ entrar,
e, todo quanto ro[u]bou,
feze-o sigo levar;
e mui ledo se tornou
a sa terra, e juntar
foi e dar
os roubos que houv’ havudos.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
Daquel haver que partiu
foi ém pera si filhar
ũa omagem que viu
da Virgem, que nom há par;
e, poi-la muito cousiu,
feze-a logo alçar
e guardar
em panos d’ ouro teçudos.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
E ameúde veer
a ia muit’ e catar;
pois, filhava-s’ a dizer
ontre si e rezõar
que nom podia creer
que Deus quisess’ encarnar
nem tomar
carn’ em molher. “– E perdudos
42
44
46
48
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
104
V
54
56
58
60
som quanto-lo creer vam”
–diss’ el–, “ca nom poss’ osmar
que quisesse tal afám
prender Deus nem s’ abaixar,
que El, que éste tam gram,
se foss’ em corp’ enserrar
nem andar
ontre póboos miúdos,
R5 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VI
como dizem que andou
pera o mundo salvar;
mas, se de quant’ El mostrou
foss’ a mi quequer mostrar,
faria-me logo sou
crischão, sem detardar,
e crismar
com estes mouros barvudos”.
66
68
70
72
R6 73-76
[Refrão = vv. 1-4]
VII
Adur pôd’ esta razom
toda o mour’ encimar,
quand’ à omagem entom
viu duas tetas a par,
de viva carn’ e dal nom,
que forom logo mãar
e deitar
leite come per canudos.
78
80
82
84
R7 85-88
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
Quand’ esto viu, sem mentir,
começou muit’ a chorar,
e um crérigo vĩir
fez, que o foi batiçar;
e, pois desto, sem falir,
os seus, crischãos tornar
fez, e ar
outros bes conhoçudos.
90
92
94
96
R8
98
100
Porque hajam de seer
seus miragres mais sabudos
da Virgem, deles fazer
vai ant’ homes descreúdos.
* * *
105
Cantigas de Santa Maria 47
«Virgem Santa Maria»
(E 47, T 47, U 61)
Esta é como Santa Maria guardou o monge que o demo quis espantar po-lo fazer perder.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Virgem Santa Maria,
guarda-nos, se te praz,
da gram sabedoria
que eno demo jaz.
Ca ele noit’ e dia | punha de nos meter
per que façamos erro | por que a Deus perder
hajamo-, lo teu filho | (que quis por nós sofrer
na cruz paxom e morte, | que houvéssemos paz).
[Refrão = vv. 1-4]
E desto, meus amigos, | vos quer’ ora contar
um miragre fremoso, | de que fiz meu cantar,
como Santa Maria | foi um monge guardar
da tentaçom do demo | (a que do bem despraz).
[Refrão = vv. 1-4]
Este mong’ ordinhado | era, segund’ oí,
muit’, e mui bem sa ordem | tinha, com’ aprendi;
mas o demo arteiro | o contorvou assi
que o fez na adega | bever do vinh’ assaz.
[Refrão = vv. 1-4]
Pero bêved’ estava | muit’, o monge quis-s’ ir
dereit’ aa eigreja; | mas o dem’ assair
em figura de touro | o foi, po-lo ferir
com seus cornos merjudos, | bem como touro faz.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ esto viu o monge, | feramém s’ espantou,
e a Santa Maria | mui de rijo chamou,
que lh’ apareceu log’ e | o tour’ amaçou,
dizendo: “– Vai ta via!: | muit’ és de mal solaz”.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois, em figura d’ home | pareceu-lh’ outra vez,
long’ e magr’ e veloso | e negro come pez;
mas acorreu-lhe logo | a Virgem de bom prez,
dizendo: “– Fuge, mao, | mui peor que rapaz!”.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois entrou na eigreja, | ar pareceu-lh’ entom
o demo em figura | de mui bravo leom;
106
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8
66
68
mas a Virgem mui santa | deu-lhe com um bastom,
dizendo: “– Tol-t’, astroso, | e logo te desfaz”.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois que Santa Maria | o seu mong’ acorreu
como vos hei já dito, | e lh’ o medo tolheu
do demo e do vinho, | com que era sandeu,
disse-lh’: “– Hoimais te guarda | e nom sejas malvaz”.
Virgem Santa Maria,
guarda-nos, se te praz,
da gram sabedoria
que eno demo jaz.
* * *
107
Cantigas de Santa Maria 48
«Tanto som da groriosa seus feitos mui piadosos»
(E 48, T 48, U 62)
Esta é como Santa Maria tolheu a água da fonte ao cavaleiro em cuja herdade estava, e a
deu aos frades de Monsarrat, a que a el queria vender.
R0
2
I
4
6
Tanto som da groriosa | seus feitos mui piadosos
que filh’ aos que ham muito | e dá aos menguadosos.
E daquest’ um gram miragre | fez pouc’ há em Catalonha
a Virgem Santa Maria | (que com Jesu-Cristo ponha
que no dia do joízo | possamos ir sem vergonha
ant’ El, e que nom vaamos | u irám os soberviosos).
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
«Monsarrat» éste chamado | o logar u é a fonte
saborosa, grand’ e crara, | que nac’ encima dum monte,
que era dum cavaleiro; | e doutra parte, de fronte,
havia um mõesteiro | de monges religiosos.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Mas em aquel mõesteiro | ponto d’ água nom havia
senom quant’ o cavaleiro | da fonte lhes dar queria,
por que os monges lhe davam | sa renda da abadia;
e, quando lha nom compriam, | eram dela perdidosos.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E, demais, sobre tod’ esto, | el assi os penhorava
que, quantoquer que achasse | do mõesteiro, filhava;
e porend’ aquel convento | em tam gram coita estava
que nom cantavam as horas | e andavam mui chorosos.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Os monges, porque sentiam | a sa casa mui menguada,
entre si acord’ houverom | de lhe nom darem ém nada,
ca tĩíam por sobêrvia | de bever água comprada;
porém todos na eigreja | entrarom muit’ homildosos,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
dizend’: “– Ai Santa Maria, | a nossa coita veede,
e com Deus, o vosso filho, | que todo pode, põede
que nos dé algum conselho, | que nom moiramos de sede,
veend’ água co-nos olhos | e seer ém desejosos”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Pois sa oraçom fezerom, | a senhor de piadade
fez que se cambiou a fonte | bem dentro na sa herdade
dos monges, que ant’ haviam | da água gram soidade,
e des ali adeante | forom dela avondosos.
108
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Pois que viu o cavaleiro
por prazer da groriosa, |
deu a herdad’ u estava |
a águ’, àquele convento,
50
Tanto som da groriosa | seus feitos mui piadosos
que filh’ aos que ham muito | e dá aos menguadosos.
46
R8
| que sa font’ assi perdera
que lha aposto tolhera,
a fonte ond’ el vendera
| onde pois forom viçosos.
* * *
109
Cantigas de Santa Maria 49
«Bem com’ aos que vam per mar»
(E 49, T 49, U 63)
Esta é de como Santa Maria guiou os romeus que iam a sa eigreja a Seixom e erraram o
caminho de noite.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Bem com’ aos que vam per mar
a estrela guia,
outrossi aos seus guiar
vai Santa Maria.
Ca ela nos vai demostrar
de como nos guardemos
do demo e de mal obrar,
e em como gãemos
o seu reino, que nom há par,
que nós já perdemos
per don’ Eva, que foi errar
per sa gram folia.
R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4]
II
18
20
22
24
E ar acorre-nos aqui
enas mui grandes coitas,
segund’ eu sei bem e oí,
quaes havemos doitas;
ca muitos homes eu vi
e molheres moitas
a que el’ acorreu assi
de noit’ e de dia.
R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4]
III
30
32
34
36
E, segund’ eu oí dizer,
ũa mui gram companha
de romeus ar foi guarecer
em ũa gram montanha,
em que s’ houveram de perder
com coita estranha,
porque lhes foi escurecer
e perderom via.
R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4]
IV
42
44
46
48
E, sem aquest’, um med’ atal
enos seus corações
haviam mui fero mortal:
ca andavam ladrões
per i fazendo muito mal;
porend’ orações
fezerom todos i, sem al,
quis como sabia,
R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4]
110
V
54
56
58
60
e chamand’ a madre de Deus,
com’ é nosso costume,
que dos graves pecados seus
perdess’ ela queixume;
e logo aqueles romeus
virom mui gram lume
e disserom: “– Ai senhor, teus
somos todavia”.
R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4]
VI
66
68
70
72
E em aquel gram lum’ entom
virom ũa mui bela
molher, de corp’ e de faiçom,
e bem come donzela
lhes pareceu; e, pero nom
siía em sela,
mas tinha na mã’ um bastom
que resprandecia.
R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4]
VII
78
80
82
84
R7
86
88
E, poi-la donzela chegou,
todas essas montanhas
do seu gram lum’ alumou,
e logo as companhas
dereito a Seixom levou
e per muit’ estranhas
terras em salvo os guiou
como quem podia.
Bem com’ aos que vam per mar
a estrela guia,
outrossi aos seus guiar
vai Santa Maria.
* * *
111
Cantigas de Santa Maria 50
«Nom deve nulh’ home desto per rem dultar»
(E 50, T 50, U 60)
Esta é de loor de Santa Maria, que mostra por que razom encarno[u] Nostro Senhor em ela.
R0
2
I
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
6
E dultar nom deve por quanto vos direi:
porque, se nom foss’ esto, nom víramos rei
que corpos e almas nos julgass’, eu o sei,
como Jesu-Cristo nos verrá joigar.
8
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
4
R1
II
12
Nem doutra maneira nós nom víramos Deus,
nem amor com doo nunca dos feitos seus
houvéramos se El nom foss’, amigos meus,
tal que nossos olhos o podessem catar.
14
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
10
R2
III
18
Ca Deus em si mesmo Ele míngua nom há,
nem fame nem sede nem frio nunca já,
nem door nem coita; pois quem se doerá
del, nem piadade haverá nem pesar?
20
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
16
R3
IV
24
E porém dos ceos quis em terra decer,
sem seer partido nem menguar seu poder;
e quis ena Virgem por nós carne prender,
e leixou-s’ em cima, demais, por nós matar.
26
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
22
R4
V
30
Onde come a Deus lhe devemos amor,
e come a padre e nosso criador,
e, come a home, del coita e door
havermos de quanto quis por nós endurar.
32
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
28
R5
VI
36
E a Santa Virgem, em que s’ El enserrou,
de que prendeu carne e por madre filhou,
muit’ amar devemos, ca per ela mostrou
todas estas cousas que vos fui já contar.
38
Nom deve nulh’ home desto per rem dultar:
que Deus ena Virgem vo carne filhar.
34
R6
* * *
112
Cantigas de Santa Maria 51
«A madre de Deus / devemos teer mui cara»
(E 51, T 51, U 64)
Esta é como a omagem de Santa Maria alçou o golho e recebeu o colbe da saeta por guardar o que estava pos ela.
R0
2
4
I
6
8
10
R1 11-14
II
16
18
20
R2 21-24
III
26
28
30
R3 31-34
IV
36
38
40
R4 41-44
V
46
48
50
A madre de Deus
devemos ter mui cara,
porque aos seus
sempre mui bem os ampara.
E desto vos contar quero | ũa mui gram demostrança
que mostrou Santa Maria | em terra d’ Orléns, em França,
al-com de Peiteus,
que um castelo cercara
e come judeus
a gent’ ém filhar cuidara.
[Refrão = vv. 1-4]
Este castel’ aquel conde | por al filhar nom queria
senom pola gram requeza | que eno logar havia;
porém gram poder
de gent’ ali assũara
com que combater
o fez, e que o tomara
[Refrão = vv. 1-4]
se nom foss’ os do castelo | que, pois se virom coitados,
que filharom a omagem, | por seer mais amparados,
da Virgem entom,
Santa Maria, que pára
mentes e que nom
os seus nunca desampara.
[Refrão = vv. 1-4]
E logo sobe-la porta | do castelo a poserom
e, aorando-a, muito | chorand’ assi lhe disserom:
“– Madre do senhor
do mund’, estrela mui crara,
sei defendedor
de nós, tu, altar e ara
[Refrão = vv. 1-4]
em que o corpo de Cristo | foi feito e consagrado;
e porende te rogamos | que daqueste cond’ irado
nos queras guardar,
e sei nossa acitara,
ca nos quer britar
com seus engenhos que pára”.
113
[Refrão = vv. 1-4]
R5 51-54
VI
56
58
60
Mantenente, dos de fora | vo log’ um baesteiro,
e diss’ a outro da vila, | que poseram por porteiro
(que, pera guarir,
da omagem s’ escudara),
que vess’ abrir
a porta que el serrara.
[Refrão = vv. 1-4]
R6 61-64
VII
66
68
70
O de dentro respôs logo | que nom faria ém nada;
e o de fora tantoste | houv’ a baesta armada
e tirou-lh’ assi
que, sem dulta, o chagara.
Mas, com’ aprendi,
um dos golhos alçara
[Refrão = vv. 1-4]
R7 71-74
VIII
76
78
80
a omagem atám alte | que chegou preto da teta,
por guardá-lo baesteiro, | e feriu-lhi a saeta.
E ar aprix al:
que o de dentro tirara
em maneira tal
que o de fora matara.
[Refrão = vv. 1-4]
R8 81-84
IX
86
88
90
Esta maravilha virom | os de dentr’ e os da hoste,
e outrossi fez el-conde; | e deceu a terra toste
dum cavalo seu
em que entom cavalgara,
e come romeu
aprix que dentro entrara.
R9 91-94
X
[Refrão = vv. 1-4]
E, os golhos ficados, | aorou a majestade,
muito dos olhos chorando, | conhocendo sa maldade;
e logo mandou
98
tornar quant’ ali filhara,
e sa host’ alçou
100
que sobr’ a vila deitara.
96
R10 101-104
XI
Desto a Santa Maria | todos loores lhe derom,
106 e punharom d’ a saeta | tirar, mas nunca poderom,
com’ escrit’ achei,
108
da perna u lha ficara
o que vos dit’ hei
110
baesteiro (que osmara
R11 111-114
XII
[Refrão = vv. 1-4]
[Refrão = vv. 1-4]
matá-lo outro de dentro | que a omagem guardava);
116 e porém Santa Maria | tam gram pesar ém mostrava
que nunca, per rem,
118
achei que depois tornara
a perna, mas tem114
120
R12
122
124
-na como quand’ a mudara.
A madre de Deus
devemos ter mui cara,
porque aos seus
sempre mui bem os ampara.
* * *
115
Cantigas de Santa Maria 52
«Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer»
(E 52, T 52, U 66)
Esta é como Santa Maria fez vĩir as cabras montesas a Monsarrat, e se leixavam ordenhar
aos monges cada dia.
R0
2
I
4
6
Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer
a Santa Maria, de que Deus quis nacer.
E dest’ um miragre, se Deus m’ ampar,
mui fremoso vos quer’ ora contar,
que quiso mui grand’ a groriosa mostrar;
oíde-mi_o, se ouçades prazer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Monsarrat (de que vos já contei)
há ũ’ igreja, per quant’ apres’ hei,
feita no nome da madre do alto rei
que quis por nós morte na cruz prender.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Aquel logar a pé dum mont’ está
em que muitas cabras montesas há;
ond’ estranha maravilha avo já:
ca forom todas bem juso decer
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
ant’ a eigreja (que ’m um vale jaz),
e ant’ a porta paravam-s’ em az,
e estavam i todas mui quedas em paz,
tá que os monge-las iam monger.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E quatr’ anos durou, segund’ oí,
que os monges houverom pera si
assaz de leite, que cada noite ali
vĩíam as cabras esto fazer,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
ates que um crerizom sandeu
furtou um cabrit’ ém e o comeu;
e das cabras depois assi lhes conteceu:
que nunca mai-las poderom haver.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
E desta guisa a madre de Deus
quis governar aqueles monges seus,
por que depois gram romaria de romeus
verom po-lo miragre saber.
Mui gram dereit’ é d’ as bêstias obedecer
a Santa Maria, de que Deus quis nacer.
* * *
116
Cantigas de Santa Maria 53
«Como pod’ a groriosa mui bem enfermos sãar»
(E 53, T 53, U 67)
Esta é como Santa Maria guareceu o moço pegureiro que levarom a Seixom, e lhe fez saber
o Testamento das Escrituras, macar nunca leera.
R0
2
I
4
6
Como pod’ a groriosa | mui bem enfermos sãar,
assi aos que nom sabem | pode todo saber dar.
E de tal já end’ avo | um miragre que dizer
vos quer’ ora, que a Virgem | quis grand’ em Seixom fazer,
dum meninho pegureiro, | a que os pees arder
começarom daquel fogo | que «salvag’» ouço chamar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Seu padre del era morto; | mas ũa pobre molher
sa madr’ era, que fiava | a lãa mui volonter,
per que s’ ambos governavam; | mas quem m’ ascoitar quiser,
direi-lh’ eu de com’ a Virgem | quis no meninho mostrar.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Aquel fog’ ao meninho | tam feramente coitou
que, a per poucas, dos pees | os dedos nom lhe queimou;
e a madre mui coitada | pera Seixom o levou
e, chorando mui de rijo, | o pôs bem ant’ o altar.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Tod’ essa noite vigia | tev’; e logo guareceu
o meninho, em tal guisa | que andou bem e correu;
des i, foi-se com sa madre; | mas atal amor colheu
daquel logar u sãara | que se quis log’ i tornar.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Depois, a cabo dum ano | lhe rogou que o ali
tornass’, e nom qui-la madre; | e ele lhe diss’ assi:
“– Se nom quiserdes, o fogo | sei eu que verrá a mi
e, que vos pês, m’ haveredes | eno col’ a soportar”.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Dizend’ aquest’ o meninho, | o fog’ em el salto deu,
e travou log’ em sa madre, | dizendo: “– Ai eu, ai eu!”.
E ela o em seu colo | filhou, com’ aprendi eu,
e a Seixom de caminho | começou toste d’ andar.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
E, pois entrou na eigreja, | ant’ o altar, sem falir,
o pôs; e log’ o meninho | se filhou bem a dormir,
e viu em vijom a madre | de Deus, que o foi guarir,
e seu filho Jes[u]-Cristo, | a que ela presentar
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
117
VIII
46
48
a alma em paraíso | foi dele. E alá viu
que a Virgem a seu filho | mercee por el pediu
e por todo-los da terra | de Seixom, e bem sentiu
que, por seu rogo, do fogo | os quis Deus todos livrar.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E oiu mais que a Virgem | diss’ a Deus esta razom:
“– Filho, esta mià capela, | que é tam pobr’, em Seixom,
fas tu que seja bem feita”. | E El lhe respôs entom:
“– Madr’, eu farei i as gentes | vĩir bem dalend’ o mar
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
e de muitas outras terras, | que darám haver assaz,
ca todo quanto demandas | e queres, todo me praz;
e que eu faça teu rogo, | aquest’ em dereito jaz,
ca filho, por bõa madre, | fazer dev’ o que mandar”.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
Quand’ esto viu o meninho | no ceo, foi-lhe tal bem
que, quant’ al depois viía, | sol no-no preçava rem;
ca o [E]spírito Santo | pôs em el atám gram sém
que as Escrituras soube, | e latim mui bem falar.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
E, quanto no Testamento | Vedro e no Novo sé
escrito, mui bem sabia, | e mui mais, per bõa fé;
e dizia aas gentes: | “– De Santa Maria é
prazer que esta igreja | façades mui bem obrar;
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
e, porque certos sejades | que tod’ est’ e mui mais sei,
mostrade-mi_as Escrituras, | ca eu as espranarei;
demais, d’ hoj’ a trinta dias | sabiades que morrerei,
ca a que me mostrou esto | me quer consigo levar”.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
Todos quantos est’ oírom | derom graças e loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor;
e acharom em verdade | quanto diss’ aquel pastor,
e começarom tantoste | na igreja de lavrar.
86
Como pod’ a groriosa | mui bem enfermos sãar,
assi aos que nom sabem | pode todo saber dar.
82
R14
* * *
118
Cantigas de Santa Maria 54
«Toda saúde, da santa reinha»
(E 54, T 54, U 69)
Esta é de como Santa Maria guariu com seu leite o monge doente que cuidavam que era
morto.
R0
2
I
4
6
Toda saúde, da santa reinha
vem, ca ela é nossa meezinha.
Ca, pero havemos enfermidades
que merecemos per nossas maldades,
atám muitas som as sas piedades
que sa vertude nos acorr’ aginha.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Dest’ um miragre me vo emente
que vos direi ora, ai bõa gente,
que fez a Virgem por um seu sergente,
monge branco, com’ estes da Espinha.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Est’ era sisudo e leterado
e homildoso e bem ordinhado,
e a Santa Maria todo dado,
sem tod’ orgulho e sem louçainha.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E tal sabor de a servir havia
que, poi-lo convent’ as horas dizia,
ele fazend’ oraçom remania
em ũa capela mui pequeninha;
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
e dizia prima, terça e sesta
e nõa e vésperas (e tal festa
fazia sempre baixada a testa)
e, pois, completas e a ledainha.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E, vivend’ em aquesta santidade,
ena garganta houv’ enfermidade
tam maa que, com’ aprix em verdade,
peior cheirava que a caavrinha.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Ca o rostr’ e a garganta lh’ enchara
e o coiro fendera-s’ e britara,
de maneira que atal se parara
que nom podia trocir atalvinha.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
119
VIII
46
48
Os frades, que cuidavam que mort’ era,
porque um dia sem fala jouvera,
cada um deles de grado quisera
que o ongessem como convĩinha.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E porend’ o capeirom lhe deitarom
sobe-los olhos, porque bem cuidarom
que era mort’, e torná-lo mandarom
a ourient’, onde o sol vĩinha.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
E, u el em tam gram coita jazia
que já rem nom falava nem oía,
veê-lo vo a Virgem Maria,
e com ũa toalha que tĩinha
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
tergeu-lh’ as chagas ond’ el era cho;
e pois tirou a sa teta do so
santa (com que criou aquel que vo
por nós filhar nossa carne mesquinha),
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
e deitou-lhe na boca e na cara
do seu leite; e tornou-lha tam crara
que semelhava que todo mudara
como muda penas a andorinha.
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
E disse-lhe: “– Por esto vim, irmão,
que ti_acorress’ e te fezesse são;
e, quando morreres, sei bem certão
que irás u é Santa Catelinha”.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
82
84
Pois esto dit’ houve, foi-s’. E mui cedo
se levantou o monge; e gram medo
houverom os outros, e quedo, quedo
forom tanger ũa sa campãinha,
R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2]
XV
90
a que logo todos forom juntados
e deste miragre maravilhados,
e a Santa Maria muitos dados
loores, a estrela madodinha.
92
Toda saúde, da santa reinha
vem, ca ela é nossa meezinha.
88
R15
* * *
120
Cantigas de Santa Maria 55
«Atant’ é Santa Maria de toda bondade bõa»
(E 55, T 55, U 86)
Esta é como Santa Maria serviu pola monja que se fora do mõesteiro e lhi criou o filho que
fezera alá andando.
R0
2
I
4
6
Atant’ é’ Santa Maria | de toda bondade bõa
que mui d’ anvidos s’ assanha | e mui de grado perdõa.
Desto direi um miragre | que quis mostrar em Espanha
a Virgem Santa Maria, | piadosa e sem sanha,
por ũa monja que fora | filhar vida d’ ávol manha
fora de seu mõesteiro | com um preste de corõa.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta dona mais amava | doutra rem Santa Maria,
e porend’ em todo tempo | sempre sas horas dizia
mui bem e compridamente, | que em elas nom falia
de dizer prima e terça, | sesta, vésperas e nõa,
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
compretas e madodinhos | bem ant’ a sa majestade.
Mais o demo, que se paga | pouco de virgĩidade,
fez, como vos eu já dixe, | que se foi com um abade,
que a por amiga teve | um mui gram temp’ em Lisbõa.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Ambos assi esteverom | tá que ela foi prenhada;
entom o crérig’ astroso | leixou-a desamparada,
e ela tornou-se logo | vergonhosa e coitada,
andando sempre de noite, | como se fosse ladrõa.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E foi ao mõesteiro | ali onde se partira,
e falou-lh’ a abadessa | (que a nunca mos vira
bem des que do mõesteiro | sem sa licença saíra),
dizendo: “– Por Deus, mià filha, | logo aa terça sõa”.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E ela foi fazer logo | aquelo que lhe mandava;
mas de que a nom achavam | mos se maravilhava,
e dest’ a Santa Maria | chorando loores dava,
dizendo: “– Beita eras, | dos pecadores padrõa”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Estas loores e outras | a Santa Maria dando
muitas de noit’ e de dia, | foi-se-lh’ o tempo chegando
que havia d’ haver filho; | e entom se foi chorando
pera a sa majestade, | e como quem se razõa
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
121
VIII
46
48
com senhor, assi dizia, | chorando mui feramente:
“– Mià senhor, eu a ti venho | como molher que se sente
de grand’ erro que há feito; | mas, senhor, venha-ch’ a mente
se che fiz algum serviço, | e guarda-me mià pessõa
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
que nom caia em vergonha, | senhor, e ’ alma me guarda
que a nom lev’ o diabo | nem eno inferno arda;
esto com medo cho peço, | ca eu sõo mui covarda
de por nulha rem rogar-te, | mas peço-ch’ esto por dõa”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
Quand’ ela est’ houve dito, | chegou a santa reinha,
e ena coita da dona | pôs logo sa meezinha,
e a um ángeo disse: | “– Tira-lh’ aquel filh’ aginha
do corp’ e criar-lho manda | de pam, mas nom de borõa”.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
Foi-s’ entom Santa Maria, | e a monja ficou sãa;
e cuidou achar seu filho, | mas em seu cuidar foi vãa,
ca o nom viu por gram tempo, | senom quand’ era já cãa,
e por el foi mas coitada | que por seu filh’ é leõa.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
Mais depois assi lh’ avo | que, u vésperas dizendo
estavam todas no coro | e bem cantand’ e leendo,
virom entrar i um moço | mui fremosinho correndo,
e cuidarom que filh’ era | d’ infançom e d’ infançõa.
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
E, pois entrou eno coro, | em mui bõa voz e crara
começou «Salve Regina», | assi como lhe mandara
a Virgem Santa Maria, | que o gram tempo criara,
que aos que ela ama | por lh’ errar nom abaldõa.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
82
84
A monja logo tantoste | conhoceu que seu filh’ era,
e el que era sa madre; | e a maravilha fera
foi entom ela mui leda | pois lh’ el diss’ onde vera,
dizendo: “– Tornar-me quero, | e leixade-m’ ir, varõa”.
R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2]
XV
90
Mantenent’ aqueste feito | soube todo o convento,
que eram i ajuntadas | de monjas mui mais ca cento,
e loarom muit’ a Virgem | por aqueste cousimento
que fezera, cujos feitos | todo o mund’ apregõa.
92
Atant’ é Santa Maria | de toda bondade bõa
que mui d’ anvidos s’ assanha | e mui de grado perdõa.
88
R15
* * *
122
Cantigas de Santa Maria 56
«Gram dereit’ é de seer»
(E 56, T 56, U 71)
Esta é como Santa Maria fez nacer as cinco rosas na boca do monge depos sa morte, polos
cinco salmos que dizia a honra das cinco lêteras que há no seu nome.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Gram dereit’ é de seer
seu miragre mui fremoso
da Virgem, de que nacer
quis por nós Deus grorioso.
Porém quero retraer
um miragre que oí,
ond’ haveredes prazer
oindo-o outrossi,
per que podedes saber
o gram bem, com’ aprendi,
que a Virgem foi fazer
a um bom religioso.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
Este sabia leer
pouco, com’ oí contar,
mas sabia bem querer
a Virgem, que nom há par;
e porém foi compõer
cinque salmos e juntar,
por em sa loor crecer,
de que era desejoso.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
Dos salmos foi escolher
cinque por esta razom
e de sũu os põer:
por cinque letras que som
em «Maria», por prender
dela pois tal galardom
per que podesse veer
o seu filho piadoso.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Quem catar e revolver
estes salmos, achará
«Magnificat» i jazer,
e «Ad Dominum» i há,
e cabo del «In convertendo» e «Ad te» está,
e pois «Retribue servo tuo» muit’ homildoso.
42
44
46
48
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
123
V
54
56
58
60
Pera bem de Deus haver,
ond’ aquestes, sem falir,
salmos sempr’ ia dizer
cada dia, sem mentir,
ant’ o altar e tender-se todo e repentir
do que fora merecer
quand’ era fol e astroso.
R5 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VI
Est’ uso foi manter
mentre no mundo viveu;
mas pois, quand’ houv’ a morrer,
na boca lh’ apareceu
rosal, que virom ter
cinque rosas, e creceu,
porque fora beizer
a madre do poderoso.
66
68
70
72
R6
74
76
Gram dereit’ é de seer
seu miragre mui fremoso
da Virgem, de que nacer
quis por nós Deus grorioso.
* * *
124
Cantigas de Santa Maria 57
«Mui grandes noit’ e dia»
(E 57, T 57, U 72)
Esta é como Santa Maria fez guarecer os ladrões que foram tolheitos porque roubaram ũa
dona e sa companha que iam em romaria a Monsarrat.
R0
1
3
5
7
I
9
11
13
15
17
R 1 18-24
II
26
28
30
32
34
R2 35-41
III
43
45
47
49
51
Mui grandes noit’ e dia
devemos dar porende
nós a Santa Maria
graças: porque defende
os seus de dano,
e sem engano
em salvo os guia.
E daquesto queremos
um miragre preçado
dizer, porque sabemos
que será ascuitado
dos que a Virgem santa
amam, porque quebranta
sempr’ aos soberviosos, | e os bõos avanta
e dá-lhes siso
e paraíso
com tod’ alegria.
[Refrão = vv. 1-7]
Em Monsarrat vertude
fez, que mui longe sõa,
a Virgem, se mi_ajude
ela, por ua bõa
dona que na montanha
di, mui grand’ e estranha,
deceu a ua fonte | com toda sa companha,
por i jantarem,
des i folgarem
e irem sa via.
[Refrão = vv. 1-7]
U seíam comendo
cabo daquela fonte,
a eles mui correndo
saiu bem desse monte
Reimond’, um cavaleiro
roubador e guerreiro,
que de quanto tragiam | nom lhes leixou dinheiro
que nom roubasse
e nom filhasse
com sa companhia.
R3 52-58
[Refrão = vv. 1-7]
IV
A dona mantenente,
logo que foi roubada,
60
125
62
64
66
68
R4 69-75
V
77
79
81
83
85
R5 86-92
VI
94
96
98
100
102
R6 103-109
VII
111
113
115
117
119
R7 120-126
VIII
128
130
132
134
136
R8 137-143
foi-s’ ende com sa gente
mui trist’ e mui coitada.
A Monsarrat aginha
chegou essa mesquinha,
dando grandes braados: | “– Virgem santa, reinha,
dá-me vingança,
ca pris viltança
em ta romaria!”
[Refrão = vv. 1-7]
E os frades saírom
aas vozes que dava;
e quand’ esto oírom,
o prior cavalgava
corrend’, e foi mui toste,
e passou um recoste
e viu cabo da fonte | de ladrões grand’ hoste
jazer maltreitos,
cegos, contreitos,
que um nom s’ ergia.
[Refrão = vv. 1-7]
Entr’ esses roubadores
viu jazer um vilão
desses mais malfeitores,
ua perna na mão
de galinha, freame
que sacara com fame
entom dũ’ empãada | que so um seu çurame
comer quisera,
mais nom podera,
ca Deus nom queria.
[Refrão = vv. 1-7]
Ca se lh’ atravessara
bem des aquela hora
u a comer cuidara,
que dentro nem a fóra
nom podia sacá-la,
nem comer, nem passá-la.
Demais jazia cego | e ar mudo sem fala
e mui maltreito
por aquel preito,
ca xo merecia.
[Refrão = vv. 1-7]
O prior e seus frades,
pois que assi acharom
treitos por sas maldades
os ladrões, mandarom
que logo di levados
fossem, atravessados
em bêstias que trouxeram, | ant’ o altar deitados:
que i morressem
ou guarecessem
se a Deus prazia.
[Refrão = vv. 1-7]
126
IX
145
147
149
151
153
R9
154
156
158
160
E, pois que os ladrões
ant’ o altar trouxerom,
por eles orações
e pregairas fezerom.
E log’ houverom sãos
olhos, pees e mãos;
e porende jurarom | que nunca a crischãos
jamais roubassem,
e se quitassem
daquela folia.
Mui grandes noit’ e dia
devemos dar porende
nós a Santa Maria
graças: porque defende
os seus de dano,
e sem engano
em salvo os guia.
* * *
127
Cantigas de Santa Maria 58
«De muitas guisas nos guarda de mal»
(E 58, T 58, U 73)
Esta é como Santa Maria desviou a monja que se nom fosse com um cavaleiro com que posera de s’ ir.
R0
2
I
4
6
De muitas guisas nos guarda de mal
Santa Maria: tam muit’ é leal.
E dest’ um miragre vos contarei
que Santa Maria fez, com’ eu sei,
dũa monja, segund’ escrit’ achei,
que d’ amor lhe mostrou mui gram sinal.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta monja fremosa foi assaz
e tĩía bem quant’ em regra jaz;
e o que a Santa Maria praz,
esso fazia sempr’ a comunal.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ma-lo demo, que dest’ houve pesar,
andou tanto po-la fazer errar
que a troux’ a que s’ houve de pagar
dum cavaleiro; e pôs preit’ atal
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
com ele: que se foss’ a comoquer,
e que a filhasse pois por molher
e lhe déss’ o que houvesse mester;
e pôs de s’ ir a el a um curral
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
do mõesteir’; e i a atendeu.
Mas entant’ a dona adormeceu
e viu em vijom ond’ esterreceu
com mui gram pavor que houve mortal.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ca se viu sobr’ un poç’ aquela vez,
estreit’ e fond’ e mais negro ca pez,
e o demo, que a trager i fez,
deitá-la quis per i no infernal
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
fogo, u mais de mil vozes oiu
d’ homes, e muitos tormentar i viu;
e, com med’, a poucas xe lhe partiu
o coraçom, e chamou: “– Senhor, val,
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Santa Maria, que madr’ és de Deus,
128
46
48
ca sempre punhei em fazê-los teus
mandamentos, e nom cate-los meus
pecados, ca o teu bem nunca fal”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois esto disse, foi-lh’ aparecer
Santa Maria e mui mal trager,
dizendo-lhe: “– Venha-ch’ or’ acorrer
o por que me deitast’, e nom m’ encal”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Esto dit’, um diabo a puxou
dentro no poç’; e ela braadou
por Santa Maria, que a sacou
del, a reinha nobr’ e ’spirital.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Des que a pôs fora, disse-lh’ assi:
“– Des hojemais nom te partas de mi
nem de meu filho, e, se nom, aqui
te tornarei, u nom haverá al”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Pois passou esto, acordou entom
a monja, tremendo-lh’ o coraçom;
e, com espanto daquela vijom
que vira, foi logo a um portal
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
u achou os que fezera vĩir
aquele com que posera de s’ ir,
e disse-lhes: “– Mal quisera falir
em leixar Deus por home terral;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
mas, se Deus quiser, esto nom será,
nem fora daqui nom me veerá
jamais nulh’ home; e ide-vos já,
ca nom quer’ os panos ne-no brial,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
90
nem, mentre viva, nunca amador
haverei, nem nom quer’ eu outr’ amor
senom da madre de Nostro Senhor,
a santa reinha celestial”.
92
De muitas guisas nos guarda de mal
Santa Maria: tam muit’ é leal.
88
R15
* * *
129
Cantigas de Santa Maria 59
«Que-na Virgem bem servir»
(E 59, T 59, U 75)
Esta é como o crucifisso deu a palmada a honra de sa madre aa monja de Fontebrar que
posera de s’ ir com seu entendedor.
R0
2
I
4
6
8
Que-na Virgem bem servir,
nunca poderá falir.
E daquesto um gram feito
dum miragre vos direi
que fez mui fremos’ afeito
a madre do alto rei,
per com’ eu escrit’ achei,
se me quiserdes oir.
R1 9-10
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi dũa donzela
que era em Fontebrar
monja, fremosa e bela,
que a Virgem muit’ amar
sabia, se Deus m’ ampar.
Mais quis da ordem sair
12
14
16
R2 17-18
[Refrão = vv. 1-2]
III
com um cavaleir’ aposto
e fremos’ e de bom prez,
e nom catou seu dosto,
mas como molher rafez
quisera-s’ ir dessa vez.
Mas no-na quis leixar ir
20
22
24
R3 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
IV
a Virgem Santa Maria,
a que mui de coraçom
saudava noit’ e dia
cada que sa oraçom
fazia, e log’ entom
ia beijar, sem mentir,
28
30
32
R4 33-34
[Refrão = vv. 1-2]
V
os pees da majestade
e dum crucifiss’ assi,
que i de gram santidade
havia, com’ aprendi;
e, pois s’ ergia dali,
ia as portas abrir
36
38
40
R5 41-42
[Refrão = vv. 1-2]
130
VI
44
46
48
da igrej’, e sacristãa
era, com’ oí dizer,
do logar, e a campãa
se filhava a tanger
por s’ o convento erger
e a sas horas vĩir.
R6 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Fazend’ assi seu ofiço,
mui gram temp’ aquest’ usou,
ates que o proviço
a fez que se namorou
do cavaleir’, e punhou
de seu talante comprir.
52
54
56
R7 57-58
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E porend’ ũa vegada
a meia noite s’ ergeu
e, com’ era costumada,
na igreja se meteu
e à omagem correu
por se dela espedir;
60
62
64
R8 65-66
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e, ficando os golhos,
disse: “– Com graça, senhor”.
Mas chorou logo dos olhos
a madre do salvador,
em tal que a pecador
se quisesse repentir.
68
70
72
R9 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
X
Entom s’ ergeu a mesquinha
por s’ ir log’ ante da luz;
mas o crucifiss’ aginha
tirou a mão da cruz
e, com’ home que aduz,
de rijo a foi ferir,
76
78
80
R10 81-82
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e bem cabo da orelha
lhe deu orelhada tal
que do cravo a semelha
teve sempre por sinal,
porque nom fezesse mal
nem s’ assi foss’ escarnir.
84
86
88
R11 89-90
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Desta guisa come morta
jouve tolheita sem sém,
trões o convent’ a porta
britou; e espantou-s’ ém
quand’ ela lhes contou quem
a feriu po-la partir
92
94
96
R12 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
131
XIII
100
102
104
do grand’ erro que quisera
fazer, mas que nom quis Deus
ne-na sa madre (que feramente quer guardá-los seus,
segund Lucas e Mateus
e os outros escrivir
R13 105-106
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
112
forom). Porend’ o convento
se pararom log’ em az,
u havia mil e cento
donas, todas faz a faz,
e, cantando bem assaz,
est’ a Deus forom gracir.
114
Que-na Virgem bem servir,
nunca poderá falir.
108
110
R14
* * *
132
Cantigas de Santa Maria 60
«Entre Av’ e Eva gram departiment’ há»
(E 60, T 60, U 70)
Esta é de loor de Santa Maria, do departimento que há entre Ave e Eva.
R0
1
I
2
4
R1
6
II
7
9
R2
11
III
12
14
R3
16
IV
17
19
R4
21
Entre Av’ e Eva | gram departiment’ há.
Ca Eva nos tolheu
o paraís’ e Deus;
Ave nos i meteu.
Porend’, amigos meus,
entre Av’ e Eva | gram departiment’ há.
Eva nos foi deitar
do dem’ em sa prijom,
e Ave ém sacar;
e por esta razom
entre Av’ e Eva | gram departiment’ há.
Eva nos fez perder
amor de Deus e bem,
e pois Ave haver
no-lo fez. E porém
entre Av’ e Eva | gram departiment’ há.
Eva nos enserrou
os ceos sem chave,
e Maria britou
as portas per Ave.
Entre Av’ e Eva | gram departiment’ há.
* * *
133
Cantigas de Santa Maria 61
«Fol é o que cuida que nom poderia»
(E 61, T 61, U 47)
Esta é como Santa Maria guareceu o que xe lhe torcera a boca porque descreera em ela.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Fol é o que cuida que nom poderia
fazê-lo que quisesse Santa Maria.
Dest’ um miragre vos direi que avo
em Seixons, ond’ um livro há todo cho
de miragres bem di (ca dalhur nom vo),
que a madre de Deus mostra noit’ e dia.
[Refrão = vv. 1-2]
Em aquel mõesteir’ há ũa çapata
que foi da Virgem por que o mundo cata,
por que diss’ um vilão de gram barata
que aquesto, per rem, ele nom criía.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Diss’ el: “– Ca de o creer nom é guisada
cousa: pois que tam gram sazom é passada
de seer a çapata tam bem guardada,
que já podre nom foss’, esto nom seria”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Esto dizend’, ia per ũa carreira
ele e outros quatro a ũa feira;
e torceu-xe-lh’ a boca em tal maneira
que quenquer que o visse, espantar-s’-ia.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E tal door havia que bem cuidava
que lh’ os olhos fora da testa deitava;
e, com esta coita, logo se tornava
u a çapata era, em romaria.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E logo que chegou deitou-se tendudo
ant’ o altar em terra como perdudo,
repentindo-se de que for’ atrevudo
em sol ousar dizer atám gram folia.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Entom a abadessa do mõesteiro
lhe trouxe a çapata, por seu fazfeiro,
pelo rostro, e tornou-lho tam enteiro
e tam são bem como xo ant’ havia.
40
42
134
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Poi-lo vilão se sentiu bem guarido,
do senhor de que era foi espedido;
e ao mõesteiro logo vĩído
foi, e dali sergent’ é pois todavia.
50
Fol é o que cuida que nom poderia
fazê-lo que quisesse Santa Maria.
46
R8
* * *
135
Cantigas de Santa Maria 62
«Santa Maria sempr’ os seus ajuda»
(E 62, T 62, U 49)
Esta é como Santa Maria deu o filho a ũa bõa dona que o deitara em penhor, e crecera tanto a usura que o nom podia quitar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Santa Maria sempr’ os seus ajuda
e os acorr’ a gram coita sabuda.
A qual acorreu já ũa vegada
a ũa dona de França, coitada,
que, por fazer bem, tant’ endevedada
foi que sa herdad’ houvera perduda.
[Refrão = vv. 1-2]
Se nom fosse pola Virgem Maria,
que a acorreu, todo quant’ havia,
perdud’ houvera; que já nom podia
usura sofrer, tant’ era creçuda.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E, macar a dona de gram linhage
era, nom quiserom dela menage
seus devedores; mas deu-lhes em gage
seu filh’, onde foi pois mui repentuda;
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
ca daquesto pois prês mui gram quebranto,
porque a usura lhe creceu tanto
que a nom podia pagar por quanto
havia, se dal nom foss’ acorruda.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E, porque achar nom pôde conselho
nos que fiava, porend’ a concelho
nom ousou sair, mas ao espelho
das virges foi bem come sisuda,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
e, de coraçom, que a acorresse
lhe rogou entom, como nom perdesse
seu filh’ em prijom, mais que lho rendesse.
E sa demanda lhe foi bem cabuda;
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
ca bem como se lhe houvesse dito
Santa Maria: “– Vai, e dar-ch’-ei quito
teu filho do usureiro maldito”,
136
42
assi foi ela led’ e atrevuda.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
E cavalgou logo sem demorança
e foi a seu filho com esperança,
e viu-o estar u faziam dança
a gente da vila, que ’steve muda,
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
que nom disse nada quand’ o chamava:
“– Vem acá, meu filho”, e poi-lo deitava
depos si na bêstia, que o levava
per meia a vila, de todos viúda,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
que sol nom disserom: “– Dona, onde ves?”
nem “– De que o levas, gram torto nos tes”.
Esto fez a Virgem, que já outros bes
fez e sempre faz, ca dest’ é túda.
62
Santa Maria sempr’ os seus ajuda
e os acorr’ a gram coita sabuda.
58
R10
* * *
137
Cantigas de Santa Maria 63
«Quem bem serv’ a madre do que quis morrer»
(E 63, T 63, U 51)
Esta é de como Santa Maria sacou de vergonha a um cavaleiro que houver’ a seer ena lide
em Sant’ Estevam de Gormaz, de que nom pôd’ i seer polas três missas suas que oiu.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
Quem bem serv’ a madre do que quis morrer
por nós, nunca pod’ em vergonha caer.
Dest’ um gram miragre vos quero contar
que Santa Maria fez, se Deus m’ ampar,
por um cavaleiro, a que foi guardar
de mui gram vergonha que cuidou prender.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este cavaleiro, per quant’ aprendi,
franc’ e ardid’ era, que bes ali
u ele morava, nem redor de si,
d’ armas nom podiam outro tal saber.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
De bõos costumes havia assaz,
e nunca com mouros quiso haver paz;
porend’ em Sant’ Estêvão de Gormaz
entrou, quand’ Almançor a cuidou haver,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
com el-conde Dom Garcia, que entom
tinha o logar em aquela sazom
(que era bom hom’ e de tal coraçom
que aos mouros se fazia temer).
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Este conde de Castela foi senhor,
e houve gram guerra com rei Almançor,
que Sant’ Estêvão tod’ a derredor
lhe vo cercar, cuidando-lha tolher.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mas el-conde defendia-se mui bem,
ca era ardido e de mui bom sém;
e porém do seu nom lhe leixava rem,
mas ia-os mui de rijo cometer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Mas o cavaleiro de que vos falei,
tanto fez i d’ armas, per quant’ end’ eu sei,
40
138
42
que nom houv’ i lide nem mui bom tornei
u se nom fezesse por bõo ter.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E avo-lh’ um dia que quis sair
com el-conde por na hoste ir ferir
dos mouros; mas ante foi missa oir,
como cada dia soía fazer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois foi na igreja, bem se repentiu
dos seus pecados e a missa oiu
de Santa Maria, que rem nom faliu,
e outras duas que i forom dizer,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que da reinha eram espirital.
Mas um seu escudeiro o trouxe mal,
dizendo: “– Quem em tal torneio nom sal
com’ aqueste, nunca dev’ aparecer”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Por nulha rem que lhe dissess’ aquel seu
escudeiro, ele nulha rem nom deu,
mas a Santa Maria diz: “– Sõo teu,
e tol-me vergonha, ca hás ém poder”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
As missas oídas, logo cavalgou,
e ena carreira o conde achou,
que lh’ o braço destro no colo deitou,
dizend’: “– Em bom ponto vos fui conhocer,
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
ca, se vós nom fôssedes, juro par Deus
que vençudos fôramos eu e os meus;
mas tantos matastes vós dos mouros seus
del-rei Almançor que s’ houv’ a recreer,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e tanto fezestes por gãardes prez
que já cavaleiro nunca tanto fez
nem sofreu em armas com’ aquesta vez
sofrer fostes vós po-los mouros vencer;
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
mas rogo-vos, porque vos é mui mester,
que de vossas chagas pensedes, senher;
e eu hei um mege dos de Mompisler
que vos pode cedo delas guarecer”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Disse-lh’ est’ el-conde, e mui mais ca três
139
94
96
lhe disserom aquesta razom medês;
e el deles todos tal vergonha prês
que com vergonha se cuidou ir perder.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Mas, pois que sas armas viu, e couseceu
que feridas eram, logo conhoceu
que miragre fora, ca bem entendeu
que doutra guisa nom podia seer.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
108
Pois est’ entendudo houve, bem foi fis
que Santa Maria leixá-lo nom quis
caer em vergonha; e maravidis
e outras ofrendas lhe foi ofrecer.
110
Quem bem serv’ a madre do que quis morrer
por nós, nunca pod’ em vergonha caer.
R18
* * *
140
Cantigas de Santa Maria 64
«Quem mui bem quiser o que ama guardar»
(E 64, T 64, U 52)
Esta é de como a molher que o marido leixara em comenda a Santa Maria nom pôdo calçar
a çapata que lhe dera seu entendedor ma[i]s de até ena meadade do pee, ne-na ar pôde descalçar
tá que o marido lha descalçou.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
Quem mui bem quiser o que ama guardar,
a Santa Maria o dev’ a encomendar.
E dest’ um miragre, de que fiz cobras e som,
vos direi mui grande, que mostrou em Aragom
Santa Maria, que a molher dum ifançom
guardou de tal guisa per que nom podess’ errar.
[Refrão = vv. 1-2]
Esta dona, per quant’ eu dela oí dizer,
aposta e ninha foi, e de bom parecer;
e por aquesto a foi um ifançom prender
por molher, e foi-a pera sa casa levar.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquel ifançom um mui gram temp’ assi morou
com aquela dona; mais, pois, s’ ir dali cuidou
por ũa carta de seu senhor que lhe chegou:
que havia guerra, e que o foss’ ajudar.
[Refrão = vv. 1-2]
Ante que movesse, diss-lh’ assi sa molher:
“– Senhor, pois vos ides, fazede, se vos prouguer,
que m’ encomendedes a alguém, ca m’ é mester
que me guarde e que me sábia bem conselhar”.
[Refrão = vv. 1-2]
E o ifançom lhe respondeu entom assi:
“– Muito me praz ora daquesto que vos oí;
mas ena eigreja manhãa seremos i,
e entom vos direi a quem vos cuid’ a leixar”.
[Refrão = vv. 1-2]
Outro dia forom ambos a missa oir,
e, pois foi dita, u se lhe quis el espedir,
chorand’ entom ela lhe começou a pedir
que lhe désse guarda por que houvess’ a catar.
[Refrão = vv. 1-2]
E, ar ele chorando muito dos olhos seus,
mostrou-lh’ a omagem da Virgem, madre de Deus,
e disse-lh’: “– Amiga, nunca os pecados meus
141
42
R7 43-44
VIII
46
48
R8 49-50
IX
52
54
R9 55-56
X
58
60
R10 61-62
XI
64
66
R11 67-68
XII
70
72
R12 73-74
XIII
76
78
R13 79-80
XIV
82
84
R14 85-86
XV
88
90
R15 91-92
XVI
94
sejam perdõados se vos a ôutri vou dar
[Refrão = vv. 1-2]
senom a esta, que é senhor espirital,
que vos pode bem guardar de posfaç’ e de mal;
e porende a ela rog’ eu, que pod’ e val,
que mi vos guarde, e leix’ a mim cedo tornar”.
[Refrão = vv. 1-2]
Foi-s’ o cavaleiro logo dali. Mas, que fez
o diabr’ arteiro por lhe tolher seu bom prez
a aquela dona? Tant’ andou daquela vez
que um cavaleiro fezo dela namorar.
[Refrão = vv. 1-2]
E com seus amores a poucas tornou sandeu;
e porend’ ũa sa covilheira cometeu
que lhe fosse bõa, e tanto lhe prometeu
que per força fez que fosse com ela falar.
[Refrão = vv. 1-2]
E disse-lh’ assi: “– Ide falar com mià senhor
e dizede-lhe como moiro por seu amor;
e, macar vejades que lhe desto grave for,
no-na leixedes vós porém muito d’ aficar”.
[Refrão = vv. 1-2]
A molher respôs: “– Aquesto de grado farei,
e que a hajades, quant’ eu podér punharei;
mas de vossas dõas me dad’, e eu lhas darei,
e quiçai per esto a poderei enganar”.
[Refrão = vv. 1-2]
Diss’ o cavaleir’: “– Esto farei de bom talám”.
Log’ ũas çapatas lhe deu de bom cordovám;
mais a dona a trouxe peior que a um cam
e disse que per rem nom lhas queria filhar.
[Refrão = vv. 1-2]
Mais aquela velha, com’ era molher mui vil,
e d’ alcaiotaria sabedor e sotil,
porque a dona as çapatas filhasse, mil
razões lhe disse, trões que lhas fez tomar.
[Refrão = vv. 1-2]
Mais a mesquinha, que cuidava que era bem,
filhou logo as çapatas, e fez i mal sém;
ca u quis calçá-la ũa delas, já per rem
fazer no-no pôde, ne-na do pee sacar.
[Refrão = vv. 1-2]
E assi esteve um ano e bem um mês,
que a çapata_ao pee assi se lh’ aprês
142
96
R16 97-98
XVII
100
102
R17 103-104
XVIII
106
R18
que, macar de tolher-lha provarom dous nem três,
nunca lha poderom daquel pee descalçar.
[Refrão = vv. 1-2]
E depos aquest’ a poucos dias recodiu
seu marid’ a ela, e tam fremosa a viu
que a logo quis; mas ela nom lho consentiu
atá que todo seu feito lh’ houve a contar.
[Refrão = vv. 1-2]
108
O cavaleiro disse: “– Dona, desto me praz,
e sobr’ esto nunca haveremos senom paz,
ca sei que Santa Mari’, em que todo bem jaz,
vos guardou”. E a çapata lhe foi ém tirar.
110
Quem mui bem quiser o que ama guardar,
a Santa Maria o dev’ a encomendar.
* * *
143
Cantigas de Santa Maria 65
«A creer devemos que todo pecado»
(E 65, T 65, U 88)
Esta é como Santa Maria fez soltar o home que andara gram tempo escomungado.
R0
2
I
4
6
A creer devemos que todo pecado
Deus pola sa madr’ haverá perdõado.
Porend’ um miragre vos direi mui grande
que Santa Maria fez; e ela mande
que mostrá-lo possa per mi e nom ande
demandand’ a outre que m’ ém dé recado.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Porém direi com’ um crérig’ aldeão,
de mui santa vida e mui bom crischão,
houv’ um seu feegrês soberv’ e loução
que nunca queria fazer seu mandado.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E o home bõo sempre lhe rogava
que se corregesse, e o castigava;
mais aquel vilão porém rem nom dava:
assi o tragia o dem’ enganado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Pois que o preste viu que mõestamento
nom lhe valia rem ũa vez nem cento,
escomungou-o entom por escarmento,
cuidando que fosse per i castigado.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas el por aquesto nom deu nemigalha,
nem preçou sa escomunhom ũa palha.
Entanto, o preste morreu, e, sem falha,
ficou o vilão del escomungado.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E durou depois muit’ em esta maldade,
atá que caeu em grand’ enfermidade,
que lhe fez cambiar aquela voontade,
e do que fezera sentiu-se culpado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E quis comungar e filhar pedença,
mais nom lha quiserom dar pola sentença
em que el jazia por sa descreença,
mais mandarom-lhe que foss’ a seu prelado.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, logo que pôdo, foi a el correndo,
144
46
48
e seu mal lhe disse, chorand’ e gemendo;
e ele lhe disse, per quant’ eu entendo:
“– Vai-te ao papa, ca muit’ hás errado”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
El, quand’ est’ oiu, houv’ alegria fera,
e foi log’ a Roma, u o papa era,
e disso-lh’ aquelo sobre que vera.
El mandou-o livrar a um seu privado,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que lhe disse: se livre seer queria,
que lhe déss’ algo; se nom, no-no seria.
El dar nom lho pôde, ca o nom tragia,
e porém foi-se mui trist’ e mui coitado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E pensou que sempr’ assi jamais andasse
atá que algum bom crischão achasse
que lhe nom pediss’ e que o conselhasse
como saísse daquel mao estado.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Atám muit’ andou per terras e per mares,
sofrendo trabalhos muitos e pesares,
buscando ermidas e santos logares
u achasse tal hom’; e tant’ houv’ andado
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
que achou um home mui de santa vida
na Montanha Negra, em ũa ermida;
e, pois sa fazenda toda houv’ oída,
houve do cativo gram doo ficado;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e disse-lh’: “– Amigo, se me tu creveres
e desta ta coita bom conselho queres,
vai a ’lexandria, e, se o fezeres,
dar-ch’-á i conselho um fol trosquiado”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Quand’ aquest’ oiu aquel home cativo,
quiser’ entom seer mais morto ca vivo;
e semelhou-lhe conselho muit’ esquivo,
e teve-s’ entom já por desasperado.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E diss’: “– Aquesto semelha-me trebelho,
que, poi-lo papa nem todo seu concelho
em este feito nom me derom conselho,
como mi_o dará o que é fol provado?”
94
96
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
145
XVII
100
102
E o ermitám lhe diss’ entom: “– Sandece
nom há em aquel senom quanto parece
aas gentes, e tod’ aquest’ el padece
por lhe seer de Deus pois galardõado”.
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E o home disse: “– Pero eu fezesse
esto, nom cuido que mi_o ele crevesse
se lh’ ant’ algũa vossa carta nom désse
per que fosse del creúd’ e ascuitado”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E o ermitám deu-lhe sa carta logo
que lhe levasse, e disse-lh’: “– Eu te rogo
que lha leves, e, se em este meogo
morreres, morrerás de Deus perdõado”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
Foi-s’ o hom’ e punhou de chegar mui cedo
a Alexandria (que come Toledo
é grand’, ou maior); mais ia com gram medo
de nom haver ali seu preit’ encimado.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
E morou ena vila bem quinze dias,
buscand’ o fol per carreiras e per vias;
e, poi-lo nom achou, disso: “– A Messias
poss’ eu haver ante que aquest’ achado”.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
Esto dizendo, viu viir muita gente
escarnecend’ um home mui feramente,
mui magr’ e roto e de fol contenente;
e diss’: “– Aquest’ é o que tant’ hei buscado;
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
pero, se aquest’ é fol, pela ventura,
aguardá-lo-ei té ena noit’ escura;
ca, se el nom é bem louco de natura,
algur irá long’ albergar apartado”.
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
Dizend’ aquesto, foi-s’ a noite chegando,
e o sandeu foi-se da gent’ esfurtando,
e el depos el, sempre o aguardando,
atá que o viu mui longe do poblado,
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
XXV
u entrava em ũa igreja vedra,
mui bem feita tod’ a bóveda de pedra,
pero com velhece já cuberta d’ hedra,
que fora d’ antigo lugar muit’ honrado.
148
150
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
146
XXVI
154
156
Pois aquel fol na igreja foi metudo,
nom vos semelharia fol, mais sisudo;
ca se deitou log’ ant’ o altar tendudo,
chorando muito com’ havia usado.
R26 157-158
[Refrão = vv. 1-2]
XXVII
160
E, des i, ergeu-s’, e, como quem s’ aparta,
tomou dum pam d’ horjo quant’ é ũa quarta
po-lo comer, mas o home deu-lh’ a carta
ante que uviasse comer nem bocado.
162
R27 163-164
[Refrão = vv. 1-2]
XXVIII
166
E, pois que a carta houve bem leúda
e houv’ a razom dela bem entenduda,
disse-lhe chorand’: “– Eu vos farei ajuda,
e seed’ esta noit’ aqui albergado;
168
R28 169-170
[Refrão = vv. 1-2]
XXIX
172
e dormid’ agora, pois cansad’ andades;
mais, pois que for noite, nada nom dormiades
nem vos espantedes por rem que vejades,
mais jazed’ em este lugar mui calado”.
174
R29 175-176
[Refrão = vv. 1-2]
XXX
E fez-lhe sa cama bem entre dous cantos;
e a mea noite aqué-vo-los santos
com Santa Maria, e chegarom tantos
que todo o lugar foi alumado.
178
180
R30 181-182
[Refrão = vv. 1-2]
XXXI
184
Os ángeos Santa Maria filharom
e ena cima do altar a sentarom
e os madudinhos todos bem cantarom,
e o fol cantava com eles de grado.
186
R31 187-188
[Refrão = vv. 1-2]
XXXII
190
E, pois que os houverom todos bem ditos
de coraçom, ca nom per outros escritos,
o fol chamou o outr’, e ’m golhos fitos
vo ant’ a Virgem muit’ envergonhado.
192
R32 193-194
[Refrão = vv. 1-2]
XXXIII
196
E diss’ o fol: “– Senhor santa piadosa,
est’ hom’ em sentença jaz mui perigosa;
mais tu, que és mui misericordiosa,
solta-lh’ este laço em que jaz liado”.
198
R33 199-200
[Refrão = vv. 1-2]
XXXIV
202
Respôs a Virgem com parávoas doces:
“– Vai ora mui quedo e nom t’ alvoroces;
e o que t’ escomungou, se o conhoces,
chama-o ante mi, e serás soltado”.
204
147
R34 205-206
[Refrão = vv. 1-2]
XXXV
208
Levantou-s’ o home, e com el o louco,
e catou-os todos; mais tardou mui pouco
que achou o preste, que nom era rouco
de cantar, pero muit’ havia cantado.
210
R35 211-212
[Refrão = vv. 1-2]
XXXVI
214
Des i, ant’ a Virgem todos três verom
e de como fora o feito disserom;
e ela disse, pois que lho dit’ houverom:
“– Soltade-o, preste, pois sodes vingado”.
216
R36 217-218
[Refrão = vv. 1-2]
XXXVII
220
Foi-s’ entom a Virgem, pois esto foi feito.
E o fol ao outro moveu tal preito:
que se foss’; e teve-s’ end’ el por maltreito,
e disse: “– Sol de m’ ir nom será pensado,
222
R37 223-224
[Refrão = vv. 1-2]
XXXVII
226
nem que vos eu leixe, assi Deus m’ ajude,
cá, pois que m’ a Virgem mostrou tal vertude
por vós que mià alma cobrou já saúde
e o bem de Deus, de que era deitado”.
228
R38 229-230
[Refrão = vv. 1-2]
XXXIX
232
O fol diss’ entom: “– Pois que ficar queredes,
toda mià fazenda ora saberedes:
nom sõo louco, nem vós no-no cuidedes,
pero ando nuu e mui mal parado;
234
R39 235-236
[Refrão = vv. 1-2]
XL
ca esta terra foi de meu poderio,
e meu linhagem a mantev’ a gram brio;
e morrerom todos, e o senhorio
me ficou end’ a mi, e fui rei alçado;
238
240
R40 241-242
[Refrão = vv. 1-2]
XLI
e, macar vos paresc’ ora tam astroso,
muito fui loução, apost’ e fremoso,
ardid’ e grãado, ric’ e poderoso,
e de bõas manhas e bem costumado;
244
246
R41 247-248
[Refrão = vv. 1-2]
XLII
e, seend’ assi senhor de muitas gentes,
vi morrer meu padr’ e todos meus parentes;
e em mià fazenda entom parei mentes
e daqueste mundo fui log’ enfadado;
250
252
R42 253-254
[Refrão = vv. 1-2]
XLIII
256
entom cuidei logo como me partisse
daquesta terra que neum nom me visse,
e que como fol entr’ as gentes guarisse,
148
258
per que fosse do mundo mais despreçado;
R43 259-260
[Refrão = vv. 1-2]
XLIV
262
e por razom tive que em esta terra
dos meus que sofresse desonra e guerra
por amor de Deus, que aos seus nom erra
e, po-los salvar, quis seer marteirado;
264
R44 265-266
[Refrão = vv. 1-2]
XLV
ainda vos direi mais de mià fazenda:
d’ hoj’ a quinze dias serei, sem contenda,
no paraíso, e dou-vos por comenda
que atá entom sol nom seja falado”.
268
270
R45 271-272
[Refrão = vv. 1-2]
XLVI
274
Assi esteverom, que nom se partirom,
ambos de suu, e cada noite virom
a Santa Maria; e, pois se comprirom
estes quinze dias, o fol foi passado.
276
R46 277-278
[Refrão = vv. 1-2]
XLVII
280
E Santa Maria, a que el servira
porque se do bem deste mundo partira,
levou del a alma, ca, des que a vira,
e-na servir fora todo seu cuidado.
282
R47 283-284
[Refrão = vv. 1-2]
XLVIII
286
E, pois que foi morto, quis Deus que soubessem
sa mort’ os da vila e logo vessem
sobr’ el fazer doo e lh’ honra fezessem
com’ a seu senhor natural e amado,
288
R48 289-290
[Refrão = vv. 1-2]
XLIX
292
que os havia mui gram temp’ enganados,
e que o perderam pelos seus pecados;
mas Deus por el logo miragres mostrados
houve, por que fosse pois «santo» chamado.
294
R49 295-296
[Refrão = vv. 1-2]
L
300
E gram doo fez por el seu companheiro,
e, quant’ el viveu, foi sempr’ ali senlheiro,
guardand’ o sepulcro; mas Deus verdadeiro
levou-o consig’; e El seja loado.
302
A creer devemos que todo pecado
Deus pola sa madr’ haverá perdõado.
298
R50
* * *
149
Cantigas de Santa Maria 66
«Quantos em Santa Maria»
(E 66, T 66, U 78)
Esta é como Santa Maria fez a um bispo cantar missa e deu-lh’ a vestimenta com que a dissesse, e leixou-lha quando se foi.
E começa assi:
R0
1
3
I
4
6
8
10
Quantos em Santa Maria
esperança ham,
bem se porrá sa fazenda.
Os que m’ oem cada dia,
e que m’ oirám,
de grado lhes contaria
miragre mui gram
dum bom bispo que havia
em Alverna, tam
santo que viu, sem contenda,
R1 11-13
[Refrão = vv. 1-3]
II
na capela u jazia,
a do bom talám:
vo com gram companhia
desses que estám
ante Deus e todavia
por nós rogarám
que El de mal nos defenda.
14
16
18
20
R2 21-23
[Refrão = vv. 1-3]
III
E a seu destro tragia
sigo Sam Joám,
que lh’ entom assi dizia
“– Quaes cantarám
a missa que converria,
ou quaes dirám
toda a outra leenda?;
24
26
28
30
R3 31-33
[Refrão = vv. 1-3]
IV
e dizede: quem seria
vosso capelám?”
E ela lhe respondia:
“– O bispo que mam
aqui, que sempre perfia
filhou e afám
por mi em esta prebenda”.
34
36
38
40
R4 41-43
[Refrão = vv. 1-3]
V
E logo pera el ia,
e diss’ ao san-t’ hom’: “– Aquesta missa di-a,
44
46
150
48
50
e responderám
esta santa crerizia,
que bem saberám
responder-ti, sem emenda”.
R5 51-53
[Refrão = vv. 1-3]
VI
O bispo, quand’ est’ oía,
logo manamám
as vestimentas pedia;
e taes lhas dam
que home nom poderia
preçá-las, de pram,
nem a compra nem a venda.
54
56
58
60
R6 61-63
[Refrão = vv. 1-3]
VII 64
E, pois que se revestia,
come sacristám
Sam Pedr’ o sino tangia,
e os outros vam
cantand’, e el beizia
o vinh’ e o pam
como a lee comenda.
66
68
70
R7 71-73
[Refrão = vv. 1-3]
VIII 74
E, pois a missa compria
bem sem adamám,
diss’ a Virgem: “– Eu ir-m’-ia,
e todos ir-s’-am;
mais o que ti_eu dad’ havia
no-no levarám,
pois ti_o dei por oferenda”.
76
78
80
R8
81
83
Quantos em Santa Maria
esperança ham,
bem se porrá sa fazenda.
* * *
151
Cantigas de Santa Maria 67
«A reinha groriosa tant’ é de gram santidade»
(E 67, T 67, U 65)
Esta é como Santa Maria fez ao home bõo conhocer que tragia consigo o demo por servente, e que o queria matar se nom pola oraçom que dizia sua.
R0
2
I
4
6
A reinha groriosa | tant’ é de gram santidade
que com esto nos defende | do dem’ e da sa maldade.
E de tal razom com’ esta | um miragre contar quero
que fezo Santa Maria, | aposto e grand’ e fero,
que nom foi feito tam grande | bem de-lo tempo de Nero
(que emperador de Roma | foi, daquela gram cidade).
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ond’ avo que um home | mui poderos’ e loução,
sisud’ e fazedor d’ algo, | mas tant’ era bom crischão
que tod’ ele por Deus dava | quanto colhia em mão,
ca de todas outras cousas | mais amava caridade.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, por melhor fazer esto | que muit’ ele cobiçava,
um hespital fezo fora | da vila u el morava,
em que pam e vinh’ e carne | e pescad’ a todos dava,
e leitos em que jouvessem | em ivern’ e em estade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, como quem há gram coita | de compri-lo que deseja,
ele mancebos colhia | bem mandados, sem peleja,
que aos pobres servissem. | Mas o demo, com enveja,
meteu-s’ em um corpo morto | d’ home de mui gram beldade,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e vo pera el logo | mans’ e em bom contenente,
e disse: “– Senhor, querede | que seja vosso sergente,
e o serviço dos pobres | vos farei de bõa mente,
pois vejo que vós queredes | e fazedes i bondade;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e sequer o meu serviço | haveredes endõado”.
Quando lh’ o_hom’ oiu aquesto | dizer, foi ém mui pagado;
e, demais, viu-o fremoso, | apost’ e bem razõado,
e cuidou que nom andava | senom com gram lealdade.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Em esta guisa o demo, | cho de mal e arteiro,
fez tanto que o bom home | o filhou por escudeiro;
e em todos seus serviços | a el achava primeiro,
40
152
42
dizendo-lhe: “– Que queredes, | senhor?: a mim o mandade”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Tanto lhe soub’ o diabo | fazer com que lhe prouguesse
que nunca lh’ ele dizia | cousa que el nom crevesse;
demais, nom havia home | que o atám bem soubesse
servir sempr’ em todas cousas | segundo sa voontade.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E porende lhe fazia | amude que caçasse
enas montanhas mui fortes, | e eno mar que pescasse;
e muitas artes buscava | per que o algur matasse,
per que houvess’ el a alma, | e outr’ houvess’ a herdade.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Em tod’ est’ o home bõo, | per rem, mentes nom metia,
e porém de bõa mente | u lh’ el conselhava ia;
mas, quando se levantava, | ũa oraçom dizia
da Virgem mui groriosa, | reinha de piedade.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E por aquest’ aquel demo | que lh’ andava por vassalo
neum poder nom havia, | per nulha rem, de matá-lo;
e pero dia nem noite | nom quedava de tentá-lo,
macar lhe prol nom havia, | por mostrar sa crueldade.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Desta guisa o bom home, | que de santidade cho
era, viveu mui gram tempo, | trões que um bisp’ i vo
que foi sacar ao demo | logo as linhas do so,
como vos contarei ora; | e por Deus, bem m’ ascuitade:
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Aquel bispo era home | sant’ e de mui bõa vida,
e mui mais religioso | que se morass’ em ermida;
e por aquesto o demo | tanto temeu sa vĩída,
que disse que nom podia | servir por enfermidade.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Ond’ avo que um dia | ambos jantando siíam
e que todo-los sergentes, | foras aquele, serviam;
preguntou-lhes o bom home | u era; eles diziam
que i servir nom vera | com míngua de sãidade.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Quand’ aquest’ oiu o bispo, | preguntou-lhe que hom’ era.
E ele lhe contou todo, | de com’ a ele vera
e como lhe lealmente | sempre serviço fezera.
Diss’ o bispo: “– Venha logo, | ca de veê-l’ hei soidade”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Entom aquel home bõo | enviou por el correndo.
153
94
96
Quand’ esto soub’ o diabo, | andou muito revolvendo,
mas pero na cima vo | ant’ eles todo tremendo;
e poi-lo catou o bispo, | conhoceu sa falsidade.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
E diss’ ao home bõo: | “– Deus vos ama, bem sabiades,
que vos quis guardar do demo | fals’, e de sas falsidades;
e eu vos mostrarei ora | com’ est’ hom’ em que fiades
é demo sem nulha dulta, | mas um pouco vos calade.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E entom diss’ ao demo: | “– Di-me toda ta fazenda,
por que aquesta companha | todo teu feito aprenda;
e eu te conjur’ e mando | que a digas sem contenda,
per poder de Jesu-Cristo, | que é Deus em Trĩidade”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
Entom começou o demo | a contar de com’ entrara
em corpo dum home morto, | com que enganar cuidara
a aquel com que andava, | a que sem dulta matara
se a oraçom nom fosse | da madre de claridade:
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
“– Quand’ el aquesta dizia, | sol nom era eu ousado
de lhe fazer mal niũu”. | E, pois est’ houve contado,
leixou caer aquel corpo | em que era enserrado,
e esvãeceu ant’ eles, | como x’ era vãidade.
122
A reinha gloriosa | tant’ é de gram santidade
que com esto nos defende | do dem’ e da sa maldade.
118
R20
* * *
154
Cantigas de Santa Maria 68
«A groriosa grandes faz»
(E 68, T 68, U 68)
Esta é como Santa Maria avo as duas combooças que se queriam mal.
R0
2
I
4
6
A groriosa grandes faz
miragres por dar a nós paz.
E dest’ um miragre direi
fremoso, que escrit’ achei,
que fez a madre do gram rei,
em que toda mesura jaz,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
pola molher dum mercador
que, porque seu marid’ amor
havia com outra, sabor
dele perdia e solaz.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E por esto queria mal
a sa combooça mortal;
e Santa Maria, sem al,
rogava que lhe déss’ assaz
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
coita e mal, porque perder
lhe fazia o gram prazer
que seu marido lhe fazer
soía na vila d’ Arraz.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E, pois fez esta oraçom,
adormeceu-se log’ entom;
e, dormindo, viu em vijom
Santa Maria com grand’ az
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
d’ ángeos, que lhe diss’ assi:
“– A ta oraçom bem oí;
mas pero nom convém a mi
fazer crueza, nem me praz;
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
demais, aquela vai ficar
os golhos ant’ o altar
meu e cem vezes saudarme, põend’ em terra sa faz”.
155
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Tantost’ aquela s’ espertou
e fois-s’; e na rua topou
co-na outra, que se deitou
ant’ ela e disse: “– Malvaz
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
demo foi, chus negro ca pez,
que m’ este torto fazer fez
contra vós; mas já outra vez
no-no farei, pois vos despraz”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
Assi a Virgem avĩir
fez estas duas, sem falir,
que x’ ant’ haviam, sem mentir,
denteira come com agraz.
62
A groriosa grandes faz
miragres por dar a nós paz.
58
R10
* * *
156
Cantigas de Santa Maria 69
«Santa Maria os enfermos sãa»
(E 69, T 69, U 54)
Esta é como Santa Maria fez oir e falar ao que era sordo e mudo, em Toledo.
R0
2
I
4
6
Santa Maria os enfermos sãa,
e os sãos tira de via vãa.
Dest’ um miragre quero contar ora,
que dos outros nom deve seer fora,
que Santa Maria, que por nós ora,
grande fez na cidade toledãa,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
seend’ i o emperador d’ Espanha
e d’ homes honrados gram companha
com el, e cavalaria tamanha
que dentro nom cabiam ne-na chãa.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ali entom um monge foi vĩúdo
que del-com Dom Ponç’ era conhoçudo,
e troux’ um seu irmão sord’ e mudo
que chamavam Pedro de Solarãa.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Aqueste nom falava nem oía,
mas per sinas todo bem entendia
o que lhe mandavam, e o fazia,
ca nom vos havia el outr’ açãa.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pero nom oía nem falava,
em Santa Maria muito fiava,
e chorand’ e mugindo lhe rogava
que o sãasse. E ũa manhãa
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
lh’ avo que foi perant’ a igreja
e viu dentro claridade sobeja,
e entre si disse: “– Se Deus me veja,
esta claridade nom é humãa”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois isto, viu um home mui fremoso,
vestido bem come religioso,
que no levar nom foi mui preguiçoso
cab’ o altar u tangem a campãa
40
42
157
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
do Córpus Dómini. E viu estando
um hom’ ant’ o altar, bem como quando
está o que diz missa consagrando
a hóstia a costume romãa.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E a destro viu estar da capela
de gram fremosura ũa donzela,
que de faiçom e de coor mais bela
era que nom ést’ a nev’ e a grãa,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que lhe fezo sinas que se chegasse
ant’ o preste e que s’ agolhasse;
e ao preste fez que o catasse
a Virgem piedosa e louçãa,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que lhe meteu o dedo na orelha
e tirou-lh’ end’ um vermem a semelha
destes do sirgo, mas come ovelha
era velos’ e coberto de lãa.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E tantost’ [o] oir houve cobrado
e foi-s’ a casa do monge privado,
e logo per sinas lh’ houve mostrado
que já oía o gal’ e a rãa.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Entom corrend’ o monge como cerva
se foi a cas Dom Ponço de Minerva,
e disse: “– Conde, nom sei com qual erva
oe Pedr’, e a orelha lhe mãa”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E entom diss’ el-conde muit’ aginha:
“– M’ ide polo que fez a meezinha,
ca bem lheu é maestre de Mecinha
(ou de Salerna), a ciziliãa”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E depus isto, vernes madurgada,
levava vinh’ e pam aa pousada
Pedro do monge, u fez sa passada
perant’ a porta que é mais jusãa
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
da igreja; e ia pela mão
com el um preste. E viu bem de chão
Pedro vĩir a si um home cão
94
158
96
ena cabeça, e a barva cãa,
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
que o tirou contra si mui correndo
e foi-o ena eigreja metendo,
u viu, a preto do altar, seendo
a Virgem, d’ Elisabet coirmãa,
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
que mandou ao preste revestido
que lhe fezera cobrá-lo oído,
que lhe fezesse que logo guarido
fosse da língua, que nom dissess’ ‘ãa’.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
Logo o que mandou ela foi feito,
ca o preste sabia de tal preito;
porém da língua, ond’ era contreito,
lhe fez falar parávoa certãa.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
E, pois sãidad’ houve recebuda,
diss’ a gram voz: “– Madre de Deus, ajuda
ao teu servo, que há conhoçuda
a ta graça”; e cantou antivãa.
118
120
R20 121-122
ão = vv. 1-2]
XXI
126
Quantos aqueste miragre souberom,
a Santa Maria loores derom;
e tantos aa eigreja verom
que nom cabiam i nem na quintãa.
128
Santa Maria os enfermos sãa,
e os sãos tira de via vãa.
124
R21
* * *
159
Cantigas de Santa Maria 70
«Eno nome de Maria»
(E 70, T 80, U 80)
Esta é de loor de Santa Maria, das cinque lêteras que há no seu nome e o que querem dizer.
R0
2
6
M [= eme] mostra madr’ e maior
e mais mansa e mui melhor
de quant’ al fez Nostro Senhor
nem que fazer poderia.
8
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
I
4
R1
12
A demostra avogada,
aposta e aorada,
e amiga e amada
da mui santa companhia.
14
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
II
10
R2
18
R [= erre] mostra ram’ e raiz,
e reinh’ e emperadriz,
rosa do mundo; e fiiz
que-na visse, bem seria.
20
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
III
16
R3
24
I nos mostra Jesu-Cristo,
justo juiz, e por isto
foi per ela de nós visto,
segum disso Isaía.
26
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
IV
22
R4
V
30
A ar diz que haveremos
e que tod’ acabaremos
aquelo que nós queremos
de Deus, pois ela nos guia.
32
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
28
R5
Eno nome de Maria
cinque letras, nom mais, i há.
* * *
160
Cantigas de Santa Maria 71
«Se muito nom amamos, gram sandece fazemos»
(E 71, T 71, U 91)
Esta é como Santa Maria mostrou aa monja como dissesse brevement’ avemaria.
R0
2
I
4
6
Se muito nom amamos, | gram sandece fazemos,
a senhor que nos mostra | de como a loemos.
E porend’ um miragre | vos quero dizer ora
que fez Santa Maria, | a que nunca demora
a buscar-nos carreiras | que nom fiquemos fora
do reino de seu filho, | mais per que i entremos.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E direi dũa monja | que em um mõesteiro
houve, de santa vida, | e filhava lazeiro
em loar muit’ a Virgem, | ca um gram livr’ enteiro
rezava cada dia, | como nós aprendemos,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
de grandes orações | sempre, noites e dias.
E, sem esto, rezava | bem mil avemarias,
porque veer podesse | a madre de Messias,
que os judeus atendem | e que nós já havemos.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Tod’ aquesto dizia | chorando e gemendo,
e sospirava muito; | mais rezava correndo
aquestas orações. | E porém, com’ aprendo,
viu a Santa Maria, | com’ agora diremos,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
dentro no dormidoiro, | em seu leit’, u jazia
por dormir, mui cansada, | e pero nom dormia.
Entom a Virgem santa | ali lh’ aparecia,
madre de Jesu-Cristo, | aquel em que creemos.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quando a viu a monja, | espantou-se jaquanto,
mais a Virgem lhe disse: | “– Sol nom prendas espanto,
ca eu sõo aquela | que hás chamada tanto;
e sei ora mui leda, | e um pouco falemos”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Respôs entom a monja: | “– Virgem santa, reinha,
como veer quisestes | ũa monja mesquinha?:
esto mais ca mesura | foi, e porend’ aginha
levade-nos convosco, | que sem vós nom fiquemos”.
40
42
161
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Disse Santa Maria: | “– Esto farei de grado,
ca já teu lugar tes | no ceo apartado;
mais, mentre fores viva, | um rezar ordinhado
che mostrarei que faças, | ca jaquê ém sabemos:
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
se tu queres que seja | de teu rezar pagada,
u dize-la saúde | que me foi enviada
pelo ángeo santo, | di-a assessegadamente, e nom te coites; | ca certo che dizemos
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que, quand’ ouço u fala | como Deus foi comigo,
tam gram prazer hei ende, | amiga, que che digo
que entom me semelha | que Deus, Padr’ e amigo
e filh’, em nosso corpo | outra vez bem temos;
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e porém te rogamos | que filhes tal maneira
de rezares mui passo, | amiga companheira,
e duas partes leixa | e di bem a terceira
de quant’ ante dizias, | e mais t’ end’ amaremos”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Pois dit’ houv’ esto, foi-se | a Virgem groriosa.
E des entom a monja | sempre muit’ homildosamente assi dizia | como lh’ a piadosa
mostrara que dissesse, | daquesto nom dultemos.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
Ca sempr’ avemaria | mui bem e passo disse;
e, quando deste mundo | quis Deus que se partisse,
fez levar a sa alma | ao ceo, u visse
a sa beita madre, | a que loores demos.
80
Se muito nom amamos, | gram sandece fazemos,
a senhor que nos mostra | de como a loemos.
76
R13
* * *
162
Cantigas de Santa Maria 72
«Quem diz mal»
(E 72, T 72, U (Ap) 13)
Esta é como o demo matou a um tafur que dostou a Santa Maria porque perdera.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Quem diz mal
da reinha espirital,
log’ é tal
que merec’ o fog’ infernal.
Ca nom pode dela dizer
mal em que a Deus tanger
nom haja, que quis nacer
dela por Natal.
[Refrão = vv. 1-4]
E desto vos quero contar
miragre que quis mostrar
Deus por sa madre vingar
dum mui mentiral,
[Refrão = vv. 1-4]
que ena taverna beveu
e aos dados perdeu
alg’, e porém descreeu
mui descomunal[Refrão = vv. 1-4]
mente; ca a Deus dostou,
e sa madre nom leixou,
e em seus nembros travou
come desleal.
[Refrão = vv. 1-4]
E, u [el] quis do ventre seu
dizer mal, morte lhe deu
Deus come a fals’ encreu
que de razom sal.
[Refrão = vv. 1-4]
[E] seu padre, quand’ est’ oiu,
de sa cas’ entom saiu;
na via um morto viu
bem di natural,
[Refrão = vv. 1-4]
que lhe disse atal razom:
“– Teu filho, mui mal garçom,
163
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11
90
92
é mort’ e em perdiçom
que nunca mais fal:
[Refrão = vv. 1-4]
nom porque de Nostro Senhor
disse mal, mas que da fror,
sa madre, disse peior;
e porém sinal
[Refrão = vv. 1-4]
ti dou [tal]: que o acharás
pelas costas tod’ atrás
partid’, e lh’ o cor verás
assi per igual,
[Refrão = vv. 1-4]
e a testa e a serviz;
porque da emperadriz
disse mal, Deus foi joiz,
que pod’ e que val”.
[Refrão = vv. 1-4]
E o padre foi log’ ali,
e achou seu filh’ assi
como vos já retraí,
bem oístes qual.
Quem diz mal
da reinha espirital,
log’ é tal
que merec’ o fog’ infernal.
* * *
164
Cantigas de Santa Maria 73
«Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar»
(E 73, T 73, U 89)
Esta é como Santa Maria tornou branca a casula que tingira o vinho vermelho.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar
a que pod’ os pecados das almas lavar.
E dest’ um miragre fremoso vos direi
que avo na Clusa, com’ escrit’ achei,
que fez Santa Maria; e creo e sei
que mostrou outros muitos em aquel logar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
De monges gram convento eram i entom,
que serviam a Virgem mui de coraçom.
Um tesoureir’ i era aquela sazom
que Santa Maria sabia muit’ amar;
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
e, quando algũa cousa lh’ ia falir,
log’ a Santa Maria o ia pedir,
e ela lho dava; porend’ e-na servir
era todo seu sis’ e todo seu cuidar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde lh’ avo que na festa de Natal,
que diziam os monges missa matinal,
filhou ũa casula de branco cendal
po-la ir põer entom sobe-lo altar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E filhou na outra mão, com’ aprendi,
vinho com que fezessem sacrifiç’ ali;
e, indo na carreira, avo-lh’ assi:
que houv’ em ũa pedra a entrepeçar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E avo-lh’ assi: que, quand’ entrepeçou,
que do vinho sobre-la casula ’ntornou,
que era mui vermelho; e tal a parou
como se sangue fresco fossem i deitar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E aquel vinh’ era de vermelha coor
e espessa tam muito que nium tintor
vermelho nom poderia fazer melhor,
40
165
42
e, u caía, no-no podiam tirar.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quando viu o mong’ esto, pesou-lhe tant’ ém
que per poucas houvera de perder o sém;
e diss’ entom: “– Ai madre do que nos mantém,
Virgem Santa Maria, e vem-mi_ajudar!;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e nom me leixes em tal vergonha caer
com’ esta, ca já nunca, enquant’ eu viver,
nom ousarei ant’ o abad’ aparecer,
nem u for o convento ousarei entrar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Esto dizend’ e chorando muito dos seus
olhos, acorreu-lhe log’ a madre de Deus
e fez tal vertude per que muitos romeus
verom de mui long’ a casul’ aorar.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Ca, u vermelha era, tam branca a fez
que o nom fora tanto da primeira vez.
Porém Santa Maria, senhor de gram prez,
loarom quantos oírom desto falar.
68
Bem pod’ as cousas feas fremosas tornar
a que pod’ os pecados das almas lavar.
64
R11
* * *
166
Cantigas de Santa Maria 74
«Quem Santa Maria quiser defender»
(E 74, T 74, U 87)
Esta é como Santa Maria guareceu o pintor que o demo quisera matar porque o pintava feo.
R0
2
I
4
6
Quem Santa Maria quiser defender,
nom lhe pod’ o demo nium mal fazer.
E dest’ um miragre vos quero contar
de como Santa Maria quis guardar
um seu pintor que punhava de pintar
ela mui fremos’ a todo seu poder.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E ao demo mais feo doutra rem
pintava el sempr’; e o demo porém
lhe disse: “– Por que me tes em desdém?,
ou por que me fazes tam mal parecer
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
a quantos me veem?” E el diss’ entom:
“– Esto que ch’ eu faço é com gram razom,
ca tu sempre mal fazes, e do bem nom
te queres per nulha rem entrameter”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Pois est’ houve dit’, o demo s’ assanhou
e o pintor ferament’ amaçou
de o matar, e carreira lhe buscou
per que o fezesse mui cedo morrer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Porend’ um dia o espreitou ali
u estava pintando, com’ aprendi,
a omagem da Virgem, segund’ oí,
e punhnava de a mui bem compõer,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
por que parecesse mui fremos’ assaz.
Mais entom o dem’, em que todo mal jaz,
trouxe tam gram vento como quando faz
mui grandes torvões e que quer chover.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois aquel vento na igreja entrou,
em quanto o pintor estava deitou
em terra; mas el log’ a Virgem chamou,
madre de Deus, que o vess’ acorrer.
40
42
167
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E ela logo tantoste lh’ acorreu
e fez-lhe que eno pinzel se sofreu
com que pintava; e porém nom caeu,
nem lhe pôd’ o dem’ em rem empeecer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E ao gram som que a madeira fez
verom as gentes logo dessa vez,
e virom o demo mais negro ca pez
fugir da igreja u s’ ia perder.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E ar virom com’ estava o pintor
colgado do pinzel. E porém loor
derom aa madre de Nostro Senhor,
que aos seus quer na gram coita valer.
62
Quem Santa Maria quiser defender,
nom lhe pod’ o demo nium mal fazer.
58
R10
* * *
168
Cantigas de Santa Maria 75
«Homildade com pobreza»
(E 75, T 75, U 99)
Esta é como Santa Maria fez veer ao crérigo que era melhor pobreza com homildade ca requeza mal gãada com orgulho e com sobêrvia.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
Homildade com pobreza
quer a Virgem corõada,
mas d’ orgulho com requeza
é ela mui despagada.
E desta razom vos direi | um miragre mui fremoso
que mostrou Santa Maria, | madre do rei grorioso,
a um crérigo que era | de a servir desejoso;
e porém gram maravilha | lhe foi per ela mostrada.
[Refrão = vv. 1-4]
Ena vila u foi esto | havia um usureiro
mui ric’ e muit’ orgulhoso | e soberv’ e torticeiro;
e por Deus nem por sa madre | nom dava sol um dinheiro,
e de seu corpo pensava | muit’, e de sa alma nada.
[Refrão = vv. 1-4]
Outrossi em essa vila | era ũa velhocinha
mui cativa e mui pobre | e de tod’ haver mesquinha;
mas amava Jesu-Cristo | e a sa madr’, a reinha,
mais que outra rem que fosse; | e com tant’ era pagada
[Refrão = vv. 1-4]
tam muito que nom preçava | deste mundo nemigalha;
e porend’ em ũa choça | morava, feita de palha,
e vivia das esmolnas | que lhe davam; e, sem falha,
mui mais se pagava desto | ca de seer bem herdada.
[Refrão = vv. 1-4]
E estando desta guisa, | deu a ela féver forte,
e outrossi ao rico, | per que chegarom a morte:
mas a velha aa Virgem | havia por seu conorte,
e o rico ao demo, | que lhe deu morte coitada.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas o capelám correndo, | quando soube com’ estava
o rico, vo aginha, | porque del haver cuidava
gram peça de seus dinheiros, | ca el por al nom catava;
e diss’: “– Esta ’nfermidade | semelha muit’ aficada;
[Refrão = vv. 1-4]
e porend’ eu vos conselho | que fagades testamento,
169
54
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
e dad’ a nossa igreja | sequer cem marcos d’ arento;
ca, de quant’ aqui nos derdes, | vos dará Deus, por um, cento,
e desta guis’ haveredes | no paraíso entrada”.
[Refrão = vv. 1-4]
A molher, a que pesava | de quequer que el mandasse,
diss’ ao crérigo toste | que daquesto se calasse,
ca seu marido guarria, | e que folgar o leixasse:
entretanto sa fazenda | haveria ordinhada.
[Refrão = vv. 1-4]
Ao crérigo pesava | desto que lh’ ela dizia,
mas, por rem que lhe dissese, | partir nom s’ ende queria;
e o ric’ entom com sanha | mui bravo lhe respondia:
“– Na molher e enos filhos | hei mià alma já leixada”.
[Refrão = vv. 1-4]
O crérig’ assi estando, | de se nom ir perfiado,
ũa moça a el vo | que lhe trouxe tal mandado
da velha: como morria, | e que lhe désse recado
com’ houvesse mãefesto | e que fosse comungada.
[Refrão = vv. 1-4]
Diss’ el entom: “– Vai-te logo, | ca bem vees com’ eu fico
aqui com est’ home bõo, | que é honrad’ e mui rico,
que nom leixarei agora | pola velha, que no bico
tem a mort’ há mais dum ano | e pero nom é finada”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ aquest’ oiu a moça | da velha, foi-se correndo
e achou-a mui coitada | e co-na morte gemendo,
e disso-lh’: “– Aquel moogo | nom verrá, per quant’ entendo,
nem per el, macar moirades, | nom seredes soterrada”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ est’ entendeu a velha, | foi mui trist’ a maravilha
e disso: “– Santa Maria | Virgem, de Deus madr’ e filha,
vem por mià alm’, e nom pares | mentes a mià pecadilha,
ca nom hei quem me comungue | e sõo desamparada”.
[Refrão = vv. 1-4]
Em casa do ric’ estava | um crérigo d’ avangeo
que ao capelám disse: | “– Vedes de que me receo:
se aquesta velha morre, | segund’ eu entend’ e creo,
será-vos de Jesu-Cristo | a sa alma demandada”.
[Refrão = vv. 1-4]
E o capelám lhe disse: | “– Esto nom me conselhedes:
que eu leix’ est’ home bõo; | mais id’ i, se ir queredes,
e, de quant’ alá gãardes, | nulha parte nom me dedes”.
E o evangelisteiro | se foi logo, sem tardada,
[Refrão = vv. 1-4]
170
XVI
126
128
R16 129-132
XVII
134
136
R17 137-140
XVIII
142
144
R18 145-148
XIX
150
152
R19 153-156
XX
158
160
R20 161-164
XXI
166
168
R21 169-172
XXII
174
176
R22 177-180
XXIII
182
184
R23 185-188
XXIV
190
192
R24 193-196
e filhou o Corpus Christi | e o cáliz da igreja;
e, quando foi aa choça, | viu a que beita seja,
madre do que se nom paga | de torto nem de peleja,
seend’ aa cabeceira | daquela velh’ assentada.
[Refrão = vv. 1-4]
E viu com ela na choça | ũa tam gram claridade
que bem entendeu que era | a senhor de piedade.
E el tornar-se quisera, | mas disso-lh’ ela: “– Entrade
co-no corpo de meu filho, | de que eu fui emprenhada”.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois entrou, viu a destro | estar ũas seis donzelas
vestidas de panos brancos, | muit’ apostas e mais belas
que som lílios nem rosas, | mas pero nom de concelas,
outrossi nem d’ alvaialde, | que faz a cara ’nrugada;
[Refrão = vv. 1-4]
e siíam assentadas | em palha, nom em tapede;
e disse a Virgem santa | ao crérigo: “– Seede,
e aquesta molher bõa | comungad’ e assolvede,
como ced’ a paraíso | vaa, u tem já pousada”.
[Refrão = vv. 1-4]
O crérigo, macar teve | que lhe dizia dereito
a Virgem Santa Maria, | nom quis com ela no leito
seer, mais fez aa velha | que se ferisse no peito
com sas mãos e dissesse: | “– Mià culpa, ca fui errada”.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois foi mãefestada, | Santa Maria alçou-a
com sas mãos, e tantoste | o crérigo comungou-a;
e, des que foi comungada, | u xe jazia deitou-a;
e disse-lh’ entom a velha: | “– Senhor, nossa avogada,
[Refrão = vv. 1-4]
nom me leixes mais no mundo | e leva-me já contigo
u eu veja o teu filho, | que é teu padr’ e amigo”.
Respôs-lhe Santa Maria: | “– Mui cedo serás comigo;
mais quero que, ant’, um pouco | sejas já-quanto purgada,
[Refrão = vv. 1-4]
por que, tanto que morreres, | vaas log’ a paraíso
e nom hajas outr’ empeço, | mais sempre goio e riso,
que perdeu per sa folia | aquel rico de mal siso,
por que sa alma agora | será do demo levada”.
[Refrão = vv. 1-4]
E ao crérig’ ar disse: | “– Ide-vos, ca bem fezestes,
e muito sõo pagada | de quam bem aqui vestes;
e, par Deus, melhor conselho | ca o capelám tevestes,
que ficou com aquel rico | por levar del gram soldada”.
[Refrão = vv. 1-4]
171
XXV
198
200
R25 201-204
XXVI
206
208
R26 209-212
XXVII
214
216
R27 217-221
XXVII
222
224
R28 225-229
XXIX
230
232
R29 233-236
XXX
238
240
R30 241-244
XXXI
246
248
R31 249-252
XXXII
254
256
R32 257-260
XXXII
262
264
Entom o crérigo foi-se | a cas do rico maldito,
u o capelám estava | ant’ el em golho fito;
e ar viu a casa cha, | per com’ eu achei escrito,
de diabos que veram | por aquel’ alma julgada.
[Refrão = vv. 1-4]
Entonce se tornou logo | aa choça u leixara
a velha, e viu a Virgem | tam fremosa e tam crara
que o chamou com sa mão | como xo ante chamara,
dizendo: “– Já levar quero | a alma desta menguada”.
[Refrão = vv. 1-4]
Entom disse aa velha: | “– Vem-te comig’, ai amiga,
ao reino de meu filho, | ca nom há rem que che diga
que te log’ em el nom colha, | ca El dereito joíga”.
E tantost’ a molher bõa | foi deste mundo passada.
[Refrão = vv. 1-4]
E ao crérig’ a Virgem | disse que mui bem fezera
e que mui bem s’ acharia | de quanto ali vera;
demais, faria-lh’ ajuda | mui ced’ em gram coita fera;
e, pois aquest’ houve dito, | foi-s’ a bem-aventurada.
[Refrão = vv. 1-4]
E, enquant’ a Virgem disse, | sempr’ o crérig’ os golhos
teve ficados em terra, | chorando muito dos olhos;
e tornou-s’ a cas do rico, | e houv’ i outros antolhos:
ca viu de grandes diabos | a casa toda cercada.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois que entrou, viu outros | maiores que os de fora,
muit’ espantosos e feos, | e negros mui mais ca mora,
dizendo: “– Sal acá, alma, | ca já tempo é e hora
que polo mal que feziste | sejas sempr’ atormentada”.
[Refrão = vv. 1-4]
E a alm’ assi dizia: | “– Que será de mim, cativa?:
mais valvera que nom fosse | eu em este mundo viva,
pois hei de sofrer tal coita | no inferno, tam esquiva!;
agora a Deus prouguesse | que foss’ em poo tornada!”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ o crérigo viu esto, | filhou-se-lh’ ende tal medo
que de perder se houvera; | mas acorreu-lhe mui cedo
a Virgem Santa Maria, | que o tirou pelo dedo
fora daquel logar mao, | como senhor mesurada.
[Refrão = vv. 1-4]
E disse-lhe: “– Para mentes | em quant’ agor’ aqui viste,
[e] outrossi ena choça, | ali u migo seviste;
que bem daquela maneira | que o tu tod’ entendiste
o conta log’ aas gentes | sem niũa delongada”.
172
R33 265-268
XXXI
270
272
R34
274
276
[Refrão = vv. 1-4]
O crérigo fez mandado | da Virgem, de bem comprida,
e, mentre viveu no mundo, | foi home de santa vida;
e depois, quando lh’ a alma | de sa carne foi saída,
levou-a Santa Maria; | e ela seja loada.
Homildade com pobreza
quer a Virgem corõada,
mais d’ orgulho com requeza
é ela mui despagada.
* * *
173
Cantigas de Santa Maria 76
«Que-nas sas figuras da Virgem partir»
(E 76, T 76)
Esta é como Santa Maria deu seu filho aa bõa molher, que era morto, em tal que lhe désse o
seu que filhara aa sa omagem dos braços.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
Que-nas sas figuras | da Virgem partir
quer das de seu filho, | fol é, sem mentir.
Porend’ um miragre | vos quer’ eu ora contar
mui maravilhoso, | que quis a Virgem mostrar
por ũa molher que | muito [con]fiar
sempr’ em ela fora, | segund fui oir.
[Refrão = vv. 1-2]
Esta molher bõa | ho[u]v’ um filho malfeitor
e ladrom mui fort’, e | tafur e pelejador;
e tanto lh’ andou o | dem’ em derredor
que o fez nas mãos | do juiz vĩir.
[Refrão = vv. 1-2]
E, poi-lo achou com | furto que fora fazer,
mandou-o tantoste | em ũa forca põer;
mas sa madr’ houvera | por el a perder
o sém, e com coita | filhou-s’ a carpir.
[Refrão = vv. 1-2]
E, como molher que | era fora de [seu] sém,
a ũa eigreja | foi da madre do que tem
o mund’ em poder, e | [er] disse-lhe: “– Rem
nom podes se meu filho nom resurgir”.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois est’ houve dito, | tam gram sanha lhe creceu
que aa omagem | foi e lh’ o filho tolheu,
per força, dos braços | e desaprendeu,
dizend’: “– Este terrei | eu trões que vir
[Refrão = vv. 1-2]
o meu sã’ e vivo | vĩir, sem lijom nem mal”.
Quand’ est’ houve dito, | log’ a madre ’spirital
resurgiu o dela, | que vo, sem al,
dizendo: “– Sandia, | mal fuste falir,
[Refrão = vv. 1-2]
madre, porque fuste | filhar seu filho dos seus
braços da omagem | da Virgem, madre de Deus;
174
42
R7 43-44
VIII
[Refrão = vv. 1-2]
48
[E] quand’ a molher viu | o gram miragre que fez
a Virgem Maria, | que é senhor de gram prez,
tornou-lhe seu filho; | e log’ essa vez
meteu-s’ em ordem, po-la melhor servir.
50
Que-nas sas figuras da Virgem partir
quer das de seu filho, fol é, sem mentir.
46
R8
porém m’ enviou que | [eu] entr’ ontr’ os teus,
per que tu bem possas | comigo goir”.
* * *
175
Cantigas de Santa Maria 77
«Da que Deus mamou o leite do seu peito»
(E 77, T 77)
Esta LXXVII é como Santa Maria sãou na sa igreja de Santa Maria de Lugo ũa molher contreita dos pees e das mãos.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
Da que Deus mamou o leite do seu peito,
nom é maravilha de sãar contreito.
Desto fez Santa Maria miragre fremoso
ena sa igrej’ em Lugo, grand’ e piadoso,
por ũa molher que havia tolheito
o mais de seu corp’, e de mal encolheito,
[Refrão = vv. 1-2]
que amba-las suas mãos assi s’ encolheram
que bem por cabo dos ombros todas se meteram,
e os calcanhares bem em seu dereito
se meterom todos no corpo maltreito.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois viu que lhe nom prestava nulha meezinha,
tornou-s’ a Santa Maria, a nobre reinha,
rogando-lhe que nom catasse despeito,
se lh’ ela fezera, mais a seu proveito
[Refrão = vv. 1-2]
parasse mentes, em guisa que a guarecesse;
se nom, que fezess’ assi per que cedo morresse;
e logo se fezo levar em um leito
ant’ a sa igreja, pequen’ e estreito.
[Refrão = vv. 1-2]
E ela, ali jazendo, fez mui bõa vida
trões que lh’ houve mercee a senhor comprida
eno mês d’ agosto, no dia ’scolheito,
na sa festa grande, como vos retreito
[Refrão = vv. 1-2]
será agora per mim. Ca em aquele dia
se fez meter na igreja de Santa Maria;
mas a santa Virgem nom alongou preito,
mas tornou-lh’ o corpo todo escorreito.
[Refrão = vv. 1-2]
Pero avo-lh’ atal: que, ali u sãava,
cada um nembro per si mui de rij’ estalava,
bem come madeira mui seca de teito,
176
42
R7 43-44
VIII
46
48
R8
50
quando s’ estendia o nérvio_encolheito.
[Refrão = vv. 1-2]
O bisp’ e toda a gente, deante estando,
veend’ aquest’ e oind’, e de rijo chorando,
virom que miragre foi, e nom trasjeito;
porende loarom a Virgem afeito.
Da que Deus mamou o leite do seu peito,
nom é maravilha de sãar contreito.
* * *
177
Cantigas de Santa Maria 78
«Nom pode prender nunca morte vergonhosa»
(E 78, T 78, U 53)
Esta é como Santa Maria guardou um privado do conde de Tolosa que nom fosse queimado
no forno, porque oía sa missa cada dia.
R0
2
I
4
6
Nom pode prender nunca morte vergonhosa
aquele que guarda a Virgem groriosa.
Porém, meus amigos, rogo-vos que m’ ouçades
um mui gram miragre que quero que sabiades
que a Santa Virgem fez, per que entendades
com’ aos seus servos é sempre piedosa.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E daquest’ avo, gram temp’ há já passado,
que houv’ em Tolosa um conde mui preçado;
e aquest’ havia um home seu privado
que fazia vida come religiosa.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Entr’ os outros bes muitos que el fazia,
mais que outra rem amava Santa Maria,
assi que outra missa nunca el queria
oir erg’ a sua, nem lh’ era saborosa.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E outros privados que com el-cond’ andavam
haviam-lh’ enveja, e porende punhavam
de com el volvê-lo, porque des i cuidavam
haver com el-conde sa vida mais viçosa.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, sobr’ esto, tanto com el-conde falarom
que aquel bom home mui mal com el mezcrarom;
e de taes cousas a el o acusarom
per que lhe mandava dar morte doorosa.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, que nom soubessem de qual morte lhe dava,
por um seu caleiro atantost’ enviava
e um mui gram forno acender lho mandava
de lenha mui grossa que nom fosse fumosa.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E mandou-lhe que o primeiro que chegasse
hom’ a el dos seus, que tantoste o filhasse
e que sem demora no forno o deitasse,
40
178
42
e que i ardesse a carne del astrosa.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Outro di’ el-conde ao que mezcrad’ era
mando’-o ir que fosse veer se fezera
aquel seu caleiro o que lh’ ele dissera,
dizend’: “– Esta via nom te seja nojosa”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, u ele ia cabo de sa carreira,
achou ũ’ ermida que estava senlheira,
u diziam missa bem de mui gram maneira
de Santa Maria, a Virgem preciosa.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E logo tantoste entrou ena igreja
e diss’: “– Esta missa, a comoquer que seja,
oirei eu toda, por que Deus de peleja
me guard’ e de mezcra maa e revoltosa”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Enquant’ el a missa oía bem cantada,
teve já el-conde que a cous’ acabada
era que mandara, e porém sem tardada
enviou outr’ home, natural de Tolosa,
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
(e aquel hom’ era o que a mezcra feita
houvera e toda de fond’ a cima treita),
e disse-lhe: “– Logo vai corrend’ e asseita
se fez o caleiro a justiça fremosa”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Tantoste correndo foi-s’ aquel fals’ arteiro,
e nom teve via, mas per um semedeiro
chegou ao forno; e logo o caleiro
o deitou na chama fort’ e perigoosa.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
O outro, pois toda a missa houv’ oída,
foi ao caleiro e disse-lh’: “– Hás comprid’ a
voontade del-conde?” Diss’ el: “– Sem falida;
se nom, nunca faça eu mià vida goiosa”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Entom do caleiro se partia tantoste
aquel home bõo e per um gram recoste
se tornou al-conde, e dentr’ em sa reposte
contou-lh’ end’ a hestória maravilhosa.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Quando viu el-conde aquele que chegara
ant’ ele viv’, e soube de como queimara
94
179
96
o caleir’ o outro (que aquele mezcrara),
teve-o por cousa d’ oir muit’ espantosa.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
102
E disse chorando: “– Virgem, beita sejas,
que nunca te pagas de mezcras nem d’ envejas;
porém farei ora per todas tas igrejas
contar este feito e com’ és poderosa”.
104
Nom pode prender nunca morte vergonhosa
aquele que guarda a Virgem groriosa.
100
R17
* * *
180
Cantigas de Santa Maria 79
«Ai Santa Maria»
(E 79, T 79, U 42)
Esta é como Santa Maria tornou a meninha que era garrida, corda, e levou-a sigo a paraíso.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Ai Santa Maria,
quem se por vós guia
quit’ é de folia
e sempre faz bem.
Porend’ um miragre | vos direi, fremoso,
que fezo a madre | do rei grorioso,
e de oir seer- | -vos-á saboroso,
e prazer-mi_á ém.
[Refrão = vv. 1-4]
Aquesto foi feito | por ũa meninha
que chamavam Musa, | que mui fremosinha
era e aposta, | mas garridelinha
e de pouco sém.
[Refrão = vv. 1-4]
E, esto fazendo, | a mui groriosa
pareceu-lh’ em sonhos, | sobejo fremosa,
com muitas meninhas | de maravilhosa
beldad’; e porém
[Refrão = vv. 1-4]
quisera-se Musa | ir com elas logo.
Mas Santa Maria | lhe diss’: “– Eu te rogo
que, se mig’ ir queres, | leixes ris’ e jogo,
orgulh’ e desdém;
[Refrão = vv. 1-4]
e, se esto fazes, | d’ hoj’ a trinta dias
seerás comig’ entr’ | estas companhias
de moças que vees, | que nom som sandias,
ca lhes nom convém”.
[Refrão = vv. 1-4]
Atant’ houve Musa | sabor das companhas
que em visom vira, | que leixou sas manhas
e filhou log’ outras, | daquelas estranhas,
e nom quis alrem.
[Refrão = vv. 1-4]
O padr’ e a madre, | quand’ aquesto virom,
preguntarom Musa; | e, pois que lh’ oírom
181
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10
82
84
contar o que vira, | mercee pedirom
a que-nos mantém.
[Refrão = vv. 1-4]
A vint’ e seis dias | tal féver aguda
filhou log’ a Musa | que jouve tenduda;
e Santa Maria | lh’ houv’ apareçuda,
que lhe disse: “– Vem,
[Refrão = vv. 1-4]
vem pera mi toste”. | Respôs-lhe: “– De grado”.
E quando o prazo | dos dias chegado
foi, seu espirito | houve Deus levado
u dos outros tem
[Refrão = vv. 1-4]
santos. E porém seja de nós rogado
que eno joízo, | u verrá irado,
que nos ache quitos | d’ err’ e de pecado;
e dized’: “Amém!”
Ai Santa Maria,
quem se por vós guia
quit’ é de folia
e sempre faz bem.
* * *
182
Cantigas de Santa Maria 80
«De graça cha e d’ amor»
(E 80, T 70, U 90)
Esta é de loor de Santa Maria, de como a saudou o ángeo.
R0
2
I
De graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
6
Santa Maria, se te praz,
pois nosso bem tod’ em ti jaz
e que teu filho sempre faz
por ti o de que hás sabor,
8
de graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
4
R1
II
12
E pois que contigo é Deus,
acorr’ a nós, que somos teus,
e faz-nos que sejamos seus
e que perçamos del pavor.
14
De graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
10
R2
III
18
Ontr’ as outras molheres tu
és beita porque JesuCristo parist’; e porend’, u
nos for mester, razõador
20
De graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
16
R3
IV
24
sei por nós, pois que beit’ é
o fruito de ti, a-la-fé;
e, pois tu sees u El sé,
roga por nós u mester for.
26
De graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
22
R4
V
30
Punha, senhor, de nos salvar,
pois Deus por ti quer perdõar
mil vegadas, se mil errar
eno dia o pecador.
32
De graça cha e d’ amor
de Deus, acorre-nos, senhor.
28
R5
* * *
183
Cantigas de Santa Maria 81
«Par Deus, tal senhor muito val»
(E 81, T 81, U 48)
Esta é como Santa Maria guareceu a molher do fogo de Sam Marçal, que lh’ havia comesto
todo o rostro.
R0
2
4
6
8
R1 9-10
12
14
16
R2 17-18
20
22
24
R3 25-26
28
30
32
R4 33-34
36
38
40
R5 41-42
Par Deus, tal senhor muito val
que toda door tolh’ e mal.
Esta senhor que dit’ hei
é Santa Maria,
que a Deus, seu filho rei,
roga todavia,
sem al,
que nos guarde do infernal
[Refrão = vv. 1-2]
fogo, e ar outrossi
do daqueste mundo,
des i doutro que há i,
com’ oí, segundo,
que sal
algũa vez por Sam Marçal,
[Refrão = vv. 1-2]
de que sãou ũa vez
bem a Gondianda,
ũa molher que lhe fez
rogo e demanda
atal
per que lhe nom ficou sinal
[Refrão = vv. 1-2]
daquele fogo montês
de que laida era,
onde tam gram dano prês
que porém posera
cendal
ant’ a faz com coita mortal,
[Refrão = vv. 1-2]
de que atám bem sãou
a Virgem aquesta
molher que logo tornou-lh’ a carne comesta
igual
e com sa coor natural,
[Refrão = vv. 1-2]
tam fremosa que entom
184
44
48
quanto-la catavam,
a Virgem, de coraçom,
chorando, loavam,
a qual
é dos coitados hespital.
50
Par Deus, tal senhor muito val
que toda door tolh’ e mal.
46
R6
* * *
185
Cantigas de Santa Maria 82
«A Santa Maria mui bom servir faz»
(E 82, T 82, U (Ap) 5)
Esta é como Santa Maria guardou um monge dos diáboos que o quiseram tentar e se lhe
mostrarom em figuras de porcos po-lo fazer perder.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A Santa Maria mui bom servir faz,
pois ela o poder do demo desfaz.
Ond’ avo desto que em Conturbel
fez Santa Maria um miragre bel
por um monge bõo, cast’ e mui fiel,
que viu de diabres vĩir mui grand’ az.
[Refrão = vv. 1-2]
Em seu leito, u jazia por dormir,
viu-os come porcos contra si vĩir
atám espantosos que, per rem, guarir
nom cuidava, e dizia-lhes: “– Az, az!”.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El assi estando em mui gram pavor,
viu entrar um home negro de coor,
que diss’ aos porcos: “– Log’ a derredor
dele vos meted’, e nom dórmia em paz”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Eles responderom: “– Aquesto fazer
queremos de grado, mas nium poder
de fazer-lhe mal nom podemos haver,
por gram santidade que em ele jaz”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E aquel diabo lhes respôs assi:
“– Pois vós nom podedes, ar leixad’ a mi,
que com estes gárfios que eu trag’ aqui
o desfarei, pero que trage frocaz”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
O frad’, est’ oindo, espantou-se mal
e chamou a Virgem, a que nunca fal
aas grandes coitas, dizendo-lhe: “– Val-me, ca de gram medo hei end’ eu assaz”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E a groriosa tantoste chegou
e ant’ aquel frade logo se parou
e com ũa vara mal amaçou
40
186
42
aquela companha do demo malvaz,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
dizendo: “– Como vós ousastes parar
ant’ este meu frade ne-no espantar?;
porém no inferno ide log’ entrar
com vosso mal rei, mui peor que rapaz”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Quand’ eles oírom aquesta razom,
como fumo se desfezerom entom;
e a Virgem santa mans’ e em bom som
confortou o frade, dizend’: “– A mi praz
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
da vida que fazes; e porende bem
fás d’ hoj’ adeante que nom leixes rem
de fazeres quant’ a ta ordem convém”.
Esto dito, tolheu-xe-lhe dant’ a faz.
62
A Santa Maria mui bom servir faz,
pois ela o poder do demo desfaz.
58
R10
* * *
187
Cantigas de Santa Maria 83
«Aos seus acomendados»
(E 83, T 83, U (Ap) 14)
Esta é como Santa Maria sacou de cativo de terra de mouros a um home bõo que se lh’
acomendara.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Aos seus acomendados
a Virgem tost’ há livrados
de mortes e de prijões;
e por aquesto, varões,
sempr’ os vossos corações
em ela sejam firmados.
[Refrão = vv. 1-2]
E desto Santa Maria
de Sopetrám fez um dia
miragr’ em Andaluzia
a um que por seus pecados
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
fora caer em cativo,
u jazia tam esquivo
que nom cuidou sair vivo
ante marteiros dobrados
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que lhe davam, e gram pa,
porque era de Luca;
sem tod’ est’, em gram cada
de noite tras cadados
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
jazia, e em escura
cárcer, e em gram ventura
de morrer. Porém na pura
Virgem tornou seus cuidados,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que em Sopetrám aoram
muitos e ant’ ela choram;
porém muito nom demoram
que nom sejam perdõados
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
d’ erros e de maos feitos;
demais, cegos e contreitos
sãa, e gafos maltreitos
40
188
42
e muitos demoniados
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
e doutras enfermidades,
e que por sas piedades
saca de catividades
muitos. Foss’ el nos sacados:
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
este rogo lhe fezera
muitas vezes e dissera,
u el preitejado era
por maravidis talhados
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que pagar havia cedo.
E el, jazend’ em gram medo,
viu as portas abrir quedo
da cárcer, e viu britados
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
seus ferros e que dormiam
os que o guardar soíam,
que tam gram sono haviam
que nom eram acordados.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
El, quand’ esto viu, ergendo
se foi pass’, e, pois, correndo
fogiu e, segund’ aprendo,
chegou a dias contados
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
a Sopetrám, cabo Fita.
E, pois esta cousa dita
houve, logo foi escrita,
e muitos loores dados
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
aa Virgem groriosa,
madre de Deus piadosa,
porque sempr’ é poderosa
d’ acorrer aos coitados.
86
Aos seus acomendados
a Virgem tost’ há livrados.
82
R14
* * *
189
Cantigas de Santa Maria 84
«O que em Santa Maria crever bem de coraçom»
(E 84, T 84, U 98)
Esta é como Santa Maria resucitou a molher do cavaleiro, que se matara porque lhe disse o
cavaleiro que amava mais outra ca ela, e dizia-lhe por Santa Maria.
R0
2
I
4
6
O que em Santa Maria | crever bem de coraçom,
nunca receberá dano | nem gram mal nem ocajom.
E daquest’ um gram miragre | oíd’ ora, de que fix
um cantar da Virgem santa, | que eu dum bom hom’ aprix,
e ontr’ os outros miragres | porende metê-lo quix,
porque sei, se o oirdes, | que vos valrá um sermom.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi dum cavaleiro | que casad’ era mui bem
com dona meninh’ e bela, | que amou mais doutra rem,
e ela a el amava | que xe perdia o sém;
e do mal que dest’ avo | vos contarei a razom.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
O cavaleir’ era bõo | de costumes e sem mal,
e mais doutra rem amava | a Virgem espirital;
e, por esto, de sa casa | fezera um gram portal
bem atro ena igreja, | por ir fazer oraçom.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Porque aquela igreja | era da madre de Deus,
cada noite s’ esfurtava | de sa molher e dos seus,
e ant’ a omagem s’ ia, | dizend’: “– Os pecados meus
som muitos, mas per ti creo | gaanhar deles perdom”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
El aquest’ assi fazendo, | sa molher mentes parou
em como se levantava, | e de mal o sospeitou;
e por aquesta sospeita | ũa vez lhe preguntou:
“– U ides assi, marido, | de noite come ladrom?”
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
El entom assi lhe disse: | “– Nom sospeitedes de mi,
que vos nium torto faço | nem fiz des quando vos vi”.
A molher entom calou-se, | que lhe nom falou mais i;
e pero parou i mentes | sempre mui mais des entom.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ond’ avo pois um dia | que siam a seu jantar,
e, pois houverom jantado, | começou-lh’ a preguntar
a dona a seu marido | muito e a conjurar
se el amava mais outra, | que dissesse si ou nom.
40
42
190
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
El lhe respôs, com’ em jogo: | “– Pois vos praz, dizer-vo-l’-ei:
outra dona mui fremosa | amo muit’ e amarei
mais doutra cousa do mundo | e por seu sempr’ andarei”.
A dona tornou por esto | mais negra que um carvom;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e tomou log’ um cuitelo, | com que talhavam o pam,
e deu-se com el no peito | ũa ferida atám
grande que, sem outra cousa, | morreu logo manamám.
Diss’ entom o cavaleiro: | “– Ai Deus, que maa vijom!”
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E filhou sa molher logo | e deitou-a, sem mentir,
em seu leito e cobriu-a, | e nom quiso que sair
podess’ home de sa casa; | e a porta foi abrir
da igreja e correndo | entrou i de gram random,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e parou-s’ ant’ a omagem | e disso assi: “– Senhor,
mià molher que muit’ amava | perdi polo teu amor;
mas tu, senhor, que sofriste | gram coita e gram door
por teu filho, dá-mi_a viva | e sãa ora em dom”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
El assi muito chorando, | a Virgem lh’ apareceu
e diss’ ao cavaleiro: | “– O meu filho recebeu
o rogo que me feziste | e a ta molher viveu
pola ta firme creença | e por ta gram devoçom”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
El entom tornou-se logo | e foi sa molher veer,
e achou-a viv’ e sãa, | e houv’ ém mui gram prazer.
Entom el e sa companha | começarom beizer
a Virgem Santa Maria, | cantando em mui bom som.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
El mandou abrir as portas, | e as gentes vĩir fez,
que vissem aquel miragre, | que a reinha de prez
fezera daquela dona. | Mas log’ ambos, dessa vez,
por melhor servir a Virgem, | filharom religiom.
86
O que em Santa Maria | crever bem de coraçom,
nunca receberá dano | nem gram mal nem ocajom.
82
R14
* * *
191
Cantigas de Santa Maria 85
«Pera tolher gram perfia»
(E 85, T 85)
Esta é como Santa Maria livrou de morte um judeu que tiinham preso ũus ladrões, e ela solto’-o da prijom e feze-o tornar crischão.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
Pera tolher gram perfia
bem dos corações,
demostra Santa Maria
sas grandes visões.
Onde direi um miragre | que em Englaterra
demostrou Santa Maria, | a que nunca erra,
por converter um judeu que | prenderam ladrões,
a que chagas grandes deram | e pois torcilhões.
[Refrão = vv. 1-4]
Os ladrões que fezerom | est’ eram crischãos;
e, poi-lo houverom feito, | atarom-lh’ as mãos
e os pees e derom-lhe | muitas com bastões,
que lhes esterlĩis désse, | ca nom pepiões.
[Refrão = vv. 1-4]
Desta guisa o teverom | fora do caminho
atad’ em ũa gram casa | velha, o mesquinho;
e derom-lhe pam e água | aqueles peões,
em tal que lhes nom morress’ e | houvessem quinhões
[Refrão = vv. 1-4]
do seu haver. Mas el co-nas | pas que sofria
adormeceu, e em sonhos | viu Santa Maria
mais fremosa que o sol; e | logo lh’ as prijões
quebrantou, e foi guarido | de todas lijões.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois que sonhou aquesto, | foi logo desperto;
ar viu-a espert’ estando, | de que foi bem certo;
e, por saber mais quem era, | fez sas orações
que lhe dissesse seu nome, | e dar-lh’-ia dões.
[Refrão = vv. 1-4]
E ela lhe disse logo: | “– Pára-mi bem mentes,
ca eu sõo a que tu e | todos teus parentes
havedes mui gram desamor | em todas sazões,
e matastes-me meu filho | come mui felões;
[Refrão = vv. 1-4]
e porém mostrar-te quero | o bem que perdedes
192
54
56
e o mal que, pois morrerdes, | logo haveredes,
que em mim e em meu filho | vossas entenções
tornedes e recebades | bõos galardões”.
[Refrão = vv. 1-4]
R7 57-60
VIII
62
64
Entom o prês pela mão | e tirou-o fora
dali, e sobr’ um gram monte | o pôs essa hora
e mostrou-lhe um gram vale | cho de dragões
e doutros diabos, negros | mui mais que carvões,
[Refrão = vv. 1-4]
R8 65-68
IX
70
72
que mais de cem mil maneiras | as almas pavam
dos judeus, que as coziam | e pois a[s] assavam
e as faziam arder assi como tições,
e queimando-lhe-las barvas | e pois os granhões.
[Refrão = vv. 1-4]
R9 73-76
X
78
80
Quand’ o judeu viu aquesto, | foi end’ espantado;
mas tantoste foi a outro | gram monte levado,
u viu seer Jesu-Cristo | com religiões
d’ ángeos, que sempre cantam | ant’ el doces sões.
[Refrão = vv. 1-4]
R10 81-84
XI
86
88
E viu de muitas maneiras | i santas e santos
muit’ alegres, que cantavam | saborosos cantos,
que rogam polos crischãos | que Deus d’ ocajões
os guarde e do diab’ e | de sas tentações.
[Refrão = vv. 1-4]
R11 89-92
XII
94
96
Santa Maria lhe disse, | pois est’ houve visto:
“– Estes som meus e de meu filho, Deus Jesu-Cristo,
com que serás se creveres | em El, e leitões
comeres, e leixares a | degolar cabrões”.
R12 97-100
XIII
Pois que Santa Maria lhe | diss’ este fazfeiro,
102 leixo’-o; e el foi-se log’ | a um mõesteiro,
u achou um sant’ abade | com seus companhões,
104 que partirom mui de grado | com el sas rações.
R13 105-108
XIV
R14
[Refrão = vv. 1-4]
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois que ant’ o convento | contou quanto vira,
110 o abad’ o fez crischão | logo, sem mentira.
E deste feito forom pelas terras pregões,
112 por que a Santa Maria | derom ofreções.
114
116
Pera tolher gram perfia
bem dos corações,
demostra Santa Maria
sas grandes visões.
* * *
193
Cantigas de Santa Maria 86
«Acorrer-nos pode e de mal guardar»
(E 86, T 86, U 28)
Esta é como Santa Maria livrou a molher prenhe que nom morresse no mar e fez-lhe haver
filho dentro nas ondas.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
Acorrer-nos pode e de mal guardar
a madre de Deus, se per nós nom ficar.
Acorrer-nos pode quando xe quiser
e guardar de mal cada que lhe prouguer,
bem como guardou ũa pobre molher
que cuidou morrer enas ondas do mar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Eno mar que cerca o mund’ arredor,
na terra que chamam «Bretanha Maior»,
fez a santa madre de Nostro Senhor
um gram miragre que vos quero contar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
O miragre foi muit’ apost’ e mui bel
que Santa Maria fez por Sam Miguel,
que é companheiro de Sam Gabriel,
o ángeo que a vo saudar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
De Sam Migael, o ángeo de Deus,
era ũ’ ermida, u muitos romeus
iam i rogar polos pecados seus,
que Deus lhos quisesse por el perdõar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
O logar era de mui gram devoçom,
mas nom podia hom’ alá ir se nom
menguass’ ant’ o mar, ca em outra sazom
nom podia rem ém sair nem entrar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E porend’ um dia avo assi:
que ũa molher prenhe entrou per i,
mas o mar creceu e colheu-a ali,
e nom se pôd’ ir: tanto nom pôd’ andar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
A pobre molher, macar quis, nom fugiu,
ca o mar de todas partes a cobriu;
40
194
42
e, pois s’ a mesquinha em tal coita viu,
começou Santa Maria de chamar.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
A molher, sem falha, cuidou a fĩir
quando viu o mar que a vo cobrir;
e, demais, chegou-lh’ o tempo de parir;
e por tod’ esto nom cuidou escapar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Mas a Santa Virgem que ela rogou
oiu-lhe seu rog’, e tantoste chegou
e a sua manga sobr’ ela parou,
que a fez parir e as ondas quedar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Pois Santa Maria, a senhor de prez,
este miragre daquela molher fez,
com seu filh’ a pobre se foi essa vez
log’ a Sam Miguel o miragre mostrar.
62
Acorrer-nos pode e de mal guardar
a madre de Deus, se per nós nom ficar.
58
R10
* * *
195
Cantigas de Santa Maria 87
«Muito punha d’ os seus honrar»
(E 87, T 87, U 21)
Como Santa Maria mandou que fezessem bispo ao crérigo que dizia sempre sas horas.
E começa assi:
R0
2
I
6
E desto vos quero contar
um gram miragre que mostrar
quis a Virgem, que nom há par,
na cidad’ de Pavia.
8
Muito punha d’ os seus honrar
sempre Santa Maria.
4
R1
II
12
Um crérig’ houv’ i sabedor
de todo bem e servidor
desta groriosa senhor
quant’ ele mais podia.
14
D’ honrar os seus há gram sabor
sempre Santa Maria.
10
R2
III
18
Ond’ avo que conteceu,
poi-lo bispo dali morreu,
a um sant’ hom’ apareceu
a Virgem que nos guia.
20
Aos seus honrou e ergeu
sempre Santa Maria.
16
R3
IV
24
E pois lhe foi aparecer,
começou-lh’ assi a dizer:
“– Vai, di que façam esleer
crás em aquele dia
26
Os seus faz honrados seer
sempre Santa Maria.
22
R4
V
30
por bisp’ um que Jerónim’ há
nome; ca tanto sei del já:
que me serve e servid’ há
bem, com’ a mi prazia”.
32
Os seus honrou e honrará
sempre Santa Maria.
28
R5
Muito punha d’ os seus honrar
sempre Santa Maria.
VI
34
36
Poi-lo sant’ home s’ espertou,
ao cabidoo contou
o que lh’ a Virgem nomeou
que por bispo queria.
196
R6
38
VII
42
Acordados dum coraçom
fezerom del sa esleiçom,
e foi bisp’ a pouca sazom,
ca be-no merecia.
44
Os seus honrou com gram razom
sempre Santa Maria.
40
R7
D’ os seus honrar muito punhou
sempre Santa Maria.
* * *
197
Cantigas de Santa Maria 88
«Quem servir a madre do gram rei»
(E 88, T 88, U (Ap) 11)
Esta é como Santa Maria fez a um fisico que se metera monge, que comesse das vidas que os
outros monges comiam, que a el soíam mui mal saber.
E começa:
R0
2
4
I
5
7
9
11
R1 12-15
II
16
18
20
22
R2 23.26
III
27
29
31
33
R3 34-37
IV
38
40
42
44
R4 45-48
V
49
Quem servir a madre do gram rei,
bem sei
que será de mal guardado,
com’ ora vos contarei,
em um miragre, de grado,
segund’ eu oí contar:
que no mõesteir’ honrado
de Claraval foi entrar
um monge mui leterado,
que sabia bem obrar
de física, com’ achei.
[Refrão = vv. 1-4]
E, porque acostumado
fora de mui bem jantar
ante que foss’ ordinhado,
e outrossi bem car,
e comer carn’ e pescado,
e bom vinho nom leixar
nem bom pam, com’ apres’ hei,
[Refrão = vv. 1-4]
porend’ era mui coitado
em haver a jejũar
e comer verças de prado
sem sal nem pont’ i deitar,
e bever vinho botado,
e por bom pam nom catar.
E sobr’ esto vos direi
[Refrão = vv. 1-4]
que fez este malfadado
com coita e com pesar
de que era lazerado:
co-nos monges foi falar
e disse-lhes: “– Est’ estado
vós nom podedes durar,
segundo vos mostrarei:
[Refrão = vv. 1-4]
ca nom há tam arrizado
de vós que possa cantar
198
51
53
55
R5 56-59
VI
60
62
64
66
R6 67-70
VII 71
73
75
77
R7 78-81
VIII 82
84
86
88
R8 89-92
IX
93
95
97
99
R9 100-103
X
104
106
108
110
R10 111-114
XI
115
117
se muit’ houver jajũado,
nem s’ aas horas levar
se comer nom lhe for dado
que o faça esforçar;
porend’ eu daqui ir-m’-ei”.
[Refrão = vv. 1-4]
Dizend’ aquesto, torvado
houve tod’ aquel logar,
e o convent’ abalado
com seu mao sermõar,
que era já arrufado
por comeres demandar
que defend’ órdim e lei.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas um dia sinaado
em que Deus quis encarnar,
o convento foi levado
de comer, e a rezar
se filharom bem provado
por aa_eigreja passar
com seu «Miserere mei».
[Refrão = vv. 1-4]
Aquel mong’ ia irado
e no-nos quis ajudar,
ca nom fora avondado
nem se podera fartar;
e, ind’ assi, viu de lado
cabo da porta estar
a Virgem de que falei,
[Refrão = vv. 1-4]
que tev’ um vaso dourado
cho de nobre manjar
dum leitoairo preçado,
de que se filhou a dar
a cada monge bocado,
com que os foi confortar,
erg’ a este que dit’ hei,
[Refrão = vv. 1-4]
que dela nom foi amado,
porque queria obrar
per Hipocras, o loado;
porém o foi desdenhar:
quand’ o golho ficado
houv’ ant’ ela e rogar
foi, e diss’: “– Eu que farei?”,
[Refrão = vv. 1-4]
diss’ ela: “– Nom é pensado
que desto possas filhar
se nom leixas teu cuidado
fol, que te faz mal cuidar”.
199
119
121
R11 122-125
XII 126
128
130
132
R12
134
136
Entom se deu por culpado
muit’, e filhou-s’ a chorar,
e disse: “– Leixá-lo-ei”.
[Refrão = vv. 1-4]
Do leitoairo sagrado
lhe deu logo, sem tardar,
e, des i, foi castigado
por comer nom murmurar;
e, com’ hom’ escarmentado,
em todo foi emendar.
Aqui vo-lo acabei.
Quem servir a madre do gram rei,
bem sei
que será de mal guardado,
com’ ora vos contarei.
* * *
200
Cantigas de Santa Maria 89
«A madre de Deus honrada»
(E 89, T 89, U (Ap) 12)
logo.
Esta é como ũa judea que estava de parto nom podia parir, e chamou Santa Maria e pariu
R0
1
3
II
4
6
8
10
R1 11-13
II
14
16
18
20
R2 21-23
III
24
26
28
30
R3 31-33
IV
34
36
38
40
R4 41-43
V
44
46
48
50
A madre de Deus honrada
chega sem tardada
u é com fé chamada.
E um miragre disto
direi que fez a groriosa
madre de Jesu Cristo,
a reinha mui piadosa,
por ũa jude’ astrosa
que era coitada
e a morte chegada.
[Refrão = vv. 1-3]
Ca o prazo chegado
era em que parir devia,
mas polo seu pecado
aquesto fazer nom podia,
porque de Santa Maria
nom criía nada
que verdad’ é provada.
[Refrão = vv. 1-3]
Ela assi jazendo,
que era mais morta ca viva,
braadand’ e gemendo
e chamando-se mui cativa,
com tam gram door esquiva
que desamparada
foi, e desasperada
[Refrão = vv. 1-3]
era já d’ haver vida
nem lhe prestarem meezinhas.
Porend’ a mui comprida
reinha das outras reinhas,
acorredor das mesquinhas,
sem gram demorada
lh’ houve log’ enviada
[Refrão = vv. 1-3]
tamanha craridade
bem come se o sol entrasse
ali; e de verdade
lhe diss’ ũa voz que chamasse
de coraçom e rogasse
a santivigada
a bem-aventurada
201
R5 51-53
VI
54
56
58
60
R6 61-63
VII 64
66
68
70
R7 71-73
VIII 74
76
78
80
R8 81-83
IX
84
86
88
90
R9 91-93
X
[Refrão = vv. 1-3]
madre de Deus com rogo,
que é cha de gram vertude.
E ela o fez logo,
e houve filho e saúde,
porque cedo, se mi_ajude
Deus, foi delivrada
e a sa madre dada.
[Refrão = vv. 1-3]
Pois Maria oírom
as judeas que a guardavam
chamar, todas fugirom
da casa e a dostavam
e «hereja» a chamavam
muit’ e «renegada»
e «crischãa tornada».
[Refrão = vv. 1-3]
Mas ela, por peleja
nom haver com essas sandias,
dereit’ aa eigreja
se foi depo-los trinta dias,
que nom atendeu Messias,
mas dessa entrada
foi logo batiçada.
[Refrão = vv. 1-3]
E trouxe dous meninhos
sig’: aquel filh’ e ũa filha;
e, macar pequeninhos
eram, po-los de pecadilha
tirar, em Santa Cezilha,
na pia sagrada,
os fez dessa vegada
[Refrão = vv. 1-3]
94
ambos fazer crischãos,
contando como lh’ avera
96
do filh’ e como sãos
seus nembros todos lh’ entom dera
98
Santa Maria; e fera-mente foi amada
100
por aquest’ e loada.
101
103
A madre de Deus honrada
chega sem tardada
u é com fé chamada.
* * *
202
Cantigas de Santa Maria 90
«Sola fústi, senlheira»
(E 90, T 90)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
8
Sola fústi, senlheira,
u Gabriel creviste,
e ar sem companheira
u a Deus concebiste,
e per esta maneira
o demo destroíste.
10
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
4
6
R1
II
16
Sola fústi, senlheira,
ena virgĩidade,
e ar sem companheira
em ter castidade;
e per esta maneira
jaz o demo na grade.
18
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
12
14
R2
III
24
Sola fústi, senlheira,
em seer de Deus madre,
e ar sem companheira
seend’ el filh’ e padre;
e per esta maneira
jaz o dem’ em vessadre.
26
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
20
22
R3
IV
32
Sola fústi, senlheira,
dada que a nós valhas,
e ar sem companheira
por tolher nossas falhas;
e per esta maneira
jaz o demo nas palhas.
34
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
28
30
R4
V
40
Sola fústi, senlheira,
em seer de Deus ama,
e ar sem companheira
em valer quem te chama;
e per esta maneira
jaz o demo na lama.
42
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
36
38
R5
Sola fústi, senlheira,
Virgem, sem companheira.
* * *
203
Cantigas de Santa Maria 91
«A Virgem nos dá saúd’ e»
(E 91, T 91, U 82)
Esta é como Santa Maria deceu do ceo em ũa igreja ante todos e guareceu quantos enfermos i jaziam, que ardiam do «fogo de Sam Marçal».
R0
2
4
I
6
8
10
R1 11-14
II
16
18
20
R2 21-24
III
26
28
30
R3 31-34
IV
36
38
40
R4 41-44
V
46
48
50
A Virgem nos dá saúd’ e
tolhe mal:
tant’ há em si gram vertude
’sperital.
E porém dizer-vos quero,
entr’ estes miragres seus,
outro mui grand’ e mui fero
que esta madre de Deus
fez, que nom podem contradizer judeus
nem hereges, pero queiram dizer al.
[Refrão = vv. 1-4]
Aquest’ avo em França,
nom há i mui gram sazom,
que os homes, por errança
que fezeram, deu entom
Deus em eles, por vendeita, cofojom
deste fogo que chamam «de Sam Marçal».
[Refrão = vv. 1-4]
E braadand’ e gemendo
faziam-s’ entom levar
a Saixom logo correndo
por sa saúd’ i cobrar,
cuidand’ em todas guisas i a sãar
pela Virgem, que aos coitados val.
[Refrão = vv. 1-4]
E era de tal natura
aquel mal, com’ aprendi,
que primeiro com friúra
os filhava, e, des i,
queimava peor que fogo; e assi
sofriam del todos gram coita mortal.
[Refrão = vv. 1-4]
Ca os nembros lhes caíam,
e sol dormir nem comer
per nulha rem nom podiam
nem em seus pees s’ erger,
e ante já querriam mortos seer
que sofrer door atám descomũal.
204
R5 51-54
VI
56
58
60
R6 61-64
VII
66
68
70
R7 71-74
VIII
76
78
80
R8
82
84
[Refrão = vv. 1-4]
Porend’ ũa noit’ avo
que lume lhes pareceu
grande que do ceo vo,
e log’ entom decendeu
Santa Maria, e a terra tremeu
quando chegou a senhor celestial.
[Refrão = vv. 1-4]
E os homees tal medo
houverom que a fugir
se filharom, e nom quedo
mais quanto podiam ir;
e ela fez log’ os enfermos guarir
como senhor que enas coitas nom fal
[Refrão = vv. 1-4]
a que-na chama, fiando
no seu piadoso bem,
ca ela sempre vem quando
entende que lhe convém.
Porend’ a esses enfermos nulha rem
nom leixou do fogo, nem sol um sinal.
A Virgem nos dá saúd’ e
tolhe mal:
tant’ há em si gram vertude
’sperital.
* * *
205
Cantigas de Santa Maria 92
«Santa Maria poder há»
(E 92, T 92, U 85)
Esta é como Santa Maria fazia veer o crérigo cego enquanto dizia a sa missa.
R0
2
I
4
6
Santa Maria poder há
de dar lum’ a que-no nom há.
Ca de dar lum’ há gram poder
a que o lum’ em si trager
foi, que nos fez a Deus veer,
que per al nom víramos já.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E esta Virgem santa deu
pois lum’ a um crérigo seu
que perdera, com’ aprix eu,
que nom vi’ acá nem alá.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E tantoste se fez filhar
e aa eigreja levar
da Virgem, que nom houvo par
de bondade, nem haverá.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, chorando de coraçom,
fazia atal oraçom
em golhos com devoçom,
dizendo: “– Senhor, que será
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
daqueste lume que perdi?;
e porende venho a ti:
que mi_o cobres, sequer ali
u a ta missa se dirá”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Entom logo s’ adormeceu,
e a Virgem lh’ apareceu,
que aos seus nom faleceu
nunca já, nem falecerá.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E disse-lh’ entom logo: “– Crás
manhãa mià missa dirás
com devoçom, e cobrarás
teu lume, que te durará
40
42
206
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
tá que a missa dita for;
ca assi quer Nostro Senhor,
que ch’ esto faz por meu amor,
e ainda che mais fará”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O crérig’ entom s’ espertou
e log’ a missa começou,
e seu lum’ ali o cobrou;
ca nom mentiu nem mentirá
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
a Virgem, que é de bom prez,
que lhe seu lume cobrar fez
cada dia sempr’ ũa vez,
como vos dissemos acá.
62
Santa Maria poder há
de dar lum’ a que-no nom há.
58
R10
* * *
207
Cantigas de Santa Maria 93
«Nulha enfermidade»
(E 93, T 93)
Esta é como Santa Maria guareceu um filho dum burgês que era gafo.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Nulha enfermidade
nom é de sãar
grav’ u a piedade
da Virgem chegar.
Dest’ um mui gram miragr’ em filho dum burgês
mostrou Santa Maria, que foi gafo três
anos e guareceu em mos que um mês
pola sa piedade, que lhe quis mostrar.
[Refrão = vv. 1-4]
Est’ era mui fremoso e apost’ assaz,
e ar mui leterado e de bom solaz;
mas tod’ aquele viço que à carne praz
fazia, que rem nom queria ém leixar.
[Refrão = vv. 1-4]
El assi mantendo orgulh’ e desdém,
quiso Deus que caess’ em el mui gram gafém,
ond’ ele foi coitado que nom quis al-rem
do mund’ erg’ ũ’ ermid’ u se foi apartar.
[Refrão = vv. 1-4]
E el, ali estando, filhou-s’ a dizer
bem mil avemarias por fazer prazer
aa madre de Deus, por que quisess’ haver
doo e piadad’ e del amercar.
[Refrão = vv. 1-4]
E el em atal vida três anos durou,
sofrendo bem sa coita, e nunca errou
a Deus nem a sa madre, e sempre rezou
as Aves Marias de que vos fui falar.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois houve rezado esta oraçom
quanto tempo dissemos, mostrou-se-lh’ entom
a Virgem groriosa, e diss’: “– Hoimais nom
quero que este mal te faça lazerar”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quando lh’ est’ houve dit’, a teta descobriu,
e do seu santo leite o corpo lh’ ongiu;
208
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8
66
68
e tantost’ a gafém logo del se partiu,
assi que o coiro houve tod’ a mudar.
[Refrão = vv. 1-4]
Tanto que foi guarido, começou-s’ a ir
dizendo pela terra como quis vĩir
a el Santa Maria e o foi guarir,
por que todos em ela devemos fiar.
Nulha enfermidade
nom é de sãar
grav’ u a piedade
da Virgem chegar.
* * *
209
Cantigas de Santa Maria 94
«De vergonha nos guardar»
(E 94, T 94, U 31)
Esta é como Santa Maria serviu em logar da monja que se foi do mõesteiro.
R0
2
4
I
6
8
10
12
14
De vergonha nos guardar
punha todavia
e de falir e d’ errar
a Virgem Maria.
E guarda-nos de falir
e ar quer-nos encobrir
quando em erro caemos;
des i, faz-nos repentir
e a emenda vĩir
dos pecados que fazemos.
Dest’ um miragre mostrar
em ũ’ abadia
quis a reinha sem par,
santa, que nos guia.
R1 15-18
[Refrão = vv. 1-4]
II
ũa dona houv’ ali
que, per quant’ eu aprendi,
era meninha fremosa;
demais, sabia assi
ter sa ordem que ni-ũa atám aguçosa
era d’ i aproveitar
quanto mais podia;
e porém lhe foram dar
a tesoureria.
20
22
24
26
28
R2 29-32
[Refrão = vv. 1-4]
III
Mai-lo demo, que prazer
nom houv’ ém, fez-lhe querer
tal bem a um cavaleiro
que lhe nom dava lezer,
tró em que lhi fez fazer
que saiu do mõesteiro;
mas, ant’, ela foi leixar
chaves, que tragia
na cinta, ant’ o altar
da em que criía.
34
36
38
40
42
R3 43-44
[Refrão = vv. 1-4]
IV
“– Ai madre de Deus” --entom
diss’ ela em sa razom--,
“leixo-vos est’ em comenda,
e a vós de coraçom
m’ acomend’”. E foi-s’ (e nom
48
50
210
52
54
56
por bem fazer sa fazenda)
com aquel que muit’ amar
mais ca si sabia;
e foi gram tempo durar
com el em folia.
R4 57-60
[Refrão = vv. 1-4]
V
E o cavaleiro fez,
poi-la levou dessa vez,
em ela filhos e filhas;
mai-la Virgem de bom prez,
que nunca amou sandez,
e mostrou i maravilhas:
que a vida estranhar
lhe fez que fazia,
por em sa claustra tornar,
u ante vivia.
62
64
66
68
70
R5 71-74
[Refrão = vv. 1-4]
VI
Mais, enquant’ ela andou
com mal sém, quanto leixou
aa Virgem comendado,
ela mui bem o guardou,
ca em seu logar entrou
e deu a todo recado
de quant’ houv’ a recadar,
que rem nom falia,
segundo no semelhar
de que-na viía.
76
78
80
82
84
R6 85-88
[Refrão = vv. 1-4]
VII
Mas, pois que s’ arrepentiu
a monja e se partiu
do cavaleiro mui cedo,
nunca comeu nem dormiu
tró o mõesteiro viu.
E entrou em el a medo,
e filhou-s’ a preguntar
os que conhocia
do estado do logar,
que saber queria.
90
92
94
96
98
R7 99-102
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
Disserom-lh’ entom, sem al:
“– Abadess’ havemos tal,
e prior’ e tesoureira:
cada ũa delas val
muito, e de bem, sem mal,
nos fazem de gram maneira”.
Quand’ est’ oiu, a sinar
logo se prendia,
porque s’ a si nomear
com elas oía.
104
106
108
110
112
R8 113-116
[Refrão = vv. 1-4]
IX
E ela, com gram pavor
tremendo e sem coor,
118
211
120
122
124
126
foi-se pera a eigreja;
mais a madre do senhor
lhe mostrou tam grand’ amor
(e porém beita seja)
que as chaves foi achar
u postas havia,
e seus panos foi filhar
que ante vestia.
R9 127-130
[Refrão = vv. 1-4]
X
E tantoste, sem desdém
e sem vergonha de rem
haver, juntou o convento
e contou-lhes o gram bem
que lhe fezo a que tem
o mund’ em seu mandamento;
e, por lhes todo provar
quanto lhes dizia,
fez seu amigo chamar,
que lho contaria.
132
134
136
138
140
R10 141-144
[Refrão = vv. 1-4]
XI
O convent’ o por mui gram
maravilha tev’, a pram,
pois que a cousa provada
virom, dizendo que tam
fremosa, par Sam Joám,
nunca lhes fora contada;
e filharom-s’ a cantar
com grand’ alegria:
“– Salve-te, ’strela do mar,
Deus, lume do dia”.
146
148
150
152
154
R11
156
158
De vergonha nos guardar
punha todavia
e de falir e d’ errar
a Virgem Maria.
* * *
212
Cantigas de Santa Maria 95
«Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha»
(E 95, T 95)
Esta é como Santa Maria livrou um seu ermitám de prijom dũus mouros que o levavam além
mar, e nunca se poderom ir atá que o leixarom.
R0
2
I
4
6
8
Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha
de lhes fazer, nom quer ela que esto rem valha.
Desto direi um miragre que ũa vegada
demostrou a Santa Virgem bem-aventurada
por um conde d’ Alemanha, que houve leixada
sa terra e foi fazer em Portugal morada,
encima dũa ermida, preto da salgada
água do mar, u cuidou a viver sem baralha.
R1 9-10
[Refrão = vv. 1-2]
II
El-cond’ Abrám foi aqueste, de mui santa vida,
que fez mui gram pedenç’ em aquela ermida
servind’ a Santa Maria, a senhor comprida
de todo bem, que aos seus sempre dá guarida,
ca a sa mui gram mercee nunca é falida
a quanto-la bem servirem: assi é, sem falha.
12
14
16
R2 17-18
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquel sant’ home vivia ali apartado,
que nunca carne comia nem pam nem bocado
senom quando com cĩisa era mesturado,
e d’ ele já bever vinho nom era pensado;
mas pero algũas vezes filhava pescado,
que dava sem haver ém dinheiro nem mealha.
20
22
24
R3 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, macar lh’ alguém por esto dinheiros queria
dar ou algũus presentes, sol no-nos prendia;
mas o que de comer era adubar fazia
pera as gentes que vinham i em romaria,
ca ele os convidava e os recebia,
com que lhes parava mesa em branca toalha.
28
30
32
R4 33-34
[Refrão = vv. 1-2]
V
El atal vida fazend’ em aquela montanha,
estand’ um dia pescando com’ era sa manha,
chegarom ali navios de mouros (companha
que bem d’ África veram por correr Espanha),
e filharo-no aginha, e com mui gram sanha
derom com el no navio: hoimais Deus lhe valha!
36
38
40
R5 41-42
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, pois est’ houverom feito, fezerom gram guerra,
rouband’ em mar quant’ achavam e saind’ a terra.
E quiseram-s’ ir com todo. Mas a que nom erra
d’ acorrer a seus amigos, nem lhes porta serra,
44
46
213
48
os fez que se nom poderom alongar da serra,
ca lhes nom valeu bom vento quant’ é ũa palha,
R6 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
VII
com que moviam de rijo aos treus alçados,
e, quanto toda a noite eram alongados
da pena, ena manhãa i eram tornados:
est’ avo per três noites aos malfadados.
E, quando aquesto virom, forom espantados
e chamarom Mafomete, o filho d’ Abdalha.
52
54
56
R7 57-58
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Mas o almiral dos mouros era entendudo
(que nom’ Arrendaf’ havia) e home sisudo,
e nembrou-lhe daquel home que fora metudo
ena sota da galea e i ascondudo,
e teve que por est’ era seu feito perdudo;
e diss’: “– Amigos, fol éste quem a Deus contralha”.
60
62
64
R8 65-66
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E mando’-o tirar fora, e pôs-lh’ our’ e prata
deant’, e panos de seda, outros d’ escarlata,
e mandou que os filhasse come de ravata,
dizendo: “– Do que te pagas, de sũu os ata”.
Mais desto nom filhou rem e, bem come quem cata
por pouco, filhou um vidro de mui bela talha.
68
70
72
R9 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
X
E o almiral entom preguntou que hom’ era,
ou de filhar aquel vidro, porque o fezera.
E el lhes contou entom qual vida mantevera
des quand’ em aquel’ ermida a morar vera;
mais de filhar aquel vidro muito lhe prouguera,
e que al nom filharia do seu nemigalha.
76
78
80
R10 81-82
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E eles, quand’ est’ oírom, fora o poserom
em aquel logar mesmo onde o preserom,
e que nom houvesse medo: assi lhe disserom.
Tantost’ alçarom sas veas, e bom vent’ houverom,
e forom sa via que sol nom se deteverom,
fendend’ as ondas per meo bem come navalha.
84
86
88
R11 89-90
[Refrão = vv. 1-2]
XII
96
Estas novas pela terra forom mui sõadas,
e gentes de todas partes forom i juntadas,
e a Santa Maria porém loores dadas.
Mais el-cond’ Abrám acharom pois muitas vegadas
mouros que correr vĩíam com barcas armadas,
e nom lhe fezerom mal: d’ atant’ houv’ avantalha.
98
Quem aos servos da Virgem de mal se trabalha
de lhes fazer, nom quer ela que esto rem valha.
92
94
R12
* * *
214
Cantigas de Santa Maria 96
«Atal senhor»
(E 96, T 96)
Esta é como Santa Maria guardou a alma dum home bõo que se nom perdesse, ca o haviam
escabeçado ladrões: fez que se juntassem o corpo e a testa e se mãefestasse.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
42
R7 43-44
Atal senhor
é bõa que faz salvá-lo pecador.
Aquesto dig’ eu por Santa Maria,
a que muito pesa de quem folia
faz, e que maneira busca e via
que nom caia home dum err’ em peior.
[Refrão = vv. 1-2]
Dest’ um miragre vos darei recado,
que a Virgem fez fremos’ e preçado;
e, se eu podér, per mi vos mostrado
será, porque hajades dele sabor.
[Refrão = vv. 1-2]
Esto foi dum home que feit’ houvera
prazer aa Virgem quant’ el podera;
mas pedença prender nom quisera
per conselho do demo enganador.
[Refrão = vv. 1-2]
El assi andand’, um dia passava
per um gram mont’, u companha estava
de ladrões com um que [i] andava
com eles, que era de todos maior.
[Refrão = vv. 1-2]
E, quand’ est’ home virom, se leixarom
correr log’ a el; e, poi-lo filharom,
fora do caminh’ o escabeçarom
por mandado daquel mao roubador.
[Refrão = vv. 1-2]
Dali fogirom poi-lo feit’ houverom.
E a quarto dia per i verom
dous frades mores, e vozes derom
o corp’ e a testa, ond’ eles pavor
[Refrão = vv. 1-2]
houverom; e meterom bem femença
com’ as vozes diziam: “– Pedença
nos dade, por Deus e por sa creença,
porque nom soframos pa nem door”.
[Refrão = vv. 1-2]
215
VIII
46
48
R8 49-50
IX
52
54
R9 55-56
X
58
60
R10 61-62
XI
64
66
R11 67-68
XII
70
72
R12 73-74
XIII
76
78
R13 79-80
XIV
[Refrão = vv. 1-2]
vós, corp’ e testa, por Deus conjuramos
que per vós desto verdade sabiamos”.
Respôs a cabeça: “– Já outorgamos
per que cada um seja ém sabedor
[Refrão = vv. 1-2]
de vós”. E contou como o mataram
e come diabres a ’lma cuidaram
levar, que sem confissom lh’ [i] acharam.
“– Mas nom quis a Virgem, das outras melhor,
[Refrão = vv. 1-2]
que per nulha rem o demo levasse
mià alma, mas que a testa tornasse
a meu corpo, e que me confessasse;
e ela, des i, foi mià aguardador”.
[Refrão = vv. 1-2]
Quand’ est’ oírom, logo mantenente
fezerom os frades vĩir gram gente,
e confessou-se verdadeiramente
ant’ eles e disse: “– Amigos, se for
[Refrão = vv. 1-2]
vosso prazer, rogo-vos que roguedes
a Deus por mi e me lh’ acomendedes,
ca bes aqui vós me veeredes
[ag]ora jazer morto e sem coor”.
[Refrão = vv. 1-2]
84
Bes assi com’ el disse foi feito,
e o seu corpo tantoste desfeito;
e os hom[]es, pois virom tal preito,
aa Virgem derom porém gram loor.
86
Atal senhor
é bõa que faz salvá-lo pecador.
82
R14
Primeir’ os frades forom espantados
do que oírom; mas, pois acordados
forom, a test’ e o corpo juntados
virom, e disserom: “– Polo salvador,
* * *
216
Cantigas de Santa Maria 97
«A Virgem sempr’ acorrer»
(E 97, T 97, U (Ap) 8)
Esta é como Santa Maria quis guardar de morte um privado dum rei que o haviam mezcrado.
R0
2
4
I
6
8
10
R1 11-14
II
16
18
20
R2 21-24
III
26
28
30
R3 31-34
IV
36
38
40
R4 41-44
V
46
48
50
R5 51-54
A Virgem sempr’ acorrer,
acorrer
vai o coitad’, e valer,
e valer.
Dest’ um miragre vos contarei
que em Canete, per com’ achei,
a Virgem por um home dum rei
fez, que mezcraram, com’ apres’ hei;
e bem sei
que o cuidaram a fazer morrer.
[Refrão = vv. 1-4]
De tal guisa o forom mezcrar
que o mandou log’ el-rei chamar
ante si. Mas el com gram pesar
e com coita filhou-s’ a chorar
e rogar
a Virgem quanto mais podo fazer.
[Refrão = vv. 1-4]
Demais, um rico pano i deu
na eigreja e fezo-se seu
home da Virgem, com’ aprix eu;
e est’ havia nome Mateu,
e bem lheu
podê-l’-ám em cas del-rei conhocer.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois na eigreja pôs seu dom
e fez chorando sa oraçom,
meteu-se ao caminh’ entom
com mui gram med’ em seu coraçom,
de lijom
o[u] de morte, por tal mezcra, prender.
[Refrão = vv. 1-4]
E, quand’ u era el-rei chegou,
seus homes por el log’ enviou;
mas aa Virgem se comendou
muit’ el; des i, ant’ el-rei entrou
e parou-s’ e pois começou-lh’ assi a dizer:
[Refrão = vv. 1-4]
217
VI
56
58
60
R6 61-64
VII
66
68
70
R7 71-74
VIII
76
78
80
R8 81-84
IX
86
88
90
R9 91-94
X
96
98
100
R10 101-104
XI
106
108
110
R11 111-114
XII
116
118
120
“– Senhor, vós enviastes por mi,
e, tanto que vossa carta vi,
vim quanto pud’, e aqué-m’ aqui”.
E el-rei logo respôs-lh’ assi,
com’ oí:
“– ũa rem querria de vós saber:
[Refrão = vv. 1-4]
se é verdade que tanto mal
fezestes, e tam descomunal,
como mi dizem”. Respôs el: “– Qual?”
El-rei contou-lhe: “– Tal e atal”.
Diss’ el: “– Val-me, Santa Maria, com teu poder!:
[Refrão = vv. 1-4]
esto que vos disserom, senhor,
mentira foi, nom vistes maior;
e, se a vossa mercee for,
meted’ i um voss’ enqueredor,
e melhor
podedes per i o feit’ entender”.
[Refrão = vv. 1-4]
Respôs el-rei: “– Daquesto me praz,
e tenho que comprides assaz,
e fazê-lo quer’, u al nom jaz”.
E meteu i um home de paz
que viaz
fosse daquest’ a verdad’ enquerer.
[Refrão = vv. 1-4]
Est’ home punhou toste de s’ ir;
e fez gente da terra vĩir,
que forom o feito descobrir
da verdad’ e de quanto mentir
e falir
foram al-rei; e fê-lo escrever,
[Refrão = vv. 1-4]
e enviou-lho. E, pois abriu
el-rei aquel escrito e viu
que lh’ end’ a verdade descobriu,
log’ entom todo mui bem sentiu
e cousiu
que falsidade foram apõer
[Refrão = vv. 1-4]
a aquel hom’. E logo porém
lhe perdõou, e fez-lhe gram bem;
e os mezcradores em desdém
tev’, e nunca por eles deu rem,
e des ém
no-nos ar quis de tal feito creer.
218
R12
122
124
A Virgem sempr’ acorrer,
acorrer
vai o coitad’, e valer,
e valer.
* * *
219
Cantigas de Santa Maria 98
«Nom dev’ a Santa Maria mercee pedir»
(E 98, T 98, U 94)
Esta é como Santa Maria nom quis consentir a dona que era mui pecador que entrasse ena
sa eigreja de Valverde atá que se mãefestasse.
R0
2
I
4
6
Nom dev’ a Santa Maria | mercee pedir
aquel que de seus pecados | nom se repentir.
Desto direi um miragre | que contar oí
a homes e molheres | que estavam i,
de como Santa Maria | desdenhou assi
ante todos ũa dona | que fora falir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E o falimento fora | grand’ e sem razom.
E, porque s’ ém nom doía | em seu coraçom,
per’ o a Santa Maria | foi pedir entom,
que entrass’ em sa eigreja | nom quis consentir.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquesto foi em Valverde, | cabo Mompisler,
u faz a Virgem miragres | grandes quandoquer,
u vo aquesta dona, | mui pobre molher,
por entrar ena eigreja; | mas nom pôd’ abrir
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
as portas per nulha guisa, | que podess’ entrar;
e entravam i os outros, | dous e três a par.
Quand’ aquesto viu a dona, | filhou-s’ a chorar,
e, com coita, a cativa | sas faces carpir,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
dizendo: “– Santa Maria, | tu, madre de Deus,
mui mais som as tas mercees | que pecados meus;
e fas-me, senhor, que seja | eu dos servos teus
e que entre na eigreja | tas horas oir”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois que aquest houve dit’ e | se mãefestou
e do mal que feit’ havia | muito lhe pesou,
entom as portas abertas | viu, e log’ entrou
na eigreja muit’ aginha. | E esto gracir
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
foi ela e muita gente | que aquesto viu.
E sempr’ ela em sa vida | a Virgem serviu
e nunca des aquel’ hora | dali se partiu,
ante punhou todavia | d’ a Virgem servir.
40
42
R7
44
Nom dev’ a Santa Maria | mercee pedir
aquel que de seus pecados | nom se repentir.
* * *
220
Cantigas de Santa Maria 99
«Muito se devem ter»
(E 99, T 99)
Esta é como Santa Maria destruiu um gram póboo de mouros que entraram ũa vila de
crischãos e queriam desfazer as sas omages.
R0
2
4
I
6
8
10
Muito se devem ter
por gentes de mal recado
os que mal cuidam fazer
aa de que Deus foi nado.
Dest’ um miragre dizer
vos quero, e retraer,
ond’ haveredes prazer
poi-l’ houverdes ascuitado,
de que devedes haver
end’ aa Virgem bom grado.
R1 11-14 [Refrão = vv. 1-4]
II
16
18
20
Mouros forom com poder
ũa cidade prender
de crischãos, e romper
dela o logar sagrado,
e o altar desfazer,
u Deus era aorado,
R2 21-24 [Refrão = vv. 1-4]
III
26
28
30
e as omages tolher
das paredes e raer
a quant’ eles abranger
podiam, per seu pecado,
que nom prendiam lezer
de as danar mui privado.
R3 31-34 [Refrão = vv. 1-4]
IV
36
38
40
ũa virom i seer
e mais bela parecer
das outras, e a correr
aquel póboo irado
se filhou po-la querer
destroir; mas em dõado
R4 41-44 [Refrão = vv. 1-4]
V
46
48
50
forom esto cometer,
ca lhe-lo nom quis sofrer
a madre do que morrer
quis por nós crucifigado.
E porém s’ houv’ a perder
aquel poblo malfadado,
221
R5 51-54 [Refrão = vv. 1-4]
VI
56
58
60
que punhavam de s’ erger
po-la britar e mover;
mas forom i falecer,
ca esto foi bem provado:
que, por ferir nem tanger,
sol sinal nom foi mostrado.
R6 61-64 [Refrão = vv. 1-4]
VII
66
68
70
R7
72
74
E cuidarom perecer
todos e ali morrer,
e houverom a saber
que era Deus despagado
em cuidar escarnecer
aquel logar tam honrado.
Muito se devem ter
por gentes de mal recado
os que mal cuidam fazer
aa de que Deus foi nado.
* * *
222
Cantigas de Santa Maria 100
«Santa Maria, / ’strela do dia»
(E 100, T 100, U (Ap) 10[b])
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
4
I
6
8
10
12
14
16
R1
18
20
II
22
24
26
28
30
32
R2
34
36
III
38
40
42
44
Santa Maria,
’strela do dia,
mostra-nos via
pera Deus e nos guia.
Ca veer
faze-los errados
que perder
foram per pecados,
entender
de que mui culpados
som; mas per
ti som perdõados
da ousadia
que lhes fazia
fazer folia
mais que nom deveria.
Santa Maria,
’strela do dia,
mostra-nos via
pera Deus e nos guia.
Amostrar
nos deves carreira
por gãar
em toda maneira
a sem par
luz e verdadeira
que tu dar
nos podes senlheira;
ca Deus a ti a
outorgaria
e a querria
por ti dar e daria.
Santa Maria,
’strela do dia,
mostra-nos via
pera Deus e nos guia.
Guiar bem
nos pod’ o teu siso
mais ca rem
pera paraíso,
u Deus tem
sempre goi’ e riso
pera quem
em El creer quiso;
e prazer-m’-ia
223
46
48
R3
50
52
se te prazia
que foss’ a mia
alm’ em tal companhia.
Santa Maria,
’strela do dia,
mostra-nos via
pera Deus e nos guia.
* * *
224
Cantigas de Santa Maria 101
«Bem pod’ a senhor sem par»
(E 101, T 101, U 46)
Esta é como Santa Maria guareceu o que era sordo e mudo.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Bem pod’ a senhor sem par
fazer oir e falar.
Com’ ũa vegada fez
a um mud’ a de bom prez,
e sordo, que dũa vez
o foi de todo sãar.
[Refrão = vv. 1-2]
Este fora a Seixom
rogar Deus no coraçom,
ca pela boca já nom
lho podia el mostrar,
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
senom por sinas fazer
com sas mãos, e gemer
ant’ a Virgem, que valer
lhe quisess’ e ajudar
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
per que podesse oir,
e falasse, sem falir.
E, por aquesto, partir
nom se quis d’ ant’ o altar
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
trões que a gram senhor
que madr’ é do Salvador
lhe mostrou tam grand’ amor,
como vos quero contar:
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
que logo lh’ apareceu,
e com sas mãos tangeu-lh’ o rostr’ e o guareceu,
e foi-lh’ a língua soltar,
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
e as orelhas lh’ abriu,
assi que tantost’ oiu,
e o sángui lhe saiu
da língu’ e delas a par,
225
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
assi que log’ entom deu
loores, com’ aprix eu,
aa Virgem, e por seu
ficou em aquel logar.
50
Bem pod’ a senhor sem par
fazer oir e falar.
46
R8
* * *
226
Cantigas de Santa Maria 102
«Sempr’ aos seus val»
(E 102, T 102)
Esta é como Santa Maria guardou um crerizom que nom morresse em ũa sima u o haviam
deitado ladrões.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Sempr’ aos seus val,
e de mal
todavia guarda-os sem al
a mui santa senhor.
Desto contarei de grado
um gram miragre provado
que fez por um ordinhado
crérig’ a dos santos fror.
[Refrão = vv. 1-4]
Este era todavia
mui dad’ a Santa Maria,
e quant’ ele mais podia
punhava em sa loor.
[Refrão = vv. 1-4]
Onde fora dum caminho
ia este pastorinho,
e encontrou um meninho
que lhe disse: “– Mui melhor,
[Refrão = vv. 1-4]
vos guiarei, se quiserdes
ir migo e mi_algo derdes;
e, se vós esto fezerdes,
sol nom hajades pavor
[Refrão = vv. 1-4]
que vos mal façam ladrões
nem outros maos peões”.
E el filhou pepiões
e deu-lh’ end’ a seu sabor.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois que lhos houve dados,
levo’-o, per seus pecados,
u estavam ajuntados
ladrões, o traedor,
[Refrão = vv. 1-4]
que o logo mal chagarom
e todo o debulharom
227
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-85
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
e em um algar deitarom
que nom havia peor
[Refrão = vv. 1-4]
em nium logar, e fondo
era muit’ e nom redondo,
mas havia i avondo
de muita maa cheiror.
[Refrão = vv. 1-4]
El assi juso caendo,
“– Santa Maria!” dizendo
ia, que o acorrendo
foi log’ e del guardador
[Refrão = vv. 1-4]
que nom caesse bem juso,
como é de caer uso,
mas em um logar escuso
de costa, u morador
[Refrão = vv. 1-4]
foi aquela noit’. E tantos
deitarom pos el de cantos
ond’ houve muitos espantos.
Mas bem sõo sabedor
[Refrão = vv. 1-4]
de com’ ém nom foi ferido,
mas, em com’ eu hei oído,
contra_a luz deu apelido,
chamand’ a do salvador
R12 97-100 [Refrão = vv. 1-4]
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
XVI
madre; e eles fugirom,
mas, ant’, o foio cobrirom.
E pastore-lo oírom,
que ali em derredor
[Refrão = vv. 1-4]
eram em esse deserto;
e, poi-lo foio aberto
houverom, virom de certo
jazer aquel pecador.
[Refrão = vv. 1-4]
E logo cordas preserom
que lhe deitadas houverom,
e assi o ém trouxerom,
mas chagad’ e sem coor.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois lhes houve contada
228
126
128
R16
a verdad’ e demostrada,
foi deles porém loada
muit’ a dos santos maior.
Sempr’ aos seus val,
e de mal
todavia guarda-os sem al
132
a mui santa senhor.
130
* * *
229
Cantigas de Santa Maria 103
«Que-na Virgem bem servirá»
(E 103, T 103, U 93)
Esta é como Santa Maria fez estar o monge trezentos anos ao canto da passarinha, porque
lhe pedia que lhe mostrasse qual era o bem que haviam os que eram em paraíso.
R0
I
2
3
5
R1 6-7
II
8
10
R2 11-12
III
13
15
R3 16-17
IV
18
20
R4 21-22
V
23
25
R5 26-27
VI
28
30
R6 31-32
VII 33
35
R7 36-37
VIII 38
40
R8 41-42
Que-na Virgem bem servirá,
a paraíso irá.
E daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora contar,
que fezo Santa Maria | por um monge, que rogar
lh’ ia sempre que lhe mostrasse | qual bem em paraís’ há,
[Refrão = vv. 1-2]
e que o viss’ em sa vida | ante que fosse morrer.
E porend’ a groriosa | vedes que lhe foi fazer:
fez-lo entrar em ũa horta | em que muitas vezes já
[Refrão = vv. 1-2]
entrara; mais aquel dia | fez que ũa font’ achou
mui crara e mui fremosa, | e cab’ ela s’ assentou.
E, pois lavou mui bem sas mãos, | diss’: “– Ai Virgem, que será?:
[Refrão = vv. 1-2]
se verei do paraíso, | o que ch’ eu muito pedi,
algum pouco de seu viço | ante que saia daqui,
e que sábia, do que bem obra, | que galardom haverá?”
[Refrão = vv. 1-2]
Tantoste que acabada | houv’ o mong’ a oraçom,
oiu ũa passarinha | cantar log’ em tam bom som
que se escaeceu seendo | e catando sempr’ alá.
[Refrão = vv. 1-2]
Atám gram sabor havia | daquel cant’ e daquel lais
que grandes trezentos anos | estevo assi, ou mais,
cuidando que nom estevera | senom pouco, com’ está
[Refrão = vv. 1-2]
mong’ algũa vez no ano, | quando sal ao vergeu.
Des i, foi-s’ a passarinha, | de que foi a el mui greu,
e diz: “– Eu daqui ir-me quero, | ca hoimais comer querrá
[Refrão = vv. 1-2]
o convent’”. E foi-se logo, | e achou um gram portal
que nunca vira, e disse: | “– Ai Santa Maria, val!:
nom é est’ o meu mõesteiro; | pois de mi que se fará?”
[Refrão = vv. 1-2]
230
IX
43
45
R9 46-47
X
48
50
R10 51-52
XI
53
55
R11 56-57
XII 58
60
R12 61-62
XIII 63
65
R13
67
Des i, entrou na eigreja, | e houverom gram pavor
os monges quando o virom; | e demandou-lh’ o prior,
dizend’: “– Amigo, vós quem sodes | ou que buscades acá?”
[Refrão = vv. 1-2]
Diss’ el: “– Busco meu abade, | que agor’ aqui leixei,
e o prior e os frades, | de que mi_agora quitei
quando fui a aquela horta: | u seem quem mi_o dirá?”
[Refrão = vv. 1-2]
Quand’ est’ oiu o abade, | teve-o por de mal sém,
e outrossi o convento; | mais, des que souberom bem
de como fora este feito, | disserom: “– Quem oirá
[Refrão = vv. 1-2]
nunca tam gram maravilha | como Deus por este fez
polo rogo de sa madre, | Virgem santa de gram prez?”
E por aquesto a loemos; | mais que-na nom loará
[Refrão = vv. 1-2]
mais doutra cousa que seja?; | ca, par Deus, gram dereit’ é,
pois quanto nós lhe pedimos | nos dá seu filh’, a-la-fé,
por ela, e aqui nos mostra | o que nos depois dará.
Que-na Virgem bem servirá,
a paraíso irá.
* * *
231
Cantigas de Santa Maria 104
«Nunca já pod’ aa Virgem home tal pesar fazer»
(E 104, T 104, U 96)
Esta é como Santa Maria fez aa molher que queria fazer amadoiras a seu amigo co-n[o]
Corpo de Jesu-Cristo e que o tragia na touca, que lhe corresse sangue da cabeça, atá que o tirou
ende.
R0
2
I
4
6
Nunca já pod’ aa Virgem | home tal pesar fazer
como quem ao seu filho | Deus cuida escarnecer.
E o que o fazer cuida, | creed’ aquesto por mi,
que aquel escarnho todo | há de tornar sobre si.
E daquest’ um gram miragre | vos direi, que eu oí
que fezo Santa Maria; | oíde-mi_o a lezer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesto foi em Galiza | nom há i mui gram sazom,
que ũa sa barragãa | houve um escudeirom;
e, porquanto s’ el casara, | tam gram pesar houv’ entom
que, com gram coita, houvera | o siso end’ a perder.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, com gram pesar que houve, | foi seu conselho buscar
enas outras sas vezinhas, | e atal lho forom dar:
que sol que ela podesse | ũa hóstia furtar
das da eigreja, que logo | o poderia haver,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
pois que lhe tal bem queria. | E ela toste, sem al,
foi-se a ũa eigreja | da Virgem espirital,
que nas nossas grandes coitas | nos guarda sempre de mal,
e diss’ entom que queria | logo comunhom prender.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E o crérigo sem arte | de a comungar cuidou;
mai-la hóstia na boca | aquesta molher guardou,
que per neũa maneira | no-na trociu nem passou,
e punhou, quanto mais pôde, | de se dali log’ erger.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois que saiu da eigreja, | os dedos entom meteu
ena boca, e tantoste | tirou-a end’, e odeu
a hóstia ena touca; | e nada nom atendeu,
ante se foi muit’ aginha | por provar est’ e veer
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
se lhe disseram verdade | ou se lhe foram mentir
aquelas que lhe disseram | que lhe fariam vĩir
log’ a ela seu amigo, | e já mais nunca partir
40
232
42
dela se já poderia, | e de com ela viver.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, entrant’ a ũa vila | que dizem Caldas de Rei,
ond’ aquesta molher era, | per com’ end’ eu apres’ hei,
avo ém mui gram cousa | que vos ora contarei:
ca lhe virom pelas toucas | sangue vermelho correr.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E a gent’ entom dizia, | quando aquel sangue viu:
“– Di, molher, que foi aquesto, | ou quem te tam mal feriu?”
E ela maravilhada | foi tanto que est’ oiu,
assi que nunca lhes soube | niũa rem responder.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E pôs a mão nas toucas, | e sentiu e viu mui bem
que era sangue caente, | e disso assi porém:
“– A mi nom me feriu outre | senom que-no mundo tem
em seu poder, por grand’ erro | que me lh’ eu fui merecer”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Entom contou-lhes o feito, | tremendo com gram pavor,
todo como lh’ avera; | e derom porém loor
todos a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor,
e a seu filho beito, | chorando com gram prazer.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
A molher se tornou log’ a- | -a eigreja outra vez,
e deitou-s’ ant’ a omagem | e disse: “– Senhor de prez,
nom cates a meu pecado, | que mi_o demo fazer fez”.
E log’ a um mõesteiro | se tornou monja meter.
74
Nunca já pod’ aa Virgem | home tal pesar fazer
como quem ao seu filho | Deus cuida escarnecer.
70
R12
* * *
233
Cantigas de Santa Maria 105
«Gram piedad’ e mercê e nobreza»
(E 105, T 105, U 81)
Esta é como Santa Maria guareceu a molher que chagou seu marido porque a nom pôd’ haver a sa guisa.
R0
2
4
I
6
8
10
Gram piedad’ e mercê e nobreza,
daquestas três há na Virgem assaz,
tam muit’ ém que maldade nem crueza
nem descousimento nunca lhe praz.
E desto fezo a santa reinha
gram miragre que vos quero contar,
u apareceu a ũa meninha
em um horto u fora trebelhar,
em cas de seu padr’, em ũa cortinha
que havia ena vila d’ Arraz.
R1 11-14
[Refrão = vv. 1-4]
II
Quando a viu, houv’ entom tam gram medo
que adur pôd’ em seus pees estar,
mas a Virgem se lhe chegou mui quedo
e disse: “– Nom hás por que t’ espantar;
mais, se me creveres, irás mui cedo
u verás meu filh’ e mim faz a faz;
16
18
20
R2 21-24
[Refrão = vv. 1-4]
III
esto será se ta virgĩidade
quiseres toda ta vida guardar
e te quitares de toda maldade,
ca por aquesto te me vim mostrar”.
Diss’ a moça: “– Senhor de piadade,
eu o farei, pois vos em prazer jaz”.
26
28
30
R3 31-34
[Refrão = vv. 1-4]
IV
Entom se foi log’ a Virgem Maria;
e a meninha ficou no lugar
mui pagada e com grand’ alegria,
e no coraçom pôs de nom casar.
Mas seu padre lhe diss’ assi um dia:
“– Casar-te quero com um alvernaz
36
38
40
R4 41-44
[Refrão = vv. 1-4]
V
home que é mui ric’ e muit’ honrado
e que te quer logo grand’ algo dar”.
Diss’ a moça: “– Esto nom é pensado,
ca Santa Maria mi_o fez jurar,
que mi_apareceu no horto, no prado,
u trouxe sigo d’ ángeos grand’ az”.
46
48
50
R5 51-54
[Refrão = vv. 1-4]
VI
E o padr’ e a madre, perfiados,
a forom mui sem seu grad’ esposar.
E, quando os prazos forom chegados,
56
234
58
60
fezerom vodas; e, depois jantar,
forom os nóvios ambos enserrados
de suum por haverem seu solaz.
R6 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VII
Mas oiredes maravilha fera
de como a quis a Virgem guardar:
que, pero em poder do nóvio era,
nunca, per rem, pôd’ a ela passar,
e tal xe ficou como xe vera,
por que pois nom houv’ a trager enfaz.
66
68
70
R7 71-74
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
Desta guisa passarom bem um ano,
que nunca el pôde rem adubar
co-na donzela. Porém tam gram dano
lhe fez que a houvera de matar:
ca lhe deu com um cuitel’ a engano
em tal logar que vergonha me faz
76
78
80
R8 81-84
[Refrão = vv. 1-4]
IX
de o dizer; ca tanto foi sem guisa
que nom pod’ home, per rem, i falar,
que quantos físicos houv’ end’ a Pisa
nom lhe poderom a chaga serrar.
E desto queixou-s’, e fez end’ enquisa
um bispo que chamavam Bonifaz,
86
88
90
R9 91-94
[Refrão = vv. 1-4]
X
que houve dela gram doo, sem falha,
quand’ esto soube, e mui gram pesar.
Mais, por nom meter entr’ eles baralha,
a seu marido a foi comendar,
em que caeu fog’, assi Deus me valha,
logo salvag’, e ardeu o malvaz.
96
98
100
R10 101-104
[Refrão = vv. 1-4]
XI
E todo-los daquela vila_ardiam
daquel fog’, e faziam-se levar
aa eigreja, u tantos jaziam
que nom podiam i outros entrar;
e todos aquesta coita sofriam
polo mal que fezer’ aquel rapaz.
106
108
110
R11 111-114
[Refrão = vv. 1-4]
XII
Mas, entr’ aquestes, aquela cativa
a que o marido fora chagar
sofreu de fogo gram coita esquiva,
ca a teta destra lhe foi queimar;
e metero-na, mais morta ca viva,
na eigreja, vestida dum prumaz.
116
118
120
R12 121-124
[Refrão = vv. 1-4]
XIII
E, pois acordou, muito braadava
dizendo: “– Porque me fust’ enganar,
126
235
128
130
Santa Maria, pois em ti fiava?:
ca, em lugar de me dereito dar,
diste-me fogo que tam mal queimava
e queima que o corpo me desfaz”.
R13 131-134
[Refrão = vv. 1-4]
XIV
Assi gemendo e dando carpinhas,
adormeceu; e logo, sem tardar,
lh’ apareceu a senhor das reinhas,
e começou-a muit’ a confortar
e disse-lh: “– Eu trago as meezinhas
com que são de fog’ e d’ alvaraz;
136
138
140
R14 141-144
[Refrão = vv. 1-4]
XV
e leva-t’ ém, ca des hoimais és sãa,
e vai dormir ant’ aquel meu altar;
e, pois t’ espertares, sei bem certãa
que, quantos enfermos fores beijar,
serám tam sãos com’ ũa maçãa,
daqueste fogo e de seu fumaz”.
146
148
150
R15 151-154
[Refrão = vv. 1-4]
XVI
“– Tod’ esto” –diss’ ela– “creo de chão;
mais como me poderei levantar?”
Diz Santa Maria: “– Dá-m’ essa mão”.
Entom a ergeu e foi-a levar,
e ela sentiu o corpo bem são
do fog’ e da ferida do falpaz.
156
158
160
R16 161-164
[Refrão = vv. 1-4]
XVII
E outro dia os que madurgarom
e a virom, foro-na espertar
e como sãara lhe preguntarom,
e ela rem nom lhes quiso negar;
e, po-la confortar, logo mandarom
que lhe dessem caldo com do agraz.
166
168
170
R17 171-174
[Refrão = vv. 1-4]
XVIII
176
Os enfermos log’ entom os poserom
ant’ ela por esta cousa provar;
e, pois que os beijou, saúd’ houverom.
E começarom entom de loar
Santa Maria, e logo souberom
este feito pela terra viaz.
178
180
R18
182
184
Gram piedad’ e mercê e nobreza,
daquestas três há na Virgem assaz,
tam muit’ ém que maldade nem crueza
nem descousimento nunca lhe praz.
* * *
236
Cantigas de Santa Maria 106
«Prijom forte nem dultosa»
(E 106, T 106, U 45)
Esta é como Santa Maria sacou dous escudeiros de prijom.
R0
2
I
3
5
7
Prijom forte nem dultosa
nom pod’ os presos ter | a pesar da groriosa.
Desta razom vos direi
um miragre que achei
escrito, e mui bem sei
que farei
del cantiga saborosa.
R1 8-9
[Refrão = vv. 1-2]
II
E contarei, sem mentir,
como de prijom sair
fez dous presos e fogir
e pois ir
em salv’ a mui preciosa.
10
12
14
R2 15-16
[Refrão = vv. 1-2]
III
Dous escudeiros correr
forom por rouba fazer;
mas foro-nos a prender
e meter
em prijom perigoosa.
17
19
21
R3 22-23
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Jazend’ em aquel logar,
ũu deles se nembrar
foi com’ em Seixom lavrar
e pintar
viu eigreja mui fremosa.
24
26
28
R4 29-30
[Refrão = vv. 1-2]
V
E diss’ a seu companhom:
“– Se eu sair de prijom,
cem cravos darei em dom
a Seixom,
que é obra mui costosa”.
31
33
35
R5 36-37
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, pois esto prometeu,
logo lh’ o cepo caeu
em terra; mas nom s’ ergeu:
atendeu
ant’ a noite lubregosa.
38
40
42
R6 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
237
VII 45
47
49
Mais, poi-la noite chegou,
a seu companhom contou
como lh’ o cepo britou
e sacou
end’ a Virgem piedosa.
R7 50-51
[Refrão = vv. 1-2]
VIII 52
O outro lhe diss’ assi:
“– Per quant’ eu a vos oí,
mil cravos levarei i
se mi_a mi
tolh’ esta prijom nojosa”.
54
56
R8 57-58
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois s’ o primeiro sentiu
solto da prijom, fogiu;
a guarda, quand’ esto viu,
log’ abriu
a cárcer mui tevrosa
59
61
63
R9 64-65
[Refrão = vv. 1-2]
X
po-lo outr’ i guardar bem,
ca atal era seu sém;
mas dele nom achou rem,
e porém
houv’ a Virgem sospeitosa,
66
68
70
R10 71-72
[Refrão = vv. 1-2]
XI
77
madre de Nostro Senhor,
que lhe fora soltador
dos presos e guiador,
sem pavor,
como senhor poderosa.
79
Prijom forte nem dultosa
nom pod’ os presos ter | a pesar da groriosa.
73
75
R11
* * *
238
Cantigas de Santa Maria 107
«Quem crever na Virgem santa, ena coita valer-lh’-á»
(E 107, T 107)
Esta é como Santa Maria guardou de morte ũa judea que espenarom em Segóvia e, porque
se acomendou a ela, nom morreu nem se feriu.
R0
1
I
3
5
R1
6
II
8
10
R2
11
III
13
15
R3
16
IV
18
20
R4
21
V
23
25
R5
26
VI
28
30
R6
31
VII
33
35
R7
36
Quem crever na Virgem santa, | ena coita valer-lh’-á.
Dest’ um miragr’, em verdade,
fez em Segóvi’, a cidade,
a madre de piedade,
qual este cantar dirá,
[Refrão = v. 1]
[d]ũa judea achada
que foi em err’ e filhada
e a esfalfar levada
dũa pena qu[e] i ’stá,
[Refrão = v. 1]
muit’ alta e muit’ esquiva.
E ela diss’: “– Ai cativa,
como pode ficar viva
quem daqui a caer há,
[Refrão = v. 1]
senom se Deus xe querria!;
mas tu, reinha Maria,
u crischãidade fia,
se tal és com’ oí já
[Refrão = v. 1]
(que acorre-las coitadas
que ti som acomendadas),
entre toda-las culpadas
val a mi, ca mester m’ há;
[Refrão = v. 1]
e, se ficar viv’ e sãa,
logo me fare[i] crischãa
ante que seja manhãa
crás, u al nom haverá”.
[Refrão = v. 1]
Os judeus que a levarom,
na camisa a leixarom,
e logo a espenarom,
dizendo: “– Alá irá!”
[Refrão = v. 1]
239
VIII
38
40
R8
41
IX
43
45
R9
46
X
48
50
R10
51
XI
53
55
R11
56
XII
58
60
R12
61
XIII
63
65
R13
66
XIV
68
70
R14
71
Mas, pois dali foi caúda,
da Virgem foi acorruda;
porém nom foi pereçuda,
pero caeu long’ alá
[Refrão = v. 1]
jus’ a pé dũa figueira,
e ergeu-se mui ligeira-ment’ e foi-se sa carreira
dizendo: “– Sempre será
[Refrão = v. 1]
beita a groriosa,
madre de Deus preciosa,
que me foi tam piadosa;
e que-na nom servirá?”
[Refrão = v. 1]
E chegou aa eigreja
daquela que sempre seja
beita, u mui sobeja
gente viu, e diss’: “– Acá
[Refrão = v. 1]
vĩíd’ e batiçar-m’-edes,
e tal miragr’ oiredes
que vos maravilharedes,
e tod’ hom’ assi fará”.
[Refrão = v. 1]
E tantost’ aquela gente
a batiçou mantenente;
e foi sempre bem creente
da que por nós rogará
[Refrão = v. 1]
a seu filho grorioso
que nos seja piadoso
eno dia temeroso
quando julgar-nos verrá.
Quem crever na Virgem santa, | ena coita valer-lh’-á.
* * *
240
Cantigas de Santa Maria 108
«Dereit’ é de s’ end’ achar»
(E 108, T 108, U (Ap) 3)
Esta é como Santa Maria fez que nacesse o filho do judeu o rostro atrás, como lho Merlim
rogara.
R0
1
3
I
4
6
8
10
Dereit’ é de s’ end’ achar
mal quem filhar perfia
contra Santa Maria.
E daquest’ oí contar
que avo a Merlim
que s’ houve de rezõar
com um judeu alfaquim
que em tod’ Escoça par,
como disserom a mi[m],
de saber nom havia.
R1 11-13
[Refrão = vv. 1-3]
II
E começou a falar
aquel judeu traedor
ena Virgem, e jurar
muito palo Criador
que em ela encarnar
nunca quis Nostro Senhor,
nem seer nom podia.
14
16
18
20
R2 2123
[Refrão = vv. 1-3]
III
Merlim houve gram pesar
u lh’ oiu esto dizer
e disso: “– Se Deus m’ ampar,
ante podo bem seer;
ca o que terra e mar
fez per seu mui gram poder,
esto be-no faria”.
24
26
28
30
R3 31-33
[Refrão = vv. 1-3]
IV
O judeu a perfiar
começou e disse: “– Nom
podo Deus nunca entrar
em tal logar per razom;
ca o que foi enserrar
em si quantas cousas som,
como s’ enserraria?”
34
36
38
40
R4 41-43
[Refrão = vv. 1-3]
V
Merlim muit’ a assanhar
se filhou, e log’ ali
os golhos foi ficar
em terra e diss’ assi:
44
46
241
48
50
“– Madre do que nos salvar
vo, este diz de ti
o que nom deveria;
R5 51-53
[Refrão = vv. 1-3]
VI
porém te quero pregar
que, com’ eu de certo sei
que o teu foi, sem dultar,
que o que te rogarei
queras agora mostrar
a este da falsa lei,
que anda com folia,
54
56
58
60
R6 61-63
[Refrão = vv. 1-3]
VII 64
que sa molher emprenhar
foi; o que lhe nacer ém
queras tu assi guisar
que, com’ outr’ o rostro tem
adeante por catar,
tenha atrás, e des ém
and’ assi todavia”.
66
68
70
R7 71-73
[Refrão = vv. 1-3]
VIII 74
E o praz’ uviou chegar
que a judea pariu;
mas bem se podo sinar
quem aquel seu filho viu,
ca atal o gerar
fez Deus como lho pediu
Merlim com felonia.
76
78
80
R8 81-83
[Refrão = vv. 1-3]
IX
Que o rostro lhe tornar
fez Deus o deant’ atrás,
como lhe fora rogar
o filho de Satanás
por em vergonha deitar
a seu padre Caifás,
que ant’ o nom criía.
84
86
88
90
R9 91-93
[Refrão = vv. 1-3]
X
Porém seu padre matar
o quis logo que naceu;
mas Merlim o fez guardar,
que o mui bem entendeu,
e, po-los judeus tirar
de seu erro, pois creceu,
com el os convertia.
94
96
98
100
R10
101
103
Dereit’ é de s’ end’ achar
mal quem filhar perfia
contra Santa Maria.
* * *
242
Cantigas de Santa Maria 109
«Razom ham os diabos de fogir»
(E 109, T 109)
Esta é como Santa Maria de Salas livrou um home de cinco diáboos que havia em si, que o
queriam levar e matar.
R0
2
I
4
6
Razom ham os diabos de fogir
ant’ a Virgem, que a Deus foi parir.
Dereito fazem de s’ ir perder
ant’ a de que Deus quiso nacer;
ca per ela perderom seu poder
de guisa que nos nom podem nozir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Dest’ um miragre quero contar
que fez a Virgem (que nom há par
nem haverá mentr’ o mundo durar:
esto vos posso jurar sem mentir).
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
O miragre foi em tal razom:
cinco diabos ũa sazom
s’ assũarom e filharom entom
todos um home po-lo mal bailir.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Pera Salas em caminh’ entrou;
quand’ a vista do logar chegou,
essa companha assi s’ espantou
que o nom leixarom adeant’ ir
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
aquel home, segund’ aprendi,
tá que dous frades verom i
mores, que o levarom dali
aa eigreja logo, sem falir,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
querelando-se, com’ apres’ hei,
os démões da madre do rei
dos ceos em como vos eu direi:
“– Esta nos fará dest’ home partir”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Um judeu os conjurou por Deus
que dissessem porque os judeus
nom filhavam. Diss’ um demo: “– Ca meus
243
42
sodes e punhades de me servir;
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
por esto nom vos fazemos mal,
ca sodes todos nossos, sem al;
mai-los que do batismo o sinal
tragem, aqueles imos percodir”.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
Esto dito, fogiu o judeu;
mai-los diabos, com’ aprix eu,
cada um deles logo sinal deu
quando houverom do hom’ a sair.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
Desto derom todos gram loor
a Santa Maria, que sabor
há de valer sempr’ ao pecador
e d’ os diabos sempre destroir.
62
Razom ham os diabos de fogir
ant’ a Virgem que, a Deus foi parir.
58
R10
* * *
244
Cantigas de Santa Maria 110
«Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida»
(E 110, T 110)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
E como pode per língua seer loada
a que fez porque Deus a sa carne sagrada
quis filhar e ser home, per que foi mostrada
sa deidad’ em carne, vista e oída?
8
Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida
que, pera a loar, tempo nos fal e vida.
4
R1
II
12
Ca tantos som os bes de Santa Maria,
que língua dizer todos no-nos poderia,
nem se fosse de ferro e noite e dia
nom calasse, que ante nom fosse falida.
14
Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida
que, pera a loar, tempo nos fal e vida.
10
R2
III
18
Se purgamo foss’ o ceo estrelado,
e o mar todo tinta (que grand’ é provado),
e vivesse por sempr’ um home ensinado
de ’scriver, ficar-lh’-ia a maior partida.
20
Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida
que, pera a loar, tempo nos fal e vida.
16
R3
Tant’ é Santa Maria de bem mui comprida
que, pera a loar, tempo nos fal e vida.
* * *
245
Cantigas de Santa Maria 111
«Em todo tempo faz bem»
(E 111, T 111)
Esta é como um crérigo de missa que servia a Santa Maria morreu no rio que vem por Paris, e a tercer dia ressucito’-o Santa Maria e saco’-o do rio.
R0
2
I
4
6
Em todo tempo faz bem
a Virgem, que nos mantém.
Nom há temp’ assinaado
por acorrê-lo coitado
nem perdõá-lo culpado,
mas assi como lh’ avém.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Dest’ um miragre preçado
vos será per mi mostrado
que fez por um ordinhado
a mui comprida de sém.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
De missa o malfadado
era, mas por seu pecado
a lussúria tam deitado
que nom dava por al rem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E pero de mui bom grado
rezava muit’ aficado
as horas da que Deus nado
foi por nós em Beleém.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ũa noit’ o desguisado
foi fazer, e, pois, entrado
houv’ em um barc’ e passad’ o
Sena, que por Paris vem.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pero nom foi arribado,
ca o barco foi tornado
e el na águ’ afogado
ante que chegass’ aquém.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
El havia começado
madodinhos, e rezado
um salm’; e logo filhado
foi do demo feramém.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
246
VIII
46
48
E, pois foi apoderado
de sa alma, muit’ irado
foi ao fogo privado
po-la i par des ém.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Mais a madre do honrado
Jesu-Crist’ a seu chamado
vo, e o denodado
demo logo fugiu ém,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
u ela ressucitado
houv’ o morto e sacado
do rio, que já buscado
fora daquend’ e dalém.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Quatro dias mergulhado
jouvera e afondado;
mas entom dalá tirado
foi pola que sempre tem
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
seu acorr’ aparelhado
pera valê-lo menguado
d’ ajuda. Porém loado
seja seu nome. Amém.
74
Em todo tempo faz bem
a Virgem, que nos mantém.
70
R12
* * *
247
Cantigas de Santa Maria 112
«Nas coitas devemos chamar»
(E 112, T 112, U (Ap) 2)
Esta é como Santa Maria guardou ũa nave que ia carregada de triigo que nom perecesse, e
sacou-a em salvo ao porto.
R0
2
I
4
6
Nas coitas devemos chamar
a Virgem, estrela do mar.
Esta é Santa Maria,
que aos seus noit’ e dia
guarda de mal e os guia,
pois se lhe vam encomendar,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
como fez ũa vegada
dũa nav’ encarregada
de trigo e de cevada
de Colhiure, que foi guardar,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que houvera pereçuda
seer de tod’, e perduda,
senom pela sa ajuda,
que a quis em salvo guiar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca houvera tal tormenta
que de milhas setaenta
correra, ou oitaenta,
querendo-s’ a nav’ afondar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ca o masto foi britado
e o temom pecejado,
e os da nave sem grado
saírom ém por escapar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
em um batel a gram pa,
ca virom a nave cha
d’ água volta com ara
e aquel pam todo molhar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Esto foi cousa mui certa:
ca a nav’ era aberta;
e porende grand’ oferta
prometerom entom de dar
40
42
248
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
aa Virgem, que rogasse
seu filho que lhes guardasse
seu pam e que os sacasse
em salvo sem perda filhar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Entom mui toste remarom
e da nave s’ alongarom,
e ao porto chegarom,
u a virom sãa estar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E virom seu pam eixuito,
por que fezeram já luito;
e a Virgem porém muito
começarom log’ a loar.
62
Nas coitas devemos chamar
a Virgem, estrela do mar.
58
R10
* * *
249
Cantigas de Santa Maria 113
«Por razom tenho d’ obedecer»
(E 113, T 113)
Esta é como Santa Maria de Monserraz guardou o mõesteiro, que nom feriss’ a pena em ele
que caeu da roca que está encima da eigreja que se vesse dereitamente destroir a eigreja toda e
o moesteiro.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6
50
52
Por razom tenh’ obedecer
as pedras a madre do rei,
que, quando morreu por nós, sei
que porém se forom fender.
Desto direi um miragre | mui grande que contar oí
que em Monsarraz a Virgem | fez, que bem parece hoj’ i,
dũa pena que se mover
foi e ar leixou-se caer.
[Refrão = vv. 1-4]
Esta caeu em tal guisa, | se a Deus leixasse vĩir,
que podera a eigreja | toda tantoste destroir;
mais Deus nom quis esto sofrer
po-la eigreja defender
[Refrão = vv. 1-4]
de sa madre groriosa, | a reinha esperital;
porém desviou a pena | em tal guisa que nom fez mal,
e fê-la tam passo decer
que pois nom se pude volver.
[Refrão = vv. 1-4]
Mai-los monges, que cantavam | a missa da madre de Deus,
quand’ oírom o som grande, | disserom: “– Senhor, somos teus,
e nom nos leixes perecer
nem de maa morte morrer”.
[Refrão = vv. 1-4]
[E], dizend’ esto, saírom | da eigrej’, e virom estar
o penedo que caera, | que Deus fez[era] desviar;
e a Virgem e seu poder
começarom a beizer.
[Refrão = vv. 1-4]
Este miragre tam grande, | que fez pola de bom talám
Deus, sa madre groriosa, | vee-no quantos [al]i vam
a Monsarraz, e ham prazer,
e do seu vam i oferer.
Por razom tenh’ obedecer
as pedras a madre do rei,
que quando morreu por nós sei
que porém se forom fender.
* * *
250
Cantigas de Santa Maria 114
«A que servem todo-los celestiaes»
(E 114, T 114)
Esta é dum mancebo a que seus emigos chagarom mui mal de morte, e sa madre prometera-o a Santa Maria de Salas, e foi logo guarido.
R0
2
I
4
6
A que servem todo-los celestiaes
guarecer bem pode as chagas mortaes.
Dest’ um gram miragre fez Santa Maria
de Salas por ũa molher que havia
gram fiança em ela e a servia
põendo ant’ o seu altar estadaes.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesta um filho houve que amava
mais ca rem, e sempre o acomendava
a Santa Maria e por el rogava
que lho d’ ocajões guardass’ e de maes.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E mester lhe foi, ca um dia acharom-no seus emigos e mal o chagarom
de guisa que todo o espedaçarom,
ca lhe derom colbes mui descomunaes.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Quand’ oiu aquesto sa madr’, a mesquinha,
co-na mui gram coita que dele tĩinha,
foi por el mui tost’ e trouxe-o aginha
a sa cas’ e pôs-lo em ũus portaes.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E catou-o, e viu-o come desfeito
das chagas mui grandes e atám maltreito;
e atou-lhas logo bem todas a eito
com panos de linho e com seus cendaes.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E acomendo’-o aa groriosa
Santa Maria de Salas preciosa,
que o guariu logo come piadosa
(ca xe soe ela a fazer de taes),
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
assi que as chagas (que eram atadas)
forom logo todas atám bem juntadas,
sãas e guaridas e tam bem sarradas
251
42
que adur pareciam end’ os sinaes.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Ante que a alva do dia chegasse,
diss’ el a sa madre que o desatasse,
ca já são era, e que o catasse;
e ela o fez log’, e achou-lh’ iguaes
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
as chagas e sãas. E porém loores
deu aa beita senhor das senhores,
que aos seus mostra tam grandes amores,
e mais a aqueles que lhe som leaes.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
Logo madr’ e filho em caminh’ entrarom,
e forom a Salas, e alá contarom
aqueste miragre. E todos loarom
a Virgem por est’, e loarám jamaes.
62
A que servem todo-los celestiaes
guarecer bem pode as chagas mortaes.
58
R10
* * *
252
Cantigas de Santa Maria 115
«Com seu bem»
(E 115, T 115, U 55)
Esta é como Santa Maria tolheu ao demo o mininho que lhe dera sa madre com sanha de
seu marido, porque concebera del eno dia de Páscua.
R0
1
3
5
I
7
9
11
13
15
R1
16-20
II
22
24
26
28
30
R2
31-35
III
37
39
41
43
45
R3
46-50
IV
52
54
56
Com seu bem
sempre vem
em ajuda
conhoçuda
de nós Santa Maria.
Com ajuda nos vem-e
e com sa amparança
contra o que nos tem-e
no mund’ em gram balança
por tolher-nos o bem-e
da mui nobr’ esperança;
mas vingança
filha a groriosa
poderosa
del, e sempre nos guia.
[Refrão = vv. 1-5]
Desto no tempo d’ ante
achamos que fezera
a do mui bom talante
gram maravilha fera
dũa molher andante
mal que seu filho dera
e posera
(por que fora pecare)
de o dare
ao dem’ em bailia.
[Refrão = vv. 1-5]
Em terra de Roma_houv’ i,
com’ escrit’ hei achado,
um home, com’ aprendi,
bõo e muit’ honrado,
e, demais, segund’ oí,
ric’ e mui bem casado,
e amado
de todo-los da terra,
ca sem err’ a
sa fazenda fazia.
[Refrão = vv. 1-5]
Est’ home e sa molher
mui gram temp’ esteverom
servindo Deus volonter,
e seus filhos fezerom,
e quant’ houverom mester
a cada ũu derom.
Pois poserom
253
58
60
R4
61-65
V
67
69
71
73
75
R5
76-80
VI
82
84
86
88
90
R6
91-95
VII
97
99
101
103
105
R7
106-110
VIII
112
114
116
118
120
R8
121-125
IX
127
129
de ter castidade
e verdade
entre si noit’ e dia.
[Refrão = vv. 1-5]
Mais o dem’, a que pesou
daquesto que poseram,
muitas carreiras buscou
pera o que fezeram
desfazer, e tant’ andou
que, o que manteveram,
u jouveram
cada um em seu leito,
com despeito
os meteu em folia.
[Refrão = vv. 1-5]
Muit’ houv’ o demo prazer
pois que houve vençudo
o hom’, e fez-lo erger
de seu leit’, encendudo
por com sa molher jazer.
E o que prometudo
e túdo
muit’ era que guardass’ e
nom britasse,
el ende o partia.
[Refrão = vv. 1-5]
A molher chorand’ entom,
a que muito pesava,
lhe diss’ aquesta razom:
como o dem’ andava
por britar sa profissom;
mas que lhe conselhava
e rogava
que o el nom fezesse,
ca soubesse
que a Deus pesaria.
[Refrão = vv. 1-5]
“– Demais, festa será crás
dessa Páscoa santa;
porend’ em ti Satanás
nom haja força tanta
que o que prometud’ hás
brites, ca quem quebranta
ou s’ encanta
a britar sa promessa,
log’ em essa
hora de Deus desvia”.
[Refrão = vv. 1-5]
O home nom quis, per rem,
leixar seu fol deleito,
nem catou i mal nem bem;
mais, pois compriu o preito,
254
131
133
135
R9
136-140
X
142
144
146
148
150
R10
151-155
XI
157
159
161
163
165
R11
166-170
XII
172
174
176
178
180
R12
181-185
XIII
187
189
191
193
195
R13
196-200
ela com sanha porém
diz: “– O que será feito,
eu endeito-o daqui, que seu seja,
sem peleja,
do demo todavia”.
[Refrão = vv. 1-5]
Logo bes dessa vez
a molher foi encinta
dum meninho, que pois fez
com pesar, sem enfinta,
por que o mui mais ca pez
negro nem que a tinta
del nom quinta,
mais todo o meninho
fremosinho
depois haver devia.
[Refrão = vv. 1-5]
Onde depois, sem mentir,
o demo, de mal cho,
aos doz’ anos pedir
aquel meninho vo
a sa madre, sem falir,
e diss’: “– Ao quinzo
em meu so
o levarei, sem falha,
sem baralha
doutre e sem perfia”.
[Refrão = vv. 1-5]
A madre com gram pesar
e com mui gram quebranto
começou log’ a chorar
por seu filh’ e fez chanto;
e pois feze-o chamar
e disse-lh’ entom tanto:
“– Ao santo
papa que é em Roma
vai, e toma
haver por ena via;
[Refrão = vv. 1-5]
ca d’ atanto sõo fis:
que te porrá conselho
em teu mal, par Sam Denis”.
E o moç’ em trebelho
no-no tev’; e por Paris
foi; e, pois, no concelho,
no vermelho
pano conhoceu logo
no meog’ o
papa da crerezia.
[Refrão = vv. 1-5]
255
XIV
202
204
206
208
210
211-215
R14
XV
225
226-230
[Refrão = vv. 1-5]
219
221
223
XVI
232
234
236
238
240
R16
241-245
XVII
247
249
251
253
255
R17
[Refrão = vv. 1-5]
ca um sant’ hom’ i está
que end’ é patriarca
daquela terra e há
em podê-la comarca,
e conselho te dará
bõo, se Deus me parca;
busca barca
e vai tost’, e nom chores
nem demores,
e faz ta romaria”.
217
R15
E, tantoste que o viu,
a ele mantenente
foi, e bem lhe descobriu
seu feito, que niente
del nom leixou nem mentiu.
Mai-lo papa Cremente
certamente
lhe disse: “– Essa hora,
sem demora,
te vai pera Suria;
256-260
XVIII
262
264
266
268
270
Contaria-vos dedur
as mui grandes tormentas
que sofreu no mar de Sur
o moço, ca trezentas
milhas correu sem nenlhur
folgar, ou quatrocentas
ou quinhentas,
sem áncora deitarem
nem chegarem
a terra d’ Armenia.
[Refrão = vv. 1-5]
E, per com’ aprendi eu,
o moço, muit’ aginha
chegou a el e lhe deu
a carta que tiinha
e disse-lh’: “– Ai senhor meu,
pola santa reinha,
meezinha
na mià coita pom cedo”.
E com medo
seu mal lhe descobria.
[Refrão = vv. 1-5]
O patriarca, sem al,
lhe disse: “– Sei que andas
com mui gram coita mortal;
mas, desto que demandas,
um ermitám sei atal
que vestiduras brandas
nem viandas
nom usa terraes,
senom taes
como lhas Deus envia;
256
271-275
R18
XIX
277
279
281
283
285
R19
286-290
XX
292
294
296
298
300
R20
301-305
XXI
307
309
311
313
315
R21
316-320
XXII
322
324
326
328
330
R22
331-335
XXIII
337
339
341
[Refrão = vv. 1-5]
e achá-lo-ás, bem sei,
ena Negra Montanha;
mas atanto te direi:
que nom leves companha,
ca, per com’ eu apres’ hei,
no-na quer, e sa manha
é estranha
doutr’ home, e sa vida
mui comprida”.
Soo, sem companhia,
[Refrão = vv. 1-5]
o caminh’ entom colheu
o moç’, e gram jornada
pois cada dia prendeu,
que nunca folgou nada,
atá que lh’ apareceu
a ermida sagrada
u morada
daquel religioso
homildoso
era, que Deus servia.
[Refrão = vv. 1-5]
O moç’ houve gram sabor
pois entrou na capela,
mas do ermitám maior,
que viu dentr’ em sa cela,
u lh’ entom Nostro Senhor
deu em ũ’ escudela
grand’ e bela
dous pães bem do ceo,
so um veo
que a toda cobria.
[Refrão = vv. 1-5]
E o ángeo de Deus
do ceo da altura
deceu ontr’ os servos seus
em mui bela figura
e diss’: “– Ai amigos meus,
porque vossa natura
nom endura
muito fame nem sede,
dous tede
pães”. E logo s’ ia.
[Refrão = vv. 1-5]
Pois comerom daquel pam,
o moço sa fazenda
contou ao ermitám,
chorando, sem contenda.
El diss’: “– A do bom talám
roga que te defenda
e comprenda
257
343
345
R23
346-350
XXIV
352
354
356
358
360
R24
361-365
XXV
367
369
371
373
375
R25
376-380
XXVI
382
384
386
388
390
R26
391-395
XXVII
397
399
401
403
405
R27
406-410
XXVIII
412
414
o demo e o dome,
que nom tome
a ti com’ el querria;
[Refrão = vv. 1-5]
ela seja teu solaz
até ena manhãa,
que direi eu, se lhe praz,
missa pela luz chãa,
e comungar-t’-ei em paz,
e a ta alma sãa
e certãa
será de paraíso,
u há riso
sempre e alegria”.
[Refrão = vv. 1-5]
O ermitám ant’ a luz
as horas foi dizendo
daquel que morreu na cruz
por nós pas sofrendo.
O meninh’ entom lh’ aduz
seus livros mui correndo,
e tremendo
disse: “– Missa dizede,
e valede-me, ca tempo seria”.
[Refrão = vv. 1-5]
De Páscua no mês d’ abril
a missa começarom;
mai-lo demo mui sotil,
el e os seus andarom
tant’ a redor do covil,
que o moço filharom
e levarom
da missa na segreda,
que mui queda
o ermitám dizia.
[Refrão = vv. 1-5]
Com’ a hestória diz,
u diabres levavam
o moç’ e como perdiz
assi o depenavam,
virom a emperadriz
do ceo, que dultavam,
e leixavam
o moço e fugiam,
ca sabiam
que lho nom leixaria.
[Refrão = vv. 1-5]
Pois que tolheu o donzel
a Virgem, com’ oístes,
ao dem’ e seu tropel
fezo fugir mui tristes;
258
416
418
420
R28
421-425
XXIX
427
429
431
433
435
R29
436-440
XXX
442
444
446
448
450
R30
451
453
455
mais o ermitám fiel
diss’: “– Ai Deus, consentistes
ou dormistes
u mi_o moço prenderom
e tolherom,
que ante mi siía?”
[Refrão = vv. 1-5]
Como home que se dol,
chorand’ e nom riindo,
o ermitám come fol
s’ houv’ a tornar pedindo
o moço; e em sa prol
estando comedindo,
foi oindo,
u a paz acabara,
que lh’ em crara
voz Amém respondia.
[Refrão = vv. 1-5]
O ermitám entom prês
o moço pela mão,
que a reinha cortês
lhe dera livr’ e são,
e disse-lh’: “– Amigo, vês?:
eu te faço certão
bem de chão
que des hoimais és quito
do maldito
demo que te seguia”.
Com seu bem
sempre vem
em ajuda
conhoçuda
de nós Santa Maria.
* * *
259
Cantigas de Santa Maria 116
«Dereit’ é de lume dar a que madr’ é do lume»
(E 116, T 116)
Esta é como Santa Maria fez acender duas candeas na sa eigreja em Salamanca, porque o
mercador que as i posera lhas encomendara.
R0
1
Dereit’ é de lume dar | a que madr’ é do lume.
I
2
8
Desto vos quero contar
miragre verdadeiro
que quis a Virgem mostrar
gram por um mercadeiro
que aa feira mercar
com um seu companheiro
de Salamanca fora, | como ham de costume.
R1
9
[Refrão = v. 1]
II
10
16
Aqueste mais doutra rem
amou Santa Maria
e com haver e com sém
de grado a servia;
e jajũava tam bem
cada que sa vigia
dela foi que pescado | nom com[e]u nem legume.
R2
17
[Refrão = v. 1]
III
18
24
E atal vida usou
per uquer que andava
m[ercand]o, que jajũou
nas feiras u mercava;
mas pero nunca achou,
uquer que el estava,
quem lhe fezesse nojo | ond’ houvesse queixume.
R3
25
[Refrão = v. 1]
IV
26
32
El vivendo vida tal
que, u eigrej’ achasse
da Virgem que pod’ e val,
que desto nom errasse
que cande’ ou estadal
i sigo nom levasse,
esto em Salamanca | fez, dizendo “– Adu-me”,
R4
33
[Refrão = v. 1]
V
34
40
a um seu sergent’ assi,
“– duas grandes candeas,
as que de Toled’ aqui
trouxe, que nom som feas;
ca eu taes alá vi
melhor arder que teas
nem que niũa cousa | que o fogo consume”.
41
[Refrão = v. 1]
4
6
12
14
20
22
28
30
36
38
R5
260
VI
42
48
Segundo com’ apres’ hei,
as candeas trouxerom
assi como vos direi,
e acender fezerom;
e, como per oir sei,
sas guardas i poserom,
dizendo: “– Guardad’ ũa | que outra nom afume”.
49
[Refrão = v. 1]
44
46
R6
VII 50
56
Mas avo per prazer
da Virgem groriosa
que houverom de morrer;
mas ela piadosa
[a]s ar fez pois acender
come tam poderosa
com Deus, cujos miragres | nom cabem em volume.
57
Dereit’ é de lume dar | a que madr’ é do lume.
52
54
R7
* * *
261
Cantigas de Santa Maria 117
«Toda cousa que à Virgem seja prometuda»
(E 117, T 117)
Esta é como ũa molher jurou que nom fezesse obra em sábado, e depois, per seu pecado,
britou sa jura, e aprenderom-xe-lhe as mãos aos braços, e porém mandou-se levar a Santa Maria
de Chartes e foi logo guarida.
R0
2
I
4
6
Toda cousa que à Virgem seja prometuda,
dereit’ é e gram razom que lhe seja túda.
Dest’ um fremoso miragre fez Santa Maria
em Chartres por ũa molher que jurad’ havia
que nom fezesse no sábado obra sabuda
per que a Santa Maria houvesse sanhuda.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto teve um gram tempo; mas em tantas guisas
a sossacou o diabo que lhe fez camisas
talhar e coser com seda d’ obra mui miúda,
per que sa lavor na terra fosse conhoçuda.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E em mente nom havia do que prometera
que o sábado guardasse, mas sempr’ i cosera
mais ca em outro dia: tant’ era [a]trevuda;
per conselho do diabr’ assi foi decebuda.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Mas, que vissem a vingança judeus e crischãos
que por sa madre Deus dela filhou, fez-lh’ as mãos
que aos braços apresas forom, e tenduda
caeu em terra, e jouve mui gram peça muda.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Muitas físicas provarom em ela, que palha
nom lhe valverom nem prol teverom nemigalha;
e depois pelas eigrejas demandand’ ajuda
a trouxerom, porque dos santos foss’ acorruda.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E, quando viu que tod’ esto rem nom lhe prestava,
aa eigreja de Chartes levar se mandava,
e ant’ o altar chorando foi tam repentuda
que logo houve saúde; cousa foi viúda
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
42
per toda aquela terra, que os que a viram
andar tolheita das mãos e pedir oíram
derom graças aa Virgem, a que sempr’ ajuda
aos coitados, ca desto muit’ end’ é tuda.
44
Toda cousa que à Virgem seja prometuda,
dereit’ é e gram razom que lhe seja túda.
40
R7
262
Cantigas de Santa Maria 118
«Fazer pode dôutri vivê-los seus»
(E 118, T 118)
Esta é dũa molher de Saragoça que paria os filhos mortos, e rogou a Santa Maria de Salas
que aquel que tragia que lho fezesse viver.
R0
2
I
4
6
Fazer pode dôutri vivê-los seus
filhos aquela que madr’ é de Deus.
Dest’ um miragre direi que oí,
que fez a Virgem, per com’ aprendi,
em Saragoça dũa molher i
que paria morto-los filhos seus.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Com seu marido baralhava mal
muitas vezes sobr’ este preito tal;
porém de cera omagem, nom dal,
fez de meninho, dos dinheiros seus,
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
que prometeu aa Virgem de prez.
Pero tal parto três vegadas fez;
e, quando vo aa quarta vez,
pariu mort’ outro, chorando dos seus
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
olhos, dizendo: “– Senhor, que farei?:
pois est’ é morto, nunca viverei
com meu marido, mas a ti irei
que a teu filho rogues que dos seus
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
miragres mostre por ti, ca sei bem
que o fará: desto nom dulto rem;
pois faça esto por ti, ca bem tem
meu marido que ambos somos seus,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
eu e ele”. E tam muito chorou
em dizend’ esto, e tanto rogou
que o meninho entom viv’ achou.
E fez chamar i dous homes seus
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
de sa casa; e seu marid’ entom
i vo logo com gram devoçom;
e muitas gentes loarom entom
263
42
aa Virgem, que val sempr’ aos seus.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Tantost’ a madre foi sigo levar
seu filh’ a Salas, e ant’ o altar
pôs sa omagem, dizendo: “– Loar
desta devemos os miragres seus”.
R8 49-50 Fazer pode dôutri vivê-los seus
filhos aquela que madr’ é de Deus.
* * *
264
Cantigas de Santa Maria 119
«Como somos per conselho do demo perdudos»
(E 119, T 119)
Esta é como Santa Maria tolheu um joiz aos diáboos que o levavam, que o queriam matar, e
torno’-o a sa casa, e disse-lhe que se meefestasse ca outro dia havia de morrer.
R0
2
I
4
6
Como somos per conselho do demo perdudos,
assi somos pelo da Virgem tost’ acorrudos.
Desto direi um miragre, onde gram façanha
filharedes, que a Virgem fezo em Espanha,
dum home que de diabos ũa gram companha
levavam pera parem com os descreúdos.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este sobrejoiz era dũa vila bõa,
em que viçosa tĩía muito sa pessõa,
mui gram manhãa jantando, e cand’ a nõa,
e grandes dões filhava, ca nom dos miúdos.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este mui bom pam comia sempr’, e bõos vinhos
bevia, mas nom usava muit’ andar caminhos
pera prender os ladrões; pero os mesquinhos
prendia, e por el eram mui mal remeúdos.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El um di’ assi estando, que jantar queria
com outros que convidados houv’ em aquel dia,
oiu como de peleja ou de gram perfia
grandes vozes e braados fortes e agudos,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e dizend’: “– Aginha, aginha, mui toste filhade
aquel home e da vila longe o levade!”.
El, cuidando que peleja era de verdade,
mandou filhar a seus homes lanças e escudos,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e el saiu dos primeiros parti-la peleja,
dizendo: “– Por Deus, varões, nom seja, nom seja!”
Mas tantoste de diabos companha sobeja
o filharom, ũus negros e outros cornudos.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E mantenente da vila o poserom fora,
sobr’ um poço fond’ e negro mais que ũa mora,
e quisero-no deitar em ele essa hora
com outros, que pouc’ havia eram i metudos.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
265
VIII
46
48
E aquel poço fervia bem come caldeira,
ond’ el espantad’ estava de maa maneira.
Em esto chegou a Virgem santa verdadeira,
dizendo: “– Leixad’ est’ home, maos atrevudos!”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Eles, quand’ aquest’ oírom, fugirom aginha
e leixarom aquel hom’ aa santa reinha,
que lhe deu logo conselho bem qual convĩinha,
ca os seus nom quer ela que sejam cofondudos.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Ca, pero el de justiça mui pouca fezera,
sempre em Santa Maria esperanç’ houvera;
e porende o livrou daquela coita fera,
dizend’: “– Atantoste sejam per ti conhoçudos
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
teus pecados, e filha deles gram pedença,
e em pagar o que deves mete ta femença,
e em meu filh’ e em mi have bem ta creença,
e faz come os que estám sempr’ apercebudos,
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
ca sabe que mais dum dia nom será ta vida;
porém faz que, pois ta alma for de ti partida,
que logo, ses tardança, pera Deus sa ida
faça, e que os santos nom lhe sejam sanhudos”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Poi[s] lh’ aquesto diss’ a Virgem, em um mui bel chão
o leixou. E el[e] tornou-se logo de mão
a sa casa, e enviou polo guardião
e filhou del pedença dos erros sabudos.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E nulh’ home mais coitado nom foi, que-no visse.
E outro dia morreu como lh’ a Virgem disse;
e, u quis Deus que lh’ a alma do corpo saísse,
os ángeos a levarom, nobres e temudos.
86
Como somos per conselho do demo perdudos,
assi somos pelo da Virgem tost’ acorrudos.
82
R14
* * *
266
Cantigas de Santa Maria 120
«Quantos me creverem loarám»
(E 120, T 120)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
R
4
R
6
R1
8
Ca sem ela Deus nom haverám
Quantos me crevrerem loarám
ne-nas sas fazendas bem farám
Quantos me creverem loarám
ne-no bem de Deus conhocerám;
e tal conselho lhes dou porém:
10
Quantos me creverem loarám
a Virgem, que nos mantém.
II
R
12
R
14
R2
16
E com tod’ esto servi-la-am
Quantos me creverem loarám
e de seu prazer nom sairám,
Quantos me creverem loarám
e mais doutra rem a amarám,
e serám per i de mui bom sém.
18
Quantos me creverem loarám
a Virgem, que nos mantém.
III
R
20
R
22
R3
Quantos me creverem loarám
a Virgem, que nos mantém.
24
Ca em ela sempre acharám
Quantos me creverem loarám
mercee mui grand’ e bom talám,
Quantos me creverem loarám
per que atám pagados serám
que nunca desejarám alrem.
26
Quantos me creverem loarám
a Virgem, que nos mantém.
* * *
267
Cantigas de Santa Maria 121
«De muitas maneiras busca a Virgem esperital»
(E 121, T 121)
Esta é dum miragre do cavaleiro que fazia a guerlanda das rosas a Santa Maria.
R0
2
I
4
6
De muitas maneiras busca | a Virgem esperital
carreiras em como guarde | os seus de mort’ e de mal.
E de tal razom com’ esta | em Proença ũa vez
amostrou mui gram miragre | a senhor de todo prez
contra um seu cavaleiro | que tal promessa lhe fez:
que lhe guerlanda faria | de rosas toda, nom dal;
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
e aquesto cada dia, | podendo-as el achar,
e, se nom, por cada rosa | dissesse em seu logar
ũa vez avemaria, | e assi fosse cercar
a guerlanda toda delas, | e que lha fezess’ atal.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Aquesto fez um gram tempo, | que nom faleceu de rem,
que a guerlanda das rosas | no tempo delas mui bem
fazia, e a põía | na sa omagem; des ém,
a ela s’ acomendava, | que aos seus nunca fal.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Quando nom achava rosas, | rezava, com’ aprendi,
toda-las Aves Marias | que prometera, que niũa nom lhe falecia. | E el, fazendo assi,
topou com seus emigos | em meogo dum gram val,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que mui bem encavalgados | vĩinham; mais, a-la-fé,
ele assi nom estava, | mas em um seu palafré
frac[o] em que cavalgava. | E deceu dele a pé
e ficou log’ os golhos | escontra u o sol sal,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
e diss’ as Aves Marias, | rogando de coraçom
a Virgem que lhe valvesse. | E ela valeu-lh’ entom:
ca, ali u eles iam | po-lo matar de random,
viro-no todo cercado | de lume celestial.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
E ar virom ũa dona | ũa guerlanda fazer
de rosas, e el com ela | do outro cabo põer
das rosas ena guerlanda; | mas eles entom poder
nom houverom d’ ir a ele, | e disserom log’ atal:
268
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
“– Tornemo-nos daqui logo, | pois esto nom praz a Deus:
que est’ home nós matemos; | ca x’ éste dos servos seus;
e porende vos conselho” | –diss’ entom um deles–, “meus
amigos, que nos vaamos; | ca muit’ é descomunal
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
cousa de filharmos guerra | co-na madre do Senhor,
que veemos cabo dele | mais bela ca nulha flor,
e faz com el a guerlanda | e é sa ajudador,
que assi nos desfaria | bem com’ a água o sal”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
Forom-s’ eles; e daquesto | o cavaleiro nom viu
nulha rem, nem sol a dona, | nem da guerlanda sentiu
que em sa mão tevesse; | mas pela terra oiu
todo quanto lhes contarom | da senhor que pod’ e val.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
66
E porém, se a amava | ante, depoi-la amou
mui mais; e este miragre | per muitas terras contou,
e, com quantos a loavam, | sempre muito a loou,
mostrando como nas coitas | aos seus é mui leal.
68
De muitas maneiras busca | a Virgem esperital
carreiras em como guarde | os seus de mort’ e de mal.
64
R11
* * *
269
Cantigas de Santa Maria 122
«Miragres muitos pelos reis faz»
(E 122, T 122)
Esta é como Santa Maria ressucitou ũa ifante, filha dum rei, e pois foi monja e mui santa
molher.
R0
2
I
4
6
Miragres muitos pelos reis faz
Santa Maria cada que lhe praz.
Desto direi um miragre que vi,
que em Toled’ a Virgem fez, ali
na sa capela, e creed’ a mi
que faz i outros miragres assaz.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta capela no alcáçar é
da Santa Virgem, u ficou a fé,
e dentro ũa sa figura sé,
feita como quando pariu e jaz.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Esta fez pintar o emperador,
o que de tod’ Espanha foi senhor;
mas o bom rei Dom Fernando melhor
a pintou toda, o corp’ e a faz.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
A este rei ũa filha naceu,
que a Santa Maria prometeu,
des i aa ordem ofereceu
de Cistel, que é santa e de paz.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Esta meninha sa madre criar
a fez per’ aas Olgas a levar
de Burgos; ma-la meninha ’nfermar
foi, e morreu, de que mao solaz
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
toda a noite sa ama levou
ca, de doo, a matar-se cuidou;
e a sa madre logo o contou.
E ela fez como a quem despraz
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
de lhe morrer sa filha. E entom
foi-a filhar e diss’ assi: “– Pois nom
quis a Virgem, a que te dei em dom,
que vivesses, mas quiso que na az
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
dos mortos fosses, por pecados meus,
270
46
48
porém deitar-t’-ei ant’ os pees seus,
da sa omagem, da madre de Deus”.
E fez-lo logo, par Sam Bonifaz.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E todos da capela fez sair;
des i, mandou bem as portas choir.
E as donas filharom-s’ a carpir,
e ela chorando pôs seu anfaz
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
e disse: “– Já mais nom me partirei
daquesta porta, ca de certo sei
que me dará a madre do bom rei
mià filha viva; se nom, de prumaz
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
tragerei doo, ou dum anadiu”.
E, esto dizendo, chorar oiu
a meninha, e as portas abriu
e filhou-a nos braços mui viaz,
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
chorand’ e dizendo: “– Beita tu
és, mià senhor, que pariste Jesu-Cristo; e porém, cada logar u
for ta eigreja, bem atá em Raz,
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
darei do meu”. E bem assi o fez;
e levou sa filha daquela vez,
que deu nas Olgas, logar de bom prez,
malgrad’ end’ haja o demo malvaz.
80
Miragres muitos pelos reis faz
Santa Maria cada que lhe praz.
76
R13
* * *
271
Cantigas de Santa Maria 123
«De Santa Maria sinal qual-xe-quer»
(E 123, T 123)
Esta é como Santa Maria guardou um frade mor dos diáboos na hora que quis morrer, e
torcia-se todo com medo deles.
R0
2
I
4
6
R1
De Santa Maria sinal qual-xe-quer
valrá muit’ a quem em ela bem crever.
Ca quequer que seja daquesta senhor,
valrá muit’ a quem de mal coitado for,
e valer-lh’-á contra o demo maior
ali u sobr’ ele gram poder houver.
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
Bem com’ em Bitória guariu ũa vez
a um frade mor, que de meninhez
entrara na ordem, e i mui bom prez
vivendo gãara. Mas foi-lhe mester
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
que o acorresse, como lh’ acorreu,
Santa Maria na hora que morreu,
ca, um pouc’ enante, todo se torceu
e parou-se negro. E quem vos disser
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
que mais fea cara podia ter
nulh’ home, sol nom lho querades creer;
mas outro bom frade foi log’ encender
candea da Virgem, beita molher.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E, des que [e]na mão lha enserrou,
a coor mui negra logo se cambiou,
e a faz mui branca toda se tornou
sem obrar i físico de Mompesler.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Mas a pouco rato houve de fĩar,
ond’ houverom os frades mui gram pesar;
temendo que era em mao logar,
disserom: “– Rez’ ora quem rezar souber
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
o salteiro todo, porque, sem falir,
nos saber Deus faça u este fez ir”.
Porend’ a dous frades o fez Deus vĩir,
pois foi mort’, e disse: “– Quem saber quiser
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
272
VIII
46
48
porque me torvei todo quando mor[r]i,
esto foi porque os diáboos vi;
mas, poi-la candea adusserom i,
fugirom ém todos; e quem bem fezer,
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
sempre terrá sigo algũu sinal
de Santa Maria, a que nunca fal
aos que a servem, e sempre lhes val,
e saca de pa quem i estever;
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
assi fez a mi, esto sabede bem:
deu-me logar bõo qual a mi convém;
e vós muitas graças lhe dade porém,
ca salvo será sempr’ o com que tever”.
62
De Santa Maria sinal qual-xe-quer
valrá muit’ a quem em ela bem crever.
58
R10
* * *
273
Cantigas de Santa Maria 124
«O que pola Virgem leixa o de que gram sabor há»
(E 124, T 124)
Esta é como Santa Maria guardou um home que apedrarom, que nom morresse atá que se
mefestasse, porque jajũava as vigias das sas festas.
R0
2
I
4
6
O que pola Virgem leixa | o de que gram sabor há,
sempr’ el’ aqui lhe demostra | o bem que pois lhe fará.
E dest’ um mui gram miragre | vos contarei, que oí
dizer aos que o virom, | e o contavam assi
como vos eu contar quero, | e, segum com’ aprendi,
demostrou Santa Maria | ena terra que está
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
mui preto d’ ambo-los mares | (do Gram, que corr’ arredor
da terra, e ar do outro | que é chamado Mor),
e mostrou Santa Maria, | madre de Nostro Senhor,
por um home. E quem esto | oir, sabor haverá
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
de jajũá-la sa festa | de março, com’ este fez,
que a jajũou gram tempo. | Mas porque foi a Xerez
e a Sevilha quand’ eram | de mouros, mais dũa vez,
foi acusado e preso, | porque sem mandad’ alá
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
fora, e que o matassem | logo, u nom houvess’ al,
e que foss’ apedreado | porque fezo feito tal.
E, ferindo-o, chamava | a reinha ’sperital,
dizendo: “– Ai senhor, val-me, | bem como valiste já
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a aqueles que se fiam | em ti mui de coraçom,
e por aquesto nom queras | que moira sem confissom,
ca eu, sempr’ em ti fiando, | receb’ aquesta paixom”.
Entom os que o matavam | disserom: “– E que será
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que, por pedras que deitemos, | no-no podemos matar?”
Entom o que lho mandava | mandou-lhe ferir e dar
com um venabre mui grande | e depoi-lo degolar;
e nom morreu por tod’ esto, | dizendo: “– Por Deus, acá
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
um crérigo mi_aduzede, | a que diga quanto fix
de mal, de que pedença | de meus pecados nom prix”.
E, pois lh’ esto feit’ houverom, | diss’: “– Amigo, sempr’ eu quix
40
274
42
servir a Santa Maria, | a que nunca falirá
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
nem fal aos que a servem”. | E, dizend’ esto, morreu;
e, de como nós creemos, | Deus sa alma recebeu.
E, des que foi morto, logo | a hora embarveceu,
ca esse dia rapara | sa barva em Alcalá
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
de Guadaíra; e jouve | um tempo, creede bem,
assi que ave nem besta | dele nom com[e]u, per rem.
Esto fez Santa Maria, | a senhor que nos mantém,
pola sa gram piedade, | e sempre nos manterrá.
56
O que pola Virgem leixa | o de que gram sabor há,
sempr’ el’ aqui lhe demostra | o bem que pois lhe fará.
52
R9
* * *
275
Cantigas de Santa Maria 125
«Muit’ é maior o benfazer»
(E 125, T 125, U 97)
Esta é como Santa Maria fez partir o crérigo e a donzela que faziam voda, porque o crérigo
trouxera este preito pelo demo, e fez que entrassem ambos em ordem.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
56
R7 57-60
Muit’ é maior o benfazer
da Virgem Santa Maria
que é do demo o poder
nem d’ home mao perfia.
E desta razom vos direi | um miragre fremos’ assaz,
que fezo Santa Maria | por um crérigo alvernaz
que e-na loar punhava | polos muitos bes que faz,
e rezava por aquesto | as sas horas cada dia.
[Refrão = vv. 1-4]
O crérigo maiordomo | era do bispo bem dali
da cidad’ em que morava | el; e era i outrossi
ũa donzela, fremosa | a maravilha, com’ oí,
que a Virgem, de Deus madre, | mui de coraçom servia.
[Refrão = vv. 1-4]
Des i, sempre lhe rogava | que lhe mostrass’ algũa rem
per que do demo guardada | fosse; e a Virgem porém
lh’ apareceu e lhe disse: | “– Di «Ave, Maria» e tem
sempr’ em mi a voontade, | e guarda-te de folia”.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela fezo seu mandado | e usou esta oraçom.
Mais o crérigo que dixe, | lhe quis tal bem de coraçom
que em toda-las maneiras | provou de a vencer; mais nom
pôdo i acabar nada, | ca oir no-no queria.
[Refrão = vv. 1-4]
Daquesto foi mui coitado | o crérig’, e per seu saber
fez ajuntar os diabos | e disse-lhes: “– Ide fazer
com’ eu a donzela haja | log’ esta noit’ em meu poder;
se nom, em ũa redoma | todos vos enserraria”.
[Refrão = vv. 1-4]
Daquelo que lhes el disse | houverom todos gram pavor,
e forom aa donzela | e andarom-lh’ a derredor;
mas nada nom adubarom, | ca a madre do salvador
a guardava em tal guisa | que rem nom lh’ empeecia.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ entenderom aquesto, | log’ ao crérigo, sem al,
se tornarom, e el disse: | “– Como vos vai?” Disserom: “– Mal;
ca tam muito é guardada | da Virgem, madr’ esperital,
que o que a enganasse | mui mais ca nós saberia”.
[Refrão = vv. 1-4]
276
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
XVI
126
128
O crérig’ outra vegada | de tal guisa os conjurou
que ar tornarom a ela, | e um deles tam muit’ andou
que a oraçom da Virgem | lhe fezo que se lh’ obridou;
e ao crérigo vo | o demo com alegria,
[Refrão = vv. 1-4]
dizend’: “– O que nos mandastes | mui bem o per-recadei eu,
e hoimais de a haverdes | tenho que nom será mui greu”.
E o crérigo lh’ ar disse: | “– Torna-t’ alá, amigo meu,
e fas-me como a haja; | se nom, logo morreria”.
[Refrão = vv. 1-4]
E o demo tornou toste | e feze-a log’ enfermar,
e ena enfermidade | fê-la em tal guisa maiar
que seu padre e sa madre | a queriam porém matar;
mas o crérigo das mãos | muit’ aginha lha tolhia.
[Refrão = vv. 1-4]
E entom atám fremoso | o crérigo lhe pareceu
que a poucas, d’ amor dele, | logo se nom ensandeceu,
ca o demo, de mal cho, | em tal guisa a encendeu
que diss’ entom a seu padre | que logo se casaria
[Refrão = vv. 1-4]
com aquel crérig’; e disse | a sa madre que manamám
por el logo enviasse, | e chamassem um capelám
que lhes as juras fezesse; | se nom, soubessem bem de pram
que log’ entom com sas mãos | ant’ eles se mataria.
[Refrão = vv. 1-4]
Outro dia de manhãa | fezerom log’ eles vĩir
o crérig’; e el de grado | vo i e foi-lhes pedir
sa filha por casamento, | e prometeu-lhes, sem falir,
que lhe daria em arras | gram requeza que havia.
[Refrão = vv. 1-4]
E disse: “– Casemos logo”. | Mas diss’ o padre: “– Nom, mais crás
che darei honradamente | mià filha, e tu seerás
come em logar de filho; | e, se eu morrer, herdarás
mui grand’ algo que eu tenho, | que ganhei sem tricharia”.
[Refrão = vv. 1-4]
Os esposoiros juntados | forom logo, com’ apres’ hei,
e outro dia manhãa | casarom. Mas, que vos direi?:
porque pelo demo fora, | a madre do muit’ alto rei
do ceo mui grorioso | logo lhe-lo desfazia.
[Refrão = vv. 1-4]
E, por partir este feito, | oíd’ agora o que fez:
o crérigo que dissera | sempre sas horas, essa vez
obridou-xe-lhe a nõa; | mai-la reinha de gram prez
fezo que a sa eigreja | fosse, como ir soía.
277
[Refrão = vv. 1-4]
R16 129-132
XVII
134
136
E, u estava rezando, | pareceu-lh’ a madre de Deus,
e disso-lh’: “– Aqui que fazes?: | ca já tu nom eras dos meus
vassalos nem de meu filho, | mas és dos emigos seus,
diabos, que che fezerom | começar est’ arlotia:
[Refrão = vv. 1-4]
R17 137-140
XVIII
142
144
que com esta mià criada | cuidas casar, pero me pês,
que já sé eno táamo, | toda bem coberta d’ alfrês:
esto nom será dest’ ano, | per bõa fé, nem deste mês,
mas leixa esta loucura | e torna-t’ a crerizia;
[Refrão = vv. 1-4]
R18 145-148
XIX
150
152
e eu farei ao bispo | que venha por ti log’ acá,
e di-lh’ esto que ti dixe, | e el bem te conselhará
como nom perças ta alma; | e, se nom, Deus se vingará
de ti por quanto quisiste | do demo sa companhia”.
[Refrão = vv. 1-4]
R19 153-156
XX
158
160
Foi-s’ entom a Virgem santa | aa donzela, ali u
dormia, e disso: “– Maa, | com’ ousas aqui dormir tu
que és em poder do demo, | e mim e meu filho Jesu
’ escaecemos mui toste, | louca, maa e sandia?”
[Refrão = vv. 1-4]
R20 161-164
XXI
166
168
A donzela disse logo: | “– Senhor, o que vos aprouguer
farei mui de bõa mente; | mas este, de que som molher,
com’ o leixarei?” –diss’ ela. | Diss’ a Virgem: “– Há-che mester
que o leixes e te vaas | meter em ũa mongia”.
[Refrão = vv. 1-4]
R21 169-172
XXII
174
176
A nóvia s’ espertou logo | chorando, e esto que viu
diss’ ao padr’ e a madre; | des i, mercee lhes pediu
que log’ em um mõesteiro | a metessem, per com’ oiu
dizer aa Virgem santa, | que casar nom lhe prazia.
[Refrão = vv. 1-4]
R22 177-180
XXIII
182
184
E o bispo chegou logo, | e disso-lh’ o nóvio: “– Fol
sõo de que casar quige, | mai-lo demo, que sempre sol
fazer mal aos que ama, | m’ enganou; e porém mià prol
é que logo monge seja | em algũa abadia”.
[Refrão = vv. 1-4]
R23 185-18
8
XXIV
190
Desta guisa acordados | forom os nóvios, como diz
o escrito; e o bispo | (que nom’ havia «Dom Fiiz»)
ambo-los meteu em ordem | por prazer da emperadriz
do ceo mui groriosa, | e forom i todavia.
192
R24
194
196
Muit’ é maior o benfazer
da Virgem Santa Maria
que é do demo o poder
nem d’ home mao perfia.
278
Cantigas de Santa Maria 126
«De toda chaga bem pode guarir»
(E 126, T 126)
Esta é como Santa Maria guareceu um home em Elche dũa saeta que lhe entrara pelos ossos da faz.
R0
2
I
4
6
De toda chaga bem pode guarir
e de door a Virgem, sem falir.
Como sãou em Elche ũa vez
Santa Maria, a senhor de prez,
a um home, de chaga que lhe fez
ũa saet’, onde cuidou fĩir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca a saeta lh’ entrara assi
pelos ossos da faz, com’ aprendi,
que nom lha podiam tirar dali
per maestria, nem i avĩir.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E com taces a iam filhar,
mas per rem nom lha podiam tirar,
nem com baesta que iam armar;
ca Deus nom lho queria consentir
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que guarisse, senom pola senhor
nossa, sa madre. Porém sofredor
foi aquel home de tam gram door
de qual vos guarde Deus, se por bem vir.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Pois viu aquel home que rem valer
nom lhe podia que fosse fazer,
bem ant’ o seu altar se fez trager
de Santa Maria, e repentir
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
se foi de seus pecados, e chorou
muito, e mui bem se mãefestou,
e Santa Maria muito chamou;
e logo o ferro lhe fez sair
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
sem door ela dos ossos da faz.
E esto virom homes assaz,
que a loarom, ca em ela jaz
mais de bem que podemos comedir.
40
42
R7
44
De toda chaga bem pode guarir
e de door a Virgem, sem falir.
* * *
279
Cantigas de Santa Maria 127
«Nom pod’ home pela Virgem tanta coita endurar»
(E 127, T 127)
Esta é como Santa Maria nom quis que entrasse na sa eigreja do Poi um mancebo que dera
a sa madre um couce, e el, pois viu que nom podia entrar, cortou o pé e entrou logo, e depois
sãou-[o] Santa Maria.
R0
2
I
4
6
Nom pod’ home pela Virgem | tanta coita endurar
que pois ela nom lho haja | com bem a galardõar.
E desto mui gram miragre | vos direi que ũa vez
a Virgem Santa Maria | na eigreja do Po[i] fez
por um hom’ avizimao, | que por seu siso rafez
com sa madre que havia | bõa fora baralhar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E nom catou o mesquinho | como o troux’ e pariu
dentr’ em seu corpo sa madre, | e do pee a feriu
mal; e muit’ ela chorando | entom mercee pediu
aa Virgem groriosa | que del gram dereito dar
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
lhe quisesse daquel torto | grand’ e mui descomunal.
E a Virgem, de Deus madre, | que aos coitados val,
deu-lh’ entom a el por esto | de door um tam gram mal,
que log’ em todas maneiras | s’ houve de mãefestar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E derom-lh’ em pedença | que fosse pedir perdom
em golhos a sa madre | e que lhe pediss’ em dom
que ambos em romaria | fossem fazer oraçom
aa eigreja daquela | em que Deus foi encarnar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E a madr’ entom chorando | tantoste lhe perdõou
e d’ irem em romaria | de grado lho outorgou;
mas dentro na sa eigreja | sol entrar no-no leixou
a Virgem Santa Maria, | e houv’ entom a ficar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
fora, e entrou a madre. | E a gente a veer
o verom, e puxando | o cuidarom i meter
per força; mais nom poderom | daquel logar o mover
que na eigreja entrasse, | por bem que fossem puxar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E os crérigos da see | verom corrend’ ali
e que se mãefestasse | lhe disserom, com’ oí.
El disse que o fezera; | pois conselharom assi:
que o pé talhar mandasse, | e poderia entrar.
40
42
280
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
El, como quer que lhe fosse | esto de fazer mui greu,
por entrar ena eigreja | da Virgem, com’ aprix eu,
feze-o, e mantenente | d’ entrar i nom lhe foi greu;
mais sa madre, pois viu esto, | começou de braadar,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
dizendo: “– Santa Maria, | senhor, pois que vim a ti,
nom queiras que o meu filho | sem pee vaa daqui”.
E tantas vezes diss’ esto | que adormeceu ali
u se jazia tenduda | chorando ant’ o altar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E sonhou que a omagem | lhe diss’: “– Aquesto farás:
filha o pé de teu filho, | e nom esperes a crás,
mais pom-lho u x’ ant’ estava, | e ta mão tragerás
sobr’ ele eno meu nome, | e eu farei-o sãar”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
A molher daqueste sonho | houv’ ende mui gram sabor,
e, pois s’ espertou, fez logo | como lh’ a bõa senhor
mandara; e pôs-lh’ o pee | em seu logar, e melhor
se juntou que ant’ estava | que o fezesse talhar.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Quand’ est’ oírom as gentes, | mui gram maravilha ém
houverom, e ar loarom | muito a que tanto bem
fez e nos faz cada dia, | e os crérigos Amém
responderom, e os sinos | mandarom todos sõar.
74
Nom pod’ home pela Virgem | tanta coita endurar
que pois ela nom lho haja | com bem a galardõar.
70
R12
* * *
281
Cantigas de Santa Maria 128
«Tam muit’ é com Jesu-Cristo Santa Maria juntada»
(E 128, T 128)
Esta é do corpo de Nostro Senhor que um vilão metera em ũa sa colma por haver muito
mel e muita cera, e, ao catar do mel, mostrou-se que era Santa Maria com seu filh’ em braço.
R0
2
I
4
6
Tam muit’ é com Jesu-Cristo | Santa Maria juntada
que, u quer que a El achem, | ela com El é achada.
De tal razom um miragre | vos direi maravilhoso,
que mostrou Santa Maria | com seu filho grorioso
a um vilão que era | d’ abelhas cobiiçoso,
por haver ém mel e cera | que lhe nom custasse nada.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este morava em Frandes, | preto do mar, na ribeira,
e foi pedir a conselho | a ũa velha sorteira
que lh’ escantaçom mostrasse | e o metess’ em carreira
per que abelhas houvesse, | e muito foi del rogada.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ela respôs-lhe: “– Farei-o | se meu conselho filhardes”.
Diss’ el: “– Praz-me”. Respôs-lh’ ela: | “– Pois quando vos comungardes,
a comonhom ena boca | tede se-na passardes
em tal guisa que dos dentes | sol nom dedes i dentada,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
mas guardade-a na boca | o melhor que vós poderdes;
des i, de vossas colmas | escolhed’ a que quiserdes,
e enserrade-a dentro; | e, se vós esto fezerdes,
de mel será e de cera | vossa casa avondada”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
O vilão crev’ a velha | e fez todo seu mandado;
e, pois houve na colma | de Deus o corp’ enserrado,
cuidou porém seer rico. | E, quand’ o tempo chegado
foi de catar sas colmas, | nom fez longa demorada
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e abriu aquela logo | u a hósti’ enserrara,
e viu i Santa Maria, | mui fremosa e mui crara,
com seu filho Jesu-Cristo | em seus braços, que criara,
que tiinha abraçado | e El ela abraçada.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ esto viu o vilão, | houv’ entom tam grand’ espanto
que serrou log’ a colma, | e aa eigreja, quanto
pôd’ ir, se foi muit’ aginha; | e disse: “– Por Deu-lo santo”
–ao capelám–, “mig’ ide | logo, sem outra tardada,
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
282
VIII
46
48
e mostrar-vos-ei tal cousa | qual viúda nem oída
nunca foi”. Entom o preste, | com’ era de bõa vida,
foi com el, e na colma | viu a Virgem mui comprida
de bem com seu filh’ em braço, | nobre cousa e preçada.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Quand’ esto viu, tornou logo | e fez chamar a concelho
e tanger todo-los sinos, | e filharom tal conselho:
que com gram procissom fossem | por aquela que espelho
é dos santos e do mundo, | e a trouxessem honrada.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Logo forom alá todos | e virom em com’ estava
na colma a mui santa | Virgem e com’ abraçava
a seu filho Jesu-Cristo, | e mui melhor odor dava
que liros nem violetas | nom dam, nem água rosada.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Log’ a colma levarom | as gentes que i verom,
com procissom e cantando; | e, depois que a poserom
sobe-lo altar, as horas | todas compridas disserom
aquel dia com sa noite, | e de todos mui catada
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
foi a Virgem com seu filho, | a nobr’ e santa reinha.
Outro dia ar disserom | sa missa, mas nom aginha;
e, pois consagrou o preste | a hóstia que tiinha,
nom acharom na colma | erg’ a hóstia sagrada
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
que o vilão metera | i com gram míngua de siso,
mui sãa e mui fremosa, | como xa Deus guardar quiso
com sa madr’ a Virgem santa, | reinha de paraíso.
Porém seja El loado | sempr’, e ela mui loada.
80
Tam muit’ é com Jesu-Cristo | Santa Maria juntada
que, u quer que a El achem, | ela com El é achada.
76
R13
* * *
283
Cantigas de Santa Maria 129
«De todo mal e de toda ferida»
(E 129, T 129)
Esta é como a um home derom em ũa fazenda ũa saetada pelo olho e quebrantarom-lho, e
cuidarom que morresse, e guarece’-o Santa Maria de Salas.
R0
2
I
4
6
R1
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ hom’ a de bem mui comprida.
Dest’ a um home que de Murvedr’ era
mostrou a Virgem maravilha fera
dũa gram saetada que presera
em ũa lide fort’ e sem medida.
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
E a saeta assi lh’ acertara
pelo olho, que logo lho britara
e bem até no toutiço entrara,
de guisa que lhe nom põíam vida.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Mas ele pôs sa alm’ e sa fazenda
ena Virgem e deu-xe-lh’ em comenda,
e a Salas prometeu oferenda
se el da chaga houvesse guarida.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E logo mandou a saeta fora
tirar do olho, e em essa hora
guariu de todo logo sem demora,
des que a saeta ém foi saída,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que da saetada rem nom sentia;
des i, do olho atám bem guaria
que bem com’ ante vira del viía.
E pera Salas fez logo sa ida,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
loand’ a Virgem santa groriosa,
madre de Deus, reinha poderosa,
que o sãara come piadosa.
E esta cousa foi mui long’ oída
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
pelas terras; e quanto-lo souberom
a Santa Maria loores derom
de Salas, e mui gram sabor houverom
de fazer log’ a ela sa vĩída.
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ hom’ a de bem mui comprida.
* * *
284
Cantigas de Santa Maria 130
«Quem entender quiser, entendedor»
(E 130, T 130)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Ca ela faz todo bem entender,
e entendendo nos faz conhocer
Nostro Senhor, e o seu bem haver,
e que perçamos do demo pavor,
8
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
4
R1
II
12
em cujo poder outras donas vam
metê-los seus, e coita e afám
lhes fazem sofrer: atal costum’ ham;
porém nom é leal o seu amor.
14
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
10
R2
III
18
As outras fazem home seer fol,
e preçam-s’ ende: assi seer sol;
mas esta nos dá sis’ e faz-nos prol
e guarda-nos de fazê-lo peior.
20
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
16
R3
IV
24
As outras dam seu bem fazendo mal,
e esta, dando-o, sempre mais val;
e que-no gaanhad’ há, nom lhe fal,
senom se é mui mao pecador.
26
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
22
R4
V
30
As outras muitas vezes vam mentir,
mas aquesta nunca nos quer falir;
e porende, quem se dela partir,
Deu-lo cofonda per u quer que for.
32
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
28
R5
VI
36
As outras nos fazem muit’ esperar
polo seu bem, e por el lazerar,
mas esta nom quer com seu bem tardar
e dá-nos bem doutros bes maior.
38
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
34
R6
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
285
VII
42
E porém seu entendedor serei
enquant’ eu viva, e a loarei,
e de muitos bes que faz direi,
e miragres grandes, ond’ hei sabor.
44
Quem entender quiser, entendedor
seja da madre de Nostro Senhor.
40
R7
* * *
286
Cantigas de Santa Maria 131
«Em tamanha coita nom pode seer»
(E 131, T 131)
Esta é como Santa Maria guardou um emperador de Costantinobre, por rogo de sa molher
a emperadriz, que nom morresse so ũa pena que caeu sobr’ ele, e morrerom todo-los outros que
com ele eram.
R0
2
I
4
6
Em tamanha coita nom pode seer
hom’ a que a Virgem nom poss’ acorrer.
E dest’ um miragre, de que gram sabor
haveredes, direi que fez a senhor,
a madre de Deus, por um emperador;
e e-no oirdes filhad’ i lezer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Est’ emperador nom’ havi’ Aleixi,
de Costantinobre, per com’ aprendi,
e sa molher Jordana, segund’ oí,
ond’ era bem casad’ e a seu prazer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Bom crischão era el e de bom sém,
ela a Virgem amava mais dal-rem;
por esto fez a ambos Deus [a]tal bem
qual vos quer’ eu ora contar e dizer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo assi um dia, sem al,
que o emperador foi veer metal
dũas sas mineiras bem dentr’ em um val,
em covas mui grandes, de que grand’ haver
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
tiravam de prata em aquel logar.
E o emperador foi log’ i entrar.
E a cova logo per meo quebrar
se foi atantost’ e leixou-se caer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, quantos dentr’ eram, todo-los matou
senom el senlheiro, que viv’ escapou
so ũa gram pena que o enserrou;
mas cuidou sem falha log’ i a morrer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ma-la santa dona, sa molher, que fez?
Com gram doo foi ant’ a senhor de prez,
[a] madre de Deus, e sempre dessa vez
40
287
42
cada dia foi i oraçom fazer,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que a alma del houvesse salvaçom;
e muitas missas fez cantar des entom
bem atá um ano, e dar ofreçom;
e aquesto era todo seu querer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E daquest’ avo, per quant’ aprix eu,
que em tod’ ess’ ano a comer lhe deu
ao emperador a madre do seu
Senhor Jesu-Cristo per seu gram poder.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E ángeos muitos fazia vĩir
a estar com el e se del nom partir,
po-lo conortar e o fazer dormir
e daquela coita o medo perder.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E dizia-lh’ assi: “– Esto que ti fiz
e que te faz’ ora, a emperadriz,
ta molher, mi_o roga, a bõa fiiz,
a que o tu deves muito gradecer;
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
porque em meu filho fias, o gram rei,
nom quix que morresses, e ar guardar-t’-ei
enquant’ aqui fores, e pois sacar-t’-ei
daqui, e desto nom hajas que temer”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Des que desta guisa seu ano compriu,
de noit’ em visom o patriarca viu
a Santa Maria, que lhe descobriu
tod’ aquest[o] e fez[e]-lho entender.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
O patriarca foi outro di’ alá
e à emperadriz, a que nunca já
tal prazer oíra, e come quem há
gram prazer do feito, fez-lho parecer.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Dentro ena cova gram gente meteu,
e tirou a terr’ e a pena fendeu;
e, pois lhes el dentro viv’ apareceu,
tiraro-no ende sem se deter.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E, quando o virom, derom end’ a Deus
graças e loores, chorando dos seus
94
288
96
olhos muito todos, dizendo: “– Os teus
servos nunca podem mui gram mal prender”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
E ele lhes contou que por sa molher
lhe dera a Virgem quanto lhe mester
fora: “– E porende, se vos [a]prouguer”
–diss’ el– “id’ a ela graças ém render”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
108
Eles o fezerom, pois todos em az
derom aa Virgem loores assaz
por este miragr’ e por outros que faz
grandes e fremosos pera retraer.
110
Em tamanha coita nom pode seer
hom’ a que a Virgem nom poss’ acorrer.
R18
* * *
289
Cantigas de Santa Maria 132
«Quem leixar Santa Maria»
(E 132, T 132, U 77)
Esta é como Santa Maria fez ao crérigo que lhe prometera castidade e se casara, que leixasse sa molher e a fosse servir.
R0
I
2
3
5
7
9
Quem leixar Santa Maria
por outra, fará folia.
Quem leixá-la groriosa
por molher que seja nada,
macar seja mui fremosa
e rica e avondada,
nem mansa nem amorosa,
fará loucura provada,
que maior nom poderia.
R1 10-11
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca toda a fremosura
das outras é nemigalha,
nem toda sa apostura
tanto come ũa palha
contra a desta; e dura
seu amor e nom faz falha,
ante crece todavia.
12
14
16
18
R2 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
III
E dest’ um maravilhoso
miragr’ avo em Pisa
a um crérigo fremoso
e ric’ e de mui gram guisa;
mas era tant’ homildoso
que celiço por camisa
sempre acarom vestia.
21
23
25
27
R3 28-29
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Demai-, las horas rezava
da senhor de piadade,
que mais doutra rem amava,
e pola virgĩidade
dela a sua guardava
e ant’ a sa majestade
de guardá-la prometia.
30
32
34
36
R4 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, desta guisa vivendo,
seu padr’ e sa madre mortos
forom, e enrequecendo
foi el, ca vinhas e hortos
lhe ficarom, com’ aprendo;
porém lhe davam conortos
seus parentes d’ alegria.
39
41
43
45
290
R5 46-47
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E do que lhe mais falavam,
per que se mais alegrasse,
era de como lh’ achavam
casament’, e que casasse,
e razões lhe mostravam
muitas, que o outorgasse;
mais a el nom lhe prazia.
48
50
52
54
R6 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
VII 57
Pero tanto o trouxerom
per faag’ e per engano
que outorgar lhe fezerom
que casass’ em aquel ano;
ca de chão lhe disserom
que faria gram seu dano
se el molher nom prendia;
59
61
63
R7 64-65
[Refrão = vv. 1-2]
VIII 66
e, demais, que lhe dariam
ũa meninha donzela
das mais ricas que sabiam
ena terra e mais bela,
por que ambos viviriam
sem coita e sem mazela
e sem toda tricharia.
68
70
72
R8 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois aquest’ houv’ outorgado,
o prazo das vodas vo
em que houv’ a ser grãado
que do seu, que do alho;
e dos que a seu chamado
houve foi o curral cho
que mais em el nom cabia.
75
77
79
81
R9 82-83
[Refrão = vv. 1-2]
X
Enquanto forom chegando
aqueles que convidara,
foi-s’ el em si acordando
de como acostumara
dizer sas horas; e, quando
viu que já muito tardara,
na eigreja se metia.
84
86
88
90
R10 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E, u estava dizendo
sas horas devotamente,
um mui gram sono correndo
o filhou tam feramente
que caeu; e, em jazendo
dormindo, viu mui gram gente
que do ceo decendia,
93
95
97
99
291
R11 100-101
[Refrão = vv. 1-2]
XII 102
e a Virgem escolheita
tragiam eno meogo
da companha, que dereitamente a el vo logo
e disse-lhe: “– Sem sospeita
di-m’ ũa rem, eu te rogo,
que de ti saber querria:
104
106
108
R12 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIII 111
nom és tu o que dizias
que mi mais que al amavas
e que me noites e dias
mui de grado saudavas?;
porque outra filhar ias
amiga e desdenhavas
a mi, que amor ti_havia?;
113
115
117
R13 118-119
[Refrão = vv. 1-2]
XIV 120
demais, saudar-me ves
pois que te de mi partiste:
em mui gram torto me tes;
di: e porque me mentiste?;
preçaste mai-los seus bes
ca os meus?; porque feziste,
sandeu, tam grand’ ousadia?”
122
124
126
R14 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XV 129
Pois que lh’ aquest’ houve dito,
foi-s’ a mui santa reinha;
e el no coraçom fito
lhe ficou end’ a espinha.
E, per com’ achei escrito,
as mesas mandou aginha
põer; mais pouc’ el comia,
131
133
135
R15 136-137
[Refrão = vv. 1-2]
XVI 138
cuidando em como vira
a Virgem, que lhe dissera
que lh’ andara com mentira
e que torto lhe fezera;
e, por sair de sa ira,
estev’ em gram coita fera
atá que lh’ anoitecia.
140
142
144
R16 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
XVII 147
Entom ambo-los deitarom
na cámara em um leito;
e, des que soos ficarom
e el viu dela o peito,
logo ambos s’ abraçarom,
cuidand’ ela seu dereito
haver del, mas nom podia:
149
151
153
R17 154-155
[Refrão = vv. 1-2]
292
XVIII 156
158
160
162
ca, pero a gram beldade
dela fez que a quisesse
o nóvio de voontade
e que lhe muito prouguesse,
a Virgem de piadade
lhe fez que o nom fezesse;
e do leit’ entom s’ ergia.
R18 163-164
[Refrão = vv. 1-2]
XIX 165
E logo foi sa carreira
e leixou a gram requeza
que havia, e maneira
filhou de mui gram pobreza
por servir a que senlheira
foi e será em nobreza,
que os seus amigos guia,
167
169
171
R19 172-173
[Refrão = vv. 1-2]
XX 174
180
que o guiou bem, sem falha,
pois sempr’ em toda sa vida.
E a Virgem (que nos valha),
quando lh’ a alma saída
foi do corpo, sem baralha,
honradament’ e comprida,
lha levou u Deus siía.
182
Quem leixar Santa Maria
por outra, fará folia.
176
178
R20
* * *
293
Cantigas de Santa Maria 133
«Resurgir pode e fazê-los seus»
(E 133, T 133)
Esta é de como Santa Maria ressucitou ũa meninha que levarom morta ant’ o seu altar, que
morrera em ũa acéquia, em Elche.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Resurgir pode e fazê-los seus
vivê-la Virgem, de que naceu Deus.
Dest’ um miragre mui grande mostrou
em Elch’ a madre do que nos comprou
pelo seu sangue e que se leixou
matar na cruz per mãos de judeus.
[Refrão = vv. 1-2]
ũa meninha morava ali
que padr’ e madre, com’ eu aprendi,
havia, e que viviam assi
come crischãos, mas nom com’ encreus.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Aquesta meninha foi a bever
ena [a]céquia, e dentro caer
foi, por que houve logo de morrer.
E com sospiros muitos e ai-eus
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
que o seu padr’ entom por ela fez,
e ant’ o altar da senhor de prez
a foi deitar; e ’lô ar outra vez
a changiu, dizend’: “– Os pecados meus
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
forom estes”. E logo fez cantar
missa de «Requiem» po-la soterrar,
e, u um foi a pístola rezar
dos mortos, que fez Judas Macabeus,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
a madre nunca de chorar quedou;
e, poi-lo prest’ a sagra começou,
a meninha tantoste se levou
viva, dizendo: “– Estes som dos teus
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
miragres, Virgem, madre do senhor
do mundo, Jesu-Cristo, salvador,
aquel que foi morrer por noss’ s amor,
segund[o] contam Marcos e Mateus”.
Resurgir pode e fazê-los seus
vivê-la Virgem, de que naceu Deus.
* * *
294
Cantigas de Santa Maria 134
«A Virgem, em que é toda santidade»
(E 134, T 134)
Esta é como Santa Maria sãou na sa eigreja de Paris mil e quinhentos do fogo salvage e outrossi um home que havia VII dias que tĩía a perna talhada por gram door que havia do fogo e
deitara-na no rio de Sena.
R0
2
I
4
6
8
A Virgem, em que é toda santidade,
poder há de tolher tod’ enfermidade.
E daquest’ em Paris
a Virgem Maria
miragre fazer quis,
e fez, u havia
mui gram gent’ assũada, que sãidade
veram demandar da sa piadade.
R1 9-10
[Refrão = vv. 1-2]
II
E do fogo tam mal
eram tormentados,
deste de Sam Marçal,
e assi queimados
que os nembros todos de tal tempestade
haviam de perder: esto foi verdade.
12
14
16
R2 17-18
[Refrão = vv. 1-2]
III
Porende se levar
faziam aginha
logo ant’ o altar
da santa reinha,
dizendo: “– Madre de Deus, em nós parade
mentes, e nom catedes nossa maldade”.
20
22
24
R3 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Eles chamand’ assi
a Virgem comprida,
foi-lhes, com’ aprendi,
sa razom oída;
e per ũa vidreira com craridade
entrou na eigreja a de gram bondade.
28
30
32
R4 33-34
[Refrão = vv. 1-2]
V
E a ir-se filhou
perant’ os doentes,
e os santivigou,
pois lhes teve mentes;
e disse-lhes assi: “– Tantoste sãade,
ca meu filho o quer, rei da majestade”.
36
38
40
R5 41-42
VI
44
[Refrão = vv. 1-2]
Logo forom tam bem
daquel fogo sãos
que lhes nom noziu rem
295
46
48
em pés nem em mãos;
e diziam assi: “– Varões, levade!,
e a Santa Maria loores dade”.
R6 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quantos eram entom
dentro essa hora
sãos e sem lijom
forom. Mais de fora
da eigreja jaziam com mesquindade,
ca nom cabiam dentr’ end’ a meadade.
52
54
56
R7 57-58
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Ontr’ aqueles, com’ hei
em verdad’ apreso,
jazia, com’ achei,
um tam mal aceso
que sa perna talhara com crueldade
e deitara no rio dessa cidade.
60
62
64
R8 65-66
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O mal xe lh’ aprendeu
ena outra perna,
tam forte que ardeu
mui mais que lanterna;
mai-la madre de Deus lhe diss’: “– Acordade,
ca já são sodes desta gafidade”.
68
70
72
R9 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
X
El respondeu-lh’ adur:
“– Bem-aventurada,
estoutra com segur
perna hei talhada;
mas pola vossa gram mercee mandade
que seja com’ ant’ era e a juntade”.
76
78
80
R10 81-82
[Refrão = vv. 1-2]
XI
88
Entom seu rog’ oiu
a mui piadosa,
e log’ a perna viu
sãa e fremosa
per poder da Virgem (que per homildade
foi madre do que é Deus em Trĩidade).
90
A Virgem, em que é toda santidade,
poder há de tolher tod’ enfermidade.
84
86
R11
* * *
296
Cantigas de Santa Maria 135
«Aquel podedes jurar»
(E 135, T 135)
Esta é como Santa Maria livrou de desonra dous que se haviam jurados por ela quando
eram meninhos que casassem ambos em ũu, e fez-lho ela comprir.
R0
2
4
I
5
7
9
11
Aquel podedes jurar
que é bem de mal guardado
o que a Virgem filhar
vai por seu acomendado.
Desto vos quero dizer,
per com’ oí retraer,
um miragre, ond’ haver
podedes gram gasalhado
des que fordes entender
o que a Virgem fazer
e mostrar foi no condado
R1 12-15
[Refrão = vv. 1-4]
II
de Bretanha a Mor
por dous que se grand’ amor
haviam e gram sabor
de viverem sem pecado;
onde foi ajudador
esta madre do Senhor,
cuj’ é do ce’ o reinado.
16
18
20
22
R2 23.26
[Refrão = vv. 1-4]
III
Estes de que fal’ aqui
moç’ e moça, com’ oí,
forom e, com’ aprendi,
cada um deles criado
foi co-no outr’; e, des i,
est’ amor poserom i
u moravam, e jurado
27
29
31
33
R3 34-37
[Refrão = vv. 1-4]
IV
foi pela madre de Deus,
assi que ambos por seus
ficarom, amigos meus.
E, pois foi esto firmado,
seus padres, maos encreus
do que matarom judeus,
partiro-nos mal seu grado.
38
40
42
44
R4 45-48
[Refrão = vv. 1-4]
V
Ca o padre del fez ir
o filh’ e dela partir;
e a moça foi pedir
um ricome muit’ honrado
49
51
297
53
55
por molher. E quem cousir
quam changido espedir
foi o deles e chorado,
R5 56-59
[Refrão = vv. 1-4]
VI
gram doo haver pod’ ém.
Mas estes dous, que gram bem
se queriam mais dal-rem,
foi ontr’ eles ordinhado
que, se lhes falass’ alguém
em casar, per nium sém
sol nom lhe foss’ outorgado.
60
62
64
66
R6 67-70
[Refrão = vv. 1-4]
VII 71
Mas o padr’ entom filhou
sa filha e a casou
com outr’ home que achou
rico e muit’ avondado,
a que a moça contou
seu feito como passou;
e, pois lho houv’ ascuitado,
73
75
77
R7 78-81
[Refrão = vv. 1-4]
VIII 82
diss’: “– Amiga, ’ssi farei:
que crás convosco m’ irei
e atanto buscarei
aquel que foi esposado
vosco que o acharei,
e logo vo-lhe darei
por haver a Deus pagado”.
84
86
88
R8 89-92
[Refrão = vv. 1-4]
IX
Log’ outro dia, sem al,
se forom. E em um val
aqué o ricome sal
que cuidara ser casado
com ela, que mui mortal
queri’ a seu padre mal;
e fez come hom’ irado:
93
95
97
99
R9 100-103
[Refrão = vv. 1-4]
X
ca log’ ambo-los prendeu
e el em cárcel meteu;
e, pois que anoiteceu,
com ela seu gasalhado
quis haver; mas faleceu
i, ca log’ adormeceu:
bem tro eno sol levado
104
106
108
110
R10 111-114
[Refrão = vv. 1-4]
XI
dormiu, e abriu entom
os olhos, e sa razom
lh’ a meninh’, e em bom som,
disse: “– E nom é guisado
de me forçardes vós, nom,
ca à Virgem dei em dom
115
117
119
298
121
meu corpo, temp’ há passado;
R11 122-125
[Refrão = vv. 1-4]
XII 126
porém nunca mi_haverá
erg’ a quem m’ ela dará;
e vós quitade-vos já
d’ irdes contra seu mandado,
mas levade-m’ acolá
u ést’ o que seerá
meu marid’ e meu amado”.
128
130
132
R12 133-136
[Refrão = vv. 1-4]
XIII 137
Quand’ est’ oiu, “– A-la-fé”
–diss’ el–, “eu irei u é
aquel, e este que sé
aqui bem enferrolhado
farei soltar”. E em pé
se levou e diss’: “– Aqué
m’ estou tod’ aprestidado
139
141
143
R13 144-147
[Refrão = vv. 1-4]
XIV 148
de log’ ir”. E diss’ “– Ai fol”
–a um seu home–, “vai, tol-lh’ os ferros a est’, e prol
será minha que livrado
seja; e quant’ ũa col
do seu nom filhes, ca sol
por tanto serás rastrado”.
150
152
154
R14 155-158
[Refrão = vv. 1-4]
XV 159
Outro dia ant’ a luz,
em um cavalo de Çuz
(que corre mais que estruz),
no caminho foi entrado,
dizend’: “– Ai Deus, que em cruz
morreste, mui ced’ aduz
nós u aquel benfadado
161
163
165
R15 166-169
[Refrão = vv. 1-4]
XVI 170
é, que haja, com’ el quer,
esta moça por molher”.
E tantost’ a Mompesler
chegarom, e i achado
o houverom, e disserom-lhe que lh’ era mester
de ser log’ aparelhado,
172
174
176
R16 177-180
[Refrão = vv. 1-4]
XVII 181
de casar com Dona Lis,
pois Santa Maria quis.
E fezero-no bem fis
que nunca mais destorvado
fosse per eles, e gris
e pano vermelh’ e bis
houvesse logo comprado.
183
185
187
299
R17 188-191
[Refrão = vv. 1-4]
XVIII 192
Pois os dous bem de raiz,
segund’ este conto diz
e dissemos, a Fiiz
houverom todo contado,
graças à emperadriz,
ond’ eu este cantar fiz,
derom muitas e de grado.
194
196
198
R18 199-202
[Refrão = vv. 1-4]
XIX 203
E logo tost’ e viaz
fezerom vodas assaz
honradas e muit’ em paz;
e, pois houverom jantado,
o nóvio fez como faz
nóvio a nóvia em solaz.
E assi foi acabado.
205
207
209
R19
211
213
Aquel podedes jurar
que é bem de mal guardado
o que a Virgem filhar
vai por seu acomendado.
* * *
300
Cantigas de Santa Maria 136
«Poi-las figuras fazem dos santos renembrança»
(E 136, T 136)
Esta é como em terra de Pulha, em ũa vila que há nome Foja, jogava ũa molher os dados
com outras companhas ant’ ũa eigreja, e, porque perdeu, lançou ũa pedra que déss’ ao meninho
da omage de Santa Maria, e ela alçou o braço e recebeu o colbe.
R0
2
I
4
6
R1
Poi-las figuras fazem dos santos renembrança,
que-nas cuida desonrar, mui fol é, sem dultança.
Desto direi um miragre que a groriosa
fez grand’ em terra de Pulha come poderosa
sobr’ um malfeito que fez ũa molher astrosa,
por que prendeu porém morte a mui gram viltança.
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
Esto na vila de Foja foi, ant’ ũ’ eigreja
u estav’ ũa omage da que sempre seja
beita, feita de mármor, de mui gram sobeja
beldade, em que as gentes haviam fiança.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Em essa vila, segund’ eu aprix em verdade,
filho do emperador i era rei Corrad’, e,
de sa companha, jogavam ant’ a majestade
dados homes e molheres, com’ é sa usança.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Ũa molher aleimãa, tafur e sandia,
jogava i; e, porque perdeu, tal felonia
lhe creceu que ao filho da omagem ia
corrend’ e log’ ũa pedra, por sa malandança,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
lhe lançou por eno rosto feri-lo meninho.
Mai-la madr’ alçou o braço logo mui festinho,
e eno côved’ a pedra fez-lh’ um furadinho,
que lhe pareceu por sempre, por gram demostrança.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Quand’ aquesta maravilha foi al-rei contada,
logo foi por seu mandado a molher filhada,
des i per toda-las ruas da vila rastrada:
desta guisa a sa madre quis Deus dar vingança.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
42
Des i, el-rei a omagem bem guardar mandava,
e o pintor dessa vila toda a pintava;
mais o braço per niũa rem nom lho tornava
com’ ant’ era, ca nom quis Deus, por sinificança.
44
Poi-las figuras fazem dos santos renembrança,
que-nas cuida desonrar, mui fol é, sem dultança.
40
R7
301
Cantigas de Santa Maria 137
«Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira»
(E 137, T 137)
Esta é como Santa Maria fez seer casto um cavaleiro que soía seer mui luxurioso.
R0
2
I
4
6
Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira
per que tira os que ama de maa carreira.
E dest’ um mui gram miragre direi que avo
a um cavaleiro que era seu, nom alho,
desta senhor groriosa; mas tant’ era cho
de luxúria que passava razom e maneira.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca, pero muito fiava em Santa Maria
e loava os seus bes quanto mais podia,
o pecado de luxúri’ assi o vencia
que o demo o levara (cousa é certeira),
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
assi que nunca já parte Deus em el houvesse
nem sa madr’, a Virgem santa, se lhe nom fezesse
ao demo força per que lho tolher podesse.
Mais aquela que, parindo, virgem foi enteira,
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
a que s’ ele noit’ e dia sempr’ acomendava
e que o daquel pecado tirasse rogava,
que o bem que el fazia todo desatava
e fazia sa promessa sempre mentireira.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Ca, macar el prometia que nunca tornasse
em est’ erro, muitas vezes, e se del quitasse,
o demo lhe pois fazia que o nom leixasse,
por metê-lo do inferno dentro na caldeira.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
El em tal coita vivendo, a mui groriosa,
entendendo que saúde dest’ era dultosa,
porque nom perdess’ a alma, come piadosa
faz e come mui sisuda e come arteira.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Ca, pois viu que do pecado nunca pedença
el tevera que lhe dessem, meteu sa femença
em tirá-lo del, em guisa que em descreença
nom caesse pelo demo, que sempre mal cheira
302
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
a pecad’ e a mentira e a falsidade.
Porém sãou a reinha de gram piadade
este cavaleir’, e fez-lhe ter castidade
por maneira muit’ estranha e mui vertudeira.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E fez-lhe que nom perdess’ olhos, pees nem mãos
nem outros nembros do corpo, mais que fossem sãos;
mais, se o metess’ o demo em cuidados vãos
de pecado, que nom podesse seer em tal feira:
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
ca, pero que gram sabor houvesse de querê-lo,
que per nulha maneira nom podesse fazê-lo.
Esto fez a Virgem santa pera sig’ havê-lo,
ca de salvar os seus sempre é mui sabedeira.
62
Sempr’ acha Santa Maria razom verdadeira
per que tira os que ama de maa carreira.
58
R10
* * *
303
Cantigas de Santa Maria 138
«Quem a Santa Maria de coraçom»
(E 138, T 138)
Esta é de como tirarom os olhos a Sam Joám Boca-d’ Ouro, porque loava a Santa Maria, e
foi esterrado e deitado do patriarcado; e depois fez-lhe Santa Maria haver olhos, e cobrou per ela
sa dinidade.
R0
2
I
4
6
Quem a Santa Maria de coraçom
rogar, oir-lh’-á ela sa oraçom.
Ca o que a de voontade rogar
e mui de coraçom em ela fiar,
se lh’ algo pedir assi ou demandar,
dar-lho-á, que sol nom lhe dirá de nom.
R1 7-8
ão = vv. 1-2]
II
E dest’ um miragre, per com’ eu oí,
dizer-vos quer’ ora e contar aqui,
que Santa Maria fez, com’ aprendi,
por Joám Boca-d’ Ouro, nobre barom,
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
que disse muito bem dela e dos seus
feitos e de como foi madre de Deus;
porend’ os gentiis maos e encreus
sacarom-lh’ os olhos a gram traiçom.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E ar mandarom-lhe que logo sair
se fosse da terr’, e nom leixarom ir
nulh’ home com ele pera o servir,
mas derom-lhe pouco pam e um bordom.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Pois esto fezerom, foro-no meter
eno caminho que devia ter;
e, poi-lo leixarom, foi log’ el torcer
e caeu em um mui gram silvar entom.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
El ali jazendo espinhado mal,
volvendo-se dentro com coita mortal,
chamou log’ a reinha esperital,
a que chamam sempr’ os que coitados som,
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
dizendo: “– Senhor, e nembre-te do teu
servo, ceg’ e pobre com’ hoje jasc’ eu;
304
42
mas tu, senhor, cata o coraçom meu
e saca-m’ ora desta maa prijom”.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Pois esto dit’ houve, a do bom talám
chegou e tiro’-o dali sem afám,
e disse: “– Se queres, logo veerám
teus olhos tam bem come outra sazom
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
virom, e ta dinidade haverás,
e, quanto perdiste, todo cobrarás”.
Diss’ el: “– Senhor, ante mi tu mostrarás
o que mais teu filho, se El mi perdom,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
amou eno mundo quand’ em el naceu”.
Entom a Virgem dant’ ele se tolheu;
mais aa outra noite lh’ apareceu
com seu filh’ em braços, e viu em vijom
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
que pelas tetas, como meninho faz,
tragia sas mãos come a quem praz
de mamá-las; e, pois mamava assaz,
beijava sa madre polo galardom.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
Quand’ esto foi, Sam Joám entom cobrou
seus olhos e viu; e logo o chamou
a Virgem e disse: “– Desto se pagou
meu filho mais dal, e com mui gram razom:
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
ca estas teta-lo criarom tam bem
como a sa carne mui nobre convém;
e porende as amou mais doutra rem,
porque destas tetas houv’ el criaçom”.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
Pois [que] Sam Joane tod’ aquesto viu,
o seu cobrou todo, que rem nom faliu.
E depois, quando deste mundo saiu,
[a] sa alma foi u é Sam Simeom.
86
Quem a Santa Maria de coraçom
rogar, oir-lh’-á ela sa oraçom.
82
R14
* * *
305
Cantigas de Santa Maria 139
«Quem a Santa Maria de coraçom»
(E 138, T 138)
Esta é como Santa Maria fez que falasse o filho que tĩinha nos braços ao da bõa molher,
que lhe disse: “– Papa!”.
R0
2
4
6
8
I
10
12
14
16
18
20
R 1 21-28
II
30
32
34
36
38
40
R2 41-48
III
50
52
54
56
58
Maravilhosos
e piadosos
e mui fremosos
miragres faz
Santa Maria,
a que nos guia
bem noit’ e dia
e nos dá paz.
E dest’ um miragre vos contar quero
que em Frandes aquesta Virgem fez,
madre de Deus, maravilhos’ e fero,
por ũa dona que foi ũa vez
a sa eigreja
desta que seja
por nós, e vejamo-la sa faz
no paraíso
(u Deus dar quiso
goio e riso
a quem lhe praz).
[Refrão = vv. 1-8]
Aquesta dona levou um meninho,
seu filho, sigo, que em ofreçom
deu aa Virgem [des] mui pequeninho,
que de mal lho guardass’ e d’ oqueijom,
e lhe fezesse
per que dissesse
sempr’ e soubesse
de bem assaz,
que, com’ aprendo,
seu pam comendo
foi: mui correndo
parou-s’ em az
[Refrão = vv. 1-8]
cabo do filho daquela omagem
e diss’ o meninho: “– Queres papar?”
Mai-la figura da Virgem mui sagem
diss’ a seu filho: “– Di-lhe, sem tardar,
que nom s’ espante,
mais tigo jante
u sempre cant’ e
haja solaz
e seja quito
do mui maldito
demo (que ’scrito
306
60
R3 61-68
IV
70
72
74
76
78
80
R4
82
84
86
88
é por malvaz)”.
[Refrão = vv. 1-8]
Quand’ esto diss’, a omagem de Cristo
respôs ao meninho: “– Paparás
crás mig’ em ceo; e, pois que me visto
houveres, sempre pois migo serás
u ouças quanto
cada um santo
canta, que chanto
e mal desfaz”.
Esto comprido
foi, e transido
o moç’ e ido
a Deus viaz.
Maravilhosos
e piadosos
e mui fremosos
miragres faz
Santa Maria,
a que nos guia
bem noit’ e dia
e nos dá paz.
* * *
307
Cantigas de Santa Maria 140
«A Santa Maria dadas»
(E 140, T 140)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Loemos a sa mesura,
seu prez e sa apostura
e seu sém e sa cordura
mui mais ca cem mil vegadas.
8
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
4
R1
II
12
Loemos a sa nobreza,
sa honra e sa alteza,
sa merce’ e sa franqueza
e sas vertudes preçadas.
14
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
10
R2
III
18
Loemos sa lealdade,
seu conort’ e sa bondade,
seu acort’ e sa verdade
com loores mui cantadas.
20
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
16
R3
IV
24
Loemos seu cousimento,
conselh’ e castigamento,
seu bem, seu ensinamento
e sas graças mui grãadas.
26
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
22
R4
V
30
Loando-a, que nos valha
lhe roguemos na batalha
do mundo, que nos trabalha,
e do dem’ a denodadas.
32
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
28
R5
A Santa Maria dadas
sejam loores honradas.
* * *
308
Cantigas de Santa Maria 141
«Quem muit’ honrar o nome da Senhor comprida»
(E 141, T 141)
Esta é como Santa Maria acorreu a um monge seu que a servia e que ficava os golhos cada
que ementavam o seu nome na eigreja, e beijava a terra.
R0
2
I
4
6
Quem muit’ honrar o nome da senhor comprida,
dar-lh’-á em este mundo e no outro vida.
Dar-lh’-á em este mundo vida e saúde
e depois paraíso, assi Deus m’ ajude,
u verá El e ela e sa gram vertude
e sa honra, que nunca mais será falida.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Desta razom vos quer’ um miragre preçado
contar dum santo monge mui bem ordinhado
que, se nome da Virgem lh’ era ementado,
dos golhos em terra dava gram ferida.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E a terra beijava u esto fazia,
chorando e dizendo log’ «Ave, Maria»;
e sempr’ usava esto que i nom falia,
que sol nom i filhava nulh’ outra medida.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El usand’ aquesto, foi muit’ envelhecendo,
e a carn’ e os nembros tant’ enfraquecendo
que, u s’ agolhava, caía decendo
toste e nom podia fazê-la subida.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Daqueste feito soube logo seu abade,
que bom hom’ era, e houv’ ém gram piadade,
e a dous monges disse: “– Hoimais aguardade
estoutro de caeda fazer escarnida”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Um dia lh’ avo que, u s’ agolhava
e nium dos monges entom i nom estava,
e caeu em terra; e com coita chorava,
e chamou a Virgem; e log’ i foi vĩída,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
que o ergeu mui toste pela destra mão,
des i ar fez-lhe sinal que logo, de chão,
o seu altar beijasse, e seria são
40
309
42
e sa velhece lhe seria consomida.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E el entom de grado foi beijá-los panos,
e tornou tam mancebo come de vint’ anos.
E por est’ aa Virgem grandes adianos
deu: porque os que ama nunca os obrida.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Mas depois o abade nem aquel convento
sol no-no conhociam polo mudamento
do tempo; mas a Virgem por seu cousimento
fez que o conhocessem, porque long’ oída
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
a sa mercee fosse de tam gram vertude
com’ ela fez e faz sempre muit’ ameúde.
E porende lhe roguemos que nos ajude,
pois dos anjos e dos santos sempr’ é servida.
62
Quem muit’ honrar o nome da senhor comprida,
dar-lh’-á em este mundo e no outro vida.
58
R10
* * *
310
Cantigas de Santa Maria 142
«Ena gram coita sempr’ acorrer vem»
(E 142, T 142)
Esta é como Santa Maria quis guardar de morte um home dum rei que entrara por ũa garça
em um rio.
R0
2
I
4
6
Ena gram coita sempr’ acorrer vem
a Virgem a quem fia em seu bem.
Com’ ũa vez acorreu ant’ el-rei
Dom Afonso, com’ ora vos direi,
a um home que morrera, bem sei,
se nom fosse pola que nos mantém.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi eno rio que chamar
soem Fenares, u el-rei caçar
fora, e um seu falcom foi matar
em el ũa garça muit’ em desdém.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Ca, pero a garça muito montou,
aquel falcom toste a acalçou
e dum gram colb’ [a] áa lhe britou,
e caeu na água, que já per rem
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
os cães nom podiam acorrer,
ca o rio corria de poder,
por que houveram a garç’ a perder.
Mas el-rei deu vozes: “– Quem será, quem
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que entre pola garça e a mi
a traga log’ e aduga aqui?”
E um d’ Aguadalfajara assi
disse: “– Senhor, eu a ’durei aquém
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
do rio”. E log’ em el se meteu
com sas hosas, que sol no-nas tolheu,
e aa garça foi e a prendeu
pela cabeça, e quisera-s’ ém
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
tornar, ca havia mui gram sabor
de dá-la garça al-rei, seu senhor.
Mai-la água o troux’ a derredor
de guisa que lhe fez perdê-lo sém.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
Ca a força d’ água assi o prês
311
46
48
que o mergeu duas vezes ou três.
Mas el chamou a Virgem mui cortês,
que pariu Jesu-Crist’ em Beleém,
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
e todos a chamarom outrotal;
mas el-rei disse: “– Nom haverá mal,
ca nom querrá a madr’ espirital,
que nos guarda e nos em poder tem”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
E, macar todos diziam: “– Mort’ é”,
el-rei dizia: “– Nom ést’, a-la-fé,
ca nom querria aquela que sé
sempre com Deus e de nós nom destém”.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
E assi foi; ca logo, sem mentir,
o fez a Virgem do rio sair
vivo e são e al-rei vĩir
com sa garça, que trouxe bem dalém.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E foi-a dar log’ al-rei manamám,
que beizeu muit’ a do bom talám
por este miragre que fez tam gram;
e todos responderom log’: “– Amém”.
74
Ena gram coita sempr’ acorrer vem
a Virgem a quem fia em seu bem.
70
R12
* * *
312
Cantigas de Santa Maria 143
«Quem algũa cousa quiser pedir»
(E 143, T 143)
Esta é como Santa Maria fez em Xerez chover por rogo dos pecadores que lhe forom pedir
por mercee que lhes désse chúvia.
R0
2
4
I
R
6
R
8
10
Quem algũa cousa quiser pedir
a Deus por Santa Maria,
se de seus pecados se repentir,
havê-lo-á todavia.
Porém vos quero contar sem mentir
[Refrão = v. 1]
como Santa Maria quis oir
[Refrão = v. 1]
um poblo, que se lhe foi oferir
por chúvia que lhe pedia.
R1 11-14
[Refrão = vv. 1-4]
II
R
16
R
18
Em Xerez, preto d’ Aguadalquivir,
[Refrão = v. 1]
foi este miragre, que, sem falir,
[Refrão = v. 1]
houv’ i tam gram seca por que fugir
a gent’ ém toda queria.
20
R 21-24
[Refrão = vv. 1-4]
III
R
26
R
28
Mas um frade mor os fez vĩir,
[Refrão = v. 1]
e fez-lhes sermom, em que departir
[Refrão = v. 1]
foi como Deus quis, por nos remiir,
nacer, como dit’ havia,
30
R3 31-34
[Refrão = vv. 1-4]
IV
R
36
R
38
da Santa Virgem, e com’ ar fĩir
[Refrão = v. 1]
quis por nós na cruz, e pois resorgir
[Refrão = v. 1]
do sepulcr’, e o demo destroir,
que ante nos destroía.
40
R4 41-44
[Refrão = vv. 1-4]
V
R
46
R
48
E disse: “– Se quiséssedes gracir
[Refrão = v. 1]
est’ a Deus, e a sa madre servir,
[Refrão = v. 1]
e de vossos pecados vos partir,
a chúvia logo verria;
50
R5 51-54
[Refrão = vv. 1-4]
VI
R
porém cada ũu, com’ a mi vir
[Refrão = v. 1]
56
313
R
58
60
fazer, faça; e sei que nos oir
[Refrão = v. 1]
querrá a Virgem, que Deus foi parir,
que ante de tercer dia
R6 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VII
R
66
haveremos chúvi’ a que nos comprir
[Refrão = v. 1]
e per que poderemos bem guarir
[Refrão = v. 1]
e daquesta mui gram coita sair:
dest’ eu fiador seria”.
R
68
70
R7 71-74
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
R
76
Pois esto disse, sem al comedir,
[Refrão = v. 1]
log’ em terra das mãos foi ferir,
[Refrão = v. 1]
e diss’: “– A esta gente faz sentir,
mià senhor, que em ti fia,
R
78
80
R8 81-84
[Refrão = vv. 1-4]
IX
R
86
R
88
o teu bem, com que possamos goir”.
[Refrão = v. 1]
E log’ a gente filhou-s’ a rogir,
[Refrão = v. 1]
e as molheres chorar e carpir
cada ũa a perfia.
90
R9 91-94
[Refrão = vv. 1-4]
X
R
96
R
98
Entom a Virgem as nuves abrir
[Refrão = v. 1]
fez, e delas tam gram chúvia sair
[Refrão = v. 1]
que quantos choravam fezo riir
e ir com grand’ alegria.
10
R10
102
104
Quem algũa cousa quiser pedir
a Deus por Santa Maria,
se de seus pecados se repentir,
havê-lo-á todavia.
* * *
314
Cantigas de Santa Maria 144
«Com razom é d’ haverem gram pavor»
(E 144, T 144)
Esta é como Santa Maria guardou de morte um home bõo em Prazença dum touro que vera
po-lo matar.
R0
1
3
I
5
7
Com razom é d’ haverem gram pavor
as bêstias, da madre daquel Senhor
que sobre todas cousas há poder.
E dest’ um gram miragre foi mostrar
Santa Maria, a Virgem sem par,
em Prazença, per com’ oí contar
a homees, bõos e de creer.
R1 8-10
[Refrão = vv. 1-3]
II
E retraía-no miragr’ assi:
que um home bõo morava i
que esta senhor, com’ eu aprendi,
sabia mui mais dal-rem bem querer.
12
14
R2 15-17 [Refrão = vv. 1-3]
III
19
21
E, quenquer que lhe vesse pedir
algo por ela, logo sem falir
lho dava, sem delongar nem mentir,
ca nom queria, per rem, falecer.
R3 22-24 [Refrão = vv. 1-3]
IV
26
28
E jajũava sas vigias bem,
e de sas horas nom leixava rem
que nom oísse, ca todo seu sém
era como lhe fezesse prazer.
R4 29-31 [Refrão = vv. 1-3]
V
33
35
Ond’ um cavaleiro bem di casou
da vila, e touros trager mandou,
pera sas vodas; e um apartou
deles, chus bravo, que mandou correr
R5 36-38 [Refrão = vv. 1-3]
VI
40
42
em ũa praça grande que i há
ant’ a casa do que vos dixe já
home bõo; mas ele d’ ir alá
nom se pagava, nem de o veer.
R6 43-45 [Refrão = vv. 1-3]
VII
47
49
Mas aquest’ home um compadre seu
crérig’ havia, per nome Mateu,
que enviou por el, com’ aprix eu,
por cousas que lhe queria dizer.
R7 50-52 [Refrão = vv. 1-3]
315
VIII
54
56
E el saiu por ir alá entom;
e o touro leixou-s’ ir de random
a ele po-lo ferir, mui felom,
por lh’ os cornos pelas costas meter.
R8 57-59 [Refrão = vv. 1-3]
IX
61
63
E o crérigo, quand’ aquesto viu
dũa festra, mercee pediu
a Santa Maria, e nom faliu
por el, ca logo lhe vo valer.
R9 64-66 [Refrão = vv. 1-3]
X
68
70
E em atal guisa o acorreu
que o touro log’ em terra caeu
e todo-los quatro pees tendeu,
assi como se quisesse morrer.
R10 71-73 [Refrão = vv. 1-3]
XI
75
77
E jouv’ assi daquesta guisa tal
atá que o home foi no portal
de cas seu compadr’, a que nom foi mal
com el, e foi-o na casa colher.
R11 78-80 [Refrão = vv. 1-3]
XII
82
84
R12
85
87
E o touro s’ ergeu, e dessa vez
nunca depois a nulh’ home mal fez
pela vertude da senhor de prez,
que aos seus nom leixa mal prender.
Com razom é d’ haverem gram pavor
as bêstias, da madre daquel Senhor
que sobre todas cousas há poder.
* * *
316
Cantigas de Santa Maria 145
«O que pola Virgem de grado seus dões»
(E 145, T 145)
Esta é como Sam Joám, patriarca de Aleixandria, deu quant’ havia a pobres em um ano caro.
R0
2
I
4
6
O que pola Virgem de grado seus dões
der, dar-vo-lh’-á ela grandes galardões.
E dest’ um miragre quero que sabiades
per mi, porque sempre voontad’ hajades
de fazer por ela bem e que tenhades
firmement’ em ela vossos corações.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Um patriarca houv’ em Aleixandria
santo e fiel, que «Joám» nom’ havia;
este muit’ amava a Santa Maria
e por amor dela dava sas rações,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
ũas a mesquinhos, enfermos, coitados,
e outras a pobres muit’ envergonhados,
e aconselhava desaconselhados;
assi do seu todos haviam quinhões.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El esto fazendo, em aquela terra
avo gram fame por temp’ e por guerra;
mais tal nom foi ele come o que serra
sa port’ e s’ asconde dentro nos rancões;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ant’ abriu sas portas, e seu haver dado
foi mui francamente e bem empregado
por amor da Virgem de que Deus foi nado,
que nom lhe ficarom sol dous pepiões,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
senom esses panos ond’ era vestido.
E, pois se viu pobre, foi end’ esmarrido;
mai[s à] Virgem santa, per com’ hei oído,
que o acorresse fez sas orações.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Manhãa ergeu-se e aa eigreja
foi oir a missa da que sempre seja
beita, com grand’ esperança sobeja
de lhe comprir ela as sas promissões.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
317
VIII
46
48
E ena carreira viu um pastorinho
que contra el logo vo mui festinho,
aposto vestido e mui fremosinho,
que lhe diss’: “– Oíde poucas de razões
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
que vos dizer quero, e falade migo”.
E, pois s’ apartarom, diss’: “– Esto vos digo:
aqueste tesouro vos dá voss’ amigo,
o filho da reinha das beições;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
filhade-o logo, ca eu ir-me quero”.
E o patriarca viu haver tam fero
que maior nom houve emperador Nero
quando queimou Roma e tornou carvões.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Foi-s’ aquel mancebo; mai-lo patriarca
meteu aquel ouro dentr’ em ũa arca,
e cantand’ a missa, diz: “– Se Deus me parca,
querria saber ond’ estas ofreções
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
tam grandes e bõas forom enviadas”.
Aquesto na missa muitas de vegadas
rogou; e respostas lhe forom ém dadas
que Jesu-Cristo (que foi ontr’ os ladrões
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
ena cruz pregado) que lho enviara
per rogo de sa madre que lho rogara,
porque enos pobres o seu empregara
e em santos homes de religiões.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
Log’ aqueste feito toste foi sabudo,
e o póboo da cidade movudo
loando a Virgem, que é noss’ escudo
contra o diabo e sas tentações.
86
O que pola Virgem de grado seus dões
der, dar-vo-lh’-á ela grandes galardões.
82
R14
* * *
318
Cantigas de Santa Maria 146
«Quem comendar de coraçom»
(E 146, T 146)
Esta é como Santa Maria guareceu a um donzel, filho dũa bõa dona de Brieiçom, que ia em
romaria a Santa Maria d’ Albeza e topou com seus emigos na carreira, e sacarom-lhe os olhos e
cortarom-lhe as mãos, e Santa Maria fez-lhe crecer as mãos e olhos come de perdiz.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Quem comendar de coraçom
a Santa Maria o seu,
macar mal prenda, creo eu
que lho pode dar sem lijom.
Porende vos quero falar
dum gram miragre que oí
a homees bõos contar,
que juravam que foi assi,
que Santa Maria mostrar
foi por ũa, com’ aprendi,
dona que soía morar
ena terra de Briançom.
R1 13-16
[Refrão = vv. 1-4]
II
Esta, per com’ oí dizer,
um filh’ havia que maior
bem sabia ca si querer,
ca el era mantedor
dela, e ar do seu haver
bõa guard’ e alinhador,
e sabia-a defender
sempre mui bem e com razom.
18
20
22
24
R2 25-28
[Refrão = vv. 1-4]
III
P[ero], mui mais que outra rem,
a reinha esperital
esta dona queria bem;
e que lhe seu filho de mal
guardasse, de todo seu sém
lhe rogava mui mais que al,
e comendava-lho porém
ameúd’ em sa oraçom.
30
32
34
36
R3 37-40
[Refrão = vv. 1-4]
IV
El outrossi mui gram sabor
de Santa Maria servir
havia, e por seu amor
a sa casa queria ir
d’ Albeza, u entom maior
gente fazia i vĩir
a madre de Nostro Senhor
que em Bregonha foss’ entom.
42
44
46
48
319
R4 49-52
[Refrão = vv. 1-4]
V
Mai-la madre lhe defendeu
que nom fosse per rem alá,
e com el muito contendeu,
dizendo: “– Maa gent’ i há
de teus emigos: sandeu,
bem sei que rem nom te guarrá
de mort’!”. E el no-na creeu,
e foi-s’ e prendeu ocajom.
54
56
58
60
R5 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VI
E, u seu caminho filhou
por ir aa madre de Deus
alá u el ia, topou
com esses emigos seus,
que o prenderom; e sacou-lh’ um desses mui maos encreus
os olhos, e depois talhou-lh’ as mãos com ũu falchom.
66
68
70
72
R6 73-76
[Refrão = vv. 1-4]
VII
Forom-s’ eles. E remaniu
aquel lijado com mui gram
coita; e homees sentiu
que aa eigreja, de pram,
iam u el, e lhes pediu
mercee que tanto d’ afám
filhassem polo que sobiu
nos ceos dia d’ Acensom:
78
80
82
84
R7 85-88
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
que a Albeza dessa vez
o levassem. “– Ca” –diss’ el– “sei
que a santa Virgem de prez
me guarrá: sol dulta nom hei”.
E um desses romeu-lo fez.
Mas da madre, que vos direi?
Quand’ o oiu, mui mais ca pez
tornou negra nem que carvom,
90
92
94
96
R8 97-100
[Refrão = vv. 1-4]
IX
e sol deter-se nom quis,
mas como coitada molher
foi log’ alá, seendo fis
que Deus dar-lh’-ia comoquer
seu filho sem maravedis
são, que lh’ era mui mester.
E por esto, par Sam Dinis,
a Albeza foi de random.
102
104
106
108
R9 109-112
[Refrão = vv. 1-4]
X
E fez seu doo como faz
molher coitada; mas com fé
disse: “– Senhor, a que despraz
do mal, vees qual meu filh’ é,
114
116
320
118
120
que ante ti desfeito jaz;
porend’ a Deus, teu filh’, u sé,
roga que são e em paz
mi_o dé: tanto ti peç’ em dom;
R10 121-124
[Refrão = vv. 1-4]
XI
ora verei o que farás
ou se deste meu mal te dol,
ca bem sei que poder end’ hás
de o fazer; e muit’ é fol
o que nom cree que darás
bem aos teus e que sa prol
nom queres; ond’ hoje sem crás
compr’ i logo mià petiçom”.
126
128
130
132
R11 133-136
[Refrão = vv. 1-4]
XII
Esto dizendo como diz
molher bõa e mui fiel,
log’ a santa emperadriz,
madre de Deus Emanuel,
fez-lh’ olhos come de perdiz
pequenos a aquel donzel,
mui fremosos, e de raiz
crecerom-lh’ as mãos entom.
138
140
142
144
R12
146
148
Quem comendar de coraçom
a Santa Maria o seu,
macar mal prenda, creo eu
que lho pode dar sem lijom.
* * *
321
Cantigas de Santa Maria 147
«A madre do que a bêstia de Balaám falar fez»
(E 147, T 147)
Esta é como ũa molher pobre deu sa ovelha a guardar a um ovelheiro, e quando, ao trosquiar das ovelhas, vo a velha demandar a sua, ascondeu-lha o pastor e disse que a comera o lobo; e ela chamou Santa Maria de Rocamador, e entom a ovelha braadou u lha tĩinha o ovelheiro
asconduda e disse: «– Ei-me acá, ei-m’ acá!».
R0
I
2
3
5
7
9
A madre do que a bêstia | de Balaám falar fez
ar fez pois ũa ovelha | ela falar ũa vez.
Esto fez Santa Maria
por ũa pobre molher
que a de grado servia
come quem bem servir quer;
e porend’ ela um dia
valeu-lh’ u lhe foi mester,
e mostrou i seu miragre, | que vos nom foi mui rafez.
R1 10-11
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesta molher mesquinha,
de quanto pôd’ achegar
comprou ũa ovelhinha,
e foi-a dar a guardar
a um pegureir’ aginha;
e pois, ao trosquiar,
foi ém demandar a lãa | po-la vender por seu prez.
12
14
16
18
R2 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mas o pegureir’ astroso
a ovelha ascondeu
e come cobiiçoso
diss’: “– O lobo a comeu”.
A velha por mentiroso
o tev’ end’, e lhe creceu
tal coita por sa ovelha | que tornou tal come pez.
21
23
25
27
R3 28-29
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E disse: “– Ai groriosa,
a mià ovelha me dá,
ca tu end’ és poderosa
de o fazer”. E dalá
du jazia a astrosa
ovelha diss’: “– Ei-m’ acá!”.
E assi Santa Maria | aquest’ engano desfez.
30
32
34
36
R4 37-38
V
39
41
[Refrão = vv. 1-2]
E a velha mui festinho
sa ovelha trosquiou,
e meteu-s’ ao caminho
322
45
e quanto mais pôd’ andou,
a costas seu velocinho;
a Rocamador chegou,
dizend’: “– Esto fez a Virgem, | que sempre teve belmez”.
47
A madre do que a bêstia | de Balaám falar fez
ar fez pois ũa ovelha | ela falar ũa vez.
43
R5
* * *
323
Cantigas de Santa Maria 148
«De mui grandes periglos e de mui grandes maes»
(E 148, T 148)
Esta é como um cavaleiro guareceu de morte de mãos de seus emigos por ũa camisa que
chamam de Santa Maria, que tragia vestida.
R0
2
I
4
6
De mui grandes periglos | e de mui grandes maes
guarda Santa Maria | os que lhe som leaes.
E daquest’ um miragre | mostrarei em tal guisa
que dos outros da Virgem | será mui grand’ enquisa,
que faz muitos em Chartes | por ũa sa camisa;
e já vos ém dix’ outros, | bem oístes de quaes.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Chartes há ũ’ arca | que vam muitos veê-la,
u jaz ũa camisa | de linho que foi dela;
e cada um sa tea | leva e vai põê-la
sobr’ aquela camisa, | que jaz volt’ em cendaes.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E pois fazem camisas, | cada um de seu [p]ano,
que enas lides tragem, | per que os Deus de dano
guarde dos emigos; | mas esto sem engano
o façam; se nom, nunca | lhes valria jamaes.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Onde um cavaleiro | ũa destas tragia
vestida, porque muitos | emigos havia;
mais ena Virgem santa | fiava e criía,
e nom fazia feitos | maos nem desiguaes.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Um dia cavalgava | per cabo dũa xara,
sa camisa vestida, | ca armar nom s’ uviara;
entom seus emigos | lhe saírom de cara
e derom-lhe mui grandes | colbes e mui mortaes.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E cada um tĩía | deles que lhe passava
o corpo co-na lança: | tal ferida lhe dava;
mas guardo’-o a Virgem | que sol nom lhe chegava
nium colb’ ao corpo | nem faziam sinaes.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
E os seus escudeiros | dele forom chorando
contra ũas aldeas | e apelido dando.
Entom muitas das gentes | se forom i chegando
324
42
e acharo-no vivo | cabo dũus moraes,
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
que lhes contou o feito | todo em qual maneira
o guardara de morte | a senhor verdadeira;
e, demai-, la camisa | virom toda enteira;
e loarom a Virgem, | que faz miragres taes.
50
De mui grandes periglos | e de mui grandes maes
guarda Santa Maria | os que lhe som leaes.
46
R8
* * *
325
Cantigas de Santa Maria 149
«Fol é a desmesura»
(E 149, T 149)
Esta é como um preste aleimám dultava do sagramento do Corpo de Deus, e rogou a Santa
Maria que lhe mostrasse ende a verdade; e Santa Maria assi o fez, porque era de bõa vida.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
56
Fol é a desmesura
quem dulta que tornada
a hóstia sagrada
nom é em carne pura.
Mas como cuidar deve | nulh’ home que nom possa
a hóstia ser carne?: | pois que Deus quis a nossa
prender e seer home | e resurgir da fossa,
por seu poder tod’ esto, | que é sobre natura.
[Refrão = vv. 1-4]
E porende vos quero | desta razom um preito
contar que hei oído | mui pouc’ há e retreito;
e creo que terredes | por estranh’ end’ o [f]eito,
primeir’, e pois encima | por fremos’ aventura.
[Refrão = vv. 1-4]
Em terra d’ Aleimanha | um crérigo havia
que amava mais doutra | cousa Santa Maria,
assi que a sa missa | cantava cada dia;
mas eno sagramento | dultava com loucura.
[Refrão = vv. 1-4]
Dest’ a Santa Maria, | cada que el cantava
sa missa, mui de rijo | chorando lhe rogava
que o certo fezesse | daquelo que dultava,
assi que nom morresse | ende co-na rancura.
[Refrão = vv. 1-4]
Onde assi lh’ avo | que um sábad’, estando
na missa, e sagrara | a hóstia dultando,
tolheu-xe-lhe de vista; | e, por ela catando,
viu a que de Deus madre | foi per sa gram cordura,
[Refrão = vv. 1-4]
com seu filho nos braços, | aposta e fremosa;
e, macar era bela, | foi-lh’ a el espantosa;
e tremend’ el lhe disse: | “– Ai senhor groriosa,
se a hóstia tes, | dá-mi_a por ta mesura”.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela lhe respôs logo; | “– Home de mal ciente,
este que tenh’ em braços | é essa veramente
a hóstia que sagras, | de que nom és creente
porque a ti semelha | que de pam há fegura;
326
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13
106
108
[Refrão = vv. 1-4]
mas pero o revolves | e tanges com tas mãos,
creendo que pam ést[e], | este polos crischãos
recebeu na cruz morte | (que judeus e pagãos
lhe derom) desonrada, | por dar a nós folgura;
[Refrão = vv. 1-4]
est’ é o que tu comes, | onde fazes três partes,
e beves do seu sangue, | ond’ é bem que te fartes;
e quem cree bem esto, | o demo nem sas artes
nunca lhe terrám dano, | se em elo atura;
[Refrão = vv. 1-4]
est’ é o que tu alças | e baixas e descobres,
que quiso seer pobre | por requentá-los pobres
no seu reino do ceo | e fazê-los i nobres
mui mais que nulha outra | que seja creatura;
[Refrão = vv. 1-4]
e, pero semelhança | ham de pam e de vinho,
esto quer Deus que seja | polo home mesquinho,
que terria por crua | cousa comer mininho
ou bever de seu sangue, | ca nom é apostura”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quando lh’ est’ houve dito, | viu a hóstia logo,
e comeu-a chorando | aquel preste moogo;
des i, nom viu a Virgem, | mais disse-lh’: “– Eu te rogo,
senhor, que me tu leves | desta cárcer escura,
[Refrão = vv. 1-4]
e que veja no ceo | a ta face velida”.
E dali adeante | em creenç’ e em vida
foi tal que, pois lh’ a alma | do corpo foi saída,
dos ángeos levada | foi suso na altura.
Fol é a desmesura
quem dulta que tornada
a hóstia sagrada
nom é em carne pura.
* * *
327
Cantigas de Santa Maria 150
«A que Deus ama, amar devemos»
(E 150)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
4
I
6
8
R1
10
12
II
14
16
R2
18
20
III
22
24
R3
26
28
IV
30
32
R4
34
36
A que Deus ama, amar devemos;
a que Deus preça e nós precemos,
a que Deus honra, nós muit’ honremos;
esta é sa madre Santa Maria.
Nom houv’ a outra tal amor mostrado
com’ a esta, pois El quis enserrado
seer em ela e home formado,
e fez madre da filha que havia.
A que Deus ama, amar devemos;
a que Deus preça e nós precemos,
a que Deus honra, nós muit’ honremos;
esta é sa madre Santa Maria.
Preçou-a mais doutra rem que fezesse,
pois que quiso que El por filh’ houvesse
e outrossi que todo bem soubesse,
mais que quantas cousas feitas havia.
A que Deus ama, amar devemos;
a que Deus preça e nós precemos,
a que Deus honra, nós muit’ honremos;
esta é sa madre Santa Maria.
Honrou-a tanto per que é chamada
senhor de todos, madr’ e avogada;
e foi nos ceos per El corõada,
e a par dele see todavia.
A que Deus ama, amar devemos;
a que Deus preça e nós precemos,
a que Deus honra, nós muit’ honremos;
esta é sa madre Santa Maria.
E, pois per ela nos deu nova lee
Nostro Senhor, peçamos-lhe mercee
que rog’ a El, que nossos erros vee,
que nos guarde de mal e de folia.
A que Deus ama, amar devemos;
a que Deus preça e nós precemos,
a que Deus honra, nós muit’ honremos;
esta é sa madre Santa Maria.
* * *
328
Cantigas de Santa Maria 151
«Sempr’ a Virgem, de Deus madre, busca vias e carreiras»
(E 151, T -)
Esta é dum crérigo que honrava as eigrejas de Santa Maria e guardava os sábados, pero
que era luxurioso.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
Sempr’ a Virgem, de Deus madre, | busca vias e carreiras
per que os seus tirar possa | de mal per muitas maneiras.
Dest’ um fremoso miragre | vos direi que fez a Virgem, | madre de Deus groriosa,
por um crérigo que muito | a honrava; mais fazia | sa vida lussuriosa
sempre com maas molheres, | e casadas e solteiras,
nem virges nom queria | leixar, nem monjas nem freiras.
[Refrão = vv. 1-2]
Macar tod’ esto fazia, | da Virgem, de Cristus madre, | sempr’ as eigrejas honrava,
e vigias de sas festas | jajũava, e, sem esto, | os sábados bem guardava,
porque nom podess’ o demo | levá-lo a sas barreiras,
e que sempr’ a Virgem santa | oísse as sas pregueiras.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas ũa noite lh’ avo | que a ũa barragãa | sua foi, que bem queria,
e, por se deitar com ela, | catou per ũa festra, | e viu de Santa Maria
a eigrej’ e os altares | e reluzir as vidreiras;
entom leixou de deitar-se | e foi-se per ũas eiras.
[Refrão = vv. 1-2]
Outra vez tornou a ela, | e ela lhe preguntava | porque a assi leixa[r]a.
El respôs: “– Porque da Virgem | beita, Santa Maria, | a sa eigreja catara;
mas serra –diss’ el– as estras | com portas e com esteiras,
que a eigreja nom possa | veer nem sol end’ as beiras”.
[Refrão = vv. 1-2]
Ela serrou as festras | o mais de rijo que pôde, | que nom viss’ el rem de fora.
E po[is] que forom deitados, | vo um vento tam forte | que as abriu a desora;
e viu logo a eigreja, | lámpadas e lumeeiras.
E foi-s’ e leixou a dona | com todas sas covilheiras.
[Refrão = vv. 1-2]
E conhoceu seu pecado, | e fezo-se logo monge | dum mõesteiro que era
preto dali. E por ele | demostrou Santa Maria | outra maravilha fera;
ca lh’ aposeram um furto | lénguas maas mentireiras,
dizendo del muitas cousas | que nom eram verdadeiras.
[Refrão = vv. 1-2]
Sobr’ esto forom juntados | no logar muitos abades | pora saber este feito,
e sospeitavam o monge. | Mas a Virgem, de Deus madre, | o livrou bem daquel prei-
to;
42
ca, u el ant’ os abades | nom duas vezes senlheiras
passava, mostrou-vo-lh’ ela | sinaes d’ amor certeiras.
329
R7 43-44
VIII
46
48
R8 49-50
IX
52
54
R9
56
[Refrão = vv. 1-2]
Ca, enquant’ el os golhos | ficav’ e avemaria | dizia mui simpremente
aa Virgem, de Deus madre, | contra el se levantava, | veendo-a essa gente.
E muit’ a Virgem loarom | (que nom houve companheiras
em seus feitos e que sempre | faz sas mercees enteiras).
[Refrão = vv. 1-2]
E por esto foi o monge | escusado daquel furto, | de que o mal sospeitavam;
e todos esses abades | logo pera el verom | e perdom lhe demandavam,
tolhend’ os frocos das testas | e descobrind’ as moleiras
pola Virgem, cujas obras | som sempre dereitureiras.
Sempr’ a Virgem, de Deus madre, | busca vias e carreiras
per que os seus tirar possa | de mal per muitas maneiras.
330
Cantigas de Santa Maria 152
«Tantas nos mostra a Virgem de mercees e d’ amores»
(E 152, T 152)
Esta é como um bom cavaleiro d’ armas, pero que era luxurioso, dizia sempr’ «Ave, Maria», e Santa Maria o fez ém partir per sa demostrança.
R0
2
I
4
6
Tantas nos mostra a Virgem | de mercees e d’ amores
que, per rem, nunca devemos | seer maos pecadores.
E dest’ um mui gram miragre | mostrou por um cavaleiro
que apost’ e fremos’ era | e ardid’ e bom guerreiro;
mas era luxurioso | e soberv’ e torticeiro,
e cho doutros pecados | muitos, grandes e mores.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este per rem madodinhos | nem vésperas nom oía,
nem outras horas nem missa; | pero em Santa Maria
fiava, e muitas vezes | a saudaçom dizia
que lh’ o sant’ ángeo disse, | de que somos sabedores.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E um dia, u estava | cuidando em sa fazenda
com’ emendass’ em sa vida | (e havia gram contenda,
ca a alma conselhava | que fezesse dest’ emenda,
mas a carne nom queria | que leixasse seus sabores),
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
el estand’ em tal perfia, | pareceu-lh’ a groriosa
com ũa branc’ escudela | de prata, grand’ e fremosa,
cha dum manjar mui jalne, | nom de vida saborosa
mas amarga, e, sem esto, | dava mui maos odores.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
U a viu o cavaleiro, | foi com medo [e]spantado
e preguntou-lhe quem era. | Diss’ ela: “– Dar-ch’-ei recado:
eu sõo Santa Maria, | e venho-te teu estado
mostrar per est’ escudela, | porque leixes teus errores;
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
ca, vês, esta escudela | mostra-ti que és fremoso
e hás muitas bõas manhas; | mas pecador e lixoso
és na alma, porém cheiras | com’ este manjar astroso,
per que irás a inferno, | que é cho d’ amargores”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
E, pois lh’ houv’ aquesto dito, | a Virgem logo foi ida;
e el dali adeante | enmendou tant’ em sa vida
per que, quando do seu corpo | a sa alma foi partida,
foi u viu a Virgem santa, | que é senhor das senhores.
Tantas nos mostra a Virgem | de mercees e d’ amores
que, per rem, nunca devemos | seer maos pecadores.
* * *
331
Cantigas de Santa Maria 153
«Quenquer que tem em desdém»
(E 153, T 153)
Esta cantiga é da molher de Gasconha que desdenhava a romaria de Santa Maria de Rocamador, que disse que, se a alá nom levasse ũa sela em que siía, que nunca iria alá.
R0
1
3
I
4
6
8
10
Quenquer que tem em desdém
a Santa Maria,
gram mal lhe verrá porém.
Daquest’ avo assi,
temp’ há, em Gasconha:
que ũa dona houv’ i
de pouca vergonha,
que sol nom tinha em rem
d’ ir em romaria
(atant’ era de mal sém)
R1 11-13
[Refrão = vv. 1-3]
II
a Rocamador, que di
mui preto estava.
E porém, com’ aprendi,
muito a coitava
ũa sa moça des ém,
dizendo: “– Perfia
filhastes que prol nom tem;
14
16
18
20
R2 21-23
[Refrão = vv. 1-3]
III
e, pois nom queredes ir
em nulha maneira,
vel leixade-me comprir
aquesta carreira”.
Disse-lh’ ela: “– Vai e vem,
ai louca, sandia,
ca eu nom m’ irei daquém
24
26
28
30
R3 31-33
[Refrão = vv. 1-3]
IV
se m’ a sela nom seguir
em que assentada
sejo, e que sem falir
me lev’ i folgada”.
Ond’ aquest’ avo ém:
que logo s’ ergia
a sela ligeiramém
34
36
38
40
R4 41-43
[Refrão = vv. 1-3]
V
e ant’ o altar deceu
da mui groriosa;
e culpada se tendeu,
chamando-s’ astrosa,
44
46
332
48
50
dizendo: “– Tal será quem
filhar ousadia
contra quem lhe nom convém”.
R5 51-53
[Refrão = vv. 1-3]
VI
Ali se desaprendeu
dela log’ a sela
e ant’ o altar caeu
da madr’ e donzela,
que sempre quer nosso bem;
e por vê-la ia
gente daquend’ e dalém.
54
56
58
60
R6
61
63
Quenquer que tem em desdém
a Santa Maria,
gram mal lhe verrá porém.
* * *
333
Cantigas de Santa Maria 154
«Tam grand’ amor há a Virgem com Deus, seu filh’, e juntança»
(E 154, T 154)
Esta é como um tafur tirou com ũa baesta ũa saeta contra o ceo com sanha porque perdera,
e cuidava que firiria a Deus ou a Santa Maria.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Tam grand’ amor há a Virgem | com Deus, seu filh’, e juntança
que, porque i nom dultemos, | a vezes faz demostrança.
Desto mostrou um miragre | grand’ e forte e fremoso
a Virgem Santa Maria | contra um tafur astroso
que, porque perdia muito, | era contra Deus sanhoso,
e com ajuda do demo | caeu em desasperança.
[Refrão = vv. 1-2]
Esto foi em Catalonha, | u el jogava um dia
os dados ant’ ũ’ eigreja | da Virgem Santa Maria;
e, porque ia perdendo, | creceu-lhe tal felonia
que de Deus e de sa madre | cuidou a filhar vingança.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E levantou-se do jogo | e foi travar mui correndo
log[o] em ũa baesta | que andava i vendendo
um corredor, com seu cinto | e com coldre, com’ aprendo,
todo cho de saetas; | e vo-lh’ ém malandança.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E, pois armou a baesta, | disse: “– Daquesta vegada
ou a Deus ou a sa madre | darei mui gram saetada”.
E, pois que aquesto disse, | a saet’ houve tirada
suso escontra o ceo, | u fez mui gram demorança
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
em vĩir; e el, em tanto, | assi como de primeiro,
filhou-s’ a jogar os dados | com outro seu companheiro.
Entom deceu a saeta | e feriu no tavoleiro,
toda coberta de sángui; | e creede sem dultança
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
que sanguent’ o tavoleiro | foi. E quantos i estavam
enredor veend’ o jogo, | ferament’ ém s’ espantavam,
ca viíam fresc’ o sángui | e caent’, e bem cuidavam
que algum deles ferido | fora d’ espad’ ou de lança.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Mais depois que entenderom | que esto assi nom era
e que o sangu’ a saeta | bem do ceo adussera,
334
42
e nembrou-lhe-la paravla | que ant’ o tafur dissera,
houverom mui grand’ espanto. | Mas o tafur sem tardança
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
filhou mui gram pedença | e entrou em órdim forte,
fiand’ em Santa Maria, | dos pecadores conorte.
E assi passou sa vida; | e, quando vo a morte,
pola madre de Deus houve | salvament’ e perdõança.
50
Tam grand’ amor há a Virgem | com Deus, seu filh’, e juntança
que, porque i nom dultemos, | a vezes faz demostrança.
46
R8
* * *
335
Cantigas de Santa Maria 155
«Ali u a pedença do pecador vai minguar»
(E 155, T 155)
Esta é como um cavaleiro d’ Aleixandria foi malfeitor, e, quando vo a velhece, repentiu-se
e foi a um santo ermitám confessar-se, e el disse-lhe que jajũasse, e o cavaleiro disse que nom
podia, e el deu-lh’ em pedença que lhe trouxesse um pichel d’ água.
R0
2
I
4
6
Ali u a pedença | do pecador vai minguar,
acorre Santa Maria | a que-na sabe rogar.
Du o pecador promete | de ser amigo de Deus
e se partir de pecado | e enmendar tortos seus,
e o nom compr’, é perdudo, | segund[o] conta Mateus;
mas Santa Maria pode | tod’ aquest’ enderençar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca seu filho faz por ela | mais que por nulh’ outra rem;
e porend’ as nossas culpas | enmenda por nós mui bem,
que nom sejamos perdudos; | e por est’ é de bom sém
que-na ama e a serve | e sabe_em ela fiar.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Em terra d’ Aleixandria | houve um mui malfeitor
cavaleiro, mui sobejo | e mui brav’ e roubador;
mais, pois vo a velhece, | sentiu-se por pecador,
e foi a um home santo | seus pecados confessar.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
El deu-lhe por pedença | que a Ultramar romeu
fosse; e el respondeu-lhe: | “– Esto vos nom farei eu”.
“– Pois jajũade”. “– Nom posso”. | Disse-lhe: “– Par Sant’ Andreu,
nem esmolna nom faredes?” | “– Nom, ca nom tenho que dar”.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Quando viu aquel sant’ home | que nom podia fazer
aquel o que lh’ el mandava, | disse-lh’: “– Ide-mi trager
este pichel cho d’ água, | e podedes log’ haver
perdom de vossos pecados, | sem nulh’ outr’ afám levar”.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Quand’ o velho, de pecados | carregad’, aquest’ oiu,
muit’ alegre, do sant’ home | atantoste s’ espediu,
e, com seu pichel, por água | foi; mais ela lhe fugiu
dũa fonte, que sol gota | nom pude dela filhar.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Mas foi-se log’ a um rio | que corria preto di:
ar fugiu-lhe log’ a água, | per quant’ eu [ém] aprendi.
E assi passou dous anos, | per com’ eu escrito vi,
que água colher nom pude, | nem sol bever nem gostar.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
336
VIII
46
48
E dous anos provou esto, | que nunca pôd’ avĩir
d’ aquel pichel encher d’ água, | ne-no mandado comprir
que lh’ o ermitám mandara. | E filhou-s’ a comedir
que Deus, per rem, nom queria | seus pecados perdõar,
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
mas que por Santa Maria | podia haver perdom
se a serviss’ e posesse | em ela seu coraçom;
entom rogou-lhe chorando, | des i pediu-lhe por dom
que aquele pichel d’ água | podesse cho levar.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
E disse-lhe: “– Senhor, roga | a teu filho, se te praz,
que a mi fazer nom queira | o que a beschas nom faz
nem a aves”. E aquesto | dizia chorand’ assaz;
e, a seu pichel catando, | houv’ ém duas a chorar
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
lágrimas dentro, e cho | foi o pichel dessa vez;
e el, quando viu aquesto, | atám alegre se fez
que ao_ermitám foi logo | e diss’: “– A senhor de prez,
madre de Deus, me fez esto | por me de coita tirar:
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
que de miàs lágrimas duas | enchi tod’ este pichel”.
Quando viu o ermitano | este miragre tam bel,
loou muit’ a Virgem santa, | de Deus madr’ Emanuel,
e fez per toda a terra | este miragre mostrar,
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
de que foi Santa Maria, | a senhor espirital,
loada muito de todos, | que aos coitados val
sempre nas mui grandes coitas | e ar guarda-os de mal.
Porém Deus muito cofonda | que-na nom quiser loar.
80
Ali u a pedença | do pecador vai minguar,
acorre Santa Maria | a que-na sabe rogar.
76
R13
* * *
337
Cantigas de Santa Maria 156
«A madre do que de terra primeir’ home foi fazer»
(E 156, T 156)
Este miragre fez Santa Maria em Cunhegro por um crérigo que cantava mui bem as sas
prosas a sa loor, e prendero-no hereges e talharom-lh’ a língua.
R0
2
I
4
6
8
A madre do que de terra | primeir’ home foi fazer,
bem pod’ a língua talhada | fazer que possa crecer.
Dest’ um mui maravilhoso
miragre vos contarei,
que fez, e mui piadoso,
a madre do alto rei
por um crérigo, que foram | a furt’ hereges prender
porque de Santa Maria | sempr’ ia loor dizer.
R1 9-10
[Refrão = vv. 1-2]
II
Poi-lo houverom filhado,
quisera-no i matar;
mais, po-lo fazer penado
viver, forom-lhe talhar
a língua bem na garganta, | cuidando-o cofonder,
porque nunca mais da Virgem | fosse loor compõer.
12
14
16
R2 17-18
[Refrão = vv. 1-2]
III
Pois que lh’ a língua talharom,
leixaro-no assi ir;
e mui mal lhe per-jogarom,
ca nom podia pedir
nem cantar como cantara | da que Deus quiso nacer
por nós; e com esta coita | cuidava o sém perder.
20
22
24
R3 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E o que mais grave lh’ era:
que, quando oía som
dizer dos que el dissera,
quebrava-lh’ o coraçom
porque nom podia nada | cantar, onde gram prazer
houvera muitas vegadas, | e filhava-s’ a gemer.
28
30
32
R4 33-34
[Refrão = vv. 1-2]
V
El cuitad’ assi andando,
um dia foi que chegou
a Cunhegro, e entrando
na eigreja, ascuitou
e oiu como cantavam | vésperas a gram lezer
da Virgem santa reinha; | e quis com eles erger
36
38
40
R5 41-42
VI
44
46
[Refrão = vv. 1-2]
sa voz, e sa voontade
e sa punha i meteu.
E log’ a da gram bondade
fez que língua lhe naceu
338
48
toda nova e comprida, | qual ante soí’ haver:
assi esta Virgem madre | lhe foi comprir seu querer.
R6 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
VII
56
Esto virom muitas gentes
que estavam entom i,
e meterom mui bem mentes
no miragre, com’ oí;
e a Virgem porém todos | filharom-s’ a beizer,
e o crérigo na ordem | dos monges se foi meter.
58
A madre do que de terra | primeir’ home foi fazer,
bem pod’ a língua talhada | fazer que possa crecer.
52
54
R7
* * *
339
Cantigas de Santa Maria 157
«Deus por sa madre castiga a vegadas bem de chão»
(E 157, T 157)
Esta é dũus romeus que iam a Rocamador e pousarom em um burgo, e a hóspeda furtoulhes da farinha que tragiam.
R0
2
I
4
6
Deus por sa madre castiga | a vegadas bem de chão
o que faz mal, e mui toste | por ela o er faz são.
E daquest’ um gram miragre | mostrou a ũus romeus
que a Rocamador iam, | que de sa madr’ eram seus,
e pousarom em um burgo, | com’ aprix, amigos meus,
mas a sa hóspeda foi-lhes | mui maa de cabo são.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca, u eles lhe comprarom | mui bem quanto lhes vendeu,
de farinha que tragiam | tal cobiça lhe creceu
de feijoos que fezeram | end’, e um deles meteu
i de bom queijo rezente | (ca est’ era em verão).
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Ela, com sabor daquesto, | da farinha lhes furtou,
e, depois que s’ eles forom, | log’ a fazer se filhou
feijoos bem come eles; | mais o demo a torvou,
que quis ende provar ũu, | mais nom lhe saiu em vão:
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
ca, u meteu um cuitelo | no feijoo por provar
a como lhe saberia, | pela boca o chantar
foi bem até enas cachas, | que o nom pôd’ ém tirar,
ca lhe passou as queixadas | mais dum palm’ e ũa mão.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Muitos meges i verom, | mais nom poderom, per rem,
tira[r]-lh’ ende o cuitelo | per arte nem per seu sém.
E ela, quando viu esto, | a Rocamador foi-s’ ém
rogar a Santa Maria, | u acha todo crischão
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
bõo e toda crischãa | que lhe bem, de coraçom,
roga, mui gram piadade. | Porend’ esta foi entom
i, e muito [foi] chorando; | e, pois fez sa confissom,
tirou-lh’ um prest’ o cuitelo, | ca nom já celorgião.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
Tantost’ aqueste miragre | pela terra enredor
souberom, e derom todos | porém graças e loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor;
e sabede do miragre | que nom é muit’ ancião.
Deus por sa madre castiga | a vegadas bem de chão
o que faz mal, e mui toste | por ela o er faz são.
* * *
340
Cantigas de Santa Maria 158
«De muitas guisa-los presos solta a mui groriosa»
(E 158, T 158)
Esta é como Santa Maria sacou de prijom um cavaleiro que foi preso por seu senhor, e
mandou-lhe que se fosse pera Rocamador.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6
38
De muitas guisa-los presos | solta a mui groriosa
Santa e Virgem Maria: | tant’ é com Deus poderosa.
E de tal razom vos quero | contar um mui gram miragre, | que fez por um cavaleiro,
bõo d’ armas e de manhas | e, em servir um ricome | cuj’ era, mui verdadeiro;
e foi pres’ em seu serviço, | e em cárcer tevrosa
o meterom e em ferros, | como gente cobiçosa,
[Refrão = vv. 1-2]
em tal que o espeitassem. | Mas aquel senhor cuj’ era, | sobr’ el mentes nom parava.
E ele, com mui gram coita, | sempre, de noit’ e de dia, | Santa Maria chamava
que acorrê-lo vesse | como senhor piadosa
e que dali o tirasse, | daquela prijom nojosa.
[Refrão = vv. 1-2]
El jazend’ assi em ferros | e com esposas nas mãos | e cada na garganta,
aqué vem Santa Maria, | a madre de Jesu-Cristo, | que as prijões quebranta,
e em lhas britar mui toste | nom vos foi i vagarosa,
e disse-lh’: “– Erge-t’ e vai-te | daquesta prijom astrosa”.
[Refrão = vv. 1-2]
Entom deitou-lh’ as prijões | ao colo e saco’-o | ante tod’ aquela gente
que o guardavam, e nunca, | pero que o ir viíam, | nom lhe disserom niente.
E tiro’-o do castelo, | e disse-lhe saborosa-ment’: “– A Rocamador vai-te | e passa bem per Tolosa”.
[Refrão = vv. 1-2]
E el moveu atantoste, | e foi-se quanto s’ ir pude, | como lh’ a santa reinha
mandara. Mas do castelo | forom pos el cavaleiros. | E el chegou muit’ aginha,
ca o nom guiou a Virgem | per carreira pedragosa
a Rocamador, sa casa, | mas per chãa e viçosa.
[Refrão = vv. 1-2]
E pendurou i os ferros | log’ e as outras prijões | que ao colo trouxera;
e contou i ant’ os monges | e ante toda-las gentes | todo como lh’ avera
e como Santa Maria | em tirá-lo aguçosa
fora, per que mui loada | foi porend’ a preciosa.
De muitas guisa-los presos | solta a mui groriosa
Santa e Virgem Maria: | tant’ é com Deus poderosa.
* * *
341
Cantigas de Santa Maria 159
«Nom sofre Santa Maria de seerem perdidosos»
(E 159, T 159)
Esta é de como Santa Maria fez descubrir ũa posta de carne que furtaram a ũus romeus na
vila de Rocamador.
R0
2
I
4
6
Nom sofre Santa Maria | de seerem perdidosos
os que as sas romarias | som de fazer desejosos.
E dest’ oíd’ um miragre |
que mostrou Santa Maria,
a ũus romeus que forom |
como mui bõos crischãos,
de que vos quero falar,
| per com’ eu oí contar,
a Rocamador orar
| simplement’ e homildosos.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E, pois entrarom no burgo, | forom pousada filhar,
e mandarom comprar carne | e pam pera seu jantar
e vinho; e entretanto | forom a Virgem rogar
que a seu filho rogasse | dos seus rogos piadosos
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
por eles e nom catasse | de como foram errar,
mas que del perdom houvessem | de quanto foram pecar.
E, pois est’ houverom feito, | tornarom nom devagar
u [o] seu jantar tĩíam, | ond’ eram cobiiçosos.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E mandaram nove postas | meter, asse Deus m’ ampar,
na ola, ca tantos eram; | mais, poi-las forom tirar,
acharom end’ ũa menos, | que a serventa furtar
lhes fora, e forom todos | porém jaquanto queixosos.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E buscarom pela casa | po-la poderem achar,
chamando Santa Maria | que lha quisesse mostrar;
e oírom em ũ’ arca | a posta feridas dar,
e d’ ir alá mui correndo | nom vos forom vagarosos.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E fezerom log’ a arca | abrir, e dentro catar
forom, e virom sa posta | dacá e dalá saltar;
e saírom aa rua | muitas das gentes chamar,
que virom aquel miragre, | que foi dos maravilhosos
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
que a Virgem groriosa | fezess’ em aquel logar.
Des i, filharom a posta | e foro-na pendorar
per ũa corda de seda | ant’ o seu santo altar,
loando Santa Maria, | que faz miragres fremosos.
Nom sofre Santa Maria | de seerem perdidosos
os que as sas romarias | som de fazer desejosos.
* * *
342
Cantigas de Santa Maria 160
«Quem bõa dona querrá»
(E 160, T 160)
Esta é de loor de Santa Maria.
I
1
R1
3
II
4
R2
6
III
7
R3
9
IV
10
R4
12
V
13
R5
15
VI
16
R6
18
VII 19
R7
21
VIII 22
R8
24
Quem bõa dona querrá
loar, lo’ a que par nom há,
Santa Maria.
E par nunca lh’ achará,
pois que madre de Deus foi já,
Santa Maria.
Pois madre de Deus foi já,
e Virgem foi e seerá,
Santa Maria.
E Virgem foi e será;
porende cabo del está
Santa Maria.
Porém cabo del está,
u sempre por nós rogará,
Santa Maria.
U por nós lhe rogará
e del perdom nos gãará,
Santa Maria.
E perdom nos gãará
e ao demo vencerá,
Santa Maria.
E o demo vencerá
e nos consigo levará,
Santa Maria.
* * *
343
Cantigas de Santa Maria 161
«Poder há Santa Maria, a senhor de piadade»
(E 161, T 161)
Como ũu home de Morielha, que ameúde ia a Santa Maria de Salas e tragia sa majestade,
viu vĩir nuveado e pôs a majestade na sa vinha; e nom firiu i a pedra, e toda-las outras forom
apedreadas em derredor.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Poder há Santa Maria, | a senhor de piadade,
de defender toda terra | de mal e de tempestade.
Em Aragom, em Morielha, | um hom’ assaz pobr’ havia
que aa Virgem de Salas | muit’ ameúd’ alá ia,
e, por ser de mal guardado, | seu sinal sigo tragia,
em que era figurada | mui bem a sa majestade.
[Refrão = vv. 1-2]
Est’ havia ũa vinha | que mais doutra rem amava,
e, pero grande nom era, | daquesta se governava
(e sa molher e seus filhos) | e vestia e calçava,
ca outr’ haver nom havia | no mundo, nem outr’ herdade.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ond’ avo em agosto | um dia que nuveado
se levantou muit’ escuro | e com torvom mesturado,
e vĩía mui correndo, | ond’ el foi muit’ espantado
e diss’: “– Ai Santa Maria, | a mià vinha me guardade;
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e, pero que minha digo, | ante tenho que é vossa,
macar eu e mià companha | a lavremos come nossa;
pois guardade-mi_a de pedra, | que lhe mal fazer nom possa,
e filhade-a pois toda | ou sequer a meadade”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Dizend’ esto, a omagem | foi põer eno meogo
de sa vinha; e a pedra | feriu mui de rijo logo
em toda-las outras vinhas, | mas na sua, polo rogo
que fez a Santa Maria, | nom tangeu, par caridade.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ainda foi maior cousa: | que xermentos que passavam
daquela vinha nas outras | e com eles se juntavam,
as pedras todos britarom; | mas em aquestes nom davam
du a omagem estava: | esto creed’ em verdade.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
As vinhas enredor desta | todas forom destroídas,
mas esta nom prendeu dano, | porque forom bem oídas
40
344
42
da Virgem as orações | daquest’ home, que fez idas
per-muitas vezes a Salas | em ivern’ e em estade.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E porém loar devemos | a madre do grorioso
rei, que fez este miragre | por ela atám fremoso,
per que cada ũu deve | a seer mui desejoso
d’ haver a sua mercee, | em que jaz toda bondade.
50
Poder há Santa Maria, | a senhor de piadade,
de defender toda terra | de mal e de tempestade.
46
R8
* * *
345
Cantigas de Santa Maria 162
«As sas figuras muit’ honrar»
(E 162, T 162, U (Ap) 6)
Esta é como Santa Maria fez que a sua omagem, que mudaram dum altar a outro, que se
tornass’ a seu logar onde a tolheram.
R0
2
I
4
6
8
R1 9-10
II
12
14
16
R2 17-18
III
20
22
24
R3 25-26
IV
28
30
32
R4 33-34
V
36
38
40
R5 41-42
VI
44
As sas figuras muit’ honrar
devemos da Virgem sem par.
Ca em honrá-las dereit’ é
e em lhes havermos gram devoçom,
nom já por elas, a-la-fé,
mas pola figura da em que som;
e sol nom devemos provar
de as trager mal nem viltar.
[Refrão = vv. 1-2]
E daquesto vos contarei
ora um mui gram miragre que fez
em Canete, per com’ achei
em verdad’, esta senhor de gram prez,
dũa omagem que comprar
foi um cavaleir’ e i dar
[Refrão = vv. 1-2]
na sa eigreja, que está
fora da vila cabo do portal,
em que grandes vertudes há
que faz esta senhor espirital.
Porend’ os golhos ficar
foi e pose-a no maior altar,
[Refrão = vv. 1-2]
u esteve gram temp’ assi,
e Deus por ela miragres mostrou,
tá que um bispo vo i
de Conca, que a tolher ém mandou
e põê-l’ em outro logar,
porque a nom viu de bom semelhar.
[Refrão = vv. 1-2]
Ao crérigo capelám
mandou o bispo aquesto fazer,
e ele logo manamám
foi a omagem do altar tolher;
mas em outro dia achar
a foi u x’ ante soía estar.
[Refrão = vv. 1-2]
Quando o crérig’ esto viu,
cuidou, a pram, que o fezer’ alguém,
e por aquesto comediu
346
46
48
R6 49-50
VII
52
54
56
R7 57-58
VIII
60
62
64
R8
66
que a omagem tornasse porém
u lh’ o bispo fora mandar,
e a eigreja fosse bem serrar.
[Refrão = vv. 1-2]
E ar fez come sabedor
e levou a chave. E pela luz
tornou i, quando o alvor
parecia, e achou ant’ a cruz
a omagem; e amostrar
a foi a quantos s’ i foram juntar
[Refrão = vv. 1-2]
entom po-las missas oir.
E todos derom loor end’ a Deus
e a ela, que sem falir
mostra ali grandes miragres seus,
por que a vem aorar
muitas gentes, e do seu ofertar.
As sas figuras muit’ honrar
devemos da Virgem sem par.
* * *
347
Cantigas de Santa Maria 163
«Pode por Santa Maria o mao perdê-la fala»
(E 163, T 163)
Esta é come um home de Osca que jogava os dados, descreeu em Santa Maria e perdeu logo
a fala; e foi a Santa Maria de Salas em romaria e cobrou-a.
R0
2
I
4
6
Pode por Santa Maria | o mao perdê-la fala,
e ar, se se bem repente, | per ela pode cobrá-la.
E desto fez um miragre | a Virgem Santa Maria
mui grand’ em Osca, dum home | que ena tafuraria
jogara muito os dados | e perdera quant’ havia;
porém descreeu na Virgem | que sol nom quis receá-la.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Tanto que est’ houve dito, | foi de seu corpo tolheito
polo gram mal que dissera | (e, par Deus, foi gram dereito);
e logo perdeu a fala, | ca Deus houve del despeito,
que lha tolheu a desora, | como se dissesse: “– Cala!”
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Assi esteve gram tempo | que dali nom se mudava,
e a cousa que queria | per sinaes amostrava;
e desta guisa a Salas | dali levar-se mandava,
e deu-lh’ a língua tal sõo | como fogo que estala.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E catando a omagem, | chorou muit’ e falou logo
e diss’: “– Ai Santa Maria, | que me perdões te rogo,
e des aqui adeante, | se nunca os dados jogo,
a mià língua seja presa | que nunca queras soltá-la”.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
30
Logo que est’ houve dito, | foi de todo mui bem são,
e quantos aquesto virom | loarom porém de chão
a Virgem Santa Maria; | e aquel foi bom crischão
e des ali adeante | punhou sempre em loá-la.
32
Pode por Santa Maria | o mao perder a fala,
e ar, se se bem repente, | per ela pode cobrá-la.
28
R5
* * *
348
Cantigas de Santa Maria 164
«Como deve dos crischãos seer a Virgem honrada»
(E 164, T 164)
Como a omagem de Santa Maria de Salas deu um braado, e tremeu a terra, por um prior da
eigreja que fez tirar a força do sagrado Dom Fernando, abade de Mont’ Aragom.
R0
2
I
4
6
Como deve dos crischãos | seer a Virgem honrada,
outrossi ar deve deles | seer em todo guardada.
E desto mostrou em Salas | a Virgem por um prior
que i era, gram miragre, | porque sempre servidor
dela fora; e porende | lhe fezo tam grand’ amor
que, do mal que lhe fezerom, | mostrou-s’ ém por despagada.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este monge acusado | fora aquela sazom
de mandar fazer mõeda; | e por aquesta razom
fez-lo prender o ifante | que foi de Mont’ Aragom
abade e que a terra | tĩía encomendada
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
de mão del-rei Dom James, | e que justiça fazer
devia. Porend’ o monge | mandou tantoste prender;
e el foi-s’ aa eigreja, | cuidando i guarecer,
creendo em toda guisa | que nom seria britada.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Mas aquel ifant’ abade | fez-lo de fora chamar,
e, pois que saiu a ele, | mando’-o bem recadar,
e assi o fez per força | do cimiteiro tirar.
Ond’ a omagem da Virgem | foi daquesto tam irada
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que deu ũa voz tam grande | que quantos estavam i
o oírom, e a terra | tremeu, segund’ aprendi;
e a omagem tantoste | redrou seu filho de si,
e perdeu sa fremosura | e tornou descoorada;
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
outrossi a de seu filho: | tam gram pesar ém mostrou.
Quand’ esto soub’ o ifante, | o monge tornar mandou,
e el com todos seus homes | ena eigreja entrou
com sogas enas gargantas: | tal emenda houve dada.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
O bispo d’ Osca i vo, | que tev’ o feito por mal,
e fez fazê-la enmenda; | e a omagem, sem al,
chegou log’ a si seu filho, | e esto foi gram sinal
349
42
que o feito perdõara. | Pero nom houve cobrada
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
sa coor com’ ant’ havia, | polo mal que recebeu,
e assi estede sempre; | e per esto s’ entendeu
quanto lh’ o feito pesara, | ca nunca lh’ esclareceu
sa coor, nem de seu filho, | bem des aquela vegada.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
54
Entom todas essas gentes | que ali foram vĩir
por veerem tal miragre, | loarom a que falir
nunca quer aos coitados | nem dos seus se quer partir;
e foi des i adeante | sa eigreja mais dultada.
56
Como deve dos crischãos | seer a Virgem honrada,
outrossi ar deve deles | seer em todo guardada.
IX
52
R9
* * *
350
Cantigas de Santa Maria 165
«Nium poder deste mundo de gente nada nom val»
(E 165, E 395, T 165)
Esta é como Santa Maria defendeu ũa vila que chamam Tortosa, em Ultramar, dum soldám
que a queria filhar.
R0
2
I
4
6
Nium poder deste mundo | de gente nada nom val
contra o poder da Virgem, | ca x’ é tod’ espirital.
Em Ultramar, dest’ avo | miragre grand’ e mui bel
que mostrou Santa Maria, | madre de Deus Manuel,
a um soldám poderoso, | porque era mui cruel
e porend’ aos crischãos | desamava mais que al.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
A este soldám chamavam | per seu nome Bondoudar,
que Egito e Alapa | havia a seu mandar,
e Domás e a Camela; | e porende guerrejar
queria sempr’ a crischãos | e fazer-lhes muito mal.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Este seus homes tragia | com crischãos toda vez
por saber mais sa fazend’, e | um deles saber lhe fez
que, se filhasse Tortosa, | gãaria i gram prez;
demais, quem lha defendesse | nom havia tal nem qual.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Log’ o soldám com grand’ hoste | moveu, quand’ aquest’ oiu,
e mui preto de Tortosa | em um outeiro sobiu,
e parou mentes na vila, | e tam pouca gent’ i viu
que teve que aquel mouro | nom lhe fora mentiral.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Quand’ a gente de Tortosa | virom atám gram poder
de mouros vĩir sobr’ eles, | cuidarom mortos seer;
e forom-s’ aa eigreja | sas orações fazer,
dizend’: “– Ai Santa Maria, | pois ta mercee nom fal
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
a quantos que a demandam, | val a nós, que somos teus:
guarda-nos que nom caiamos | em poder destes encreus,
que per nulha rem nom creem | que tu és madre de Deus;
e porend’ em este feito | mostra algum gram sinal”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Pois sa oraçom fezerom, | per quant’ end’ eu aprendi,
contarom-se quantos eram, | mas poucos s’ acharom i.
Entom a mui grandes vozes | todos disserom assi:
“– Senhor, se nos nom acorres, | preit’ é mui descomunal”.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
351
VIII
46
48
O soldám log’ outro dia | sas gentes armar mandou
pera filharem a vila; | mas nom foi com’ el cuidou:
ca, pois se chegou a ela, | tal gente lhe semelhou
que estava alá dentro | que nom ficava portal
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
nem torre nem barvacãa | nem muro, per nulha rem,
u gente muita nom fosse, | armados todos mui bem.
Quando viu o soldám esto, | teve-se por de mal sém,
e chamou porend’ o mouro: | “– Mao, falso, mentiral!,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
di: e porque me feziste | com mià host’ aqui vĩir,
dizendo que esta vila | nom se podia bastir
d’ homes d’ armas, de maneira | que me podesse guarir,
e eu vejo-a bastida | como nom vi outra tal?”
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
O mouro, com mui gram medo, | lhe respôs esta razom:
“– Senhor, quanto vos eu dixe | verdad’ éste, e al nom;
mas tod’ estes cavaleiros, | vedes que dos ceos som,
ca chus brancos som e craros | que é neve nem cristal”.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
Entom o soldám lhe disse: | “– E que buscarom acá?”
Diss’ o mouro: “– Per mandado | da Virgem, madre d’ Içá,
verom, que ũ’ eigreja | dentro ena vila há,
que está preto dos muros, | da parte do aral”.
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
O soldám diss’ ao mouro: | “– Eno Alcorám achei
que Santa Maria virgem | foi sempr’; e, pois esto sei,
guerra, per nulha maneira, | com ela nom filharei,
e daqui me torno logo, | e fas tangê-lo tabal”.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E, quand’ aquest’ houve dito, | foi-se logo manamám;
e desta guisa sa vila | guardou a do bom talám;
mas ante que s’ ém partisse, | deu i grand’ alg’ o soldám
por amor da Virgem santa, | reinha celestial.
86
Nium poder deste mundo | de gente nada nom val
contra o poder da Virgem, | ca x’ é tod’ espirital.
82
R14
* * *
352
Cantigas de Santa Maria 166
«Como podem per sas culpas os homes seer contreitos»
(E 166, T 166)
Esta é como um home foi tolheito do corpo e dos nembros por enfermidade que houvera, e
fez-se levar a Santa Maria de Salas e um dia sábado foi logo são.
R0
2
I
4
6
Como podem per sas culpas | os homes seer contreitos,
assi podem pela Virgem | depois seer sãos feitos.
Ond’ avo a um home, | por pecados que fezera,
que foi tolheito dos nembros | dũa door que houvera,
e durou assi cinc’ anos | que mover-se nom podera:
assi havia os nembros | todos do corpo maltreitos.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Com esta enfermidade | atám grande que havia
prometeu que, se guarisse, | a Salas logo iria,
e ũa livra de cera | cad’ ano lh’ ofereria;
e atantoste foi são, | que nom houv’ i outros preitos.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E foi-se logo a Salas, | que sol nom tardou niente,
e levou sigo a livra | da cera de bõa mente;
e ia mui ledo, como | quem se sem nium mal sente,
pero tam gram temp’ houvera | os pés d’ andar desafeitos.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
24
Daquest’ a Santa Maria
porque livra os doentes
e, demais, está rogando
e porém devemos todos
26
Como podem per sas culpas | os homes seer contreitos,
assi podem pela Virgem | depois seer sãos feitos.
22
R4
|
|
|
|
derom graças e loores,
de maes e de doores,
sempre por nós pecadores;
sempre seer seus sojeitos.
* * *
353
Cantigas de Santa Maria 167
«Quenquer que na Virgem fia e a roga de femença»
(E 167, T 167)
lho.
Esta é como ũa moura de Borja levou seu filho morto a Santa Maria de Salas, e ressucitouR0
2
I
4
6
Quenquer que na Virgem fia | e a roga de femença,
valer-lh’-á, pero que seja | doutra lee em creença.
Desta razom fez miragre | Santa Maria, fremoso,
de Salas, por ũa moura | de Borja, e piadoso,
ca um filho que havia, | que criava mui viçoso,
lhe morrera mui coitado | dũa mui forte doença.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ela, com coita do filho, | que fezesse nom sabia;
e viu como as crischãas | iam a Santa Maria
de Salas, e dos miragres | oiu que ela fazia;
e de fiar-se na Virgem | filhou mui grand’ atrevença.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E comendou-lh’ o meninho | e guisou sa oferenda.
Mai-las mouras sobr’ aquesto | lhe davam mui gram contenda;
mas ela lhes diss’: “– Amigas, | se Deus me de mal defenda,
a mià esperança creo | que vossa perfia vença;
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
ca eu levarei meu filho | a Salas desta vegada
com sa omagem de cera, | que já lhe tenho comprada,
e velarei na eigreja | da mui bem-aventurada
Santa Maria, e tenho | que de mià coita se sença”.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E moveu e foi-se logo, | que nom quis tardar niente,
e levou seu filho morto, | maravilhando-s’ a gente;
e, pois que chegou a Salas, | diss’ à Virgem: “– Se nom mente
ta lee, dá-me meu filho, | e farei tig’ avença”.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
ũa noite tod’ enteira | velou assi a mesquinha;
mas, que fez Santa Maria, | a piadosa reinha?
Ressucitou-lhe seu filho, | e esto foi muit’ aginha;
ca a sa mui gram vertude | passa per toda sabença.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
R7
44
Quand’ aquesto viu a moura, | houv’ ém maravilha fera,
ca já três dias havia | que o filho mort’ houvera;
e tornou logo crischãa, | pois viu que lho vivo dera
Santa Maria, e sempre | a houv’ em gram reverença.
Quenquer que na Virgem fia | e a roga de femença,
valer-lh’-á, pero que seja | doutra lee em creença.
* * *
354
Cantigas de Santa Maria 168
«Em todo logar há poder»
(E 168, T 168)
Esta é dum miragre que fez Santa Maria de Salas por ũa molher de Lérida que lhe morrerom seus filhos, e o postremeiro ergeu-o em alt’ i contra Salas, e ressucitou-lho Santa Maria, que
havia três dias que era morto.
R0
2
I
4
6
Em todo logar há poder
a Virgem a quenquer valer.
Seu filho, Deus e hom’ e rei,
poder lhe deu, qual vos direi,
de fazer sempre bem; e sei
que nom lhe fal end’ o querer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
De saber tam sabedor é
que bem, du com seu filho sé,
dali mostra, per bõa fé,
que mui longe vai seu saber.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E dest’ em Lérida mostrou
um miragre, que me contou
um crérigo, que o achou
escrito e mi_o foi trager.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E o miragre foi assi:
ũa molher morava i
que seus filhos, com’ aprendi,
em pouco tempo foi perder.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Do postremeiro que morreu,
tam gram coita dele prendeu
que a poucas ensandeceu;
e filhou-s’ assi a dizer:
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
“– Ai madre de Nostro Senhor,
pero eu sõo pecador,
dá-m’ este meu filho mor
vivo, se te jaz em prazer”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
E dous dias o tev’ entom
chorando mui de coraçom,
rogando com gram devoçom,
355
42
atendendo seu benfazer.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
E, pois viu que nom resurgiu,
em um eirado o sobiu
e contra Salas comediu
que o iria alt’ erger.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E tantoste assi o fez.
E a reinha de gram prez
ressucitou-lho dessa vez
e fez-lho nos braços viver.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
E log’ a molher, sem tardar,
foi-o aas gentes mostrar;
e começarom a loar
a Virgem e a beizer.
62
Em todo logar há poder
a Virgem a quenquer valer.
58
R10
* * *
356
Cantigas de Santa Maria 169
«A que por nos salvar»
(E 169, T 169)
Esta é como Santa Maria guardou ũa sa eigreja que é ena Arreixaca de Murça, que os
mouros quiseram destroir e nom poderom.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
56
A que por nos salvar
fezo Deus madr’ e filha,
se se de nós honrar
quer, nom é maravilha.
E daquest’ um miragre | direi grande, que vi
des que mi Deus deu Murça, | e oí outrossi
dizer a muitos mouros | que moravam ant’ i
e tĩíam a terra, | por nossa pecadilha,
[Refrão = vv. 1-4]
dũa eigrej’ antiga, | de que sempr’ acordar
s’ iam, que ali fora | da reinha sem par,
dentro na Arreixaca, | e iam i orar
genoeses, pisãos | e outros de Cezilha,
[Refrão = vv. 1-4]
e davam sas ofertas, | e, se de coraçom
aa Virgem rogavam, | logo sa oraçom
deles era oída, | e sempre d’ oqueijom
e de mal os guardava; | ca o que ela filha
[Refrão = vv. 1-4]
por guardar, é guardado. | E porende poder
nom houverom os mouros, | per rem, de mal fazer
em aquel logar santo, | nem de o ém tolher,
macar que xo tĩíam | enserrad’ em sa pilha.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pero muitas vezes | me rogavam porém
que o fazer mandasse, | mostrando-mi que bem
era que o fezesse, | depois, per nulha rem,
macar lho outorgarom, | nom valeu ũa bilha.
[Refrão = vv. 1-4]
E depois a gram tempo | avo outra vez
(quand’ el-rei d’ Aragom, | Dom James, de gram prez,
a eigreja da see | da gram mezquita fez,
quando s’ alçarom mouros | des Murç’ atá Sevilha)
[Refrão = vv. 1-4]
que entom a aljama | lhe verom pedir
que aquela eigreja | fezessem destroir
que n’ Arreixaca era; | e, macar consentir
o foi el, nom poderom | nem tanger em cravilha.
357
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12
98
100
[Refrão = vv. 1-4]
Depois aquest’ avo | que fui a Murça eu,
e o mais d’ Arreixaca | a aljama mi deu
que tolhess’ a eigreja | dontr’ eles; mas mui greu
me foi, ca era toda | de novo pintadilha.
[Refrão = vv. 1-4]
Porém muit’ a envidos | entom lho outorguei,
e toda a aljama | foi ao mouro rei
que o fazer mandasse; | mas diss’ el: “– Nom farei,
ca os que Mariame | desama, mal os trilha”.
[Refrão = vv. 1-4]
Depois, quand’ Aboiuçaf, | o senhor de Çalé,
passou com mui gram gente, | aquesto verdad’ é
que cuidarom os mouros, | por eixalçar sa fé,
gãar Murça per arte. | Mais sa fals’ armadilha
[Refrão = vv. 1-4]
desfez a Virgem santa, | que os ende sacou,
que ena Arreixaca | poucos deles leixou;
e a sua eigreja | assi deles livrou,
ca os que mal quer ela, | bem assi os eixilha.
[Refrão = vv. 1-4]
E porend’ a eigreja |
que nunca Mafomete
ca a conquereu ela, |
Espanha e Marrocos,
sua quita é já,
| poder i haverá;
e, demais, conquerrá
| e Ceta e Arcilha.
A que por nos salvar
fezo Deus madr’ e filha,
se se de nós honrar
quer, nom é maravilha.
* * *
358
Cantigas de Santa Maria 170
«Loar devemos a que sempre faz»
(E 170, T 170)
Esta é de loor.
R0
2
I
6
Esta é madre de Nostro Senhor,
Santa Maria, que sempr’ é melhor;
porém lhe devemos a dar loor
e no-na podemos loar assaz.
8
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
4
R1
II
12
Ca, em qual guisa podemos loar
muit’ a aquela que nos foi mostrar
a Deus em carne e nos fez salvar
e nos meteu dos santos em sa az?
14
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
10
R2
III
18
Par Deus, loada mui de coraçom
deve seer dos que no mundo som;
ca ũus faz salvar, outros perdom
gaanham, e o mundo met’ em paz.
20
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
16
R3
IV
24
Loada deve ser mais doutra rem
a que tolhe mal sempr’ e trage bem
e por nós roga, e que nos mantém
e nos defende do demo malvaz.
26
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
22
R4
V
30
De mi vos digo que a loarei
mentre for vivo, e sempre direi
bem dos seus bes, ca de certo sei
que, pois morrer, que verei a sa faz.
32
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
28
R5
Loar devemos a que sempre faz
bem e em que toda mesura jaz.
* * *
359
Cantigas de Santa Maria 171
«Santa Maria grandes faz»
(E 171, T 171)
Esta é como ũa molher de Pedra-Salze ia com seu marido a Salas, e perderom um filho pequeno em um rio, e forom a Salas e acharo-no vivo ant’ o altar.
R0
2
4
I
6
8
10
12
Santa Maria grandes faz
miragres, e saborosos,
e guarda aos que lhe praz
de seerem perdidosos.
E desto vos quero contar
um gram miragre que oí
que fez a reinha sem par
em Salas (e faz muitos i
pera as gentes aduzer
que sejam muit’ aguçosos
de bem em seu filho creer,
e mansos e homildosos).
R1 13-16 [Refrão = vv. 1-4]
II
18
20
22
24
Um home nom podi’ haver
filho, per quant’ eu aprendi,
de sa molher, e prometer
foi d’ ir a Salas; e, des i,
quis Santa Maria guisar
(que faz miragres fremosos)
que lhes foi log’ um filho dar,
ond’ ambos forom goiosos.
R2 25-28 [Refrão = vv. 1-4]
III
30
32
34
36
Dous ano-lo forom criar;
e, pois moverom bem dali,
seu caminho forom filhar
pera Salas; e, ind’ assi,
virom ũ[u] rio correr,
e eles forom coitosos
de passar; mas forom perder
o filh’ os malavegosos.
R3 37-40 [Refrão = vv. 1-4]
IV
42
44
46
48
Ca a madre, que o trager
em um rocim i’ ante si,
com el no rio foi caer,
como [o] contarom a mi,
e houve a desamparar
o filho; e os astrosos
filharom-se muit’ a chorar
ambos come perdidosos.
R4 49-52 [Refrão = vv. 1-4]
360
V
54
56
58
60
Muito o per-forom buscar
pelas ribas, com’ entendi,
mas no-no poderom achar,
e tornar-se quisera d’ i
o padre; mas ela dizer
lhe foi: “– Pois nom preguiçosos
[nós] fomos, vaamos seer
a Salas desto queixosos”.
R5 61-64 [Refrão = vv. 1-4]
VI
66
68
70
72
[E] no caminho se meter
forom, dizend’ ela: “– A ti
vou, Virgem, que m’ i acorrer
queras do filho que perdi”.
E, pois chegou ao logar,
com sospiros amargosos,
viu seu filh’ [i], ant’ o altar
vivo. E muit’ homildosos
R6 73-76 [Refrão = vv. 1-4]
VII
78
80
82
84
R7
86
88
loores deu, se Deus m’ ampar,
aa Virgem: “– Ca recebi”
–diss’ ela– “o que demandar
te fui, sempr’, e nunca fali;
e porém querrei retraer,
ontr’ os teus mui groriosos
miragres, e fazer saber
este, dos maravilhosos”.
Santa Maria grandes faz
miragres, e saborosos,
e guarda aos que lhe praz
de seerem perdidosos.
* * *
361
Cantigas de Santa Maria 172
«A madre de Jesu-Cristo, que ceos, terras e mares»
(E 172, T 172)
Esta é como Santa Maria de Salas livrou um mercador do perígoo do mar.
R0
2
I
4
6
A madre de Jesu-Cristo, | que ceos, terras e mares
fez, poder há d’ as tormentas | tolher em todos logares.
De tal razom um miragre | a Virgem Santa Maria
fez por um mercador, grande, | que a Acre ir queria
com sa nave carregada | de mui bõa merchandia,
mas ante que i chegasse | recebeu muitos pesares.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca houve tam gram tormenta | que o masto foi britado,
e a vea toda rota; | e el se viu tam coitado
que prometeu que, se vivo | ao porto arribado
fosse, que, romeu em Salas, | vel a santos seus altares
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
ũa noite oferenda | déss’ i bõa e fremosa.
E, pois prometud’ est’ houve, | log’ a Virgem groriosa
valeu-lhe com sa mercee | e nom lhe foi vagarosa,
ca fez quedar a tormenta | logo, sem outros vagares.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
A tormenta aquedada | foi, e seu mast’ adubarom,
e log’ a Santa Maria | de Salas s’ acomendarom;
e houverom tam bom vento | que na manhãa chegarom
a Acr’, e perderom medo | e todos maos pensares
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que ant’ haviam de morte. | Des i, quantas merchandias
tragiam, todas venderom | mui bem e em poucos dias.
Pois, a sa terra tornarom, | e fezerom romarias
al Poi, e depois a Salas, | com loores e cantares.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
36
ũa cruz de cristal toda | deu log’ i em oferenda
o mercador, que a Virgem | guiara bem, sem contenda,
com seu haver ao porto; | e meteu-s’ em sa comenda.
E desto cantar fezemos | que cantassem os jograres.
38
A madre de Jesu-Cristo | que ceos, terras e mares
fez, poder há d’ as tormentas | tolher em todos logares.
VI
34
R6
* * *
362
Cantigas de Santa Maria 173
«Tantas em Santa Maria som mercees e bondades»
(E 173, T 173)
Esta é como Santa Maria de Salas guareceu um home que havia a door que chamam mal da
pedra.
R0
2
I
4
6
Tantas em Santa Maria | som mercees e bondades
que sãar pod’ os coitados | de todas enfermidades.
Dest’ avo um miragre, | per com’ eu oí dizer
a muitos homes bõos | e que eram de creer,
que mostrou Santa Maria | por um seu serv’ acorrer;
onde gram torto faredes | se me bem nom ascuitades.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Est’ home d’ Aragom era, | e havia tam gram mal
de pedra que em gram coita | era com ela, mortal,
que comer sol nom podia, | nem dormir nem fazer al
senom chamar sempr’ a Virgem, | a senhor das piadades.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
A muitos fisicos fora, | mas nom lhe prestaram rem;
porend’ em Santa Maria | sa voontad’ e seu sém
posera. E log’ a Salas | se foi rogar a que tem
o mund’ em seu mandamento, | que nom catass’ as maldades
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E que esto nom dissesse | a ôutri, mas sa carreira
se foss’. E el espertou-se | entom e achou enteira
a pedra sigo na cama, | tam grande que verdadeirament’ era come castanha: | esto de certo sabiades.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Entom el a Virgem muito | loou. E nós a loemos
por este tam gram miragre, | e gram dereito faremos,
ca sempr’ ela nos acorre | enas coitas que havemos,
ca a sa gram lealdade | passa todas lealdades.
38
Tantas em Santa Maria | som mercees e bondades
que sãar pod’ os coitados | de todas enfermidades.
34
R6
* * *
363
Cantigas de Santa Maria 174
«Como aa Virgem pesa de quem erra a ciente»
(E 174, T 174)
Esta é como um cavaleiro servia Santa Maria, e avo-lhe que jogou os dados, e, porque
perdeu, dostou Santa Maria; e repentiu-se em seu coraçom depois, e, do pesar que ende houve,
talhou a língua; e sãou-lha Santa Maria, e falou depois mui bem.
R0
2
I
4
6
Como aa Virgem pesa | de quem erra a ciente,
outrossi ar praz-lhe muito | de quem s’ ende bem repente.
Onde a um cavaleiro | avo que muit’ amava
Santa Maria e sempre | a ela s’ acomendava;
mais foi assi que um dia | com outro dados jogava,
e, porque perdeu a eles, | descreeu mui feramente.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Comoquer que el dissesse | contra Deus muita folia,
mais de mal diss’ essa hora | da Virgem Santa Maria.
E, poi-l’ houve dito, logo | saiu da tafuraria
e filhou-s’ a chorar muito, | como home que se sente
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
de grand’ erro que há feito. | E, mui de rijo chorando,
des i sacou seu cuitelo | e estev’ assi talhando
sa língua, com que a Virgem | severa mal dostando.
Mas tam gram door end’ houve | que se saiu dontr’ a gente
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
e foi pera sa pousada | com gram door mui coitado;
e jouv’ assi vel três dias | mui maltreit’ e lazerado,
rogando Santa Maria | na mente que seu pecado
que dissera lhe parcisse, | ca el era seu sergente.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Ele assi a rogando, | adormeceu muit’ aginha,
e viu entom em dormindo | a Virgem santa, reinha,
que lh’ em aquela gram coita | pôs logo sa meezinha,
que lhe pareceu mais crara | que o sol em ouriente.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E disse-lh’ entom: “– Mesquinho, | macar mal me dostaste,
muit’ hei eu de ti gram doo | de que ta língua talhaste;
mas sãar-t’-ei ora dela, | porque em mi confiaste,
ca dereito de si grande | dá aquel que se desmente;
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
e, porque te repentiste, | sãar-t’-ei ora de chão”.
E entom Santa Maria | pôs-lhe na boca a mão
364
42
e sãou-o bem da língua, | e el achou-se tam são
que nunca pois lhe dolverom | boca nem língua nem dente.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E el loou muit’ a Virgem. | E nós demos-lhe loores,
que nos acorre nas coitas | macar somos pecadores,
e, nós pesar lhe fazendo, | faz-nos ela sempr’ amores
e dá-nos bem de seu filho, | Deus Padre omnipotente.
50
Como aa Virgem pesa | de quem erra a ciente,
outrossi ar praz-lhe muito | de quem s’ ende bem repente.
46
R8
* * *
365
Cantigas de Santa Maria 175
«Por dereito tem a Virgem, a senhor de lealdade»
(E 175, T 175)
Esta é dum home bõo que ia com seu filho em romaria a Santiago e enforcarom-lh’ a torto o
filho em Tolosa, e Santa Maria deu-lho vivo; e queimarom um herege que lho fezera fazer.
R0
2
I
4
6
Por dereito tem a Virgem, | a senhor de lealdade,
que sobr’ el se torn’ o dano | de quem jura falsidade.
Desto direi um miragre | de gram maravilh’ estranha
que mostrou Santa Maria | por um romeu d’ Alemanha
que a Santiago ia | (que éste padrom d’ Espanha),
e per Rocamador vo | a Tolosa, a cidade.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
El sobre toda-las cousas | amava Santa Maria,
e porém muit’ ameúde | lhe rogava e dizia
que o d’ oqueijom guardasse | e seu filho que tragia,
pois que madr’ era de Cristo, | que é Deus em Trĩidade.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, pois entrou em Tolosa, | foi logo filhar pousada
em casa dum grand’ herege, | nom sabend’ end’ ele nada;
mas, quando o viu a gente, | foi ende maravilhada,
e disserom ao filho: | “– Dest’ albergue vos quitade”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O herege, que muit’ era
e que muitas falsidades
porque aquel home bõo
filhou um vaso de prata
22
24
|
|
|
|
cho de mal e d’ engano
fazia sempre cad’ ano,
nom se fosse del sem dano,
alá em sa poridade
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e mete’-o eno saco | do filho; e, pois foi ido,
foi tantoste depos eles, | metendo grand’ apelido
que lhe levavam seu vaso | de prata nov’ e bronido;
e, poi-los houv’ acalçados, | disse-lhes: “– Estad’, estade!”
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Os romeus, quand’ esto virom, | forom ém maravilhados,
ca virom vĩir o baile | com seus homes armados
que os prendeu, e tantoste | forom bem escodrunhados,
atá que o vas’ acharom | no sac’: esto foi verdade.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Tantoste que o acharom, | o herege que seu era
jurou por aquele vaso | e que lho furtad’ houvera
o moço que o tragia; | e a jostiça tam fera
40
366
42
foi de sanha, que tantoste | diss’: “– Este moç’ enforcade”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Os seus homes cruees | muit’ aginha o fezerom,
e da coita de seu padre | sol mercee nom houverom;
e, depois que o na forca | ante seus olhos poserom,
el acomendou-lh’ a alma | aa senhor de bondade.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E el foi-s’ a Santiago, | u havia prometudo;
e depois aa tornada | nom lhe foi escaeçudo
d’ ir u seu filho leixara | morto, que fora traúdo,
e foi-o muito catando, | chorando com piadade.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, u el assi chorava, | diss’ o filho: “– Home bõo,
padre, e nom vos matedes, | ca de certo vivo sõo;
e guarda-m’ a Virgem santa, | que com Deus sé eno trõo,
e me sofreu em sas mãos | pola sa gram caridade”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Quando viu aquel coitado | que seu filh’ assi falava,
foi correndo a Tolosa | e ao baile chamava,
e ar chamou muita gente, | que alá sigo levava
que vissem seu filho vivo, | que fora por crueldade
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
posto na forca e morto; | mas nom quis a Virgem santa,
que aos maos abaixa | e aos bõos avanta,
e o sofreu em sas mãos, | que nom colgou da garganta.
E disse: “– Amigos, ide | toste e o descolgade”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Forom-se log’, e com eles | foi seu padre o cativo
com coita d’ haver seu filho; | e, des que lho mostrou vivo,
decendero-no da forca, | e um chorar tam esquivo
faziam todos com ele | que mester houv’ i: “– Calade!”
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E, pois se calad’ houverom, | contou-lhes todo seu feito
com’ estedera na forca | três meses todos a eito,
u a Virgem o guardara, | e a verdade do preito
lhes disse, rogando muito: | “– O herege mi chamade,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
que ascondeu no meu saco | o vaso, per que prendesse
eu morte crua e maa; | porém nom quis que morresse
a Virgem Santa Maria, | mas guisou-mi que vivesse;
e porende as loores | deste feit’ a ela dade”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E logo toda a gente | enviarom a Tolosa
polo hereg’; e, pois vo | com sa cara vergonhosa,
94
367
96
souberom del a verdade, | e morte perigoosa
lhe derom dentr’ em um fogo, | dizendo-lh’: “– Aqui folgade!”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Esta jostiça tam bõa | a madre do Josticeiro
fez por aquel home bõo, | mui leal e verdadeiro,
que lhe deu seu filho vivo, | e o hereg’ usureiro
ar fez que prendesse morte | qual buscou por sa maldade.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
108
E por aquest’, ai amigos, | demos-lhe grandes loores
que sempr’ acorr’ os coitados, | e parc’ aos pecadores,
e a todos faz mercees, | a grandes e a mores;
e porend’ os seus miragres | tam nobres muito loade.
110
Por dereito tem a Virgem, | a senhor de lealdade,
que sobr’ el se torn’ o dano | de quem jura falsidade.
R18
* * *
368
Cantigas de Santa Maria 176
«Soltar pode muit’ aginha os presos e os liados»
(E 176, T 176)
Esta é do cativo de Maiorgas que sacou Santa Maria quand’ era de mouros.
R0
2
I
4
6
Soltar pode muit’ aginha | os presos e os liados
a que faz ao seu filho | que nos solte dos pecados.
E dest’ um mui gram miragre | direi que oí dizer
que avo em Maiorgas, | quando mouros em poder
a tinham, por um crischão | que foi ontr’ eles caer
em cativo e havia | os pees enferrolhados;
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
demais, tĩí’ a garganta | no cepo, com’ aprendi.
E, jazend’ em tam gram coita, | prometeu log’ [i] assi:
que, se o Santa Maria | de Salas tirasse di,
que seria seu romeiro, | e dar-lh’-ia mui grãados
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
dões, e a sa omagem | faria, com’ aprix eu,
de cera que i levasse, | e seria sempre seu
servo. E, pois esto dito | houve, tal sono lhe deu
Santa Maria que logo | dormiu entr’ outros atados.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, u jazia dormindo, | a viu; e disso-lh’ atal:
“– Leva-te, ca já és solto, | e daqui logo te sal”.
E abriu log’ as cadas, | e assi lhe fez o al,
e o cep’ em que jazia | e todo-los cadados.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E disse-lhe: “– Vai, nom temas, | ca per rem nom te verá
nulh’ home que mal te faça, | e leva-t’ e sal acá;
ca ir-te podes em salvo | atá que chegues alá
u compras ta romaria | e sejam-te perdõados
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
os pecados que hás feitos”. | E el logo s’ espertou
e, do cep’ e das cadas, | de todo se livr’ achou;
e em mui pouco de tempo | em salv’ a Salas chegou
e levou i a omagem | de cer’. E maravilhados
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
forom quanto-lo oírom, | e derom porém loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
que nos de tantas maneiras | faz mercee e amor
e nom cata nossos erros, | nem como somos culpados.
44
Soltar pode muit’ aginha | os presos e os liados
a que faz ao seu filho | que nos solte dos pecados.
40
R7
* * *
369
Cantigas de Santa Maria 177
«Nom vos é gram maravilha de lum’ ao cego dar»
(E 177, T 177)
Esta é como Santa Maria de Salas sãou a um home que sacaram os olhos porque s’ acomendou a ela, e viu bem.
R0
2
I
4
6
Nom vos é gram maravilha | de lum’ ao cego dar
a que com Deus, que é lume, | sé no ceo par a par.
Ca, pois ela enos ceos | sé com Deus, e sa madr’ é,
da graça que del recebe | mui guisad’ é que nos dé;
porém dar lum’ ao cego | rafece lh’ é, a-la-fé;
e desto um gram miragre | vos quer’ eu ora contar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Aragom foi um home | bõo e que grand’ amor
aa Virgem sempr’ havia, | outrossi a seu senhor
servia mui lealmente; | mas um falso mezcrador
atant’ andou revolvendo | que o foi com el mezcrar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Tanto lhe disse mal dele | e tam forte o mezcrou
que o senhor, com gram sanha, | verdade nom preguntou,
mai-los olhos da cabeça | ambos tirar-lhos mandou,
cuidando que del por esto | nom se podia vengar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, pois lh’ os olhos tirarom, | aquel bom home, que fez?
Pediu-os; e, pois lhos derom, | aa reinha de prez
s’ acomendou, e mandou-se | logo levar dessa vez
a cas dum celorgião, | e começou-lh’ a rogar
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que lhe seus olhos tornasse, | ca bem fiava por Deus
e pola Virgem, sa madre, | que sempr’ acorr’ aos seus.
Diss’ ele: “– Ca eu bem cuido | ai[n]da ver destes meus,
se esto que me sacarom | podedes dentro tornar”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Entom o celorgião | tornou-lhos, e log’ entom
el se volveu contra Salas, | rogando de coraçom
a Virgem Santa Maria | que o sãasse e nom
catass’ aos seus pecados. | E ela o fez sãar
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
logo, que nom parecia | du lhos tiraram sinal,
ante cuidavam bem todos | que nom houvera ém mal.
Porém loarom a Virgem, | que aos seus nunca fal;
e el omagem de cera | pôs log’ ant’ o seu altar.
40
42
R7
44
Nom vos é gram maravilha | de lum’ ao cego dar
a que com Deus, que é lume, | sé no ceo par a par.
* * *
370
Cantigas de Santa Maria 178
«A que faz o home morto resurgir, sem nulha falha»
(E 178, T 178)
Esta é dum meninho de Alcaraz a que seu padre dera ũa muleta, e morreu-lhe; e encomendou-a a Santa Maria de Salas, e levantou-se sãa.
R0
2
I
4
6
A que faz o home morto | resurgir, sem nulha falha
bem pode fazer que viva | outra morta animalha.
Desto mostrou um miragre | a madre do Salvador,
mui grande, por um meninho | que filho dum lavrador
era; e, poi-lo oirdes, | haveredes ém sabor,
e loaredes a Virgem, | que sempre por nós trabalha.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ao lavrador nacera | muleta, com’ aprix eu,
em sa casa, fremosinha, | que log’ a seu filho deu,
e, faagando-o muito, | dizendo: “– Este dom teu
seja, daquesta muleta, | e dar-te-lh’-ei horj’ e palha”.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
O moço creeu aquesto | e prougue-lhe daquel dom,
e pensou bem da muleta | quanto pude des entom;
mas ũa noite morreu-lhe, | e por aquesta razom
levou o padre seu filho, | por nom saber nemigalha,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
ao ero u lavrava. | Ma-la madre, que ficou
na casa, aquela mua | morta logo a filhou
e chamou um seu colaço | e esfolá-la mandou,
cuidando haver do coiro | cinco soldos e mealha.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Eles em esto estando, | o lavrador foi chegar
do ero, e o meninho, | viu sa mua esfolar
e diss’ a mui grandes vozes: | “– Leixad’ a mua estar,
ca eu a dei já a Salas, | e bem tenho que me valha”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
A muleta já havia | ambo-los pees de trás
esfolados, e a madre | diss’ a seu filho: “– Bem hás
sém de meninho, que cousa | morta aa Virgem dás,
ca tant’ é aquesto como | nom lhe dares nemigalha”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Por quanto ela dizia | o meninho nom deu rem,
mas decingeu log’ a cinta | e a mua mediu bem,
e fez estadal per ela, | que ardess’ ant’ a que tem
voz ante Deus dos culpados | e co-no demo baralha.
40
42
371
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
O estadal enviado, | e a muleta viveu.
Quand’ esto viu o meninho, | gram prazer ém recebeu,
e deu-lh’ entom que comesse, | e a muleta comeu,
loando todos a Virgem, | a que Deus deu avantalha
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
sobre todos outros santos. | Porém roguemos-lh’ atal:
que nos guard’ em este mundo | d’ ocajom e doutro mal,
e que nos dé eno outro | a vida esperital,
e que brite o diabo, | que sempr’ é nossa contralha.
56
A que faz o home morto | resorgir, sem nulha falha
bem pode fazer que viva | outra morta animalha.
52
R9
* * *
372
Cantigas de Santa Maria 179
«Bem sab’ a que pod’ e val»
(E 179, T 179)
Esta é como ũa molher de Molina que tĩinha apresos os talões aas res e era contreita de
todo o corpo, fez-se levar a Santa Maria de Salas e foi logo sãa.
R0
2
I
4
6
Bem sab’ a que pod’ e val
física celestial.
Ca de seu filh’ há sabuda
física muit’ asconduda,
com que nos sempre ajuda
e nos tolhe todo mal.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta senhor de mesura
física sobre natura
mostrou, e quis haver cura
dũa molher, direi qual:
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que era toda tolheita
e das pernas encolheita;
mas ela a fez dereita,
ca sa física nom fal.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Esta tĩía premudos
os talões e metudos
nas res e aprendudos
bem como pedra com cal.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Com este mal que sofria,
a Salas em romaria,
de Molina, se fazia
levar (ca di natural
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
era). E, pois na eigreja
foi da que beita seja,
gram maravilha sobeja
mostrou a senhor leal:
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
ca, mentr’ a missa cantavam
em que a Virgem loavam,
os nérvios lh’ assi sõavam
como carr’ em pedregal,
40
42
373
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
assi que se lh’ estendendo
forom e desencolhendo,
e levantou-se correndo
e saiu-s’ ao portal,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
loando a groriosa,
que é senhor poderosa,
que lhe foi tam piadosa
com saber espirital.
56
Bem sab’ a que pod’ e val
física celestial.
52
R9
* * *
374
Cantigas de Santa Maria 180
«Velha e mininha»
(E 180, T 180)
Esta é de loor de Santa
R0
2
4
I
6
8
10
R1
12
14
II
16
18
20
R2
22
24
III
26
28
30
R3
32
34
IV
36
38
40
R4
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Desta guisa deve Santa Maria
seer loada, ca Deus lhe quis dar
todas estas cousas por melhoria,
porque lhe nunca já achassem par;
e por aquesto assi a loar
devíamos sempre, ca por nós vela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Ca velha é, segund’ a profecia
que Salamom foi dela profetar:
que ante do mundo foi todavia
criada, e que nunc’ há de minguar
o seu gram bem; e porend’ encarnar
quis Deus em ela, que todo caudela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
E tod’ home «meninha» a devia
em todo tempo per razom chamar,
pois em bondade crece cada dia
e em beldade, de que se pagar
foi tanto Deus que por ela salvar
deceu no mundo da sa alta sela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Com razom nossa madr’ é, que nos cria
e sempre punha de mal nos guardar,
e criou Deus, que a criad’ havia,
que foi seu filh’ e houve de criar,
que por nós foi o iferno britar
e o dem’ e toda sa alcavela.
44
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
46
De como é donzela, Isaía
em sas profecias o foi mostrar,
42
V
375
48
50
R5
52
54
VI
56
58
60
R6
62
64
VII
66
68
70
R7
72
74
VIII
76
78
80
R8
82
84
IX
86
88
90
R9
92
94
F
96
u disse que virgem conceberia
e parria hom’ e Deus, sem dultar,
o que nos fez paraíso cobrar,
que perdemos per Eva, a mesela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Como foi pobre, que-no osmaria,
a que seu filho Deus ia deitar
no preseve, ca haver nom podia
um pano em que o envurulhar
senom sa touca, ca eno logar
sol nom acharom i ũ’ almocela?
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Por reinha tod’ home a terria
que a visse a seu filho levar
daqueste mund’, e sigo a sobia
ao ceo, u sé com El a par
e guia-nos com’ estrela do mar;
porém dizemos «Ave, maris stella».
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Outra dona seer nom poderia
atal com’ esta, ca Deus foi juntar
em ela prez e sém e cortesia
e santidad’, u mercee achar
pode tod’ home que a demandar;
e com tod’ esto, nunca nos revela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Ancela se chamou u lhe dizia
o ángeo Gabriel que filhar
Deus em ela carne d’ home verria,
e como serva se foi homildar
u lhe disse: “– Farei quant’ El mandar”;
e log’ ali dela fez Deus sa cela.
Velha e mininha,
madr’ e donzela,
pobre e reinha,
don’ e ancela.
Porém lhe rogo que quer’ amparar
a mi de mal, e Leom e Castela.
376
Cantigas de Santa Maria 181
«Pero que seja a gente doutra lei e descreúda»
(E 181, T 181)
Esta é como Abo-Iuçaf foi desbaratado em Marrocos pela sina de Santa Maria.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Pero que seja a gente | doutra lei e descreúda,
os que a Virgem mais amam, | a esses ela ajuda.
Fremoso miragre desto | fez a Virgem groriosa
na cidade de Marrocos, | que é mui grand’ e fremosa,
a um rei que era ende | senhor, que perig[o]osa
guerra com outro havia, | per que gram mester ajuda
[Refrão = vv. 1-2]
havia de quem lha désse; | ca assi com’ el cercado
jazia dentr’ em Marrocos, | ca o outro já passado
era per um gran[de] rio | que Morabe é chamado
com muitos de cavaleiros | e mui gram gente miúda,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
e corriam pelas portas | da vila, e quant’ achavam
que fosse fora dos muros, | todo per força filhavam.
E porend’ os de Marrocos | al-rei tal conselho davam:
que saísse da cidade | com bõa gent’ esleúda
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
d’ armas, e que mantenente | co-no outro rei lidasse
e logo fora da vila | a sina sacar mandasse
da Virgem Santa Maria, | e que, per rem, nom dultasse
que os logo nom vencesse, | poi-la houvesse tenduda;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
demais, que sair fezesse | dos crischãos o concelho
co-nas cruzes da eigreja. | E el creeu seu conselho;
e, poi-la sina sacarom | daquela que é espelho
dos ángeos e dos santos, | e dos mouros foi viúda
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que eram da outra parte, | atal espant’ ém colherom
que, pero gram poder era, | logo todos se vencerom,
e as tendas que trouxeram | e o al todo perderom,
e morreu i muita gente | dessa fea e barvuda.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E per Morabe passarom, | que ante passad’ houveram,
e, sem que perdud’ haviam | todo quant’ ali trouxeram,
atám gram medo da sina | e das cruzes i preseram
que, fogindo, nom havia | nium réda túda.
40
42
377
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E assi Santa Maria | ajudou a seus amigos,
pero que doutra lei eram, | a britar seus emigos,
que, macar que eram muitos, | no-nos preçarom dous figos;
e assi foi sa mercee | de todos mui conhoçuda.
50
Pero que seja a gente | doutra lei e descreúda,
os que a Virgem mais amam, | a esses ela ajuda.
46
R8
* * *
378
Cantigas de Santa Maria 182
«Deus!, que mui bem barata»
(E 182, T 182)
Como Santa Maria ressucitou um home que matarom os demões.
R0
2
I
4
6
Deus!, que mui bem barata
quem pola Virgem cata!
Dest’ um maravilhoso
miragre mui fremoso
vos direi, saboroso
e d’ oir sem ravata,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
que fez Santa Maria
dum home que fazia
muito mal cada dia,
andand’ em ũa mata.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ca britava caminhos,
dema[i]s pães e vinhos
roubava dos mesquinhos,
e o our’ e a prata
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e o al que achava,
que nada nom leixava.
Pero muito fiava
na que o mal desata,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
assi que sas vigias
guardava dos seus dias,
des i malfeitorias
nem sol dũa çapata
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
a nulh’ home filhasse.
Demais, que-no rogasse
pela Virgem, contasse
que feit’ era a data,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e dar o que tĩinha,
por amor da reinha.
Mais ũa mort’ aginha
sobetanha, que mata
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
muitos, o matou toste;
e de demões hoste
46
379
48
per cima dum recoste
mui mais ca Damiata
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
mais longe o levarom;
e mal o doitarom,
e atal o pararom
com’ ũa escarlata.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Mais sa madre coitada
houve muito rogada
a Virgem corõada,
que os demões ata,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que seu filho lhe désse
e viver lho fezesse
e o demo presesse,
que há rosto de gata.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Sa oraçom oída
foi da Virgem comprida,
e deu-lhe logo vida,
des i da muit’ ata
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
mort’ [o] guardou privado
d’ infern’; e seu mandado
da Virgem fez de grado,
que os maes remata.
80
Deus!, que mui bem barata
quem pola Virgem cata!
76
R13
* * *
380
Cantigas de Santa Maria 183
«Pesar há Santa Maria de quem, por desonra, faz»
(E 183, T 183)
Esta é dum miragre que mostrou Santa Maria em Faarom quand’ era de mouros.
R0
2
I
4
6
Pesar há Santa Maria | de quem, por desonra, faz,
dela, mal a sa omagem, | e caómia-lho assaz.
Desto direi um miragre | que fezo em Faarom
a Virgem Santa Maria | em tempo d’ Abém-Mafom,
que o reino do Algarve | tĩí’ aquela sazom
a guisa d’ hom’ esforçado, | quer em guerra, quer em paz.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em aquel castel’ havia | omagem, com’ apres’ hei,
da Virgem mui groriosa, | feita como vos direi:
de pedra, bem fegurada; | e, com’ eu de cert’ achei,
na riba do mar estava, | escontra ele de faz.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Bem do tempo dos crischãos | a sabiam i estar,
e porende os cativos | a iam sempr’ aorar,
e «Santa Mari’» a vila | de Faarom nomar
por aquesta razom | forom. Mas o póboo malvaz
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
dos mouros que i havia | houverom gram pesar ém,
e eno mar a deitarom | sanhudos, com gram desdém.
Mas gram miragre sobr’ esto | mostrou a Virgem (que tem
o mund’ em seu mandamento), | a que sobêrvia despraz.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ca fez que nium pescado | nunca poderom prender
enquant’ aquela omagem | no mar leixarom jazer.
Os mouros, pois virom esto, | foro-na dali erger
e posero-na no muro, | entr’ as amas, em az.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Des i, tam muito pescado | houverom des entom i
que nunca tant’ i houveram, | per com’ a mouros oí
dizer e aos crischãos, | que o contarom a mi;
porém loemos a Virgem, | em que tanto de bem jaz.
38
Pesar há Santa Maria | de quem, por desonra, faz,
dela, mal a sa omagem, | e caómia-lho assaz.
34
R6
* * *
381
Cantigas de Santa Maria 184
«A madre de Deus / tant’ há em si gram vertude»
(E 184, T 184)
Esta é como Santa Maria guardou um meninho que lh’ encomendou sa madre quando o tragia no ventre, e matarom a madre e saiu o moço pela ferida.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
A madre de Deus
tant’ há em si gram vertude
per que aos seus
acorre e dá saúde.
E de tal razom com’ esta | um miragre mui fremoso
vos direi que fez a Virgem, | madre do rei poderoso,
em terra de Santiago, | em um logar montanhoso,
u ũa molher morava | que era prenh’ ameúde
[Refrão = vv. 1-4]
de seu marido; mais ela, | polas s[u]as pecadilhas,
quantos lhes nunca naciam, | assi filhos come filhas,
todos lhe morriam logo; | mais das suas maravilhas
mostrou i Santa Maria, | que sobre-los seus recude.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela, com pavor daquesto, | o de que era prenhada
encomendou aa Virgem, | a madre de Deus honrada,
que ela que a guardasse | que nom foss’ acajõada,
dizendo: “– Dá-me meu filho, | que bem a viver m’ ajude”.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela aquesto fazendo, | o demo, cho d’ enveja,
aguisou que seu marido | houve com outros peleja,
e derom-lh’ ũa ferida | pelos peitos tam sobeja
que morreu, ca assi faze | quem nom há que-no escude.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela, que viu o marido | que [o] chagavam de morte,
foi-se-lhe deitar de suso; | e derom-lh’ entom tam forte
ferida pelo costado | que morreu: tal foi sa sorte.
Mai-lo filho pela chaga | saiu, que mester engrude
[Refrão = vv. 1-4]
havia pera sa chaga, | que na face lhe ficara,
que lh’ o cuitelo fezera | que a sa madre matara.
Mais quiso Santa Maria, | a que o encomendara
sa madre, que nom morresse | nem foss’ el em ataúde;
[Refrão = vv. 1-4]
382
VII
54
56
R7
58
60
ante quiso que vivesse | e crecess’ e se criasse,
e sempre reconhocesse | a Virgem e a loasse,
e o sinal parecesse | da chaga, per que provasse
este feito, [e] que sempre | hom’ em sa loor estude.
A madre de Deus
tant’ há em si gram vertude
per que aos seus
acorre e dá saúde.
* * *
383
Cantigas de Santa Maria 185
«Poder há Santa Maria grande d’ os seus acorrer»
(E 185, T 187)
Esta é como Santa Maria guardou o castelo de Chincoia dos mouros, que o nom poderom
tomar pola omagem de Santa Maria que poserom os de dentro nas amas.
R0
2
I
4
6
Poder há Santa Maria | grande d’ os seus acorrer,
em qual logar quer que sejam, | e os de mal defender.
E dest’ oí um miragre | que avo pouc’ há i
em Chincoia, um castelo, | per quant’ end’ eu aprendi,
que fezo Santa Maria; | e aos que o oí
ataes homees eram | a que devemos creer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aqueste castelo ést[e] | eno reino de Jeém,
e um alcaid’ i havia | que o guardava mui bem;
mais, de guardá-lo, a cima | lhe mengou muito o sém,
assi que per pouc’ um dia | o houvera de perder.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este grand’ amor havia | com um mouro de Belmez,
que do castel’ alcaid’ era; | mas o traedor, que fez?
Falou com rei de Grãada | e disse-lhe: “– Desta vez
vos darei eu o castelo | de Chincoia em poder”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Diss’ el: “– Como?” Respôs-lh’ ele: | “– Se eu vosso poder hei,
mià fala co-no alcaide | pera um dia porrei;
e, estando ena fala, | bem ali o prenderei,
e desta maneira tenho | que o podedes haver”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E diss’ el-rei de Grãada: | “– Eu por mi, u al nom há,
quero alá ir contigo | e verei o que será;
mais, se me tu desto mentes, | log’ i (al nom haverá)
che mandarei a cabeça | dantr’ os teus ombros tolher”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Desta maneira gram medo | a aquel mouro meteu
el-rei, e da outra parte | grand’ haver lhe prometeu
se lhe désse o castelo; | e logo com el moveu,
e o mouro o alcaide | de Chincoia foi veer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E disse-lhe que saísse | com el seu preito firmar
ante crischãos e mouros | dos que eram no logar,
que o guardasse, ca ele | queria a el guardar,
40
384
42
e sobr’ esto fossem ambos | sas juras grandes fazer.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
O alcaide de Chincoia, | que nom cuidava que mal
desto se lhe levantasse, | foi alá logo, sem al,
e levou dous escudeiros, | que lhe disserom atal:
que med’ haviam do mouro | que o queria traer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
“– Demais, nom levades arma | e ides assi em cós,
e, com’ os mouros som falsos, | quiçá travarám de vós;
o porend’ ao castelo | nos queremos tornar nós”.
E tornarom-se correndo | e forom-se_em el meter.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
O alcaide por tod’ esto | sol cabeça nom tornou,
mas, por chegar ao mouro, | logo o rio passou;
e, pois a el foi chegado, | log’ el prendê-lo mandou;
des i, al-rei de Grãada | o fezo preso trager,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que estava na ciada. | E disse-lh’ esta razom:
que lhe dissess’ a verdade | do castelo e, se nom,
escabeçá-lo faria. | Diss’ el: “– Se Deus me perdom,
no castelo há quinz’ homes, | mais nom tem que comer”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Tantost’ el-rei de Grãada | sa ciada fez sair
e dereit’ ao castelo | logo começou-se d’ ir,
e mandou ao alcaide | que se_o castelo pedir
foss’ aos que i leixara, | se nom queria morrer.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
El[e], com medo de morte, | log’ o castelo pediu,
e dos que dentro estavam | atal resposta oiu:
que, per fé, nom lho dariam. | Quand’ el-rei aquesto viu,
fez log’ a toda sa gente | o castelo combater
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
a pedras e a saetas | mui de rij’ em derredor.
E os que dentro jaziam | houverom tam gram pavor
que filharom a omagem | da madre do salvador
que estava na capela, | des i foro-na põer
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
ontr’ as amas, dizendo: | “– Se tu és madre de Deus,
defend’ aqueste castelo | e a nós, que somos teus,
e guarda a ta capela | que nom seja dos encreus
mouros em poder, nem façam | a ta omagem arder”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E leixaro-na dizendo: | “– Veremo-lo que farás”.
Entonc’ os combatedores | tornarom todos atrás;
94
385
96
e três mouros que entraram, | chus negros que Satanás,
no castelo, os de dentro | os fezerom ém caer
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
mortos de cima do muro. | E diss’ el-rei: “– Nulha prol
nom hei de mais combatermos, | e ter-m’-ia por fol
se contra Maria fosse, | que os seus defender sol”.
E mandou tanger as trombas | e fez sa hoste mover.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
108
E desta guisa Chincoia | guardou a que todos dam
loores por sa bondade, | ca mui gram dereit’ i ham,
porque os seus mui bem guarda | e aos outros afám
dá, que contra ela vem, | e faz vençudos seer.
110
Poder há Santa Maria | grande d’ os seus acorrer,
em qual logar quer que sejam, | e os de mal defender.
R18
* * *
386
Cantigas de Santa Maria 186
«Quem na Virgem santa muito fiará»
(E 186, T 185)
Esta é como Santa Maria guardou ũa molher do fogo, que a queriam queimar.
R0
2
I
4
6
Quem na Virgem santa muito fiará,
se o vir em coita, acorrê-lo-á.
E dest’ um miragre quero retraer
que Santa Maria fez por acorrer
a ũa dona que houvera d’ arder
se lhe nom valess’ ela, que poder há.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesta dona casada era bem
com marido que amava mais dal-rem,
e em Santa Maria todo seu sém
havia e ’na servir por sempre já.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
O marido a amava mui mais dal;
mas sa sogra lhe queria tam gram mal
per que lhe buscou morte descomunal,
como vos per mi ora dito será.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E um dia que dormindo a achou
soa, a um seu mouro logo mandou
deitar-se com ela; e, pois se deitou,
foi a seu filh’ e disse-lhe: “– Vem acá:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a ta molher, que amavas mais ca ti,
se a visses (como a ora eu vi)
ter um mour’ em seu leito cabo si,
bem tenho que muito ch’ ende pesará”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quand’ el est’ oiu, houv’ ém mui gram pesar;
e a madre pela mão o filhar
foi, e, des i, levo’-o ao logar
e disse-lhe: “– Vês ta molher com’ está?!”
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E el matá-la quisera log’ entom,
mai-la madre lhe disse: “– Nom faças, nom;
mas aa jostiça mostra ta razom,
e veerás que dereito che dará”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
El foi e a jostiça fezo vĩir
e outros muitos com ele, sem mentir;
46
387
48
e virom a dona no leito dormir
e o mouro, e disserom: “– Que será
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
daquesta molher, que tam gram torto fez,
que desconhoceu Deus e o mund’ e prez,
que fez feito mao, vil e tam rafez?;
e por aquesto no fogo arderá,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
ca dereit’ é”. E, per com’ end’ aprix eu,
filharom a dona, que lhe foi mui greu
quando se viu presa com aquel encreu,
e diss’: “– Ai senhor, val-me, ca mester m’ há,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Santa Maria Virgem, se te prouguer,
ca em maior coita nunca foi molher;
e porém tenho que quem em ti crever
que nunca em ta mercee falirá”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E, dizend’ aquesto, logo manamám
levarom a don’ a ũa praça gram,
outrossi o mouro (que era bem tam
negro come pez). E as gentes alá
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
forom mui corrend’, e tod’ em derredor
lhes poserom fogo, nom vistes maior;
e ardeu o mouro falso traedor,
mas ficou a dona como quem está
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
dentr’ em ũa casa, que nunca sentiu
rem daquele fogo. E a gente viu
cabo dela outra, e falar oiu,
que depois nom virom alá nem acá.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E daquesta guisa o mouro ardeu
que nium sinal del sol nom pareceu;
e a dona do fogo remãeceu
salva per aquela que nos salvará.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
96
E, pois foi del fora, a dona fiel
contou que a madre de Deus Manuel
a livrara dele, e miragre bel
fez aquela que muitos outros fará.
98
Quem na Virgem santa muito fiará,
se o vir em coita, acorrê-lo-á.
94
R16
388
Cantigas de Santa Maria 187
«Gram fé devia»
(E 187, E 394, T 186)
Esta cantiga é dum mõesteiro de Jerusalém, como lhes deu Santa Maria muito trigo em um
ano caro e depois muito ouro.
R0
2
I
4
6
R1 7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
42
R7 43-44
Gram fé devia
hom’ haver em Santa Maria.
E dest’, amigos, um miragre direi
que fez a Virgem, madre do alto rei,
em um mõesteiro de Jerusalém, com’ achei,
que fazer mandou aquesta senhor que nos guia,
[Refrão = vv. 1-2]
que sinagoga primeiro de judeus
foi, e vendero-na os maos encreus
aos santos apóstolos, muit’ amigos de Deus;
esta foi a primeira eigreja de Suria.
[Refrão = vv. 1-2]
Santa Maria em aquela sazom
morava na vila, em Monte Siom,
e mandara aquela eigreja fazer entom,
que foi depois de monges mui grande abadia.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas um tempo foi que houveram d’ ermar,
com fam’, os monges aquel santo logar;
mas o seu abade lhes disse: “– Vaamos rogar,
ant’, aa Virgem que acorra a sa mongia”.
[Refrão = vv. 1-2]
Logo o fezerom, sem tardar de rem,
e chorarom muit’ ant’ a que nos mantém,
e toda aquela noite ar rezarom des ém
hinos e cántigos todos a mui gram perfia.
[Refrão = vv. 1-2]
E outro dia acharom tanto pam
que os hórreos forom chos, de pram,
que lhes deu Santa Maria sem prender i afám,
ond’ o convent’ houve quanto ém mester havia.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas depois a tempo lhes avo mal,
que houve na terra gram fame mortal,
assi que todos entom cuidaram morrer, sem al;
e o abade, muito chorando, lhes dizia:
[Refrão = vv. 1-2]
389
VIII
46
48
R8 49-50
IX
52
54
R9 55-56
X
58
60
R10 61-62
XI
64
66
R11 67-68
XII
70
72
R12
74
“– Nembre-vos, amigos, em com’ outra vez
a gram mercee que vo-la Virgem fez
do triigo, que sabedes que tornou tam rafez
que toda a gente do que nos deu guarecia;
[Refrão = vv. 1-2]
porém lhe roguemos que o filho seu
rogue, que aquel pam tam muito nos deu,
que nos acorrer queira em est[e] ano tam greu,
ca muito mais ca esto por ela nos faria”.
[Refrão = vv. 1-2]
E os monges todos fezerom assi
e orarom muito, per com’ aprendi,
toda aquela noit’; e, na luz, acharom ali
mui gram cousa d’ ouro no altar, que reluzia.
[Refrão = vv. 1-2]
O abade muito se maravilhou
e ao tesoureiro empreguntou
se vir’ algũa gente que na eigreja entrou,
que tam gram tesouro com’ aquel sigo tragia.
[Refrão = vv. 1-2]
El lhe jurou muito par Nostro Senhor
que nunca daquelo fora sabedor;
entom o convento deu end’ aa Virgem loor,
porque lhe atám bem deu quanto mester havia.
Gram fé devia
hom’ haver em Santa Maria.
* * *
390
Cantigas de Santa Maria 188
«Coraçom d’ hom’ ou de molher que a Virgem muit’ amar»
(E 188, T 188)
Esta é dũa donzela que amava a Santa Maria de todo seu coraçom; e, quando morreu, cuidavam que morria de poçom e abriro-na, porque põía a mão no coraçom, e acharom-lhe no coraçom fegurada a omage de Santa Maria.
R0
2
I
4
6
Coraçom d’ hom’ ou de molher | que a Virgem muit’ amar,
macá-lo encobrir queiram, | ela o faz pois mostrar.
Desto ela um miragre | mostrou, que vos eu direi,
a que fiz bom som e cobras, | porque me dele paguei;
e, des que o bem houverdes | oído, de certo sei
que haveredes na Virgem | porém mui mais a fiar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto por ũa donzela | mostrou a senhor de prez,
que mui de coraçom sempre | a amou des meninhez
e servia de bom grado; | porém tal amor lhe fez:
que o bem que lhe queria | nom lho quis, per rem, negar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta donzela tam muito | Santa Maria amou
que, macar no mund’ estava, | por ela o despreçou
tanto que, per astença | que fazia, enfermou,
e um mês enteiro jouve | que nom pôde rem gostar
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
do que a comer lhe davam | e a bever outrossi.
E, pero que nom falava, | segundo com’ aprendi,
se lhe de Santa Maria | falavam, em com’ oí,
ao coraçom a mão | ia tantoste levar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
A [sa] madre bem cuidava | que era doente mal
e que o põer da mão | era bem come sinal
que daquel logar morria; | e quis Deus, nom houv’ i al,
que a sa madre beita | a fosse sigo levar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
O padr’ e a madre dela, | quando a virom fĩir,
cuidarom que poçom fora | e fezero-na abrir;
e eno coraçom dentro | lh’ acharom i, sem mentir,
omagem da groriosa, | qual x’ ela foi fegurar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
E dest’ a Santa Maria | derom porém gram loor
eles e toda-las gentes | que eram em derredor,
dizendo: “– Beita sejas, | madre de Nostro Senhor,
que a ta gram lealdade | nom há nem haverá par”.
44
Coraçom d’ hom’ ou de molher | que a Virgem muit’ amar,
macá-lo encobrir queiram, | ela o faz pois mostrar.
40
R7
391
Cantigas de Santa Maria 189
«Bem pode Santa Maria guarir de toda poçom»
(E 189, T 189)
Esta é como um home que ia a Santa Maria de Salas achou um dragom na carreira e mato’o, e el ficou gafo de poçom, e pois sãou-o Santa Maria.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5
32
Bem pode Santa Maria | guarir de toda poçom,
pois madr’ é do que trilhou o | basilisc’ e o dragom.
Dest’ avo um miragre | a um home de Valença | que ia em romaria
a Salas soo senlheiro, | ca muit’ ele confiava | na Virgem Santa Maria;
mas foi errar o caminho, | e anoiteceu-lh’ entom
per u ia em um monte, | e viu d’ estranha faiçom
[Refrão = vv. 1-2]
a si vĩir ũa bescha | come dragom toda feita, | de que foi muit’ espantado;
pero nom fugiu ant’ ela, | ca med’ houve, se fogisse, | que seria acalçado;
e aa Virgem beita | fez logo sa oraçom
que o guardasse de morte | e de dan’ e d’ ocajom.
[Refrão = vv. 1-2]
A oraçom acabada, | colheu em si grand’ esforço | e foi aa bescha logo
e deu-lh’ ũa espadada | com seu espadarrom velho, | que a talhou per meogo,
assi que em duas partes | lhe fendeu o coraçom;
mas ficou empoçõado | dela des essa sazom.
[Refrão = vv. 1-2]
Ca o poçom saltou dela | e feriu-o eno rosto, | e outrossi fez o bafo
que lhe saía da boca, | assi que a poucos dias | tornou atal come gafo;
e pôs em sa voontade | de nom fazer al senom
ir log’ a Santa Maria | romeiro com seu bordom.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquesto fez el mui cedo | e meteu-s’ ao caminho | com seu bordom ena mão;
e, des que chegou a Salas, | chorou ant’ o altar muito, | e tantoste tornou são.
E logo os da eigreja | loarom com procissom
a Virgem, que aquel home | guariu de tam gram lijom.
Bem pode Santa Maria | guarir de toda poçom,
pois madr’ é do que trilhou o | basilisc’ e o dragom.
* * *
392
Cantigas de Santa Maria 190
«Pouco devemos preçar»
(E 190, T 190)
Esta é de loor.
I
1
3
R
5
II
6
8
R
10
III
11
13
R
15
IV
16
18
R
20
V
21
23
R
25
VI
26
28
R
30
Pouco devemos preçar
o demo, se Deus m’ ampar,
pois nos a Virgem guardar,
que nos caudela;
pois no-la Virgem guardar.
Muito faremos mal sém
se o temermos de rem,
pois no-la Virgem mantém,
que nos caudela;
pois no-la Virgem mantém.
Ca seu poder pouco val,
pois nos guarda de seu mal
a Virgem espirital,
que nos caudela;
a Virgem esperital.
Seu saber pouco nos nuz,
pois é nossa lum’ e luz
a que viu seu filh’ em cruz,
que nos caudela;
a que viu seu filh’ em cruz.
No-no devemos creer
nem por ele mal fazer,
pois nos a Virgem valer,
que nos caudela;
pois nos a Virgem valer.
Seu engano nada é,
pois por nós ante Deus sé
a em que ficou a fé,
que nos caudela;
[a em que ficou a fé].
* * *
393
Cantigas de Santa Maria 191
«O que de Santa Maria sa mercee bem gaanha»
(E 191, T 191)
Como a alcaidessa caeu de cima da pena de Róenas d’ Alvarrazim, e chamou Santa Maria e
nom se feriu.
R0
2
I
4
6
O que de Santa Maria | sa mercee bem gaanha,
de tod’ ocajom o guarda, | já nom será tam estranha.
Dest’ avo gram miragre, | per com’ a mi foi contado,
a ũa molher que era | dum castelo que chamado
é Róenas, que em térmio | d’ Alvarrazim é poblado,
encima dũa gram pena, | bem em cabo da montanha.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
O alcaide do castelo | era um pobr’ escudeiro
que fora por sa soldada, | cuidand’ end’ algum dinheiro
haver; mas, po-lo castelo | nom ficar assi senlheiro,
ficou i a alcaidessa, | e que filhar foi per manha
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
d’ ir cada dia por água | mui longe, a ũa fonte
que nacia em um vale | juso a pé desse monte,
indo per um semedeiro. | É mui bem que vos eu conte
como lh’ avo u ia, | pera filhardes façanha
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de servirdes bem a Virgem, | que esta muito servia.
E, quand’ encima da pena | foi, de que decer queria
contra a fonte por água, | um tal vento a feria
que a espenou de cima, | chamand’ a Virgem sem sanha
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
que lhe valvess’. E tantoste | foi sa oraçom oída:
ca, pero caeu mui d’ alte, | nom foi morta nem ferida,
mas ergeu-s’ e deu loores | aa Virgem mui comprida
de bem. E este miragre | souberom per tod’ Espanha.
32
O que de Santa Maria | sa mercee bem gaanha,
de tod’ ocajom o guarda, | já nom será tam estranha.
28
R5
* * *
394
Cantigas de Santa Maria 192
«Muitas vegadas o dem’ enganados»
(E 192, E 397, T 192)
Como Santa Maria livrou ũu mouro que era cativo em Consogra, do poder do demo, e fezeo tornar crischão.
R0
2
4
I
6
8
10
12
14
16
R1 17-20
II
22
24
26
28
30
32
R2 33-36
III
38
40
42
44
46
48
R3 49-52
IV
Muitas vegadas o dem’ enganados
tem os homes, por que lhes faz creer
muitas sandeces; e taes pecados
desfaz a Virgem por seu gram saber.
E desto contado
vos será per mi
miragr’ e mostrado
quant’ end’ aprendi,
fremos’ aficado,
e bem ascuitado
será, per meu grado,
e dev’ a seer,
que o muit’ honrado
Deus, e acabado
pola de que nado
foi, quiso fazer.
[Refrão = vv. 1-4]
Em Consogr’ havia
um bom hom’ atal
que Santa Maria
amava mais dal,
e mui gram perfia
por ela prendia
sempre cada dia,
com’ oí dizer,
com um d’ Almaria
mouro, que dizia
que rem nom valia
o seu gram poder.
[Refrão = vv. 1-4]
Aqueste mour’ era
daquel hom’, e seu
cativo, e ferament’ era encreu;
e já o quisera
de grad’ e fezera
crischão e dera-lhe do seu haver.
Mais n[u]n[ca] podera
(macar lho dissera)
com el, ca tevera
sempr’ em descreer
[Refrão = vv. 1-4]
ena groriosa,
395
54
56
58
60
62
64
R4 65-68
V
70
72
74
76
78
80
R5 81-84
VI
86
88
90
92
94
96
R6 97-100
VII
102
104
106
108
110
112
R7 113-116
VIII
118
e a razõar
mal e soberviosament’ e desdenhar
que er’ enganosa
muit’ e mentirosa
sa fé e dultosa
e sem prol ter;
e tal revoltosa
cous’ e embargosa
e d’ oir nojosa
nom é de caber.
[Refrão = vv. 1-4]
O hom’ entendudo
foi e de bom sém
e apercebudo
de guardar mui bem
o mouro barvudo,
fals’ e descreúdo;
e, come sisudo,
o mandou meter
em logar sabudo
d’ aljub’ ascondudo,
e dentr’ estendudo
o fezo jazer.
[Refrão = vv. 1-4]
El ali jazendo,
o demo chegou,
e logo correndo
em ele travou;
mais [se] defendendo
o mour’ e tremendo
muit’ e contendendo,
lh’ o dedo colher
na boc’ e gemendo
e fort’ estrengendo
tod’ e desfazendo,
lho fezo perder.
[Refrão = vv. 1-4]
Daquesta maneira
duas noites fez;
mais aa terceira
a senhor de prez,
a mui verdadeira
e Virgem enteira,
come lumeira
se lhe fez veer,
e deu-lhe carreira
per que na fogueira
d’ inferno, que cheira,
nom podess’ arder.
[Refrão = vv. 1-4]
E disse: “– Pagão,
se queres guarir,
do demo, de chão,
396
120
122
124
126
128
R8 129-132
IX
134
136
138
140
142
144
R9 145-148
X
150
152
154
156
158
160
R10 161-164
XI
166
168
170
172
174
176
R11 177-180
XII
182
184
t’ hás a departir
e do falso, vão,
mui louco, vilão
Mafomete cam (o
que te nom valer
pode), e crischão
te faz e irmão
nosso, e loução
sei e sem temer”.
[Refrão = vv. 1-4]
Poi-lo castigara,
el lhe respondeu
que, em quant’ andara,
todo faleceu,
e que mal mercara
de que nom filhara
batism’, e errara
em seu conhocer
por quanto viltara
a fii tam cara.
“– Mais manhãa crara
querrei receber
[Refrão = vv. 1-4]
a fé dos romãos;
ca conhosco bem”
–diss’ el– “que pagãos
andam com mal sém
a guisa de vãos,
ca nom som certãos
d’ a lei dos crischãos
per rem manter,
nem come louçãos,
mais com antivãos
contra Meca mãos
punham de tender”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quando foi manhãa,
dali o sacou
seu dono; e chãa-mente lhe contou
que viu da louçãa
Virgem, que nos sãa
e nos da maçãa
fez perdom haver:
“– Porend’ a crischãa,
comprida, certãa
lee, e nom vãa,
quero manter”.
[Refrão = vv. 1-4]
Sa razom fĩída,
fez-lo batizar
seu don’, e comprida-ment’ e muit’ honrar.
E de bõa vida
397
186
188
190
192
R12
194
196
foi pois, e servida
del a que convida
nós a gram prazer
de dar, sem falida,
qual nom foi oída
d’ havermos, guarida,
sem nunca morrer.
Muitas vegadas o dem’ enganados
tem os homes, por que lhes faz creer
muitas sandeces; e taes pecados
desfaz a Virgem por seu gram saber.
* * *
398
Cantigas de Santa Maria 193
«Sobe-los fondos do mar e [e]nas alturas da terra»
(E 193, T 193)
Como Santa Maria guardou de morte um mercador que deitarom no mar por lhe filharem
seu haver.
R0
2
I
4
6
Sobe-los fondos do mar e | [e]nas alturas da terra
há poder Santa Maria, | madre do que tod’ enserra.
E daquest’ um gram miragre | vos direi e verdadeiro,
que fezo Santa Maria, | madre do rei josticeiro,
quand’ o rei Loís de França | a Túnez passou primeiro
com gram gente, per navio, | por fazer a mouros guerra.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em ũa nave da hoste, | u gram gente maa ia,
um mercador i andava | que mui grand’ haver tragia;
e, porque soo entrara | entr’ aquela companhia,
pensarom que o matassem | pera despender na guerra
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
o haver que el levava. | E tal conselho preserom:
que eno mar o deitassem; | e um canto lhe poserom
odeito aa garganta, | e dentro com ele derom.
Mais acorreu-lh’ [i] a Virgem, | que nunca errou nem erra,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que, ali u o deitarom, | tantost’ ela foi chegada
e guardou-o de tal guisa | que sol nom lh’ i noziu nada
o mar nem chegou a ele: | esto foi cousa provada;
ca o que em ela fia, | em sa mercee nom erra.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, ele ali jazendo | u [o] a Virgem guardava,
a cabo de tercer dia | outra nav’ i aportava;
e um home parou mentes | da nav’ e viu com’ estava
aquel home so a água, | e diz: “– Mal haja tal guerra
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
u assi os homes matam | em com’ a este matarom”.
E dando mui grandes vozes, | os da nave s’ i juntarom,
e mostrou-lhes aquel home; | e logo por el entrarom
e sacaro-no ém vivo, | em paz e sem outra guerra.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, pois o hom’ a cabeça | houve da água bem fora,
catou logo os da nave | e falou-lhes essa hora
e disse-lhes: “– Ai amigos, | tirade-me sem demora
40
399
42
daqui u me deitou gente | maa, que ameúd’ erra”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quand’ o os da nav’ oírom | falar, espanto prenderom,
ca tĩíam que mort’ era; | mais, poi-lo bem conhocerom
e lhes el houve contado | como o no mar meterom,
disserom: “– Mal haj’ a gente | que contra Deus tam muit’ erra”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E depois lhes ar contava | como sempre as vigias
el jajũava da Virgem | e guardava os seus dias;
e porend’ o guardou ela | e feze-lhe no mar vias
que o nom tangess’ a água | e lhe nom fezesse guerra.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
“– E porque entendeu ela | que prendera eu engano,
log’ entre mi e as águas | pôs com’ em guisa de pano
branco, que me guardou sempre, | per que nom recebi dano;
porém por servir a ela | seerei em esta guerra”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Quando os da nav’ oírom | esto, mui grandes loores
derom a Santa Maria, | que é senhor das senhores;
e, pois forom eno porto, | acharom os traedores,
e fezerom justiçá-los | como quem atám muit’ erra.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Poi-la jostiça fezerom, | o mercader entregado
foi de quanto lhe filharam | quando foi no mar deitado.
E el dali adeante | sempre serviu [mui] de grado
a Virgem Santa Maria | sem faliment’ e sem erra.
74
Sobe-los fondos do mar e | [e]nas alturas da terra
há poder Santa Maria, | madre do que tod’ enserra.
70
R12
* * *
400
Cantigas de Santa Maria 194
«Como o nome da Virgem é aos bõos fremoso»
(E 194, T 194)
Como Santa Maria livrou um jograr, que enmentou o seu nome, dũus que o queriam matar e
lhe queriam filhar o que tragia.
R0
2
I
4
6
Como o nome da Virgem | é aos bõos fremoso,
assi é contra os maos | mui fort’ e mui temeroso.
Dest’ avo um miragre | em terra de Catalonha
dum jograr que bem cantava | e apost’ e sem vergonha;
e, andando pelas cortes, | fazendo bem sa besonha,
a casa dum cavaleiro | foi pousar cobiiçoso,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
que lhe deu aquela noite | bem quanto mester havia.
Mais da besta e dos panos | que aquel jograr tragia,
aquel cuteif’ avarento | tal cobiça lh’ ém crecia
que mandou a um seu home, | mao e mui sobervioso,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que lhe tevess’ a carreira, | com outro de sa companha,
em um logar encuberto | dentr’ em algũa montanha.
E esto fez el de grado, | ca xo havia por manha,
ca em fazer maos feitos | nom vos era vagaroso;
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e dessa natura m[e]sma | levou sig’ um companheiro.
E o jograr espediu-se | manhãa do cavaleiro;
e, des que foi no caminho | e o virom ir senlheiro,
aqueles dous o prenderom | em um logar mui fragoso,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e logo daquel caminho | mui longe o alongarom,
e, do que sigo tragia, | nulha rem nom lhe leixarom;
des i, que o degolassem | ontre si o acordarom;
mais no-no sofreu a Virgem | nem seu filho grorioso.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, estando em perfia | de qual deles o matasse,
deitarom ontre si sortes | quem primeiro começasse;
mas nom quis Santa Maria | que tal feito s’ encimasse,
ca el diss’ a grandes vozes: | “– Madre do rei piadoso,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e val-m’ e, que me nom matem, | me defende sem demora!”.
Eles, quand’ aquest’ oírom, | tirarom-se log’ afora,
e os sentidos perderom | dos corpos em essa hora,
40
401
42
que sol falar nom poderom. | E o jograr perdidoso
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
de quanto ali trouxera, | pois viu que assi estavam
catando-se_ũu com outro | e [ar] que nom se falavam,
filhou todo o seu logo | e foi-s’; e eles ficavam
com mui gram pavor de morte. | Feito tam maravilhoso
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
se foi nunca nium home | que dele falar oísse!:
que, por ementar o nome | da Virgem, rem nom sentisse
home do corpo! Mais esto | ant’ a profeta o disse:
que come azes paradas | era seu nom’ espantoso.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
O jograr se foi sa via, | dando mui grandes loores
aa Virgem groriosa, | acorro dos pecadores.
E quantos aquesto_oírom, | os grandes e os mores,
teverom este miragre | por nobr’ e por piadoso.
62
Como o nome da Virgem | é aos bõos fremoso,
assi é contra os maos | mui fort’ e mui temeroso.
58
R10
* * *
402
Cantigas de Santa Maria 195
«Que-na festa e o dia»
(E 195, T 195)
Como Santa Maria fez que honrassem o cavaleiro que morreu no torneamento, porque
guardou a sa festa.
R0
2
4
I
5
7
9
11
Que-na festa e o dia
da mui groriosa
quiser guardar, todavia
ser-lh’-á piadosa.
E desto contado
per mi mui de grado
será e mostrado
(que a que nos guia,
a mui preciosa,
fez) miragre sinaado,
come poderosa,
R1 12-15
[Refrão = vv. 1-4]
II
dum bom cavaleiro
d’ armas, que senlheiro
com seu escudeiro
a um tornei ia,
e viu mui fremosa
meninha em um terreiro
e muit’ amorosa.
16
18
20
22
R2 23-26
[Refrão = vv. 1-4]
III
El nunca quisera
casar, mas mui feramente garçom era;
porém lhe fazia
sa luxuriosa
voontade (que houvera
sempr’ e boliçosa)
27
29
31
33
R3 34-37
[Refrão = vv. 1-4]
IV
que a cobiçasse
e a demandasse
e sigo levasse,
e que haveria
noite mui viçosa
se com ela albergasse,
e mui saborosa.
38
40
42
44
R4 45-48
[Refrão = vv. 1-4]
V
A seu padr’ aginha
mandou da meninha,
dessa fremosinha,
que el lhe daria
per que menguadosa
nunca fosse nem mesquinha,
49
51
53
403
55
mais sempr’ avondosa.
R5 56-59
[Refrão = vv. 1-4]
VI
E el, com pobreza,
por gãar requeza
fez grand’ avoleza:
disse que querria;
e mui vergonhosamente lha deu com vileza,
ca nom por esposa.
60
62
64
66
R6 67-70
[Refrão = vv. 1-4]
VII 71
Pois lha outorgada
houve e levada
dentr’ a sa pousada,
ela se changia,
dizend’: “– Ai coitosa!:
nunca mais serei chamada
virgem homildosa”.
73
75
77
R7 78-81
[Refrão = vv. 1-4]
VIII 82
U ela chorava,
el lhe demandava
como se chamava.
Diss’ ela: “– Maria,
a malavegosa,
que em quant’ eu receava
caí com’ astrosa;
84
86
88
R8 89-92
[Refrão = vv. 1-4]
IX
ca sempr’ eu guardara,
pois sábad’ entrara,
sa noit’, e punhara
de ter vigia
po-la desejosa
vida gãar, que achara
certa, nom dultosa”.
93
95
97
99
R9 100-103
[Refrão = vv. 1-4]
X
Quand’ el est’ oído
houve, esmarrido
foi e mui partido
do que cometia;
e ant’ a chorosa
se conhoceu por falido,
pois religiosa
104
106
108
110
R10 111-114
[Refrão = vv. 1-4]
XI
era bem na mente.
Porém mantenente
a um seu sergente
diz: “– Aa ’badia
que é em Tolosa
mi leva, de Sam Clemente,
esta querelosa;
115
117
119
121
404
R11 122-125
[Refrão = vv. 1-4]
XII 126
e di log’ a essa
que é abadessa,
que nunca condessa
sigo colheria
que mais proveitosa
lhe seja, ca, mià promessa,
nom é revoltosa”.
128
130
132
R12 133-136
[Refrão = vv. 1-4]
XIII 137
Ei-la no convento,
e el, nom com cento,
no torneamento,
u morte prendia
mui perigoosa;
e i houv’ enterramento
na praça ervosa.
139
141
143
R13 144-147
[Refrão = vv. 1-4]
XIV 148
O convent’ estando
a el esperando
muit’ e preguntando
quando chegaria;
mais [j]á mui queixosa
a moça foi por el quando
houve sospeitosa
150
152
154
R14 155-158
[Refrão = vv. 1-4]
XV 159
sa vida, e forte
temeu del sa morte.
Mas deu-lh’ ém conorte
de noit’, u durmia,
a mui graciosa,
dizendo: “– Daquel sa sorte
nom é temerosa,
161
163
165
R15 166-169
[Refrão = vv. 1-4]
XVI 170
ca já é na vida
santa e comprida;
mas tu, sem falida,
mià messageria
faz com’ aguçosa
aa ’badessa, que ida
faça mui trigosa
172
174
176
R16 177-180
[Refrão = vv. 1-4]
XVII 181
ali u lidarom,
ca bem i matarom
e ar enterrarom
aquel que t’ havia
por muit’ enganosamente, e a el tirarom
daquest’ amargosa
183
185
187
R17 188-191
[Refrão = vv. 1-4]
405
XVIII 192
194
196
198
vida e deserta;
de que será certa
quando vir abertamente que nascia
ũa deleitosa
rosa; porém sem referta
vaa i goiosa”.
R18 199-202
[Refrão = vv. 1-4]
XIX 203
A moça, que sage
foi, aquel viage
fez com’ é usage:
foi quant’ ir podia
aa mui briosa
abadess’, e seu message
contou mederosa-
205
207
209
R19 210-213
[Refrão = vv. 1-4]
XX 214
ment’; e ela disse:
“– Nom foi quem oísse
nunca, ne-no visse,
est’!; e eu sandia
e mui revatosa
seria se i saísse
por ti, mentirosa”.
216
218
220
R20 221-224
[Refrão = vv. 1-4]
XXI 225
A moç’ esperduda
se foi, e viúda
a Virgem sanhuda
houve que dizia:
“– Torn’ à orgulhosa
abadessa atrevuda
e mui desdenhosa,
227
229
231
R21 232-235
[Refrão = vv. 1-4]
XXII 236
e dá-lhe sinaes
de pecados taes
que fez mui mortaes,
per que ir devia
aa espantosa
perdiçom, porque fez maes
come vil lixosa”.
238
240
242
R22 243-246
[Refrão = vv. 1-4]
XXIII 247
A moça mui quedo
lho diss’ e com medo.
E a dona cedo
meteu-se na via
muit’ apressurosament’, e nom guardou degredo,
e foi afanosa
249
251
253
R23 254-257
XXIV 258
[Refrão = vv. 1-4]
em dessoterrá-lo
e dali levá-lo
406
260
262
264
e depois deitá-lo
como merecia;
ca maravilhosa
vertude fez em mostrá-lo
a mui vertuosa.
R24 265-268
[Refrão = vv. 1-4]
XXV 269
Dali adeante
foi mui bem andante
a moça, que ante
muito mal sofria
da mui despeitosa
abadessa, de talante
brava e sanhosa.
271
273
275
R25
277
279
Que-na festa e o dia
da mui groriosa
quiser guardar, todavia
ser-lh’-á piadosa.
* * *
407
Cantigas de Santa Maria 196
«Sempre punhou muit’ a Virgem per u fosse conhoçuda»
(E 196)
Como Santa Maria converteu um gentil que lhe queria gram mal e fezera ũa forma pera deitar ũa imagem do ídolo, que adorasse, e saiu-lhe ũa imagem de Santa Maria com seu filho em
braços.
R0
2
I
4
6
Sempre punhou muit’ a Virgem | per u fosse conhoçuda
dos que a nom conhociam, | e sa bondade sabuda.
E desto vos contar quero | um miragre mui fremoso
que mostrou Santa Maria | por um gentil perfioso
que ídolos aorava, | e o nome grorioso
dela oir nom queria: | tanto lh’ era_avorreçuda.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ne-no feito de seu filho, | per rem, creer nom queria,
e, se deles lhe falava | alguém, log’ end’ el fugia;
e porém vos direi ora | o que lh’ avo um dia,
per que pois sa voontade | foi na Virgem concebuda.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El morava em Besanço | (que agora é chamada
«Costantinopla», a grande), | que de Costantim pobrada
foi; mais ant’ em aquel tempo | a nossa fé começada
era, e ant’ os gentiis | a guardavam asconduda-
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
mente. E porend’ aqueste | que vos díxi da primeira,
sacerdote dos gentiis, | queria de gram maneira
compõer ũa omagem | d’ ídolo, que de certeira
cousa lhe désse resposta | faland’, e nom fosse muda.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
El fezera já as formas, | de que se muito pagava,
e, pois forom bem caentes, | o metal dentr’ adeitava;
mais nom achou i omagem | na forma que el cuidava,
ca, par Deus, melhor fegura | lhe foi i apareçuda:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
ca, u el achar cuidava | um demo que aorasse
e que lhe resposta désse | de quanto lh’ el preguntasse,
achou dona com seu filho, | bem como se o criasse
tendo-lh’ a teta ’m boca. | E, pois dele [foi] veúda,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
maravilhou-s’ ende muito | e ficou tam espantado
que a todo-los seus templos | foi ém demandar recado
40
408
42
se tal omagem sabiam | dalgum deus, ou fegurado
era ou dalgũa gente | aorada e creúda.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Mas, pois que desto recado | nom achou enos pagãos,
foi-se logo mui correndo | a preguntar os crischãos
se tal fegura haviam. | Disserom: “– Somos certãos
que tal omagem da Virgem | é, que Deus houv’ esleúda
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
por sa madre”. E tantoste | o meterom na eigreja;
e, pois el viu a omagem | daquela que sempre seja
beita, disse: “– Convosco | hoimais nom quero peleja,
ca tal com’ esta aquela | é que m’ houv’ apareçuda”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
[E], pois aquesto lhes disse, | fezo-se logo crischão,
e o templo que guardava | derribou todo, de chão,
e quebrantou as [o]mages, | ca nom quis usar em vão
sa vida; e [a] sa morte | foi-lh’ a alma recebuda
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
eno paraíso santo, | u estám todo-los santos
a Nostro Senhor loando | com mui saborosos cantos.
Esto fez a Virgem madre, | que faz de miragres quantos
home contar nom podia, | ca sempre em bem estuda.
68
Sempre punhou muit’ a Virgem | per u fosse conhoçuda
dos que a nom conhociam, | e sa bondade sabuda.
64
R11
* * *
409
Cantigas de Santa Maria 197
«Comoquer que gram poder»
(E 197)
Como Santa Maria de Terena ressocitou um meninho porcariço a que matara o demo.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Comoquer que gram poder
há o dem’ em fazer mal,
maiô-l’ há em bem fazer
a reinha ’spirital.
Ca se el algum poder há | [de] nos homees matar
pelos pecados que fazem, | e o quer Deus endurar,
mui maior poder sa Madre | há e-nos ressucitar;
e porend’ um gram miragre | vos direi de razom tal.
[Refrão = vv. 1-4]
Em um logar que Os Combre[s] | chamad’ é, que preto jaz
de Xerez de Badalhouço, | houv’ i um home de paz
mui rico, que seus gãados | havia e pam assaz;
e est’ um seu filh’ havia | que amava mui mais dal.
[Refrão = vv. 1-4]
E, porque aquel seu filho | amava mais doutra rem,
mandou-lhe que seus gãados | filhasse_e guardasse bem;
e, com despeito daquest’, o | filhou o demo porém;
mais dest’ a madr’ e o padre | haviam coita mortal.
[Refrão = vv. 1-4]
Ca tam forte o filhava | o demo, com’ aprendi,
cinc’ ou seis vezes no dia, | ou sete, per com’ oí;
mais ũa vez atám forte | o filhou que bem ali
u estava afogou-o, | e morreu, u nom houv’ al.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas seu padr’ e seus parentes | fezerom doo entom
por el mui grand’ e mui fero, | chorando de coraçom.
E um seu irmão disse: | “– Oíde-m’ ũa razom,
ca tenho que o terredes | por conselho mui leal:
[Refrão = vv. 1-4]
meu irmão prometera | por em romaria ir
a Terena, mais nom quiso | Deus que o fosse comprir;
mais eu, porque ele seja | perdõado, sem falir,
irei alá de bom grado | e farei este jornal;
[Refrão = vv. 1-4]
mais ficad’ ant’ os golhos | e a[a] madre de Deus
rogade que lhe perdõe | todo-los pecados seus,
410
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10
82
84
e eu promet’ a sa obra | dez daquestes porcos meus,
em tal que por ele rogue | a senhor que pod’ e val”.
[Refrão = vv. 1-4]
Por rogo da Virgem madre | Deus sa oraçom oiu,
e o que jazia morto | atantoste resurgiu,
e des ali adeante | daquel mal rem nom sentiu;
esto fez Santa Maria, | que aas coitas nom fal.
[Refrão = vv. 1-4]
Outro dia madurgada | pera Terena filhou
o caminh’, e seu irmão | nunca se dele quitou;
e, pois foi ena eigreja, | aqueste feito contou
todo como lh’ avera, | e seu dom derom i qual
[Refrão = vv. 1-4]
ante prometud’ haviam. | E porém todos loor
derom a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor,
porque resurgiu de morte | o que o demo maior
matou, e desfez seu feito | como a água o sal.
Comoquer que gram poder
há o dem’ em fazer mal,
maiô-l’ há em bem fazer
a reinha ’spirital.
* * *
411
Cantigas de Santa Maria 198
«Muitas vezes volv’ o demo as gentes por seus pecados»
(E 198)
Esta é como Santa Maria fez fazer paz e que se perdõassem ũus homees que se queriam matar ũus com outros ant’ a sa eigreja em Terena.
R0
2
I
4
6
Muitas vezes volv’ o demo | as gentes por seus pecados,
que nom quer Santa Maria, | pois lhe som acomendados.
Dest’ avo em Terena | um miragre mui fremoso
que mostrou Santa Maria, | e d’ oir mui saboroso;
e, poi-lo oírem, creo | que por mui maravilhoso
o terrám, e que metudo | dev’ a ser ontr’ os preçados.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Naquel logar s’ ajuntarom | d’ homees mui gram companha,
que luitavam e faziam | gram festa, a for d’ Espanha;
mais o demo, de mal cho, | meteu ontr’ eles tal sanha
que por se matarem todos | forom mui corrend’ armados,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
e a lidar começarom, | ferindo-s’ a desmesura;
[e] durou o mais da noite | aquesta malaventura,
cuidando que se matavam; | mais a nobre Virgem pura
nom quis, cujos romeus eram, | que mortos nem sol chagados
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
fossem da lid’ a sa casa, | mais em meogo dum chão,
u lidarom bem des quando | começara o serão
e u se matar cuidavam, | bem assi de cabo são
fez que fossem ũus doutros | muit’ amigos e pagados.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, u andavam buscando | os mortos que soterrassem
e os outros mal chagados, | de que bem pensar mandassem,
nom quiso Santa Maria | que neũu tal achassem;
mas perpontos e escudos | acharom muitos colpados,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
ca nom foi neũu deles | que nom tevesse ferida,
mas sol nom tangeu em carne, | ca nom quis a mui comprida
reinha Santa Maria; | ca ela nunca obrida
de valer aos que ama | nem aos que som cuitados.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Porend’ aqueste miragre | por mui grande o teverom
todos quanto-lo oírom, | e porende graças derom
grandes a Santa Maria; | e, pois sa festa fezerom,
derom i de seus dinheiros, | e, deles, de seus gãados.
40
42
R7
44
Muitas vezes volv’ o demo | as gentes por seus pecados,
que nom quer Santa Maria, | pois lhe som acomendados.
* * *
412
Cantigas de Santa Maria 199
«Com’ é o mund’ avondado de maes e d’ ocajões»
(E 199)
Como um peliteiro que nom guardava as festas de Santa Maria, começou a lavrar no seu
dia de março, e travessou-se-lhe a agulha na garganta que a nom podia deitar, e foi a Santa Maria de Terena e foi logo guarido.
R0
2
I
4
6
Com’ é o mund’ avondado | de maes e d’ ocajões,
assi é Santa Maria | de graças e de perdões.
Ca, se Deus sofr’ ao demo | que polos nossos pecados
nos dé coitas e doores | e trabalhos e coidados,
logo quer que por sa madre | sejam todos perdõados
por creenças, por jajũus, | por rogos, por orações.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Porém direi um miragre | que fez por um peliteiro
que morava na fronteira | em um castelo guerreiro
que Burgos éste chamado, | e, demais, está fronteiro
de Xerez de Badalhouce, | u soem andar ladrões.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E em aqueste castelo | o peliteiro morava,
que da madre de Deus santa | nunca as festas guardava;
e pola festa de março, | u el sas peles lavrava,
e do mal que lh’ end’ avo, | por Deus, oíde, varões.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca, u meteu a agulha | na boc’, e enderençando
as peles pera lavrá-las, | nom catou al senom quando
a trociu, e na garganta | se lhe foi atravessando;
ca os que o demo servem | ham del taes galardões.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E daquesta guisa seve | muitos dias, que deitá-la
per nulha rem nom podia | nem outrossi traspassá-la;
demais, inchou-lh’ a garganta | assi que perdeu a fala,
e tornou-lh’ o rosto negro | muito mais que os carvões.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, pois el parou [i] mentes | e viu que assi morria,
e física que fezesse | nulha prol nom lhe fazia,
mandou-se levar tantoste | dereit’ a Santa Maria
de Terena, prometendo- | -lhe sas ofertas e dões.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, quando foi na eigreja, | ant’ o altar o deitarom,
e log’ a Santa Maria | muito por ele rogarom;
e el chorand’ e gemendo | dormeceu, e nom catarom
40
413
42
senom quando lh’ a agulha | saiu sem grandes mixões
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que fezesse por sacá-la; | ca, u jazia dormindo,
a Virgem mui groriosa | lha fez deitar, e tossindo,
envolta em ũa peça | de carn’. E, esto oindo,
as gentes que i estavam | derom grandes beições
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
aa beita reinha, | que em ceo e em terra
acorre aos coitados | e perdõa a quem lh’ erra,
e, pera haver mercee, | nuncas a sa porta serra,
e que os guarda do dem’ e | de sas maas tentações.
56
Com’ é o mund’ avondado | de maes e d’ ocajões,
assi é Santa Maria | de graças e de perdões.
52
R9
* * *
414
Cantigas de Santa Maria 200
«Santa Maria loei»
(E 200, T -)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Ca, ontr’ os que hoje nados
som d’ homees muit’ honrados,
a mi há ela mostrados
mais bes, que contarei.
8
Santa Maria loei
e loo e loarei.
4
R1
II
12
Ca a mi de bõa gente
fez vĩir dereitamente,
e quis que mui chãamente
reinass’ e que fosse rei.
14
Santa Maria loei
e loo e loarei.
10
R2
III
18
E, co-nas sas piadades,
nas grandes enfermidades
m’ acorreu; por que sabiades
que porém a servirei.
20
Santa Maria loei
e loo e loarei.
16
R3
IV
24
E, dos que me mal queriam
e buscavam e ordiam,
deu-lhes o que mereciam,
assi como provarei.
26
Santa Maria loei
e loo e loarei.
22
R4
V
30
A mi de grandes pobrezas
sacou, e deu-me requezas,
por que sas grandes nobrezas,
quantas mais podér, direi.
32
Santa Maria loei
e loo e loarei.
28
R5
VI
34
36
R6
Santa Maria loei
e loo e loarei.
Ca mi fez de bõa terra
senhor, e em toda guerra
m’ ajudou a que nom erra,
nem errou u a chamei.
Santa Maria loei
415
38
VII
42
A mi livrou d’ oqueijões,
de mortes e de lijões;
por que sabiades, varões,
que por ela morrerei.
44
Santa Maria loei
e loo e loarei.
40
R7
VIII
48
Porém todos m’ ajudade
a rogar de voontade
que com sa gram piadade
mi_acorra, que mester hei.
50
Santa Maria loei
e loo e loarei.
46
R8
IX
54
E, quando quiser que seja,
que me quite de peleja
daquest mund’ e que veja
a ela, que sempr’ amei.
56
Santa Maria loei
e loo e loarei.
52
R9
e loo e loarei.
* * *
416
Cantigas de Santa Maria 201
«Muit’ é mais a piadade de Santa Maria»
(E 201, F [2])
de.
Esta é como Santa Maria livrou de morte ũa donzela que prometera de guardar sa virgĩidaR0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muit’ é mais a piadade | de Santa Maria
que quantos pecados home | fazer poderia.
E porém, meus amigos, | agora m’ ascuitade
um fremoso miragre, | com’ aprix em verdade,
que fez Santa Maria, | de mui gram piadade,
que sempre por nós roga | a Deus a noit’ e dia.
[Refrão = vv. 1-2]
E aqueste miragre | fez por ũa donzela
que era de gram guisa, | e aposta e bela,
e que lhe prometera | de seer sa ancela
e de guardar seu corpo | bem de toda folia.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Assi o fez gram tempo. | Mas o diabr’ antigo,
que de virgĩidade | é sempre emigo,
a tentou em tal guisa | que lhe fez por amigo
filhar um seu padrinho, | com que fez drudaria,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de guisa que foi prenhe | por sa malaventura
e houve del um filho, | mui bela creatura;
e, pois que o viu nado, | creceu-lh’ ém tal tristura
que o matou mui toste | como molher sandia.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Pois que o houve morto, | nom soub’ haver recado
de partir-se do feito, | mas tornou no pecado,
e ar fez outro filho; | e, logo que foi nado,
mato’-o; ar fez outro, | que pôs per esta via.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois seus três filhos houve | mortos a malfadada
per conselho do demo, | foi bem desasperada
que, per rem que fezesse, | nunca já perdõada
de Deus nem de sa madre | seer nom poderia.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E creceu-lh’ ém tal coita | que houve tal despeito
de si que dum cuitelo | se feriu eno peito;
e nom morreu do colbe, | ca nom foi a dereito,
pero caeu em terra, | ca mui mal lhe doía.
40
42
417
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, que morress’ aginha, | fez cousa muit’ estranha:
ergeu-se mui correndo | e prês ũa aranha
e comeu-a tantoste; | mas nom era tamanha
nem tam empoçõada | em com’ ela querria.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, pois viu que por esto | já morte nom presera,
foi comer outra, grande, | empoçõad’ e fera,
com que inchou tam muito | que a morrer houvera.
E, jazend’ em tal coita, | muito se repentia
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
do mal que feit’ houvera; | e diss’: “– Ai groriosa,
nom cates com’ eu sõo | pecador e astrosa,
nem sofras que me perça, | mas sei-me piadosa
e guarda-me do demo | e da sa gram perfia”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Entom a Virgem santa | lh’ apareceu, de chão,
e polo corpo todo | foi-lhe tragend’ a mão,
e tornou-lho tam fresco, | tam fremos’ e tam são
como nunca mais fora, | e assi a guaria,
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
dizend’: “– E nom te nembra | que prometud’ houveste
de ter castidade?; | mas pois no-na teveste;
mas se te bem partires | deste mal que fezeste,
perdõar-ch’-á meu filho, | ca eu t’ ajudaria”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
Quando lh’ est’ houve dito, | foi-se; e mui guarida
ficou assi a dona, | e tantoste saída
fez dali e prês ordem, | u acimou sa vida
tam bem por que dos santos | foi em sa companhia.
80
Muit’ é mais a piadade | de Santa Maria
que quantos pecados home | fazer poderia.
76
R13
* * *
418
Cantigas de Santa Maria 202
«Muito há Santa Maria, madre de Deus, gram sabor»
(E 202, F [33])
Esta é como um clérigo arcediago em Paris fazia ũa prosa a Santa Maria e nom podia
achar ũa rima, e foi rogar a Santa Maria que o ajudasse i, e acho’-a logo, e se enclinou a omagem ante ele e disse-lhe ‘Muitas graças’ porém.
R0
2
I
4
6
R1
Muito há Santa Maria, | madre de Deus, gram sabor
d’ ajudar quem lhe cantares | ou prosas faz de loor.
E daquesto um miragre | oí, pouc’ há, retraer
que a um arcidiago | avo, que gram prazer
havia em fazer prosas | de sa loor e dizer
sa bondad’ e sa mesura | e seu prez e sa valor.
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
El a prosa fazia | que era feita mui bem
se nom fosse a rima | soa que minguava ém;
e achar no-na podia, | e cuidava que, per rem,
per el já nom s’ acharia, | nem per outro sabedor.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
El já por desasperado | de s’ aquela rim’ achar
per home daqueste mundo, | foi-s’ entom a um altar
da Virgem Santa Maria | e começou-lh’ a rogar
de s’ acabar esta prosa | que lhe foss’ ajudador.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Ca ela era bem feita | de sa loor e de Deus
e de com’ a Tridade | entendessem os encreus;
e el dar nom lhe podia | neum cabo, mas os seus
golhos ficou que ela | foss’ end’ [a] acabador.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Estand’ el assi em prezes, | vo-lhe a coraçom
a rima que lhe minguava, | que era de tal razom
em latim e que mostrava: | “Nobile triclinium”.
E nom havia palavra | que i fezesse melhor
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
esta rima que vos digo; | e que quer dizer assi:
“Nobre casa de morada, | três moradas há em ti:
Deus Padre e o seu Filho | e o Sant’ Espírit’ i
verom morar, sem falha, | por nos fazerem amor”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Pois houv’ a pros’ acabada, | Santa Maria loou,
que lha tam bem acabara, | e com gram prazer chorou.
419
42
Mais a cabo da peça | a omage s’ enclinou
dela e mui passo disse: | “– Muitas graças, meu senhor”.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Este miragre que Santa | Maria demostrar quis,
conteceu, nom há gram tempo, | na cidade de Paris;
e veredes a omagem, | por seerdes ém mais fis,
hojedia enclinada | estar dentr’ em Sam Vitor.
50
Muito há Santa Maria, | madre de Deus, gram sabor
d’ ajudar quem lhe cantares | ou prosas faz de loor.
46
R8
* * *
420
Cantigas de Santa Maria 203
«Quem polo amor de Santa Maria, do seu, fezer»
(E 203)
Como Santa Maria acrecentou a farinha a ũa bõa molher porque a dava de grado por seu
amor.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem polo amor de Santa | Maria, do seu, fezer
algum bem, dar-vo-lh’-á ela | que dé, se o nom tever.
Por esto dev’ home sempre | a servir e a guardar
a Virgem Santa Maria | e no seu bem confiar;
ca vos direi um miragre | que quis, pouc’ i há, mostrar
a ũa sua amiga, | que era santa molher.
[Refrão = vv. 1-2]
E[m] servir Deus e os santos | havia mui gram sabor,
e seu tempo despendia | em servir Nostro Senhor;
e, se lh’ os pobres pediam | esmolna polo amor
da Virgem Santa Maria, | logo lhes dava quequer
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que tevesse em sa casa. | Um dia estand’ assi,
muitos pobres vergonhosos | pedir verom ali,
e deu-lhes ũa grand’ arca | de farinha cha i;
disserom: “– Santa Maria | vos dé bem, se lh’ aprouguer”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
A cabo dũa gram peça | outra companha chegou
de pobres, e houve doo | deles grande, e chamou
ante si ũa sa filha | e disso: “– Se i ficou
jaquê pouca de farinha, | dade-lh’ a que i houver”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
A filha entom lhe disso: | “– Com mià mão varri já
a arca”. E diss’ a madre: | “– Ar ide pero alá”.
E foi e achou-a cha | de farinha bem atá
na cima, e deu-lhes dela | quanto lhes houve mester.
32
Quem polo amor de Santa | Maria, do seu, fezer
algum bem, dar-vo-lh’-á ela | que dé, se o nom tever.
28
R5
* * *
421
Cantigas de Santa Maria 204
«Aquel que a Virgem Santa Maria quiser servir»
(E 204, F [32])
Esta é como Santa Maria guareceu um frade, arcediago, de grand’ enfermidade que havia,
por rogo de Sam Domingo.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Aquel que a Virgem Santa | Maria quiser servir,
quand’ houver coita de morte, | be-no pod’ ela guarir.
Daquesto a Sam Domingo | um miragre conteceu.
El um bom arcediago | em sa ordem recebeu,
que era mui leterado, | e por aquest’ entendeu
que podia em começo | per ele mui mais comprir.
[Refrão = vv. 1-2]
El daquel arcediago | havia mui gram sabor,
ca com ele preegava | o bem de Nostro Senhor;
e, andando preegando, | vo-lhe mui gram door,
de guisa que nom podia, | per rem, folgar nem dormir;
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
e era tam mui coitado | que nom havia em si
nem sol um sinal de vida; | e os físicos dali
diziam que poderia | daquela guarir assi
como poderia morto | de so terra resorgir.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El jazend’ assi por morto, | Santo Domingo rogou
a Virgem Santa Maria, | que se logo demostrou
ao enferm’ u jazia, | e mui be-no confortou,
e o doente mercee | começou-lhe de pedir.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Pos ela virges muitas | entrarom e a dizer
se filharom orações | e per seus livros leer,
e, des i, ar começarom | elas de mui gram lezer
a cabeça e o corpo | e os pees a ongir.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
A cabeça log’ ungirom | por lhe Deus i siso dar,
e o corpo por já sempre | de forniço se quitar,
e os pees por com eles | ir no mundo preegar
e que fezesse as gentes | que erravam repentir.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Sam Doming’ em outra casa | jazia, e viu mui bem
com’ entrou Santa Maria, | e muito lhe per-proug’ ém,
40
422
42
e viu o enferm’ ongido, | e deu-lhe graças porém
e disso: “– Ai groriosa, | quem te poderá gracir
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
tantos bes que tu fazes | aos que o mester ham,
e ar qu[a]m bem [que] tu oes | aos que te rogar vam,
e de como ced’ acorres | os que em coita estám!,
e, demais, nas tas mercees | nunca pod’ home falir”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
Pois que foi mui bem ongido, | Santa Maria saiu-se dali com sas virges | e aos ceos sobiu,
e log’ o arcediago | a essa hora guariu.
Por esto, de seu serviço | nom se dev’ hom’ a partir.
56
Aquel que a Virgem Santa | Maria quiser servir,
quand’ houver coita de morte, | be-no pod’ ela guarir.
52
R9
* * *
423
Cantigas de Santa Maria 205
«Oraçom com piadade oe a Virgem de grado»
(E 205, F [5])
Esta é como Santa Maria quis guardar ũa moura que tĩía seu filho em braços u siía em ũa
torre ontre duas amas, e caeu a torre, e nom morreu, nem seu filho, nem lhes empeeceu rem, e
esto foi per oraçom dos crischãos.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Oraçom com piadade | oe a Virgem de grado,
e guard’ há de mal por ela | o que lh’ é encomendado.
Ca aquestas duas cousas | fazem mui compridamente
gaanhar amor e graça | dela, se devotamente
se fazem e como devem; | e assi abertamente
parece a sa vertude | sobre tod’ home coitado.
[Refrão = vv. 1-2]
E sobr’ aquest’ um miragre | vos rogo que m’ [i] ouçades
que fezo Santa Maria; | e, se i mentes parades,
oiredes maravilha | mui grand’, e certos sejades
que per oraçom mostrada | foi ante muit’ hom’ honrado.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Na fronteira um castelo | de mouros mui fort’ havia,
que combaterom crischãos | que saíam d’ açaria
d’ Ucrês e de Calatrava | com muita cavalaria;
e era i Dom Afonso | Têlez, ricome preçado,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que tragia gram companha | de mui bõos cavaleiros,
ardidos e arrizados, | e, demais, bõos guerreiros
e almogávares muitos, | peões e baesteiros,
per que o castelo todo | muit’ aginha foi entrado.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
O castelo fortemente | foi derredor combatudo,
e os muros desfezerom, | ond’ em gram medo metudo
foi o poblo que dentr’ era; | e, pois que se viu vençudo,
colheu-se a ũa torre | mui fort’. E de cada lado
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
na torre meterom cavas, | e fogo po-la queimarem;
e os mouros que dentr’ eram, | por se melhor a[m]pararem
do fogo, ontr’ as amas | punhavam de se deitarem;
e assi morrerom muitos | daquel poblo malfadado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Com esta coita tam grande | do f[um]o, que os cegava,
e, doutra parte, do fogo, | que os mui forte queimava,
40
424
42
ũa moura com seu filho, | que mui mais ca si amava,
sobiu-se com el encima, | que lhe nom foss’ afogado.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E ontre duas amas | se foi sentar a mesquinha
com seu filho pequeninho, | que em seus braços tĩinha;
e, pero que mui gram fogo | de todas partes viinha,
a moura nom foi queimada, | nem seu filho chamuscado.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O maestre Dom Gonçalvo | Eanes de Calatrava,
que em servir Deus em mouros | guerrejar se trabalhava
e porend’ aquela torre | muito combater mandava,
e outrossi Dom Alfonso | Têlez, de que hei falado,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e quan[t]o[s] virom a torre | que era toda cav[a]da,
e virom ontr’ as amas | aquela moura sentada,
semelhou-lhes a omagem | de com’ está fegurada
a Virgem Santa Maria, | que tem seu filh’ abraçado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E houverom piadade | eles e quantos crischãos
a virom, e com gram doo | alçarom a Deus as mãos
que os de morte guardasse, | pero que eram pagãos;
e desto quis Deus que fosse | um gram miragre mostrado.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E daquela part’ a torre | u eles eram, tam passo
se leixou vĩir a terra | sobr’ um gram chão devasso
que neũu deles morto | nom foi, ferido nem lasso,
ne-na madre ne-no filho; | mas pousou-os em um prado
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
a Virgem Santa Maria, | a que por ela rogavam
os crischãos. Porém todos | muito se maravilhavam;
a ela e a seu filho | mui grandes loores davam,
e a moura foi crischãa | e seu filho batiçado.
80
Oraçom com piadade | oe a Virgem de grado,
e guard’ há de mal por ela | o que lh’ é encomendado.
76
R13
* * *
425
Cantigas de Santa Maria 206
«Quem souber Santa Maria bem de coraçom amar»
(E 206, F [54])
Esta é como o papa Leom cortou sa mão, porque era tentado d’ amor dũa molher que lha
beijara, e pôs-lha Santa Maria e sãou.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem souber Santa Maria | bem de coraçom amar,
pero o tent’ o diabo, | em bem xe lh’ há de tornar.
E daquesto um miragre | conteu, nom há gram sazom,
dum papa que houv’ em Roma, | que nom’ havia Leom,
a que punhou o diabo | de meter em tentaçom,
porque em Santa Maria | era todo seu cuidar.
[Refrão = vv. 1-2]
Macar era padre santo, | o diabo trabalhou
per como o enganasse; | e tanto pos el andou
que por mui gram fremosura | de molher o enganou,
que lh’ amostrou u sa missa | dizia sobr’ um altar.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El a dona mais fremosa | doutra rem viu, e meteu
mentes enas sas feituras, | ca o demo o venceu;
e, depois do avangeo, | sa oferta lh’ ofereu
a dona, e em golhos | lhe foi a mão beijar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Pois que lhe beijou a mão, | houv’ el tal coita des i
que nunca ar parou mentes | ena missa, nem de si
nom sabia que fezesse; | e disso: “– Mal dia vi
beldade daquesta dona, | que me faz Deus obridar”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Poi-la missa dita houve, | com gram coita (com’ achei
escrito) foi-s’ a sa casa, | e fez como vos direi:
diss’: “– Esta mão me tolhe | Deus, mas eu a tolherei”.
E filhou log’ um cuitelo | e foi a mão cortar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
ũa mui gram sazom houve | que nom pôd’ a missa ir,
que as gentes mui de grado | soíam del a oir,
e ar preegar nas festas; | e em aquesto falir
tĩíam que ia muito, | e em seu feito minguar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
[U] el entendeu aquesto, | foi sa oraçom fazer
aa Virgem groriosa, | que lhe quisess’ acorrer
e, pola sa gram mercee, | que lhe déss’ algum poder
40
426
42
per que podess’ ant’ as gentes | a sua missa cantar.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, pois viu Santa Maria | que havia tal sabor
de a servir, seu enguento | aduss’ a bõa senhor
e untou-lhe bem a chaga, | e perdeu log’ a door,
e pose-lh’ a sua mão | bem firme em seu logar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E tantoste foi guarido | da mão, apost’ e bem,
pola Virgem groriosa, | madre do que nos mantém;
e contou est’ aas gentes, | que lhes nom leixou ém rem,
e, porque o mais crevessem, | foi-lhes a mão mostrar.
56
Quem souber Santa Maria | bem de coraçom amar,
pero o tent’ o diabo, | em bem xe lh’ há de tornar.
52
R9
* * *
427
Cantigas de Santa Maria 207
«Se home fezer de grado pola Virgem algum bem»
(E 207, F [17])
Esta é como um cavaleiro poderoso levava a mal outro por um filho que lhe matara, e solto’-o em ũa eigreja de Santa Maria, e disse-lhe a majestade «Graças!» porém.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Se home fezer de grado | pola Virgem algum bem,
demostrar-lh’ haverá ela | sinaes que lhe praz ém.
Desto vos direi miragre | ond’ haveredes sabor,
que mostrou Santa Maria | com merce’ e com amor
a um mui bom cavaleiro | e seu quito servidor,
que e-na servir metia | seu coraçom e seu sém.
[Refrão = vv. 1-2]
El havia um seu filho | que sabia mais amar
ca si, e um cavaleiro | matou-lho. E, com pesar
do filho, foi el prendê-lo, | e quisera-o matar
u el seu filho matara, | que lhe nom valvesse rem.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
18
E el, levando-o preso, | em ũa eigreja ’ntrou,
e o pres’ entrou pos ele, | e el del nom se nembrou;
e, pois que viu a [omagem] | da Virgem, i [o] soltou;
e homildou-s’ a omagem, | e disso “Graças!” porém.
20
Se home fezer de grado | pola Virgem algum bem,
demostrar-lh’ haverá ela | sinaes que lhe praz ém.
16
R3
* * *
428
Cantigas de Santa Maria 208
«Aquele que ena Virgem carne, por seer veúdo»
(E 208, F [94])
Como um herege de Tolosa meteu o Corpo de Deus na colma e deu-o aas abelhas que o
comessem.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Aquele que ena Virgem | carne, por seer veúdo,
filhou, já per rem nom pode | seer nenlhur ascondudo.
Ca assi como dos ceos | deceu e que foi filhar
carne da Virgem mui santa | por se nos bem amostrar
de com’ era Deus e home, | esto nom é de negar,
macar seja o seu Corpo | em qualquer logar metudo.
[Refrão = vv. 1-2]
Ond’ avo em Tolosa, | em que soía haver
hereges de muitas guisas, | que nom queriam creer
[nem] em Deus nem em sa madre, | ante de chão dizer
iam que que-nos creía, | que o davam por perdudo.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, macar esto diziam, | as missas iam oir
e as horas enas festas, | seg[u]nd’ oí departir,
e, demais, ar comungavam | por se melhor encobrir;
e o que assi fazia, | tĩía-no por sisudo.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde foi em ũa Páscua | que um deles comungou
e filhou o Córpus Chrísti, | mais per rem no-no passou,
e, tod’ enteiro com’ era, | ena boca o levou;
e esto fez mui coberto, | que lhe nom fosse sabudo.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois chegou a sa casa, | foi atal sa entençom
de deitá-l’ em algum logo | mao; e, como felom,
foi correndo muit’ aginha | a um seu horto, u nom
cuidou que o nengum visse | nem ém foss’ apercebudo.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E em ũa sa colma | o deitou, e diss’ assi:
“– Abelhas, comed’ aquesto, | ca eu o vinho bevi;
e, se vós obrar sabedes, | verei que faredes i”.
E, des i, foi-se mui ledo | o traedor descreúdo.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, quando chegou o tempo | que aas colmas vam
por filhar o fruito delas, | foi el log’ alá, de pram,
veer as suas, e disse: | “– Verei que obra feit’ ham
40
429
42
na hóstia as abelhas”. | E entom, com’ atrevudo,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
abriu mui tost’ a colma, | e ũa capela viu
com seu altar estar dentro, | e a omagem cousiu
da Virgem co-no seu filho | sobr’ ele, e ar sentiu
um odor tam saboroso | que logo foi convertudo.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E foi corrend’ ao bispo | e confessou-se-lhe bem,
e contou-lh’ este miragre, | que sol nom lh’ ém leixou rem,
ant’ a crerezia toda. | E o bisp[o] fez bom sém
e mandou assũar toste | o poblo grand’ e mudo,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e com grandes precissões | forom, e dando loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
e catarom a colma, | e, pois virom o lavor,
deitou-s’ o poblo em terra | a prezes tod’ estendudo.
58
60
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
66
E repentirom-se muito | e ar chorarom assaz,
loando Santa Maria, | que taes miragres faz,
com seu filho Jesu-Cristo, | e adusserom em paz
aa see a capela, | porque fosse mais sabudo.
68
Aquele que ena Virgem | carne, por seer veúdo,
filhou, já per rem nom pode | seer nenlhur ascondudo.
64
R1
* * *
430
Cantigas de Santa Maria 209
«Muito faz grand’ erro, e em torto jaz»
(E 209, F [95])
Como el-rei Dom Afonso de Castela adoeceu em Bitória e houv’ ũa door tam grande que
coidarom que morresse ende, e poserom-lhe de suso o livro das «Cantigas de Santa Maria», e foi
guarido.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito faz grand’ erro, e em torto jaz,
a Deus quem lhe nega o bem que lhe faz.
Mas em este torto per rem nom jarei
que nom cont’ o bem que del recebud’ hei
per sa madre Virgem, a que sempr’ amei,
e de a loar mais doutra rem me praz.
[Refrão = vv. 1-2]
E, como nom devo haver gram sabor
em loar os feitos daquesta senhor,
que me val nas coitas e tolhe door
e faz-m’ outras mercees muitas assaz?
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Porém vos direi o que passou per mi,
jazend’ em Bitoira enfermo assi
que todos cuidavam que morress’ ali
e nom atendiam de mi bom solaz.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca ũa door me filhou [i] atal
que eu bem cuidava que era mortal,
e braadava: “– Santa Maria, val,
e por ta vertud’ aqueste mal desfaz”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E os físicos mandavam-me põer
panos caentes, mas no-no quix fazer,
mas mandei o livro dela aduzer;
e poserom-mi_o, e logo jouv’ em paz,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que nom braadei nem senti nulha rem
da door, mas senti-me logo mui bem;
e dei ende graças a ela porém,
ca tenho bem que de meu mal lhe despraz.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ esto foi, muitos eram no logar
que mostravam que haviam gram pesar
de mià door e filhavam-s’ a chorar,
40
431
42
estand’ ante mi todos come em az.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E, pois virom a mercee que me fez
esta Virgem santa, senhor de gram prez,
loaro-na muito todos dessa vez,
cada um põendo em terra sa faz.
50
Muito faz grand’ erro, e em torto jaz,
a Deus quem lhe nega o bem que lhe faz.
46
R8
* * *
432
Cantigas de Santa Maria 210 = 416
«Muito foi noss’ amigo»
(E 210, E (FSM) 6, F [96])
De loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Muito foi noss’ amigo | u diss’ «Ave, Maria»
aa Virgem beita, | e que Deus prenderia
em ela nossa carne, | com que pois britaria
o inferno antigo.
8
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
4
R1
II
12
E nunca nos podia | já maior amizade
mostrar que quand’ adusse | mandado, com verdade,
que Deus home seria | pola grand’ homildade
que houv’ a Virgem sigo.
14
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
10
R2
III
18
Quem viu nunc’ amizade | que esta semelhasse
em dizer tal mandado | per que Deus s’ enserrasse
eno corpo da Virgem | e que nos amparasse
do mortal emigo?
20
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
16
R3
IV
24
E esto nom fezera | Deus se ante nom visse
a bondade da Virgem, | que per ela comprisse
quanto nos prometera, | segund’ El ante disse;
gram verdade vos digo.
26
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
22
R4
V
30
E Gabriel por esto, | o ángeo, devemos
amar e honrar muito, | ca per que nos salvemos
este troux’ o mandado, | e porque sol nom demos
pelo demo um figo.
32
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
28
R5
Muito foi noss’ amigo
Gabriel, quando disse: | “– Maria, Deus é tigo”.
* * *
433
Cantigas de Santa Maria 211
«Apostos miragres faz todavia»
(E 211, F [97], U (Ap) 7)
º
Esta é como Santa Maria fez aas abelhas que comprissem de cera um ciro pascual que se
queimara todo da ũa parte, e esto foi em Elche.
R0
2
I
4
6
Apostos miragres faz todavia
por nós, e fremosos, Santa Maria.
Faz-los muit’ apostos porque hajamos
sabor de sabê-los e os creamos;
e faz-los fremosos porque queramos
cobiçar d’ haver a sa companhia.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Porend’ a reinha de piadade
fez um gram miragr’ em ũa cidade
a que dizem Elche, com’ em verdade
achei de gram gente que i havia.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esto foi um dia de Pentecoste,
que a sa eigreja verom toste
d’ homes e molheres come grand’ hoste,
por oir a missa que s’ i dizia,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
mui cantada come em atal festa,
e durou até ena mui gram sesta.
Entom virom cousa mui mãefesta,
ond’ aa gente muito desprazia:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ca virom o ciro pascual queimado
muito dũa parte e mui menguado;
e desto o poblo foi tam coitado
que cada um deles entrestecia.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Eles em aquesto assi cuidando,
virom um eixame vĩir voando
d’ abelhas mui brancas, que entrou quando
o crérig’ a sagra dizer queria.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, tanto que as abelhas chegarom,
em um furado da pared’ entrarom,
e bem dali o círio lavrarom
daquela cera que i falecia.
40
42
434
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quand’ aquesto virom toda-las gentes
e eno miragre meterom mentes,
loarom a Virgem, e mais creentes
quis cada um foi que ante creía.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E as abelhas ir-s’ ém nom quiserom,
mas um gram tempo ali esteverom;
mel muit’ e cera depois ar fezerom,
que nom quedavam, a mui gram perfia.
56
Apostos miragres faz todavia
por nós, e fremosos, Santa Maria.
52
R9
* * *
435
Cantigas de Santa Maria 212
«Tod’ aquel que pola Virgem quiser, do seu, bem fazer»
(E 212)
Como ũa bõa dona de Toledo emprestou um sartal a ũa molher pobre por amor de Santa
Maria, e furtarom-lho, e fez-lho ela cobrar.
R0
2
I
4
6
Tod’ aquel que pola Virgem | quiser, do seu, bem fazer,
cousa que lhe faça míngua | grande nom há de perder.
Com’ avo em Toledo | a ũa bõa molher,
que, polo amor de Santa | Maria, dava quequer
que vess’ a sua mão | aos pobres que mester
haviam de lhe pedirem, | por seu amor, seu haver.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Toled’ há um costume | que foi de longa sazom:
que, quando i casar querem | as donas que pobres som,
pedem aas ricas donas | de suas dõas entom,
que possam em suas vodas | mais ricas aparecer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquela dona havia | de seu um rico sartal,
e, quand’ as pobres casavam, | emprestava-lho, sem al;
e seu marido porende | um dia trouxe-a mal,
e que o nom emprestasse | foi-lho muito defender.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ela já no-no ousava | porend’ emprestar, per rem;
e aqué-vos ũa dona | mui pobre a ela vem
e diss’: “– Ai dona, por Santa | Maria fazede bem
e um sartal me prestade | po-la mià filha trager
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
em sa voda”. Mas, com medo, | em lho dar muito dultou;
mais, poi-la ela por Santa | Maria esconjurou
que por seu amor lho désse, | logo da ucha tirou
o sartal e em sa mão | lho foi a furto meter.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ela deu-o a sa filha | e levou-a a banhar,
com’ é costum’ em Toledo | de quantas querem casar;
e ũa molher furtou-lho | e foi-se per um logar
a ’scuso, e no-na pôde | home nem molher veer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
A outra saiu do banho, | e catou muit’ e nom viu
o sartal u [o] posera, | e deu vozes e carpiu;
e ũa moura da dona | aquelas vozes oiu
do sartal que lhe furtaram, | e logo lho foi dizer.
40
42
436
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
A dona com mui gram medo | do marid’ esmoreceu,
e foi-s’ a Santa Maria | e em prezes se meteu
ant’ a sua majestade, | e chorou muit’ e gemeu
e pediu-lhe que aquesta | coita tornass’ em lezer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
A molher que o furtara | fora-se logo sair
da vila; e, pois que home | deante nem depois ir
viu, prendeu atal conselho: | de s’ a sa casa vĩir,
ca nom acharia home | que lho podess’ entender.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, tornando-s’ a sa casa, | teve que era melhor
d’ atalhar pela eigreja, | e nom ir a derredor;
e, passand’ assi per ela, | a dona, com gram door
e porque muito chorara, | filhou-se d’ adormecer.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
E, jazend’ entredormindo, | antolhou-xe-lhe assi:
que seu sartal lhe levava | aquela molher per i;
e espertou-s’ e chamo’-a, | e tirou-lhe de so si
o sartal, que eno so | ela fora asconder.
68
Tod’ aquel que pola Virgem | quiser, do seu, bem fazer,
cousa que lhe faça míngua | grande nom há de perder.
64
R11
* * *
437
Cantigas de Santa Maria 213
«Quem serve Santa Maria, a senhor mui verdadeira»
(E 213, F [89])
Esta é como Santa Maria livrou um home bõo em Terena de morte dos parentes de sa
molher, que o queriam matar a torto ca lh’ apõíam que a matara ele, e nom era assi.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem serve Santa Maria, | a senhor mui verdadeira,
de toda cousa o guarda | que lhe ponham mentireira.
E de tal razom a Virgem | fez miragre conhoçudo
na eigreja de Terena, | que é de muitos sabudo,
ca sempre dos que a chamam | é amparanç’ e escudo;
e de como foi o feito | contar-vos-ei a maneira.
[Refrão = vv. 1-2]
Um hom’ em Elvas morava | que Dom Tomé nom’ havia,
que sobre tod’ outra cousa | amava Santa Maria,
e que ganhava grand’ algo | com sas bêstias que tragia,
carrejand’ em elas vinho | e farinha e ceveira.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquest’ hom’ era casado | com molher que el cuidava
que era bõa e salva; | mas em seu cuidar errava,
ca ela mui mais a outros | ca nom a ele amava,
e porém, quando podia, | era-lhe mui torticeira.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde lh’ avo um dia | que de sa casa saído
foi el com sas mercaduras; | e, poi-lo ela viu ido,
por fazer mais a sa guisa, | des que s’ achou sem marido,
fezo como molher maa: | nom quis albergar senlheira.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ela fazendo tal vida, | ũa noite a acharom
morta e acuitelada; | e seus parentes chegarom,
e, pois que a morta virom, | no marido sospeitarom
que a matara a furto | e se fora sa carreira.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Daquest’ o marido dela | sol nom sabia mandado;
e, quando chegou a Elvas, | foi logo desafiado
dos parentes dela todos, | e, sem esto, recadado
o houvera o alcaide; | mas fogiu aa fronteira.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, morand’ em Badalhouce, | entrou-lhe na voontade
que em romeria fosse | a Teren’, e piadade
haveria del a Virgem | mui comprida de bondade,
que de quanto lh’ apõíam | (pois que nom era certeira
40
42
438
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
cousa) que o guardaria | de nom prender mal a torto,
e que, tend’ el verdade, | nom fosse preso nem morto;
ca todos mui mal juigados | a ela vam por conorto,
ca em todo-los seus feitos | sempr’ é mui dereitureira.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Ele, pois foi na eigreja, | deitou-s’ entom mui festinho
ant’ o seu altar e disse: | “– Madre do velh’ e meninho,
que te does dos coitados, | doe-te de mi, mesquinho,
senhor, tu que és dos santos | espelho e lumeira;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e nom queiras que eu moira | a gram tort’ e sem dereito,
mas o feito desta cousa | per ti seja escolheito,
e faz que meus emigos | em al façam seu proveito,
e tol-me dessa companha, | tu que és sem companheira”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E, pois aquest’ houve dit’ e | sa oraçom acabada,
compriu bem sa romaria; | e depois aa tornada
topou em seus emigos, | que lhe tĩíam ciada,
mas veer no-no poderom, | ca nom quis a josticeira
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
madre de Deus Jesu-Cristo, | pero contra el catavam.
E, pois que ũa gram peça | em aquel logar estavam,
forom-se contra Terena, | u sem dulta o cuidavam
achar; mas o dem’ acharom | em forma del na ribeira
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
dum rio que per i corre | (de que seu nome nom digo),
indo pos el braadando: | “– Aquest’ é noss’ emigo!”.
E o demo contra eles | disse: “– Que havedes migo?:
ca nunca eu vos fiz torto, | sabe-o tod’ esta beira”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Mas eles lhe responderom: | “– Dom traedor, morreredes”.
E o demo lhes dizia: | “– Mui gram torto me fazedes,
ca eu nom hei nulha culpa | daquelo que m’ apõedes”.
Mas um foi-o acalçando | com sa azcõa monteira,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
e foi-se a el chegando, | sa azcõa sobre mão,
cuidando bem que corria | depos el per um gram chão
e que lhe dava gram colbe; | mas saiu-lhe tod’ em vão,
ca a ’zcũa chantou toda | per ũa grand’ azinheira.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Demais, em um gram barranco | caeu com el o cavalo,
assi que o nom poderom | nunca já dali sacá-lo,
e el por um mui gram tempo | no-no podiam sãá-lo,
94
439
96
ca ficou todo britado | dos pés tro ena moleira.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Os outros, quando chegarom | a el e o jazer virom,
cuidando que era morto, | muito por ele carpirom;
mas a qual parte o demo | foi, per rem no-no sentirom,
nem virom sol per u fora | fogind’ em sa égua veira.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E, pois lhes aquest’ avo, | filharom seu companheiro
e trouxero-no a Elvas, | onde moveram primeiro;
e souberom o engano | que lhes fez o dem’ arteiro,
e perdõarom o outro | da sanha homezieira
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
de sa molher, que matara, | com’ eles ante criíam;
e que os el perdõasse, | todos por Deus lhe pediam
mercee, e por sa madre, | ca bem de certo sabiam
que ela o guarecera, | como guariu a primeira
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
chaga que Adám nos fezo, | per que perderom a vida
dos ceos muitos e muitas; | mas esta senhor comprida
pela sa grand’ homildade | nos deu pera ceo ida
e fez cobrar paraíso, | que é vida duradeira.
122
Quem serve Santa Maria, | a senhor mui verdadeira,
de toda cousa o guarda | que lhe ponham mentireira.
118
R20
* * *
440
Cantigas de Santa Maria 214
«Como a demais da gente quer gãar per falsidade»
(E 214, F [99])
Como Santa Maria fez a um cavaleiro que gãasse ũa igreja que lhe prometera.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Como a demais da gente | quer gãar per falsidade,
assi quer Santa Maria | gãar per sa santidade.
Ca, se Deus deu aas gentes | jogos pera alegria
haverem, todo o tornam | elas em tafuraria,
e daquesta guisa querem | gãar; mais Santa Maria
nom lhe praz de tal gaança, | mais da que é com verdade.
[Refrão = vv. 1-2]
E porém contar-vos quero | miragre que hei oído
desta razom, que a Virgem | fez, madre do rei comprido,
que, por nos guardar d’ inferno, | foi na cruz mort’ e ferido.
E porém, se Deus vos valha, | amigos, bem m’ ascuitade.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Dous homes dados jogavam | a gram perfia provada,
e um deles era ric’, o | outro nom havia nada
senom quant’ ũa eigreja, | com que fazia passada,
que fora de seu linhage | e del bem come herdade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, macar que doutros jogos | eram eles sabedores,
entom outro nom jogavam | senom aquel que «maiores»
[chamam]; e o ric’, em logo | de meter i fiadores,
meteu [i] muitos dinheiros | por comprir sa voontade.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas o outro nom havia | outra requeza sobeja
que a[o] jogo metesse, | mas meteu i a eigreja
de que vos já dit’ havemos, | dizendo: “– Se quer que seja
Deus que o jogo gãedes, | esta igreja levade”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
O rico, quand’ oiu esto, | volveu na mão os dados
e lançou senas al-terce, | que som de pontos contados
dezeoito; e ma[i]s pontos | nom podem seer achados.
O outro, quando viu esto, | diss’: “– Ai Virgem de bondade
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
de Rocamador, senhora | de todos bes comprida,
vossa mercee nom seja | agora em mi falida;
mais dou-vos esta igreja | por vossa, em que servida
sejades: venced’ o jogo | e a eigreja filhade”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
441
VIII
46
48
E, des i, pois diss’ aquesto, | logo os dados filho’-os
na mão e mui coitado | eno tavleiro lanço’-os.
Mas a Virgem, que de reis | vem de todo-los avoos,
fez que um daqueles dados | se fendeu per meiadade;
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e, como do ás a face | devia jazer de juso,
fez per si dad’ a sa parte, | e tornou-s’ o ás de suso,
e de seis o outro meo | pareceu nom a escuso,
e os outros dous de senas: | pois dezenov’ i contade.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Assi ganhou a eigreja | Santa Maria por sua,
que o virom entom todos | quantos estavam na rua;
e o que venceu o jogo | disse: “– Senhor, seja tua,
ca per ti a hei cobrada | e por ta gram piadade”.
62
Como a demais da gente | quer gãar per falsidade,
assi quer Santa Maria | gãar per sa santidade.
58
R10
* * *
442
Cantigas de Santa Maria 215
«Com gram razom é que seja de Jesu-Crist’ amparada»
(E 215, F [61])
Esta é como Santa Maria defendeu ũa sa omage que nom recebesse dano de muitos
tormentos que lhe faziam os mouros, que a queriam desfazer e nom poderom.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Com gram razom é que seja | de Jesu-Crist’ amparada
a omage da sa madre, | Virgem santa corõada.
E daquest’ um gram miragre | vos direi, que na fronteira
mostrou i Santa Maria, | a senhor mui verdadeira,
quando passou Abo-Iúçaf | (nom da passada primeira,
mas da outra), e fez dano | grande daquela passada.
[Refrão = vv. 1-2]
E, porque dest’ os crischãos | nom eram apercebudos,
passou el come a furto | com muitos mouros barvudos;
e porém forom as vilas | e os castelos corrudos,
e, polos nossos pecados, | muita eigreja britada.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, por mal de nossa lee, | as campãas ém levavam,
e roubavam os altares, | que sol rem i nom leixavam;
e depois os crucifissos | e as omanhas britavam,
e tĩinham a fronteira | em mui gram coita provada.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo que correrom | pela Campinha um dia
e britarom ũ’ aldea | que cabo Martos jazia,
e romperom a eigreja | da Virgem Santa Maria,
e ũa omagem sua | foi deles logo levada;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e log’ aas albergadas | u pousava[m] a levarom,
e assentarom-se todos, | e tal conselho filharom:
que toda a desfezessem; | e sas espadas sacarom
entom, e end’ ũu deles | lhe foi dar ũ’ espadada
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
eno braço e talhou-lhe | del ũa mui gram partida.
Mas nom quis Deus que ficasse | a omagem escarnida;
e porend’ a aquel mouro | deu-lh’ ũa atal ferida
que lhe fez perdê-lo braço | log’, e caeu-lh’ a espada.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Os mouros, quand’ esto virom, | todos grandes vozes derom
que logo a pedrejassem; | e muitas pedras t[r]ouxerom,
e tirarom-lhe de preto; | mas ferir no-na poderom.
Entom houverom acordo | que fosse logo queimada.
40
42
443
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E metero-na no fogo | mui grand’, e jouv’ i dous dias;
mas o que em Babilonha | guardou no forn’ Ananias
e Misael o meninho | e o terce[i]r’, Azarias,
guardou aquesta do fogo, | que sol nom lhe noziu nada.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E do fogo a sacarom, | e houverom tal conselho:
que, porque aquest[e] feito | sol nom saíss’ a concelho,
que no rio a deitassem, | todo come em trebelho,
com ũa pedra mui grande | aa garganta atada.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E tantoste a deitarom | em um peego redondo;
mas nom quis Santa Maria, | per rem, que se foss’ a fondo.
Quand’ esto virom os mouros, | teverom que grand’ avondo
de vertud’ em ela era, | e foi da água sacada.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E tantoste a levarom | u rei de Grãada era,
que teve tod’ este feito | por gram maravilha fera,
e mandou de seus dinheiros | dar ao que lha trouxera,
e ar mandou a omagem | logo levar a Grãada.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Des i, mandou a crischãos | que a el-rei a trouxessem
de Leom e de Castela, | e o feito lhe dissessem
todo per como passara, | pero, por quanto podessem,
que nom foss’ el descoberto | que a havia ’nviada.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E eles toste verom | pera Segóvia aginha,
u el-rei era, e derom- | -lh’ a omagem da reinha,
Virgem santa groriosa; | e em panos que tĩinha
ricos fez que a omagem | fosse log’ envorulhada.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E mandou que a guardassem | mui bem ena sa capela,
e a todos fez mostrá-la, | que houvessem ém mazela,
e punhassem, come bõos, | com’ aquela alcavela
de mouros fosse vençuda | e a omagem vingada.
86
Com gram razom é que seja | de Jesu-Crist’ amparada
a omage da sa madre, | Virgem santa corõada.
82
R14
* * *
444
Cantigas de Santa Maria 216
«O que em Santa Maria de coraçom confiar»
(E 216, F [34])
Esta é como Santa Maria se mostrou em semelhança da molher do cavaleiro ao demo, e o
demo fugiu ant’ ela.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
O que em Santa Maria | de coraçom confiar,
nom se tema que o possa, | per rem, o dem’ enganar.
Daquest’ ora um miragre | fremoso quero dizer
que eu oí, dũa dona | que filhava gram prazer
em servir Santa Maria, | e e-no seu bem fazer
põía sua fazenda | e todo seu asperar.
[Refrão = vv. 1-2]
Ela dum bom cavaleiro | mui rico era molher,
que perdera quant’ havia, | e era-lhe mui mester
de o cobrar, e queria | cobrá-lo já comoquer;
e, po-lo cobrar, vassalo | se foi do demo tornar,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que lhe disso: “– Pois meu sodes, | mui grand’ algo vos darei;
e vossa molher tragede | a um mont’, e falarei
com ela, e porém rico | sem mesura vos farei”.
O cavaleir’ oiu esto | e foi-lho log’ outorgar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O diabo, pois menage | do cavaleiro filhou
que sa molher lh’ adussesse, | mui grand’ algo lh’ amostrou.
Porém como lha levasse | o cavaleiro cuidou,
e disso-lh’: “– Ai molher, treides | hoje mig’ a um logar”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
A ela foi-lhe mui grave | por de sa casa sair,
ca era dia da Virgem, | a que queria servir
em ũa sua igreja; | mas nom lho quis consentir
per rem o marid’, e foi-a | per força sigo levar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ela indo per carreira, | viu eigreja cabo si
estar de Santa Maria, | e disso: “– Quer’ eu ali
folgar ora ũa peça, | e andaremos des i”.
E deceu i e deitou-se | a dormir cab’ um altar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E saiu Santa Maria | de tra-lo altar entom,
e assi a semelhava | que diríades que nom
era senom essa dona; | e disso: “– É já sazom
de nos irmos, ai marido”. | E diss’ el: “– Temp’ é d’ andar”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
445
VIII
46
48
Entom foi Santa Maria | com el ao logar u
estava o demo. Quando | viu a madre de Jesu-Cristo, o demo lhe disse: | “– Mentira feziche tu
em trager Santa Maria | e a ta molher leixar”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Diss’ entom Santa Maria: | “– Vai, demo, cho de mal!:
cuidach’ a meter a dano | a mià serventa leal;
mas, de quanto tu cuidaste, | eu cho tornarei em al,
ca te tolho que nom possas | jamais fazer-lhe pesar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E diss’ ao cavaleiro: | “– Fostes home de mal sém
que cuidastes pelo demo | haver requeza e bem;
mais filhad’ ém pede[n]ça | e repentide-vos ém,
e o que vos deu leixade, | ca vos nom pode prestar”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
O cavaleiro da Virgem | muit’ alegre s’ espediu
e foi-s’ u sa molher era | e contou-lhe quanto viu,
e do dem’ e de seus dões, | de tod’ ali se partiu;
e dessa hor’ adeante | Deus grand’ algo lhes foi dar.
68
O que em Santa Maria | de coraçom confiar,
nom se tema que o possa, | per rem, o dem’ enganar.
64
R11
* * *
446
Cantigas de Santa Maria 217
«Nom dev’ a entrar nulh’ home na eigreja da senhor»
(E 217)
Esta é de como um conde de França que vo a Santa Maria de Vila-Sirga nom p[ô]de entrar
na eigreja a mos de se confessar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nom dev’ a entrar nulh’ home | na eigreja da senhor
se, ante, de seus pecados | mortaes quito nom for.
Ca, par Deus, muit’ é ousado | o que está em mortal
pecad’ e se nom repente, | d’ ir ant’ a esperital
reinha Santa Maria, | que tant’ avorrec’ o mal;
e quem se desto nom guarda, | cae de mal em peor.
[Refrão = vv. 1-2]
E dest’ um mui gram miragre | mostrou, per com’ aprendi,
a Virgem em Vila-Sirga, | dum conde que vo i
de França em romaria, | e cuidou entrar ali
na eigreja, u os outros | entravam a gram sabor.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aqueste dez cavaleiros | tragia, e quis entrar
ant’ eles ena eigreja; | mas, porque mãefestar
nom se fora dos pecados, | sol no-no pôd’ acabar,
ant’ houv’ a ficar de fora | com’ home mui pecador.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Quand’ esto viu sa companha, | punharom de o meter
per força ena eigreja; | mais nom houverom poder,
per força que i posessem, | sol dum logar o mover,
ca sofrer no-no queria | a madre do salvador.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E eles tant’ empuxarom | que o sangue lhe sair
fezerom bem pela boca | e pelos narizes ir;
quand’ aquesto viu o conde, | começou-s’ a repentir
e disse quanto leixara | a dizer, com gram door.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, pois foi mãefestado, | entrou logo manamám
bem dentro ena eigreja | sem trabalh’ e sem afám,
chorand’ e chamando muito: | “– Senhor do mui bom talám,
que me perdõar quisiste, | a ti dou porém loor”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ aquesto viu a gente, | houverom gram devoçom,
e quantos outros i eram, | e todos de coraçom
loarom muito a Virgem; | e as novas log’ entom
forom ém por toda ’Spanha | bem atá Rocamador.
40
42
R7
44
Nom dev’ a entrar nulh’ home | na eigreja da senhor
se, ante, de seus pecados | mortaes quito nom for.
* * *
447
Cantigas de Santa Maria 218
«Razom ham de seerem seus miragres contados»
(E 218, F [71])
Esta é como Santa Maria guareceu em Vila-Sirga um mercador d’ Alemanha contreito, que
era home muito honrado e rico.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Razom ham de seerem | seus miragres contados
da senhor que ampara | aos desamparados.
E dest’ em Vila-Sirga | miragre mui fremoso
mostrou a Virgem, madre | de Deus, rei grorioso,
e ontr’ os seus miragres | é d’ oir piadoso,
de que ela faz muitos | nobres e mui preçados.
[Refrão = vv. 1-2]
Em terra d’ Alemanha | um mercador honrado
houve, rico sobejo | e muit’ emparentado;
mas dũa ’nfermidade | foi atám mal parado
per que ficou tolheito | dambos e dous os lados.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E dest’ assi gram tempo | foi end’ atám maltreito
que de pees e mãos | de todo foi contreito;
e de seu haver tanto | lhe custou este feito,
assi que ficou pobre | e com grandes cuidados.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El em esto estando, | viu que gram romaria
de gente de sa terra | a Santiago ia,
e que com eles fosse | mercee lhes pidia;
e eles deste rogo | forom muit’ embargados,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ca, dũa parte, viam | sa grand’ enfermidade,
e ar, da outra parte, | a sa gram pobridade;
pero, porque haviam | dele gram piadade,
e-no levarem sigo | forom end’ acordados.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E ámedes fezerom | log’ em que o levavam;
e pera Santiago | sas jornadas filhavam,
e a mui grandes pas | alá com el chegavam;
mas nom quis que guarisse | Deus, polos seus pecados.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Depois, de Santiago | com ele se tornarom;
e, quand’ em Carrom forom, | ar cego o acharom,
40
448
42
e de o i leixarem | todos s’ i acordarom.
Mas atá Vila-Sirga | com el forom chegados,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
ca teverom que era | logar pera leixá-lo
mui melhor que em outro | e i acomendá-lo.
Porend’ aa igreja | punharom de levá-lo,
ca de o mais levarem | sol nom forom ousados,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
porque lhes nom morresse. | E assi o mesquinho
ficou desamparado, | e eles seu caminho
se forom. Mas a madre | do que da água vinho
fez, houve del mercee | e oiu seus braados,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que el mui grandes dava, | chamando “– Gloriosa!”
e chorando mui forte. | Mas a mui preciosa
oiu-o e sãou-o | come mui poderosa,
por que quantos i eram | forom maravilhados.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E pois a poucos dias | foi-se pera sa terra
por prazer da que nunca | sa mercee enserra.
E, pois alá foi, logo | nom fez como quem erra,
mas contou o miragre | da por que perdõados
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
somos de Jesu-Cristo, | cujos som os perdões.
E este, que fez? Logo | filhou mui bõos dões
e pois a Vila-Sirga | os deu em ofreções
aa Virgem, que nunca | falec’ aos coitados.
74
Razom ham de seerem | seus miragres contados
da senhor que ampara | aos desamparados.
70
R12
* * *
449
Cantigas de Santa Maria 219
«Nom convém aa omagem da madre do grorioso»
(E 219, F [72])
Esta é como Santa Maria fez tornar negra ũa figura do demo que era entalhada em mármor
b[r]anco, porque sia cabo da sa imagem que era entalhada em aquel mármor meesmo.
R0
2
I
4
6
Nom convém aa omagem | da madre do grorioso
rei que cabo dela seja | figura do dem’ astroso.
Que, assi como tevras | e luz departidos som,
assi som aquestas duas | por dereit’ e por razom;
ca a ũa nos dá vida | e a outra perdiçom.
E, de tal razom, miragre | vos direi mui saboroso.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ena terra de Toscana | ũa gram cidad’ há i
que «Sena» éste chamada; | e, como dizer oí,
fez o bispo na igreja | maior fazer pera si
um logar u preegasse | de mármor ric’ e fremoso.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E fez i vĩir maestres | sabedores de talhar,
e eno mármor mui branco | mandou-lhes i fegurar
omagem da Virgem Santa | Maria, que nos ampar,
que tiinha em seus braços | o seu filho precioso.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Outras histórias muitas | em aquel mármor fazer
mandou de muitas naturas; | e houve d’ acaecer
que poserom i o demo, | e foro-no compõer
mui mal feit’ em sa figura, | segundo x’ el é astroso.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas, porque o mármor era | branco, sem haver sinal,
houv’ o dem’ a seer branco, | e nom pareceu tam mal
como fezera se negro | fosse; mas nom quis que tal
ficasse a Virgem santa, | madre do rei poderoso.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Aquesto todo-lo virom. | Ond’ avo ũa vez
que a Virgem groriosa | sobr’ esto miragre fez
tam grande que a omagem | do demo tal come pez
fez tornar em ũa hora | mui feo e mui lixoso.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Outro dia, quand’ as gentes | verom missa oir
e virom o demo negro, | filharom-s’ end’ a riir;
mas, quando oiu o bispo | esto, cuidou que mentir
40
450
42
lh’ iam, e em ir veê-lo | nom vos foi mui vagaroso.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E mandou a um seu home | que o lavasse mui bem
e, des i, que o raesse; | mais sol nom lhe prestou rem:
ca de guisa o tornara | negro a que nos mantém
que desfazer no-no pôde. | E o bispo mui choroso
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
foi; ant’ o altar deitou-se | dizendo: “– Senhor, errei,
porque cabo da omagem | aquela fazer mandei;
porém mercee te peço | que me perdões, ca sei
que, se me tu perdõares, | que me nom será sanhoso
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
o teu filho Jesu-Cristo, | que éste home e Deus,
ca por ti muitos perdõa | e faz-lhes que sejam seus;
e eu aqueste miragre | farei põer entr’ os teus
miragres, porque bem creo | que é mui maravilhoso”.
62
Nom convém aa omagem | da madre do grorioso
rei que cabo dela seja | figura do dem’ astroso.
58
R10
* * *
451
Cantigas de Santa Maria 220
«E que-na nom loará»
(E 220)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Ca muito_é gram dereito, | quem d’ anjos é servida
e nos todo mal tolhe | no mundo_e nos dá vida,
que sempre a loemos; | ca, de loor, comprida
éste e sempre será.
8
E que-na nom loará
a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá?
4
R1
II
12
Dereit’ é que loemos a que sempr’ é loada
e da corte dos ceos servida e honrada,
e que ao seu filho por nós é avogada;
e gran[de] razom i há.
14
E que-na nom loará
a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá?
10
R2
III
18
Dereit’ é que loemos a que todo-los santos
loam dias e noites com mui fremosos cantos,
e Deus em nós por ela mostra miragres quantos
por outra nom mostrará.
20
E que-na nom loará
a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá?
16
R3
E que-na nom loará
a que todo mal tolhe | e todo bem nos dá?
* * *
452
Cantigas de Santa Maria 221
«Bem per-está aos reis d’ amarem Santa Maria»
(E 221, F [73])
[E]sta é como Santa Maria guareceu em Onha al-rei Dom Fernando quand’ era meninho,
dũa grand’ enfermidade que havia.
R0
2
I
4
6
Bem per-está aos reis | d’ amarem Santa Maria,
ca enas mui grandes coitas | ela os acorr’ e guia.
Ca muito a amar devem, | porque Deus nossa figura
filhou dela e prês carne; | ar porque de sa natura
vo, e porque justiça | tem del e dereitura,
e «rei» nome de Deus éste, | ca El reina todavia.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E porend’ um gram miragre | direi, que avo quando
era moço pequeninho | o mui bom rei Dom Fernando,
que sempre Deus e sa madre | amou e foi de seu bando,
por que conquereu de mouros | o mais da Andaluzia.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este meninh’ em Castela | com rei Dom Afonso era,
seu avoo, que do reino | de Galiza o fezera
vĩir e que o amava | a gram maravilha fera;
e ar era i sa madre, | a que muit’ ende prazia,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e sa avoa i era, | filha del-rei d’ Ingraterra,
molher del-rei Dom Afonso, | por que el passou a serra
e foi entrar em Gasconha | po-la ga[anh]ar per guerra,
e houv’ end’ a maior parte, | ca todo bem merecia.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E pois, tornou-s’ a Castela; | des i, em Burgos morava,
e um hospital fazia | el, e sa molher lavrava
o mõesteiro das Olgas; | e, enquant’ assi estava,
dos seus filhos e dos netos | mui gram prazer recebia.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mais Deus nom quer que o home | estê sempr’ em um estado:
quis que Dom Fernando fosse, | o seu neto, tam coitado
dũa grand’ enfermidade | que foi del desasperado
el-rei; mas entom sa madre | tornou tal come sandia.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E oiu falar de Onha, | u havia gram vertude;
diss’ ela: “– Levá-lo quero | alô, assi Deus m’ ajude,
ca bem creo que a Virgem | lhe dé vida e saúde”.
E, quand’ aquest’ houve dito, | de seu padre s’ espedia.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
453
VIII
46
48
Quanto-la ir assi virom, | gram piadad’ end’ haviam,
e mui mais polo meninho, | a que todos bem queriam;
e iam com ela gentes | chorando muit’, e changiam
bem come se fosse morto, | ca atal door havia
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca dormir nunca podia | nem comia nemigalha,
e vérmes del saíam | muitos e grandes, sem falha,
ca a morte já vencera | sa vida, sem gram baralha.
Mas chegarom log’ a Onha | e teverom sa vigia
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
ant’ o altar maior logo | e pois ant’ o da reinha,
Virgem santa groriosa, | rogando-lhe que aginha
em tam grand’ enfermidade | posesse sa meezinha,
se serviço do meninho | em algum tempo queria.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
A Virgem Santa Maria | logo com sa piedade
acorreu ao meninho | e de sa enfermidade
lhe deu saúde comprida | e de dormir voontade;
e, depois que foi esperto, | logo de comer pedia.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E ante de quinze dias | foi esforçad’ e guarido
tam bem que nunca mais fora; | demais, deu-lhe bom sentido.
E, quand’ el-rei Dom Afonso | houv’ este miragr’ oído,
logo se foi de caminho | a Onha em romaria.
74
Bem per-está aos reis | d’ amarem Santa Maria
ca enas mui grandes coitas | ela os acorr’ e guia.
70
R12
* * *
454
Cantigas de Santa Maria 222
«Quem houver na groriosa fiança com fé comprida»
(E 222, F [93])
Esta é como ũu capelám que cantava missa no mõesteiro das donas d’ Achelas, que é em
Portugal, cabo Lisbõa, consumiu ũa aranha que lhe caeu no cáliz, e sangrou-se e saiu-lhe viva
pela ferida.
R0
2
I
4
6
Quem houver na groriosa | fiança com fé comprida,
nom lhe nozirá poçonha, | e dar-lh’-á por sempre vida.
Ca ela troux’ em seu ventre | vida e luz verdadeira,
per que os que som errados | saca de maa carreira;
demais, contra o diabo | tem ela por nós fronteira
como nos nozir nom possa | em esta vid’ escarnida.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Pois dizer-vos quer’ eu dela | um miragre mui fremoso,
e bem creo que vos seja | d’ oí-lo mui saboroso,
e, demais, pera as almas | seer-vos-á proveitoso;
e per mi, quant’ hei apreso, | nom será cousa falida.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em Portugal, a par dũa | vila, mui rica cidade
que é chamada Lixbõa, | com’ eu achei em verdade,
hai um rico mõesteiro | de donas, e castidade
mantem, que pois nos ceos | hajam por sempre guarida.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Este mõesteir’ «Achelas» | há nom’ e ’si é chamado;
e um capelám das donas, | bõo hom’ e ensinado,
estava cantando missa | com’ havia costumado,
e avo-lh’ assi: ante | que foss’ a missa fĩída,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
quando [de] consomir houve | o corpo de Jesu-Cristo
(per que o demo vençudo | foi já por sempr’ e conquisto),
cae[u] dentro [e]no cáliz | (esto foi sabud’ e visto)
per um fi’ ũa aranha, | grand’ e negr’ e avorrida.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
O capelám ũa peça | estev’ assi em dultança
e nom soube que fezesse; | pero houve confiança
na Virgem Santa Maria, | e logo, sem demorança,
a aranha co-no sángui | houve logo consumida.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois que houv’ a missa dita, | o capelám logo dessa
foi contar est’ aas donas; | des i, aa prioressa.
40
455
42
E, com medo da poçonha, | mandou-o sangrar log’ essa
dona e toda-las monjas: | esta cousa foi ordida.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Mas agora oiredes | todos a mui gram façanha
que ali mostrou a Virgem, | nunca vistes tam estranha:
pelo braço lhe saí[a] | viva aquela aranha
ante que sángui saísse, | per u deram a ferida.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
As donas maravilhadas | forom desto feramente
e a aranha mostrarom | entom a muita de gente,
e loarom muit’ a madre | de Deus Padr’ omnipotente,
que todos ao seu reino | comunalmente convida.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Nós outrossi ar loemos | a Virgem Santa Maria
por tam fremoso miragre, | e roguemos noit’ e dia
a ela que do diabo | nos guard’ e de sa perfia,
que pera o paraíso | vaamos dereita ida.
62
Quem houver na groriosa | fiança com fé comprida,
nom lhe nozirá poçonha, | e dar-lh’-á por sempre vida.
58
R10
* * *
456
Cantigas de Santa Maria 223
«Todo-los coitados que querem saúde»
(E 223, F [55])
Esta é como Santa Maria sãou em [Terena, cabo] Monsaraz, um home bõo que cuidava morrer de rávia.
R0
2
I
4
6
Todo-los coitados que querem saúde
demandem a Virgem e a sa vertude.
Ca ela poder há de saúde dar
e vida por sempr’ a quem lha demandar
de coraçom. E desto quer’ eu contar
um mui bom miragre, assi Deus m’ ajude.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Per todo o mund’ ela miragres faz,
mais dũa sa casa, cabo Monsaraz,
que chamam «Terena», sei bem que assaz
faz muitos miragres a quem i recude.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E porend’ um home bõo, Dom Mateus,
que ’m Estremoz mora, prougu’ assi a Deus
que raviou mui fort’, e os parentes seus
alá o levarom (ca muit’ ameúde
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de toda-las terras gentes vem i),
e, pois i forom, quis a Virgem assi:
que foi logo são; e, com’ aprendi,
já lh’ ante faziam os seus ataúde
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
em que o metessem por morto, de pram.
Porém nom devia ter por afám
quem servir podess’ esta de bom talám,
e contra o demo daquesta s’ escude.
32
Todo-los coitados que querem saúde
demandem a Virgem e a sa vertude.
28
R5
* * *
457
Cantigas de Santa Maria 224
«A reinha em que é comprida toda mesura»
(E 224, F [3])
Como Santa Maria de Terena, que é no reino de Portugal, ressucitou ũa meninha morta.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A reinha em que é | comprida toda mesura,
nom é sem razom se faz | miragre sobre natura.
Ant’ é com mui gram razom, | a quem parar i femença,
em haver tal dom de Deus | a de que El quis nacença
filhar por dar a nós paz; | e tal é nossa creença;
e quem aquesto nom crê, | faz torpidad’ e loucura.
[Refrão = vv. 1-2]
Porend’ um miragre seu | vos direi, pois m’ ascuitades,
da Virgem a que deu Deus | poder sobr’ enfermidades
de as tolher; e sei bem | que, se i mentes parades,
veredes que há poder | sobre toda creatura.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Assi com’ oí dizer | a quem m’ aquest’ há contado,
riba d’ Aguadiana | há um logar muit’ honrado,
e «Terena» chamam i, | logar mui sant’ aficado,
u muitos miragres faz | a senhor de dereitura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo pois assi | que em Beja, u morava
um home casado bem | com sa molher, que amava,
almoxerife del-rei | era el, e confiava
muit’ em Santa Maria; | mais havia gram tristura
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
porque nom podi’ haver | filho de que gradoasse
e que, pois sa mort’, em seu | haver herdeiro ficasse.
Mais sa molher emprenhou, | e, u cuidou que folgasse
com filh’ ou filha, entom | ar vo-lh’ outra rancura:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
ca, u pariu sa molher, | naceu-lh’ entom ũa filha
que bem terredes que foi | muit’ estranha maravilha,
ca o braço lhe saiu | ontr’ o corp’ e a verilha
juntado dessum assi | que nom era de costura.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O bom hom’ e sa molher | forom entom mui coitados
e entenderom que foi | aquesto per seus pecados;
chorarom muito porém, | pero forom conortados,
e no que Deus quer fazer | cobrarom sa queixadura.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
458
VIII
46
48
E um an’ enteir’, ou mais, | em sa casa a criarom.
E dos miragres entom | da Virgem ali contarom
que faz grandes em Terena; | porend’ ambos outorgarom
de levá-la meninha: | fizerom atal postura.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E ambos de Beja ’ntom | se saírom pois um dia
com outra companha di; | e, quando forom na via,
ũa légua do logar | u era Santa Maria
de Teren’, acharom sa | filha morta. Logo cura
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
houverom de a levar | alá por ser soterrada
eno cimiteiro di. | Outro dia madrugada
mandarom missas cantar; | e, ũa missa cantada,
resorgiu a mort’ entom, | braadando de mesura.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
A volta foi no logar | grand’, e os romeus correrom
aa moça, e entom | dos pano-la desbolverom
e virom-lh’ o braç’ ali | desapreso, e renderom
graças a Santa Maria, | que é senhor d’ apostura.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Pois aquel miragr’ atal
em Teren’ e log’ assi |
em Bej’ e nos logares;
feito tam maravilhoso,
74
A reinha em que é | comprida toda mesura,
nom é sem razom se faz | miragre sobre natura.
70
R12
| virom os que i verom,
mui grandes ofertas derom
| e, pois que esto souberom,
| loarom a Virgem pura.
* * *
459
Cantigas de Santa Maria 225
«Muito bom miragr’ a Virgem faz estranho e fremoso»
(E 225, F [67])
Esta é como um crérigo estava cantando missa e viu jazer ũa aranha no cáliz, e consomiu-a,
e andava-lhe ontr’ o coiro e a carne viva, e depois fez Santa [Maria] que lhe saísse viva pela
unlha do dedo da mão.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito bom miragr’ a Virgem | faz estranho e fremoso,
porque a verdad’ entenda | o nêicio perfioso.
E daquest’ um gram miragre | vos será per mi contado,
e d’ oir maravilhoso, | pois oíde-o de grado,
que mostrou a Santa Virgem, | de que Deus por nós foi nado,
dentro_em Cidad[e] Rodrigo. | E é mui maravilhoso
[Refrão = vv. 1-2]
ontr’ os outros que oístes, | e tenh’ eu que atal éste
o que vos contarei ora, | que avo a um preste
que dizia sempre missa | da madre do rei celeste;
e, porque a bem cantava, | era ém mui desejoso
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
o poblo de lha oírem. | Mas um dia, sem falida,
ena gram festa d’ agosto, | desta senhor mui comprida
estava cantando missa; | e, pois houve consomida
a hósti’, ar quis o sángui | consomir do glorioso
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Jesu-Crist’, e viu no cáliz | jazer ũa grand’ aranha
dentro no sángui nadando, | e teve-o por estranha
cousa; mais mui grand’ esforço | filhou, a foro d’ Espanha,
e de consomi-lo todo | nom vos foi mui vagaroso.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois aquest’ houve feito, | nom quis que lh’ empeecesse
Deus o poçom da aranha | nem lhe no corpo morresse;
e, pero andava viva, | nom ar quis que o mordesse,
mas ontr[e] coir’ e carn’ ia | aquel bestigo astroso.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E andava muit’ aginha | pelo corp’, e nom fazia
door nem mal, por vertude | da Virgem Santa Maria;
e, se s’ ao sol parava, | log’ a aranha viía,
e mostrando-a a todos, | dizend’: “– O rei piadoso
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
quis que polos meus pecados | aqueste marteir’ houvesse;
porém rogo aa Virgem | que, se a ela prouguesse,
que rogass’ ao seu filho | que cedo mi_a morte désse
ou me tolhess’ esta coita, | ca bem é ém poderoso”.
40
42
460
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Esta aranha, andando | per cima do espinhaço
e depois pelos costados | e em dereito do baço,
des i ia-lh’ aos peitos, | e sol nom leixava braço
per que assi nom andasse; | e o corpo mui veloso
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
havia esta aranha. | E um dia, el estando
ao sol, hora de nõa, | foi-lh’ o braç’ escaentando,
e el a coçar filhou-s’, e | nom catou al senom quando
lhe saiu per so a unlha | aquel poçom tam lixoso.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, tantoste que saída | foi, o crérigo filhou-a,
e fez logo dela poos, | e em sa bolsa guardo[u]-a;
e, quando disse sa missa, | consumiu-a e passou-a,
e disse que lhe soubera | a manjar mui saboroso.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
As gentes que i estavam, | quand’ houverom esto visto,
loarom muito a madre | do santo rei Jesu-Cristo;
e des ali adeante | foi o crérigo por isto
mui mais na fé confirmado, | e nom foi luxurioso.
68
Muito bom miragr’ a Virgem | faz estranho e fremoso,
porque a verdad’ entenda | o nêicio perfioso.
64
R11
* * *
461
Cantigas de Santa Maria 226
«Assi pod’ a Virgem so terra guardar»
(E 226, F [13])
Esta é como o mõesteiro d’ Ingraterra que s’ afondou, a cabo dum ano saiu acima assi como x’ ant’ estava, e nom se perdeu nulh’ home nem enfermou.
R0
2
I
4
6
Assi pod’ a Virgem so terra guardar
o seu com’ encima dela ou no mar.
E dest’ um miragre, per quant’ aprendi,
vos contarei ora, grande, que oí
que Santa Maria fez, e cred’ a mi
que maior deste nom vos posso contar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ena Gram Bretanha foi ũa sazom
que um mõesteiro de religiom
grand’ houv’ i, de monges que de coraçom
serviam a Virgem beita sem par.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E Santa Maria, u todo bem jaz,
mostrava ali de miragres assaz
e tinha o logo guardad’ e em paz;
mais quis Deus por ela gram cousa mostrar:
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que dia de Páscua, u Deus resorgiu,
começand’ a missa os monges, s’ abriu
a terr’ e o mõesteiro se somiu
que nulha rem del nom poderom achar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E log’ assi todo so terra entrou
que niũa rem de fora nom ficou;
mas Santa Maria alá o guardou
que niũa rem nom pôde del minguar:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
eigreja nem claustra ne-no dormidor
ne-no cabídoo ne-no refertor
ne-na cozinha e ne-no parlador
nem enfermaria, u cuidam sãar,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
adega e vinhas com todo o seu,
hortas e moinhos, com’ aprendi eu,
guardou bem a Virgem, e, demais, lhes deu
todo quant’ eles souberom demandar.
40
42
462
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E assi viíam alá dentr’ o sol
como sobre terra; e toda sa prol
fazer-lhes fazia, e triste nem fol
nom foi nium deles, nem sol enfermar,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
per rem, nom leixou mentre forom alá,
nem ar que morressem come os dacá
morriam de fora: ca poder end’ há
de fazer tod’ esto e mais, sem dultar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Um grand’ an’ enteiro assi os ter
foi Santa Maria; mais pois foi fazer
que dali saíssem polo gram poder
que lhe deu seu filho po-la muit’ honrar.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Ca dia de Páscua, em que resorgir
Deus quis, forom todos a missa oir;
entom fez a Virgem o logar sair
todo sobre terra como x’ ant’ estar
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
soía, que sol nom ém menguava rem.
E a gente toda foi alá porém,
e o convento lhes contou o gram bem
que lhes fez a Virgem; e todos loar
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
a forom porém como madre de Deus,
que mantém e guarda aos que som seus.
Porém a loemos sempr’, amigos meus,
ca esta nos ceos nos fará entrar.
80
Assi pod’ a Virgem so terra guardar
o seu com’ encima dela ou no mar.
76
R13
* * *
463
Cantigas de Santa Maria 227
«Quem os pecadores guia e aduz a salvaçom»
(E 227, F [87])
Como Santa Maria sacou um escudeiro de cativo, de guisa que o nom virom os que guardavam o cárcer em que jazia.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem os pecadores guia | e aduz a salvaçom,
bem pode guiar os presos, | pois os saca de prijom.
Esta é Santa Maria, | madre do rei de vertude,
que fez um mui gram miragre | que creo, se Deus m’ ajude,
e que sacou um cativo | de prijom e deu saúde,
a que muito mal fezeram | os mouros por sa razom.
[Refrão = vv. 1-2]
Este foi um escudeiro | de Quintanela d’ Osonha,
que ia a Vila-Sirga | cada ano sem vergonha
ter a festa d’ agosto; | mas, pois foi por sa besonha
a Sevilha ena guerra, | caeu em cativ’ entom.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, em gram coita jazendo, | cada noit’ e cada dia
mui de coraçom rogava | a Virgem Santa Maria
de Vila-Sirga, u ele | ia sempr’ em romaria,
que de cativ’ o tirass[e] | sem dano e sem lijom.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, el aquesto fazendo, | chegou d’ agosto a festa
da Virgem mui groriosa, | que aos coitados presta,
e el nembrou-s’ end’, e logo | chorou, baixando a testa.
E os mouros que o virom | preguntaro-no entom
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
por que siía tam trist’ e | tam muit’ e assi chorava.
E el respondeu-lhes logo | de como xe lhe nembrava
da gram festa que faziam | na terra u el morava
em tal dia, e porende | quebrava-lh’ o coraçom.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quand’ oiu esto seu dono, | foi tam brav’ e tam irado
que logo a um seu mouro | o fez açoutar privado,
que lhe deu d’ açoutes tantos | que nom ficou no costado
ne-no corpo coiro são | atá eno vargalhom.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois mando’-o em um cárcer | deitar fond’ e tevroso;
mas el rogou aa Virgem, | madre do rei grorioso,
que dele s’ amerceasse, | ca por ela tam astroso
o fezeram a açoutes | os mouros, e por al nom.
40
42
464
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, el aquesto dizendo, | pareceu-lh’ a groriosa
que alumou o cárcer | (tam muito vo fremosa),
e disse-lh’: “– Oí ta coita | e nom fui mui vagarosa
em vĩir pera livrar-te | daquesta perseguçom”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, quando lh’ est’ houve dito, | logo s’ os ferros partirom
e caeu-lh’ a meadade | deles, que o nom oírom;
e passou perant’ os mouros | e viu-os, mas no-no virom,
que estavam assũados | por fazer sa oraçom.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, pois deles foi partido, | filhou em seu col’ aginha
a meadade dos ferros | que ena perna tiinha,
e a Vila-Sirga logo, | a cas da santa reinha,
os aduss’ em testimonha, | que é preto de Carrom.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
E entrou pela igreja, | dando mui grandes braados,
dizend’: “– Esto fez a Virgem | que acorr’ aos coitados”.
E, pois que contou seu feito | a quantos i viu juntados,
loarom Santa Maria, | chorando com devoçom.
68
Quem os pecadores guia | e aduz a salvaçom,
bem pode guiar os presos, | pois os saca de prijom.
64
R11
* * *
465
Cantigas de Santa Maria 228
«Tant’ é grand’ a sa mercee da Virgem e sa bondade»
(E 228, F [88])
Esta é como um home bõo havia um muu que era tolheito de todo-los pees, e o home bõo
mandava-o esfolar a um seu mancebo, e, mentre que o mancebo se guisava, levantou-s’ o muu
são e foi pera a eigreja.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Tant’ é grand’ a sa mercee | da Virgem, e sa bondade,
que sequer nas bestas mudas | demostra sa piadade.
E desto fez em Terena | a Virgem Santa Maria
gram miragre por um home | que um seu muu havia
tolheito d’ ambo-los pees, | que atrás tortos tragia,
que sãou por sa vertude; | e porém bem m’ ascuitade.
[Refrão = vv. 1-2]
Este mal a aquel muu | per gram door lhe vera
de gota que aas pernas | e aos pees houvera;
e porende no estabro | um mui gram tempo jouvera
que sol andar nom podia, | esto vos dig’ em verdade.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Quand’ aquesto viu seu dono, | atám muito lhe pesava
que, por delivrar-se dele, | log’ esfolar o mandava
a um seu hom’. E, enquanto | o manceb’ ant’ emorçava,
foi-s’ o muu levantando | com sua enfermidade,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e saiu passo da casa | e foi contra a eigreja,
indo frac’ e mui cansado; | mas a que beita seja,
tanto que foi preto dela, | fez maravilha sobeja:
ca o fezo logo são, | sem door e sem maldade.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
O manceb’ a que seu dono | já esfolar o mandara,
poi-lo nom viu, foi pos ele | per ali per u passara,
e viu-o par da eigreja, | mas nom tal qual o leixara;
e foi ém maravilhado | e diss’ à gent’: “– Uviade,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e veredes maravilha | estranha com gram proveito
deste muu, que ant’ era | dambo-los pees tolheito,
como o vej’ ora são | andar e muit’ escorreito;
e vejamos se é esse, | e comigo o catade”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E logo forom veê-lo | todos quantos i estavam,
e adur o conhociam, | pero o muito catavam,
40
466
42
senom pola coor dele | em que se bem acordavam;
mas saco’-os desta dulta | a Virgem por caridade:
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que, ali u o catavam, | andou ele muit’ aginha
três vegadas a eigreja | da Virgem Santa reinha
a derredor; e a gente, | que lhe bem mentes tĩinha,
viro-no com’ entrou dentro, | mostrando grand’ homildade,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
e bem ant’ o altar logo | houv’ os golhos ficados,
e pois foi-s’ a cas seu dono, | onde mui maravilhados
eram quantos i estavam. | E muitos loores dados
forom a Santa Maria, | comprida de santidade.
56
Tant’ é grand’ a sa mercee | da Virgem, e sa bondade,
que sequer nas bestas mudas | demostra sa piadade.
52
R9
* * *
467
Cantigas de Santa Maria 229
«Razom é grand’ e dereito que defenda bem a si»
(E 229)
Como Santa Maria guardou a sa eigreja em Vila-Sirga dos mouros que a queriam derribar,
e fez que fossem ende todos cegos e contreitos.
R0
2
I
4
6
Razom é grand’ e dereito | que defenda bem a si
a que defend’ outros muitos, | per com’ eu sei e oí.
E dest’ um mui gram miragre | avo, tempo há já,
quando el-rei Dom Alfonso | de Leom aduss’ acá
mouros por roubar Castela, | e chegarom bem alá
u ora é Vila-Sirga, | segundo que aprendi.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E forom aa eigreja, | em que lavravam entom
homees muitos da terra | por haver de Deus perdom;
e, quando virom as hostes | dos mouros, log’ a Carrom
fogirom, e a igreja | desampararom assi.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E os mouros dentr’ entrarom, | e quiserom derribar
toda a igreja logo | e destroir e queimar;
mas, per poder que houvessem, | nom poderom acabar
d’ arrancar a mor pedra | de quantas estavam i.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Demais, a força dos nembros | lhes fez a Virgem perder,
assi que, per nulha guisa, | nom poderom mal fazer,
e, sem aquesto, dos olhos | nom poderom rem veer:
assi cegos e contreitos | os levarom bem dali.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Desta guisa amparada | a eigr[ej]’ entom ficou
pola vertude da Virgem | santa, em que encarnou
Jesu-Cristo, e foi home, | e ena cruz nos salvou,
per que do poder do demo | ficamos livres des i.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Pois souberom os da terra | esto, derom gram loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
porque o seu bem guardara | e fora defendedor.
Porém mercee lhe peço | que queira defender mi.
38
Razom é grand’ e dereito | que defenda bem a si
a que defend’ outros muitos, | per com’ eu sei e oí.
34
R6
* * *
468
Cantigas de Santa Maria 230
«Tod’ home deve dar loor»
(E 230, F [64])
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Dereit’ é de loores dar
a aquela que sempre dá
seu bem, que nunca falirá;
e porend’, assi Deus m’ ampar,
8
tod’ home deve dar loor
aa madre do salvador.
4
R1
II
12
E, pois nos dá tam nobre dom
que nos faz o amor de Deus
haver e que sejamos seus,
porend’, assi Deus me perdom,
14
tod’ home deve dar loor
aa madre do salvador.
10
R2
III
18
E, pois tam poderosa é
e com Deus há tam gram poder
que, quanto quer, pode fazer,
por aquesto, per bõa fé,
20
tod’ home deve dar loor
aa madre do salvador.
16
R3
Tod’ home deve dar loor
aa madre do salvador.
* * *
469
Cantigas de Santa Maria 231
«Vertud’ e sabedoria»
(E 231, U (Ap) 4)
Esta é como Santa Maria fez que três meninhos alçassem em Costantinobre os mármores
que nom podiam alçar toda a gente que s’ i ajuntava.
R0
2
I
4
6
Vertud’ e sabedoria
de bem há Santa Maria.
Mui gram vertude provada
Deus, seu filho, lh’ houve dada
u prês sa carne sagrada
por nós, que salvar queria.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ar mui gram sém lh’ houve dado
u em ela enserrado
foi, ca bem ali mostrado
lh’ houve do bem que sabia.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Porém Costantin’ eigreja
desta que beita seja
fazia, grande sobeja,
em que gram custa prendia.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E dava muitos dinheiros
aos maestres pedreiros
que lhe trouxessem enteiros
mármores de Romania,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
os ũus pera altares,
e outros pera piares;
porém, de muitos logares
ali tragê-los fazia.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E tam grande-los trouxerom
que depois, quando quiserom
alçá-los, nunca poderom
per niũa maestria.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Ca, macar s’ i ajuntava
toda a gent’ e provava
d’ alçá-los, sol nom alçava
o mor que i havia.
470
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Ond’ o maestre, coitado,
era ém muit’ aficado,
porque sol dar i recado
per nulha rem nom podia.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
Mai-la da gram piedade,
mui sag’ e de gram bondade,
mostrou-se com claridade
ao maestr’ u dormia,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
e disse: “– Se me creveres
e meu mandado fezeres
e as pedras alçar queres,
porrei-t’ end’ eu ena via:
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
esto é que filhes cedo
três meninhos mui sem medo,
e farei-lhes alçar quedo
as pedras sem gemetria”.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
O maestre s’ espertava
e os mininhos filhava,
e, bem com’ ela mandava,
aquelas pedras ergia
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
sem ajuda de companha
nem d’ engenho nem de manha,
senom per vertud’ estranha
da beita que nos guia,
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
que faz miragres fremosos
muitos e maravilhosos
por nos fazer desejosos
d’ havermos sa companhia.
86
Vertud’ e sabedoria
de bem há Santa Maria.
82
R14
* * *
471
Cantigas de Santa Maria 232
«Em toda-las grandes coitas há força grand’ e poder»
(E 232, F [65])
Como um cavaleiro que andava a caça perdeu seu açor, e, quando viu que o nom podia
achar, levou ũu açor de cera a Vila-Sirga, e acho’-o logo.
R0
2
I
4
6
Em toda-las grandes coitas | há força grand’ e poder
a madre de Jesu-Cristo | d’ a que-na chama valer.
Ca enas enfermidades | há ela poder atal
que as tolhe e guarece | a quenquer de todo mal,
e outrossi enas perdas | ao que a chama val;
e daquest’ um gram miragre | vos quer’ eu ora dizer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Trevinh’ um cavaleiro | foi que era caçador,
e perdeu, andand’ a caça | ũa vez, um seu açor,
que era fremos’ e bõo; | demais, era sabedor
de filhar bem toda ave | que açor dev’ a prender.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Des i, era mui fremoso, | e ar sabia voar
tam apost’ e tam aginha | que nom lh’ achavam seu par
eno reino de Castela; | e um dia, pois jantar,
foi com el filhar perdizes, | e houve-o de perder.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Tod’ aquel dia busco’-o, | mais per rem no-no achou;
e foi-se pera sa terra, | e seus homes enviou
buscá-lo a muitas partes, | e por el tanto chorou,
pois viu que o nom achavam, | que cuidou ensandecer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Assi passou quatro meses, | segundo eu aprendi,
que o buscou, mais achá-lo | nom pôde, per com’ oí;
e com coita mandou cera | filhar, e disso assi:
“– Faça-m’ um açor daquesta, | ca o quer’ ir oferer
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
aa Virgem groriosa | de Vila-Sirga, ca sei
que, se eu aquesto faço, | que meu açor acharei”.
E esto foi logo feito; | e foi-s’ e, com’ apres’ hei,
foi aquel açor de cera | sobe-lo altar põer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E rogou Santa Maria, | chorando dos olhos seus,
chamando-lhe: “– Piadosa | Virgem e madre de Deus,
senhor santa e beita, | mostra dos miragres teus
por que meu açor nom perça, | ca be-no podes fazer”.
40
42
472
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Pois que sa oraçom feita | houve, ar tornou-s’ entom
a sa casa u morava, | chorando de coraçom;
e, pois entrou pela porta, | catou contra um rancom
e viu seu açor na vara, | u xe soía, seer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
Quand’ esto viu, os golhos | pôs em terra, e a faz,
loando Santa Maria, | que taes miragres faz;
e aa vara foi logo | filhar seu açor em paz
ena mão, e a Virgem | começou a beizer.
56
Em toda-las grandes coitas | há força grand’ e poder
a madre de Jesu-Cristo | d’ a que-na chama valer.
52
R9
* * *
473
Cantigas de Santa Maria 233
«Os que bõa morte morrem e som quitos de pecados»
(E 233, F [62])
Esta é como Santa Maria defendeu um cavaleiro que se colheu a ũa eigreja sua, dũus cavaleiros que o queriam matar.
R0
2
I
4
6
Os que bõa morte morrem | e som quitos de pecados,
som com Deus e com sa madr’ e | sempre fazem seus mandados.
Desto direi um miragre | que mostrou Santa Maria
por um mui bom cavaleiro | que em ela bem creía
e a que seus emigos | quiserom matar um dia,
se lh’ ela ’ntom nom valesse, | que val sempr’ aos coitados.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
El muit’ homeziad’ era | e sempr’ após el andavam
aqueles seus emigos, | porque matá-lo cuidavam;
mas um dia que o soo | eno caminho achavam,
a el correr se leixarom, | dando mui grandes braados,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
dizendo-lhe: “– Morreredes!”. | Mas el no-nos esperava,
ca tragia bom cavalo, | que o deles alongava;
e log’ a ũa ermida | foi da Virgem, u entrava,
que é cabo Pena-Cova | (u jaziam soterrados
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
homes bõos do tempo | que se perdera a terra,
que os mouros gaanharam, | e os mataram na guerra);
e ali Santa Maria | o amparou, que nom erra,
em com’ agor’ oiredes | se esteverdes calados.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ele de Santo Domingo | de Silos entom saíra,
e, quando foi na carreira | e, como vos dixe, vira
seus emigos pos ele | vĩir e que lhes fugira,
entrou naquela ermida | dizendo: “– Os meus pecados,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
madre de Deus, som tam muitos | que, se me nom perdõares
tu, que o bem fazer podes, | ou se me nom amparares
destes que me matar querem, | par Deus, muitos de pesares
te farám os malcreentes, | que andam desasperados”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Enquant’ el esto dizia, | os cavaleiros mui toste
chegarom po-lo matarem; | mas virom estar grand’ hoste
ant’ a porta da eigreja, | que era em um recoste,
40
474
42
e tod’ aquel logar cho | era d’ homees armados,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que lho defender queriam, | se s’ eles a el chegassem.
E, quand’ eles esto virom, | med’ houverom que s’ achassem
mal de Deus e de sa madre | se i mais fazer provassem,
e afastarom-s’ afora, | ca forom muit’ espantados.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Ca bem virom que aqueles | que o ajudar veram,
em como toste chegarom, | que deste mundo nom eram;
e porende repentidos | forom de quanto fezeram,
e perdõarom-lhe logo, | e forom del perdõados,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
e de sũu se tornarom. | E, pois as gentes souberom
da terra este miragre, | mui gram prazer end’ houverom;
e todos comunalmente | a Santa Maria derom
loores, porque som sempre | os seus por ela guardados.
62
Os que bõa morte morrem | e som quitos de pecados,
som com Deus e com sa madr’ e | sempre fazem seus mandados.
58
R10
* * *
475
Cantigas de Santa Maria 234
«A que faz os pecadores dos pecados repentir»
(E 234)
Esta é como Santa Maria de Vila-Sirga fez oir e falar um moço que era sordo e mudo, porque teve vigia ũa noit’ ant’ o seu altar.
R0
2
I
4
6
A que faz os pecadores | dos pecados repentir,
bem pod’ os mudos e sordos | fazer falar e oir.
Ca, macar é mui gram cousa | de fazer mudo falar,
e oir o que for sordo, | mui maior, se Deus m’ ampar,
é de perdõar pecados; | ca, se de Deus nom ganhar
vertude pera fazê-lo, | nom pod’ aquesto comprir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E porend’ a groriosa | Virgem, que o troux’ em si
enserrado no seu corpo, | fez, per com’ eu aprendi,
falar ũa vez um mudo | que era sord’ outrossi,
e destas duas doores | o foi mui toste guarir.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este moço de Saldanha | era, per com’ apres’ hei,
natural, e Dom Rodrigo | o criou, per quant’ eu sei,
que tiinh’ aquela terra, | ca ricom’ era del-rei,
e que com seus cavaleiros | lha havia de servir.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde lh’ avo um dia | que em coraçom lh’ entrou
que se foss’ a Vila-Sirga; | e foi i, e pois chegou,
aquel moço sord’ e mudo | alá consigo levou
e feze-o essa noite | bem ant’ o altar dormir.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Outro dia na manhãa | a missa mandou dizer
da Virgem Santa Maria, | de que Deus quiso nacer;
e, quando foi ena sagra, | começou-s’ a correger
a líng[u]a daquele moço, | e as orelhas d’ abrir.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
E, quand’ a missa foi dita, | que nom faliu ende rem,
falou log’ aquele moço, | e outrossi oiu bem.
E quantos ali estavam | loarom muito porém
a Virgem Santa Maria, | e forom-lh’ alg’ oferir.
38
A que faz os pecadores | dos pecados repentir,
bem pod’ os mudos e sordos | fazer falar e oir.
34
R6
* * *
476
Cantigas de Santa Maria 235
«Como gradecer benfeito é cousa que muito val»
(E 235)
Esta é como Santa Maria deu saúde al-rei Dom Afonso quando foi em Valadolide enfermo
que foi juigado por morto.
R0
2
I
4
6
Como gradecer benfeito | é cousa que muito val,
assi quem no-no gradece | faz falsidad’ e gram mal.
E daquest’ um gram miragre | vos direi desta razom,
que avo_a Dom Afonso, | de Castel’ e de Leom
rei, e, da Andaluzia, | dos mais reinos que i som;
e, por Deus, parad’ i mentes | e nom cuidedes em al.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aqueste Santa Maria | mui de coraçom, de pram,
loava mais doutra cousa, | e nom prendia afám
em servi-la noit’ e dia, | rogando seu bom talám
que morress’ em seu serviço, | poi-lo seu bem nunca fal.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, desto que lhe pedia, | tam muito a aficou
por esto que ũa noite | em sonhos lho outorgou,
ond’ ele foi muit’ alegre, | tanto que s’ el espertou,
e loou porend’ a Virgem, | a senhor espirital.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Pois, passou per muitas coitas, | e delas vos contarei.
ũa vez, dos ricos-homes, | que, segundo que eu sei,
se jurarom contra ele | todos que nom fosse rei,
seend’ os mais seus parentes | (que dívid’ é natural),
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e, demais, sem tod’ aquesto, | fazendo-lhes muito bem
(o que lhe pouco graciam | e nom tiinham em rem);
mais conortou-o a Virgem | dizendo: “– Nom dés porém
nulha cousa, ca seu feito | destes é mui desleal;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
mas eu o desfarei todo | o que eles vam ordir,
que aquelo que desejam | nunca o possam comprir;
ca meu filho Jesu-Cristo | sabor há de se servir,
e d’ hoimais mui bem te guarda | de gram pecado mortal”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Tod’ aquesto fez a Virgem, | ca deles be-no vingou.
E depois, quand’ em Requena | este rei mal enfermou,
u cuidavam que morresse, | daquel mal be-no sãou:
fez por el este miragre, | que foi começ’ e sinal
40
42
477
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
dos bes que lhe fezera | e lhe queria fazer.
E depois, quando da terra | saiu e que foi veer
o papa que entom era, | foi tam mal adoecer
que o teverom por morto | desta ’nfermidad’ atal.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, pois, a Mompisler vo | e tam mal adoeceu
que, quantos físicos eram, | cada ũu bem creeu
que sem dúvida mort’ era; | mas be-no per-guareceu
a Virgem Santa Maria, | como senhor mui leal.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E feze-lh’ em poucos dias | que podesse cavalgar
e que tornass’ a sa terra | por em ela bem sãar;
e passou per Catalonha, | em que houve de filhar
jornadas grandes no dia, | como quem and’ a jornal.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E, pois entrou em Castela, | verom todos ali,
toda-las gentes da terra, | que lhe diziam assi:
“– Senhor, tam bom dia vosco!”. | Mas depois, creed’ a mi,
nunca assi foi vendudo | rei Dom Sanch’ em Portugal.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Ca os mais dos ricos-homes | se jurarom, per com’ eu
sei, por [o] deitar do reino | e que ficasse por seu,
que xo entre si partissem; | mas de fazer lhes foi greu,
ca Deu-lo alçou na cima, | e eles baixou no val.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E depois, quand’ em Bitória | morou um an’ e um mês,
jazendo mui mal doente, | contra el o rei francês
se moveu com mui gram gente; | mas depois foi mais cortês,
ca Deus desfez o seu feito | com’ água desfaz o sal.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E, depois, de muitos maes | o sãou, grandes e greus,
que houve pois em Castela, | u quis o Filho de Deus
que filhasse gram vingança | daqueles que eram seus
emigos e pois dele; | e, bem com’ ard’ estadal,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
ardeu a carne daqueles | que nom queriam molher;
os outros pera o demo | forom (e, se Deus quiser,
assi irá tod’ aquele | que atal feito fezer;
e do mal que lhes ém venha, | a mi mui pouco m’ incal).
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E, pois sair de Castela, | el-rei com mui gram sabor
houve d’ ir aa fronteira; | mas a mui bõa senhor
nom quis que entom i fosse, | se nom sãasse melhor;
94
478
96
porend’ em todo o corpo | lhe deu febre geral.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
E com esta ’nfermidade, | das outras sãar o fez;
e, u cuidavam que morto | era, foi-se dessa vez
dereit’ a Valedolide, | u a senhor mui de prez
o guariu do que ficara. | Mas ante quis que em tal
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
ponto vess’ a seu feito, | que nom houvess’ i joiz
que de vida o julgasse, | e a santa ’mperadriz
lhe fez bem sentir a morte; | mais eno dia fiiz
de Páscua quis que vivesse, | u fazem ciro pascual.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E ar foi-o conortando, | ca maltreit’ era assaz,
e de todas sas doores | o livrou bem e em paz,
tragendo per el sas mãos, | e nom tiinha enfaz
e parecia ma[i]s crara | que é rubi nem crestal.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
E tod’ aquesto foi feito | dia de Páscua, a luz,
per ela e per seu filho, | aquel que seve na cruz,
que tragia nos seus braços, | que pera nós sempr’ aduz
a sa merce’ e sa graça | no perigo temporal.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
126
Tod’ aquesto faz a Virgem, | de certo creed’ a mim,
pera dar-nos bõa vida | aqui, e pois bõa fim;
e porende a loemos | que nos meta no jardim
de seu filh’ e que nos guarde | do mui gram fog’ ifernal.
128
Como gradecer benfeito | é cousa que muito val,
assi quem no-no gradece | faz falsidad’ e gram mal.
124
R21
* * *
479
Cantigas de Santa Maria 236
«A santa madre daquele que a pé sobe-lo mar»
(E 236, F [64 bis])
Como ũa molher perigoou no mar, e tragia um filho pequeno nos braços; e feze-a Santa
Maria per cima das águas andar de pé, assi como iria per um mui bom chão.
R0
2
I
4
6
A santa madre daquele | que a pé sobe-lo mar
andou, guaanhar del pode | por fazer i outr’ andar.
E dest’ um mui gram miragre | Santa Maria mostrou
por ũa molher mesquinha, | que no mar morrer cuidou
com seu filho que tragia; | mas a Virgem a livrou,
com’ agora oiredes, | se quiserdes ascoitar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta em ũa galea | andava, com’ aprendi,
de Marselha, dum c[o]ssairo | que diziam, com’ oí,
«Pero Bonifaz» per nome; | mas um dia foi assi
que se foi em um penedo | a galea espeçar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E pereceu a galea, | e morrerom log’ entom
quantos em ela andavam, | que nom escapou barom
nem molher das que i eram, | se aquela soa nom,
pero foi ũa vegada | bem ao fondo do mar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E tragendo enos braços | entom aquel filho seu,
eno coraçom a Virgem | rogou, com’ aprendi eu,
dizendo: “– Senhor mui santa, | por amor do filho teu
que sempre muito guardásti, | queiras este meu guardar”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ela aquesto rogando, | foi-lhe log’ aparecer
a Virgem Santa Maria , | e foi-a logo prender
pela mão, e da água | a começou a erger,
dizendo: “– Nom hajas medo, | ca eu te venh’ ajudar”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
[E] bem assi pela mão | a levou bem sem afám
tam quedo sobe-la água | assi come per um pram,
e pose-a eno porto | de Marselha, u estám
muitas gentes cada dia, | a que log’ ela contar
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
foi de como lh’ avera. | E todos logo, sem al,
loarom Santa Maria, | reinha esperital,
porque sempr’ aos coitados | enas grandes cuitas val;
e log’ a aquela pobre | forom porém algo dar.
40
42
R7
44
A santa madre daquele | que a pé sobe-lo mar
andou, guaanhar del pode | por fazer i outr’ andar.
* * *
480
Cantigas de Santa Maria 237
«Se bem na Virgem confiar»
(E 237, F [90])
Esta é como Santa Maria fez em Portugal, na vila de Santarém, a ũa molher pecador que
nom morresse atá que fosse bem confessada, porque havia gram fiança em ela e jajũava os sábados e os dias das sas festas a pam e água.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
Se bem na Virgem confiar
o pecador sabudo,
querrá-o na morte guardar
que nom seja perdudo.
E desta confiança tal | vos direi, se quiserdes,
que houve grand’ ũa molher; | e, pois que o souberdes,
loaredes a madr’ entom | de Deus, se me creverdes,
e haveredes des ali | o dem’ avorreçudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Esta molher em Santarém, | com’ aprendi, morava,
e, pero sa fazenda mal | fazia, confiava
na madre do mantedor | do mund’ e jajũava
o dia da encarnaçom, | que é ’stabeleçudo.
[Refrão = vv. 1-4]
As cinque festas da senhor | reinha corõada,
jajũava esta molher | e nom comia nada
senom pam e água, pero | seendo denodada
muit’ em seu corp’ abaldõar: | est’ era conhoçudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Outro costum’ esta molher | vos direi que havia:
missa cada sábad’ oir | da madre de Deus ia,
e em aquel dia fazer | maldade nom queria
por haver nem por outra rem: | assi hei aprendudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Vivend’ esta molher assi, | estand’ em tal estado
como vos retraí ant’ eu, | tev’ assi por guisado
d’ ir a sa terra; e entom | vestiu-se bem pr[i]vado
e saiu-se dali entom, | e nom muit’ ascondudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Mais aquel dia que sair | havia, sábad’ era,
e foi missa oir entom, | ca tal costum’ houvera
sempre tal di’; e um garçom | seu houv’ ém coita fera,
e com outros pos ela foi | como louc’ atrevudo.
481
R6 49-52
VII
54
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
[Refrão = vv. 1-4]
E foi-a entom acalçar | caminho de Leira;
pelos cabelos a tirou | do caminh’ a gram pa.
Ela começou vozes dar: | “– Ai eu em terr’ alha!,
a que mal tempo me chegou | meu feito decebudo!”.
[Refrão = vv. 1-4]
Quis aquel vilão comprir | sa voontade logo
com ela, mais disse-lh’ assi | ela: “– Por Deus te rogo
que nom seja, ca sábad’ é: | sequer a um moogo,
meu abade, o prometi”. | Mais el foi demovudo
[Refrão = vv. 1-4]
contra ela, o traedor, | e diz: “– Se nom fezeres
ora quant’ eu quiser, aqui | o corp’ e quant’ houveres
perdud’ hás”. E ela respôs: | “– Podes quanto quiseres
fazer, mas ant’ eu morrerei, | vilão, falso, rudo”.
[Refrão = vv. 1-4]
El com gram despeito travou | dela, e ameúde
chamou ela: “– Madre de Deus, | valha-m’ a ta vertude;
a meu mal nom queiras catar, | mas o teu bem m’ ajude
e os grandes miragres teus, | que o dem’ ham vençudo;
[Refrão = vv. 1-4]
senhor, senhor de gram poder, | valha-m’ a ta bondade,
nom me leixes perder assi, | pola ta piadade;
guarda-me polo prazer teu | do dem’ e de sa grade,
so que el muitos meter vai, | e do seu dent’ agudo;
[Refrão = vv. 1-4]
senhor, sempr’ em ti confiei, | comoquer que pecasse,
que dos grandes erros que fiz | a emenda chegasse;
e nom hei, mal pecado, já | temp’ em que os chorasse,
mas tu, madre do alto rei, | sei hoje meu escudo”.
[Refrão = vv. 1-4]
Daquesta guisa se queixou, | feramente chorando,
e nom se mãefestou. Mais | foro-na desnuando
de quanto tragia entom, | e, ela braadando,
muito lhe mostrou fals’ amor | aquel que foi seu drudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Esbulhou-a aquel ladrom | falso com gram loucura;
des i, degolou-a log’ i | sem do’ e sem mesura;
mais a de que ’l-rei Salomom | falou, santa e pura,
a sa oraçom bem oiu, | que sãa ceg’ e mudo.
[Refrão = vv. 1-4]
Pois que a assi degolou | mui longe da carreira,
fogiu-s’ e leixou-a jazer | so ũa gesteira.
E chegou logo bem ali | a santa verdadeira,
482
120
R15 121-124
XVI
126
128
R16 129-132
XVII
134
136
R17 137-140
XVIII
142
144
R18 145-148
XIX
150
152
R19 153-156
XX
158
160
R20 161-164
XXI
166
168
R21 169-172
XXII
174
176
R22 177-180
XXIII
182
184
R23 185-188
XXIV
190
que lhe diss’ entom: “– Erge-t’ ém, | ca, de pram, eu t’ ajudo”.
[Refrão = vv. 1-4]
Pela mão a foi filhar | a Virgem groriosa,
ao caminho a levou; | des i, mui saborosamente a cofortou; entom | diz: “– Nom sejas queixosa,
ca serás salva, porque é | já o dem’ abatudo”.
[Refrão = vv. 1-4]
E pois disse-lhe: “– Sei aqui, | nom temas nemigalha,
e pornám que daqui a crás | mãefestes ta falha,
quanta hás feita contra Deus; | e crei bem que te valha
meu filh’, e viverás com El, | pero te ’stá sanhudo;
[Refrão = vv. 1-4]
evas um cavaleiro vem | per aquele recoste,
que teu mandado levará | a Santarém mui toste;
e do concelho sairá | contra ti mui grand’ hoste,
e mui long’ este feito teu | seerá retraúdo”.
[Refrão = vv. 1-4]
Chegou-s’ o cavaleir’ entom | (ca andava aginha),
e, pois que viu assi seer | esta molher mesquinha,
sinou-s’ entom e diss’ assi: | “– Santa Virgem, reinha!:
quem foi o que t’ assi matou?: | seja el cofondudo!”.
[Refrão = vv. 1-4]
“– Cavaleiro,” –diss’ ela ’ntom– | “– e porque vos sinades?:
a mià senhor, madre de Deus, | faz esto, bem creades,
que quer que me confess’ ant’ eu | que moira, entendades,
que sobre-los santos tal dom | há ela recebudo;
[Refrão = vv. 1-4]
ca, porque a muito chamei | u m’ assi degolarom
homees a que nunca fiz | mal e que me roubarom,
porque fiei no seu amor, | sol que m’ eles leixarom
por morta, vo log’ a mi, | que m’ há bem acorrudo;
[Refrão = vv. 1-4]
mais mãefest’ haja por Deus, | se bem fazer queredes,
a que possa dizer meu mal; | e depois saberedes
da Virgem o gram poder seu, | e já o bem veedes
que nom lhe praz de me perder | com’ algum descreúdo”.
[Refrão = vv. 1-4]
O cavaleir’ a Santarém | se foi dereitamente,
e tod’ aqueste feit’ entom | diss’ a toda a gente.
E a crerizia dali | saiu[-se] mantenente:
do concelho rem nom ficou, | nem grande nem miúdo.
[Refrão = vv. 1-4]
Adussero-na bem dali | u a o cavaleiro
achou, e foi mui bem entom | confessada primeiro,
483
192
R24
194
196
e comungou-s’; e a madre | do filho verdadeiro
log’ a alma dela levou, | que lh’ houve prometudo.
Se bem na Virgem confiar
o pecador sabudo,
querrá-o na morte guardar
que nom seja perdudo.
* * *
484
Cantigas de Santa Maria 238
«O que viltar quer a Virgem, de que Deus carne filhou»
(E 238, F [49])
Esta é como Deus se vingou dum jograr tafur que jogava os dados e, porque perdera, descreeu em Deus e em Santa Maria.
R0
2
I
4
6
O que viltar quer a Virgem, | de que Deus carne filhou,
se pois del filha vinganç’, a | maravilha no-no dou.
A senhor que nos adusse | salvaçom e lum’ e luz,
e que viu por nós seu filho | morte prender ena cruz,
des i tem-nos amparados | do demo (que nos nom nuz),
em bõo dia foi nado | que-na serviu e honrou.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E desto vos direi ora | ũa vingança que fez
Jesu-Crist’ em Guimarães, | dum jograr mao rafez,
que El e sa Virgem madre | santa e o seu bom prez,
per que o mundo foi salvo, | ante todos dostou.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aqueste jograr jogava | os dados, com’ aprendi,
e descreía tam muito | que quantos siíam i
forom ém tam espantados | que se forom os mais di;
mais el de viltar a Virgem | e Deus sol nom s’ enfadou.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Nom quis catar o maldito | como prendeu carne Deus
na Virgem, e [que] pois prendeu | por el morte dos judeus,
mais o coraçom proposo | e todo-los sisos seus
em viltar Santa Maria, | de que Deus carne filhou.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E dezia que nom era | Deus nada, ne-no seu bem,
e que o da Virgem fora | chufa, ca nom outra rem.
E, el est’ e mais dizendo, | ei-vos um capelám vem
que levava Córpus Chrísti | a um que i enfermou
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
na vila. E os golhos | ficarom todos entom
ant’ aquel que da cada | nos foi tirar do dragom;
e o jograr mal-andante | cospiu e disse que nom
vira gente tam baveca, | e mui mal os dostou.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O capelám, quand’ o oiu | dizer mal do salvador
do mundo, mui gram despeito | houve daquel traedor;
e, pois se tornou du ia, | diss’ entom: “– Ai pecador
d’ home, porque dostavas | ora o que te formou,
40
42
485
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
o que te fez de niente | e pois há-t’ a desfazer,
e no dia do joízo | estarás a seu poder?;
cativ’, e nom sabes esto, | nem t’ ar queres conhocer
a aquel que do diabo | per seu sángui te livrou?;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e da Virgem groriosa | te nembra, e bem farás,
e filha ta pedença | por aquesto que dit’ hás”.
El respondeu escarnindo: | “– Crérigo, que torp’ estás!,
o bem!; de Deus e da Virgem | reneg’, e aqui me dou
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que nom hajam em mim parte | e que xe me fagam mal
e me metam, se podérem, | dentro no fog’ infernal”.
Quand’ est’ o crérigo oiu, | diss’: “– Ai groriosa, val!;
Deus filhe de ti vingança, | assi como se vingou
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
do traedor Simom Magos | encantador, que viltar
foi assi Santa Maria | e seu filho desdenhar”.
Esto diss’ o prest’, e foi-s’; e | o demo vo travar
eno jograr que vos dixe, | e assi o apertou
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
que o torceu entom todo. | E assi vingar se quis
Deus por si e por sa madre. | E desto seede fis:
que nunca mais falou nada; | e porém, pa-Sam Dinis,
atanto o tev’ o demo | tá que lh’ a alma sacou
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
do corpo e no inferno | a foi logo sobolir
(ca assi ir deveria | quenquer que foss’ escarnir
da Virgem e do seu filho, | que nos vo remiir):
[ca] qual senhor ele serviu, | assi lho gualardõou.
80
O que viltar quer a Virgem, | de que Deus carne filhou,
se pois del filha vinganç’, a | maravilha no-no dou.
76
R13
* * *
486
Cantigas de Santa Maria 239
«Guardar-se deve tod’ home de jurar gram falsidade»
(E 239, F [21])
Esta é dum miragre que Santa Maria fez em Murça por um home que deu seu haver a guardar a outro, e negou-lho e jurou-lhe por el ant’ a majestade.
R0
2
I
4
6
8
R1 9-10
II
12
14
16
R2 17-18
III
20
22
24
R3 25-26
IV
28
30
32
R4 33-34
V
36
38
40
R5 41-42
VI
44
46
Guardar-se deve tod’ home | de jurar gram falsidade
ant’ a omagem da Virgem, | que é senhor de verdade.
E desto vos quero falar
dum gram miragre e contar,
que Santa Maria mostrar
foi em Murça, na cidade,
por um que haver a guardar
deu a outr’ em fialdade,
[Refrão = vv. 1-2]
que lho tevesse, por lho dar
quando lho fosse demandar.
Mas aquele foi-lho negar,
dizendo: “– Gram torpidade
fezestes sol desto cuidar,
e alhur o demandade;
[Refrão = vv. 1-2]
ca eu nom tenho voss’ haver
nem nunca foi em meu poder;
e com’ ides ora dizer
tal mentira?; e calade!”.
Diss’ o outro: “– Ide fazer
jura ant’ a majestade
[Refrão = vv. 1-2]
da Virgem, de que Deus prender
quis carne por nós e nacer”.
Disso-lh’ aquel: “– Sol deter
nom me quero; pois andade
a jura ende receber,
e pois do al vos quitade”.
[Refrão = vv. 1-2]
D’ aquesto jurar nom dultou;
e, pois que a jura jurou,
da eigreja ir-se cuidou;
mas esto foi vãidade,
ca o queixo lhe derribou
Deus com grand’ enfermidade.
[Refrão = vv. 1-2]
E quis falar, mas nom falou;
e, pero a ir-se filhou,
e, u a sa casa chegou,
muit’ adur disse: “– Chamade
um prest’” (a quem se confessou:
487
48
R6 49-50
VII
52
54
56
R7 57-58
VIII
60
62
64
R8 65-66
IX
68
70
72
R9 73-74
X
76
78
80
R10 81-82
XI
84
86
88
R11 89-90
XII
92
94
96
R12
98
destes mores um frade).
[Refrão = vv. 1-2]
E começou-s’ a repentir
de seus pecados e sentir;
mas aquel nom quis descobrir,
de que fez grand’ idade,
ca outra doô-lo ferir
foi porém, par caridade;
[Refrão = vv. 1-2]
e tam muito o foi seguir
que já nom pude mais mentir,
e o frade fez [i] vĩir,
dizendo: “– Por Deus, uviade;
ca a alma mi quer sair,
porque menti; e vós dade[Refrão = vv. 1-2]
mi conselho, ca fiz gram mal,
ca jurei come desleal,
par Deus, gram mentira mortal;
e a Deus por mi rogade,
e, ao que fui mentiral,
o seu do meu lho pagade;
[Refrão = vv. 1-2]
e a Virgem, que pod’ e val,
madre do rei espirital,
por mi rogad’ em guisa tal
que nom cate mià maldade”.
E a tercer dia, sem al,
foi mort’. E porém loade
[Refrão = vv. 1-2]
a Virgem mui de coraçom
todos com [mui] gram devoçom,
que sempre d’ err’ e d’ ocajom
nos guarde por sa bondade,
e que de seu filho perdom
nos dé por sa piedade,
[Refrão = vv. 1-2]
assi que do demo felom
nom entremos em sa prijom,
nem caiamos em cofojom,
mentindo por livialdade;
e, pois El prês por nós paxom,
dé-nos no seu rein’ herdade.
Guardar-se deve tod’ home | de jurar gram falsidade
ant’ a omagem da Virgem, | que é senhor de verdade.
* * *
488
Cantigas de Santa Maria 240
«Os pecadores todos loarám»
(E 240, F [27])
Esta é [de] loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
e-na loar e dizer o seu bem
e nom cuidar nunca em outra rem;
ca, pois que pecam per seu mao sém,
roga por eles a do bom talám.
8
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
4
R1
II
12
e-na loar, e sempr’ eu loarei
os seus feitos, ca outro bem nom hei;
e, por aquesto, dereito farei,
e os coitados dereito farám.
14
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
10
R2
III
18
e-na loar e sempr’ esto fazer
polas sas coitas, de que faz lezer
quando Deus vee irado seer
polos pesares que lhe fazer vam.
20
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
16
R3
IV
24
e-na loar e nunca fazer al;
ca, u a chamam, sempr’ ela i val,
e per ela somos livres de mal
e do pecado que fezo Adám.
26
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
22
R4
V
30
e-na loar e dizer o seu prez
e quanto bem ela no mundo fez
e como roga por nós cada vez
que pecamos, por nos salvar, de pram.
32
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
28
R5
VI
36
e-na loar, e dereito será;
ca muito bem nos fez sempr’ e fará,
e, se nom foss’ ela, fôramos já
todos com Abirom e com Datám.
38
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
40
e-na loar, e farám gram razom;
ca ela ped’ a seu filho perdom
34
R6
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
VII
489
R7
42
quand’ eles erram, e outro padrom
nunca houverom ne-no haverám.
44
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
VIII
48
e-na loar, e quem esto fezer
fará dereito, pois sempr’ ela quer
rogar por nós u nos há mais mester,
por nos tirar de coitas e d’ afám.
50
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
46
R8
IX
54
e-na loar, ca Deus nom lhe fez par;
e porém devemos a confiar
dela, que por nós Deus verrá rogar
ali u todos muito temerám.
56
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham
52
R9
X
60
e-na loar, ca u Nostro Senhor
eno juízo mais irado for,
perdõar-lhes-á polo seu amor,
e estes taes nom se perderám.
62
Os pecadores todos loarám
Santa Maria, ca dereit’ i ham.
58
R10
* * *
490
Cantigas de Santa Maria 241
«Parade mentes ora»
(E 241, F [52])
Esta é como um meninho que era esposado com ũa meninha caeu de cima dũa muit’ alta
pena em fondo, e quebrou per todo o corpo e morreu; e sa madre começo’-o de pedir a Santa
Maria, e deu-lho viv’ e são, e ontr’ o moço e sa esposa meterom-s’ em ordem.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Parade mentes ora
como Santa Maria
d’ acorrer nom demora
a quem por ela fia.
E, se m’ oir quiserdes | e parardes femença,
direi-vos um miragre | em que hei gram creença,
que fez a groriosa | em terra de Proença
por ũa dona viúva | que um seu filh’ havia.
[Refrão = vv. 1-4]
Outra don’ a par desta | morava, sa vezinha,
viúv’, e ũa filha | havia fremosinha;
e o filho da outra | pagou-se da meninha,
e, com’ é de costume, | por molher a pedia.
[Refrão = vv. 1-4]
Assi foi que as donas | prougue-lhes deste feito:
esposarom os moços | entom pelo congeito
dum crérigo mui santo, | que juntou este preito,
prazend’ aos parentes | muito da preitesia.
[Refrão = vv. 1-4]
Log’ a madre do moço | convidou de bom grado
a moça e sa madre, | e mandou bem provado
guisar de comer toste; | e, o jantar guisado,
nom quis jantar o moço | logo, porque servia.
[Refrão = vv. 1-4]
O meninho andava, | com prazer da esposa,
servindo gram companha | de donas e fremosa
que s’ i entom chegara; | mais quis a groriosa
mostrar i sa vertude | no meninh’ aquel dia.
[Refrão = vv. 1-4]
A casa u jantavam | em um pened’ estava
muit’ alt’ e muit’ esquivo, | u a dona morava;
e o meninho_um vaso | em sa mão filhava
contra ũa festra, | e lavar o queria.
[Refrão = vv. 1-4]
Ao demo nom prougue | dest’, e com grand’ enveja
revolveu a pousada | o que maldito seja:
491
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11 89-92
XII
94
96
R12 97-100
XIII
102
104
R13 105-108
XIV
110
112
R14 113-116
XV
118
120
R15 121-124
XVI
el (que toda maldade | ama sempr’ e deseja)
fez o prazer em doo | tornar, ca lhe prazia.
[Refrão = vv. 1-4]
Estev’ o moç’ o vaso | na festra lavando,
e deitou-se de peitos, | e foi jaquê pesando
mais de-la cinta suso; | foi o demo puxando
da outra part’, e fora | pela pena caía.
[Refrão = vv. 1-4]
Saiu muit’ ao moço | sangue pelas orelhas,
e quebrarom-lh’ os braços, | olhos e sobrencelhas,
e houve feramente | desfeita-las semelhas;
e foi o moço morto | alá jus’ u jazia.
[Refrão = vv. 1-4]
Contar nom poderia | do doo que fezerom
a sogr’ e a meninha | e quantos i severom;
mais a madre do moço, | pero se del dolverom
todos, sol nom chorava | por el nem se carpia.
[Refrão = vv. 1-4]
A madre do meninho, | que havia fiança
na Virgem groriosa, | sem neũa dultança,
feze-o levar logo | com mui grand’ esperança
ant’ o altar da Virgem, | e assi lhe dizia:
[Refrão = vv. 1-4]
“– Ai Virgem groriosa, | tu que um filh’ houviste
por salvaçom do mundo, | e criast’ e nodriste,
des i de mort’ esquiva, | senhor, matá-lo viste,
e sabes com’ há coita | de filho que-no cria;
[Refrão = vv. 1-4]
senhor, dá-me meu filho, | ca bem podes fazê-lo,
ca de punhar i muito | nom hás, senom querê-lo;
porende dá-mi_o vivo, | que eu possa havê-lo
pera o teu serviço; | se nom, morta seria”.
[Refrão = vv. 1-4]
Per oraçom da madre | o moço deu levada
do leit’ em que jazia, | e viv’ essa vegada
deu vozes contra todos: | diss’: “– Ai!, de que pousada
me tirastes, mià madre, | u viçoso vivia!”
[Refrão = vv. 1-4]
Ficou aquel meninho | viv’ e tam bem guarido
que sol nom parecia | per u fora ferido.
Deu sa madr’ a Deus graças | que lhe tam bem comprido
foi o que demandava | e donde se doía.
[Refrão = vv. 1-4]
Prometeu aquel moço | que em ordem entrasse
492
126
128
R16 129-132
XVII
134
136
R17 137-140
XVIII
142
144
R18
146
148
e manter castidade | nos dias que durasse,
e de toda folia | des ali se quitasse;
e outrossi a moça | assi o prometia.
[Refrão = vv. 1-4]
Ambos filharem órdim | teverom por gram viço,
e a Santa Maria | fezerom i serviço
sempr’ enquanto viverom, | e destoutro boliço
do mundo se quitarom | e de toda folia.
[Refrão = vv. 1-4]
Este miragr’ escrito | foi logo mantenent’ e
deu a Santa Maria | graças toda a gente;
e nós assi façamos, | ca bem sei certamente
que é dos pecadores | esforç’ e lum’ e via.
Parade mentes ora
como Santa Maria
d’ acorrer nom demora
a quem por ela fia.
* * *
493
Cantigas de Santa Maria 242
«O que no coraçom d’ home é mui cruu de creer»
(E 242, F [68])
Esta é como Santa Maria de Castroxeriz guariu de morte um pedreiro que houvera de caer
de cima da obra, e esteve pendorado e teve-se nas pontas dos dedos da mão.
R0
2
I
4
6
O que no coraçom d’ home | é mui cruu de creer,
pode-o Santa Maria | mui de ligeiro fazer.
E d’ ela fazer aquesto | há gram poder, a-la-fé,
ca Deus lhe deu tal vertude | que sobre natura é;
e porém, macar nos ceos | ela com seu filho sé,
mui tost’ acá nos acorre | sa vertud’ e seu poder.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E dest’ um mui gram miragre | vos quer’ eu ora contar
que em Castroxeriz fezo | esta reinha sem par
por um bom home pedreiro, | que cada dia lavrar
ia ena sa igreja, | que nom quis leixar morrer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Est’ era mui bom maestre | de pedra põer com cal,
e, mais doutra rem, fiava | na Virgem esperital;
e porende cada dia | vĩía i seu jornal
lavrar em cima da obra. | E houve d’ acaecer
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
um dia em que lavrava | no mais alto logar di
da obr’, e ambo-los pees | lhe falirom e assi
cuidou caer, e a Virgem | chamou: per com’ aprendi,
os dedos em ũa pedra | deitou, e fê-lo ter
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a Virgem Santa Maria: | enas unlhas atám bem
o tevo, macar gross’ era, | que sol nom caeu, per rem;
e assi chamand’ estava | a senhor que nos mantém,
dependorado das unlhas | e colgado por caer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E estev’ assi gram peça | do dia, com’ apres’ hei,
que acorrudo das gentes | nom foi, segund’ eu achei;
mas acorreu-lhe a Virgem, | a madre do alto rei,
atá que vo a gente | e o fez ém decender.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Todos quantos esto virom | loarom de coraçom
a Virgem Santa Maria, | e aquel pedreir’ entom
ant’ o seu altar levarom, | chorando com devoçom;
e fezerom o miragre | per essa terra saber.
40
42
R7
44
O que no coraçom d’ home | é mui cruu de creer,
pode-o Santa Maria | mui de ligeiro fazer.
* * *
494
Cantigas de Santa Maria 243
«Carreiras e semedeiros»
(E 243)
Como ũus falcõeiros que andavam a caça estavam em coita de morte em um regueiro, e
chamarom Santa Maria de Vila-Sirga, e ela por sa mercee acorreu-lhes.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6
50
52
Carreiras e semedeiros
busca a Virgem Maria
pera fazer todavia
seus miragres verdadeiros.
E de tal razom com’ esta | avo ũa vegada
um miragre mui fremoso, | que a Virgem corõada
mostrou cabo Vila-Sirga | per ũa mui gram geada:
como guareceu de morte | estranha dous falcõeiros.
[Refrão = vv. 1-4]
Estes com el-rei andavam | Dom Afons’, e seus falcões
tragiam, e ar caçavam | com eles muitas sazões
sem el, mas por seu mandado. | Aquestes dous companhões
nom quiserom chamar outro | e forom caçar senlheiros.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois forom na ribeira, | u muitas aves andavam,
aas ãades deitarom | os falcões, que montavam;
des i, decerom a elas, | e assi as aaguavam
que com coita se metiam | so o geo nos regueiros.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ esto os falcõeiros | virom, verom aginha
e chegarom aa água, | cada um como viinha,
e britou-s’ entom com eles | o geo; mas a reinha
chamarom de Vila-Sirga | que os valess’, e certeiros
[Refrão = vv. 1-4]
forom bem que lhes valria. | Pero, ant’, ali jouverom
ũa peça so o geo, | que sair ém nom poderom;
mais, chamand’ a groriosa, | os geos se desfezerom,
e saírom ende vivos. | E log’ a seus semedeiros
[Refrão = vv. 1-4]
cavalgarom. Des i, forom | a Vila-Sirg’, e loores
derom a Santa-Maria, | que é senhor das senhores,
que sempre nas grandes coitas | acorr’ aos pecadores.
E, pois, est’ al-rei contarom | ante muitos cavaleiros.
Carreiras e semedeiros
busca a Virgem Maria
pera fazer todavia
seus miragres verdadeiros.
* * *
495
Cantigas de Santa Maria 244
«Gram dereit’ é que mal venha ao que tem em desdém»
(E 244)
Como Santa Maria guareceu um home que inchou que cuidou morrer, porque escarnecia
dos que iam a sa igreja.
R0
2
I
4
6
Gram dereit’ é que mal venha | ao que tem em desdém
os feitos da groriosa, | com que nos faz tanto bem.
E daquest’ um gram miragre | em Laredo conteceu,
que fezo Santa Maria, | aquela de que naceu
Jesu-Cristo, Deus e home, | que por nos salvar morreu;
e, por Deus, este miragre | ascuitade-o mui bem.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Lared’ há ũ’ igreja | que fora da vila ’stá,
que chamam «Santa Maria», | em que ela mostrad’ há
miragres bõos e muitos, | e porende vam alá
as gentes e dam i algo, | cada ũu do que tem.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ond’ avo que um dia | ũa bala saiu
e, per esse mar andando, | ao porto recodiu;
e leixou-s’ ir log’ a ela | a gente quando a viu,
que mui poucos i ficarom, | se nom foi ou quem ou quem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, pois a bala morta | foi, filharom-s’ a tornar
cada um pera sa casa; | pero, ant’, iam entrar
na igreja que vos dixe, | e a Deus s’ acomendar
e a sa beita madre, | de que todo bem nos vem.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas um desses marinheiros | filhou-s’ a escarnecer
da gente que i entrava, | e começou a dizer:
“– Ir quer’ eu aa taverna, | ante, do vinho bever,
e em aquesto bem tenho | que os vencerei de sém”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E logo se foi correndo | e na taverna entrou;
e, pois que beveu do vinho, | atám ferament’ inchou
e creceu-lhe tant’ o ventre | que per pouco rebentou,
que semelhava cavalo | que comera muito brem.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O cativo mui cuitado | foi quando se viu assi
estar, e a seus parentes | rogou-lhes que fossem i
com ele aa igreja; | e, segund’ eu aprendi,
40
496
42
teverom i sa vigia | e derom de seu argém.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Outro dia oiu missa | da madre do salvador,
e tornou entom tam são | como nunca foi melhor.
E el e todo-los outros | derom graças e loor
aa que sempre seu nome | beito seja. Amém.
50
Gram dereit’ é que mal venha | ao que tem em desdém
os feitos da groriosa, | com que nos faz tanto bem.
46
R8
* * *
497
Cantigas de Santa Maria 245
«O que em coita de morte mui grand’ ou em prijom for»
(E 245, F [51])
Como Santa Maria tirou um home de prijom e o fez passar um rio que era mui fondo, e nom
se molhou.
R0
2
I
4
6
O que em coita de morte | mui grand’ ou em prijom for,
cham’ a Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor.
Ca pola nossa saúde | prendeu dela carne Deus,
e, por nós seermos salvos, | feze-a sobre-los seus
coros dos anjos reinha; | e porend’, amigos meus,
dereit’ é que na gram coita | valha ao pecador.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E sobr’ aquest’ um miragre | mui fremoso vos direi
que fez em Riba de Límia | a madre do alto rei,
em Sam Salvador da Torre, | por um hom’, e mui bem sei
que haveredes fiança | [...]
[or]
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Entre Doir’ e Minh’ havia, | no reino de Portugal,
tal tempo foi, roubadores | que faziam muito mal:
escudeiros e peões, | cavaleiros outrotal,
aquel que mos roubava, | entr’ eles era peor.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Em aquel tempo morava | um home bõo ali
em Sam Salvador d[a] Torre, | e, per quant’ eu aprendi,
fazia bem sa fazenda | servindo Deus, e, des i,
havia gram confiança | na madre do salvador.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ali no adro havia | ũa capela entom
da Santa Virgem, e sempre | fazia sa oraçom
est’ hom’ ali ameúde; | des i, mui de coraçom
aquele logar honrava | com muita fremosa fror.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
O home bõo havia | nomeada que haver
havia grand’; e porende | os que soíam fazer
mal e roubavam a terra | foro-no entom prender
e, mao pecad’, haviam | de o espeitar sabor.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Metero-no em um barco | e passaro-no além,
e ia-no maltragendo | que lhes déss’ algũa rem;
e no castelo de Névia | o meterom, e, des ém,
40
498
42
o que o peor julgava | tĩía-s’ ém por [melh]or.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Muitas vezes açoutado, | como contarom a mim,
foi, e diziam: “– Vilão, | hoje seerá ta fim
se nos nom dás quant’ houveres”. | E jurou par Sam Martim
o alcaide que de coita | o faria sofredor.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Em um temom o alcaide | mui fort’ estirá-lo fez
e muita da água fria | deitar sobr’ el essa vez,
e o corpo com feridas | já chus negr’ era ca pez,
e o alcaide dizendo: | “– Dom vilão traedor,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
dizede que nos daredes; | se nom, a vossa molher
e os filhos prenderemos”. | Ele diss’ entom: “– Senher,
mil soldos de leoneses | vos darei per quant’ houver,
ca mais nom som atrevudo | de dar, par Nostro Senhor”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Eles esto nom quiserom | e foro-no açoutar,
se poderiam ainda | del mais dinheiros levar;
e, pois que o bem ferirom, | assentarom-s’ a jantar:
todos a ũa fogueira | severom a derredor.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
O home bõo, jazendo | em coita mui grand’ assaz,
diss’: “– Ai Virgem groriosa, | guarda-m’ hoje, se te praz,
daquesta prijom tam forte | em que o meu corpo jaz;
nembre-te se t’ eu serviço | fiz que foss’ a ta loor”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E, el aquesto dizendo, | ũa dona_entom entrou
per meogo do paaço; | e cada um a catou,
mais sol falar nom poderom, | nem home nom s’ abalou
que se levantar podesse, | mais houverom gram pavor.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E foi-se dereitamente | (que todos a virom ir)
ao hom’ e desliou-o, | e disse: “– Porque servir
me soes na mià capela, | porém te vim eu guarir
desta prijom em que jazes | tam fort’ e tam sem sabor”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E filhou-o pela mão | mui mans’ e mui sem afám
e levou-o per ontr’ eles; | e bem creede, de pram,
que home nom falou nada | nem fezerom adamám
sol de lh’ em ele travarem, | e perderom a coor.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E as portas do castelo | fortes, com’ aprendi eu,
estavam mui bem fechadas; | pero pelo poder seu
94
499
96
daquela que o levava | abrirom-s’, e com el deu
na riba do rio Límia, | e disse: “– Meu servidor,
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
entra no rio e passa | a além, e acharás
as portas do mõesteiro | sarradas, mas entrarás
per elas ousadamente | e na eigreja marrás,
e dirás est’ aos frades | todos e ao prior”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
El houv’ espanto do rio, | nom ousou i meter pé;
e diz: “– Senhor, muit’ é alto!; | des i, u mais baixo é,
há i mais de dez braçadas | ou doze, per bõa fé”.
Diss’ ela: “– Faz o que digo | e nom sejas dultador”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E meteu-s’ entom a vao | em aquel rio medês,
que sol nom houv’ i molhado | pé, nem outro dano prês;
e, ante que s’ i metesse, | disse-lh’ ela entom: “– Vês?:
de me fazeres serviço | haverás mais meu amor”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
El, pois’ houv’ além passado, | ante que vess’ a luz
entrou dentro na igreja | e deitou-s’ ant’ ũa cruz
e ant’ ũa majestade | da senhor que nos aduz
quanto de bem nós havemos | e nos é defendedor.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Entrarom entom os frades | nas matinas, e tafur
cuidarom entom que era | e entrara per algur;
e maravilhados eram, | ca solamente um mur
ali entrar nom podia, | pero fosse furador.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
E disserom: “– Tu que jazes, | bom hom’, e quem te meteu
em tal logar come este?: | bem louco fust’ e sandeu”.
Acordou; e o convento, | des que o bem conhoceu,
prougue-lhe muito com ele. | E el foi departidor
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
de quanto lh’ entom vera; | e jurou par Sam Denis
que sempr’ a Virgem servisse, | pois a ela prougu’ e quis
que de mal fosse livrado. | E per mi seede fis
que fez pois bem sa fazenda | e foi grand’ esmolnador.
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
O alcaid’ entom de Névia | com sua companha vil
virom que assi perderam | o pres’ e os soldos mil,
e que assi ũa dona | lho levara tam sotil-ment’; e virom que a madre | fora do remiidor.
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
XXV
Ca bem lhes diss’ o convento | a todos que a que sol
500
148
R25
150
fazer aos pecadores | que façam todos sa prol,
que fez aqueste miragre; | porém se teve por fol
cada um, e neum deles | nom foi depois malfeitor.
152
O que em coita de morte | mui grand’ ou em prijom for,
cham’ a Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor.
* * *
501
Cantigas de Santa Maria 246
«A que as portas do ceo abriu pera nos salvar»
(E 246, F [1])
Esta é dũa bõa molher que ia cada sábado a ũa eigreja que chamam «Santa Maria dos
Mártires», e obridou-xe-lhe, e depois foi alá de noite, e abrirom-xe lhe as portas da eigreja.
R0
2
I
4
6
A que as portas do ceo | abriu pera nos salvar,
poder há, nas deste mundo, | de as abrir e serrar.
Desto direi um miragre, | segundo que aprendi,
que avo em Alcáçar, | e creo que foi assi,
dũa mui bõa crischãa | molher que morava i,
que sabia ena Virgem | mais doutra cousa fiar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Onde por amor da Virgem | ao sábado sempr’ ir
punhav’ a ũa igreja | sua, oraçom oir,
e levava sa oferta | sigo pera oferir;
mas um sábado lh’ avo | que foi aquest’ obridar
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
por fazendas de sa casa | muitas que houv’ a fazer.
Mas aa tarde lh’ em mente | vo como falecer
fora, e arrepenti[u]-se; | e, por esto correger,
foi já tard’ aa eigreja | e cuidou i dentr’ entrar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Esta igrej’ alongada | da vila jaquant’ está.
Mas, quando chegou a ela, | cuidou log’ entrar alá,
mas as portas bem serradas | achou, e filhou-s’ acá
de fora fazer sas prezes, | e começou de chorar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois aquest’ houve feito | e compriu sa oraçom,
viu log’ as portas abertas, | e foi em seu coraçom
muit’ ende maravilhada, | porque molher nem barom
nom vira que lhas abrisse. | E foi log’ ao altar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e pôs i sa oferenda; | des i, logo se saiu
da igreja; e, pois fora | foi, as portas serrar viu;
e, com gram medo que houve, | logo dali recodiu
e foi-se pera a vila, | mas nom de mui gram vagar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, quando foi aas portas | da vila e entrar quis,
achou-as assi serradas | que des ali foi bem fis
de nom entrar, e cuitada | foi muit’ ém, par Sam Denis;
40
502
42
mas rogou entom a Virgem, | que lhas abriu log’ em par.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Entom ũa dona bela | e nobre lh’ apareceu,
que a filhou pela mão | e na vila a meteu
e levou-a a sa casa, | ond’ ela prazer prendeu;
mas ante que i chegasse, | começou-lh’ a preguntar
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
dizendo: “– Senhor, quem sodes, | que a tam pobre molher
com’ eu tam gram bem fezestes?” | Respôs-lh’ ela volonter:
“– Eu sõo a que nas cuitas | acorr’ a quem m’ há mester,
em que Deus, por sa mercee, | quis de mi carne filhar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quand’ a bõa molher esto | oiu, logo se deitou
a seus pees, por beijar-lhos; | mas no-na viu, e ficou
ende mui desconortada; | e em sa casa entrou.
E aqueste feit’ a todos | outro dia foi contar.
62
A que as portas do ceo | abriu pera nos salvar,
poder há nas deste mundo | de as abrir e serrar.
58
R10
* * *
503
Cantigas de Santa Maria 247
«Assi como Jesu-Cristo fez veer o cego nado»
(E 247, F [62 bis])
Como ũa meninha naceu cega, e a cabo de dez anos levaro-na a Santa Maria de Salas, e
deu-lhe logo seu lume Santa Maria.
R0
2
I
4
6
Assi como Jesu-Cristo | fez veer o cego nado,
assi veer [fez] sa madre | ũa moça mui privado.
Daquest’ um miragre fezo | em Salas Santa Maria
dũa moça que nacera | cega, e que nom viía,
nem vira pois fora nada; | mas em hora dũu dia
guariu-a Santa Maria, | como vos será contado.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esta, ante que nacesse, | sa madre a prometera
que serviss’ a sa eigreja | e um estadal de cera
oferecess’ i cad’ ano; | mas, porque cega nacera,
a madr’ era mui coitada | e o padre mui coitado.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Pero criarom sa filha, | e ela foi bem crecendo;
e, pois que compriu dez anos, | seu padre, com’ eu aprendo,
morreu, e ficou a madre; | e chorando e tremendo
levou a moça a Salas; | e diz: “– Senhor, há-ti grado
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que rogass’ eu a teu filho | que de meu marid’ houvesse
linhag[em]?; e naceu-m’ esta | filha; mas, se eu soubesse
que cega me naceria, | nom sei rem per que quisesse
havê-la; mas tua seja, | pois que cho por dom hei dado;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e porende cha aduxe | a esta tua eigreja,
creendo que em ti éste | mui gram vertude sobeja;
e, se te praz seu serviço, | dá-lhe lume com que veja,
e des hoimais pensa dela, | ca de mi sol um bocado
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
nom haverá”. E tantoste | revolveu-se muit’ aginha
pera ir-se da eigreja; | mas a mui santa reinha
fezo que a moça visse | co-na santa meezinha
que lhe seu filho mostrara, | e viu logo bem provado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Aquesto viu bem a gente | mui grande que i estava,
que toda comunalmente | Santa Maria loava,
que tal miragre fezera; | e a moça i ficava
varrendo sempr’ a eigreja | como lhe fora mandado.
40
42
R7
44
Assi como Jesu-Cristo | fez veer o cego-nado,
assi veer [fez] sa madre | ũa moça mui privado.
* * *
504
Cantigas de Santa Maria 248
«Sem muito bem que nos faze a senhor esperital»
(E 248, F [75])
Esta é como Santa Maria guardou na sa eigreja em Laredo dous marinheiros que se queriam matar ant’ o altar, e pola sa gram mercee guardo’-os que se nom matassem nem se ferissem,
e feze-os fazer paz.
R0
2
I
4
6
Sem muito bem que nos faze | a senhor esperital,
guarda-nos que nom façamos | quanto podemos de mal.
Ca, u a nossa natura | quer obrar mais mal ca bem,
guarda-nos ela daquesto, | que nom possamos, per rem.
E de tam gram piadade | um miragre direi ém
que mostrou grand’ em Laredo | a senhor que pod’ e val,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
na sa igreja que dixe, | que sobe-lo mar está
e que vam em romaria | as gentes muitas alá
rogar aa groriosa, | aquela que sempre dá
conselho aos cuitados | e que nas cuitas nom fal.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Onde foi ũa vegada | que forom i albergar
muitos homees da terra | e sas candeas queimar;
e entom dous marinheiros | filharom-s’ a pelejar,
bem ant’ o altar estando, | de peleja mui mortal.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E sacarom os cuitelos | log’ ambos por se ferir;
mas nom quis a groriosa | que o podessem comprir,
ca mover nom se poderom, | nem um ao outro ir;
e toda a gent’ i vo | veer este feit’ atal.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, assi como os braços | forom ambos estender
por se ferir, nom poderom, | per rem, poi-los encolher;
e, estando-se catando, | nom se podiam mover,
bem come se fossem feitos | de pedra ou de metal.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, estand’ assi tolheitos, | cada um se repentiu
muit’ e a Santa Maria | logo mercee pediu,
e, demais, toda a gente | que aqueste feito viu,
rogarom Santa Maria | logo, que nom houv’ i al.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
E ela o rogo deles | oiu e sa oraçom;
e estes que se queriam | mal, perdõarom-s’ entom.
E a gente que i era | loarom de coraçom
a Virgem, de que Deus quiso | nacer dia de Natal.
44
Sem muito bem que nos faze | a senhor esperital,
guarda-nos que nom façamos | quanto podemos de mal.
40
R7
505
Cantigas de Santa Maria 249
«Aquel que de voontade Santa Maria servir»
(E 249, F [69])
Esta é como Santa Maria livrou de morte em Castroxeriz um maestre que lavrava na eigreja
que chamam «Santa Maria d’ Almaçám» e que caeu de cima em fondo, e guardo’-o Santa Maria
que se nom feriu.
R0
2
I
4
6
Aquel que de voontade | Santa Maria servir,
d’ ocajom será guardado | e doutro mal, sem mentir.
E de tal razom com’ esta | um miragre vos direi
que em Castroxeriz fezo | a madre do alto rei,
a Virgem Santa Maria, | per com’ eu aprix e sei;
e, por Deus, meted’ i mentes | e querede-o oir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Quand’ a igreja faziam | a que chamam d’ Almaçám,
que é em cabo da vila, | muitos maestres, de pram,
iam i lavrar por algo | que lhes davam, como dam
aos que tal obra fazem. | Mas um deles rem pedir
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
nom queria, mas lavrava | ali mui de coraçom
pora ga[anh]ar da Virgem | mercee e gualardom.
E porend’ or’ ascuitade | o que lh’ avo entom,
e sempr’ haveredes ende | que falar e departir.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El maestr’ era de pedra, | e lavrava bem assaz
e quadrava bem as pedras | e põía-as em az
eno mais alto da obra, | como bom maestre faz.
E um dia, fazend’ esto, | forom-lh’ os pees falir,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e caeu bem do mais alto;
a Virgem Santa Maria, |
ca, pero que da cabeça |
assi o guardou a Virgem
28
30
| e em caendo chamou
que o mui toste livrou:
sobe-los cantos topou,
| que sol nom se foi ferir,
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
nem sentiu sol se caera | nem recebeu neum mal;
ante s’ ergeu mui correndo, | que nom tev’ olho por al,
mas foi-s’ ao altar logo | da Virgem espirital
por loar a sa mercee | e os seus bes gracir.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
E quantos ali estavam | derom loores porém
aa Virgem groriosa, | que os seus val e mantém.
E porende lhe roguemos | que sempr’ hajamos seu bem
e nos ganh’ o de seu filho, | que nos vo remiir.
44
Aquel que de voontade | Santa Maria servir,
d’ ocajom será guardado | e doutro mal, sem mentir.
40
R7
506
Cantigas de Santa Maria 250
«Por nós, Virgem madre»
(E 250, F [76])
Esta é de loor de Santa Maria.
I
1
R
3
R
5
II
6
R
8
R
10
III
11
R
13
R
15
Por nós, Virgem madre,
roga Deus, teu padre,
[teu] filh’ e amigo.
Roga Deus, teu padre,
[teu] filh’ e amigo.
A Deus, que nos preste
roga-lhe, pois éste
teu filh’ e amigo.
Roga-lhe, pois éste
teu filh’ e amigo.
Roga que nos valha,
pois El é, sem falha,
teu filh’ e amigo.
Pois El é, sem falha,
teu filh’ e amigo.
* * *
507
Cantigas de Santa Maria 251
«Mui gram dereito faz d’ o mund’ avorrecer»
(E 251)
Como Santa Maria levou consigo a meninha de Proença que pedia o filho aa sa majestade.
R0
2
I
4
6
Mui gram dereito faz | d’ o mund’ avorrecer
o que pode amor | da Virgem bem haver.
Em terra de Proença | um gram miragr’ achei
escrito que fezera | a madre do gram rei;
e, des que o oirdes, | bem sõo fis e sei
que nom oístes doutro | nunca tal retraer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Um burgês i havia | mui rico e que bem
casad’ era, mas filhos | nom podia, per rem,
haver, ca lhe morriam; | e prometeu porém
ũa que lhe nacera | de_em ordem-na meter.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Porend’ a um convento | de donas que dali
mui pret’ era, sa madre | levou-a, com’ oí.
E a moça na claustra, | per com’ eu aprendi,
viu ũa majestade | enos braços ter
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
seu filho; e de pedra | eram ambos, nom dal,
mas eram tam bem feitos | que a moça atal
amor colheu com eles | que des ali, sem al,
nium sabor havia | d’ outra cousa veer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
[E] sempre quand’ a madre | aa eigreja_orar
ia e a levava | sigo ant’ o altar,
logo_ela s’ esfurtava | e ia-se parar
ant’ aquela omagem, | ond’ havia prazer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E levava-lhe sempre | rosa ou outra fror
ou fruita que achasse | de mui bõa odor;
e com esta omagem | colheu tam grand’ amor
que outra rem do mundo | nom sabia querer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quando chegou seu tempo | que em religiom
meterom a mininha, | vo-lh’ a coraçom
de pedir o seu filho | da omagem entom,
que faagar podesse | e em braços colher.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
508
VIII
46
48
Porque a moça tantas | vezes viíam ir
as donas aa claustra | e delas se partir,
porém a asseitarom, | e virom-lhe pedir
o filh’ aa omagem, | e virom-lhe tender
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
os braços que lho désse. | E ela ar tendeu
os seus braços e deu-lho; | e, poi-lo recebeu,
a moça faago’-o, | e tal amor colheu
com el que des i «filho» | começou a dizer,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e mui leda, canta[n]do, | nos braços o filhou.
E, aquesto fazendo, | o convento chegou;
e a omagem logo | seu filh’ a si tirou,
assi que todas elas | bem lho virom fazer.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Ma[n]tenent’ o convento | levarom manamám
logo dali a moça, | pero com grand’ afám
chorando e dizendo: | “– Monjas, de mal talám
sodes, porque meu filho | mi fezestes perder”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Quando a abadessa | a ’ssi falar oiu
tam aficadamente, | preguntou-lhe que viu;
mas, chorando, a moça | assi lhe recodiu:
“– Rogo-vos que meu filho | me querades render”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Sobr’ est’ a madre vo | e preguntou-lh’ assaz
que vira; e a moça | lhe diss’: “– A mi nom praz
dal senom de meu filho, | e dade-mi_o em paz”.
E ergeu-se mui toste | e filhou-s’ a correr,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e foi-se à omagem | e disse: “– Dá-me meu
filh’”; e tendeu os braços | como se fosse seu.
Quand’ esto viu a madre, | em ela salto deu,
cuidando que queria | por el ensandecer.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E sobr’ est’ ao papa | (que tem logar de Deus),
que dali mui pret’ era, | a madre e os seus
parentes a levarom | dia de Sam Mateus,
dizendo: “– Padre santo, | que pod’ esto seer
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
desta moça que «filho» | chama, e al nom diz,
por um da majestade | pintad’ e com verniz?;
mas vós que s[o]des padre | da lee e joiz,
rogad’ a Deus que desto | a quera guarecer”.
94
96
509
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
O papa (que sant’ home | era) respôs-lhes: “– Crás
mandarei cantar missa, | e tu a levarás”,
–diss’ à ama da moça–, | “e, se de Satanás
vem aquesta sandece, | pode-se desfazer”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
A missa foi cantada | logo depo-la luz
a grand’ honra da madre | do que morreu na cruz;
e, quando foi na sagra, | aqué a madr’ aduz
ant’ o altar sa filha | po-lo feito saber.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
A moça teve mentes | e dacá e dalá,
e pois [que] viu a hóstia | alçar, disso: “– Ahá,
aquel é o meu filho, e dade-mi_o acá”.
E o papa fez logo | a hóstia trager
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
e meteu-lha nas mãos; | e diss’ ela: “– Est’ é
o meu amado filho, | filho meu, a-la-fé;
e porende me quero | ir com el, ca temp’ é”.
E meteu-a na boca, | e leixou-se morrer.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
126
Quand’ esto viu o papa | (que sant’ home fiel
era), loou porende | o gram Deus d’ Irrael
e a Santa Maria, | que miragre tam bel
mostrara; e tantoste | o mandou escrever.
128
Mui gram dereito faz | d’ o mund’ avorrecer
o que pode amor | da Virgem bem haver.
124
R21
* * *
510
Cantigas de Santa Maria 252
«Tam gram poder a sa madre deu eno fondo da terra»
(E 252, F [63])
Esta é de como Santa Maria guardou ũus homes que nom morressem de juso dum gram
monte de ara que lhes caeu de suso.
R0
2
I
4
6
Tam gram poder a sa madre | deu eno fondo da terra
Deus d’ acorrer os coitados, | bem come em alta serra.
E sobr’ aquest’ um miragre | pequen’ e bõo d’ oir
direi que Santa Maria | fez fremoso, sem mentir;
e per i saber podedes | como guarda quem servir
a vai, de mal e de morte, | e daquesto nunca erra.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Castroxeriz foi esto | de que vos quero contar:
que por fazer a igreja | de que vos fui já falar,
homes so terra entrarom | pera ara cavar;
mas caeu logo sobr’ eles | o mont’, e como quem serra
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
porta, assi enserrados | forom todos, e, sem al,
cuidarom que eram mortos. | Mais a senhor ’spirital
os acorreu muit’ aginha | e os defendeu de mal
do demo, que bem cuidava | haver sas almas per guerra.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Os da vila, quand’ oírom | esto, per com’ aprendi,
quiserom cavar o monte | pera tirá-los dali,
cuidando que mortos eram; | mas acharo-nos assi:
todos oraçom fazendo | aa Virgem, que aterra
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
o demo. E porém todos | forom logo dar loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
ant’ o altar da igreja | u faziam o lavor,
ca o que o demo mete | em ferros, ela desferra.
32
Tam gram poder a sa madre | deu eno fondo da terra
Deus d’ acorrer os coitados, | bem come em alta serra.
28
R5
* * *
511
Cantigas de Santa Maria 253
«De grad’ há Santa Maria mercee e piadade»
(E 253, F [31])
Esta é como um romeu de França que ia a Santiago foi por Santa Maria de Vila-Sirga, e
nom pôd’ ém sacar um bordom de ferro grande que tragia em pedença.
R0
2
I
4
6
De grad’ há Santa Maria | mercee e piadade
aos que de seus pecados | lha pede[m] com homildade.
Ca pela sa homildade | é ela lum’ e espelho
de todo-los pecadores, | e abrigo e conselho;
e a sa virgĩidade | legou forte no vencelho
o demo, que nos quisera | todos meter so sa grade.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E roga sempr’ a seu filho | esta Virgem corõada,
polos erros que fazemos | em esta vida minguada,
que nos perdom os pecados, | ca x’ é nossa avogada.
Porém dela um miragre | direi, e vós m’ ascuitade.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Um home bõo morava | ena vila de Tolosa
que, comoquer que pecasse, | ena Virgem groriosa
sempr’ havia gram fiança; | mais a senhor piadosa
mostrou-lhe bem que havia | del mercê de voontade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O home bõo entendeu | que andava em pecado,
e foi-se confessar logo; | e, pois foi bem confessado,
recebeu em pedença | que fosse logo guisado
pora ir a Santiago, | ca lhe mandou seu abade.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Des i, um bordom levasse | de ferro, em que houvesse
de livras viint’ e quatro, | e, comoquer que podesse,
a sas costas ou na mão, | o levass’, e o posesse
ant’ o altar de Sam Jame, | e nom foss’ em poridade.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
El fez log’ o mandamento | de seu abade, sem falha,
e o bordom fazer toste | mandou, assi Deus me valha,
de viint’ e quatro livras, | que nom mingou nemigalha:
sequer vi eu que-no vira, | que m’ ém contou a verdade.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E el indo per Castela | com seu bordom francamente,
a eigreja do caminho | viu [i] logo mantente
que chamam de Vila-Sirga, | e preguntou aa gente
por aquel quê logar era; | e disse-lh’ entom um frade:
40
42
512
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
“– Ali chamam Vila-Sirga, | logar mui maravilhoso,
em que muito bom miragre | sempre faz e saboroso
a santa Virgem Maria, | madre do rei poderoso;
e a eigreja é sua | e derredor a herdade”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O romeu, que muit’ amava | a Virgem de bem comprida,
desviou-se do caminho | e fez entom alá ida
e meteu-se na igreja, | u sa oraçom oída
foi da Virgem groriosa, | em que há toda bondade.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E perdom de seus pecados | pediu [el] bem ali logo,
e diss’: “– Ai Santa Maria, | por esto perdom te rogo”.
E tantost’ o bordom grosso | quebrou pelo meo logo,
que posera com sa mão | el ant’ a sa majestade.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
El viu o bordom quebrado | assi, e maravilhou-se,
que caeu em duas peças | já feit’, e porém sinou-se,
e quantos ali estavam; | des i entom levantou-se
por s’ ir e dali levá-lo, | por gãar sa caridade.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E o bordom que jazia | em duas peças no chão,
no-no tirou da igreja, | pero era bom crischão,
per poder que el houvesse; | e porém teve por vão
seu cuid’, e chorando disse: | “– Ai madre de Deus, catade
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
a vossa mui gram mercee | e nom a mià desmesura
grand’ e sobeja e fera, | que me fez fazer loucura
d’ eu querer o bordom vosso | levar; mais vós, Virgem pura,
valha-mi_a bondade vossa, | e esto me perdõade”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E contou a razom toda | como o bordom levava,
assi como já oístes; | e cada ũu loava
Deus e a sa Virgem madr’, e | a crerizia cantava
log’ ali «Salve Regina», | loand’ a virgĩidade
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
[d]esta Virgem groriosa, | que tal miragre fezera.
E per aquel’ entenderom | que o home bõo era
solto de sa pedença, | pois que lhe tolheu tam fera
cárrega que el levava | do ferr’ e de sa maldade.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Des i, log’ a Santiago | foi comprir sa romaria;
e, pois tornou a sa terra, | serviu mui bem todavia,
enquanto viveu, de grado | a Virgem Santa Maria.
E por aqueste miragre | todos lh’ agora rogade
94
96
513
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
102
que nos dé em este mundo | a fazer o seu serviço,
e nos guarde de pecado, | d’ err’ e de mao boliço,
’si que todos merescamos | vivermos por sempr’ em viço
com ela e com seu filho; | e porém Amém cantade.
104
De grad’ há Santa Maria | mercee e piadade
aos que de seus pecados | lha pede[m] com homildade.
100
R17
* * *
514
Cantigas de Santa Maria 254
«O nome da Virgem santa atám muit’ é temeroso»
(E 254, F [6])
Esta é como dous monges que saírom da ordem forom livres dos diabos polo nome de Santa
Maria, que ementarom.
R0
2
I
4
6
O nome da Virgem santa | atám muit’ é temeroso
que, quand’ o oe o demo, | perde seu poder astroso.
E dest’ avo em França | um gram miragre provado,
que mostrou Santa Maria, | ond’ haja ela bom grado;
e porend’ ontr’ estes outros | miragres será contado,
porque sei que o terredes | por bõo e por fremoso.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Dous monges foi que saírom | um dia dum mõesteiro
pora haverem conorte | do grand’ afám e marteiro
que segund’ órdim sofriam; | e tod’ um dia enteiro
andarom riba dum rio, | ca era logar viçoso,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
dizendo paravlas loucas, | maas e desordinhadas,
e andavam-se jogand’ a | couces e a empeladas;
e horas e orações | já haviam obridadas,
e em serviço do demo | cada um er’ aguçoso.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, eles assi andando, | pelo rio vĩir virom
ũa barqueta pequena | com homes, e dentr’ oírom
que muit’ entre si falavam; | e, pois tod’ esto cousirom,
preguntarom-lhes: “– Quem sodes?” | Diss’ um deles, mui sanhoso:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
“– Macar homes semelhamos, | diabos somos, sem falha,
que a ’lma d’ Ebrom levamos, | um alguazil, sem baralha”.
Disserom entom os monges: | “– Santa Maria nos valha
e livre de vossas mãos | com seu filho grorioso”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Os diabos responderom: | “– Mester vos foi que chamastes
o nome da Virgem santa | e que vos em el fiastes;
ca, se por esto nom fosse, | porque vós desemparastes
o mõesteiro, connosco | fôrades a tevroso
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
logar, em que muitas cuitas | sofrem os que i entrarom”.
Quand’ est’ oírom os monges, | mantenente se tornarom
a seu mõesteir’, e logo | mui bem se mãefestarom,
e de Deus perdom houverom, | que é Senhor piadoso.
40
42
R7
44
O nome da Virgem santa | atám muit’ é temeroso
que, quand’ o oe o demo, | perde seu poder astroso.
* * *
515
Cantigas de Santa Maria 255
«Na malandança»
(E 255, U 74)
Esta é como Santa Maria guareceu a molher que fezera matar seu genro polo mal prez que
lh’ apõíam com el, que nom ardeu no fogo em que a meterom.
R0
2
4
I
6
8
10
12
R1 13-16
II
18
20
22
24
R2 25-28
III
30
32
34
36
R3 37-40
IV
42
44
46
48
R4 49-52
Na malandança,
noss’ amparança
e esperança
é Santa Maria.
Dest’ um miragre vos direi ora
que a Virgem quis mui grand’ amostrar,
Santa Maria (a que sempr’ ora
po-los pecadores de mal guardar),
dũa burgesa
nobr’ e cortesa,
que fora presa
por sa gram folia.
[Refrão = vv. 1-4]
Esta foi rica e bem casada
e mui fremosa e de bõo sém,
e em Leom do Ródam morada
houve mui bõa, per quant’ aprix ém;
e houve bela
filha donzela,
de que mazela
lh’ avo um dia.
[Refrão = vv. 1-4]
Ela e seu senhor ambos derom
sa filha a marid’ a seu prazer,
e morada de sũu fezerom
por se por i mais viçosos ter.
Mais mal empeço
foi no começo,
ca mao preço
a sogra havia
[Refrão = vv. 1-4]
com seu genro; pero a gram torto,
ca nom fezeram eles feit’ atal
com’ este. Mais ela per que morto
foi o genro, fez, e nom houv’ i al:
ca mantenente
deu muit’ argente
a maa gente
que o mataria.
[Refrão = vv. 1-4]
516
V
54
56
58
60
R5 61-64
VI
66
68
70
72
R6 73-76
VII
78
80
82
84
R7 85-88
VIII
90
92
94
96
R8 97-100
IX
102
104
106
108
R9 109-112
X
114
116
118
E esse dia, pois missa dita,
assentarom-s’ a jantar, e mandou
chamar seu genr’ a sogra maldita;
e sa molher, que por el foi, achou
mort’ o marido
e_escoorido;
e apelido
mui grande metia.
[Refrão = vv. 1-4]
Aqueste feito toste sabudo
foi pela vila; e vo log’ i
o meirinho dela mui sanhudo,
e preguntou como morrer’ assi.
E tant’ andando
foi, trastornando
e preguntando
que achou a via
[Refrão = vv. 1-4]
per que soub’ a verdade do preito;
e fez recadar de mui mal talám
os que fezeram aquele feito.
Mais a sogra mãefestou, a pram,
de com’ houvera
coita tam fera
per que fezer’ a-quela diabria.
[Refrão = vv. 1-4]
O meirinho, que foi fort’ e bravo,
mandou filhar log’ aquela molher,
e por queimá-la nom deu um cravo,
ca muito fazia bem seu mester;
nem fez em jogo
nem filhou rogo,
mas ao fog[o]_
_a levou que ardia.
[Refrão = vv. 1-4]
E, u a levavam pela rua
ant’ a igreja da madre de Deus
(senom da camisa, toda nua),
diss’ aos sergentes: “– Amigos meus,
por piadade,_
_ant’ a majestade
vós me parade,
e rogá-la-ia”.
[Refrão = vv. 1-4]
Eles fezerom-lh’ o que rogava;
e ela log’ em terra se tendeu
ant’ a omagem; muito chorava,
dizendo: “– Madre daquel que morreu
por nós, aginha,
Virgem reinha,_
_acorr’ a mesquinha
517
120
R10 121-124
XI
126
128
130
132
R11 133-136
XII
138
140
142
144
R12 145-148
XIII
150
152
154
156
R13 157-160
XIV
162
164
166
168
R14 169-172
XV
174
176
178
180
R15 181-184
XVI
186
que em ti [se] fia”.
[Refrão = vv. 1-4]
E logo tantoste o meirinho
disse: “– Varões, levade-a já
fora da vila, cab’ o caminho,
u ũa casa mui velha está:
i a metede
dentr’ e odede,
des i põede-lh’ o fog’ a perfia”.
[Refrão = vv. 1-4]
Esto foi feito tost’ e correndo,
e a casa dentro e enredor
cha de lenha foi, com’ aprendo,
e de fogo, dond’ houv’ ela pavor;
ca viu a chama
queimá-la rama,
de que [a] a_ama
de Deus defendia.
[Refrão = vv. 1-4]
Pero a casa toda queimada
foi, e a lenha se tornou carvom,
a molher desto nom sentiu nada;
ca a Virgem, a que fez oraçom,
lhe deu saúde
per sa vertude
e ameúd[e]_
_o fogo lhi tolhia.
[Refrão = vv. 1-4]
A casa foi per duas vegadas
acenduda; mas vede-lo que fez
Santa Maria, que as coitadas
acorre sempre: nom quis nulha vez
que s’ i perdesse
nem que ardesse
nem que morresse
a que bem queria.
[Refrão = vv. 1-4]
Quand’ est’ o meirinho e as gentes
virom, filharom-s’ end’ a repentir,
e mandarom log’ aos sergentes
que a fezessem do fogo sair
log’; e com cantos
ela foi tantos
levada quantos
mui dedur diria.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pois que ela foi na igreja,
os crérigos se pararom em az
e loarom a que sempre seja
518
188
190
192
R16
194
196
beita polos miragres que faz
maravilhosos
e piadosos,
e saborosos
d’ oir todavia.
Na malandança,
noss’ amparança
e esperança
é Santa Maria.
* * *
519
Cantigas de Santa Maria 256
«Quem na Virgem groriosa esperança mui grand’ há»
(E 256, F [7])
Esta é como Santa Maria guareceu a reinha Dona Beatriz de grand’ enfermidade, porque
aorou a sa omage com grand’ esperança.
R0
2
I
4
6
Quem na Virgem groriosa | esperança mui grand’ há,
macar seja muit’ enfermo, | ela mui be-no guarrá.
E dest’ um mui gram miragre | vos quero dizer, que vi
(e, pero era meninho, | nembra-me que foi assi,
ca m’ estava eu deante | e todo vi e oí),
que fezo Santa Maria, | que muitos fez e fará.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi em aquel ano | quando_o mui bom rei gãou,
Dom Fernando, a Capela | e de crischãos poblou;
e sa molher, a reinha | Dona Beatriz, mandou
que fosse morar em Conca, | enquant’ el foi acolá
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
na hoste. E seu mandado | fez ela mui volonter;
e, quando foi na cidade, | peor enferma molher
nom vistes do que foi ela; | ca pero de Mompisler
bõos físicos i eram, | diziam: “– Nom viverá”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E por que esto diziam, | nom era mui sem razom,
ca d’ haver ela seu filho | estava ena sazom;
e havia tam gram féver | que que-na viía_entom
dizia: “– Seguramente, | desta nom escapará”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ma-la reinha, que serva | era da que pod’ e val,
Virgem santa groriosa, | reinha espirital,
fez trager ũa omagem, | mui bem feita de metal,
de Santa Mari’, e disse: | “– Esta cabo mi será,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
ca, pois eu a sa fegura |
que de todos estes maes
porend’ a mi a chegade,
as sas mãos e os pees, |
34
36
vir, atal creença hei:
| que atantoste guarrei;
| e logo lhe beijarei
ca mui gram prol me terrá”.
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E tod’ est’ assi foi feito; | e logo, sem outra rem,
de todos aqueles maes | guariu a reinha bem
per poder da groriosa, | que nada nom sentiu ém.
Porém será de mal siso | o que a nom loará.
40
42
R7
44
Quem na Virgem groriosa | esperança mui grand’ há,
macar seja muit’ enfermo, | ela mui be-no guarrá.
* * *
520
Cantigas de Santa Maria 257
«Bem guarda Santa Maria pola sa vertude»
(E 257, F [44])
Esta é como Santa Maria guardou sas relicas que se nom danassem, entr’ outras muitas que
se danarom.
R0
2
I
4
6
Bem guarda Santa Maria pola sa vertude
sas relicas, per que muitos recebem saúde.
Desto direi um miragre grand’ a maravilha,
que al-rei Dom Afonso avo. Em Sevilha
foi guardar relicas da madre de Deus e filha
e de santos; e direi com’, e Deus i m’ ajude.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
As relicas eram muitas, de Santa Maria
e de santos e de santas, por que Deus fazia
miragres; e el-rei enserro’-as aquel dia
e foi-s’ end’, e no-nas mandou catar amiúde.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Foi-s’ el-rei pera Castela, u morou dez anos.
E, pois vo a Sevilha, achou grandes danos
nas relicas, pero siam envoltas em panos.
Mas a Virgem preciosa ao seu recude:
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
toda-las outras relicas achou mal danadas,
e as arcas em que siam, mal desbaratadas;
mais as de Santa Maria eram bem guardadas,
ca o dano das sas cousas mui bem se sacude.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
Quand’ aquesto viu el-rei Dom Afonso, loores
deu grandes a Jesu-Cristo, senhor dos senhores;
e houve des i da Virgem tam grandes amores
que cuido que o coraçom nunca ende mude.
32
Bem guarda Santa Maria pela sa vertude
sas relicas, per que muitos recebem saúde.
28
R5
* * *
521
Cantigas de Santa Maria 258
«Aquela que a seu filho viu cinque mil avondar»
(E 258)
Como Santa Maria acrecentou a ũa bõa dona a massa que tiinha pera pam fazer.
R0
2
I
4
6
Aquela que a seu filho | viu cinque mil avondar
homees de cinque pães, | quequer pod’ acrecentar.
[E] de tal razom com’ esta | um miragre vos direi
que mostrou Santa Maria | em Proença, com’ achei
escrito ontr’ outros muitos, | e assi o contarei
que, se o bem ascuitardes, | fará-vos muit’ alegrar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Um an’ em aquela terra | foi mui caro, com’ oí;
e ũa molher mui bõa, | que amava mais ca si
a Virgem Santa Maria | e, segund’ eu aprendi,
polo seu amor, esmolna, | a quem lha pedia, dar
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
ia mui de bõa mente, | e dava bem a comer
a pobres do que havia, | segundo o seu poder;
e, por aquesto, farinha | mandava muita fazer,
de que pois pães fezessem, | com que os fosse fartar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Mas aquel ano tam caro | foi que todo despendeu
quanto pam comprad’ havia | e quanto do seu colheu;
e, poi-lo despendeu todo, | um dia lh’ acaeceu
que lhe verom i pobres | com gram fame demandar
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
esmolna, como soíam. | E el’ amassando pam
entom estava; e logo | os fez colher manamám,
e deu-lhes a massa toda | quanta pera si, de pram,
tiinha e pera eles, | que rem nom lh’ ém foi ficar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ela enquant’ amassava, | a um seu filho mandou
caentar mui bem o forno, | e ele o ca[e]ntou;
e, quando foi bem caente, | logo sa madre chamou,
dizendo-lhe que os pães | foss’ ao forno levar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
[E] ela com gram vergonha | diss’ ao filho: “– Par Deus,
quanta massa eu havia, | dei-[a] aos pobres seus
por amor d[a] Santa Virgem, | que é lume destes meus
olhos, que os meus pecados | me faç’ a Deus perdõar”.
40
42
522
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quand’ aquest’ oiu o filho, | queixou-se-lhe muit’ entom;
e a madre mui cuitada | foi correndo de random
u ant’ a massa estava | que já dera, que sol nom
minguava ém nulha cousa | dela. E log’ a sinar
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
se filhou; e, depois esto, | ar direi-vo-l’ o que fez:
foi-s’ aa rua chorando | e loand’ a do bom prez,
a madre de Jesu-Cristo, | por aquesta grãadez
tam grande que feit’ havia, | e fez a todos chorar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E chorand’ entom loavam | a madre do salvador
por tam fremoso miragre | que fezera por amor
daquela que a servia, | e dando-lhe gram loor
poserom ricas ofertas | logo sobre seu altar.
62
Aquela que a seu filho | viu cinque mil avondar
homees de cinque pães, | quequer pod’ acrecentar.
58
R10
* * *
523
Cantigas de Santa Maria 259
«Santa Maria punha d’ avĩir»
(E 259, F [43])
Como Santa Maria fez avĩir na sa eigreja d’ Arraz dous jograres que se queriam mal, e deulhes ũa candea que nom pôde trager outre senom eles.
R0
2
I
4
6
Santa Maria punha d’ avĩir
os seus por se deles melhor servir.
Dest’ um miragre grande foi fazer
a Virgem, que vos quero retraer,
de dous jograres que fez bem querer;
mas o demo provou de os partir.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca, pero se sabiam muit’ amar,
feze-os o demo assi gresgar
que s’ enviarom logo desfiar;
ma-la Virgem nom lho quis consentir.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ca lhes vo em sonhos e assi
lhes diss’: “– Amigos, id’ ambos a mi
a mià eigreja d’ Arraz, e ali
vos direi como vos mando guarir”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Cada um deles, quando s’ espertou,
quanto lhes ela disse lhes nembrou;
e forom i u lhes ela mandou,
e viro-na escontra si vĩir.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E diss’: “– Amigos, vossa entençom
partid’, e ambos mui de coraçom
amade mi e vós muit’, e al nom
façades, ca vos nom hei de falir”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E deu-lhes log’ ũa candea tal
com que sãassem as gentes do mal
a que chamam «fogo de Sam Marçal»,
e sãam quantos alô querem ir.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Forom-s’ ambos dali em grand’ amor
e sãavam as gentes da door,
como lhes foi mandado da senhor
40
524
42
que nunca mentiu nem há de mentir.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
O bispo daquel logar lhes filhou
a candea, mas mui mal baratou:
ca o fogo no pé lhe começou
e queria contra cima sobir.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Quand’ esto viu o bispo de mal sém,
pediu-lhes daquela cera porém;
e derom-lha a bever, e mui bem
lhe fez o fogo logo del fugir.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Hoj’ este dia esta vertud’ ham
os jograres da terra que i vam,
e tam bem sãam as gentes, de pram,
que nom ham pois daquel mal a sentir.
62
Santa Maria punha d’ avĩir
os seus por se deles melhor servir.
58
R10
* * *
525
Cantigas de Santa Maria 260
«Dized’, ai trobadores»
(E 260, F [46 bis])
Esta é de loor de Santa Maria.
I
1
R1
3
II
4
R2
6
III
7
R3
9
IV
10
R4
12
V
13
R5
15
VI
16
R6
18
VII 19
R7
21
Dized’, ai trobadores:
a senhor das senhores,
porque a nom loades?
Se vós trobar sabedes,
a por que Deus havedes,
porque a nom loades?
A senhor que dá vida
e é de bem comprida,
porque a nom loades?
A que nunca nos mente
e nossa coita sente,
porque a nom loades?
A que é mais que bõa
e por que Deus perdõa,
porque a nom loades?
A que nos dá conorte
na vida e na morte,
porque a nom loades?
A que faz o que morre
viv’, e que nos acorre,
porque a nom loades?
* * *
526
Cantigas de Santa Maria 261
«Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer»
(E 261, F [36])
Esta é da bõa dona que desejava veer mais dal home bõo e de bõa vida, e bõa dona outrossi, cada que oía deles falar.
R0
2
4
I
6
8
10
Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer
quiser, em sa vida há de guardar
como punhe de lhes fazer prazer
e se guarde de lhes fazer pesar.
Dest’ um miragre quero retraer
que fez a Virgem, que nom houve par,
por ũa bõa dona que veer
bõos homes queria e honrar,
e bõas donas; e foi-lhos mostrar
Santa Maria e fez conhocer.
R1 11-14
[Refrão = vv. 1-4]
II
Um santo bispo, com’ oí dizer,
vo a essa terra preegar,
e ela, com sabor de o veer,
lh’ enviou muito dizer e rogar
que, se de Deus quisess’ algo falar,
ena eigreja iria seer
16
18
20
R2 21-24
[Refrão = vv. 1-4]
III
ela. E ele vo sem lezer
e começou mui bem a sermõar;
e ela, tanto que o foi veer,
conhoçe’-o, ca Deus lho quis guisar.
E, pois a el se foi mãefestar,
descobriu-lh’ entom todo seu querer.
26
28
30
R3 31-34
[Refrão = vv. 1-4]
IV
E el assi lhe soube responder:
“– Se home bõo queredes catar
e bõa dona, eu vo-los veer
farei ambos; mas, ant’, a jajũar
haveredes, e mui soa estar
em ũa casa, e i atender”.
36
38
40
R4 41-44
[Refrão = vv. 1-4]
V
Ela o fez sem vagar i prender.
E, pois nove dias foi acabar,
ũa noite quiso Deus que veer
o podesse: ca viu gram lum’ entrar
per ũa estr’ e per outra passar,
como per pont’, e passada fazer
46
48
50
527
R5 51-54
[Refrão = vv. 1-4]
VI
per i os santos. E ela saber
quis quem eram, e log’ a preguntar
se filhou o primeiro que veer
foi deles, e prês-lo a conjurar
que lhe nom fosse verdade negar
deles quem eram. E el responder
56
58
60
R6 61-64
[Refrão = vv. 1-4]
VII
lhe foi assi: “– Estes forom sofrer
por Deus em este mund’ e endurar
muitas coitas por a Ele veer
no paraíso, e porém chamar
lhes forom «santos» per todo logar;
e vós assi o devedes creer;
66
68
70
R7 71-74
[Refrão = vv. 1-4]
VIII
e os outros que oídes leer
loando_a Deus e aposto cantar,
ángeos som, que o sempre veer
podem; e aqueles dous que chegar
veedes, Jesu-Cristo, sem dultar,
ést’ e sa madre, onde foi nacer”.
76
78
80
R8 81-84
[Refrão = vv. 1-4]
IX
Quando os viu, foi as mãos erger
contra o ceo, e prês-s’ a chorar,
e disso-lhes: “– Senhores, pois veer
quisestes que vos foss’, hoimais levar
me querades convosco, sem tardar”.
E log’ ant’ eles foi morta caer.
86
88
90
R9 91-94
[Refrão = vv. 1-4]
X
O santo bispo foi est’ entender
da morte dela (e maravilhar
se foi muito), ca Deus lhe fez veer
dela o feit’ e nom lho quis celar;
e fezo sas companhas espertar
e punhou logo dali a mover,
96
98
100
R10 101-104
[Refrão = vv. 1-4]
XI
e foi-s’ aginha, sem se deter;
e, pois chegou, fez as portas britar
e buscou a dona po-la veer,
e viu-a morta e melhor cheirar
que nulhas espécias d’ Ultramar
daquestas que ende soem trager.
106
108
110
R11 111-114
[Refrão = vv. 1-4]
XII
Esto mandou em escrito meter
o santo bispo, e fez ém loar
a Jesu-Cristo que lho fez veer,
e a sa madre nom ar quis leixar
que nom fossem grandes loores dar,
ca tal feito nom lhes quis asconder.
116
118
120
528
R12
122
124
Quem Jesu-Crist’ e sa madre veer
quiser, em sa vida há de guardar
como punhe de lhes fazer prazer
e se guarde de lhes fazer pesar.
* * *
529
Cantigas de Santa Maria 262
«Se nom loássemos por al a senhor mui verdadeira»
(E 262)
Como Santa Maria guareceu no Poi ũa molher que era sorda e muda.
R0
2
I
4
6
Se nom loássemos por al | a senhor mui verdadeira,
devemo-la loar porque | nos demostra ém carreira.
E daquest’ um gram miragre | fezo a Virgem, que sol
fazer outros grandes muitos | por achegar nossa prol;
mas eno Poi fez aquesto | a mais fremosa que sol
nem que toda-las estrelas: | aquest’ é cousa certeira.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este logar é bispado, | e eigreja nobr’ há i
u tod’ aquestes miragres | faz ela, com’ aprendi,
e porende muitas gentes | de todas partes vam i;
onde fez grand’ ũa noite | miragr’ em esta maneira.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
A hora de madodinhos | fezo a terra tremer
com torvões, e coriscos | de todas partes caer,
assi que todos fogirom, | no-no podendo sofrer,
e desta guis’ a eigreja | ficou d’ homees senlheira.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
As portas e as festras | serrarom-se log’ em par,
e os santos e as santas | começarom de cantar
ant’ a Virgem (que poseram | ant’ encima do altar)
em bom som «Salve, regina» | (e esta foi a primeira
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
[v]ez que nunca foi cantada). | Mas ũa molher ficou,
sord’ e muda, na eigreja, | que com medo se deitou
tra-lo altar, e viu logo | com seus olhos e falou,
e ficou bem de seus nembros | toda sãa e enteira.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, comoquer que falasse | nas outras razões bem,
«Salve, reinha» sabia | dizer melhor doutra rem,
toda mui compridamente, | que rem nom minguava ém,
como lhe mostrou a Virgem, | que nom houve companheira.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Em outro dia as gentes | verom missa oir,
e virom as portas clusas | e quisero-nas abrir,
mas nom poderom; e logo | filharom-s’ a repentir
de seus pecados, e foi-lhes | entom a Virgem porteira.
40
42
530
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, pois forom na eigreja, | logo a molher saiu
de tra-lo altar, u era, | e contou-lhes como viu
a Virgem Santa Maria | e como_a todos oiu
bem cantar «Salve, regina». | E mais gente que em feira
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
foi log’ ali ajuntada, | que todos em mui bom som
cantarom «Salve, regina», | chorando de coraçom.
E des ali adeante | estabilirom que nom
albergasse na eigreja | leigo nem leiga nem freira.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E porend’ esto creede, | e nom creades end’ al,
que por outros trobadores | mostrasse tam gram sinal
a Virgem Santa Maria, | senom que a muitos val;
e, se faz grandes miragres, | esto lh’ é cousa ligeira.
62
Se nom loássemos por al | a senhor mui verdadeira,
devemo-la loar porque | nos demostra ém carreira.
58
R10
* * *
531
Cantigas de Santa Maria 263
«Muit’ é bem-aventurado»
(E 263, F [70])
Esta é como Santa Maria guareceu em Cudeio, preto de Santander, ũu home que era tolheito de todo o corpo.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Muit’ é bem-aventurado
e em bom ponto naceu
o que da Virgem mandado
fez e a obedeceu.
Ca ela sempre a nós dá | que façamos o melhor
per que nos guardemos d’ erro | e hajamo-lo amor
de Deus, e que ar sejamos | sem coita e sem door;
porém que-na nom crevesse | seria muito sandeu.
[Refrão = vv. 1-4]
E daquest’ um gram miragre | mui preto de Santander
fez a Virgem, em Cudeio, | dum home que gram mester
havia d’ haver saúde, | que qual de seus nembros quer
perdera em tal maneira | per que o corpo perdeu.
[Refrão = vv. 1-4]
E, deste mal, tam cuitado | era que sol se volver
nom podia nem erger-se | eno leito nem seer,
e chorando e gemendo | nom quedava de dizer
que o acorress’ a Virgem, | que a muitos acorreu.
[Refrão = vv. 1-4]
Um dia fazend’ aquesto, | mostrou-se-lhe, sem dultar,
a Virgem Santa Maria | e disse: “– Se tu sãar
queres dessa ’nfermidade, | fais-te tantoste levar
a esta eigreja logo”. | E el espavoreceu;
[Refrão = vv. 1-4]
pero falou como pôde | e disse: “– Alá irei
u me mandades que vaa; | mas, pois i for, que farei?”
Diss’ ela: “– Faz ũa missa | cantar, ca de certo sei
que, pois que o Corpo vires | de Deus, que por ti morreu,
[Refrão = vv. 1-4]
que tantoste gram saúde | no corpo receberás;
onde faz-t’ i levar logo | sol que vires a luz crás;
mas a missa que te digo, | da madre de Deus farás
dizer, e verá-lo Corpo | daquel que dela naceu,
[Refrão = vv. 1-4]
e logo serás guarido | e ar cobrarás teu sém”.
E el, poi-la viu fremosa | e ar vestida tam bem,
532
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9
74
76
disse-lhe: “– Por Deus, ai dona, | dizede quem sodes, quem?”
Diss’ ela: “– Santa Maria, | de que Deus carne prendeu”.
[Refrão = vv. 1-4]
Foi-s’ a Virgem. Ficou ele | e fez quanto lhe mandou;
e, pois foi ena igreja | e a missa ascuitou
e viu o Corpo de Cristo | (que chorando aorou),
logo foi guarid’ e são, | e du jazia s’ ergeu
[Refrão = vv. 1-4]
e ao altar dereito | se filhou corrend’ a ir.
Quand’ aquesto viu a gente, | todos logo, sem mentir,
loarom Santa Maria, | porque nunca quer falir
de valer a que-na chama, | com’ a aqueste valeu.
Muit’ é bem-aventurado
e em bom ponto naceu
o que da Virgem mandado
fez e a obedeceu.
* * *
533
Cantigas de Santa Maria 264
«Pois aos seus, que ama, defende todavia»
(E 264)
Como Santa Maria fez perecer as naves dos mouros que tiinham cercada Costantinopla,
tanto que os crischãos poserom a sa imagem na riba do mar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Pois aos seus, que ama, | defende todavia,
dereit’ é que defenda | a si Santa Maria.
E daquest’ um miragre | vos quero contar ora
que fez Santa Maria, | a que nunca demora
de rogar a seu filho, | ca sempre por nós ora
que nos valha nas coitas | mui grandes todavia.
[Refrão = vv. 1-2]
E ela, por vertude | que del há, nos defende
e defende_a si misma | quand’ algum torto prende;
ond’ aqueste miragre | que vos direi, porende
fez em Costantinopla, | u gram torto prendia.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Ca os mouros verom | cercá-la com gram brio
per mar com sas galeas | e com mui gram navio;
e assi os cuitarom | que, per força, do rio
lhes tolherom a água, | ond’ a gente bevia.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Assi que os crischãos | com mui gram cuita fera
forom aa omagem | que Sam Lucas fezera
da Virgem groriosa, | que já muitos houvera
feitos grandes miragres | e sempre os fazia.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Esta omagem era | em távoa pintada
mui bem e muit’ aposto, | e assi fegurada
como molher que fosse | mui[to] bem faiçõada:
como a Virgem santa | pareceu, parecia.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E, ante que morresse | a Virgem, fora feita
a semelhante dela, | por destroir a seita
dos judeus e do demo, | que sempre nos espreita
por fazer que caiamos | em err’ e em folia.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Esta põer mandara | na riba, mantente,
do mar um cavaleiro | que era mui creente
na Virgem groriosa, | porque viu que a gente
534
42
cuitada e seu preito | todo pera mal ia.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
E, quand’ ali foi posta, | chorando lhe rogarom
dizend’: “– Aquestes mouros | que nos assi cercarom,
dá-lhes tu maa cima | desto que começarom,
que contra o teu filho | filham tam gram perfia”.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
Quand’ est’ houverom dito, | eno mar a poserom
u a feriss’ as ondas, | e assi lhe disserom:
“– A ti e nós defende | destes que nom creverom
nem creem no teu filho, | ca mester nos seria”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
En[t]om toda a gente | aos ceos as mãos
alçarom; e tantoste | as naves dos pagãos
eno mar s’ afondarom | per rogo dos crischãos
e da beita madre, | que os guiou e guia.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
66
E por este miragre | d[e]rom grandes loores
todos comũalmente, | maiores e mores,
aa Virgem beita, | que aos pecadores
acorr’ e a coitados | nas coitas noit’ e dia.
68
Pois aos seus, que ama, | defende todavia,
dereit’ é que defenda | a si Santa Maria.
64
R11
* * *
535
Cantigas de Santa Maria 265
«Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom»
(E 265, F [22])
Como Santa Maria guareceu a Joám Damasco da mão que lhe mandara talhar o emperador.
R0
2
I
4
6
Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom
aos seus que torto prendem sem razom.
Um miragre desto (que escrit’ achei
em um livr’ antigo) vos ora direi
que a Virgem madre fez do alto rei,
ond’ hajades piadad’ e devoçom.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Joám Damasc’ houve nome, sei bem,
por quem o miragre fez a que nos tem
em firm’ esperança de nos fazer bem
eno paraíso, u os santos som.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Est’ home de linhage foi nom rafez,
mais de grand’, e sempre des sa meninhez
aprendeu nas artes, por que maior prez
houve dos que eram em [e]ssa sazom
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de saber; e soube sempre bem, sem mal,
e Santa Maria, a que pod’ e val,
amou mais que al rem, e por lhe leal
seer entrou logo em religiom.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E sas horas todas sempre bem rezou,
e, pois foi de missa, mui be-na cantou,
a Virgem loando. Mais pois cativou
de mouros, e levado foi em prijom
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
a Pérsia; e um mouro rico deu
por el seu haver, e ficou servo seu.
E, ali jazendo, per quant’ aprix eu,
sempr’ a Deus rogava mui de coraçom
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e a Santa Maria, que ajudar
o quisess’ e daquela coita tirar.
E ela o fez a seu senhor amar,
40
536
42
assi que o leixou entrar a baldom
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
em sa casa, e amostrar a leer
a seu filh’, e outrossi a escrever
com’ el escrevia, que sol conhocer
nom podiam nem fazer estremaçom
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
qual deles escrevia mais nem melhor.
E, pois esto soube o emperador,
enviou dizer a aquel seu senhor
que logo, sem al, lho enviass’ em dom;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e ele o fezo logo manamám.
E o emperador, poi-lo viu, mui gram
prazer com el houv’, e em ordem de Sam
Beito o fez logo meter entom,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
[em] um mõesteiro, per quant’ aprendi,
que era em Roma; e ia-no i
veer ameúd’, e, el estand’ ali,
seu conselh’ oía sempr’ e seu sermom.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E sempre lhe conselhava que com Deus
se tevesse muit’ e, des i, aos seus
sempre bem fezess’, e pobres [e] romeus
houvessem mui gram part’ e mui gram quinhom.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Mas, em Pérsia, o filho do burgês
cujo preso fora, tal enveja prês
que fezo de cartas dous pares ou três
e enviou sobre atal entençom,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
porque sa lêtera estremar adur
poderia home da sua nenlhur
poi-las achassem, ca nunca mur com mur
se mais semelharom em sua faiçom.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E disse_a um seu home: “– Vai-te, senher,
bem ali u o emperador sever;
aquestas cartas deitarás comoquer,
long’ ũa doutra, ca ajuntadas nom”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E o mandadeiro desto nom falir
quis, e foi deitar as cartas, sem mentir,
94
537
96
u o emperador achou, que abrir
as foi, e tornou bravo com’ um leom.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Ca as cartas diziam: “– Aos dalá,
nossos amigos que em África há:
eu, Joám Damasco, que viv’ acá,
vos envio saudar com beiçom
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
de Deus, nosso Padre, que em ceo sé;
que eno empério pouca gent’ é
sabede, e mal bastido, a-la-fé,
está; por que vós toste de sujeçom
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
poderedes sair ora, se vos praz”.
O emperador, pois viu esto, assaz
catou as lêteras e diss’: “– O malvaz
Joám Damasc’ aquesta traiçom
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
fez, ca destas lêteras sõo bem fis
que ele as escreviu, par Sam Denis;
mais farei-vo-lh’ eu o que mal fazer quis,
que el de si veja mui maa vijom”.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Log’ entom aos seus conselho pediu
sobr’ aqueste feito; e, pois que o ’iu,
a Dom Joám Damasco, u o viu
o póboo, mandou-lhe fazer lijom.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
E a um seu home disse logo: “– Tol-lh’ a mão destra, por que fez come fol
aquela carta; e pois faça sa prol
per u mais podér”. E el em oraçom
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
se foi deitar, per com’ o escrito diz,
ant’ o altar da santa emperadriz
e dizend’ assi: “– Se t’ eu serviço fiz,
mostra teu miragr’ em tam grand’ ocajom
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
que colhi da mão; mas quant’ ũa noz
nom dou pela chaga, ca nom dol nem coz;
mais tu, que és madre daquel que «Aioz»
chamad’ é dos gregos, fas ta petiçom
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
538
XXV
148
150
que me dé mià mão, ca eu nunca fix
esta traiçom, nem fazê-la nom quix;
e, se cantar ou loor eu de ti dix
que te prouguesse, fas-lhe tu este som”.
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XXVI
154
Toda a noite bem até ena luz
jouv’, esto dizendo e tendud’ em cruz
ant’ o altar. Mai-la que sempre aduz
bem, trouxe a mão, e eno tocom
156
R26 157-158
[Refrão = vv. 1-2]
XXVII
160
162
lha pôs, e foi são eno mês d’ abril;
e logo ant’ o emperador gentil
e ante outros homes bem cem mil
cantou sa missa e fez gram precissom.
164
Sempr’ a Virgem santa dá bom gualardom
aos seus que torto prendem sem razom.
R27
* * *
539
Cantigas de Santa Maria 266
«De muitas guisas miragres a Virgem esperital»
(E 266)
Como Santa Maria de Castroxer[i]z guardou a gente que siía na igreja oindo o sermom, dũa
trave que caeu de cima da igreja sobr’ eles.
R0
2
I
4
6
De muitas guisas miragres | a Virgem esperital
faz, por que em Deus creamos | e por nos guardar de mal.
E por esto, contar quero | dum escrito em que diz
um mui fremoso miragre | que fez em Castroxeriz
a Virgem Santa Maria, | ond’ aqueste cantar fiz;
e, por Deus, parad’ i mentes | e nom faledes em al.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesto foi na igreja | que chamada é, de pram,
de todos «Santa Maria», | e muitas gentes i vam
ter ali sas vegias, | e de grad’ i do seu dam
por se fazer a eigreja | e a torr’ e o portal.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E por aquesto, madeira | faziam ali trager,
pedra e cal e ara; | e desta guis’ a fazer
começarom a igreja | tam grande que bem caber
podess’ i muita de gente, | pero nom descomunal.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde avo um dia | que, estando no sermom
mui gram gente que i era, | conteceu assi entom:
que caeu ũa gram trave | sobre-la gente; mas nom
quis a Virgem que ferisse | a nulh’ hom’. E quem viu tal
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
miragre?: ca tam espessa | siía a gent’ ali,
aquele sermom oindo, | como contarom a mi,
que de cima nom podia | niũa rem caer i
que nom matass’ ou ferisse | e fezesse gram sinal.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Mas a Virgem groriosa, | cujo era o lavor,
nom quis que aquela trave | fezesse senom pavor.
Porém quantos i estavam | derom a ela loor,
que sempr’ aos seus acorre | nas grandes coitas e val.
38
De muitas guisas miragres | a Virgem esperital
faz, por que em Deus creamos | e por nos guardar de mal.
34
R6
* * *
540
Cantigas de Santa Maria 267
«A de que Deus prês carn’ e foi dela nado»
(E 267, E 373, F [53])
Esta é como Santa Maria livrou um mercador de Portogal do perígoo das ondas do mar em
que andava u caera dũa nave.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A de que Deus prês carn’ e foi dela nado,
bem pode valer a todo perigoado.
Ca per ela foi a morte destroída,
e nossa saúde cobrada e vida:
tod’ est havemos pola senhor comprida.
Pois um seu miragre vos direi de grado
[Refrão = vv. 1-2]
que fez esta Virgem santa e reinha,
que é dos coitados todos meezinha;
contar-vo-lo-ei brevement’ e aginha
quant’ end’ aprendi a quem mi_o há contado.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Entre Doir’ e Minh’, em Portugal, morava
um mercador rico muito que amava
Santa Maria e por ela fiava,
e e-na servir sempr’ era seu cuidado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Comoquer que el pelas terras mercasse,
se dõa fremos’ e aposta achasse
que pera o seu altar lhe semelhasse,
de lha aduzer era muit’ entregado.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Porque amava muito Santa Maria
de coraçom, disse ca em romaria
a Rocamador de bõa ment’ iria
tanto que o el podess’ haver guisado.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Assi foi que el sa nav’ houve fretada
pera ir a Frandes; e essa vegada,
pois que houve bem sa fazenda guisada,
foi-se com quant’ haver havia mercado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Mas pela costeira do gram mar d’ Espanha
ind’ aquela nave com mui gram companha,
levantou-s’ o mar com tormenta tamanha
que muito per-foi aquel dia irado.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
541
VIII
46
48
Levarom-s’ as ondas fortes feramente
sobr’ aquela nave, que aquela gente
cuidou i morrer, e logo mantenente
chorou cada um entom i seu pecado.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E o mercador eno bordo da nave
estava entom encima da trave,
e ũa onda vo fort’ e mui grave
que lhe deu no peit’, e no mar foi deitado.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
A nav’ alongada foi, se Deus me valha,
del ũa gram peça pelo mar, sem falha;
mais o demo, que sempre nosco trabalha,
quisera que morress’ i log’ afogado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
El andand’ assi em aquela tormenta,
nembrou-se da Virgem, que sempr’ acrecenta
eno nosso bem; ca, pero que nos tenta
o demo, nom pode nosc’, a Deus loado.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
“– Ai madre de Deus” –diss’ el– “teu bem m’ ajude:
tu, que és senhor santa de gram vertude,
pois a todo-los coitados dás saúde,
nembra-te de mi, que ando tam coitado:
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
senhor, por mercee, nom me desampares
por algũu tempo t’ eu fazer pesares,
e, se m’ ora daquestas ondas tirares,
servir-t’-ei eu sempr’ e farei teu mandado;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
nembra-te, senhor, que t’ hei eu prometudo
d’ ir aa ta casa, est’ é bem sabudo;
mas tu, dos coitados esforç’ e escudo,
val-me, senhor, ca muit’ and’ atormentado”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
El esto dizendo, log’ a Virgem santa
vo, que o dem’ e seus feitos quebranta:
come senhor bõa, que os seus avanta,
fora dontr’ as ondas o houve tirado.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E fez entom i gram maravilha fera,
ca tornou o mar manso de qual ant’ era.
Se lh’ el algum tempo serviço fezera,
mui bem lho per-houv’ ali gualardõado.
94
96
542
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
E levou-o salvo a terra segura,
que sol nom sentiu [nem] coita nem rancura:
esto fez a da virgĩidade pura,
que por nós viu seu filho crucifigado.
100
102
R17 103-4
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E ante dez dias (oí por verdade)
que a nave foss’ em aquela cidade
u portar havia, pola piedade
de Santa Maria foi el i chegado.
108
R18 109-0
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E, tanto que os da nav’ ali chegarom,
pois o virom, todos se maravilharom;
e os seus entom mui ledos per-tornarom,
e contou-lhes el quant’ havia passado.
112
114
R19 115-6
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
E o mercador, pois se tornou de França
e foi em sa terra, sem longa tardança
a Rocamador se foi, e confiança
na Virgem sempr’ houv’. Hei-vo-lo acabado.
122
A de que Deus prês carn’ e foi dela nado,
bem pode valer a todo perigoado.
118
R20
* * *
543
Cantigas de Santa Maria 268
«Gram confiança na madre de Deus sempr’ haver devemos»
(E 268)
Como Santa Maria guareceu em Vila-Sirga ũa dona filhadalgo de França, que havia todolos nembros do corpo tolheitos.
R0
2
I
4
6
Gram confiança na madre | de Deus sempr’ haver devemos
por muitos bõos miragres | que faz, de que nós loemos.
Ca o que gram confiança | em ela houver, sem falha,
em toda coita que haja | bem creede que lhe valha;
e porend’ um seu miragre | oíde, se Deus vos valha,
que fezo em Vila-Sirga, | ond’ outros muitos sabemos.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
ũa dona filhadalgo, | que bem de terra de França
era natural, havia | na Virgem gram confiança;
e, servindo-a de grado | sempre, sem nulha dultança,
houv’ em seu corpo doores | grandes, que todos t[e]memos.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta dona que vos digo | havia todo tolheito
o corpo, que nom havia | neum dos nembros dereito;
des i, em ũa carreta | a tragiam, e proveito
nom lh’ haviam romarias | de santos, com’ aprendemos.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ela assi mui coitada | per santuairos andando,
romeus que de Santiago | iam forom-lhe contando
os miragres que a Virgem | faz em Vila-Sirg’; e, quando
os oiu [aqu]esta dona, | fez o que nós vos diremos:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
chorou muito dos seus olhos | e aos ceos as mãos
alçou, e diz: “– Virgem santa | (que nom creem os pagãos),
a ti ofer’ estes nembros | mancos, que nom tenho sãos,
ca todo-los pecadores | em ti esperanç’ havemos;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e promet’ eu, Virgem santa, | que eu aa ta eigreja
de Vila-Sirga de grado | vaa, que eu sãa seja
per ti desta mià gram coita | que eu padesc’ e sobeja,
ca nós vida e saúde | todos de ti atendemos”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois que prometeu aquesto | com devoçom atamanha,
esta dona em carreta | se fez trager a Espanha;
e, pois foi em Vila-Sirga, | fez, como sol seer manha
dos romeus, muitas candeas, | assi como entendemos.
40
42
544
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E mandou que na eigreja | a metessem muit’ aginha;
e, pois ant’ o altar jouve | da Virgem santa, reinha,
diz: “– Ai senhor poderosa, | nembra-te de mi, mesquinha,
ca todo-los pecadores | coitados a ti corremos;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
senhor mansa, senhor bõa, | de todos bes comprida,
tu és corõa dos santos | e tu dos ángeos vida;
dá-me pola ta vertude | a este corpo guarida,
ca muit’ aginha o podes | fazer, como nós creemos”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Pois que a oraçom feita | houv’ esta molher coitada,
log’ a Virgem preciosa, | dos pecadores vogada,
deu-lhe saúd’ em seu corpo, | e foi sãa e cobrada
de quantos nembros havia | mais toste ca vos dizemos.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Pois esta dona guarida | foi da coita que havia,
tornou-se pera sa terra; | e foi de Santa Maria
servidor mentre foi viva. | E porém nós todavia
por tam fremoso miragre | sirvamo-la e loemos.
68
Gram confiança na madre | de Deus sempr’ haver devemos
por muitos bõos miragres | que faz, de que nós loemos.
64
R11
* * *
545
Cantigas de Santa Maria 269
«A que poder há d’ os mortos de os fazer resorgir»
(E 269, F [98])
Como um meninho que era sordo e mudo resucito’-o Santa Maria per rogo de sa madre do
meninho e fez-lhe cobrar o falar e o oir.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que poder há d’ os mortos | de os fazer resorgir,
pod’ os mudos e os sordos | fazer falar e oir.
Dest’ um gram miragre fezo | por ũa bõa molher
a Virgem Santa Maria, | que faz muitos quandoquer,
grand[e]s e maravilhosos, | e acorr’ u há mester
a aqueles que a chamam | ou que a sabem servir.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquesta molher havia | um filho que mui gram bem
queria mais doutra cousa, | pero nom oía rem
nem falava nemigalha; | e a mesquinha porém
quant’ havia despendera | pera fazê-lo guarir.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Pois viu que lhe nom prestava | nem meezinha nem al,
tornou-s’ a rogar a Virgem, | a senhor esperital,
porque sempr’ aos coitados | nunca lhes erra nem fal,
e vegias das sas festas | jajũava sem falir.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
O filho, que era mudo, | per sinas lhe preguntou
porque tanto jajũava; | e ela lhe dessinou
que pola Virgem beita | o fazia. El filhouse a jajũar com’ ela | e mercee lhe pedir
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
na voontad’ e per sinas, | esto com gram devoçom.
Mas ũa enfermidade | grande lh’ avo entom
que por morto o teverom | seus parentes; pero nom
lhe prougu’ a Santa Maria | que assi fosse fĩir.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Ca, eno leito jazendo, | aginha se foi erger,
e falou dereitamente | e começou a dizer:
“– Mià senhora, bem venhades”. | E ar, com’ em responder,
diz: “– Senhor, de bõa mente | o farei eu, sem mentir”.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
E ar diss’ outra vegada: | “– De bõa mente verrei”.
Quand’ esto oiu sa madre, | disse como vos direi:
“– Meu filho, com quem falades?” | Diss’ el: “– No-no negarei:
546
42
falo com Santa Maria, | que me fezo resorgir
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
e me disse “– Deus te salve!”; | e eu respondi que bem
fosse vĩúd’; e ar disse | que nom leixasse per rem
que me bem nom confessasse; | e eu respondi porém
que me queria de grado | dos pecados repentir;
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
ar disse-m’ outra vegada | que, se eu pesseverar
em seu serviço quisesse, | que me faria levar
mui ced’ ao paraíso; | e eu logo sem tardar
respondi que mui de grado | queria com ela ir”.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
Des quand’ aquest’ houve dito, | são do leito s’ ergeu,
que nom foi mudo nem sordo, | mas comeu log’ e beveu.
Quand’ aquesto viu a gente, | log’ aa Virgem rendeu
loores. E de nós seja | loada, se por bem [vir].
62
A que poder há d’ os mortos | de os fazer resorgir,
pod’ os mudos e os sordos | fazer falar e oir.
58
R10
* * *
547
Cantigas de Santa Maria 270
«Todos com alegria cantand’ e em bom som»
(E 270, F [56])
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Pero que noit’ e dia | punhamos de pecar,
sirvamo-la um pouco | ora ’m nosso cantar,
pois que a Deus no mundo | por avogada dar
quis aos pecadores, | que pecam sem razom.
8
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
4
R1
II
12
Com gram dereito todos | a devemos loar,
pois ela a sobêrvia | do demo foi britar;
e porém lhe roguemos | que aqueste cantar
que ora nós cantamos | nos receba por dom.
14
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
10
R2
III
18
Quanto nossa primeira | madre nos fez perder
per desobediença, | todo nos fez haver
aquesta, a que vo | o ángeo dizer
«Ave, gratia plena» | por nossa salvaçom.
20
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
16
R3
IV
24
Per Adám e per Eva | fomos todos caer
em poder do diabo; | mais quise-se doer
de nós quem nos fezera, | e vo-se fazer
nov’ Adám que britass’ a | cabeça do dragom.
26
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
22
R4
V
30
Gram merce’ ao mundo | fez por esta senhor
Deus; e mui gram dereito | faz quem é servidor
desta, que nos adusse | Deus, hom’ e salvador,
que compriu quanto disse | Davi e Salomom.
32
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
28
R5
VI
34
36
R6
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
Com esta juntar quise | Deus verdadeir’ amor,
e foi end’ Isaías | seu profetizador;
e Daniel profeta, | que dita de pastor
era, disse que Cristus | haveria onçom.
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
548
38
VII
42
Aquesta foi chamada | «fiscella Moysi»,
e foi por nossa vida | madre d’ Adonaí;
e desta jaz escrito | em livro Genesi
que seu fruito britass’ o | demo brav’ e felom.
44
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
40
R7
VIII
48
[N]a Velha Lei, daquesta | Moisém, com’ aprendi,
falou, e de seu filho | profetizou assi,
dizendo que profeta | verria, e des i
quem em Aquel nom creess’ | iria_a perdiçom.
50
Todos com alegria | cantand’ e em bom som
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
46
R8
devemos muit’ a Virgem | loar de coraçom.
* * *
549
Cantigas de Santa Maria 271
«Bem pode seguramente demandá-lo que quiser»
(E 271, F [46])
Esta é de como ũa nave de crischãos estedera três meses em um rio e nom podia sair porque
a combatiam mouros, e Santa Maria sacou-a em salvo.
R0
2
I
4
6
Bem pode seguramente | demandá-lo que quiser
aa Virgem tod’ aquele | que em ela bem crever.
Desto direi um miragre | que fez aquesta senhor
grand’ e mui maravilhoso | eno rio d’ Azamor
que Morabe é chamado, | pelo alcaide maior
dũa nave que i era | del-rei senhor d’ Alanquer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquela nav’ i meteram | per cordas, com’ aprendi,
no rio, que estreit’ era, | e nom podia pois di
sair per nulha maneira; | porend’ estava assi
a nave come perduda, | que atá em Mompesler
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
melhor dela nom havia. | Porend’ os mouros haver
todavia a cuidavam, | e vinha-na combater;
mas os que na nave eram | sabiam-se defender
mui bem deles, mas bom vento | haviam muito mester.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Assi jouverom três meses | que nom poderom sair
pela foz daquele rio, | e cuidavam i fĩir;
mas o alcaide da nave | fez aos outros oir,
dizendo-lhes: “– Por Deus seja, | oíde, se vos prouguer:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ca, comoquer que bem cream | em Deus os de Portugal,
eu hei tam grand’ esperança | na Virgem espirital
que, se lh’ algo prometemos, | sacar-nos-á deste mal;
porém cada um prometa | de grado do que tever;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e, se vos a Virgem santa | deste logar nom tirar,
eu quero que me façades | pelos pees pendorar
do masto per ũa corda, | e quer’ enforcad’ estar
desta guisa se tantoste | mui bom vento nom ver”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ est’ houve dito, logo | cada ũu deles deu
ajuda pera um cález | do haver que era seu;
e o alcaide lhes disse: | “– Por Deus, nom vos seja greu,
40
550
42
e guisad’ os aparelhos | quis como melhor podér;
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
e todos Santa Maria | roguemos de coraçom
del Poi, que aqueste cález | receba em ofreçom,
e que nom cate com’ éste | pera ela pouco dom;
e confonda Deus quem contra | esto nulha rem disser”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois esto foi outorgado, | a vea alçar mandou;
e, pois suso foi alçada, | o mar creceu e chegou-lhes bom vento qual queriam, | que log’ a nave sacou
fora do rio a salvo. | E porende quem fezer
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
serviç’ a Santa Maria, | muito será de bom sém,
ca nas cuitas deste mundo | acorrê-lo-á mui bem,
e ena hora da morte | no-no leixará, per rem;
e porém servi-la deve | tod’ hom’ e toda molher.
62
Bem pode seguramente | demandá-lo que quiser
aa Virgem tod’ aquele | que em ela bem crever.
58
R10
* * *
551
Cantigas de Santa Maria 272
«Maravilhosos miragres Santa Maria mostrar»
(E 272, F [60])
Como Santa Maria fez em Sam Joám de Leterám, em Roma, que se mudasse ũa sa omagem
da ũa parede da igreja na outra.
R0
2
I
4
6
Maravilhosos miragres | Santa Maria mostrar
vai por nós, que no-lo demo | nom faça desasperar.
Que quand’ em desasperança | nos quer o demo maior
meter, bem ali nos mostra | ela mercê e amor,
porque nom desasperemos; | e porend’ atal senhor
devemos mais doutra cousa | sempre servir e loar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E, de tal razom, miragre | vos contarei que oí
mui grande, que fez a Virgem | em Roma, com’ aprendi,
em ũa igreja nobre, | de Leterám, que há i,
por ũa molher errada | que s’ i foi mãefestar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta molher que vos digo, | com’ este miragre diz,
tam muit’ havia errado | e era tam pecadriz
que em al nom se fiava | senom na emperadriz
dos ceos, ca bem cuidava | por ela perdom gãar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E assi a adussera | o demo a cofujom
que sol nunca a leixava | que prendesse confissom;
mas a Virgem, de Deus madre, | lh’ amolgou o coraçom,
per que entrou na eigreja | e começou de chorar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E confessou seus pecados | a um preste que achou;
e, pois que lhos houv’ oídos, | muito se maravilhou
de tanto mal que fezera, | e sobr’ aquesto cuidou.
E ela foi mui coitada | e começou-lh’ a falar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e disse-lh’: “– Ai senhor preste, | se pode inda seer
que daquestes meus pecados | podess’ eu perdom haver?”
Diss’ el: “– Quand’ esta omagem | que eu vejo, se mover
desta pared’ a estoutra | e s’ alá toda mudar
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
(que éste da groriosa | Virgem e madre de Deus),
entom serás perdõada, | cuid’ eu, dos pecados teus”.
Quand’ a molher oiu esto, | chorou tam muito os seus
pecados que ũa peça | de terra ant’ o altar
40
42
552
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
molhou, e muito rogando | aquela que Deus pariu
que mercê houvesse dela; | e a Virgem a oiu.
E o preste parou mentes | e log’ a omagem viu
estar na outra pared’; e | foi-se log’ agolhar
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ant’ a molher e rogou-lhe | que muito lh’ era mester
que a Deus por el rogasse, | ca nunca já per molher
maior miragre mostrara | sa madr’: “– E pois ela quer
que tu perdõada sejas, | queras-me tu perdõar
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
do grand’ erro que te dixe, | come home de mal sém;
ca em mudar-s’ a omagem | por ti, mostrou-te que bem
de coraçom t’ há parcida | a senhor que nos mantém;
e porém por mi lhe roga | que me nom queira culpar
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
daquest’ erro que hei feito”. | E filhou-s’ a repentir;
e, pois que foi repentido, | começou-se logo d’ ir
braadando pelas ruas, | e as gentes fez vĩir
e mostrou-lhes o miragre | que fez a Virgem sem par.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E todos entom chorando, | segund’ eu escrit’ achei,
loarom Santa Maria, | a madre do alto rei;
e a molher depois sempre | a serviu, e porém sei
que lhe foi gualardõado | u nunca verá pesar.
74
Maravilhosos miragres | Santa Maria mostrar
vai por nós, que no-lo demo | nom faça desasperar.
70
R12
* * *
553
Cantigas de Santa Maria 273
«A madre de Deus que éste do mundo lum’ e espelho»
(E 273, F [39])
Esta é como Santa Maria deu fios a ũu home bõo pera coser a savãa do seu altar.
R0
2
I
4
6
A madre de Deus, que éste | do mundo lum’ e espelho,
sempre nas cousas minguadas | acorre e dá conselho.
Desta razom um miragre | direi apost’ e fremoso,
que fezo Santa Maria, | e d’ oir mui saboroso;
esto foi em Aiamonte, | logar jaquanto fragoso,
pero terra avondada | de perdiz e de cõelho.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ali há ũa eigreja | desta Virgem groriosa,
que é dentro no castelo, | nem bem feita nem fremosa,
mas pequena e mui pobre | e de todo m[i]nguadosa,
e campãa há tamanha | qual convém ao concelho.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E os panos com que era | ende o altar coberto
eram ricos e mui nobres, | esto sabemos por certo;
e per cima da eigreja | era o teito coberto;
e hóstias i minguavam | e vinho branc’ e vermelho.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo na gram festa | desta Virgem em agosto
que entrou um home bõo, | e viu estar desaposto
o altar, e disse logo: | “– Par Deus, muit’ é gram dosto
d’ o feito da Virgem santa | seer metud’ a trebelho;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e, pero ora nom tenho | pera dar i oferenda,
coserei aquestes panos | daquest’ altar, sem contenda,
se podér achar agulha | ou fios ou quem mi_os venda,
pois que malparado vejo | jazer aqueste zarelho;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e maa ventura venh’ a | quem altar assi desbulha:
e porém buscade fios, | amigos, ca eu agulha
tenho que nom há tam bõa | daqui atá Ribadulha
pera cosê-los mui toste, | pero que velho semelho”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Per cousa que el fezesse | nem dissesse nem rogasse
a todos, nom foi em preito | que sol um fio achasse
(nem ainda enos panos | do altar, pero provasse
de sacar end’ um enteiro), | nem quem lhe disse sedelho.
40
42
554
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Estand’ assi aquel home | por estes fios coitado
que os haver nom podia, | catou e viu a seu lado
pender de cima do ombro | dous fios, e espantado
foi ém muit’ a maravilha, | dizendo: “– Nom é anelho
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
este miragre, mas novo; | e por aquesto, varões,
ena Virgem groriosa | bem ted’ os corações”.
E log’ ant’ o altar todos | fezerom sas orações,
e mais lágrimas chorarom | ca cho um gram botelho.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E levantarom-se logo, | dando grandes adianos
todos a Santa Maria; | e el[e] coseu os panos
mui bem com aqueles fios | e [end’] encobriu os danos,
a pesar do dem’ astroso, | que é peor que golpelho.
62
A madre de Deus, que éste | do mundo lum’ e espelho,
sempre nas cousas minguadas | acorre e dá conselho.
58
R10
* * *
555
Cantigas de Santa Maria 274
«Poi-lo pecador punhar em servir Santa Maria»
(E 274, F [38])
Esta é como Santa Maria fez ao frade que lh’ acabasse a garnacha que havia começada d’
orações, e disse-lhe qual dia havia de morrer.
R0
2
I
4
6
Poi-lo pecador punhar | em servir Santa Maria,
nom temades que perder | se possa per sa folia.
Por vos provar ora esto, | miragre quero dizer
que pouc’ há conteu em Burgos, | dum frade que quis fazer
aa Virgem sa garnacha | d’ orações, e poder
seu meteu em acabá-la, | assi noite come dia.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Por fazer esta garnacha | estev’ ũa gram sazom
que nom foi dia nem noite | que nom foss’ em oraçom;
e, estando-a fazendo, | o demo em coraçom
lhe meteu que se saísse | da ordem, ca bem seria.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Estando el em serviço | da Virgem, foi-o tentar
atám muito o diabo | que o houve de forçar
que lhe fez que a garnacha | leixasse por acabar,
e fez-lhe leixar a ordem, | e foi-s’ ende sua via.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El indo per um caminho, | a Virgem lh’ apareceu,
e ficou-s’ el em golhos | (e mui bem per-entendeu
que Santa Maria era | e logo a conhoceu).
E ela em sua mão | ũa garnacha tragia
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que ademais era bela | e de mui rico lavor,
senom que era mui curta, | come d’ algũa pastor
pequena. E diss’ o frade: | “– Seeria mui melhor
esta garnacha se fosse | comprida como devia”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Diss’ entom Santa Maria: | “– Esta garnacha per si
ést’ a que me tu fazias, | e leixache-ma assi
por acabar; mas aginha | te torna logo daqui
ao mõesteir’, e, se mi_a | comprisses, gracir-cho-ia”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Depois que lh’ a Virgem santa | esto disso, foi-lhe mal
e disso-lhe: “– Senhor, madre | daquel que pod’ e que val,
se mi_aquesto perdõasses, | ir-m’-ia logo, sem al,
ao mõesteir’, e esta | garnacha acabaria”.
40
42
556
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Entom diss’ a groriosa: | “– Meu filho perdõará
a ti quanto tu cuidaste, | pois que t’ end’ achas mal já;
e torna-t’ a tua ordem, | ca mui cedo ch’ haverá
mester de t’ alá tornares, | ca eu teu mal nom querria;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ainda de ta fazenda | mais te desenganarei:
deste dia a um ano | serás morto, eu o sei;
e a esto pára mentes: | ca eu ant’ a ti verrei
que moiras; e no meu filho, | que te fez, sempre confia”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Quando lh’ esto diss’ a Virgem, | logo xe lh’ el espediu.
E foi-s’ u eram os frades | e seu hábito pediu,
e contou-lhes quanto vira; | e cada um escriviu
o dia em que dissera | a Virgem que morreria.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
El entom no mõesteiro | sa pedença filhou
e na obra que leixara | por fazer ar começou;
e mui bem ontre seus frades | tod’ aquel tempo passou,
e cada um parou mentes | ena Virgem se verria.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Em véspera daquel dia | aqué-vo-la Virgem vem,
e pareceu ao frade | e disso-lh’: “– Amigo, bem
acabach’ a mià garnacha, | mas mui bem t’ acharás ém,
ca sairás crás do mundo, | e prend’ ém grand’ alegria”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Entom vo-s’ aos frades | e disso: “– Senhores meus,
aqui u ora orava, | vo a madre de Deus
e disso que eu salria | crás do mundo; e os seus
feitos sempre vós loade | de tal senhor todavia,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
que quiso que dos pecados | me podesse repentir,
e porém me diss’ a morte, | que me podess’ ém sentir”.
E estando sempr’ em prezes, | em outro dia sair
lhe foi a alma do corpo, | pero que lhe nom doía.
86
Poi-lo pecador punhar | em servir Santa Maria,
nom temades que perder | se possa per sa folia.
82
R14
* * *
557
Cantigas de Santa Maria 275
«A que nos guarda do gram fog’ infernal»
(E 275, F [81])
Esta é como Santa Maria de Terena guariu dous freires da ordem do Hespital que raviavam.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que nos guarda do gram fog’ infernal
sãar-nos pode de gram rávia mortal.
Dest’ em Terena fez, per com’ aprendi,
miragr’ a Virgem, segundo que oí
dizer a muitos que s’ acertarom i,
de dous raviosos freires do Hespital
[Refrão = vv. 1-2]
que no convento soíam a seer
de Moura; mas foi-lhes atal mal prender
de rávia que se filhavam a morder
come cam bravo que guarda seu curral.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Assi raviando filhavam-s’ a travar
de si ou doutros que podiam tomar,
e por aquesto foro-nos bem liar
de liadura forte descomunal.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E a Terena os levarom entom,
que logar éste de mui gram devoçom,
que os guarisse a Virgem, ca já nom
lhes sabiam i outro conselho tal.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E, levando-os ambos a grand’ afám,
que cada ũu mordia come cam,
passarom com eles um rio mui gram
d’ Aguadiana, entrant’ a Portugal.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E o primeiro deles mentes parou
de cima dum outeiro u assomou,
des i mui longe ante si devisou
a Terena, que jaz em meo dum val.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
E disse logo como vos eu direi:
“– Soltade-me, ca já eu rávia nom hei,
ca vejo Santa Maria, e bem sei
que ela me guariu mui bem deste mal;
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
558
VIII
46
48
mas água me dade que beva, por Deus,
ca a Virgem, que sempr’ acorr’ aos seus,
me guariu ora, nom catand’ aos meus
pecados, que fiz come mui desleal”.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
O outro diss’ esto meesmo pois viu
a eigreja, ca logo se bem sentiu
da rávia são, e água lhes pediu,
e derom-lha dũa fonte peranal.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
E, pois beverom, ar filharom-s’ a ir
dereitament’ a Terena por comprir
sa romaria; e, porque os guarir
fora a Virgem, derom i por sinal
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
cada um deles desso que s’ atreveu
de seu haver, que eno logar meteu;
e, des i, cada um deles acendeu
ant’ o altar da Virgem seu estadal.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Este miragre mostrou aquela vez
Santa Maria, que muitos outros fez
como senhor mui nobr’ e de mui gram prez,
que sempr’ acorre com seu bem e nom fal.
74
A que nos guarda do gram fog’ infernal
sãar-nos pode de gram rávia mortal.
70
R12
* * *
559
Cantigas de Santa Maria 276
«Que-na Virgem por senhor tever, de todo mal guarrá»
(E 276, F [80])
Como Santa Maria do Prado, que é cabo Segóvia, guariu um monteiro del-rei dum badalo
da campãa que lhe dera na cabeça.
R0
1
I
2
4
6
R1
7
II
8
10
12
R2
13
III
14
16
18
R3
19
IV
20
22
24
R4
25
V
26
28
30
R5
31
VI
32
34
36
R6
37
VII 38
Que-na Virgem por senhor | tever, de todo mal guarrá.
Ond’ um miragre que fez
vos direi, saboroso,
em Prad’ a senhor de prez,
em um logar viçoso,_
_u há
[Refrão = v. 1]
ũa sa eigrej’ ali,
mui fremosa capela,
em que fez, com’ aprendi,
esta que nos caudela_
_e dá
[Refrão = v. 1]
saúde e salvaçom,
que deu a um monteiro
que na sa eigreja ’ntom
entrou mui deanteiro_
_alá
[Refrão = v. 1]
u viu os sinos estar,
e foi que os tangesse,
mas um deles se britar
foi e caeu sobr’ esse._
_“– Ahá,”
[Refrão = v. 1]
–disserom todos– “par Deus,
mort’ é, sem nulha falha;
porend’ a que val òs seus,
mester há que lhe valha
já;
[Refrão = v. 1]
ca de guisa ferid’ é
que nom há osso são
na cabeça, a-la-fé,
nem pod’ andar por chão,
ca
[Refrão = v. 1]
mais mol’ a cabeça tem
560
40
42
R7
VIII
43
44
46
48
R8
49
IX
50
52
54
R9
55
X
56
58
60
R10
61
XI
62
64
66
R11
67
XII 68
70
72
R12
73
ca nom é pera-fole
nem manteiga; e porém,
pois que a tem tam mole,_
_alá
[Refrão = v. 1]
ant’ o seu altar põer
da Virgem o vaamos”.
E forom assi fazer,
com’ em verdad’ achamos;
a
[Refrão = v. 1]
noit[e] ant’ essa senhor
jouve tal come morto;
mas, ant’ a luz, gram sabor
lhe deu a que conforto
dá
[Refrão = v. 1]
que s’ ergesse pera ir
co-nos outros monteiros,
e tantoste foi sentir tantoste ‘imediatamente’
os ossos muit’ enteiros
da
[Refrão = v. 1]
testa. E porém loou
muito a groriosa,
porque em ele mostrou
sa vertude fremosa_
_e sa
[Refrão = v. 1]
mercee que nunca fal,
de que é mui grãada;
porém de todos, sem al,
sempre é mui loada,_
_e será.
Que-na Virgem por senhor | tever, de todo mal guarrá.
* * *
561
Cantigas de Santa Maria 277
«Maravilho-m’ eu com’ ousa a Virgem rogar, per rem»
(E 277)
Como Santa Maria guardou oito almograves em ũa fazenda que houverom com mouros,
porque nom comerom carn’ em sábado.
R0
2
I
4
6
Maravilho-m’ eu com’ ousa | a Virgem rogar, per rem,
aquele que as sas festas | nom guarda e_em pouco tem.
E dest’ um mui gram miragre | demostrou Santa Maria
em dezesseis almograves | que forom em açaria
aa terra que chamada | ést’ Algarv[e], u soía
haver gram gente de mouros | (que s’ ém forom, e foi bem).
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Eles de Lisbõa eram, | e atal preito poserom
ontre si: que correr fossem | o Algarv’; e ’ssi fezerom.
E porém de sũu todos | forom correr, e houverom
d’ achar um cervo no monte, | mui mais grosso ca de brem,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que punhou de fogir deles; | mas toste o acalçarom
e mataro-no aginha; | des i, logo o assarom,
e, des que foi bem assado, | log’ a comer s’ assentarom,
ca de tod’ outra vianda | eles nom tĩíam rem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Sábad’ era aquel dia | quand’ a comer s’ assentavam
daquel cervo; mas os oito | que o sábado guardavam
por honra da Virgem santa, | sol de comer nom pensavam
daquel cervo, mas comiam | pam, qual em guerra convém.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Os outros oito disserom | que da carne comeriam
quanta mais dela podessem | e que a nom leixariam;
e bem assi o fezerom; | e fartos dali s’ ergiam
aqueles oito da carne, | dizendo: “– Nom vai nem vem
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
de jajũar em tal terra | e andand’ em cavalgada;
porém quequer comeremos, | que nom leixaremos nada”.
E tantoste começarom | d’ andar per essa ’ncontrada,
e acharom-se com mouros; | mas a todos nom proug’ ém.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ca os que i jajũavam | forom sãos e guaridos,
e os que comerom carne, | maltreitos e mal feridos;
e, macar que se preçavam | de fortes muit’ e d’ ardidos,
nom foi tal que nom dissesse: | “– Quem foss’ hoj’ em Santarém!”
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
562
VIII
46
48
Ca, assi como lhes davam | lançadas pelos costados,
per cada ũa ferida | saíam grandes bocados
daquel cervo que comeram. | E desto maravilhados
forom end’ os outros oito, | que fezeram melhor sém
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
porque jajũad’ haviam; | porend’ os mouros vencerom,
e correrom depos eles, | e matarom e prenderom
todos com quantos lidarom, | e chaga nom receberom;
porém disserom: “– Ai Virgem, | beita sejas, amém”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Os outros, quand’ esto virom, | prometerom que leixassem
d’ em sábado comer carne, | e que o muito guardassem
por honra da Virgem santa, | e sempre o jajũassem
por tal miragre que fezo | a senhor que nos mantém.
62
Maravilho-m’ eu com’ ousa | a Virgem rogar, per rem,
aquele que as sas festas | nom guarda e_em pouco tem.
58
R10
* * *
563
Cantigas de Santa Maria 278
«Como sofre mui gram coita o hom’ em cego seer»
(E 278, F [74])
Esta é como ũa bõa dona de França, que era cega, vo a Vila-Sirga e teve i vigia, e foi logo
guarida e cobrou seu lume; e ela indo-se pera sa terra, achou um cego que ia em romaria a Santiago, e ela conselhou-lhe que fosse per Vila-Sirga e guareceri[a].
R0
2
I
4
6
Como sofre mui gram coita | o hom’ em cego seer,
assi faz gram piadade | a Virgem em lh’ acorrer.
E desto contar-vos quero | miragre fremos’ e bel
que mostrou em Vila-Sirga | a madre de Manuel,
u faz ameúde muitos, | que som mais doces ca mel,
pera quem em ela fia | de gram sabor i haver.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi em aquel tempo | que a Virgem começou
a fazer em Vila-Sirga | miragres, per que sãou
a muitos d’ enfermidades | e mortos ressocitou.
E porend’ as gentes algo | começavam d’ i fazer,
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
e de muitas terras eram | os que vĩíam ali.
Mas ũa dona de França, | cega, per quant’ aprendi,
rominha a Santiago | foi, mas avo-lh’ assi:
que nom sãou dessa ida | que sol podesse veer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E depois aa tornada, | quando chegou a Carrom,
ũa sa filha lhe disse: | “– Treides, se Deus vos perdom,
albergar mais adeante | a ũas choças que som
preto de nosso caminho, | e i podemos jazer”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois saírom da vila, | mui preto daquel logar
filhou-s’ a chover mui forte, | e houverom a entrar
com coita ena eigreja, | e, des i, ant’ o altar
se deitarom; e a cega | foi sa oraçom fazer,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
rogando Santa Maria, | a senhor esperital,
que s’ amercasse dela | e lhe tolhess’ aquel mal,
per que houvesse seu lume. | E log’ a que pod’ e val
fez que foi logo guarida. | E filhou-s’ a beizer
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
a Virgem Santa Maria. | E outro dia filhou
seu caminh’; e, assi indo, | um home cego achou
que a Santiago ia; | mas ela lh’ aconselhou
que fosse por Vila-Sirga | se quisesse lum’ haver.
40
42
564
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E contou todo seu feito, | como fora com romeus
muitos pera Santiago, | mas pero nunca dos seus
olhos o lum’ i cobrara, | mas pois a madre de Deus
lho dera em Vila-Sirga | pelo seu mui gram poder.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O cego creeu a dona, | e tantoste se partiu
dela e foi sa carreira | tanto que s’ el espediu;
e, pois foi em Vila-Sirga, | fez sa oraçom e viu,
ca nom quis Santa Maria | e-no sãar deter.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quantos aquesto souberom | todos logo manamám
loarom Santa Maria, | a senhor do bom talám,
por tam aposto miragre | que fez, e tam sem afám,
como em fazer dous cegos | tam aginha guarecer.
62
Como sofre mui gram coita | o hom’ em cego seer,
assi faz gram piadade | a Virgem em lh’ acorrer.
58
R10
* * *
565
Cantigas de Santa Maria 279
«Santa Maria, valed’, ai senhor»
(E 279, U (Ap) 10)
Esta é como el-rei pediu mercee a Santa Maria que o guarecesse dũa grand’ enfermidade
que havia; e ela, como senhor piadosa, oiu-lhe seu rogo e deu-lhe saúde.
R0
1
3
I
5
7
9
Santa Maria, valed’, ai senhor,
e acorred’ a vosso trobador,
que mal lhe vai.
A tam gram mal e a tam gram door,
Santa Maria, valed’, ai senhor,
como sofr’ este vosso loador;
Santa Maria, valed’, ai senhor,
e sãe já, se vos ém prazer for,
do que diz “«-- Ai!».
R1 10-12
[Refrão = vv. 1-3]
II
Pois vos Deus fez doutra cousa melhor
Santa Maria, valed’, ai senhor,
e vos deu por nossa rezõador,
Santa Maria, valed’, ai senhor,
seede-mi_ora bõ’ ajudador
em est’ ensai
14
16
18
R2 19-21
[Refrão = vv. 1-3]
III
que me faz a mort’, ond’ hei gram pavor,
Santa Maria, valed’, ai senhor,
e o mal que me tem tod’ enredor,
Santa Maria, valed’, ai senhor,
que me fezo mais verde mià coor
que dum cambrai.
23
25
27
R3 28-30
[Refrão = vv. 1-3]
IV
Que fez entom a galardõador
Santa Maria, valed’, ai senhor,
de todo bem e do mal sãador?
Santa Maria, valed’, ai senhor,
Tolheu-lh’ a féver e aquel humor
mao e lai.
32
34
36
R4
37
39
Santa Maria, valed’, ai senhor,
e acorred’ a vosso trobador,
que mal lhe vai.
* * *
566
Cantigas de Santa Maria 280
«Santa Maria beita seja»
(E 280)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
6
Ca em ela os santos se catam,
e pelo seu rogo se desatam
os pecados dos que bem baratam,
de que o dem’ há mui grand’ enveja.
8
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
4
R1
II
12
Per ela se corregem os tortos,
e ar faz ressocitá-los mortos,
e aos coitados dá conortos,
e co-no demo por nós peleja.
14
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
10
R2
III
18
Ela é lume dos confessores
e avogada dos pecadores
e a melhor das santas melhores;
demais, nosso bem sempre deseja.
20
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
16
R3
IV
24
Dos mártires é lum’ e corõa,
e das virges ar é padrõa,
e os grandes pecados perdõa:
atant’ é sa mercee sobeja.
26
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
22
R4
V
30
Porém lhe rogo que por bem tenha
que, quando for que mià morte venha,
que a mià alma nom se detenha
d’ ir a logar u a sempre veja.
32
Santa Maria beita seja,
ca espelh’ é de Santa Eigreja.
28
R5
* * *
567
Cantigas de Santa Maria 281
«U alguém a Jesu-Cristo por seus pecados negar»
(E 281)
Como um cavaleiro vassalo do demo nom quis negar Santa Maria, e ela o livrou do seu poder.
R0
2
I
4
6
U alguém a Jesu-Cristo | por seus pecados negar,
se bem fiar em sa madre, | fará-lh’ ela perdõar.
Dest’ avo um miragre | em França a um francês,
que nom havia no reino | duc nem conde nem marquês
que fosse de maior guisa, | e tal astragueza prês:
que, quanto por bem fazia, | em mal xe lh’ ia tornar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
El nom era de mal siso | nem deserrado em al,
senom que, quanto fazia | por bem, saía-lh’ a mal;
e, passand’ assi seu tempo | com esta ventura tal,
de grand’ algo que houvera | nom lh’ houv’ ém rem a ficar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Pois que se viu em pobreza, | diss’ um dia entre si:
“– Mesquinho desamparado, | que será_agora de mi?:
a requeza que havia, | nom sei por que mi_a perdi;
mais, se a cobrar nom posso, | ir-m’-ei algur esterrar”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El estand’ assi coidando, | um home lh’ apareceu,
e aquel era o demo, | e assi o cometeu:
“– Cuidas tu no que perdische?: | já outr’ home mais perdeu
ca tu, e fez meu mandado, | e fiz-lho todo cobrar;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e, se tu assi fezeres, | todo cho eu cobrarei”.
Diss’ el: “– Di-me que che faça, | e logo cho eu farei”.
Diss’ o demo: “– Por vassalo | meu t’ outorga, e dar-ch’-ei
mui mais ca o que perdische”. | E el foi-lho outorgar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois que lhe beijou a mão, | diss’ o demo: “– Um amor
me farás, pois meu vassalo | és: nega Nostro Senhor
e nega todos seus santos”. | E filhou-xe-lhe pavor
de os negar; e nego’-os: | tanto lh’ houv’ a preegar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Despós esto, disso: “– Santa | Maria renegarás”.
Diss’ entom o cavaleiro: | “– Este poder no-no hás:
40
568
42
que me faças que a negue, | nem tanto nom me darás
que negue tam bõa dona; | ante m’ iria matar”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Diss’ o demo: “– Pois negaste | Deus, nom mi_há rem que fazer
de sa madre nom negares, | mais dou-che mui grand’ haver;
demais, negach’ os seus santos, | mais al mi_hás de prometer:
que nom entres em eigreja”. | E jurou d’ i nom entrar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
El anda[n]do por do demo, | passou ũa gram sazom;
e foi com el-rei de França | um dia a um sermom,
e el-rei ena eigreja | entrou, e el com el nom
entrou, e houve vergonha | de se del assi quitar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
A majestade de Santa | Maria viu u ficou
de fora o cavaleiro, | e a sa mão levou
contra el e sinal fizo | que entrass’; e espantou-s’ a gente por neum home | a majestade chamar.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Diss’ entom el-rei: “– Amigos, | algum sant’ entre nos há
e nom entrou na eigreja, | mais algur de fora ’stá”.
E fezo catar de fora | quaes estavam alá,
e virom o cavaleiro | soo senlheiro estar.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Diss’ el-rei: “– Santa Maria | mui pagada de vos é,
ca a sua majestade | vos chamou, que aqui sé”.
Disso el: “– Mais é m’ irada, | com dereito, a-la-fé,
e fez sinal que ant’ ela | sol nom m’ ousasse parar:
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
ca eu fiz tam mao feito | que nunca viu home quem
tam mao feito fezesse | por algo, nem tam mal sém:
ca, porque pobre tornara, | vassalo tornei porém
do dem’, e Deus e os santos | neguei por m’ enrequentar;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
mais des hojemais do demo | m’ espeço, e nego eu
el e todas suas obras, | e leixo quanto m’ el deu,
e torno-m’ a Jesu-Cristo | e outorgo-me por seu,
e peço-lhe que se queira | de mi, pecador, nembrar”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Poi-lo viu el-rei queixar-se | e mui bem se repentir,
preguntou-lhe se jaquando | trabalhara em servir
a Virgem Santa Maria; | e el disso: “– Consintir
nunca quix ao diabo | que mi_a fezesse negar”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Diss’ entom el-rei: “– Amigo, | eu fui errado, par Deus,
569
94
R16
96
de vós haverdes pobreza | em meu rein’ e ontr’ os meus”.
E deu-lh’ entom por herdade | mui mais ca houveram seus
avoos, e ficou rico | com’ home do seu logar.
98
U alguém a Jesu-Cristo | por seus pecados negar,
se bem fiar em sa madre, | fará-lh’ ela perdõar.
* * *
570
Cantigas de Santa Maria 282
«Par Deus, muit’ há gram vertude na paravla comunal»
(E 282)
Como Santa Maria acorreu a um moço de Segó[v]ia que caeu dum sobrado mui alto, e nom
se feriu porque disse: “– Santa Maria, val-me!”.
R0
2
I
4
6
Par Deus, muit’ há gram vertude | na paravla comunal
u dizem todos nas coitas: | “– Ai Santa Maria, val!”
Ca muito é gram vertude | e piadad’ e mercê
d’ acorrer sol por um vervo | a quem em ela bem crê;
ca, estando com seu filho, | tod’ o sab’ e tod’ o vê:
pero que-na aqui chama, | sa mercee nom lhe fal.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E daquest’ um seu miragre | mui fremoso contarei
que mostrou grand’ em Segóvi’ a | (com’ eu em verdad’ achei)
um filho de Diag Sánchez, | [um] cavaleiro que sei
que na cidade morava | e era ém natural.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Est’ havia um seu filho | que amava mais ca si;
e um dia trebelhando | andava, com’ aprendi,
encima dũu sobrado | muit’ alt’, e caeu dali
de costas, cabeça juso, | e foi caer ena cal.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
A ama que o criava | foi corrend’ a aquel som
do meninho que caera, | e o padre log’ entom,
e outrossi fez a madre | (que o mui de coraçom
amava mais doutra cousa, | como seu filho carnal),
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
coidando que morto era, | e forom po-lo filhar.
E, quando pararom mentes, | viro-no em pé estar
trebelhando e riindo, | e foro-no preguntar
se era jaquê ferido | ou [se] se sentia mal.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Diss’ el: “– Nom, ca em caendo | chamei a madre de Deus,
que me filhou atantoste | logo enos braços seus;
ca, se aquesto nom fosse, | juro-vos, par Sam Mateus,
que todo fora desfeito, | quando caí, come sal”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ est’ oí[rom] o padre | e a madre, gram loor
derom a Santa Maria, | madre de Nostro Senhor;
e log’ o moço levarom | aa eigreja maior
com muitas candeas outras | e com um seu estadal.
40
42
R7
44
Par Deus, muit’ há gram vertude | na paravla comunal
u dizem todos nas coitas: | “– Ai Santa Maria, val!”
* * *
571
Cantigas de Santa Maria 283
«Quem vai contra Santa Maria»
(E 283, F [8])
Esta é como um crérigo que defendia aas gentes que nom fossem a Santa Maria de Terena
fazer oraçom se tolheu do corpo e da fala, e, tanto que se repentiu, foi guarido.
R0
I
2
3
5
7
9
Quem vai contra Santa Maria
com sobêrvia, faz mal a si.
Ca sobêrvia nom dev’ haver
home contra a que vencer
foi ao demo per saber
ser homildosa e fazer
per que Deus quis dela nacer;
ca doutra guisa nom querria
ser Deus home, nem si nem si.
R1 10-11
[Refrão = vv. 1-2]
II
E por esto vos contarei
um gram miragre que achei
que fez a madre do gram rei
em Terena (e mui bem sei
que outros i, com’ apres’ hei,
fez muitos e faz cada dia
aos que os vam buscar i).
12
14
16
18
R2 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mui pret’ um crérigo morar
fora daquel santo logar
desta groriosa sem par;
e um dia quis preegar
em sa eigreja e mostrar
aas gentes que “– Gram folia
será,” –diss’ el– “creed’ a mi,
21
23
25
27
R3 28-29
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de quantos vos fordes partir
de vossas eigrejas e ir
a Terena por i servir
nem dar do voss’ e oferir;
e juro-vos eu, sem mentir,
que por est’ escomungaria
quantos alá fossem daqui;
30
32
34
36
R4 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
V
e, se per ventura avém
que, em esta festa que vem
d’ agosto, per vosso mal sém,
fordes i per neũa rem,
escomungar-vos-ei porém”.
E, u esto dizer queria,
torceu-xe-lh’ a boca, assi
39
41
43
45
572
R5 46-47
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que nulha cousa nom falou
ne-na missa nom ar cantou;
e de guisa torto ficou
que pé nem mão nom mudou,
per poder da que despreçou
por aquelo que dit’ havia.
E foi tolheito log’ ali
48
50
52
54
R6 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
VII 57
que, u quis descomungaçom
dizer, nom disse si nem nom,
nem ar pôde mostrar razom,
mais braadou come cabrom.
Entom todos de coraçom
loarom muit’ a que nos guia
e temero-na mais des i.
59
61
63
R7 64-65
[Refrão = vv. 1-2]
VIII 66
72
Mas, quando s[e] atal sentiu
que tolheit’ era e se viu
tam maltreito, bem se partiu
daquel err’ e se repentiu,
assi que logo bem guariu;
e fez assi que todavia
deu i do seu, com’ aprendi.
74
Quem vai contra Santa Maria
com sobêrvia, faz mal a si.
68
70
R8
* * *
573
Cantigas de Santa Maria 284
«Quem bem fiar na Virgem de todo coraçom»
(E 284, F [66])
Esta é como Santa Maria livrou um monge do poder do demo, que o tentava.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem bem fiar na Virgem | de todo coraçom,
guardá-lo-á do demo | e da sa tentaçom.
E daquest’ um miragre | mui fremoso direi
que fez Santa Maria, | per com’ escrit’ achei
em um livr’, e dentr’ outros | traladar o mandei,
e um cantar ém fige | segund’ esta razom.
[Refrão = vv. 1-2]
Um frade foi doente | dum mõesteiro mal,
e todos bem cuidavam | que mort’ era sem al;
e, se nom foss’ a Virgem, | reinha_esperital,
a sa alma levara | o dem’ a perdiçom.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Ca ante que morresse | um sinal lhe mostrou
que contra ũa porta | mui de rijo catou;
mas um frad’ i estava | que o empreguntou
porque esto fazia, | que lhe dissess’ entom.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E aquel frad’ enfermo | entom nom respondeu,
mas muita de paravla | sobeja lhe creceu
com’ em desasperando, | e todo se torceu;
e aa cima disse, | mui trist’ e em mal som,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
que quantos bes feitos | havia, nulha rem
prestar nom lhe poderam, | e tal era seu sém,
e tam gram prol lh’ havia | fazer mal come bem.
E, quand’ est’ houve dito, | disse-lh’ [o] companhom
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
que aquesto o demo
que lhe metia medo
mas, se ele quisesse
da Virgem groriosa,
|
|
|
|
fazia, sem dultar,
po-lo desasperar;
ũu vesso rezar
log’ o demo felom
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
se partiria dele. | E o frade rezou
o vesso muit’ aginha | que lh’ o frad’ ensinou;
e atám tost’ o demo | se foi e o leixou,
que o nom viu pois nunca; | e vedes porque nom:
574
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
porque em aquel vesso | aa Virgem assi
dizia: “– Com ta graça, | senhor, acorr’ a mi,
ca tu de piadade | madr’ és; porend’ aqui
me guarda do diabo | cho de traiçom”.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E, quand’ est’ houve dito, | começou de riir
e disso aos frades: | “– Nom veedes vĩir
a Virgem groriosa?: | com ela me quer’ ir”.
E logo ante todos | fezo sa confissom,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
e repentiu-se muito | do que foi descreer
e comungou. E logo | começou a dizer
que o do leit’ ergessem, | e mandou-se põer
em terra, e a alma | foi dar a Deus em dom.
62
Quem bem fiar na Virgem | de todo coraçom
guardá-lo-á do demo | e da sa tentaçom.
58
R10
* * *
575
Cantigas de Santa Maria 285
«Do dem’ a perfia»
(E 285, F [28], U (Ap) 9)
Esta é como Santa Maria fez aa monja que nom quis por ela leixar de s’ ir com um cavaleiro, que se tornass’ a sua ordem, e ao cavaleiro fez outrossi que filhasse religiom.
R0
2
I
4
6
8
10
R1 11-12
II
14
16
18
20
R2 21-22
III
24
26
28
30
R3 31-32
IV
34
36
38
40
R4 41-42
V
44
Do dem’ a perfia
no-na tolh’ outra cousa | come Santa Maria.
Dest’ um fremoso miragre | vos quer’ eu ora contar
que por ũa monja fazer quis a santa reinha,
que, per com’ eu aprendi, era de mui bom semelhar
e de fremoso parecer e aposta mininha;
e gram crerizia
e grand’ ordinhamento | esta dona havia,
e, demais, sabia
amar mais doutra cousa | a Virgem, que nos guia.
[Refrão = vv. 1-2]
Sem tod’ esto, de linhage | muit’ alt’ era, e melhor
falava doutra molher. E por aquesto a essa
filhou por sa companheira e por sa aguardador,
porque muito a preçava de sém, a abadessa;
e, uquer que ia,
jamais aquela monja | nunca de si partia,
ante a metia
em todo-los seus feitos | cada que os fazia.
[Refrão = vv. 1-2]
Um sobrinh’ est’ abadessa | havi’, a que mui gram bem
queria, que era meninh’ e apost’ e fremoso.
Este, des que viu a monja, quis-lhe melhor doutra rem,
e em guisar que a houvesse foi tam aguçoso
que nom era dia
que lh’ el muitas vegadas | sa coita nom dizia
e lhe prometia
que, se com el se fosse, | com ela casaria,
[Refrão = vv. 1-2]
e, demais, que grand’ herdade | lhe daria e haver,
e a terria sempr’ honrada, rica e viçosa,
e que nunca del pesar receberia, mais prazer.
E tanto lhe diss’ aquesto que ela saborosa
foi e d’ alegria
lhe jurou em sas mãos | que com ele s’ iria
e que leixaria
log’ aquel mõesteiro, | u al nom haveria.
[Refrão = vv. 1-2]
Essa noit’ aquela monja | todas sas cousas guisou
por se com seu amigo ir; mas em ũa capela
da Virgem Santa Mari’ ant’ o altar s’ agolhou,
576
46
48
50
R5 51-52
VI
54
56
58
60
R6 61-62
VII
64
66
68
70
R7 71-72
VIII
74
76
78
80
R8 81-82
IX
84
86
88
90
R9 91-92
X
94
96
98
100
chorand’ ant ũa sa omagem, que era mui bela,
e se lh’ espedia.
Mas, quando foi na porta, | per ela nom podia
sair, ca via
deant’ a majestade, | que lh’ a porta choía.
[Refrão = vv. 1-2]
Desto foi tam espantada | e houve pavor atal
que se foi, quanto ir mais pôde, ao dormidoiro.
Mai-la Virgem groriosa, reinha esperital,
fezo que a el essa noite enganou agoiro,
e foi-se sa via,
maldizendo que nunca | por molher creeria.
E ela jazia
coitada em seu leito, | que per rem nom durmia.
[Refrão = vv. 1-2]
Outro dia gram manhãa, | atanto que a luz viu,
a abadessa se levou, e a monja com ela.
E log’ aquel seu amigo vo, que lh’ arreferiu
como nom saiu a ele, de que mui gram querela
sempr’ haver devia;
mas ela lhe jurava | que mui mal se sentia,
pero todavia,
quando vess’ a noite, | que pera el ir-s’-ia.
[Refrão = vv. 1-2]
Pois vo a outra noite, | como na primeira fez,
e, por ir-s’ ende sa carreira, foi aa eigreja;
e, quando s’ ém quis sair, a Virgem santa do bom prez
parou-se-lh’ em cruz ena porta e disse: “– Nom seja
que tam gram folia
faças contra meu filho, | nem tam grand’ ousadia,
ca eu nom seria
túda de rogar-lhe | por ti, nem m’ oiria”.
[Refrão = vv. 1-2]
A monja com mui gram coita | de com seu amigo s’ ir,
macar de noit’ aa igreja foi, na majestade
sol mentes nom quis ter, ante foi a porta abrir,
e saiu per ela e foi-se. E fez i maldade.
Mas muit’ ém prazia
a aquel seu amigo, | e be-na recebia,
e logo tragia
um palafrém mui branco, | em que a el subia.
[Refrão = vv. 1-2]
Poi-la levou a sa terra | e com ela juras prês,
mui bem lh’ houve comprid’ aquelo que lhe convera;
ainda mui mais lhe deu, que ante que passass’ um mês
a fez senhor de sa herdade, mais ca lh’ el dissera.
E ela vivia
a mais viçosa dona | que viver poderia,
e, quanto queria,
tod’ aquel seu amigo | lhe dava e compria.
577
R10 101-102
XI
104
106
108
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R11 111-112
XII
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116
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R12 121-122
XIII
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126
128
130
R13
132
[Refrão = vv. 1-2]
Assi ambos esteverom | viçosos a seu talám,
e Deus sofreu que houvessem filhos muitos e filhas
mui grandes e mui fremosos. Mas a Virgem (que mui gram
pesar houve daqueste feito) fez i maravilhas,
que aparecia
a ela em dormindo | e mal a reprendia
dizendo: “– Sandia,
e como começaste | atám gram bavequia
[Refrão = vv. 1-2]
em leixar teu mõesteiro, | u vivias, com’ eu sei,
mui bem e muit’ honradamente, e ir ta carreira
e desdenhares a mi e a meu filh’, o santo rei,
e nom haveres vergonha em niüa maneira?;
por est’ eu terria
por bem que te tornasses | pera a ta mongia,
e eu guisaria
logo com Deus, meu filho, | que te perdõaria”.
[Refrão = vv. 1-2]
A dona daqueste sonho | foi espantada assi
que, tremendo muit’ e chorando, diss’ a seu marido
toda a visom que vira. E, per quant’ eu aprendi,
quiso Deus que da sa graça foss’ ele bem comprido,
e, o que lh’ oía,
todo lho outorgava; | e dela se partia,
e doutr’ abadia
religiom filhava, | em que a Deus servia.
Do dem’ a perfia
no-na tolh’ outra cousa | come Santa Maria.
* * *
578
Cantigas de Santa Maria 286
«Tanto quer Santa Maria os que ama defender»
(E 286, F [4])
Esta é como caeu o portal sobre dous judeus que escarneciam a um home bõo polo cam que
o mordera u jazia em oraçom.
R0
2
I
4
6
Tanto quer Santa Maria | os que ama defender
que nom sofr’ em nulha guisa | leixá-los escarnecer.
Ca, sem que lhes dá sa graça, | com que possam fazer bem,
guarda-os nas grandes coitas, | que se nom perçam per rem,
e nom sofre que maltreitos | ar sejam, nem em desdém
túdos, nem outras gentes | nom lhes possam mal dizer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E mui fremoso miragre | vos direi desta razom
que mostrou Santa Maria | (que nunca faz se bem nom)
por um home que sempr’ ia | rogar-lhe de coraçom
que eno seu paraíso | o quisesse receber.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este fora da eigreja | fazia eno portal
oraçom, jazend’ em prezes, | que o guardasse de mal
a Virgem Santa Maria, | a senhor esperital.
E, jazend’ assi um dia, | houve-lhe de contecer
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que, el fazendo sas prezes, | um gram cam per i passou,
e chegou-se muit’ a ele, | e atal o adobou
que houv’ a leixar sas prezes; | e logo se levantou,
ca, pois se sentiu maltreito, | nom quis mais ali jazer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E filhou log’ ũa pedra | pera esse cam ferir,
e viu dous judeus que logo | se filharom a riir
do que o cam lhe fezera, | e muito o escarnir;
e el foi ém tam coitado | que nom soube que fazer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mas diss’ a Santa Maria: | “– Ai senhor, destes judeus
me dá, se te praz, dereito, | ca som emigos teus,
que matarom a teu filho, | que era home e Deus,
e por ti me escarnecem, | como tu podes veer”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Des quand’ aquest’ houve dito, | ao cam s’ ar remeteu
por dar-lhe com ũa pedra; | mas viu de como caeu
sobr’ aqueles judeus logo | um portal; mas nom tangeu
40
579
42
a outro senom a eles, | que foi todos desfazer.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Todos quantos esto virom | derom logo gram loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
que tam grand’ é sa bondade | que sempre faz o melhor;
e o home que vingara | filhou-a a beizer.
50
Tanto quer Santa Maria | os que ama defender
que nom sofr’ em nulha guisa | leixá-los escarnecer.
46
R8
* * *
580
Cantigas de Santa Maria 287
«O que em Santa Maria todo seu coraçom tem»
(E 287)
Como Santa Maria de Scala, que é a par de Génua, livrou ũa molher de mor[te] que ia alá
per mar em romaria.
R0
2
I
4
6
O que em Santa Maria | todo seu coraçom tem,
quequer que lhe por mal façam, | todo lho torna em bem.
E daquest’ um gram miragre | vos direi, se vos prouguer,
que mostrou Santa Maria | por ũa bõa molher
que em Génua morava; | e que-no logar quiser
saber: foi ena ermida | de Scala, que pret’ é ém.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesta casada era | com um home que peor
lhe queria doutra cousa | do mund’, e a pecador
daquesto nom se guardava; | e o falso traedor
buscou como a matasse, | e fez em elo mal sém.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta em Santa Maria | fiava, per com’ oí,
mais doutra cousa que fosse, | e avo-lh’ end’ assi:
que a guareceu de morte, | com’ oiredes per mi;
e, de como foi aquesto, | nom vos ém negarei rem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O marido por matá-la | mostrou aquesta razom:
“– Ai molher, por Deus, vaamos | ambos fazer oraçom
aa ermida de Scala, | per mar, ca per terra nom,
e aqueste meu conselho | nom tenhades em desdém”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ela cree’-o, e foi-se | com el a aquel logar;
mais o falso (que havia | gram sabor de a matar)
filhou-a, indo na barca, | e deitou-a eno mar.
Mas sãa a pôs na riba | a senhor que nos mantém.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quand’ esto viu o marido, | de coraçom lhe pesou
e foi logo pera [e]la | e tam muito a rogou
que entrou com el na barca; | e tantoste a filhou
e meteu-a em um saco, | por que nunca saíss’ ém.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E atou-a bem no saco | aquel falso desleal
e deitou-a no mar logo, | ca lhe queria gram mal;
mais tantoste foi com ela | a reinha ’sperital,
40
581
42
e pôs-la em salvo fora. | E aqué o falso vem,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
cuidando que era morta, | e foi da barca decer
e dereit’ aa ermida | foi por oraçom fazer;
e, quando foi aa porta, | viu sa molher i seer
com seu saco ena mão, | dizendo: “– Nom te convém
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
que hoimais comigo sejas: | ca a Virgem me guariu
quando me no mar deitaste, | e mià oraçom oiu
e bem eno mar mui fondo | aqueste saco abriu,
ca nom quis que i morresse; | beita seja, amém”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quand’ esto viu o marido, | aos pees lhe caeu
e perdom pediu chorando | por aquele que naceu
da Virgem Santa Maria; | e ela o recebeu,
e ambos em romaria | forom a Jerusalém.
62
O que em Santa Maria | todo seu coraçom tem,
quequer que lhe por mal façam, | todo lho torna em bem.
58
R10
* * *
582
Cantigas de Santa Maria 288
«A madre de Jesu-Cristo vedes a quem aparece»
(E 288, F [19])
Esta é como um home bõo de religiom foi veer a igreja u jazia o corpo de Sant’ Agostinh’, e
viu i de noite Santa Maria e grandes coros d’ ángeos que cantavam ant’ ela.
R0
2
I
4
6
A madre de Jesu-Cristo, | vedes a quem aparece:
a quem o bem de seu filho | e dela haver merece.
E dest’ um mui gram miragre | vos contarei mui fremoso,
que mostrou Santa Maria | a um bom religioso
que de lhe fazer serviço | sempr’ era muit’ aguçoso,
e era de bõa vid’ e | quite de toda sandece.
R1 7-8
ão = vv. 1-2]
II
El natural dũa terra | foi que ora é chamada
«Cantaária» per nome, | viçosa e avondada;
e ali sempre fazia | sa vida e sa morada,
servind[o] a groriosa, | que aos seus nom falece.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Onde foi ũa vegada | que se meteu em caminho
pora veer o sepulcro | em que jaz Sant’ Agostinho;
e, pois foi ena eigreja, | deitou-se logo festinho
ant’ a capela da Virgem, | que os ceos escrarece.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, el de noite jazendo, | chegarom i muitos santos
co-na Virgem groriosa, | cantando mui dulces cantos;
e tantos santos cantavam | que vos nom sei dizer quantos,
loand’ a Santa Maria, | seu bem e sa grãadece.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E ar cantavam um vesso | em que diz de com’ honradas
som as almas enos ceos | dos santos, e corõadas
(aqueles que as carreiras | de Deus houverom andadas
e por El prenderom morte, que ao dem’ avorrece).
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E as vírges cantavam | bem ante Santa Maria,
e ũa dessas donzelas | contra as outras dizia:
“– Amigas, mui bem cantemos | ant’ aquesta que nos guia,
que a sa gram fremosura | mais ca o sol esprandece”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O home bõo tod’ esto | viu, e deu porém loores
a Deus e pois a sa madre, | que é senhor das senhores;
e, se bem costumad’ era, | outros costumes melhores
40
583
42
filhou dali adeante; | e em mui bõa velhece
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
morreu, e foi a sa alma | pera Deus dereitamente,
segund’ disse Jesu-Cristo | (que nunca mentiu nem mente):
que, aos que o servirem, | nunca lhes falrá niente
do gram bem do paraíso, | ca a eles pertece.
50
A madre de Jesu-Cristo, | vedes a quem aparece:
a quem o bem de seu filho | e dela haver merece.
46
R8
* * *
584
Cantigas de Santa Maria 289
«Pero que os outros santos a vezes prendem vingança»
(E 289, E 396, F [12 bis])
Como Santa Maria de Tocha guariu um lavrador que andava segando em dia de Sam Quírez, que se lhe cerrarom os punhos ambos.
R0
2
I
4
6
Pero que os outros santos | a vezes prendem vingança
dos que lhes erram, a madre | de Deus lhes val sem dultança.
Desto direi um miragre | grande que cabo Madride
fez, na igreja de Tocha, | a Virgem. Porém m’ oíde
todos mui de voontade, | e mercee lhe pedide
que vos ganhe, de seu filho, | dos pecados perdõança.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Onde foi assi um dia | que um lavrador na festa
de Sam Quíreze segava | ũa messe per gram sesta,
tendo sa fouc’ em mão | e um sombreir’ em sa testa,
de palhas, per que cuidava | do sol haver amparança.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, porque em aquel dia | de Sam Quíreze segava,
Deus, por honra daquel santo, | a mão com que cuidava
o mãolh’ alçar de terra, | com ele se lh’ apertava
de guisa que nom podia | haver ende delivrança.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Outrossi a mão destra | co-na fouce apertada
foi, assi como se fosse | com forte grud’ engrudada;
e bem assi o levarom | tolheito a sa pousada
os outros. E aquel dia | sol nom houverom ousança
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
de segarem; mais tantoste | aquel lavrador levarom,
como x’ estava, a Tocha, | e muito por el rogarom
a Virgem Santa Maria, | e ant’ o altar chorarom
dela, que lhe perdõasse | aquela mui grand’ errança
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que fezera, e chorando | el muit’, e de voontade
rogando Santa Maria | que pela sa piadade
lhe valess’ e nom catasse | aa sa gram neicidade,
e que daquela gram coita | o tirasse sem tardança.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois assi houve chorado, | log’ a senhor das senhores
lhe valeu, que sempr’ acorre | de grad’ aos pecadores,
e desaprendeu-lh’ as mãos | e tolheu-lh’ end’ as doores.
Por que todos bem devemos | haver em ela fiança.
40
42
R7
44
Pero que os outros santos | a vezes prendem vingança
dos que lhes erram, a madre | de Deus lhes val sem dultança.
* * *
585
Cantigas de Santa Maria 290
«Maldito seja quem nom loará»
(E 290)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Maldito seja o que nom loar
a que de bondades nom houve par
nem haverá mentr’ o mundo durar,
ca Deus nom fez outra tal, nem fará.
8
Maldito seja quem nom loará
a que em si todas bondades há.
4
R1
II
12
Beito seja sempr’ o loador
de tam nobr’ e tam honrada senhor,
de que naceu Deus, hom’ e salvador,
ca pois gualardõado lhe será.
14
Beito seja o que loará
a que em si todas bondades há.
10
R2
III
18
Maldito seja quem nom disser bem
daquela em que nom falece rem
de quant’ a bondad’ e a prez convém,
e esto jámais nom lhe falirá.
20
Maldito seja quem nom loará
a que em si todas bondades há.
16
R3
IV
24
Beit[o] seja quem sempre servir
a madre de Deus, Virgem sem falir;
ca, pois [que] deste mundo se partir,
ant’ o seu filho o presentará.
26
Beito seja o que loará
a que em si todas bondades há.
22
R4
V
30
Maldito seja quem bem nom disser
da melhor das bõas e nom quiser
haver seu amor enquanto podér,
ca por aquest’ o de Deus haverá.
32
Maldito seja quem nom loará
a que em si todas bondades há.
28
R5
Maldito seja quem nom loará
a que em si todas bondades há.
VI
36
Beito seja o que gram prazer
há de loar tal senhor, que haver
nos fez amor de Deus e conhocer
ela que por nós todos rogará.
38
Beito seja o que loará
a que em si todas bondades há.
34
R6
* * *
586
Cantigas de Santa Maria 291
«Cantand’ e em muitas guisas dev’ hom’ a Virgem loar»
(E 291, F [47])
Como Santa Maria tirou um escolar de prijom em Touro porque lhe fezera ũa cantiga eno
cárcer jazendo.
R0
2
I
4
6
Cantand’ e em muitas guisas | dev’ hom’ a Virgem loar,
ca, u houver maior coita, | valer-lh’-á se a chamar.
Ca loada de tod’ home | devia sempr’ a seer,
e assi conhoceria | jaquanto do seu poder,
ca lhe pode nas sas coitas | toste conselho põer;
e sobr’ aquesto vos quero | um seu miragre contar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquele que o miragre | sabia, disso-m’ assi:
que ũu ’scolar liía | em Salamanca, e i
houv’ ũa molher per força; | e, com medo, fugiu di
e foi-s’ entom pera Touro, | u cuidou a escapar
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
dos parentes da manceba | e das justiças (ca nom
guarira se o colhessem | na mão, [e] per razom).
Mas, pero fugiu a Touro, | forom pos el, e entom
disserom aa jostiça | que o fosse recadar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O escolar recadado | foi logo, nom houv’ i al,
e derom com el no cárcer, | u sofria muito mal
da prijom, que era forte. | E ele, jazendo tal,
houve gram medo da morte, | e começou-s’ a nembrar
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
de quanto pesar fezera | a Deus e como pecou
eno mundo mui sem guisa, | e conselho nom achou
a que se tornass’; e logo | Santa Maria chamou,
chorando muito dos olhos, | e começou-lh’ a rogar:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
“– Virgem santa, de Deus madre, | que font’ és de todo bem,
nom cates a meus pecados | nem ao meu mao sém;
mas tu que nunca faliste | a quem te chamou, de rem,
nom me queiras em tal coita, | mià senhor, desamparar,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
mais pola ta piadade, | que sempr’ ao pecador
acorreu ena gram coita, | por mercee, mià senhor,
te peço que tu m’ acorras, | e, enquant’ eu vivo for,
nunca me de teu serviço, | senhor, querrei alongar”.
40
42
587
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Entom, no cárcer jazendo, | a esta senhor de prez
fez ũu cantar, que disse | a gram mercee que fez
Deus por ela ao mundo; | e, pois log’ aquela vez
que o cantar houve feito, | o começou de cantar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
El ena prijom cantando | o cantar, chorand’ assaz,
apareceu-lh’ [i] a Virgem, | a que de todo bem praz,
e filhou-o pelo braço, | e diz: “– Quero-t’ eu em paz
põer desta prijom fora, | pois que por meu hás d’ andar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E logo aquela hora, | assi com’ aprendi eu,
do cárcer em que jazia | e da vila, com el deu
for’, e em paz e em salvo | o pôs, e diz: “– Vai por meu
home, ca, se me servires, | sempre i podes gãar”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
El, pois que se viu em salvo | pela madre do gram rei,
deu-lhe loores e graças, | e, assi com’ apres’ hei,
serviu bem Santa Maria | sempr’. E porém vos contei
este feito: que hajades | gram sabor de a honrar.
68
Cantand’ e em muitas guisas | dev’ hom’ a Virgem loar,
ca, u houver maior coita, | valer-lh’-á se a chamar.
64
R11
* * *
588
Cantigas de Santa Maria 292
«Muito demostra a Virgem, a senhor esperital»
(E 292, F [10])
Como el-rei Dom Fernando vo em visom a maestre Jorge, que tirassem o anel do seu dedo
e o metessem no dedo da omagem de Santa Maria.
R0
2
I
4
6
Muito demostra a Virgem, | a senhor esperital,
sa lealdad’ a aquele | que acha sempre leal.
E de tal razom com’ esta | vos direi com’ ũa vez
a Virgem Santa Maria | um mui gram miragre fez
polo bom rei Dom Fernando, | que foi comprido de prez,
d’ esforç’ e de grãadeza | e de todo bem, sem mal.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
De manhas e de costumes, | per quant’ eu del aprendi,
no-nas pod’ haver melhores | outre que el houv’ em si;
e sobre tod’ outra cousa, | assi com’ eu del oí,
amava Santa Maria, | a senhor que pod’ e val.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Se el leal contra ela | foi, tam leal a achou
que em todo-los seus feitos | atám bem o ajudou
que, quanto começar quiso | e acabar, acabou;
e, se bem obrou por ela, | bem lh’ ar pagou seu jornal.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Assi que em este mundo | fez-lh’ acabar o que quis,
e morrer honradamente, | e, morrendo, seer fis
que a paraís’ iria, | bem u éste Sam Denis,
u veeria seu filho | e a ela outrotal.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Assi estes dous leaes | lealdade fez amar,
ca el sempre a servia | e a sabia loar;
e, quand’ algũa cidade | de mouros ia gãar,
sa omagem na mezquita | põía eno portal.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E ar fezo-lh’ a sa morte | que polo melhor morreu
rei que em seu logar fosse, | e fez per que o meteu
el-rei seu filh’ em Sevilha, | que Mafomete perdeu
per este rei Dom Fernando, | que é cidade cabdal.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, poi-lo houv’ i metudo, | segundo com’ aqui diz,
muitos miragres o filho | da santa emperadriz
mostrou por el sempr’, e mostra. | E sa molher Beatriz
aduss’ i depois seu filho, | nom passand’ a Muradal.
40
42
589
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Ond’ avo que seu filho, | rei Dom Alfonso, fazer
fez mui rica sepoltura, | que costou mui grand’ haver,
feita em fegura dele, | po-los ossos i meter
se o achassem desfeito; | mas tornou-xe-lhe em al:
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca o achou tod’ enteiro | e a sa madre, ca Deus
nom quis que se desfezessem, | ca ambos eram bem seus
quites, que nunca mais forom | Sam Marcos e Sam Mateus,
outrossi da Santa Virgem, | que do mund’ é estadal.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Esto foi quando o corpo | de sa madre fez vĩir
de Burgos pera Sevilha, | que jaz cabo d’ Alquivir,
e em ricos mõimentos | os fez ambos sepelir,
obrados mui ricamente | cada um a seu sinal.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Depois que esto foi feito, | el-rei apost’ e mui bem
a omagem de seu padre | fez põer como convém
de seer rei: em cadeira, | e que sa espada tem
na mão, com que deu colbe | a Mafomete mortal.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
O logar u a omagem | del-rei Dom Fernando sé
tam rico e tam fremoso | e atám aposto é
que tod’ home que o veja | bem dirá, per bõa fé,
que o tem por mui mais nobre | ca se fosse de cristal.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
No dedo desta omagem | metera seu filh’ el-rei
um anel d’ ouro com pedra | mui fremosa, com’ achei
por verdad’; e maravilha | mui grande vos ém direi
que mostrou em este feito | o que naceu por Nadal.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Ca o bom rei Dom Fernando | se foi mostrar em vijom
a aquele que fezera | o anel, e disse: “– Nom
quer’ est’ anel ter migo, | mas dá-lo em ofreçom
aa omagem da Virgem, | que tem vestido cendal,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
com que vim bem des Toledo; | e logo crás manamám
di a meu filho que ponha | esta omagem de Santa Maria u a minha | está, ca nom é, de pram,
guisado de ser tam alte | com’ ela, nem tam igual;
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
mas ponham-m’ i em golhos, | e que lhe de[m] o anel,
ca dela tiv’ eu o reino | e de seu filho mui bel,
e sõo seu quitamente, | pois fui cavaleir novel
94
590
96
na sa eigreja de Burgos | do mõesteiro reial”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Maestre Jorge havia | nom’ o que aquesto viu
em sonhos; e mantenente | fora do leito saiu
e foi log’ [a]a eigreja, | e fez tanto que lh’ abriu
o tesoureiro as portas | (d’ our’ e nom doutro metal).
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E em catar a omagem | havia mui gram sabor,
e viu-lh’ a sortelha fora | do dedo, onde pavor
houve grand’ a maravilha, | e diss’: “– Ai Nostro Senhor!,
quem m’ adubaria este | anel?: soubess’ ora qual
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
seria que o fezesse!”. | Maestre Jorge diss’: “– Eu,
ca eu fix aquesta obra | toda e est’ anel seu
del-rei”. E o tesoureiro | logo o anel lhe deu,
dizend’: “– É gram maravilha | como do dedo lhe sal”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
Disse “– Nom faz”, o maestre, | “– mas direi, e nom vos pês,
que esta noit’ hei sonhado | vel duas vezes ou três”.
Entom lhe contou o sonho, | bem de tal guisa medês
com’ a vós hei já contado, | e nom foi ém mentiral.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
126
Entom ambos o contarom | al-rei, a que proug’ assaz,
des i ao arcebispo, | a que com tal feito praz;
e al-rei muito loarom | Dom Fernando (por que faz
Deus mui fremosos miragres, | que aos seus nunca fal).
128
Muito demostra a Virgem, | a senhor esperital,
sa lealdad’ a aquele | que acha sempre leal.
124
R21
* * *
591
Cantigas de Santa Maria 293
«Par Deus, muit’ é gram dereito de prender grand’ ocajom»
(E 293, F [37])
Como um jograr quis remedar como siía a omagem de Santa Maria, e torceu-se-lhe a boca
e o braço, e levaro-no aa eigreja ter vigia, e guareceu.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Par Deus, muit’ é gram dereito | de prender grand’ ocajom
o que contrafazer cuida | aquel de que há faiçom.
Ca, segund’ escrit’ achamos, | Deus a fegura de si
fez o home, e porende | dev’ amar mui mais ca si
o hom’ a Deus. E daquesto, | segundo eu aprendi,
avo mui gram miragre, | onde fiz cobras e som.
[Refrão = vv. 1-2]
Esto foi em Lombardia | dum jograr remedador
que atám bem remedava | que haviam ém sabor
todos quanto-lo viíam, | e davam-lhe com amor
panos e selas e fros | e outro muito bom dom.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E el, com sabor daquesto, | jamais nom fazia al
senom remedar a todos, | ũus bem e outros mal;
mas o dem’, a que criía | de conselho, fez-lh’ atal
remedilho fazer onde | recebeu mui gram lijom.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
E assi foi que um dia | per ũa porta entrar
da vila foi, mui bem feita, | e viu sobr’ ela estar
ũa mui bela omagem | da Virgem que nom há par,
tendo seu filh’ em braço; | mas nom fez i oraçom,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
mas parou-lhe muito mentes, | e, pois que a bem catou,
com gram sandez o astroso | a remedar a cuidou.
Mas pesou a Jesu-Cristo, | e atal o adobou
que bem cabo da orelha | pôs-lh’ a boc’ e o granhom.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E o colo co-no braço | tam forte se lh’ estorceu
que em pés estar nom pôde | e log’ em terra caeu;
mas a gente que viu esto | o filhou e o ergeu,
e, correndo, à eigreja | o levarom de random.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
E teverom i vigia, | e rogarom muit’ a Deus
que mostrasse por sa madre | ali dos miragres seus;
e o jograr lhe rogava, dizend’: “– Os pecados meus
592
42
som tam muitos que aquesto | mi_avo com gram razom”.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Outro dia, quand’ a missa | começarom a dizer,
a Virgem Santa Maria | quis dele mercê haver,
e o rosto e o braço | lhe fez logo correger
e torno’-o mui bem são; | por que mui gram devoçom
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
54
houverom quantos i eram, | loand’ a senhor de prez,
que tam fremoso miragre | assi ante todos fez.
E o bispo da cidade, | que o oiu, dessa vez
vo log’ aa eigreja | e fez ende gram sermom.
56
Par Deus, muit’ é gram dereito | de prender grand’ ocajom
o que contrafazer cuida | aquel de que há faiçom.
52
R9
* * *
593
Cantigas de Santa Maria 294
«Nom é mui gram maravilha seerem obedientes»
(E 294, F [18])
Esta é como ũa molher que jogava os dados em Pulha lançou ũa pedra aa omagem de Santa
Maria, porque perdera, e parou um ángeo de pedra que i estava a mão e recebeu o colbe.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nom é mui gram maravilha | seerem obedientes
os ángeos aa madre | daquel cujos som sergentes.
Onde vos rogo, amigos, | que um gram miragr’ ouçades
que fezo Santa Maria | em Pulha; e bem sabiades
que, des que o bem oirdes, | certo sõo que tenhades
mais o coraçom em ela | e sejades chus creentes.
[Refrão = vv. 1-2]
Esto foi a ũa festa | desta Virgem groriosa,
que ant’ ũa sa eigreja, | mui bem feita e fremosa,
filhou-s’ a jogar os dados | ũa molher muit’ astrosa
com outros tafures muitos, | que nom eram seus parentes.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquesta molher cativa | foi de terra d’ Alemanha;
e, perdendo aos dados, | creceu-lh’ ém [a]tám gram sanha
que fez ũa gram sandece, | e oíd’ ora quamanha,
por que guardados sejades | de seerdes descreentes.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
ũa omagem fremosa | da Virgem Santa Maria,
de pedra mui bem lavrada | sobre-la porta siía,
e dous ángeos ant’ ela, | e qualquer deles havia
senlhas mãos enos peitos; | e enas outras tentes
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
eram come senlhos livros | de mui gram sinificança,
porque todo-los saberes | sabem eles, sem dultança;
as outras mãos nos peitos | tĩíam por semelhança
que em Deus sas voontades | tem sempre mui ferventes.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ond’ esta molher sandia | viu ũa pedr’ e filhou-a,
e catou aa omagem | da Virgem e dostou-a
e lançou-lh’ aquela pedra, | por feri-la; mas errou-a,
ca os ángeos que eram | ant’ ela forom presentes
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
por a sa senhor guardarem: | um deles alçou a mão
e recebeu a ferida, | mas ficou-lh’ o braço são.
E quantos aquesto virom | filharom logo de chão
40
594
42
a molher, e dar com ela | forom nas chamas ardentes.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
O ángeo teve sempre | depois a mão tenduda
que parou ant’ a omagem | pera seer defenduda;
onde aquela omagem | foi depois em car tuda
mui mais ca ante nom era | de todas aquelas gentes.
50
Nom é mui gram maravilha | seerem obedientes
os ángeos aa madre | daquel cujos som sergentes.
46
R8
* * *
595
Cantigas de Santa Maria 295
«Que por al nom devess’ hom’ a Santa Maria servir»
(E 295, E 388)
Como Santa Maria apareceu em visom a um rei que a servia em todas aquelas cousas que a
el sabia e podia servir, e semelhava-lhe que se homildava contra el em galardom do serviço que
lhe fazia.
R0
2
I
4
6
Que por al nom devess’ hom’ a | Santa Maria servir,
deve-o fazer por quam bem | sabe serviço gracir.
E daquest’ um gram miragre | vos quer’ ora retraer
que mostrou Santa Maria, | per com’ eu pud’ aprender,
a um rei que sas figuras | mandava sempre fazer
muit’ apostas e fremosas; | e fazia-as vestir
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
de mui ricos panos d’ ouro | e de mui nobre lavor,
e põía-lhes nas testas, | pera parecer melhor,
corõas com muitas pedras | ricas, que grand’ esprandor
davam sempr’ aa omagem | e fazia-na luzir.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E outrossi nas sas festas | ar fazia-lhe mudar
sempr’ outros panos mais ricos, | po-la festa mais honrar,
e bem assi as fazia | põer sobe-lo altar.
Demais, trobava per ela, | segund’ oí departir;
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
des i, aqueles cantares | eram dos miragres seus
muitos e maravilhosos | que mostra por ela Deus
(e faz i mui gram dereito, | ca, segum diz Sam Mateus
e Sam Joám e Sam Marcos, | sa madr’ éste, sem falir).
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Onde, por estas razões, | a servia aquel rei
e loava e dizia | muito bem, com’ apres’ hei,
dela; e porém lh’ avo | o que vos ora direi,
onde vos rog’, ai amigos, | que o queirades oir.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Onde foi a ũa Páscua | Maior, que Deus resorgiu,
que el-rei fez sa omagem | da Virgem; e, poi-la viu
bem feita e bem fremosa, | ricamente a vestiu
e sobr’ o altar a pose, | e fez monjas i vĩir,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
que a vissem com’ estava | e houvessem devoçom
em ela e que rogassem | por el-rei de coraçom.
E elas assi fezerom; | e a Virgem em vijom
lhes diss’: “– O que me rogades, | farei-o se el-rei vir”.
40
42
596
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
ũa delas mantenente | foi al-rei e o chamou;
e el-rei vo tantoste, | e, logo que i chegou,
a omagem os golhos | ant’ el em terra ficou,
e as mãos que beijasse | lhe começou a pedir.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Mas el-rei deitou-s’ em terra | ant’ ela, tendud’ em cruz,
chorando muit’ e dizendo: | “– A ti, senhor, que és luz,
beijarei pees e mãos, | ca ta vertude m’ aduz
sempre saúd’ e me guarda | dos que me querem nozir”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
“– Nom,” diss’ ela, “– mais as vossas | mãos vos beijarei eu
por quanta honra fazedes | a mi sempr’ e ao meu
filho, que é Deus e home; | e porém no reino seu
vos meterei pois morrerdes: | esto será, sem mentir”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Pois s’ as monjas espertarom | desta visom, foi-lhes bem,
e al-rei em outro dia | lho contarom, e de rem
nada nom lhe falecerom; | e ele logo porém
chorou muit’ ant’ a omagem | e fez tod’ est’ escrevir.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E des ali adeante | serviu mais, com’ aprendi,
aa Virgem groriosa, | e loou-a mais des i;
e ela fez-lhe mercees | grandes, segund’ eu oí,
e de muitas de maneiras, | a que-no bem comedir.
74
Que por al nom devess’ hom’ a | Santa Maria servir,
deve-o fazer por quam bem | sabe serviço gracir.
70
R12
* * *
597
Cantigas de Santa Maria 296
«Quem aa Virgem santa mui bem servir quiser»
(E 296, F [11])
Esta é como Santa Maria apareceu em visom a um monge na cibdade de Conturbel e ensinou-lhe de qual guisa a servisse.
R0
2
I
4
6
Quem aa Virgem santa | mui bem servir quiser,
convém-lhe que a sêrvia | com’ a ela prouguer.
Ca servir no-na pode | bem que-na nom amar,
nem amar nunca muito | o que a nom honrar,
e, fazendo tod’ esto, | ar deve-a loar
por muitos de miragres | que faz quand’ ela quer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E dest’ um gram miragre | ora vos contarei
que em Conturbe fezo, | per com’ escri’ achei,
por um monge, sant’ home; | e sõo cert’ e sei
que sempre fará est’ a | que-na servir souber.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este muit’ ameúde | fazia oraçom
sempr’ ant’ o altar dela | com mui gram devoçom,
os golhos ficados, | e mui de coraçom
pedia que lhe désse | (ca lh’ era mui mester)
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
siso per que podesse | a saber bem servir;
e outra cousa nunca | lhe queria pedir.
E a Virgem nom quiso | que em seu dom falir
foss’, e aparecer-lhe | foi como vos disser:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
mais fremosa e crara | que lũa nem sol é;
e disse-lh’: “– O que pedes | praz-me, per bõa fé;
e eu dizer-cho quero | ca meu filh’, u El sé,
tem por bem que cho diga, | e direi-cho, senher:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
se bem queres servir-me, | primeiro amar-m’-ás
muit’ ena voontade, | outrossi honrar-m’-ás,
e, sobre tod’ aquesto, | sempre me loarás,
pois me filhou por madre | Deus, seend’ eu molher”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quanto a Virgem disse, | todo o ascoitou
aquel frade de grado, | e, quanto lhe mandou
fazer, todo foi feito; | e depois lhe levou
40
598
42
aos ceos a alma. | Porém que-na crever,
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
sempr’ em aqueste mundo | bõa vida fará,
e quem servir a ela, | seu filho servirá,
e, pois que del for fora, | paraíso verá;
demais, valrá-lhe sempre | u a mester houver.
50
Quem aa Virgem santa | mui bem servir quiser,
convém-lhe que a sêrvia | com’ a ela prouguer.
46
R8
* * *
599
Cantigas de Santa Maria 297
«Com’ é mui bõ’ a creença do que nom vê hom’ e cree»
(E 297, F [41])
Esta é como Santa Maria mostrou vertude na sa omagem, porque dizia um frade que nom
havia vertude no madeir’ entalhado.
R0
2
I
4
6
Com’ é mui bõ’ a creença | do que nom vê hom’ e cree,
bem assi é mal creente | de nom creer o que vee.
Dest’ um fremoso miragre | vos rog’ ora que ouçades,
e, des que o entenderdes, | fará-vos que bem creades
em Deus e ena sa madre, | per que seu amor hajades,
o que nunca haver pude | quem em eles bem nom cree.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E porém creer devemos | que Deus comprida vertude
éste, e que del os santo- | -la ham per que dem saúde
a aqueles que o creem; | e porém, se Deus m’ ajude,
mui ceg’ é d’ entendimento | o que aquesto nom vee.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, pois a sa gram vertude | assi ést’ aparelhada
d’ obrar em aquela cousa | que acha enderençada
pera a receber logo, | esto razom é provada
que na omagem vertude | acha o que o bem cree.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca bem com’ a cousa viva | recebe por asperança
vertude, sol que a creem, | bem assi por semelhança
a recebe a omagem | mantenent’ e sem tardança
daquel de que é fegura, | macar hom’ a El nom vee.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Onde foi ũa vegada | que um rei sigo tragia
ũa omagem mui bela | da Virgem Santa Maria,
por que Deus muitos miragres | demostrava cada dia,
em que foi travar um falso | frade, que em Deus nom cree,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
dizendo: “– Muito per-tenho | que é home sem recado
o que cree que vertude | há no madeir’ entalhado,
que nom fala nem se move: | est’ é bem sandeu provado,
e tenho que é mui cego | o que aquesto nom vee”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ el diss’ esta paravla, | mui preto del-rei estava,
que todas estas sandeces | que dizia ascuitava;
e, demais, contra um frade, | seu companhom, se tornava
dizendo: “– Este rei tenho | que enos ídolos cree”.
40
42
600
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quand’ o frad’ aquesto disse, | tornou-s’ el-rei mui sanhudo,
e diss’ aos que estavam | ant’ el: “– Muit’ é atrevudo
e sandeu aqueste frade, | e tenho-o por perdudo,
ca nom vee bem dos olhos, | mas pelo toutiço vee;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e des hoimais sa fazenda | nunca irá adeante,
ante tornará a redr’, e | sempre será malandante;
e a Virgem groriosa | nom querrá que s’ el avante
daquesto que el há dito, | pois que em ela descree”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Tod’ aquest’ assi avo: | ca sempre fez sa fazenda
mui mal aquel frade falso, | ca foi louco, sem contenda,
sempre dali adeante, | e Deus quis filhar emenda
del por si e por sa madre | come d’ home que nom [v]ee.
62
Com’ é mui bõ’ a creença | do que nom vê hom’ e cree,
bem assi é mal creente | de nom creer o que vee.
58
R10
* * *
601
Cantigas de Santa Maria 298
«Graça e vertude mui grand’ e amor»
(E 298, F [9])
Esta é como Santa Maria guareceu em Seixom ũa molher a que filhava o demo.
R0
2
I
4
6
Graça e vertude mui grand’ e amor
mostra Santa Maria no pecador.
Gram vertude faz em doentes sãar,
e graça de no-los erros perdõar;
amor nos ar mostra de por nós rogar
sempr’ ao seu filho, nosso salvador.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E porend’ ora um miragre direi
que em Seixom fez a madre do gram rei:
quant’ end’ aprendi, rem nom vos negarei,
e de o oir haveredes sabor.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
ũa molher bõa, por vos nom mentir,
demónio havia, e, per rem, guarir
dele nom podia, e prometeu d’ ir
a Seixom, que lhe tolhess’ esta door.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
(E Santa Maria tev’ assi por bem:
de nom tardar muito). E guisou porém
candeas e cera e al que convém
a tod’ aquel que em romaria for.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Des i, confessou-se bem, com’ aprendi,
e saiu-s’ entom esta molher assi
e foi-s’ a Seixom. E, depois que foi i,
entrou na eigreja, e, com gram pavor
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que do dem’ havia, fez sa oraçom
bem ant’ o altar da Virgem; e [e]ntom
a filhou mui fort’ o diabo felom,
que houverom todos ém mui gram temor.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, poi-la assi ant’ o altar filhou,
gram peça a tev’; e, pois se levantou,
a molher daquesta guisa começou
sa oraçom quant’ ela pôde melhor,
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
602
VIII
46
48
e diz: “– Groriosa Virgem, que nacer
Jesu de ti quiso, se for teu prazer,
de mi t’ amerca e o teu poder
aqui mostra sobr’ aqueste traedor,
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
que me filhou ora ante ti tam mal
e nom quis catar ta eigreja nem al;
mas, Virgem, reinha santa ’sperital,
guarda-me daqueste fals’ enganador;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
senhor, os pecados nom cates que fiz
assi como faz molher mui pecadriz;
mas tu, que dos ceos és emperadriz,
roga teu filho, nosso remĩidor,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que me dé saúde polo amor teu;
e, pois El tal honr’ aas molheres deu
que de ti prês carne, Virgem, rogo-t’ eu
que t’ amercees de mi, que sofredor
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
sõo de gram coita que mi_o demo dá,
qual nunca molher houve nem haverá;
ai madre de Deus, senhor, tolhe-mi_o já,
e seerei sempre tua servidor”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
A Virgem Maria log’ aquela vez
ao demo mao, negro chus ca pez,
daquela molher que se quitasse fez,
e des ali nom foi dela tomador.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E a bõa dona, pois se viu, de pram,
fora do poder daquel peor que cam,
deu loor a Deus, e a do bom talám,
sa madre, serviu, e foi esmolnador.
86
Graça e vertude mui grand’ e amor
mostra Santa Maria no pecador.
82
R14
* * *
603
Cantigas de Santa Maria 299
«De muitas maneiras Santa Maria»
(E 299, F [78])
Como Santa Maria vo em visom a um freire e mandou-lhe que désse ũa sa omagem que
tragia a um rei.
R0
2
I
4
6
De muitas maneiras Santa Maria
mercees faz aos que por seus tem.
Dest’ um miragre mostrar-vos querria,
e de mi_o oirdes vos rogaria
de bõa ment’, e per el vos faria
saber servir a comprida de bem.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Est’ avo a um rei que servia
esta senhor quant’ ele mais podia,
e, em loá-la, gram sabor prendia;
e direi-vos que lh’ avo porém.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Um freire dos da Estrela tragia
a seu colo, em que muito criía,
ũa omagem desta que nos guia,
d’ almafi, que seu filh’ em braços tem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E ũa noit’ em seu leito jazia;
nem era bem esperto nem dormia;
viu a madre de Deus, que lhe dizia:
“– Essa omagem nom tragas, per rem,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que trages, ca fazes i gram folia
e-na trager assi; mas vai ta via
al-rei e dá-lha, ca me prazeria
se lha désses, e farias bom sém”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quand’ esto lh’ houve dito, logo s’ ia;
e o freir’ a outros freires dizia
est’, e cada um deles respondia:
“– Aquest’ é sonho que nom vai nem vem”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E o freire, quand’ aquesto oía,
de a nom dar al-rei filhou perfia;
mas depois bem três vegadas vií’ a
que lhe diss’ assi em mui gram desdém:
40
42
604
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
“– E como filhaste tal ousadia
de nom dar o que te mandad’ havia
que désses al-rei, e gracir-cho-ia?;
mas dá-lha; se nom, mal te verrá ém”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
O freire, log’ ante de tercer dia,
a seu maestr’ aquesto descobria,
que lhe respôs: “– Fezestes bavequia
eno tardar, e a vós nom convém
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
tal omagem, mas al-rei converria;
e por aquesto vos conselharia
que lha déssedes, ca el saberia
honrá-la muit’; e vós buscad’ alguém
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que vaa vosc’”. E ele logo s’ ia,
e achou el-rei, que missa oía,
e deu-lh’ a omagem, que alegria
houve com ela grande veramém.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E co-nas mãos ambas a ergia,
e graças por aquesto lhe rendia
e o seu santo nome beizia,
dizendo: “– Beita sejas!”. Amém.
74
De muitas maneiras Santa Maria
mercees faz aos que por seus tem.
70
R12
* * *
605
Cantigas de Santa Maria 300
«Muito deveria»
(E 300)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
4
I
6
8
10
12
14
R1
16
18
II
20
22
24
26
28
R2
30
32
III
34
36
38
40
42
R3
44
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
Ca bem deve razõada
seer a que Deus por madre
quis, e seend’ El seu Padre
e ela filha_e criada,
e honrada
e amada
a fez tanto que sem par
é preçada
e loada,
e será quant’ El durar.
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
Outrossi loar devemos
a por que somos honrados
de Deus e ar perdõados
dos pecados que fazemos;
ca temos
que devemos
por aquesto lazerar,
mas creemos
e sabemos
que nos pod’ ela guardar.
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
Razõá-la bem, sem falha,
devemos, ca nos razõa
bem ante Deus, e padrõa
é noss’, e por nós trabalha;
e baralha
e contralha
o dem’, e faz-lo estar
que nom valha
nemigalha,
nem nos possa mal buscar.
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
606
46
IV
48
50
52
54
56
R4
58
60
V
62
64
66
68
70
R5
72
74
VI
76
78
80
82
84
R6
86
88
e seu bem rezõar.
E por esto lhe [de]mando
que lhe nom venha emente
do que diz a maa gente
porque sõo de seu bando,
e que ando-a loando
e por ela vou trobar,
e cuidando
e buscando
como a possa honrar;
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
mas que lhes dé galardões
bem quaes eles merecem,
porque me tam mal gradecem
meus cantares e meus sões
e razões,
e tenções
que por ela vou filhar;
ca felões
corações
me vam porende mostrar.
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
E ar haja piadade
de como perdi meus dias,
carreiras buscand’ e vias
por dar haver e herdade
u verdad’ e
lealdade
per rem nunca puid’ achar,
mais maldad’ e
falsidade,
com que me cuidam matar.
Muito deveria
home sempr’ a loar
a Santa Maria,
e seu bem rezõar.
* * *
607
Cantigas de Santa Maria 301
«Macar faz Santa Maria miragres dũa natura»
(E 301, F [82])
Como Santa Maria de Vila-Sirga tirou um escudeiro de prijom, que o tiinham preso em Carrom pera matar.
R0
2
I
4
6
Macar faz Santa Maria | miragres dũa natura,
muitas vezes i os cámbia | por mostrar sa apostura.
E daquest’ um gram miragre | demostrou ũa vegada
a Virgem em Vila-Sirga, | na sa eigreja honrada,
por um escudeiro preso | que, ena prijom, rogada
a houve que o livrasse | daquela prijom tam dura.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ca el em mui grandes ferros | e em cadas jazia
pres’ em Carrom, ca fezera | por que a morrer devia;
pero sempre jajũava | dias de Santa Maria,
na sa mercee fiando, | mui comprida de mesura.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Quando soube que julgado | era que lhe dessem morte,
chorou muito dos seus olhos | e fezo chanto mui forte,
dizend’: “– Ai Santa Maria, | tu que és lum’ e conorte
dos coitados, tu me guarda | de tam gram malaventura:
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que em tal prijom nom moira | nem ar seja justiçado,
mas ta mercee me valha | e nom cates meu pecado,
e, se t’ algum pesar fige, | que seja eu perdõado,
e des hoimais te prometo | que me guarde de loucura”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Des quand’ aquest’ houve dito, | apareceu-lh’ a reinha
dos ceos com gram companha | d’ ángeos que sigo tinha,
e filhou-o pela mão | e solto’-o muit’ aginha
dos ferros, e disse logo: | “– Sal desta prijom escura”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E logo se sentiu livre | da prijom o escudeiro
u jazia (e aquesto | foi ao sono primeiro),
e achou-s’ em Vila-Sirga, | e foi ende bem certeiro
que o fezera a Virgem, | cujo bem por sempr’ atura.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E quantos ena eigreja | achou, fezo bem certãos
deste feito, pois lhe virom | ter os ferros nas mãos
ant’ o altar a desora, | e todos seus nembros sãos;
e porém loarom todos | a Virgem santa e pura.
40
42
R7
44
Macar faz Santa Maria | miragres dũa natura,
muitas vezes i os cámbia | por mostrar sa apostura.
* * *
608
Cantigas de Santa Maria 302
«A madre de Jesu-Cristo, que é senhor de nobrezas»
(E 302, F [84])
Esta é como Santa Maria de Monsarrat descobriu um furto que se fez na sa igreja: do home
que furtou a seu companhom os dinheiros da esmolneira em Santa Maria de Monsarraz, e nom
pôde sair da eigreja atá que lhos deu.
R0
2
I
4
6
A madre de Jesu-Cristo, | que é senhor de nobrezas,
nom sofre que em sa casa | façam furtos nem vilezas.
E dest’ um mui gram miragre | vos direi que me jurarom
homees de bõa vida, | e por verdade mostrarom,
que fezo Santa Maria | de Monsarrat, e contarom
do que fez um ávol home | por mostrar sas avolezas.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Este com outra gram gente | vo i em romaria,
e acolheu-s’ a um home | com que filhou companhia;
e, quando chegou a noite, | os dinheiros que tragia
lhe furtou da esmolneira | por crecer em sas requezas.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Outro dia de manhãa, | des que as missas oírom,
os que ali albergarom | da eigreja se saírom;
mas el ém sair nom pôde | (e esto muitos o virom),
ca nom quis Santa Maria, | que é com Deus nas altezas,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
atá que bem repentido | foss’ e bem mãefestado,
e todo quanto furtara | houvess’ ao outro dado,
e que dissess’ ante todos | de com’ havia errado,
e saíss’ ém com vergonha | por sas maas astruguezas.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
Tod’ aquest’ assi foi feito, | ca o quis a verdadeira
madre de Deus piadosa, | santa e mui justiceira,
que nom quis que em sa casa | fossem per nulha maneira
feitas cousas desguisadas | nem cobiças per pobrezas.
32
A madre de Jesu-Cristo, | que é senhor de nobrezas,
nom sofre que em sa casa | façam furtos nem vilezas.
28
R5
* * *
609
Cantigas de Santa Maria 303
«Por fol tenho quem na Virgem nom há mui grand’ asperança»
(E 303, F [29])
Esta é como ũa omagem de Santa Maria falou nas Olgas de Burgos a ũa meninha que havia
gram medo de sa tia por travessura que fezera.
R0
2
I
4
6
Por fol tenho quem na Virgem | nom há mui grand’ asperança,
ca noss’ esforç’ é nos medos, | e nas coitas amparança.
Desto direi um miragre | que conteu no mõesteiro
de Burgos (e, se m’ oirdes, | direi-vo-lo tod’ enteiro),
que mostrou Santa Maria | por tolher med’ e fazfeiro
dua moça que havia | tod’ esto, sem dovidança.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Costum’ é que as meninhas | que ena ordem criadas
som, que grandes travessuras | fazem algũas vegadas;
porém freiras que as guardam | lhes dam, per que castigadas
sejam e nom façam cousas | per que caiam em errança.
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Onde daquesto avo | que ũa moça fazia
amiúd’ i travessuras | que pesavam a sa tia;
e castigava-a ende, | ca maior bem lhe queria
ca si nem a outra cousa. | E porende, sem dultança,
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
atám gram medo havia | dela que sol nom ousava
aparecer u a visse | quand’ algũa vez errava.
E a freira, dua parte, | a feri’ e castigava,
e, da outra, lhe fazia | muit’ alg’ e muita criança.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Onde um dia lh’ avo | que fez mui gram travessura,
por que aquela sa tia | houve dela gram rancura
e buscou-a por feri-la; | mas ela, por sa ventura
bõa, foi-s’ aa omagem | da Virgem sem demorança,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
e chorando e tremendo | diss’: “– Ai Virgem groriosa,
acorre-m’ a esta coita, | tu que és tam piadosa
que acorre-los coitados; | porém, senhor preciosa,
fais que est’ erro que fige | que caia em obridança
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
de mià tia, que aquesto | nunca lhe venha emente”.
Respôs-lh’ entom a omagem | mans’ e em bom contenente:
“– Aquesto que me tu rogas | farei eu de bõa mente,
610
42
tanto que hoimais teu feito | no-no metas em balança”.
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
Desto que diss’ a omagem | foi a moça espantada,
pero recebeu esforço | de que foi mui conortada.
E, pois vo outro dia, | sa tia a houv’ achada,
e, depois que soub’ o feito, | houve na Virgem fiança.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E a sa sobrinha logo | pera sa casa levou-a,
e des ali adeante | amou-a muit’ e honrou-a,
e, em logar de com’ ante | a feria, faagou-a,
e, do que sabor havia, | fez-lh’ end’ amor e pitança.
56
Por fol tenho quem na Virgem | nom há mui grand’ asperança,
ca noss’ esforç’ é nos medos, | e nas coitas amparança.
52
R9
* * *
611
Cantigas de Santa Maria 304
«Aquela em que Deus carne prendeu, e nos deu por lume»
(E 304, F [77])
Esta é como Santa Maria de Ribela nom quer que arça outr’ oio ant’ o seu altar senom d’
olivas que seja bem claro e muit’ esmerado.
R0
2
I
4
6
Aquela em que Deus carne | prendeu, e nos deu por lume,
das cousas límpias se paga | sempre: tal é seu costume.
E desto mostrou miragre | a Virgem Santa Maria
grand’ em ũa sa eigreja, | e demostra cada dia,
em ũ’ aldea que nome | há Ribela, u soía
haver bem d’ antiguedade | um mõesteir’ a costume
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
d’ órdim de Sam Beíto. | E ora chus da eigreja
nom ficou, que é da Virgem | (que sempre beita seja),
em que há bem cinc’ altares, | u gram vertude sobeja
mostra Deus no que é dela: | ca nom pod’ i arder lume
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
doutr’ oio senom d’ olivas | mui límpi’_e muit’ esmerado;
ca, macar ard’ ant’ os outros | de linhaça, sol pensado
nom é que ant’ o da Virgem | arça; e est’ é provado
muitas vezes eno ano, | e há-no já por costume.
16
18
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Ca o provam ameúde | cavaleiros, lavradores,
clérigos, monges e frades | descalços, preegadores;
ca, pero i acenderom | outros oios ardedores,
atantoste se matavam | que sol nom deitavam lume.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
30
E porend’ os dessa terra | nom ousam seer ousados
d’ outr’ oio ali queimarem, | ca saem por denodados
ende cada que o provam, | e por esto som tornados
a queimar oio d’ oliva | nas lámpadas por costume.
32
Aquela em que Deus carne | prendeu, e nos deu por lume,
das cousas límpias se paga | sempre: tal é seu costume.
28
R5
* * *
612
Cantigas de Santa Maria 305
«Sempre devemos na Virgem a teer os corações»
(E 305, F [35])
Como Santa Maria fez a carta de pedença que tragia ũa bõa molher pesar mais em ũa balança que quant’ haver poserom na outra.
R0
2
I
4
6
Sempre devemos na Virgem | a ter os corações,
ca per ela guaanhamos | de Deus mui grandes perdões.
E porém dizer-vos quero, |
um mui fremoso miragre; |
gram prol de vossa fazenda
de fazer per que perçades |
se me mui bem ascuitardes,
e, se i mentes parardes,
| vos terrá, se vos guardardes
d’ haver de Deus galardões.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Esto foi dua mesquinha | molher que pecador era,
e confessou-s’ a um frade | dos pecados que fezera;
e, por haver perdom deles, | havia coita tam fera
que do perdom pediu carta, | mostrando muitas razões
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
por que a haver devia, | ao frade que lha désse.
E el deu-lha de tal guisa: | mandando-lhe que fezesse
serviç’ a Santa Maria, | per que sa mercee_houvesse,
e jajũass’ as sas festas, | e oísse seus sermões.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Tod’ esto lhe pôs em carta, | e, des i, ar seelou-a;
e a molher mui de grado | a filhou e pois guardo[u]-a
em seu so, e tantoste | pera sa casa levou-a.
Mas atám muit’ era pobre | que pidia as rações;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e, uquer que ela ia, | sempre sa carta levava
dentr’ em ũa seeleira, | em que a mui bem guardava;
mas pola Virgem beita | as rações demandava,
sofrendo frio e fame | e muitas trebolações.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E ela, assi andando, | chegou a ũa cidade
e viu seer [e]na rua, | com’ eu achei por verdade,
um cambiador que cambiava | d’ haver mui gram quantidade
(esterlĩis e torneses, | burgaleses, pepiões,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e inda daquestes novos | e dos pretos e da guerra);
e ela pediu-lhe algo | por aquela que nom erra.
El disse: “– Fazê-lo quero | sobre penhor, ca na terra
u somos nom é costume | de dar doutra guisa dões”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
613
VIII
46
48
Ela respondeu-lhe logo: | “– Juro-vos per mià creença
que nom trag’ erg’ esta carta, | que é de mià pedença”.
E diss’ el: “– Veê-la quero, | e meterei i femença
se é carta de soltura | ou se é de petições”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
El entom leeu a carta, | e, ante que lha tornasse,
disse-lhe que lhe daria | sobr’ ela quanto pesasse,
e que esto lhe faria, | e dal nom se trabalhasse,
per rem, ca el nom amava | truães nem arlotões.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Ela havendo na Virgem, | madre de Deus, gram fiança,
outorgou-lhe que posesse | a carta ena balança;
mas que lhe désse o peso | dela logo, sem tardança,
que nom morresse de fame | a ’scusa polos rancões.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Ela meteu na balança | a carta, e tam pesada
se fez logo que na outra | nom pôde pois meter nada
que tanto per rem pesasse | (esto foi cousa provada),
e o cambiador com sanha | depenava seus granhões.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
O cambiador filhou outra | balança maior daquela,
e cuidou aquela carta | per maior peso vencê-la;
mas pero nom meteu tanto | na balança que movê-la
per rem podesse de terra. | Entom filhou dous bolsões
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
que meteu [e]na balança, | chos de prata e d’ ouro;
mas mui mais pesou a carta, | em que havia tesouro
daquel que perdõar pode | crischão, judeu e mouro,
atanto que em Deus hajam | bem firmes sas entenções.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Quand’ o cambiador viu esto, | pediu por Santa Maria
mercee que se leixasse | do peso, e lhe daria
quant’ ela do seu quisesse, | per que sempre viviria
bem e avondadamente. | E molheres e barões,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
90
quantos este feito virom, | tantoste lhe conselharom
que o fezess’, e foi feito; | e log’ a Virgem loarom
por tam fremoso miragre, | e com gram prazer chorarom
todos, golhos ficados, | com mui grandes devoções.
92
Sempre devemos na Virgem | a ter os corações,
ca per ela guaanhamos | de Deus mui grandes perdões.
88
R15
* * *
614
Cantigas de Santa Maria 306
«Por gram maravilha tenho de nulh’ home s’ atrever»
(E 306, F [20])
Como Santa Maria fez converter um herege em Roma que dizia que Santa Maria nom podia
seer virgem e haver filho.
R0
2
I
4
6
Por gram maravilha tenho | de nulh’ home s’ atrever
a dizer que Deus nom pode | quanto xe quiser fazer.
E com’ é hom’ atrevudo | em querer saber razom
por que fezo Deus as cousas | que nom eram ant’ e som
ora? Muit’ é de mal siso; | ca as obras de Deus nom
som pera saber-se todas, | nem pode per rem seer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E daquest’ um gram miragre | avo, per com’ oí,
a um herege em Roma, | e contam que foi assi,
dũa omagem que era | da Virgem, com’ aprendi,
pintada ena eigreja, | como vos quero dizer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta eigrej’ é aquela | que chamam de Leterám,
que do ’mperador foi casa | que nom’ houv’ Octaviám;
mas depois ar foi eigreja | do apóstol’ Sam Joám,
mui nobre e mui bem feita | e que costou grand’ haver.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ali ést’ ũa omagem | da Virgem que nom há par
pintada ena parede, | e como a saudar
vo_o ángeo do ceo, | per que s’ houve d’ emprenhar
ela de ’Spirito Santo | logo sem neum lezer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E tam bom maestre era | o pintor que a pintou
que fezo que semelhasse | que, quando a saudou
o ángeo, como logo | atantoste s’ emprenhou;
e porém lhe fez o ventre | mui creçudo parecer,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e fez que tevesse cinta | bem como prenhada sol
cengir per cima do ventre | quando lh’ a prenhece dol.
Esta omagem um dia | viu-a um herege fol,
e disse aos crischãos: | “– Vede que ides creer!:
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
que Santa Maria virgem | foi!; sol nom dizedes rem,
ca vedes que tem a cinta | como molher prenhe tem
suso per cima do ventre; | muito sodes de mal sém
40
615
42
em creer ataes cousas | nem sol i mentes meter”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quando aquest’ houve dito | aquel herege sandeu,
log’ a aquela omagem | a cinta lhe decendeu
juso como_a molher virgem, | e logo lhe descreceu
o ventr’, assi come ante | que foss’ ela conceber.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Pois esto viu o herege, | repentiu-se muit’ entom,
e aa Virgem beita | pidiu chorando perdom.
Esto fez Deus por sa madre, | por mostrar que, com razom,
foi prenhe seendo virgem, | e pois que El foi nacer.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Esta omagem beita | des entom assi está
com sa cinta abaixada, | e sempr’ assi estará;
e Deus miragres por ela | mostrou pois e mostrará,
por nos fazer de sa madre | a verdade conhocer.
62
Por gram maravilha tenho | de nulh’ home s’ atrever
a dizer que Deus nom pode | quanto xe quiser fazer.
58
R10
* * *
616
Cantigas de Santa Maria 307
«Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor»
(E 307, F [79])
Como Santa Maria tolheu ũa gram tempestade de fogo em terra de Cezilha.
R0
2
I
4
6
Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor
toda tempestade se lh’ ém prazer for.
E dest’ em Cezilha mostrou ũa vez
um mui gram miragre a senhor de prez
que é madr’ e filha daquel Deus que fez
a terra e pôs os ceos enredor.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Cezilha é ũa ínsoa de mar
rica e viçosa, com’ oí contar,
de toda-las cousas que pod’ hom’ achar
por haver avondo e viç’ e sabor.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em aquesta terra um mui gram mont’ há
que veem de longe os que vam alá,
que «Mongibel» chamam, e de fogos dá
chamas aas vezes, ond’ ham gram pavor
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
todo-los da terra. Onde conteceu
que em aquel monte fogo s’ acendeu
mui grande, e toda a terra tremeu,
e choveu tam muito come no maior
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
inverno do mundo chove, com’ oí,
volta com gram pedra, e ar outrossi
caíam coriscos tantos bem ali
que cuidarom todos morrer a door.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quaraenta dias aquesto durou
e quarenta noites, que nunca quedou
atá que Santa Maria se mostrou
a um bõo home com gram resprandor.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E disse-lh’ a reinha esperital:
“– Se tu queres que se tolha este mal,
um cantar me façam que seja atal
qual a mi convém, bem feit’ a mià loor”.
40
42
617
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
O home bõo, que aquesto veer
foi em visom, muit[o] houve gram prazer;
des i, começou seu cantar a fazer,
rimado segund[o] el soube melhor,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
e segund’ as paravlas lhe fez o som;
e depois canto’-o com gram devoçom;
e a tempestade quedou log’ entom,
e perdeu ém logo a gente temor.
56
Tolher pod’ a madre de Nostro Senhor
toda tempestade se lh’ ém prazer for.
52
R9
* * *
618
Cantigas de Santa Maria 308
«De todo mal pod’ a Virgem a que-na ama sãar»
(E 308)
Como Santa Maria guariu ena cidade de [C]ara ũa molher hidrópica.
R0
2
I
4
6
8
De todo mal pod’ a Virgem | a que-na ama sãar,
sol que am’ a Deus, seu filho, | que soub’ ela muit’ amar.
E dest’ um mui gram miragre | vos quer’ eu ora mostrar
[Refrão = v. 1]
que mostrou em ũa vila | que [C]ara soem chamar,
[Refrão = v. 1]
que em terra de Sosonha | é, per com’ oí contar,
por ũa molher a Virgem, | que nom houve nem há par.
R1 9-10
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesta molher punhava | sempr’ em servir e honrar
[Refrão = v. 1]
a Virgem Santa Maria | e, ma[i]s dal-rem, se guardar
[Refrão = v. 1]
de lhe fazer nulha cousa | que lhe jouvess’ em pesar;
e porém na sa eigreja | ia candeas queimar,
12
14
16
R2 17-18
[Refrão = vv. 1-2]
III
e ant’ ũa sa omagem | a prezes s’ ia deitar,
[Refrão = v. 1]
rogando-lhe que do demo | a guardass’, e de pecar,
[Refrão = v. 1]
e de caer em grand’ erro, | e de mui mal enfermar.
Mas Deus, que dá as doores | a muitos po-los provar,
20
22
24
R3 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
IV
lhe deu tal enfermidade | que começou a inchar
[Refrão = v. 1]
mui mais ca d’ hidropisia | nem por razom d’ e[m]prenhar,
[Refrão = v. 1]
assi que todos cuidavam | que quisesse rebentar;
e comer já nom podia | nem sol a água passar.
28
30
32
R4 33-34
[Refrão = vv. 1-2]
V
Estando em esta coita, | esforçou-se de falar,
[Refrão = v. 1]
e a quantos i estavam | começou muit’ a rogar
[Refrão = v. 1]
que, por Deus, aa eigreja | punhassem de a levar,
que ant’ o altar podesse | o Corpo de Deus filhar.
36
38
40
R5 41-42
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E log’ entom a filharom | e foro-na i deitar,
[Refrão = v. 1]
44
619
46
48
e chorando seus pecados | se fez logo comungar;
[Refrão = v. 1]
e, des que foi comungada, | mantente, sem tardar,
deitou três pedras do corpo | sem se doer nem queixar.
R6 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
VII
A primeira foi tam grande | (ca as forom mesurar)
[Refrão = v. 1]
como d’ ánsar um grand’ ovo; | a outra, por nom chufar,
[Refrão = v. 1]
foi com’ ovo de galinha; | a terceira, sem dultar,
era come de poomba: | muito-las forom catar.
52
54
56
R7 57-58
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E log’ a molher foi sãa, | e fezo missa cantar
[Refrão = v. 1]
a honra da Virgem santa, | e as pedras fez furar
[Refrão = v. 1]
e ant’ o altar da Virgem | as fez logo pendurar.
E quantos aquesto virom | filharom muit’ a loar
60
62
64
R8 65-66
[Refrão = vv. 1-2]
IX
72
a Virgem Santa Maria, | que se sab’ amercear
[Refrão = v. 1]
dos coitados que a chamam, | e sabe galardõar
[Refrão = v. 1]
bem serviç’ a quem lho faze, | e pois paraíso dar,
u é todo bem comprido, | que nunca pode menguar.
74
De todo mal pod’ a Virgem | a que-na ama sãar,
sol que am’ a Deus, seu filho, | que soub’ ela muit’ amar.
68
70
R9
* * *
620
Cantigas de Santa Maria 309
«Nom devem por maravilha ter em querer Deus Padre»
(E 309, F [15])
Esta é de como foi feita a primeira eigreja de Santa Maria em Roma: Santa Maria vo em
visom ao papa e ao emperador e disse-lhes em qual logar fezessem a eigreja.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nom devem por maravilha | ter em querer Deus Padre
mostrar mui grandes miragres | pola beita sa madre.
Dest’ um fremoso miragre | vos direi que foi verdade
que mostrou Santa Maria | em Roma, nobre cidade,
eno tempo que já era | tornada em creschandade,
por acrecentar a lee | de Deus, seu filh’ e seu Padre.
[Refrão = vv. 1-2]
Em aquel tempo em Roma | um papa santo havia,
e um emperador bõo | per quant’ ele mais podia
servia muit’ e amava | a Virgem Santa Maria
(em que Deus quis prender carne | e fazer dela sa madre).
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em aquel tempo tam bõo, | de que vos eu ora digo,
era o pobro de Roma | todo atám muit’ amigo
da Virgem Santa Maria, | e havia bem consigo
a creença de seu filho | Jesu-Crist’ e de Deus Padre.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, porque em todo Roma | nom era entom eigreja
desta Virgem groriosa | (que sempre beita seja),
queriam fazer end’ ũa | mui grand’ e nobre sobeja,
em que fosse Deus loado | e ela, que é sa madre.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas per rem nom s’ acordavam | o logar u a fezessem;
e porend’ um home bõo | lhes disse que se tevessem
de fazê-la atá quando | de Deus tal sinal houvessem
do logar u a fariam | a sa madr’, und’ El é Padre.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Onde foi pois ũa noite | que o papa xe jazia
em seu leito e dormindo, | e em sonhando viía
a si vĩir ũa dona | mui nobre, que lhe [di]zia:
“– Tu amas a Jesu-Cristo | muito e a mi, sa madre;
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e porém te rog’ e mando | que digas a esta gente
de Roma que mià eigreja | façam logo mantenente
u virem, meant’ agosto, | caer nev’ espessamente,
ca ali quer o meu filho | Jesu-Crist’, e Deus seu Padre”.
40
42
621
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Outra tal visom com’ esta | o emperador dormindo
viu essa meesma noite | que o papa; e, sentindo
que de Deus aquesto era, | foi chorand’ e nom riindo
a el e falou com ele | a honra da Virgem madre,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
contando-lhe tod’ a feito | em qual maneira dormira
e, em jazendo dormindo, | a Santa Maria vira,
que lhe mandou que fezesse | sa eigreja, sem mentira,
em que foss’ ela loada | e Deus, verdadeiro Padre.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
“– E, demais, por sinal deu-me, | por que eu esto creesse,
que, na sa festa d’ agosto, | u eu visse que caesse
muita nev’, em aquel logo | a sa eigreja ergesse,
em que fosse Jesu-Cristo | load’ e ela, sa madre”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Entom lhe respôs o papa: | “– Outro tal sonh’ hei sonhado,
e bem é que atendamos | aquel dia sinaado;
e, quando virmos a neve, | ponhamos logo recado
como seja a eigreja | feita, do filh’ e do Padre”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Entom ambos atenderom. | E, quand’ aquel dia vo,
virom caer tanta neve | que tod’ um campo foi cho;
e entom comprar mandarom | aquel logar, que alho
era, em que hoj’ é feit’ a | eigreja da Virgem madre.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Quand’ aqueste feito soube | o póboo dos romãos,
verom a aquel logo | muit’ a guisa de crischãos,
os ũus dando dinheiros, | outros metend’ i as mãos,
e deitarom os cimentos | bem per u nevou Deus Padre.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
E fezerom sa eigreja, | grand’ e rica e fremosa,
a honra da Santa Virgem, | filha de Deus e esposa,
de que Ele prendeu carne | (que foi mui maravilhosa
cousa: da que El criara, | fazer pois dela sa madre).
86
Nom devem por maravilha | ter em querer Deus Padre
mostrar mui grandes miragres | pola beita sa madre.
82
R14
* * *
622
Cantigas de Santa Maria 310
«Muito per-dev’ a reinha»
(E 310, F [30])
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
4
I
6
8
R1
10
12
II
14
16
R2
18
20
III
22
24
R3
26
28
IV
30
32
R4
34
36
V
38
40
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
Ca sempre santivigada
foi des que a fez seu padre
eno corpo de sa madre,
u jouve des pequeninha.
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
E ar foi de Deus amada,
ca sempre fez bõa vida,
e de todo bem comprida
ar foi seendo meninha.
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
E porende saudada
foi do ángeo atanto
que lhe disso: “– Deus o santo
de ti nacerá aginha”.
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
E depois ficou prenhada
de Deus poderos’ e forte,
[o] que por nós prendeu morte
e resorgiu manhãinha.
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
E com Deus é eixalçada,
e El lhe deu tal vertude
que, por dar a nós saúde,
no-la deu por meezinha.
623
R5
42
44
VI
46
48
R6
50
52
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
E porém, senhor honrada,
ta mercee em mi seja
que me leves u te veja
daquesta vida mesquinha.
Muito per-dev’ a reinha
dos ceos seer loada
de nós, ca no mundo nada
foi bem come fror d’ espinha.
* * *
624
Cantigas de Santa Maria 311
«O que diz que servir home aa Virgem rem nom é»
(E 311, F [50])
Esta é como Santa Maria ressoscitou um home bõo a que matou um corisco indo em romaria a Monsarrat.
R0
2
I
4
6
O que diz que servir home | aa Virgem rem nom é,
aquest’ é de mal recado | e home de maa fé.
Ca, se em fazer serviço | a um bom home prol tem,
quanto mais na Virgem santa, | ond’ havemos todo bem;
e quem aquesto nom cree, | sa creença nom val rem,
ca descre’ em Deus, seu filho, | e em ela, que madr’ é.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E de tal razom miragre | vos quero ora [cont]ar,
que d’ entender é mui bõo | a quem i mentes parar,
que a Virgem groriosa | de Monsarraz quis mostrar
por um home que a sempre | servia com mui gram fé.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El ali em romaria | d[ua]s vezes ia_ou três
no ano; e amizade | havia com um borgês,
e rogou-lhe que na festa | que é ’m meogo do mês
d’ agosto dessũu fossem, | dizendo: “– Logar sant’ é”.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Entom ambos s’ acordarom | por em romaria ir
a Monsarraz. Mas primeiro, | per quant’ end’ eu puid’ oir,
passarom per Barçalona; | e, u quiserom sair
da vila, começou logo | mal tempo, per bõa fé.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E fezo ventos mui grandes, | e começou de chover,
e alampos com torvões, | des i coriscos caer,
assi que feriu um deles | aquel home, que morrer
o fez logo mantenente: | ca do corisc’ assi é
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que, em quem fer, log’ afoga | ou talha ou queimar faz.
Mas aquel hom’ afogado | foi, que pera Monsarraz
ia sempre, com’ oístes; | e seu companhom assaz
chorou por el, e ar disse | paravlas contra a fé,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
dizendo: “– Par Deus, amigo, | muito empregásti mal
quanto a Santa Maria | serviste, pois te nom val
nem te guardou desta morte, | per que o dem’ infernal
levou já de ti a alma; | e, mal pecad’, assi é”.
40
42
625
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E outro dia por ele | ũa missa dizer fez;
des i, que o soterrassem, | ca tal era come pez
tornado daquel corisco; | e ar disse dessa vez
paravras contra a Virgem, | onde naceu nossa fé,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
indo com el aa cova, | chorand’ e dizend’ assi:
“– Mal empregásti teu tempo | na Virgem, com’ aprendi,
demais, perdísti grand’ algo | que lhe désti; mais a mi
nunca averrá aquesto, | ca o meu na arca é”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
El aquest’ assi dizendo, | resorgiu o mort’ entom
e assentou-se no leito, | e diss’ aquesta razom:
“– Mentes a guisa de mao, | ca mià alm’ a perdiçom
fora se nom foss’ a Virgem, | que chav’ é de nossa fé,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que me livrou de sas mãos, | u era em poder seu;
e porend’, enquant’ eu viva, | sempre no coraçom meu
a terrei pera servi-la, | e nunca me será greu
de rem que por ela faça, | ca mui bem empregad’ é”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Quand’ esto virom as gentes, | derom todos gram loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor
(que sempre seja loada | enquanto o mundo for,
ca é nossa avogada, | des i padrõa da fé).
74
O que diz que servir home | aa Virgem rem nom é,
aquest’ é de mal recado | e home de maa fé.
70
R12
* * *
626
Cantigas de Santa Maria 312
«Nom convém que seja feita niua desapostura»
(E 312, F [45])
Esta é como um cavaleiro quis comprir sa voontade com sa amiga em ũa casa em que fora
entalhada a omage de Santa Maria, e nunca o pôde comprir.
R0
2
I
4
6
Nom convém que seja feita | niũa desapostura
eno logar em que seve | da Virgem a sa fegura.
Ca muit’ é cousa sem guisa | de fazerem avolezas
os que creem ena Virgem, | que é senhor de nobrezas,
que mais ama limpidõe | que avarento requezas,
e piadad’ e mercee | ca judeu dar a usura.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E daquest’ um gram miragre | fez apost[o] e fremoso,
nom há muit’, em Catalonha, | a madre do poderoso
Deus e rei, que por tirar-nos | do inferno tevroso
deceu dos ceos e carne | filhou ena Virgem pura.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esto foi dum cavaleiro | que apost’ e fremos’ era
e grand’ e muit’ arrizado, | e a maravilha fera
amava Santa Maria, | e por seu amor fezera
fazer ũa sa omagem | de mui nobr’ entalhadura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E rogou a um maestre | que mui bem a entalhasse;
e porém dentr’ em sa casa | lhe deu em que a lavrasse
ũa cámara fremosa | e hort’, em que s’ apartasse
por obrar mais a sa guisa, | e nom houvesse dal cura.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Aquel maestr’ a omagem | fezo mui bem entalhada
em semelhança da Virgem | santa bem-aventurada,
bem feita d’ entalhamento | e depois mui bem pintada;
e, pois, pagou o maestr’ e | diss’: “– Id’ a bõa ventura”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Des que tod’ esto foi feito, | o cavaleiro filhou-a,
e a um bom mõesteiro | que havia i levou-a,
a que a el prometera, | e tantost’ apresentou-a,
porque ali escolhera | pera a sa sepoltura.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois ali deu a omagem | e a sa casa tornado
foi, viu ũa mui fremosa | donzela, e namorado
ficou dela em tal guisa | que sol comer nem bocado
40
627
42
nom podia, e por ela | foi coitad’ a desmesura.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, se a bever lhe davam, | el bever sol nom podia;
e, pero que se deitava | pera dormir, nom dormia;
e, cuidand’ em sa amiga | e ’m como a haveria,
o sém a perder houvera | e caer em gram loucura.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Mas entrou-lh’ em voontade | que aquelo nom fezesse,
mas que s’ esforçasse muito, | o mais que ele podesse,
e que buscasse carreira | per que a mui ced’ houvesse,
e desta guisa seria | quite de toda rancura.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E entom ergeu-se logo | e buscou muitas carreiras
per que a haver podesse, | e ar catou mandadeiras,
que lh’ enviou, alcaiotas | velhas e mui sabedeiras
de fazer molher manceba | sair toste de cordura.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Elas com ela falarom | e tanto bem lhe disserom
del per que, a poucos dias, | a vencerom; e verom
a el, e fezerom tanto: | que a casa lha trouxerom.
E el deitou-se com ela | em ũa casa escura
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
u fezeram a omagem | da senhor mui verdadeira,
e quis i jazer com ela; | mas per neua maneira
aquesto fazer nom pôde, | empero que prazenteira
era muit’ ende_a donzela, | e el muito sem mesura.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Ambos log’ em outra noite | dessa casa se mudarom
e forom jazer a outra; | e, logo que se deitarom,
comprirom sas voontades | e seu prazer acabarom.
Mas o logar foi pequeno | e de mui grand’ angostura;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
onde, com nojo da casa | que houve, o cavaleiro
tornou-se log’ aa outra | u jouvera de primeiro;
mas pero seer nom soube | tam sabedor nem arteiro
que sol podesse com ela | haver prazer nem folgura.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Entom aquel cavaleiro | entendeu que [muit’] errara
em querer com sa amiga | jazer u fazer mandara
omagem da Virgem santa, | e que a ela pesara
daquel feito; e porende | caeu em mui gram tristura.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E contou aqueste feito | aa dona, sem dultança;
e logo em outro dia, | sem neũa demorança,
94
628
96
fez com ela beições | por emendar a errança
que aa Virgem fezera, | que com Deus é na altura.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
102
Demais, fezo fazer logo | ũa lámpada de prata
que pose ant’ a omagem | da por que o mundo cata;
e foi pois de bõa vida, | e quitou-se de barata
maa e de mao siso | e de toda travessura.
104
Nom convém que seja feita | niũa desapostura
eno logar em que seve | da Virgem a sa fegura.
100
R17
* * *
629
Cantigas de Santa Maria 313
«Ali u todo-los santos nom ham poder de põer»
(E 313, F [16])
Esta é da nave que andava em perígoo do mar, e os que andavam em ela chamarom Santa
Maria de Vila-Sirga, e quedou logo a tormenta.
R0
2
I
4
6
Ali u todo-los santos | nom ham poder de põer
conselho, pó-no a Virgem, | de que Deus quiso nacer.
Ca razom grand’ e dereito | é de mais toste prestar
sa graça ca doutro santo, | pois que Deus quiso filhar
sa carn’ e fazer-se home | por nos per ela salvar,
e feze-a de vertudes | font’ e deu-lhe seu poder.
R1 7-8
ão = vv. 1-2]
II
E porém dizer-vos quero | dela um miragr’, e sei
que loaredes seu nome; | ainda vos mais direi:
conhoceredes de certo | que sabença do gram rei,
seu filho, de pram há ela | por tal miragre fazer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aqueste miragre fezo, |
a Virgem Santa Maria |
poder; e parad’ i mentes
ca eu de loar seus feitos
16
18
assi com’ aprendi eu,
de Vila-Sirga com seu
| e rem nom vos seja greu,
| hei sabor e gram prazer.
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
ũa nave periguada | andava, com’ aprendi,
pelo mar em gram tormenta, | e quanta gent’ era i
estavam em mui gram coita; | e, assi com’ eu oí,
a nav’ era já quebrada. | Des i, o mar a crecer
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
começou tam feramente | e engrossar cada vez,
e volvendo-s’ as aras; | des i, a noite se fez,
co-na tormenta mui forte, | negra bem com’ é o pez;
demais, viíam da nave | muitos a olho morrer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E porende braadavam | e chamavam «Senhor Deus!»,
e «Sam Pedr’!» e «Santiago!”, | «Sam Nicolás!», «Sam Mateus!»,
e santos muitos e santas, | outorgando que romeus
de grado seus seeriam | se lhes quisesse valer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Todos em perígoo_eram | e em gram coita mortal,
e bem cuidavam que fossem | mortos, nom houvess’ i al.
40
630
42
Mais um crérigo que era | i, pois viu a coita tal
(e oíra dos miragres | da Santa Virgem dizer
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que ela em Vila-Sirga | fez e faz a quantos vam
i mercee e ajuda | pedir das coitas que ham,
des i das enfermidades | som bem guaridos de pram),
o seu corp’ e os da nave | lhe foi logo ofrecer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E diz: “– Varões, chamemos | ora de bom coraçom
a Virgem Santa Maria | de Vila-Sirga, e nom
se faça end’ hom’ afora, | e peçamos-lhe perdom,
ca a sa vertude santa | no-nos há de falecer”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E os golhos ficarom | como poderom melhor,
e o crérigo dizendo: | “– Madre de Nostro Senhor,
pois gaanhas de teu filho | perdom ao pecador,
a nossos erros nom cates, | por mercee; mas doer
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
te queiras de nós, coitados, | e valha-nos o teu bem
e a ta virgĩidade, | per que s’ o mundo mantém;
acorre-nos, senhor bõa, | pois poder hás end’ e sém,
ca sem ti no-nos podemos | desta coita defender;
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
pois que tu em Vila-Sirga | aos cegos lume dás,
e ressuscita-los mortos | pela vertude que hás,
acorre-nos, Virgem santa, | ca nom cuidamos a crás
chegar; mas tu esta coita | nos podes toda tolher”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
O crérigo, pois diss’ esto, | os olhos a ceo_alçou,
e logo de mui bom grado | Salve Regina cantou
a honra da Virgem madr’; e | ũa poomba entrou
branca em aquela nave, | com’ a neve sol caer.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E a nav’ alumeada | aquela hora medês
foi toda com craridade; | e cada ũu emprês
a fazer sas orações | aa senhor mui cortês;
des i, todos começarom | o seu nom’ a beizer.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
E o mar tornou mui manso, | e a noit’ escrareceu;
e a nav’ em otro dia, em salvo, | porto prendeu;
e cada um dos da nave, | assi como prometeu
oferta a Vila-Sirga, | e nom quise falecer.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E da oferta fezerom | um cáliz mui grand’ assaz
631
94
R16
96
que o crérigo adusse | a Vila-Sirga, u faz
a Virgem muitos miragres, | assi com’ a ela praz.
E porende lhe roguemos | que nos faça bem viver.
98
Ali u todo-los santos | nom ham poder de põer
conselho, pó-no a Virgem, | de que Deus quiso nacer.
* * *
632
Cantigas de Santa Maria 314
«Quem souber Santa Maria loar, será de bom sém»
(E 314, F [12])
Como Santa Maria prendeu vingança dum cavaleiro em Segóvia, que havia perdido o lume
dos olhos porque desdenhou a sa eigreja, e depois guariu-o.
R0
1
I
5
E desto vos dizer quero
que fezo Santa Maria, |
e, de como foi o feito, |
pero prazer-m’-ia muito
6
[Refrão = v. 1]
3
R1
II
10
11
[Refrão = v. 1]
III
15
Ela seu marid’ havia, | cavaleir’ e caçador,
e de se ter viçoso | havia mui gram sabor;
porém foi veer sa fonte, | que era end’ a melhor
de toda aquela terra, | e diss’ a sa molher: “– Vem
16
[Refrão = v. 1]
13
R3
IV
20
logo comig’, ai irmãa, | e amostrar-ch’-ei logar
u podemos quinze dias | ou três domaas estar
viçosos cab’ ũa fonte | que eu hei; des i, caçar
me veeredes andando, | e prazer-vos-á muit’ ém”.
21
[Refrão = v. 1]
18
R4
V
25
Pois est’ acordad’ houverom, | pensarom logo de s’ ir;
e o cavaleiro foi-se | deante, e fez ferir
sa tenda cabo da fonte, | e, des i, mandou vĩir
sa molher, que i folgasse. | Mais a que o mundo tem
26
[Refrão = v. 1]
23
R5
VI
30
em poder e que é madre | de Deus, fezo que decer
foss’ a ũa sa eigreja | e i oraçom fazer;
e ela orou tam muito | que filhou ém desprazer
seu marido u estava, | e disso: “– Há i alguém
31
[Refrão = v. 1]
28
R6
VII
35
que a mià molher dissesse | que vesse pera mi?”
E um home lhe respose: | “– Senhor, per quant’ aprendi,
oraçom faz na eigreja, | e semelha que há i
sabor”. E o cavaleiro | disse come em desdém:
36
[Refrão = v. 1]
33
R7
| um miragre que eu sei
segund’ em verdad’ achei;
todo vo-lo contarei,
| se m’ oíssedes mui bem.
Em Segóvia est’ avo, | e nom há mui gram sazom,
que ũa dona i era | que muito de coraçom
amava Santa Maria | mais que quantas cousas som;
e, do que porém lh’ avo, | nom vos ém negarei rem.
8
R2
Quem souber Santa Maria | loar, será de bom sém.
633
VIII
40
“– Em fazer oraçom longa | muito o tenho por mal,
e, demais, que foi fazê-la | em um ávol muradal,
u nom há nulha vertude; | e porém, logo sem al,
dizede-lhe que se venha, | ou que se vaa daquém”.
41
[Refrão = v. 1]
38
R8
IX
45
Enquant’ el foi pola dona, | o cavaleiro perdeu
o lume d’ ambo-los olhos, | e em terra se tendeu,
volcando-s’ e braadando | come se fosse sandeu,
dizendo: “– Quem me posesse | ora em Jerusalém!”
46
[Refrão = v. 1]
43
R9
X
50
E logo chegou a dona | aas vozes que oiu;
e, pois deceu [e]na tenda | e tal seu marido viu,
chorand’ a[a] groriosa | por el mercee pediu
que seu lume lhe tornasse, | ca: “– Muitas vezes avém
51
[Refrão = v. 1]
48
R10
XI
55
que erram por seus pecados | os homes muit’ a Deus;
mais tu, Virgem, de Deus madre, | nom cates os erros seus,
e mostr’ aqui ta vertude, | ca el e eu somos teus,
e rogar polos coitados, | est’ a ti muito convém”.
56
[Refrão = v. 1]
53
R11
XII
60
Pois est’ a don’ houve dito, | o cavaleiro cobrou
logo o lume dos olhos | e diss’: “– Este logar dou
todo a Santa Maria | e outorgo-me por sou;
e beita seja ela | porque nos assi mantém”.
61
[Refrão = v. 1]
58
R12
XIII
65
Quantos derredor estavam | e virom como a luz
cobrou aquel cavaleiro | pola Virgem (que aduz
sempr’ a nós bem e saúde, | que guanha do que na cruz
viu estar), todos disserom: | “– Beita sejas!”. Amém.
66
Quem souber Santa Maria | loar, será de bom sém.
63
R13
* * *
634
Cantigas de Santa Maria 315
«Tant’ aos pecadores a Virgem val de grado»
(E 315)
Esta é como Santa Maria guareceu em Tocha, que é cabo Madride, um meninho que tiinha
ũa espiga de trigo no ventre.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Tant’ aos pecadores | a Virgem val de grado
per que seu santo nome | dev’ a ser mui loado.
E daquesto avo | miragre mui fremoso
que fez Santa Maria, | e d’ oir saboroso,
cabo Madrid’, em Tocha, | logar religioso,
que vos contarei ora, | se me for ascuitado.
[Refrão = vv. 1-2]
Em ũa_aldea preto | de Madride morava
ũa molher mesquinha, | e seu filho criava
que havia pequeno, | que mais ca si amava,
que a perder houvera, | se nom fosse guardado
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
pola Virgem beita, | de como vos diremos.
Ca aquela mesquinha | foi, em com’ aprendemos,
a espigar com outras | e, com’ oíd’ havemos,
seu filh’, aquel meninho, | em braç’ houve levado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, quand’ entrou na messe, | u outras espigavam,
agarimou o moço | a feixes que estavam
feitos d’ espigas muitas, | que todos apanha[va]m,
e a Santa Maria | o houv’ acomendado
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que lho guardass’. E logo | o meninho achada
hou[v]’ ũa grand’ espiga, | de graõs carregada
de trigo, que na boca | meteu e que passada
a houve muit’ aginha; | onde pois foi coitado
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
tam muito que o ventre | lhe creceu sem mesura.
Quand’ esto [vi]u a madre, | houv’ ém tam gram rancura,
porque cuidou que era | morto per sa ventura
maa; e a Madride | o levou muit’ inchado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E cuidando que era | de poçonh’ aquel feito
de coovr’ ou d’ aranha | (ca sol seer tal preito),
teve-o muitos dias | assi atám maltreito
que sempre sospeitava | que morress’ afogado.
40
42
635
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E mentr’ assi estava, | derom-lhe por conselho
que a Santa Maria | (que éste noss’ espelho)
de Tocha o levasse, | e esto per concelho,
ca Deus i mostraria | miragre sinaado.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
A molher filhou logo | seu filh’ e foi correndo
com el, chorando muito, | braadand’ e dizendo:
“– Virgem Santa Maria, | com’ eu creo e_entendo,
sãar podes meu filho | sem tempo alongado”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Quando foi na eigreja, | o meninho filharom
ela e sas vezinhas | e logo o deitarom
ant’ o altar, e logo | todo o desnuarom
por veer se parara | algur bic’ ou furado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
O moço desnuando, | catarom e cousirom
com’ era tod’ inchado; | mais [al] nom lhe sentirom
senom que a espiga | logo lha sair virom
tod’ enteira e sãa | pelo sestro lado.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Quand’ esto viu a gente, | derom todos loores
a Deus e a sa madre, | a senhor das senhores,
que faz taes miragres | e outros mui maiores;
e porend’ o seu nome | seja grorificado.
74
Tant’ aos pecadores | a Virgem val de grado
per que seu santo nome | dev’ a ser mui loado.
70
R12
* * *
636
Cantigas de Santa Maria 316
«Par Deus, nom é mui sem guisa de s’ ende mui mal achar»
(E 316, F [85])
Como Santa Maria de Triana (ũa eigreja d’ Alanquer) filhou vingança do crérigo que mandou queimar a ermida, e fez-lha fazer nova.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Par Deus, nom é mui sem guisa | de s’ ende mui mal achar
o que a Santa Maria | s’ atrev’ a fazer pesar.
Desto direi um miragre | que conteu em Portugal,
em Alanquer, um castelo, | e quero-vos dizer qual;
e vos punhad’ em oí-lo | por aquel que pod’ e val,
ca per ele saberedes | Santa Maria guardar
[Refrão = vv. 1-2]
de fazer com que lhe pese, | nem vos atrever, per rem,
de provar neũa cousa | per u perçades seu bem,
nem que tenhades em pouco | seus feitos, nem em desdém,
mais que sempre a sabiades | servir, temer e amar.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em aquela vila houve | um crérigo trobador,
que sas cantigas fazia | d’ escarnho mais ca d’ amor,
e era daquela vila | dũa eigreja prior,
e Martim Alvítez nome | havia, se Deus m’ ampar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, demais, sem tod’ aquesto, | mui privad’ era del-rei
Dom Sancho em aquel tempo; | e, com’ em verdad’ achei,
além do rio da vila, assi | com’ eu apres’ hei,
vertudes se descobrirom, | e fezerom i altar
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a honra da groriosa, | a Virgem madre de Deus,
assi que de muitas partes | vĩíam ali romeus;
ca ali mostrava ela | muitos dos miragres seus
em guarir çopos e mancos, | e cegos alumar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quand’ esto viu Dom Martinho, | pesou-lhe de coraçom,
porque da sua eigreja | perdia sa oblaçom
por estoutra que vos digo; | e mandou log’ um tiçom
filhar, e põer-lhe fogo, | assi que a fez queimar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Deste feito que fez ele, | muit’ aa Virgem pesou,
e Jesu-Cristo, seu filho, | logo sa madre vingou,
assi que dambo-los olhos | Martim Alvítez cegou,
estand’ assi ante todos; | e filhou-s’ a braadar
40
42
637
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
dizend’: “– Ai Santa Maria, | est’ eu mi_o fui merecer,
por quanto na ta ermida | mandei o fogo põer;
mas, por emenda daquesto, | farei-a nova fazer,
toda de cal e de pedra”. | E logo a fez lavrar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, des que foi toda feita, | fez missa dizer ali
da Virgem, mui bem cantada, | e mandou-se levar i;
e, tantoste que foi dita, | per quant’ end’ eu aprendi,
viu log[o], e foi bem são; | e começou de chorar
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
de gram prazer que havia | (ca aquest’ avĩir sol:
que home com prazer chora); | e diss’ el: “– Senhor, eu fol
fui de que trobei por outra | dona, ca niũa prol
nom houv’ i aa mià coita; | porém te venho jurar
58
60
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
66
que, enquant’ eu vivo seja, | nunca por outra molher
trobe nem cantares faça | hoimais, ca nom mi_há mester;
mais por ti direi de grado | quanto bem dizer podér,
e des aqui adeante | quero já por ti trobar”.
68
Par Deus, nom é mui sem guisa | de s’ ende mui mal achar
o que a Santa Maria | s’ atrev’ a fazer pesar.
64
R11
* * *
638
Cantigas de Santa Maria 317
«Mal s’ há end’ achar»
(E 317, F [92], U 84)
Esta é como Santa Maria se vingou do escudeiro que deu couce na porta da sa eigreja.
R0
1
3
I
5
7
R1 8-10
II
12
14
R2 15-17
III
19
21
R3 22-24
IV
26
28
R4 29-31
V
33
35
R5 36-38
VI
40
42
R6 43-45
VII
47
49
Mal s’ há end’ achar
quem quiser desonrar
Santa Maria.
Como s’ achou, nom há i mui gram sazom,
em Galiza um escudeiraz peom
que quis mui felom
britá-la eigreja com felonia.
[Refrão = vv. 1-3]
«Santa Maria» a ermida nom’ há
«do Monte», porque em logar alt’ está;
e forom alá
de gentes entom mui gram romaria
[Refrão = vv. 1-3]
em ũa festa, per com’ eu aprendi,
de meant’ agosto. E pois chegou i
gram gent’, e, des i,
começarom a ter sa vigia.
[Refrão = vv. 1-3]
O escudeiro que vos dixe chegou
e viu ũa moça, de que se pagou,
que forçar cuidou;
mais ela per rem nom lho consentia.
[Refrão = vv. 1-3]
E, travando dela, cuidou-a forçar;
mais proug’ a Deus e no-no pôd’ acabar,
ca foi-lh’ escapar,
e fogind’ à eigreja se colhia.
[Refrão = vv. 1-3]
Aos braados a gente recodiu,
e a mininha mercee lhes pediu
que daquel que viu
a quisessem guardar de sa perfia.
[Refrão = vv. 1-3]
As gentes, temendo de lhes vĩir mal,
forom sarrá-las portas logo, sem al,
e chamando: “– Val,
madre de Deus, ca mester nos seria!”.
639
R7 50-52
VIII
54
56
R8 57-59
IX
61
63
R9 64-66
X
68
70
R10 71-73
XI
75
77
R11 78-80
XII
82
84
R12 85-87
XIII
89
91
R13
92
94
[Refrão = vv. 1-3]
O escudeiro, tanto que viu fugir
a moça, leixou-se depos ela ir
dizendo: “– Guarir
nom me podes, rapariga sandia!”.
[Refrão = vv. 1-3]
E, quando as portas sarradas achou,
per poucas que de sanha sandeu tornou,
e logo jurou
que a couces toda-las britaria.
[Refrão = vv. 1-3]
E, com’ era atrevudo e sandeu,
quis acabar aquelo que prometeu,
e o pé ergeu
e ena porta gram couce dar ia.
[Refrão = vv. 1-3]
Mas avo-lh’ em como vos eu direi:
britou-xe-lh’ a perna, segund’ apres’ hei,
per prazer do rei,
filho da Virgem, a que desprazia.
[Refrão = vv. 1-3]
E dal lh’ avo ainda mui peor:
esmoreceu com coita e com door,
e Nostro Senhor,
sem tod’ aquest’, a fala lhe tolhia
[Refrão = vv. 1-3]
em tal guisa que, pois, nunca disse rem
ergo «Ai Santa Maria!». E, des ém,
tolheit’ e sem sém,
viveu gram temp’, e per portas pidia.
Mal s’ há end’ achar
quem quiser desonrar
Santa Maria.
* * *
640
Cantigas de Santa Maria 318
«Quem a Deus e a sa madre escarnho fazer quiser»
(E 318, F [48])
Esta é como Santa Maria filhou vingança, na sa eigreja em Fita, do crérigo que furtou a
prata da cruz.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem a Deus e a sa madre | escarnho fazer quiser,
muito será gram dereito | se lh’ ende pois mal ver.
E desto, se m’ ascuitardes, | vos direi, per com’ oí,
um miragre mui fremoso | (e creo que foi assi)
que fez a que do linhage | deceu do bom rei Davi,
e tal miragre com’ este | de contar é u xe quer.
[Refrão = vv. 1-2]
Em Fita conteceu esto | (em ũa vila que jaz
eno reino de Toledo, | e é logar fort’ assaz),
ena eigreja da madre | de Deus, a que muito praz
com nosso bem e acorre | nós cada u é mester.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ali um crérig’ havia | de missa, que devoçom
mostrav’ acá aa gente, | mais nom era assi, nom;
e bõa paravl’ havia, | mas dentro no coraçom
em com’ era de mal cho | vos direi, se vos prouguer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Este, cada que podia, | mui de grad’ ia furtar;
e furtou na sa eigreja, | per com’ eu oí contar,
ũa cruz grande coberta | de prata, e esfolar
a foi toda, e a prata | deu a ũa sa molher.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Outro di’ aa eigreja | foi, como soía ir,
e mostrou a cruz a todos | chorando, e enfengir
se foi que rem nom sabia | daquel feit’, e a mentir
se filhou, dizendo muito: | “– Hom’ ou molher que souber
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
de como foi este feito, | e o nom diz, dé-lhe Deus
compridamente sa ira, | e perça lume dos seus
olhos”. E diss’: “– Ai beita | Virgem, dos miragres teus
mostra sobre quem tal feito | fez; e o que nom disser
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Paternostro por aquesto, | Deu-lo cofonda porém”.
E, poi-lo todos disserom, | a que o mundo mantém
o cegou dambo-los olhos, | que deles sol nom viu rem,
nem ar valer nom lhe pôde | física de Mompesler.
40
42
641
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E outra lijom mui forte, | sem esto, lhe conteceu:
que se lhe fez atám grande | o nariz que lhe deceu
sobre-la boca, e dambas | partes tanto s’ estendeu
que chegou aas orelhas. | E quem verdade quiser
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
dizer: per rem, nom podia | pouco nem muito comer
se ant’ aquel nariz todo | nom lh’ alçassem, nem bever;
e mil vezes eno dia | desejava de morrer.
Porém tenho por mui louco | quem desto graças nom der
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
aa Virgem groriosa, | reinha esperital,
que nom quis matar aqueste, | mas pose-lhe tal sinal
por que quanto-lo pois vissem | leixassem de fazer mal;
e dereit’ é que tal haja | que-na em pouco tever.
62
Quem a Deus e a sa madre | escarnho fazer quiser,
muito será gram dereito | se lh’ ende pois mal ver.
58
R10
* * *
642
Cantigas de Santa Maria 319
«Quem-quer mui bem pod’ a Virgem groriosa»
(E 319, F [58])
Esta é como Santa Maria guariu em Terena ũa manceba raviosa.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quenquer mui bem pod’ a | Virgem groriosa
de door guarir, nom | será tam coitosa.
Ca tam muitas graças | deu e piadades
a ela seu filho | que enfermidades
de muitas maneiras | tolh’; e bem creades
que a que-na chama | nom é vagarosa.
[Refrão = vv. 1-2]
Porém quer’ eu dela | um miragr’ honrado
dizer, se m’ oirdes; | e, poi-lo contado
houver, saberedes | que faz mui guisado
o que faz serviço_a | esta piadosa.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Riba d’ Odian’ há | ũa sa eigreja
desta Virgem santa | que beita seja,
que chamam Teren’; e | quenquer que deseja
saúd’ em seu corpo | de door dultosa
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
que haja de rávia | ou doutra doença,
logo dali são | vai pela sabença
desta Virgem santa, | que nos atrevença
dá que a sirvamos | come graciosa.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Além Badalhouce, | em Xerez, morava
um home que muito | na Virgem fiava;
e ũa sa filha, | a que muit’ amava,
doeceu de rávia; | e foi tam raviosa
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
que a nom podiam | ter em prijões,
nem valiam ervas | nem escantações,
nem ainda santos | a que orações
faziam por ela: | tant’ era queixosa.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Viviam em coita | com ela mui forte,
nom haviam dela | já neum conorte
nem sabiam que lhe | valvess’ ergo morte;
seu padr’ era ’m coita, | sa madre chorosa
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
por ela, ca outro | filho nom haviam.
Des i, prometerom | que a levariam
643
48
a Terena, ca já | per al nom sabiam
que saúd’ houvesse. | E porém trigosa
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
foi desto sa madr’, e | levou-a correndo
dali a Terena, | gram doo fazendo,
e pela carreira | ind’ assi dizendo:
“– Virgem, de Deus madre, | santa, preciosa,
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
sobr’ esta mià filha | mostra ta vertude,
que a ta mercee | santa i ajude:
fonte de bondades, | tu lhe dá saúde,
ca mui be-na podes | dar, Virgem fremosa”.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
Foi a bõa dona | tanto demandando
a Santa Maria | mercee, chorando
muito dos seus olhos | que forom chegando
preto da eigreja | da de Deus esposa.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
Tanto que a moça | que era doente
viu [i] a eigreja, | logo mantente
foi mui bem guarida; | e diss’ aa gente
que a desliassem, | ca a merceosa
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
76
78
madre de Deus, Virgem, | saúde lhe dera
tal que se sentia | que bem sãa era.
A companha toda | gram lediça fera
houve deste feito | e foi mui goiosa.
R13 79-80 [Refrão = vv. 1-2]
XIV
82
84
Ela diz: “– Amigos, | as sogas talhade,
ca já sãa soom | pola piadade
de Santa Maria; | ca da sa bondade,
ao que a chama, | é muit’ avondosa”.
R14 85-86 [Refrão = vv. 1-2]
XV
88
90
Seu padr’ e sa madre | gram prazer houverom
quand’ a filha virom | sãa, e fezerom
ali sa vegia, | e ofertas derom
quanto s’ atreverom | aa saborosa
R15 91-92 [Refrão = vv. 1-2]
XVI
96
que é de Deus madr’, e | muito a loarom;
des i, a sa terra | com ela tornarom
sãa e guarida,_e | da Virgem contarom
que a sa mercee | nom é dovidosa.
98
Quenquer mui bem pod’ a | Virgem groriosa
de door guarir, nom | será tam coitosa.
94
R16
644
Cantigas de Santa Maria 320
«Santa Maria leva»
(E 320, F [40])
De loor de Santa Maria.
R0
2
I
4
R1
6
II
8
R2
10
III
12
R3
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
O bem que perdeu Eva, | a nossa madr’ antiga.
cobrou Santa Maria | u foi de Deus amiga.
O bem que perdeu Eva | du perdeu paraíso,
cobrou Santa Maria | pelo seu mui bom siso.
18
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
22
VI
24
O bem que perdeu Eva | u perdeu de Deus medo,
cobrou Santa Maria | creend’ em El mui cedo.
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
O bem que perdeu Eva | britand’ o mandamento,
cobrou Santa Maria | per bom entendimento.
26
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
28
Quanto bem perdeu Eva | fazendo gram folia,
cobrou a groriosa | Virgem Santa Maria.
30
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
VII
R7
O bem que perdeu Eva | pela sa gram loucura,
cobrou Santa Maria | co-na sa gram cordura.
16
20
R6
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
V
R5
O bem que perdeu Eva | pela sa neicidade,
cobrou Santa Maria | per sa grand’ homildade.
14
IV
R4
Santa Maria leva
o bem que perdeu Eva.
* * *
645
Cantigas de Santa Maria 321
«O que mui tarde ou nunca se pode por meezinha»
(E 321, F [24])
via.
Esta é como Santa Maria guareceu em Córdova ũa moça dũa grand’ enfermidade que haR0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
O que mui tarde ou nunca | se pode por meezinha
sãar, em mui pouco tempo | guarec’ a santa reinha.
Ca o que física manda | fazer, por haver saúde
o enferm’ em grandes tempos, | sãa per sa gram vertude
tantoste Santa Maria; | porém, se ela m’ ajude,
vos direi um seu miragre | que fez em ũa meninha.
[Refrão = vv. 1-2]
Esta de Córdova | era natural, e padecia
enfermedade mui forte | que na garganta havia,
a que chamam «lamparões», | que é maa maloutia;
e passara já três anos | que esta door tiinha.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Sa madre, com coita dela, | em tal que lha bem guarissem,
nom catou de dar a meges | todo quanto lhe pedissem,
nem a físicos da terra, | rogando-lhes que a vissem,
e maravedis quinhentos | ou mais lhes deu a mesquinha.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Mais eles, por nulha cousa | que lhes désse, nom poderom
sãá-la, nem prol lhes houve | quanta física fezerom,
pero todo-los dinheiros | que ela lhes deu houverom,
assi que a molher bõa | ficou ém co-na espinha.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
A molher, com esta coita, | nom sabia que fezesse,
e do haver e da filha | que conselho i presesse.
Mas entom um home bõo | conselhou-lhe que dissesse
est’ al-rei e lha levasse, | ca pera el conviinha.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E disse-lh’: “– Ai molher bõa, | se Nostro Senhor m’ ajude,
todo-los reis crischãos | ham aquesto por vertude:
que, sol que ponham sas mãos | sobre tal door, saúde
ham; e porém vos conselho | que sejades manhaninha
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
ant’ el-rei, e irei logo | vosco, se Deus me defenda
de mal, e de vossa filha | lhe contarei a fazenda;
e, des que lho houver dito, | bem sei, logo, sem contenda,
que el-rei por sa mercee | vos acorrerá aginha”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
646
VIII
46
48
El foi al-rei e contou-lho; | e respôs-lh’ el-rei: “– Amigo,
a esto que me dizedes | vos respond’ assi e digo:
que o que me conselhades | sol nom val um mui mal figo,
pero que falades muito | e toste com’ andorinha;
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca dizedes que vertude | hei, dizedes neicidade;
mais fazed’ agora tanto: | eu direi, e vós calade,
e levarei a meninha | ant’ a bela majestade
da Virgem, que é envolta | ena púrpura sanguinha;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e, pois for a missa dita, | lave-na da água crara
a ela e a seu filho, | todo o corp’ e a cara,
e beva-o a meninha | do cález que sobr’ a ara
está, u se faz o sángui | de Deus do vinho da vinha;
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e beva-a tantos dias | quantas letras som achadas
eno nome de Maria | escritas e feguradas;
e, assi, no dia quinto | serám todas acabadas,
e desta enfermidade | guarrá log’ a pastorinha”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Esto foi feit’; e a moça | a quatro dias guarida
foi do braç’ e da garganta | pola senhor que dá vida
aos que amam seu filho, | e tal saúde comprida
houve sem bever sarope | nem haver banho de tinha.
74
O que mui tarde ou nunca | se pode por meezinha
sãar, em mui pouco tempo | guarec’ a santa reinha.
70
R12
* * *
647
Cantigas de Santa Maria 322
«A Virgem, que de Deus madre ést’, e filha e criada»
(E 322, F [25])
Como Santa Maria guariu um home em Évora que houvera de morrer dum osso que se lh’
atravessara na garganta.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A Virgem, que de Deus madre | ést’, e filha e criada,
d’ acorrer os pecadores | sempr’ está aparelhada.
Ca nos nom acorr’ em dia | sinaado nem em hora,
mas sempr’ e em todo tempo | d’ acorrer nom nos demora,
e punha em todas guisas | como nom fiquemos fora
do reino de Deus, seu filho, | ond’ é reinha alçada;
[Refrão = vv. 1-2]
demais, sinaadamente | nas grandes enfermidades,
de doores e de coitas | acorre com piadades.
E de tal razom com’ esta | vos direi, se m’ ascuitades,
um gram miragre que fezo | esta senhor muit’ honrada.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em Évora foi um home | que ena Virgem fiava
muito e que cada dia | a ela s’ acomendava;
e avo-lh’ ũa noite | em sa casa, u cava,
que houver’ a seer morto | a desora, sem tardada.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca el gram comedor era | e metia os bocados
muit’ ameúde na boca, | grandes e desmesurados;
e aa noit’, [u] cava | dũus cõelhos assados,
atravessou-xe-lh’ um osso | na garganta, e sarrada
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a houve de tal maneira | que cuidou ser afogado;
ca aquel osso lh’ havia | o gorgomel’ atapado,
assi que em pouca d’ hora | o houve tam fort’ inchado
que fôlego nom podia | colher nem ar falar nada.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Assi esteve gram tempo | que sol comer nom podia
nem bever neũa cousa | senom cald’ ou água fria,
atá que chegou a festa | da Virgem Santa Maria
que cae no mês d’ agosto, | quand’ ela foi corõada.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Entom todos seus parentes | e amigos o filharom
e aa egreja desta | nobre senhor o levarom,
e, tendo-o por morto, | ant’ o altar o deitarom.
E tev’ i aquela noite; e contra a madurgada,
40
42
648
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
quand’ a missa já diziam, | filho’-o tosse tam forte
que todos cuidarom logo | que era chegad’ a morte.
Mas a Virgem groriosa, | que dos coitados conorte
éste, nom quis que morresse | ali daquela vegada,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
mas guisou que, em tossindo, | lhe fez deitar mantenente
aquel osso pela boca, | ante toda quanta gente
i estava; e tantoste | loores de bõa mente
derom a Santa Maria, | a madre de Deus amada.
56
A Virgem, que de Deus madre | ést’, e filha e criada,
d’ acorrer os pecadores | sempr’ está aparelhada.
52
R9
* * *
649
Cantigas de Santa Maria 323
«Ontre toda-las vertudes que aa Virgem som dadas»
(E 323, F [26])
Como Santa Maria ressucitou ũu meninho em Coira (ũa aldea que é preto de Sevilha).
R0
2
I
4
6
Ontre toda-las vertudes | que aa Virgem som dadas,
é de guardar bem as cousas | que lhe som acomendadas.
Ca ela, que é guardada, | pode guardar, sem contenda,
bem o que lh’ a guardar derem | e ter em sa comenda.
E porend’ um gram miragre | direi, se Deus me defenda,
que fez esta, que já outros | há feitos muitas vegadas.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Em Coira, cabo Sevilha, | foi este miragre feito
no tempo que Abo-Iúcef | passou bem pelo estreito
d’ Algizira e a terra | de Sevilha tod’ a eito
correu, e muitas aldeas | forom dos mouros queimadas.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ali era um bom home | que um filhinho havia
pequeno, que tant’ amava | com’ a vida que vivia;
a este deu ũa féver | e foi mort’ a tercer dia.
O padre, com coita dele, | em sas faces deu palmadas,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e depenou seus cabelos, | e fez por ele gram doo
dizendo: “– Ai eu, meu filho, | como fico de ti soo!;
quisera eu que tu visses | mim com’ eu vi teu avoo,
meu padre, que me fazia | muitas mercees grãadas”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E el aquesto dizendo, | os mouros logo deitarom
sas algaras, e correrom | e roubarom quant’ acharom;
e os de Coira, correndo, | todo o logar leixarom
e fugirom, e ficarom | as casas desamparadas.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Aquel home que seu filho | pera soterrar estava,
quando viu correr a vila, | o filho desamparava,
e aa Virgem beita | logo o acomendava
e todo quant’ el havia, | chorando a saluçadas.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Fois-s’ o home; e os mouros | tod’ aquel logar correrom,
mais na casa daquest’ home | nom entrarom nem tangerom;
e pero todo-los outros | quant’ haviam i perderom,
nom perdeu o home bõo | valor de três dinheiradas.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
650
VIII
46
48
Ca log’ em aquela casa | entrou a senhor comprida
de todo bem, e tantoste | deu ao mininho vida,
e guardou as outras cousas, | que nom achou pois falida
home de rem em sa casa, | nem sol as portas britadas.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E achou seu filho vivo | e preguntou-lhe que era,
ond’ e como resorgira, | ca por morto o tevera;
e el lhe disse que ũa | dona com el estedera
que o guardara dos mouros; | e sas cousas bem guardadas
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
foram, que sol nom tangeram | em elas, nem nium dano
fezeram nem eno leito | nem na mesa nem no ’scano.
Quand’ est’ oiu o bom home, | com’ era mui sem engano,
foi chamar a seus vezinhos; | e, pois lhes houve mostradas
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
todas estas maravilhas, | loores porende derom
aa Virgem groriosa; | e a quantos lho disserom
beizerom o seu nome, | e gram festa lhe fezerom,
e houv’ i com alegria | muitas lágrimas choradas.
68
Ontre toda-las vertudes | que aa Virgem som dadas,
é de guardar bem as cousas | que lhe som acomendadas.
64
R11
* * *
651
Cantigas de Santa Maria 324
«A senhor que mui bem soube per sa língua responder»
(E 324, F [23])
Esta é como Santa Maria guareceu na sa eigreja em Sevilha ũu mudo que havia dous anos
que nom falara.
R0
2
I
4
6
A senhor que mui bem soube | per sa língua responder
a Gabriel, mui bem pode | língua muda correger.
Daquest’ um mui gram miragre | vos direi, sem rem mentir,
mui fremos’ e muit’ aposto, | e saboroso d’ oir,
que mostrou Santa Maria, | aquela que foi parir
Deus e home Jesu-Cristo, | que por nós quis pois morrer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Aquesto foi em Sevilha, | por quant’ end’ eu aprendi,
dũa omagem mui bela | que trouxera el-rei i
da Virgem Santa Maria, | que eu per meus olhos vi
fazer mui grandes miragres | em enfermos guarecer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta era tam fremosa | e de tam bõa feiçom,
que quenquer que a viía | folgava-lh’ o coraçom;
e porend’ el-rei e todos | haviam gram devoçom
em ela, e amiúd’ i | a iam porém veer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo pois na festa | do dia em que naceu
esta Virgem groriosa | (que nos muito mal tolheu
que o demo nos fazia, | e ena graça meteu
de seu filho Jesu-Cristo, | que quis hom’ e Deus seer);
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
esse dia que vos digo | el-rei sa missa oiu
na grand’ eigreja da see, | que se nunca ém partiu
atá que foi toda dita; | mais o poblo lhe pediu
que aquela sa omagem | lhes fezess’ ali trager.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E el-rei, com amor grande | que havia do logar
(porque seu padr’ e sa madre | fezera i soterrar),
outorgou-lhes a omagem, | que nom quis per rem tardar
que lha nom trouxesse logo, | sem filhar neum lezer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E foi log’ a sa capela, | que se nom deteve rem,
e levou-lhes a omagem | apostament’ e mui bem,
com mui grandes procissões, | com’ a tal feito convém,
loand’ a que é loada | e deve sempre seer.
40
42
652
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E tanto que a omagem | aa eigreja chegou,
um mudo que dentr’ estava | per sinas empreguntou
que er’; e, pois lho disserom, | a língua se lhe soltou
faland’, e a Virgem santa | começou a beizer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Dous anos forom que nunca | falara el tal nem qual;
mas o que primeiro disse | foi: “– Santa Maria, val,
ca por ti sõo guarido, | ai senhor esperital”.
E começou log’ as mãos | contra os ceos erger.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
El-rei e quantos i eram | derom porém gram loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor,
porque a el e a todos | lhes mostrou atal amor
que tam fremoso miragre | foi bem ant’ eles fazer.
62
A senhor que mui bem soube | per sa língua responder
a Gabriel, mui bem pode | língua muda correger.
58
R10
* * *
653
Cantigas de Santa Maria 325
«Com dereit’ a Virgem santa há nom’ “Estrela do dia”»
(E 325, F [104])
Como Santa Maria de Tudia sacou ũa manceba de cativo, que jazia em Tánjar.
R0
2
I
4
6
Com dereit’ a Virgem santa | há nom’ «Estrela do dia»,
ca assi pelo mar grande | come pela terra guia.
Ca a que nos abr’ os braços | e o inferno nos serra,
tam bem faz pelo mar vias | come pela chãa terra;
e quem aquesto nom cree, | maravilhosament’ erra
e de Deus em neum tempo | perdom haver nom devia.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1]-2]
II
E de tal razom com’ esta | direi mui maravilhoso
miragre que fez a Virgem, | e d’ oir mui saboroso;
e quem parar i bem mentes | terrá-o por piadoso
e haverá mais fiança | eno seu bem todavia.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Na terra d’ África houve, | em Tánjar, ũa cativa
molher a que davam pa | cada dia muit’ esquiva
com pouco pam e mui mao, | e mui mais morta ca viva
era se lhe nom valvesse | a Virgem Santa Maria.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Aquesta natural era | do gram reino de Sevilha,
dum logar em que miragres | faz a de Deus madr’ e filha,
que Tudia é chamado; | e d’ oir a maravilha
que avo deste feito | muito m’ ende prazeria.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Esta com outra cativa | jaziam em prijom forte
dũa moura que o demo | filhou pera si em sorte,
que enfermidade grande | adusse mui tost’ a morte;
mais enante que morresse | amba-las chamar fazia.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E conselhou-lhes que fossem | mouras, e crischãidade
leixassem, e fossem fora | daquela catividade,
e lhes faria grand’ algo | e dar-lhes-ia herdade,
e que com mouros mui ricos | a ambas casá-las-ia.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
[E] se fazer nom quisesse[m] | esto, logo nas cadas
ambas metê-las faria | e dar-lhes tam g[ra]ndes pas
que lhes nom ficassem sãos | coiros nem nervos nem vas;
e, demais, sobre tod’ esto, | escabeçá-las faria.
40
42
654
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
A ũa disse, com medo, | que o faria de grado;
mais a outra mui sanhuda | disse: “– Sol nom é pensado,
ca mià alma e meu corpo | todo hei acomendado
aa eigreja da madre | de Deus que é em Tudia”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
A moura com mui gram sanha | mandou-as log’ essa hora
no cárcer deitar ontrambas; | mais aquela sem demora
adormeceu, e a Virgem | lhe disse: “– Sal acá fora
deste logar, e trei migo, | ca eu te porrei na via”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Pois a cativa esperta | foi, achou-s’ em um caminho
ancho e chão, sem pedras, | e andou-o mui festinho,
que pam nom comeu bocado | nem beveu água nem vinho,
atá que preto de Silve | foi quando aluzecia.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E ascuitou ũa peça | e oiu falar os mouros
que iam cavar as vinhas, | deles brancos, deles louros;
e oiu mogir as vacas | e oiu bruiar os touros,
e diss’: “– Em terra de Tánjar | me sõo, como soía”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
A pouco rato pois esto, | [v]iu gram peça de crischãos
que iam veer sas vinhas, | todos sas lanças nas mãos;
e entendeu que seus sonhos | nom forom falsos nem vãos,
mais verdade mui certeira | qual com seus olhos viía.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E, pois entrou ena vila, | foi-se log’ aa eigreja
da Virgem Santa Maria, | que é beita e seja,
e viu estar ajuntada | i mui gram gente sobeja,
e, de com’ o feito fora, | todo lhe-lo retraía.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
E eles grandes loores | derom logo da primeira
aa Virgem groriosa, | madre de Deus verdadeira;
mais o colar da cada | tolher per nulha maneira
do colo nom lho poderom, | nem per nulha maestria.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Entom a molher lhes disse: | “– Eu sõo pobr’ e mesquinha,
e se m’ alg’ a dar havedes | por Deus, dade-mi_o aginha,
e ir-m’-ei pera Tudia, | a cas da santa reinha,
que me sacou de cativo, | u mui coitada jazia”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Eles derom-lh’ alg’, e foi-se. | E logo que foi entrada
em Tudia, na eigreja | da reinha corõada,
caeu-lh’ o colar do colo, | que se nom deteve nada;
94
655
96
e o sancristám tantoste | a gram campãa tangia.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
102
E quantos ali estavam | e este feito souberom,
todos aa Virgem santa | porende loores derom;
des i, aa molher bõa | porend[e] algo fezerom,
e ela dend’ adeante | ena eigreja servia.
104
Com dereit’ a Virgem santa | há nom’ «Estrela do dia»,
ca assi pelo mar grande | come pela terra guia.
100
R17
* * *
656
Cantigas de Santa Maria 326
«A Santa Maria muito lh’ é greu»
(E 326, F [27 bis])
Como Santa Maria de Tudia prendeu os ladrões que lhe furtarom as colmas.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A Santa Maria muito lh’ é greu
de quem s’ atreve de furtá-lo seu.
Ca a senhor que o atám bem dá
nom há home razom de lhe furtar,
nem de roubar-lh’ o seu nem lho filhar,
ca, servindo-a bem, havê-lo-á.
[Refrão = vv. 1-2]
E daquesta razom vos contarei
um gram miragre que fez ũa vez
em Tudia esta senhor de prez,
e daqueles que forom i o sei.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
A aqueste logar com devoçom
vem i as gentes e som romeus
por servir a nobre madre de Deus,
e dam i todos mui grand’ ofreçom.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Onde foi que um home mui fiel
desta senhor foi ali ofrecer
sas colmas, de que podess’ haver
a eigreja muita cera e mel.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
E que-na verdade saber quiser,
saberá que as poserom ali
derredor da eigreja,_e, com’ oí,
guardava-as ũa pobre molher.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E ladrões ũa noit’ ant’ a luz
furtaro-nas todas e forom-s’ ém,
assi que nom envergonharom rem
a ela ne-no que morreu na cruz.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
[O]utro dia, pois virom este mal,
os do logar filharom-s’ a carpir,
e log’ a Santa Maria pedir
forom vingança deste feito tal.
657
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
E log’ um cavaleir’ ali chegou
que de toda a terra arredor
era jostiça, e, pois sabedor
foi deste feito, buscá-los mandou.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E el meesmo nom foi i dedur
em pos eles, buscando-os assaz,
atá que os viu jazer como jaz
o cõelho ascondud’ ou o mur.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
60
E as colmas tĩíam atrás
deitadas, e nom podiam, de pram,
fogir com elas; entom manamám
os prendeu, que nom atendeu a crás.
62
A Santa Maria muito lh’ é greu
de quem s’ atreve de furtá-lo seu.
X
58
R10
* * *
658
Cantigas de Santa Maria 327
«Porque bem Santa Maria»
(E 327)
Como Santa Maria guariu o crérigo que se lhe tornaram as pernas atrás porque fez ũus panos mores dum pano que furtou de sobe-lo altar.
R0
2
4
I
6
8
R1
9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Porque bem Santa Maria
sabe os seus dões dar,
muito per-faz gram folia
quem lhe vai o seu furtar.
Onde, se m’ oir quiserdes, | daquesto vos contarei
um miragre mui fremoso | que fez a madre do rei
Jesu-Crist’ em Odimira, | como vos ora direi,
u ela fez ende muitos | outros em aquel logar.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas este foi muit’ aposto | e feito com gram razom;
ca ũa molher seu pano | foi dar em ofereçom
a ũa eigreja sua, | feita des mui gram sazom,
que está fora da vila, | assi com’ oí contar.
[Refrão = vv. 1-4]
Pouco mais ca ũa vara | o pan’ era, com’ oi,
e era mui bem teçudo | e mui delgad’ outrossi;
e porend’ a molher bõa | fora-o põer ali
na eigreja, u o vissem | estar sobe-lo altar.
[Refrão = vv. 1-4]
Um crérigo da eigreja, | que o viu ali seer,
creceu-lh’ ém tal cobiíça | que o foi log’ ém tolher,
e levou-o a sa casa | e mandou ende fazer
panos com que cobriss’ ende | o com que ia pecar.
[Refrão = vv. 1-4]
[E] pois que os houve feitos | e com eles se cobriu,
deitava-s’ a dormir logo; | mais pero pouco dormiu,
ca os calcanhares ambos | pelos lombos os sentiu
que lh’ entrarom tam de rijo | que os nom pôd’ ém tirar.
[Refrão = vv. 1-4]
[E] com mui gram coita fera | que havia de door,
braadou muit’ e dizendo: | “– Ai madre do Salvador,
rogo-te que eu nom moira | assi, se t’ ém prazer for”.
E do erro que fezera | filhou-s’ a mãefestar
[Refrão = vv. 1-4]
ante todos, e chorando | ar filhou-s’ a repentir,
e dum gram pano de lenço | fez log’ o altar cobrir.
E porende, meus amigos, | quem este miragr’ oir
659
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8
66
68
nunca seja atrevudo | e-na Virgem desonrar.
[Refrão = vv. 1-4]
E, sobr’ esto, à eigreja | o levarom manamám,
e todos por el rogarom | a senhor do bom talám;
e ela guariu-o logo, | que nom prendeu i afám;
porém todos começarom | o seu nome de loar.
Porque bem Santa Maria
sabe os seus dões dar,
muito per-faz gram folia
quem lhe vai o seu furtar.
* * *
660
Cantigas de Santa Maria 328
«Sabor há Santa Maria, de que Deus por nós foi nado»
(E 328)
Esta é como Santa Maria filhou um logar pera si eno reino de Sevilha e fez que lhe chamassem «Santa Maria do Porto».
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Sabor há Santa Maria, | de que Deus por nós foi nado,
que seu nome pelas terras | seja sempre nomeado.
Ca se ela quer que seja | o seu nom’ e de seu filho
nomeado pelo mundo, | desto nom me maravilho,
e corrudo del Mafomet | e deitado em eixilho
el e o diab’ antigo, | que o fez seu avogado.
[Refrão = vv. 1-2]
E desto mui gram miragre | a que éste madr’ e filha
mostrou, e mui saboroso | d’ oir, a gram maravilha,
preto de Xerez, que éste | eno reino de Sevilha,
um logar que «Alcanate» | soía seer chamado.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este logar jaz em terra | mui bõa e mui viçosa
de pam, de vinho, de carne | e de fruita saborosa
e de pescad’ e de caça; | ca de todo deleitosa
tant’ é que dedur seria | em um gram dia contado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca este logar é posto | ontr’ ambos e dous os mares:
o grand’, e o que a terra | parte per muitos logares,
que chamam «Mediterrano»; | des i, ambos e dous pares
s’ ajuntam i com dous rios, | per que ést’ o log’ honrado:
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Guadalquivir é um deles, | que éste mui nobre rio
em que entram muitas águas | e per que vem gram navio;
o outro é Guadalete, | que corre de mui gram brio;
e em cada um daquestes | há muito bõo pescado.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ond’ em este logar bõo | foi pousar ũa vegada
el-rei Dom Afonso, quando | sa frota houv’ enviada,
que Çalé britarom toda, | gram vila e muit’ honrada,
e o haver que gãarom, | dedur seria osmado.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
El pousand’ em aquel log[o], | e sa frota enviando,
e indo muitas vegadas | a Cádiz e ar tornando,
e do que mester havia | a frota bem avondando,
per que fosse mais aginha | aquel feit’ enderençado,
40
42
661
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
nom catou al senom quando | o alguazil mui sanhudo
de Xerez a ele vo, | mouro mui ric’ e sisudo,
dizendo: “– Senhor, com’ ousa | seer nulh’ hom’ atrevudo
d’ Alcanate, u pousades, | haver-lh’ o nome cambiado
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e ar dizer-lh’ outro nome | (de que ham gram desconorto
os mouros, porque lhe chamam | «Santa Maria d[o] Porto»,
de que vem a nós gram dano | e a vós fazem i torto)?;
e atal feito com’ este | deve ser escarmentado”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
El-rei, quand’ oiu aquesto, | houve gram sanha provada,
e mandou a sa jostiça | que logo, sem detardada,
que pola host’ ascuita[n]do | de pousada em pousada
andass’, e a quem oísse | tal nome, foss’ açoutado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Sobr’ esto muitos chrischãos | forom mui mal açoutados,
e outros a paancadas | os costados bem britados,
e ar outros das orelhas | porende forom fanados;
e, per tod’ esto, nom pôde | aquel nom’ haver vedado;
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
ante, quanto mais punhava | e provava e queria
de vedar aquele nome, | a gente mai-lo dizia;
ca a Virgem groriosa, | reinha Santa Maria,
queria que do seu nome | foss’ aquel logar chamado.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Ond’ el-rei em mui gram coita | era daquesto, sem falha,
temendo que nom crecesse | sobr’ esto volt’ ou baralha
ontre mouros e crischãos; | mais a Virgem, que trabalha
por nós, tragia o preito | doutra guisa ordinhado.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Ca ao alguazil mouro | fezo logo que falasse
com el-rei e por mercee | lhe pediss’ e lhe rogasse
que aquel logar tam bõo | pera crischãos filhasse.
El-rei, quand’ oiu aquesto, | foi ém mui ledo provado,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
ca entendeu bem que Cádiz | mais toste pobrad’ houvesse;
mas, temendo que o mouro | por engano o fezesse,
nom lhe quis responder nada | a cousa que lhe dissesse;
ond’ o alguazil por esto | foi ém mui maravilhado,
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
e disso com’ em sanhudo | al-rei: “– Nom saia dest’ ano
se esto que vos eu rogo | o faço por nulh’ engano,
mas por meter paz na terra | e por desviar gram dano
94
662
96
que pode seer se este | feito nom for acabado”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
102
E, demais, lhe deu com este | logar toda a ribeira
doutras aldeas que eram | do gram mar todas na beira,
Esto fez a Virgem santa, | a senhor dereitoreira,
de cujo nome o mundo | será cho per meu grado.
104
Sabor há Santa Maria, | de que Deus por nós foi nado,
que seu nome pelas terras | seja sempre nomeado.
100
R17
* * *
663
Cantigas de Santa Maria 329
«Muito per-é gram dereito de castigado seer»
(E 329)
Como Deus fez a um mouro que filhou a oferta do altar de Santa Maria que se nom mudasse
do logar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito per-é gram dereito | de castigado seer
quem s’ atrev’ ao da Virgem, | pera furtar, contanger.
E com’ é hom’ atrevudo | de pensar nem comedir
de furtar rem do da Virgem, | que faz os ceos abrir
e dar-nos de Deus sa graça?: | tal é como quem cospir
quer suso contra o ceo, | e vai-lhe na faz caer.
[Refrão = vv. 1-2]
[D]est’ um fremoso miragre | avo, com’ aprendi,
em Tudia, na eigreja | da Virgem. E foi assi:
que de mouros mui gram gente | verom correr ali
tod’ enredor pela terra | e mui gram dano fazer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E com quant’ entom roubarom | forom bem ali pousar
tod’ enredor da eigreja, | e do seu forom filhar
mealhas d’ our’ e dinheiros | que poserom no altar
a honra da Virgem santa, | de que Deus quiso nacer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca, segund’ lhes deu escrito | Mafomat no Alcorám,
bem creem mouros, sem falha | (e desto dulta nom ham),
que do Esperito Santo | s’ emprenhou, sem nulh’ afám
prender, nem dan’ a sa carne, | e assi foi conceber
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
virgem; e des que foi prenhe, | ar pariu filho barom
e depois ar ficou virgem, | e, demais, houve tal dom
que sobre-los anjos todos | quantos eno ceo som
a fezo Deus mais honrada, | e de todos mais valer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Onde, pero que os mouros | nom temam a nossa fé,
tod’ esto da Virgem santa | tem [que] gram verdad’ é;
e porend’ ali orarom | u a sa eigreja sé,
e cada um do que teve | foi sobr’ o altar põer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quand’ aquest’ houverom feito, | logo se partirom ém;
mas um mour’ avizimao, | atrevud’ e de mal sém,
leixou ir os outros todos | e foi em mui gram desdém
filhar quant’ oferecerom | e em sa bulsa meter.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
664
VIII
46
48
E, pois los houve filhados, | atám tost’ ir-se cuidou;
mais, ante que aa porta | chegasse, cego tornou
e perdeu todo o siso, | e tam irto se parou
bem come madeiro duro, | que se nom pode mover.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Os outros seus companheiros | catarom-s’ a derredor
e acharom este mos, | e houverom gram pavor
de se [for] mort’ ou cativo; | e o alcaide maior
mandou que buscá-lo fossem | e pera el o trager.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Eles a buscá-lo forom | e chegarom bem alá
aa eigrej’, e um deles | lhes diss’: “– Entremos acá;
ca mui toste os crischãos | o filharom, e está
ascondudo na eigreja | pera, quand’ escurecer,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
o levarem”. E tantoste | entrarom, com’ apres’ hei,
ena eigreja, e virom | estar aquele sem lei
ceg’ e tal com’ ũa pedra. | Diz um deles: “– Que farei?:
aquest’ hom’ está já morto | ou mui preto de morrer”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E um deles foi a ele | e falou-lh’ e o tangeu,
mais aquel per nulha guisa | nom falou nem se moveu;
outros ao altar forom, | e de quant’ ofereceu
a companha que se fora, | nom vi[rom] i rem seer.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Entonce disserom todos: | “– Quiçai aqueste rapaz
foi furtar a oferenda, | [por] que lhe Deus esto faz;
e catemos se a trage | e tornemo-la em paz
sobre-lo altar u ante | a forom of[e]recer”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Aquel mouro, que estava | mui mais negro que o pez,
foi todo escodrunhado, | e logo aquela vez
acharom-lh’ a oferenda, | e aa senhor de prez
a derom outra vegada. | E aquel mouro s’ erger
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
90
foi, e os olhos tantoste | se lh’ abrirom, e a luz
viu polo prazer da madre | daquel que morreu na cruz.
E o miragre sabudo | foi bem daqui atá Suz,
e dos mouros os crischãos | o houverom de saber.
92
Muito per-é gram dereito | de castigado seer
quem s’ atrev’ ao da Virgem, | pera furtar, contanger.
88
R15
* * *
665
Cantigas de Santa Maria 330
«Qual é a santivigada»
(E 330)
Esta é de loor de Santa Maria.
I
2
R1
3
5
II
7
R2
8
12
Qual é a que sem mazela
pariu e ficou donzela?
13
IV
17
18
Em qual per sa homildade
s’ enserrou a Trĩidade?
20
22
Qual é a que sempre bõa
foi e dos santos corõa?
23
25
Madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador.
27
Qual é a que per seu siso
nos fez haver paraíso?
VI
R6
Madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador.
Madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador.
V
R5
A qual diss’ Ave, Maria
Gabriel e que seria
10
15
R4
Madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador.
madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador?
III
R3
Qual é a santivigada
ant’ e depois que foi nada?
28
30
Madre de Deus, Nostro Senhor,
de Deus, Nostro Senhor,
e madre de nosso salvador.
* * *
666
Cantigas de Santa Maria 331
«Ena que Deus pôs vertude grand’ (e sempr’ em ela crece)»
(E 331)
Como Santa Maria de Rocamador [deu sãidade a ũa molher sandia].
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Ena que Deus pôs vertude | grand’ (e sempr’ em ela crece),
poder há d’ enfermidades | sãar e toda sandece.
Ca tant’ é a sa vertude | grande daquesta reinha
que o que em ela cree | nom busc’ outra meezinha;
que quant’ é o mal chus forte, | tanto o tol mais aginha,
ca a cada door sabe | ela quant’ i pertece.
[Refrão = vv. 1-2]
Onde daquest’ um miragre | em Rocamador avo
na sa igreja da Virgem, | onde tod’ o mund’ é cho
de sas graças e mercees, | e que por nosso bem vo
Jesu-Crist’ em ela carne | filhar, com que nos nodrece.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ũa molher houv’ um filho | que mui mais ca si amava,
boinho dũus doz’ anos, | e sempre s’ em el catava
em com’ era fremosinho, | e mil veze-lo beijava
como madr’ a filho beija | com que muit’ afám padece,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e faagava-o tanto | quanto faagar podia.
Mais o moç’ a pouco tempo | dũa gram féver morria;
e o doo que por ele | entom sa madre fazia,
e contar-vos de com’ era | grande, muito mi_avorrece.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E braadava mui forte, | depenando seus cabelos,
des i os dedos das mãos | nom quedava de torcê-los,
e outrossi a seus braços | nom leixava de metê-los,
dizendo: “– Sem ti, meu filho, | este mundo m’ escurece”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E[n]quant’ a missa disserom, | sempre fez aqueste doo,
dizendo: “– Sem ti mui soa | fico, e tu sem mi soo;
e hoimais jarás so terra | bem como jaz teu avoo,
e muit’ hei coraçom forte | que agora nom perece”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, pois a missa foi dita, | o meninho soterrarom,
e a madre come morta | de sobr’ ele a tirarom;
e bem assi seus parentes | a sa casa a levarom
come a molher transida | que nium nembro nom mece.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
667
VIII
46
48
Assi jouv’ aquela noite; | outro dia madurgada
foi veer u soterra[r]am | seu filho a malfadada
[...]
| achou e foi tam coitada
que tornou porém sandia; ca muitas vezes contece
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
que, com gram coita, o siso | perdem os que mui coitados
som. E assi fez aquesta | pelos seus maos pecados,
assi que todo-los santos | eram já dela nojados
andando dũus em outros. | Mas a que nunca falece,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Virgem santa groriosa, | houve dela piedade;
e, pois foi ena sa casa | de Rocamador, verdade
foi assi que atantoste | lhe deu logo sãidade:
ca u chega sa vertude, | logo sem dulta guarece.
62
Ena que Deus pôs vertude | grand’ (e sempr’ em ela crece),
poder há d’ enfermidades | sãar e toda sandece.
58
R10
* * *
668
Cantigas de Santa Maria 332
«Atám gram poder o fogo nom há, per rem, de queimar»
(E 332)
Esta é como em ũu mõesteiro em reino de Leom levantou-se fogo de noite, e mato’-o a omagem de Santa Maria co-no veo que tiinha na cabeça.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Atám gram poder o fogo | nom há, per rem, de queimar
como há Santa Maria, | quandoquer, de o matar.
Ca, macar grand’ elemento | foi Deus do fogo fazer,
e de queimar toda cousa | lhe foi dar tam gram poder,
maior o deu a sa madre, | de que Ele quis nacer,
e pois ena carne dela | foi os infernos britar.
[Refrão = vv. 1-2]
Ond’ um mui maravil[hoso] | miragre vos contarei
que avo em Carriço, | per com’ em verdad’ achei,
um mõesteiro que éste | preto de Leom, e sei
que o fez Santa Maria | por sa vertude mostrar.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquel mõesteiro éste | desta órdim de Cistel,
e há i ũa omagem | que tem seu filho, mui bel
meninho, ontre seus braços, | e sé em um chapitel
fremos’ e mui bem lavrado, | posto sobe-lo altar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
As donas daquel convento | todas mui gram devoçom
ham em aquesta omagem, | e vam i de coraçom
cada noit’ e cada dia | e fazem grand’ oraçom,
e vem com sas candeas | por o log’ alumear.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Onde foi ũa vegada | que palha deitarom i
muita na eigreja toda, | e era mester assi
por gram frio que fazia, | e ar deitarom log’ i
estadaes encendudos, | como soíam deitar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E um estadal daqueles | ũa monja encendeu
ontr’ o altar e o coro, | e o fogo s’ aprendeu
del aa palha, e logo | tam feramente correu
a chama del que s’ houvera | ao altar a chegar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Mais a Virgem groriosa | nom quis esto consentir,
nem quis que aquele fogo | podesse adeant’ ir;
e porend’ a sa omagem | filhou logo, sem mentir,
o veo da sa cabeça | e ant’ o fogo lançar
40
42
669
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
o foi; e depois o fogo | sol nom queimou nulha rem,
ante foi tantoste morto | polo prazer da que tem
em poder os elementos; | ca nem-um nom vai nem vem
senom quanto o seu filho | quer em eles ordinhar,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
que ordinhou que o veo | delgado mais ca cendal
podess’ amatar o fogo | e nom sofrer que mais mal
fezesse do que fezera, | por vertud’ esperital
da Virgem, ond’ a omagem | havia o semelhar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Entonce a sancreschãa, | que dormia, s’ espertou
e, pera tanger os sinos, | duas consigo levou
monjas e aa eigreja | foi; e, pois que dentr’ entrou,
viu tod’ esto que já dixe | e foi-o logo contar
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
ao convent’ u durmia, | e disse: “– Por esto vim:
por vos mostrar gram miragre | que ora conteu a mim;
e sei que, poi-lo oirdes, | diredes, par Sam Martim,
que doutro maior daqueste | nunca oístes falar”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Log’ entom a abadessa, | que era bõa molher,
foi alá, e o convento | ar foi i mui volonter;
e pois virom o miragre, | disserom: “– Muit’ é mester
que dest’ a Santa Maria | sabiamos loores dar”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
Entom começarom tod[a]s | cantando a dar loor
aa Virgem groriosa, | madre de Nostro Senhor;
e pois deitarom-s’ a prezes | cab’ o altar enredor,
rezando per seus salteiros | quanto podiam rezar.
80
Atám gram poder o fogo | nom há, per rem, de queimar
como há Santa Maria, | quandoquer, de o matar.
76
R13
* * *
670
Cantigas de Santa Maria 333
«Conhoçudamente mostra miragres Santa Maria»
(E 333)
Como Santa Maria de Terena guariu ũu home contreito que andava em carreta mais havia
de XV anos.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Conhoçudamente mostra | miragres Santa Maria
em aqueles que a chamam | de coraçom noit’ e dia.
Ca por esto quis Deus dela | nacer: que dos pecadores
foss’ ant’ El por avogada; | des i, que todas doores
guariss’, e enfermidades. | E daquesto sabedores
somos: que sobre-los santos | todos há tal melhoria.
[Refrão = vv. 1-2]
E porém vos direi ora | um miragre que há feito
em Terena esta Virgem, | madre do filho beito,
em um mesquinho que era | de todos nembros contreito
si que em carret’ andava | mais de quinz’ anos havia.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este tiinha os braços | tortos atrás, e as mãos
tortas assi e os dedos, | e os pees nom bem sãos,
ca eram outrossi tortos | atrás; e esto crischãos
virom e judeus e mouros: | daquest’ enquisa dari’. A
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
muitos santo-lo trouxerom | u Deus miragres mostrava
grandes; mais nom lhe valia | nada, ca Deus o guardava
pera a sa madre Virgem | que o gu[ari]ss’; e rogava
el sempre a groriosa | que daquela malautia
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
lhe désse por sa bondade | saúd’. E assi andado
[já] houve per muitas terras, | assi que houve chegado
a Terena, u a Virgem | fez muito miragr’ honrado,
ca ela é dos coitados | esforço e luz e via.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Pois que foi ena eigreja | da senhor de bem comprida,
fez fazer candeas logo, | que sa oraçom oída
foss’, e diss’: “– Ai Virgem madre, | se algũa vez servida
fuste de mi algum tempo, | val, ca mester me seria”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
[C]horou muito dos seus olhos | aquela noite, jazendo
na eigreja sa carreta, | e no coraçom gemendo
feramente seus pecados | e sa oraçom fazendo
aa Virgem groriosa | o melhor que el podia.
40
42
671
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
As gentes que o viíam | assi tolheit’ e perdudo,
maravilhavam-se dele; | mais quise Deus que sabudo
foss’ ante que fosse são, | e de todos i veúdo,
por que foss’ este miragre | mais provado todavia.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Jazend’ assi na eigreja | sempre gemend’ e chorando,
a Virgem Santa Maria | e de coraçom rogando
que lh’ houvesse piadade, | foi-se-lh’ o temp’ alongando,
que nom [pud’] haver saúde | tam toste com’ el queria.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Ca des Páscoa i jouve | assi como vos eu digo
atá setembro meado | a conselh’ e a abrigo
da Virgem Santa Maria; | e, el jazend’ i mendigo,
ũa noite, de sa terra | foi i mui gram romaria.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Aquela noite fezerom | vegia grand’ e honrada;
mais, que fez a Virgem santa, | dos pecadores vogada?
De noit’ a aquel mesquinho | foi e log’ essa vegada
pôs as sas mãos mui toste | ali per u mal sentia.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Des i estirou-lh’ os nembros | todos, e per sa vertude
foi tantost’ o corpo todo | guarid’ e houve saúde,
ca xe sol ela de taes | feitos fazer ameúde;
e ergeu-s’ o home logo | da carre[t]a u jazia,
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
loando a groriosa. | E as gentes s’ espertarom
todos [a] aquestas vozes; | e, poi-lo são [acha]rom,
a Virgem Santa Maria | mui de coraçom loarom,
porque tam apost’ acorre | a quem por ela confia.
80
Conhoçudamente mostra | miragres Santa Maria
em aqueles que a chamam | de coraçom noit’ e dia.
76
R13
* * *
672
Cantigas de Santa Maria 334
«De resorgir home morto deu Nostro Senhor poder»
(E 334)
Como Santa Maria de Terena resorgiu ũu home que morrera de sandece e torno’-o são.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
De resorgir home morto | deu Nostro Senhor poder
a sa madr’, e toda cousa | guardar de se nom perder.
E desto fez em Terena, | ond’ haveredes sabor,
um miragr’ a Virgem santa, | madre de Nostro Senhor,
que hou[v]’ ũa vez guarido | um mancebo lavrador
dum mui gram mal que ha[via], | que lhe fezeram fazer.
[Refrão = vv. 1-2]
Este, per quant’ hei apreso, | em Aroches gram sazom
morou com um bõo home, | que el mui de coraçom
servia muit’ e amava; | e, po-lo guardar entom
de mort’, houv’ em si filhado | tal mal ond’ houv’ a morrer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Daquesto dizer-vos quero | assi como conteceu.
Bartolomeu a aqueste | chamavam, e doeceu;
des i, o home, seu amo, | pesou-lh’ ém muit’, e prendeu
seus bois com que lavrar fosse, | pois viu que se nom erger
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
seu mancebo nom podia; | e porende o leixou,
e que mui bem del pensassem | a sa companha mandou.
E sa molher com maldade | entom vinho temperou
com ervas, como o désse | a seu marid’ a bever.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E diss[e] ao mancebo: | “– Se ora podess[es] ir
ao agro a teu amo, | punharei em cho gracir,
e levasses-lh’ este vinho, | podes el e mi servir
muit’; e sei ora com ele, | por Deus, ante [de] comer;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e dar-lh’-ás aqueste vinho, | e fas como te direi:
nom bevas [ém] nemigalha, | e vem-t’ e eu te darei
algo, se esto fezeres, | e, demais, gracir-cho-ei,
e a mi e a teu amo | farás ora gram prazer”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
O mancebo_oiu aquesto | e foi logo sospeitar
que no vinho mal havia, | e diz: “– Pero me mandar
foi mià ama que lho désse | a meu am’, ant’ eu provar
o quero”. E, pois, provou-o, | e foi log’ ensandecer.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
673
VIII
46
48
E assi andou um ano | tolheit’ e fora de sém
que siíra nom havia. | E seus parentes porém
levaro-no a Terena, | que long’ é de Santarém;
e, indo pela carreira, | houve morte de prender.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E atal morto com’ era | levaro-no bem assi
dereitament’ a Terena | e posero-no log’ i
ant’ o altar da mui nobre | Virgem; e, com’ aprendi,
resorgiu e foi [bem] são | como soía seer.
56
De resorgir home morto | deu Nostro Senhor poder
a sa madr’, e toda cousa | guardar de se nom perder.
52
R9
* * *
674
Cantigas de Santa Maria 335
«Com’ em si naturalmente a Virgem há piadade»
(E 335, F [103])
Como Santa Maria converteu um gentil que adorava os ídolos, porque havia em si piadade
e fazia caridade aos pobres.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Com’ em si naturalmente | a Virgem há piadade,
assi naturalment’ ama | os em que há caridade.
Em amar os que bem fazem | Deus, [eu] nom me maravilho,
pois aquel que é bondade | comprida se fez seu Filho,
que fez os montes mui grandes | e fez o grão do milho,
por mostrar em nós sas obras | quaes som e sa bondade.
[Refrão = vv. 1-2]
E por dar a cada ũu | segundo o que merece,
fez todo quanto veemos | e o al que nom parece;
e o que nom cree esto | muito per-faz gram sandece
e que a cabeça toda | tem cha de vãidade.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E de tal razom com’ esta | mostrarom gram maravilha
Jesu-Cristo e a Virgem | (que é sa madr’ e sa filha)
eno tempo dos gentiis | a um home em Cezilha,
que rico e avondado | era d’ haver e d’ herdade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, pero que gentil era | e que em Deus nom criía,
dava de grad’ aos pobres | o mais do que el havia.
Esto muit’ a Jesu-Cristo | prougu’ e a Santa Maria,
e a provar o verom | por saber ém mais verdade.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Onde foi que aquel home, | bõo e sem tod’ engano,
quanto de comer havia | dera em um mao ano
e caro todo a pobres, | que nom catou prol nem dano
que lh’ ende porém vesse. | Mais a que por homildade
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
soube de Deus seer madre | apareceu-lh’ em figura
de molher com filh’ em braço | com mui pobre vestidura,
e disse-lh’: “– Ai home bõo, | pera esta creatura,
por Deus, dade-lhe que cômia, | e a nós mentes parade
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
com’ andamos lazerados | com est’ ano tam minguado”.
Respondeu-lh’ o home bõo: | “– Esto faria de grado;
mais todo quanto tĩía, | a pobre-lo hei já dado”.
Diss’ entom a molher bõa: | “– Vel da farinha me dade,
40
42
675
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
de que papelinhas faça | que dé a este meninho,
que me nom moira de fame, | ca nom peço pam nem vinho”.
O home bõo, com doo | dela, ergeu-se festinho
e filhou-a pela mão | e disse-lh’: “– Acá entrade,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e irei catar as arcas | se me ficou i farinha”.
E achou ende mui pouca | e filhou-a muit’ aginha
em sas mãos, e foi logo | dereito aa cozinha
e diss’ entom a seus homes: | “– Da água me caentade”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Eles fezero-no logo; | e, des que foi bem caente,
filhou-s’ aquel home bõo | e nom quis outro sergente,
mas el per si fez as papas | mui bem e apostamente
e levou-as em sa mão | de mui bõa voontade.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E a bõa molher logo | foi catar u a leixara,
pera dar-lh’ aquelas papas | que a seu filh’ adubara
e achar sol no-na pôde, | e cuidou que se mudara
por pedir a outras portas, | e diss’ aos seus: “– Buscade
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
ũa molher com seu filho, | que agor’ aqui estava”.
Eles se partirom logo, | e cada um a buscava
quanto mais buscar podia, | mais neũm no-na achava.
Entom s’ acordarom todos | que faziam neicidade
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
buscar o que nom podiam | achar, per nulha maneira;
entom tornarom a ele | e disserom: “– Verdadeiramente nom ficou na vila | rua nem cal nem carreira
que buscada nom hajamos: | sem dúvida end’ estade”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Pois que lh’ aquesto disserom, | a sa casa deu tornada
e achou-a toda cha | de triíg’ e de cevada,
e as arcas de farinha | chas, e tam avondada
que avondar poderia | a todo-los da cidade.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Entom aquel bõo home | seve gram peça cuidando
de como viu este feito, | e muito mentes parando;
e fez chamar os gentiles | e esteve-lhes rogando
muito que daquesta cousa | lhe dessem certãidade:
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
se podi’ haver ontr’ eles | algũa tal deoessa
que filh’ em braço trouxesse, | ou que nom’ havia essa,
que lh’ a verdade dissessem, | e fezo-lhes gram promessa.
E eles lhe responderom: | “– Atal, alhur a catade”.
94
96
676
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Quando lh’ est’ houverom dito, | el foi log’ aos crischãos
e mostrou-lhes este feito | e disse-lhes: “– Ai irmãos,
se há ontre vós omagem | que nom ham estes pagãos,
de molher com filh’ em braço, | de dúvida m’ ém sacade”.
100
102
R17 103-4
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
Eles disserom: “– Havemos | a Virgem mui groriosa,
que de Deus foi madr’ e filha, | e criada e esposa,
e pariu e ficou virgem, | cousa mui maravilhosa”.
Entom diss’ o gentil logo: | “– A omagem m’ amostrade”.
108
R18 109-0
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
Eles log’ aa eigreja | muit’ aginha o levarom
e a omagem da Virgem, | madre de Deus, lh’ amostrarom,
com seu meninho em braços, | e o feito lhe contarom
de seu filho Jesu-Cristo, | hom’ e Deus em Trĩidade.
112
114
R19 115-6
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
Quand’ o gentil oiu esto, | rogou que o batiçassem,
e esto foi logo feito; | e ar rogou que rogassem
a Virgem e a seu filho, | e consigo o levassem,
quando do mundo saísse, | aa santa craridade.
121-122
[Refrão = vv. 1-2]
118
R20
XXI
126
E deste miragre todos | derom mui grandes loores
aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores,
que mostra grandes miragres | sempre aos pecadores,
por fazer que sejam bõos | e se partam de maldade.
128
Com’ em si naturalmente | a Virgem há piadade,
assi naturalment’ ama | os em que há caridade.
124
R21
* * *
677
Cantigas de Santa Maria 336
«Bem como punha o demo em fazer-nos que erremos»
(E 336, F [101])
Esta é como um cavaleiro que era mui luxurioso, per rogo que fezo a Santa Maria houve
cambiada a natura que sol depois nunca por tal preito catou.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Bem como punha o demo | em fazer-nos que erremos,
outrossi a Virgem punha | como nos d’ errar guardemos.
Ca assi com’ ele sempre | anda buscando carreiras
pera mal fazer no mundo, | falsas e mui mentireiras,
assi ar busca a Virgem | santas e mui verdadeiras,
por que mercee hajamos | de Deus, que sempr’ atendemos.
[Refrão = vv. 1-2]
E daquest’ um gram miragre | que oí, dizer-vos quero,
que fezo ũa vegada | maravilhos’ e mui fero
a Virgem mui groriosa, | de que gram mercee ’spero;
e se bem nos ascuitardes, | de grado vo-lo diremos.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esto foi dum cavaleiro | que de coraçom amava
a esta mui groriosa | e que sempre a loava
quant’ el mais loar podia, | e por seu amor ar dava
a pobres e a mesquinhos; | esto de certo sabemos.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Este cavaleiro era | grand’ e apost’ e fremoso,
mans[o] e de bom talante, | sem orgulh’ e homildoso
e mesurad’ em seus feitos, | pero tam luxurioso
era que mais nom podia | seer, per quant’ aprendemos.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Pero quando lhe nembrava | a senhor de bem comprida,
quedava-lh’ aquela coita | e era de bõa vida;
mais depois lh’ escaecia, | como home que s’ obrida
e que nom é em seu siso | (e de taes conhocemos).
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
El aquest’ assi fazendo | e co-no demo luitando,
nom estand’ em um estado, | mais caend’ e levantando,
viu em visom a reinha | dos ceos, e el chorando
lhe disse: “– Senhor, mercee, | ca em ti a acharemos
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
cada que fezermos erro; | porend’ a ta santidade
rogo que m’ hajas mercee | e pola ta piadade
nom cates a como sõo | mui comprido de maldade,
eu e os mais deste mundo, | por pecados que fazemos”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
678
VIII
46
48
Entom a Virgem mui santa | cato’-o come sanhuda
e disse-lh’: “– A esperança | que hás em mi é perduda
se daquesto que tu fazes | teu coraçom nom se muda
e nom leixas aquel erro | que nós muit’ avorrecemos”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Entom diss’ o cavaleiro: | “– Mià senhor, eu sõo vosso,
e a vós per nulha guisa | mentir nom devo nem posso;
mais est’ erro per natura | bem des Adám é-xe nosso,
de que nom seremos sãos | se per vós nom guarecemos”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Entom respondeu a Virgem | mui comprida de mesura:
“– Porque teu bem conhocemos | e entendes ta loucura,
eu farei que o meu filho | te cambiará a natura
que já mais esto nom faças, | ca desto poder havemos”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Entom foi-s’ a Virgem santa; | e logo em outro dia
por poder da groriosa | beita Santa Maria
o cavaleiro que ante | com gram luxúri’ ardia
tornou mais frio ca neve: | nos miragre-lo leemos.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E viveu depois sa vida, | quamanha Deus quis e quanta,
mui bõa, assi com’ home | que sempr’ em seu bem avanta,
por prazer da groriosa, | que ao demo quebranta,
a que sempre pecadores | porende loores demos.
74
Bem como punha o demo | em fazer-nos que erremos,
outrossi a Virgem punha | como nos d’ errar guardemos.
70
R12
* * *
679
Cantigas de Santa Maria 337
«Tam gram poder há a Virgem aos da terra guardar»
(E 337, F [102])
Como Santa Maria guareceu um moço, filho dum home bõo, que nom morresse quando caeu
com um cavalo de cima dũa ponte muit’ alta.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Tam gram poder há a Virgem | aos da terra guardar
de mal, come aos outros | que nunca passarom mar.
E daquest’ um gram miragre | direi, onde devoçom
haveredes poi-l’ oirdes, | que conteu a um barom
que a Ultramar queria | ir, e foi i em visom,
e vira i muitas cousas, | mais foro-no espertar.
[Refrão = vv. 1-2]
E colheu tal antolhança | po-lo fazer entender
que com todos contendia; | e, macar lh’ iam dizer
que ém bem se soltaria, | nom lho queria creer,
ant’ ia travar em muitos, | e dos panos lhes tirar,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
assi que lhe-los tolhia, | segundo que aprendi.
E esta door havia | tam forte, creed’ a mi,
que toda rem que achasse | entom arredor de si
travava dela de grado, | e depois a braadar
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
se filhava mui de rijo, | segundo aprendi eu.
E este barom havia | um meninho filho seu
que mui mais ca si amava; | porend’ um dia lhe deu
um seu caval’ em que fosse, | po-lo mais apessõar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, ind’ em aquel cavalo, | houv’ assi de contecer:
que dũa muit’ alta ponte | foi o meninho caer
e o cavalo com ele, | e houverom de morrer.
Mais o padr’ abriu a boca | e a Virgem foi chamar,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
dizend’ a mui grandes vozes: | “– Val-me, reinha, senhor!”.
Entom a Virgem beita, | que seu filho salvador
tiinha ontre seus braços, | houve da voz tal pavor
como quando rei Herodes | lhe quis seu filho matar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E mandou a esses santos | que o fossem acorrer
que i estavam, e ela | foi o seu filh’ asconder
com medo daquel braado, | que o nom podess’ haver
40
680
42
rei Herodes, e porende | foi logo passar o mar:
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
desta guisa com seu filho | fugiu a Jerusalém
a Virgem Santa Maria. | E guariu acá mui bem
o meninh’ e o cavalo, | que se nom ferirom rem;
e o padr’ a boc’ aberta | filhou-se Deus a loar.
50
Tam gram poder há a Virgem | aos da terra guardar
de mal, come aos outros | que nunca passarom mar.
52
Assi soub’ a groriosa | co-no seu filh’ escapar
da boca de rei Herodes, | que lho queria tragar.
46
R8
F
* * *
681
Cantigas de Santa Maria 338
«Muitos que, pelos pecados que fazem, perdem o lume»
(E 338)
Como Santa Maria guareceu na cidade de Évora um home que era cego.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muitos que, pelos pecados | que fazem, perdem o lume,
guarece Santa Maria, | ca atal é seu costume.
Desto direi um miragre | que fezo a Virgem santa,
madre de Deus groriosa, | que nos faz mercee tanta
que nos dá saúd’ e siso | e ao demo quebranta,
que nos quer ao inferno | levar, em que nos afume.
[Refrão = vv. 1-2]
Um home bõo havia | em Évora na cidade
que havia seu mancebo, | per com’ aprix em verdade,
que lhe fazia serviço | lavrando-lhe sa herdade,
e a que muitas vegadas | dizia: “– Vai e adu-me
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
tal ou tal cous’”; e el logo | mui de grado o fazia.
E porend’ o home bõo | atám gram bem lhe queria
que a mais de sa fazenda | toda per ele tragia,
ca nom lhe fazia cousa | de que houvesse queixume.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Onde lh’ avo um dia | a aquel manceb’ andando
com seus bois ena arada | e mui de grado lavrando,
que cegou dambo-los olhos, | e forom-se-lh’ apertando
como se fossem apresos | com visco ou com betume.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Tantost’ os que com el eram | pelas mão-lo filharom
e a casa de seu amo | adestrado o levarom;
e, poi-lo viu tam maltreito, | el e os outros chorarom,
dizendo: “– Rei Jesu-Cristo, | tu que em Jordám, no frume,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
Senhor, fuste batiçado, | fas que aquest’ home veja”.
Pois bem a cabo do ano | forom aa grand’ eigreja
que é de Santa Maria, | u gram vertude sobeja
mostra de sãar enfermos, | ond’ ham feit’ um gram volume.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
42
Ena eigrej’ aquel dia | ardiam muitas candeas
que faziam chama crara | sem fumo, nom come teas;
entom viu aquel mancebo | e diz: “– Nom som estas feas”.
E jurou que em tal dia | nom comess’ erga legume.
44
Muitos que pelos pecados | que fazem, perdem o lume
guarece Santa Maria, | ca atal é seu costume.
40
R7
* * *
682
Cantigas de Santa Maria 339
«Em quantas guisas os seus acorrer»
(E 339, F [100])
Esta é como Santa Maria guardou ũa nave que nom perigoasse no mar, que ia de Cartagena a Alicante.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Em quantas guisas os seus acorrer
sab’ a Virgem, nom se podem dizer.
Ca acorr’ em coita e em pesar
e em door a que-na vai chamar,
e acorre nas tormentas do mar;
ond’ um miragre quero retraer.
[Refrão = vv. 1-2]
No reino de Murça um logar é
mui forte e mui nobre e que sé
sobe-lo mar, e jur’ em bõa fé
que muit’ adur pod’ hom’ atal veer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este logar Alecante nom’ há,
e homes per mar muitos vam alá
e per terra, ca em logar está
d’ as gentes muit’ i de sa prol fazer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Porend’ em Cartagena se partiu
ũa nave (e eu vi que-na viu);
e, ind’ alá, pelo fondo s’ abriu
assi que muita d’ água foi colher.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Os que na nave iam log’ entom
aos santos fezerom oraçom;
mais um home bõo lhes disse: “– Nom
há i quem nos possa tanto valer
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
como a Virgem, que madr’ é de Deus,
que sempr’ ajuda e acorr’ os seus;
e porend’ ora, ai amigos meus,
mercee lhe peçamos sem lezer”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E eles o fezerom log’ assi,
e pois catarom a nave des i
per u entrava a água, e i
forom todos, por conselh’ i põer.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
683
VIII
46
48
E o conselho deles foi atal:
que sacassem, e nom fezessem al,
a água da nave. Mais a que val
aos coitados lhes foi i valer:
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca, per u a nave se foi abrir,
foi i três peixes entom enxerir,
assi que nom pôd’ entrar nem sair
água per i pois nem empeecer.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Aos da nave foi entom gram bem
quand’ esto virom, e derom porém
graças a aquela que nos mantém;
des i, forom logo porto prender
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
em Alecant’. E logo que chegou
a nav’, o maestre dela catou
per u entrara a águ’ e achou
três peixes engastõados jazer
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
na nave, que nom há tam sabedor
maestre nem tam calafetador
que podesse calafetar melhor
per cousa que i podesse meter.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Entom o maestr’ os peixes prendeu,
e os dous que eram mortos comeu;
e o que ficara vivo tendeu
ant’ o altar, po-lo todos veer,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
na eigreja da madre do gram rei,
que fez muitos miragres, com’ eu sei,
por que a loo sempr’ e loarei
enquant’ em aqueste mundo viver.
86
Em quantas guisas os seus acorrer
sab’ a Virgem, nom se podem dizer.
82
R14
* * *
684
Cantigas de Santa Maria 340 = 412
«Virgem madre groriosa»
(E 340, E (FSM) 2)
Esta é de loor de Santa Maria.
I
1
3
5
7
9
II
10
12
14
16
18
III
19
21
23
25
27
IV
28
30
32
34
36
V
37
Tu és alva dos alvores,
que faze-los pecadores
que vejam os seus errores
e conhoscam sa folia,
que desvia
d’ haver hom’ o que devia,
que perdeu por sa loucura
Eva, que tu, Virgem pura,
cobraste, por que és alva.
Tu és alva dos mesquinhos,
que nom errem os caminhos,
a grandes e pequeninhos;
ca tu lhes mostras a via
per que ia
o teu filho todavia,
que nos sacou da escura
carreira maa e dura
per ti, que és nossa alva.
Tu és alva dos culpados,
que cegos por seus pecados
eram; mais alumeados
som per ti, Santa Maria.
Quem diria
nem quem contar poderia
teu bem e ta gram mesura?
Ca sempre em ti atura
Deus a luz, ond’ és tu alva.
45
Tu és alva per que visto
foi o sol, que éste Cristo,
que o mund’ houve conquisto
e sacado du jazia
e jaria,
e de que nom sairia;
mais Deus por ti da altura
quis de ti, sa creatura,
nacer, e fez de ti alva.
46
Tu és alva dos que creem
39
41
43
VI
Virgem madre groriosa,
de Deus filha e esposa,
santa, nobre, preciosa,
quem te loar saberia
ou podia?
Ca Deus, que é lum’ e dia,
segund’ a nossa natura
nom víramos sa figura
senom por ti, que fust’ alva.
685
48
50
52
54
VII 55
57
59
61
63
e lume dos que nom veem
a Deus, e que por mal teem
o bem per sa bavequia
d’ heresia,
que é maa ousadia,
e Deus nom há destes cura;
mais pela ta gram cordura
lhes dás lume come alva.
Tu és alva que pareces
ante Deus, e escrareces
os ceos, e que mereces
d’ haveres sa companhia.
E querria-t’ eu ver com El, ca seria
quito de maa ventura
e metudo na folgura
u és com Deus, ond’ és alva.
* * *
686
Cantigas de Santa Maria 341
«Com’ há gram pesar a Virgem dos que gram pecado fazem»
(E 341)
Como Santa Maria do Poi salvou ũa dona d’ erro que lh’ apoinha seu marido.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Com’ há gram pesar a Virgem | dos que gram pecado fazem,
outrossi em salvar punha | os que em torto nom jazem.
Desto direi um miragre | que em terra de Gasconha
fez a Virgem groriosa, | que sobre nós mão ponha,
porque ao gram joízo | nom vaamos com vergonha
ant’ aquel que as maldades | e os erros se desfazem.
[Refrão = vv. 1-2]
Ali foi um cavaleiro | grand’ e apost’ e fremoso
e emparentado muito | e rico e poderoso;
mais casou com ũa dona, | e foi dela tam ceoso
como se fezesse torto | em que outras muitas jazem.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em coidando que lh’ errara, | dava-lhe mui maa vida,
e muitas vezes maltreita | era del e mal ferida;
e, de comer, pouc’ havia; | ar andava mal vestida:
ca molheres com maridos | ceosos tal vida fazem.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
A dona maravilhada | foi desto que lhe fazia,
e mui coitada, chorando, | com ele falou um dia
e disse-lh’ assi: “– Marido, | de grado saber querria
de vós se ham d’ haver pa | os que em torto nom jazem”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Diz el: “– Porque mi_o dizedes?” | Diss’ ela: “– Porque vos vejo
andar contra mi sanhudo, | de que hei medo sobejo;
e de saber porque éste, | rem tam muito nom desejo;
e os que me mezcram vosco, | par Deus, mui gram torto fazem”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Disse-lh’ el: “– A mim disserom | que me fazedes [gram] torto,
e tam gram pesar hei ende | que querria seer morto;
ca de tal cousa com’ esta | nom poss’ eu haver conorto,
e maa ventura venha | a quantos em esto jazem”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Diss’ ela: “– Já Deus nom queira | que [eu] em tal torto jaça,
e nom há no mundo salva | que eu sobr’ esto nom faça;
e sequer em um gram fogo | em meo daquela praça
me meterei, ca nom sõo | daquelas que est[o] fazem”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Diss: ele: “– Par Deus, no fogo | nom quero que vos que[i]medes,
mais em aquel altar santo | do Poi quero que juredes
46
687
48
que torto nom me fezestes, | e ar quero que saltedes
de cima daquela pena | com esses que juso jazem”.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Diss’ ela: “– De mui bom grado | farei o que me mandades,
em tal que maa sospeita | per rem de mi nom hajades”.
E pera o Poi se forom, | e de certo bem sabiades
que forom i grandes gent[e]s | come enas festas fazem.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, pois disserom a missa, | sobr’ o altar pôs as mãos,
jurando que nom lh’ errara | pela lee dos crischãos
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ãos]
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . jazem]
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Des que aquest’ houve dito, | log’ ante toda a gente
sobiu encima da pena, | correndo_esforçadamente,
e diss’ a mui grandes vozes: | “– Madre daquel que nom mente,
val-me, ca tu sempre vales | aos que torto nom fazem”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Pois sa razom acabada | houv’, em um brial bem feito
ficou, sem nulh’ outro pano, | e catou e viu o jeito
muit’ alt’ e muit’ espantoso; | mais pavor per nium preito
nom houve, com’ ham aquelas | que em culpa mortal jazem.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E leixou-se caer logo | sem niũa detença,
havendo_em Santa Maria, | que é verdade, creença,
que quis que as cousas duras | lhe fezessem reverença
em lhe seer saborosas | bem come as moles fazem.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Assi que nom foi ferida | nem em pee nem em mão
nem em nium outro nembro, | ant’ houv’ o corpo bem são;
e o logar, que esquivo | era, tornou-se-lhe chão,
pero o logar é duro | e muitas pedras i jazem.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
O marido, pois viu esto, | perdeu todos seus antolhos
e foi mui corrend’ ant’ ela | logo ficar os golhos
e disse-lh’: “– Ai santa dona”, | –muito chorando dos olhos–
“perdõa-me, ca perdõa | Deus aos que erro fazem”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
96
Ela perdõou-lhe logo, | e derom todos loores
aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores;
e tantoste o miragre | meterom ontr’ os maiores
miragres eno gram livro | em que outros muitos jazem.
98
Com’ há gram pesar a Virgem | dos que gram pecado fazem,
outrossi em salvar punha | os que em torto nom jazem.
94
R16
688
Cantigas de Santa Maria 342
«Com razom nas creaturas figura pode mostrar»
(E 342)
Como Santa Maria fez parecer a sa omage dontre ũas pedras mármores que asserravam em
Costantinopla.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Com razom nas creaturas | figura pode mostrar
Deus de si ou de sa madre, | pois El as quis fegurar.
Ca em fegurar as cousas | da fegura que hoj’ ham
nem doutras naturas muitas, | nom prendeu nem prend’ afám
Deus, nem sol filha cuidado | de as fegurar, ca tam
gram poder há no começo | bem come no acabar.
[Refrão = vv. 1-2]
E porende, se nas pedras | faz feguras parecer,
nom deve_aquesto nulh’ home | por maravilha ter,
nem outrossi enas ervas, | ca El[e] xas faz nacer
e dá-lhes muitas coores | por a nós bem semelhar.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Porend’ em Costantinopla | avo, com’ aprendi,
que Dom Manuel, o bõo | emperador, mandou i
fazer eigreja mui nobre; | e mármores, com’ oí,
mandou trager de mui longe | e per meo asserrar,
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
por fazer távoas grandes | pora põer enredor
do altar da Virgem santa, | madre de Nostro Senhor.
E, u serravam um deles, | virom dentro de coor
a sa omagem pintada, | bem qual xa quis Deus pintar,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
[t]endo seu filh’ em braço, | que dela carne filhou.
Poi-lo emperador esto | soube, logo cavalgou,
e, pois que viu a omagem, | tantoste a aorou
e fez-la põer na porta | per u haviam d’ entrar,
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
36
E ali sé hojedia, | em que ham gram devoçom
todos. E a Santa Virgem | fez esto por tal razom:
porque pode do culpado | omanhar-lh’ o coraçom
da sa graça, poi-la pedra | mui dura foi omanhar.
38
Com razom nas creaturas | figura pode mostrar
Deus de si ou de sa madre, | pois El as quis fegurar.
34
R6
* * *
689
Cantigas de Santa Maria 343
«A madre do que o demo fez no mudo que falasse»
(E 343)
Como Santa Maria de Rocamador guariu ũa manceba demoniada de demónio mudo e fez
que falasse.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A madre do que o demo | fez no mudo que falasse,
fezo a outro diabo | fazer como se calasse.
Ca diz eno evangeo | dum home que nom falava,
em que jazia o demo; | mais aquel Deus que sãava
toda-las enfermidades | e mortos ressucitava,
[a]tanto que o viu, logo | mandou-lhe que nom leixasse
[Refrão = vv. 1-2]
de falar e que dissesse | todo quanto que sabia.
E del aquesta vertude | houve pois Santa Maria,
que fezo um gram miragre | de que vos dizer querria
em tal que gente m’ oíss’ e | que me mui bem ascuitasse.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ond’ avo em Caorce | dũa molher que sa filha
houve mui grand’ e fremosa; | mais o diabo, que trilha
aos seus, filhou-a forte- | mente a gram maravilha,
e dizia toda cousa | a quem lha empreguntasse.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
A madre, com coita dela, | foi corrend’ aa eigreja,
e ao capelám disse: | “– Por Deus, mercee vos seja
que acorrades mià filha, | que co-no demo peleja,”
dizendo ca med’ havia | que no fogo a deitasse.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
El filhou água beita | e foi alá mui de grado;
e log’ o demo lhe disse: | “– Ai crérigo_escomu[n]gado,
e como sol falar ousas?; | ca agora tal pecado
feziste que gram dereito | faria quem te matasse;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e, demais, que trages água | beita e és maldito:
a per poucas nom m’ é hora | que os olhos nom te brito”.
Quando_o crérigo_oiu esto, | punhou de seer del quito,
ca mui gram pavor havia | que o chus nom dostasse.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Poi-lo capelám foi ido, | a todos quantos entravam
por veê-la, lhes dizia | aquelo em que pecavam,
ond’ haviam gram vergonha; | e porém se receavam
tanto dela que apas | achavam quem i entrasse.
40
42
690
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
A madre, pois viu aquesto, | com pesar e com vergonha
a Rocamador levou-a, | que é preto de Gasconha,
e diss’: “– Ai Santa Maria, | roga teu filho que ponha
conselh’ em esta mià filha | com’ o demo a leixasse;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca, sem que a tem coitada, | faz-lhe que diga nemiga
a todos, ond’ hei vergonha | tal que sol nom sei que diga;
mas tu que és verdadeira | madre de Deus e amiga,
mandasses-lhe que se fosse | dela e se desterrasse”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
A oraçom desta dona | log’ a Virgem houv’ oída,
e fezo calar o demo, | e foi a moça guarida.
E derom porém loores | aa senhor mui comprida,
a que quenquer as daria | que se migo co[n]selhasse.
62
A madre do que o demo | fez no mudo que falasse,
fezo a outro diabo | fazer como se calasse.
58
R10
* * *
691
Cantigas de Santa Maria 344
«Os que a Santa Maria sabem fazer reverença»
(E 344)
Como Santa Maria de [Tudia] fez a ũa cavalgada de crischãos e outra de mouros que maserom ũa noite cabo da sa eigreja e nom se virom, por nom haverem ontr’ eles desavença.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Os que a Santa Maria | sabem fazer reverença,
macar se nom amem eles, | ela met’ i avença.
Ca a que éste comprida | de bem e de santidade,
ama paz e avença | e amor e lealdade.
E dest’ um mui gram miragre | direi (e bem m’ ascuitade)
que ela fez em Tudia; | e meted’ i bem femença.
[Refrão = vv. 1-2]
No tempo quando de mouros | foi o reino de Sevilha,
em aquela sa eigreja | de T[u]dia maravilha
conteceu ũa vegada; | e mui gram sabor me filha
de dizer como foi esto, | por haverdes mais creença.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Gram cavalgada de mouros | saiu pera os crischãos
correr e fazer-lhes dano, | e passou serras e chãos,
e chegarom a Tudia, | todos sas lanças nas mãos,
e bem a par da eigreja | pousarom sem detença.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Assi foi que essa noite | muit’ em paz ali jouverom.
E, doutra parte, crischãos | sa cavalgada fezerom,
e cabo dessa eigreja | bes os outros maserom,
ca daquel logar partir-se | nom houverom atrevença.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E tam cerca essa noite | ũus doutros albergarom
que mais cerca nom podiam; | e na font’ abeverarom
seus cavalos a beverem, | e tanto nom braadarom
que s’ oíssem nem se vissem | nem soubessem conhocença.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Assi tod’ aquela gente | foi de sũu albergada
a derredor da eigreja, | que sol nom sentirom nada
ũus doutros, por vertude | da reinha corõada,
a que todos essa noite | fezerom obedeença.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Outro dia madurgada | todos dali se partirom;
e depois que cavalgarom | e sem sospeita se virom,
muito s’ ém maravilharom; | des i, tréguas se pedirom
40
692
42
por haverem deste feito, | como fora, conhocença.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Pois que a trégua houverom | e eles todos juntados
forom. e de com’ o feito | fora, forom acordados
em como fora miragre; | e partirom-se pagados,
e fo[ro]m-s’ ũus a Elvas, | os outros a Olivença.
50
Os que a Santa Maria | sabem fazer reverença,
macar se nom amem eles, | ela met’ i avença.
46
R8
* * *
693
Cantigas de Santa Maria 345
«Sempr’ a Virgem groriosa faz aos seus entender»
(E 345)
Como Santa Maria mostrou em visom a um rei e a ũa reinha como havia gram pesar porque
entrarom mouros a sa capela de Xerez.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Sempr’ a Virgem groriosa | faz aos seus entender
quando em algũa cousa | filha pesar ou prazer.
E desta gram maravilha | um chanto mui doorido
vos direi que end’ avo, | sol que me seja oído,
que conteceu em Sevilha | quando foi o apelido
dos mouros, como gãarom | Xerez com seu gram poder.
[Refrão = vv. 1-2]
Entom el-rei Dom Afonso, | filho del-rei Dom Fernando,
reinava, que da reinha | dos ceos tĩía bando
contra mouros e crischãos | maos, e, demais, trobando
andava dos seus miragres | grandes que sabe fazer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este dous anos havia, | ou bem três, que gaanhara
Xerez e que o castelo | de crischãos bem pobrara;
pero a vila dos mouros | como [x’] estava leixara,
e avo que por esto | a_houvera pois a perder.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca os mouros espreitarom | quando el-rei bem seguro
estava deles, e toste | forom fazer outro muro
ontr’ o castel’ e a vila, | muit’ ancho e fort’ e duro;
e dali os do castelo | filharom-s’ a combater
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
tam feramente em guisa | que um ricome honrado
muito, que dentro jazia | e Dom Nun’ era chamado,
com peça de cavaleiros, | foi de tal guisa coitado
que al-rei enviou logo | que o mandass’ acorrer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
El-rei, quand’ oiu aquesto, | fez logo toda sa hoste
mover, e ar mandou logo | sacar seu pendom mui toste
de Sevilha, e sa tenda | e cozinha e reposte,
querendo_ir aquela noite | a Guadeira mãer.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, el estand’ em aquesto, | ar vo-lh’ outro mandado
de Dom Nuno, que lhe disse | de com’ estava cercado
e que, per seu corpo, fosse | lh’ acorrer; se nom, pagado
per outr’ home nom seria. | E el-rei foi aprender
40
42
694
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
que esto que lh’ enviava | dizer que o ajudasse,
que por al no-no fazia | senom que, quando chegasse
el-rei a Xerez, que logo | o castelo lh’ entregasse,
que per dereit’ e per foro | nom devia a seer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Quand’ el-rei oiu aquesto, | conhoceu as maestrias
com que lh’ andava, | e logo filhou sas cavalerias,
que lh’ enviou em acorro, | e forom i em dous dias;
e tantoste que chegarom, | foi-os logo a veer.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E el disse-lhes que grande | prazer com eles havia,
mais que aquele castelo | per rem ter nom podia
e que per nulha maneira | em el morrer nom queria,
e a eles rogou muito | que o fossem receber.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Eles, quand’ oírom esto, | atal acordo tomarom:
que leixassem no castelo | poucos homes; e leixarom
maos e tam mal guisados | e assi o aguisarom
que ante de meio dia | s’ houv’ o castel’ a perder.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E prenderom quantos eram | em ele, sem demorança,
e britarom a capela | da que é noss’ amparança,
e filharom a omagem | feita a sa semelhança,
e forom po-la queimarem, | mais sol nunca pôd’ arder.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
Aa hora que aquesto | faziam, bem em Sevilha
jazia el-rei dormindo | na sesta, e maravilha
viu em sonhos: com’ aquela | que é de Deus madr’ e filha
oía ena capela | de Xerez vozes meter,
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e tragia em seus braços | um tam fremoso mininho
que mais seer nom podia, | pero era pequeninho;
e, correndo, aa porta | da capela mui festinho
vĩía com el fugindo, | ca via fog’ acender
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
dentro, e de grandes chamas | arder toda a capela.
E porend’ ela, changendo, | se chamava: “– Ai mesela!,
se perec’ este mininho, | que é cousa atám bela!:
querria eu mil vegadas | ante ca Ele morrer”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
E a el-rei semelhava | que lhe dizia: “– Uviade
e, por Deus, este mininho | que trag’ em braços filhade
que o nom queim’ este fogo, | e sequer a mi leixade,
ca, se Ele ficar vivo, | eu mal nom posso haver”.
94
96
695
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
El-rei, quand’ aquest’ oía, | foi logo filhar, correndo,
ao meninh’ e a madre | do fogo, que muit’ ardendo
estava a grandes chamas. | E el chorand’ e gemendo
despertou daqueste sonho; | e filhou-o a dizer
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
a sa molher a reinha, | que jazia eno leito
cabo del, e este sonho | lhe contava tod’ a eito.
E ela lhe respondia: | “– Bem de dereit’ em dereito
outro tal hei eu sonhado, | que vos quero retraer”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
[E] entom lhe contou todo | aquel sonho que sonhara,
e como a Santa Virgem | bem do fogo a chamara
que lhe tirass’ o mininho, | e que ela os tirara
ambos do fogo e ’m salvo | os fora entom põer.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
Logo_el-rei e a reinha | por aquesto entendudo
houverom que o alcáçar | de Xerez era perdudo,
e a omagem da Virgem | havia mal recebudo;
e porende se filharom | daquesto muit’ a doer.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Mas depois a poucos dias | quiso Deus que gaanhada
Xerez este rei houvesse | e de crischãos pobrada,
e a omagem da Virgem | ena capela tornada
com mui gram precissom fosse, | segum devia seer.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
132
E el-rei e a reinha e seus filhos, | que verom
i com eles, a Deus graças | porende mui grandes derom.
E quantos aqueste feito | oírom pois e souberom,
o nome da santa Virgem | filharom a beizer.
134
Sempr’ a Virgem groriosa | faz aos seus entender
quando em algũa cousa | filha pesar ou prazer.
130
R22
* * *
696
Cantigas de Santa Maria 346
«Com’ a grand’ enfermidade em sãar muito demora»
(E 346)
Como Santa Maria guariu ũa molher d’ Estremoz do braço e da garganta que lh’ inchara.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Com’ a grand’ enfermidade | em sãar muito demora,
assi quem guarec’ a Virgem | é guarid’ em pouca d’ hora.
Onde, desta razom, grande | miragre contar vos quero
que fezo Santa Maria, | a madre do gram Deus vero
que no dia do joízo | verrá mui brav’ e mui fero
e juigará o mundo | tod’ em mui pequena hora.
[Refrão = vv. 1-2]
Em Estremoz, ũa vila | de Portugal, foi aquisto:
que guariu ũa enferma | a madr’ onde Jesu-Cristo
naceu por salvar o mundo, | que foi conhoçud’ e visto,
ond’ o sol, quand’ el prês morte, | tornou mais negro ca mora.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquesta molher manceba | era e grand’ e fremosa,
mais ũa enfermidade | houve mui perigoosa;
ca o braço lh’ inchou tanto, | de que foi [mui] temerosa
de o perder, e o corpo. | Mais a inchaçom foi fora,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
e em mui pequeno tempo | foi o braço tam inchado
que mais seer nom podia, | e vermelh’ e ampolado
muit’ e de maa maneira; | e sol carne nem pescado
nom comia, nem al nada. | Mais aquela que sempr’ ora
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a Deus, s’ amercou dela; | ca, pois foi ena eigreja
sua, a que a levarom, | log’ a que beita seja
a guariu [mui] bem daquela | enfermidade sobeja
por mostrar a sa vertude, | que [atan]toste lavora.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Quand’ esto virom as gentes, | derom loores grãadas
aa Virgem groriosa, | a que sempre sejam dadas,
que as portas do inferno | tem por noss’ amor sarradas
e o dem’ avezimao | eno avisso ancora.
38
Com’ a grand’ enfermidade | em sãar muito demora,
assi quem guarec’ a Virgem | é guarid’ em pouca d’ hora.
34
R6
* * *
697
Cantigas de Santa Maria 347
«A madre de Jesu-Cristo, o verdadeiro Messias»
(E 347)
Esta é como Santa Maria de Tudia resorgiu um meninho que era morto de quatro dias.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A madre de Jesu-Cristo, | o verdadeiro Messias,
pode resorgir o morto | de mui mais ca quatro dias.
Desto direi um miragre | que em Tudia avo,
e porrei-o co-nos outros, | ond’ um gram livro é cho,
de que fiz cantiga nova | com som meu, ca nom alho,
que fez a que nos amostra | por ir a Deus muitas vias.
[Refrão = vv. 1-2]
Eno reino de Sevilha | ũa molher bõa era:
em riba d’ Aguadiana | morava; mais, pois houvera
marido, del neum filho | haver per rem nom podera,
per física que provasse | nem per outras maestrias.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E com gram coita d’ havê-lo, | foi fazer sa romaria
aa eigreja da Virgem | santa que é em Tudia;
e, des que foi i chegada, | teve mui bem sa vigia
i com mui grand’ homildade | e nom mostrand’ ufanias.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, os golhos ficados | ant’ o altar, e chorando,
estev’ ant’ a Virgem santa | e muito lhe demandando
que filh’ ou filha lhe désse; | e prometeu-lhe que, quando
o houvesse, lho levasse | e tevess’ i sas vegias.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Santa Maria seu rogo | oiu daquela coitada.
E logo com seu marido | albergou, e foi prenhada
e houve del ũu filho, | com que foi mui conortada;
pero nom quis a Tudia | com el fazer romarias.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Assi, a Santa Maria | fez aquela molher torto,
que pesou a Jesu-Cristo; | porend’ o mininho morto
foi depois bem a três anos. | Mais tal foi o desconorto
que sandia foi sa madre | por el, com’ outras sandias.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Pois que viu seu filho morto, | log’ entonce na carreira
se meteu pera Tudia, | dizend’: “– Eu fui mentireira
contra ti, madre de Cristo; | mas tu, que és verdadeira,
se tu queres, dá-mi_o vivo, | ca fazer o poderias”.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
698
VIII
46
48
Quando chegou a Tudia | e o meninho poserom
ant’ o altar, log’ a madre | e seus parentes fezerom
gram doo por el sobejo; | e, pois a missa disserom,
rezarom sobr’ ele salmos | muitos e pois ledãias.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Eles aquesto fazendo, | tantoste, se Deus m’ ajude,
houve piadade deles | a reinha de vertude,
e fez viver o meninho | e chorar do ataúde,
assi que os que choravam | fezerom pois alegrias.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E o ataúd’ abrirom | e sacarom o mininho,
de quatro dias já morto, | são e tam fremosinho;
e pediu-lhes que comesse, | e derom-lhe pam e vinho;
ca os seus miragres dela | nom som feitos d’ arlotias.
62
A madre de Jesu-Cristo, | o verdadeiro Messias,
pode resorgir o morto | de mui mais ca quatro dias.
58
R10
* * *
699
Cantigas de Santa Maria 348
«Bem parte Santa Maria sas graças e seus tesouros»
(E 348)
Como Santa Maria demostrou a ũu rei que trobava por ela gram tesouro d’ ouro e de prata.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Bem parte Santa Maria | sas graças e seus tesouros
aos que servem seu filho | bem e ela contra mouros.
Desto direi um miragre | que avo em Espanha,
que mostrou Santa Maria, | a piadosa sem sanha,
contra um rei que de gente | levava mui gram companha
por honrar a fé de Cristo | e destroir a dos mouros.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquel rei tesouros grandes | despendera, que havia,
pera conquerer a terra | que chamam Andaluzia;
mais atám muito fiava | na Virgem Santa Maria
que nunca jamais cuidava | haver míngua de tesouros.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Onde foi ũa vegada | que sacara mui grand’ hoste,
e os que o seu guardavam | nom lh’ acorrerom tantoste,
nem er achava dinheiros | muitos ena sa reposte
per que manter podesse | muito a guerra dos mouros.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El em aquesto cuidando, | ũa noite em dormindo
viu a Virgem groriosa | e foi contra ela indo,
chorando muito dos olhos | e mercee lhe pedindo
que se del amerceasse, | per que houvesse tesouros.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ela lhe disse: “– Teu rogo | de meu filh’ é já cabudo;
onde por míngua que hajas | nom dés rem, mais atrevudo
sei bem, ca mui gram tesouro | te darei que ascondudo
jaz so terra, que meterom | i mui peiores ca mouros”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Quando lh’ aquest’ houve dito, | foi-se. E el-rei pagado
ficou muito daquel sonho, | e chamou um seu privado
e disse-lh’ o que sonhara; | e, pois lho houve contado,
foi ali u el cuidava | achar aqueles tesouros
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e já ante lhe disserom | que aquel haver, sem falha,
jazia homees certos; | nom achou i nemigalha;
e disso com mui gram coita: | “– Santa Maria me valha,
porque a minguar nom haja | de fazer gram mal a mouros”.
40
42
700
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Assi quis Deus que daquela | vez nom achass’ el-rei nada.
Mais depois bem a um ano | fez hoste sobre Grãada,
e, indo pera a hoste, | fez per ali sa passada;
e mostrou-lhe doutra parte | a Virgem grandes tesouros
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
de prata, d’ our’ e de pedras | mui ricas e mui preçadas,
e panos muitos de seda | e citaras bem lavradas
e outras dõas mui nobres | de prata, todas douradas,
dos judeus, seus emigos, | a que quer peor ca mouros.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quand’ el-rei achou tod’ esto, | foi mui led’ a maravilha
e bezeu muit’ a Virgem, | que é de Deus madr’ e filha;
e tantost’ est’ haver dado | enviou pera Sevilha
pera servir Deus e ela | dest’ e dos outros tesouros.
62
Bem parte Santa Maria | sas graças e seus tesouros
aos que servem seu filho | bem e ela contra mouros.
58
R10
* * *
701
Cantigas de Santa Maria 349
«Muito praz à Virgem santa, que Deus filhou por parenta»
(E 349, E 387)
Como Santa Maria mostrou muitos miragres por ũa sa omagem mui fremosa que tragia um
rei em sa capela.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito praz à Virgem santa, | que Deus filhou por parenta,
de quem lh’ as saudações | de Dom Gabriel ementa.
Ca, pero é mais que santa, | sempre lhe crec’ a vertude
quando oe que lh’ ementam | do ángeo a saúde;
e, de quequer que lhe roguem, | entom com seu bem recude,
porque do Santi ’Spirito | log’ outra vez s’ escaenta.
[Refrão = vv. 1-2]
Onde daquest’ um miragre | vos direi, se mi_ascuitardes,
mui fremos’ a maravilha; | e, se i mentes parardes,
sa mercee haveredes | dela, e, se a guardardes,
do inferno seeredes | quitos e de sa tormenta.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Um rei consigo tragia | ũa omagem fremosa
daquesta Virgem beita, | madre de Deus groriosa,
que a quanto-la viíam | era atám graciosa
que achar nom poderiam | tal ontre mil e setenta.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Aquesta fazia muitos | miragres e maravilhas,
sãand’ homes e molheres, | e seus filhos e sas filhas.
E os que aquest’ oíam | de mais longe ca cem milhas
vĩinham por seer sãos | por esta, que acrecenta
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
nosso bem per sa vertude, | que ela grande mostrava
em sãar enfermidades; | e esta se lhe dobrava
quand’ o avangeo santo | dizia como falava
o anjo de Deus com ela, | u ela disse: “– Sergenta
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
sõo do Senhor que dizes, | e estou aparelhada
de receber a sa graça”. | E por aquesto dobrada
houv’ a omagem vertude | quando lh’ era ementada
esta saúde tam nobre; | e porém bem quaraenta
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
sãou d’ homes e molheres | enfermos e mal coitados
em prazo de poucos dias. | E loores porém dados
forom aa Virgem santa, | porque sempr’ aos culpados,
macar é mui justiceira, | com piadad’ escarmenta.
40
42
R7
44
Muito praz à Virgem santa, | que Deus filhou por parenta,
de quem lh’ as saudações | de Dom Gabriel ementa.
* * *
702
Cantigas de Santa Maria 350
«Santa Maria, senhor»
(E 350)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
12
E val-nos, Santa Maria,
ca mester é que nos valhas,
ca tu por nós noit’ e dia
co-no diabo baralhas,
e ar punhas todavia
por encobrir nossas falhas,
e por nos dar alegria
com Deus sempre te trabalhas,
ca tu és razõador
a El polo pecador.
14
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
4
6
8
10
R1
II
24
Val-nos, Virgem groriosa,
co-na ta mui gram vertude,
pois ta carne preciosa
prês Deus por nossa saúde;
e porend’, ai piadosa,
ta mercee nos escude
contra a companh’ astrosa
do demo, e nos ajude;
ca tu na coita maior
vales ao pecador.
26
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
16
18
20
22
R2
III
36
E val-nos, nobre reinha,
com tas grandes piadades,
e sei nossa meezinha
nas grandes enfermidades,
e nossa carne mesquinha
guarda de fazer maldades;
ca tu nos podes aginha
acorrer com tas bondades,
e por ti Nostro Senhor
perdõa o pecador.
38
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
28
30
32
34
R3
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
IV
40
42
Val-nos, senhor de mesura,
ca por nós no mundo nada
fuste, e o da altura
Deus filhou em ti pousada
e fez de ti, Virgem pura,
703
44
48
madre e nossa_avogada,
por nos meter na folgura
u te fez El corõada,
e [te] fez dos santos fror
e guarda do pecador.
50
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
46
R4
V
60
E val-nos por ta bondade
tam grande, que sempr’ houviste,
por que a gram deidade
de Deus em ti enchoíste;
e mantém-nos com verdade,
que tu sempre manteviste,
e de mui gram falsidade
nos guarda, que mal quisiste
e queres, e hás sabor
de valer o pecador.
62
Santa Maria, senhor,
val-nos u nos mester for.
52
54
56
58
R5
* * *
704
Cantigas de Santa Maria 351
«A que Deus avondou tanto que quiso dela nacer»
(E 351, F [57])
Esta é como Santa Maria acrecentou o vinho na cuba em A[r]conada, ũa aldea que é preto
de Palença.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que Deus avondou tanto | que quiso dela nacer,
bem pod’ avondar as outras | cousas e fazer crecer.
E desta razom miragre | mui fremoso vos direi,
que mostrou Santa Maria, | com’ eu em verdad’ achei,
na eigreja d’ A[r]conada, | ũ’ aldea que eu sei
que é preto de Palença; | e oíde-m’ a lezer.
[Refrão = vv. 1-2]
Ena sa festa d’ agosto | mui gram gente vem ali
por oir toda-las horas, | e é costumad’ assi:
que tragem i pam e vinho | em carretas, e bem i
o dam por seu amor dela | a que-no quer receber.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ond’ avo, nom há muito | tempo, que s’ i ajuntou
gram gent’ a aquela festa, | e cada ũu punhou
em fazer grand’ alegria: | quem soube luitar, luitou,
e quem soube chacotares | bõos, i os foi dizer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Outros ar corriam vacas, | que faziam pois matar,
que coziam em caldeiras | grandes e ia-nas dar
a pobres que as comessem. | Em tod’ est’, a lazerar
houve per força o vinho, | ca del foi grand’ o bever.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pero que bem comiam, | nom tinham que era rem
se daquele bõo vinho | nom bevessem a seu sém;
e porende foi minguando, | ca aquesto sempr’ avém:
que, du colhem e nom põem, | que há sempr’ a falecer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ond’ ũa gram cuba cha | de vinho pararom tal
que, se nom foi a madeira, | em ela nom ficou al.
Entonce disserom todos: | “– Se nos a Virgem nom val,
com coita deste bom vinho | nos poderemos perder”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E porend’ aquela gente | se quisera ir entom;
mas chegou um home bõo, | que lhes diss’ esta razom:
“– Vaamos catar a cuba | e tiremo-lh’ o tapom
40
705
42
mais de fond’, e per ventura | pod’ i algum pouc’ haver.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Entom log’ aquela gente | aa cuba se chegou,
e o que lhes diss’ aquesto | bem per cima a catou,
e achou-a toda cha | e a todo-la mostrou;
e porend’ a Virgem santa | filharom-s’ a beizer.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
E os que ante choravam | começarom a riir,
e beverom daquel vinho, | e jurarom, sem mentir,
que nunca atal beveram; | e os enfermos guarir
forom, quantos del beverom, | e pois mui sãos seer.
56
A que Deus avondou tanto | que quiso dela nacer,
bem pod’ avondar as outras | cousas e fazer crecer.
52
R9
* * *
706
Cantigas de Santa Maria 352
«Fremosos miragres mostra a madre da fremosura»
(E 352)
Esta é como Santa Maria d[o] Viso guariu um açor dum cavaleiro.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Fremosos miragres mostra | a madre da fremosura
e grandes, ca há vertude | do mui gram Deus sem mesura.
Dest’ um fremoso miragre | vos direi, se m’ ascuitardes,
que fezo Santa Maria; | e, se i mentes parardes,
por mui grande o terredes | quant’ em ele mais cuidardes,
e veredes com’ a Virgem | há poder sobre natura.
[Refrão = vv. 1-2]
Aquest’ a um cavaleiro | conteceu que vassal’ era
dum fi de rei, e por ele | fazia jostiça fera,
e que um açor mui bõo | ũa vegada lhe dera,
que fora dum cavaleiro | natural d’ Estremadura.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Est’ açor filhava garças | e ãades e betouros
e outras prijões muitas; | e nem crischãos nem mouros
atal açor nom haviam, | e davam de seus tesouros
muito por el, que lho désse. | Mas nom havia ém cura
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
o cavaleiro, de dar-lho, | nem sol, por haver, vendê-lo;
mais havia voontade | d’ ante seu senhor tragê-lo,
porque mui mais doutra cousa | lhe prazeria d’ havê-lo,
ante que o haver outre | ou perdê-lo per ventura.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E el com el cada dia | muit’ a sa caça andava,
e, quantas aves podia | filhar com ele, filhava;
pero forom bem dous anos | que o açor nom mudava,
e o cavaleiro_havia | desto pesar e tristura.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E meteu muitos dinheiros | em lhe fazer meezinhas
que nulha rem nom valverom. | Pois, no tempo quand’ as vinhas
vendímiam, foi-se com ele | aa senhor das reinhas,
a sa eigreja do Viso, | que jaz em ũa altura.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E quando chegou a Touro, | houv’ outro gram descono[r]to
do açor: que nom queria | comer, e tal come morto
era, e o bic’ inchado | muito e o colo torto,
dizendo todos: “– Mort’ éste | se lhe dous dias atura”.
40
42
707
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
O cavaleiro, de cera | fez log’ ũa semelhança
do açor, e foi com ela, | havendo grand’ esperança
ena Virgem groriosa | e creendo sem dultança
que seu açor lhe daria | viv’ e são sem laidura.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E foi-se logo com ela, | quanto pôd’, aa eigreja
da Virgem Santa Maria, | que é beita e seja,
que lh’ amostrou essa noite | mui gram mercee sobeja,
ca tornou o açor são | e a el tolheu loucura.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, demais, fez-lh’ outra cousa: | que as penas que mudadas
ante haver nom podera, | houve-as logo deitadas,
e meteu outras tam bõas | e atám bem cooradas
que per rem nom poderiam | taes pintar de pintura.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Esto fez Santa Maria, | madre do que formou suso
os ceos maravilhosos | e ar pôs a terra juso,
que miragres mui fremosos | fez sempr’, e há-o por uso,
por nos fazer bem creentes | e guardar-nos de loucura.
68
Fremosos miragres mostra | a madre da fremosura
e grandes, ca há vertude | do mui gram Deus sem mesura.
64
R11
* * *
708
Cantigas de Santa Maria 353
«Quem a omagem da Virgem e de seu filho honrar»
(E 353)
Como um meninho que criava um abade em sa c[l]a[u]stra tragia de comer ao meninho que
tiinha a omagem enos seus braços, e disso-lh’ a omagem que comeria com ele mui cedo, e o abade.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem a omagem da Virgem | e de seu filho honrar,
deles será muit’ honrado | no seu bem, que nom há par.
E de tal razom com’ esta | vos direi, se vos prouguer,
miragre que fez a Virgem, | que sempre nosso bem quer,
per que hajamos o reino | de seu filh’, ond’ a molher
primeira nos deitou fora, | que foi malament’ errar
[Refrão = vv. 1-2]
em comer ũa maçãa, | que ante lhe defendeu
Deus que per rem nom comesse; | e, porque dela comeu
e fez comer seu marido | Adám, logo lhes tolheu
o reino do paraíso | e foi-os end’ eixerdar.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mas depois Santa Maria, | em que há bondad’ e sém,
buscou e busca carreiras | com’ hajamos aquel bem
de Deus, seu Padr’ e seu filho, | que El pera os seus tem,
em que vivam com El sempre | sem coita e sem pesar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Este miragre mui grande | foi, segundo que oí
dizer a homees bõos, | que o contarom a mi,
dum ricome que morava | em terra de Venexi,
a que morriam os filhos, | que nom podiam durar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E com mui gram pesar desto, | um deles, que lhe ficou,
a um abade mui santo | dum mõesteir’ enviou,
o deu-lho, que lho criasse, | e tam muito o rogou,
que o filhou, por seu rogo, | e feze-o bem criar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
consigo no mõesteiro. | E, per com’ aprendi eu,
cada que o faagava | chamava-lhe filho meu,
e dizia-lh’ ameúde: | “– Quant’ aqui há, tod’ é teu”.
E mandava-lhe que fosse | pela claustra trebelhar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Andand’ assi trebelhando, | na eigreja ’ntrou, e viu
omagem da Virgem santa | com seu filho, e cousiu
com’ era mui fremosinho, | e cato’-o e riiu,
40
709
42
e log’ em sa voontade | o filhou muit’ a amar.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E tam gram bem lhe queria | que ameúde veer
o ia muitas vegadas, | ca em al neum prazer
tam grande nom recebia. | Pero, porque de comer
nom viía que lhe davam, | filhou-s’ a maravilhar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E log’ em aquela hora | pôs eno seu coraçom
que, daquelo que lhe davam, | que lhe déss’ ém seu quinhom.
E, des i, foi comer logo, | e apartou da raçom
sua a maior partida, | e foi-lha logo guardar.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, pois comeu, trebelhando | começou-se logo d’ ir
aa eigreja correndo, | e eno altar sobir
foi de pees, e, daquelo | que lhe davam, a servir
se filhou ant’ o meninho, | e começou-lh’ a rogar
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
que comesse, e dizendo: | “– Cada dia t’ adurei
desta raçom que me derem | e tigo a partirei;
e porém te rog’, amigo, | que cômias, ca mui bem sei
que, se desto nom comeres, | outro nom cho verrá dar”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Depois bem a quinze dias | o meninho esto fez
cada dia. Mais o filho | da Virgem de mui bom prez
lhe diss’ um dia: “– Contigo | nom comerei outra vez,
se crás mig’ e com meu Padre | nom quiseres ir jantar”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
O abad’ ao meninho | viu-lhe cambiar a faz
e ar enmagrecer muito, | e disso com’ em solaz
ao meninho: “– Meu filho, | se tu nom comes assaz,
eu te darei bem que cômias, | ca te vejo magr’ andar”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Entom respôs o meninho: | “– Carne e vinho e pam
vossos homees, ai padre, | me dam bem e sem afám;
mas eu ao bom meninho, | daquelo que mi_a mim dam,
dou end’ a maior partida, | e vou-lho sempre levar”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Quand’ est’ oiu o abade, | disse-lh’: “– Ai filh’ e senhor,
e qual é aquel meninho | a que fazes ess’ amor?”
Diss’ el: “– O filho da dona | que sé no altar maior,
a que nom dam rem que cômia, | e vejo-o lazerar”.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Entom lhe diss’ o abade, | a que chamavam Fiiz:
“– Meu filho, o que lhe levas, | come-o?, ou que che diz?”
94
710
96
Diss’ el: “– Come cada dia; | mas des que lh’ aquesto fiz,
nunca m’ ante falou nada, | mais foi-m’ hoje convidar
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
que com El e com seu Padre | eu fosse a jantar crás”.
Entom lhe diss’ o abade: | “– Pois que tu est’ oíd’ hás,
e creo certãamente | que com eles jantarás,
rogo-t’ eu que vaa tigo | comer de tam bom manjar”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
Entom se foi o abade | e chamou os monges seus,
e disse-lhes: “– Ai amigos, | crás m’ irei eu [ém], par Deus,
esto sei certãamente; | e porend’ a Dom Mateus,
vosso monge, por abade | escolhed’ em meu logar”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E contou-lhes em qual guisa | esto sabia e qual
razom ém com seu criado | houvera; e diss’: “– Atal
galardom aos que ama | a senhor esperital
dá, com seu filho beito, | a que-na bem sab’ amar”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
Aquela noite passada, | outro dia ant’ a luz
o abad’ e o meninho | enfermarom, com’ aduz
o feito deste miragre; | e a sesta, quand’ em cruz
morreu por nós Jesu-Cristo, | morrerom eles a par.
122
Quem a omagem da Virgem | e de seu filho honrar,
deles será muit’ honrado | no seu bem, que nom há par.
118
R20
* * *
711
Cantigas de Santa Maria 354
«E no pouco e no muito, em todo lhes faz mercee»
(E 354)
Como Santa Maria guardou de morte ũa bestiola que chamam «donezinha».
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
E no pouco e no muito, | em todo lhes faz mercee
aos seus servos a Virgem, | madre do que todo vee.
Desto direi um miragre | grande que fez a reinha,
madre de Deus Jesu-Cristo, | a um rei que muito tinha
em ela sa asperança, | ca lhe fez veer aginha
pesar e prazer mui grande | dũa rem por sa mercee.
[Refrão = vv. 1-2]
Este pesar foi por ũa | bestiola que muit’ amava
el-rei, que sigo tragia | e a que mui bem criava,
a que chamam «donezinha» | os galegos, e tirava
com ela aves das covas, | e de taes home vee.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Pero esta outras cousas | muitas e bõas fazia
trebelhando e saltando, | onde gram prazer havia
aquel rei; e por aquesto | atám gram bem lhe queria
que tiínha que fezera | Deus, em dar-lha, gram mercee.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E por esto lhe fezera | de fust’, em que a guardava,
ũa arca mui bem feita, | e dentro a enserrava
porque mal nom recebesse, | ca muito se receava
do gato, que ena noite | melhor ca no dia vee.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Onde lh’ avo um dia, | indo per ũa carreira,
que a quis tirar da arca; | e, com’ ela é ligeira,
caeu ontr’ os pés das bestas, | e foi em atal maneira
que el-rei com coita disse: “– Santa Maria, mercee!:
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
guarda-me mià donezinha, | que a nom perça per morte”.
E quantos ali estavam | houverom gram desconorte;
ca lhe pose o cavalo | del-rei o pé atám forte
sobr’ ela; e el-rei disse: | “– Ai varões, que-na vee?;
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
dade-mi_a qualquer que seja, | sequer viva, sequer morta,
e conortar-m’-ei com ela | come quem se mal conorta”.
Entom fez Santa Maria, | a que é dos ceos porta,
que de so o pé saísse | viva pola sa mercee.
40
42
712
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Entom quantos ali eram | e virom tal maravilha
que fezo a groriosa, | que é de Deus madr’ e filha,
em fazer que o cavalo, | que com seu pé tam mal trilha,
no-na matasse. E esto | fez aquel que todo vee,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
per prazer da groriosa, | sa madr’, a que comendada
a houv’ el-rei, u do pee | do cavalo foi trilhada.
Porém seja El beito, | e ela seja loada,
e sempr’ ambos de nós hajam | piedade e mercee.
56
E no pouco e no muito, | em todo lhes faz mercee
aos seus servos a Virgem, | madre do que todo vee.
52
R9
* * *
713
Cantigas de Santa Maria 355
«O que a Santa Maria serviço fezer de grado»
(E 355)
Esta é como Santa Maria de Vila-Sirga livrou um home da forca, que nom morreu, por um
canto que dera a sa eigreja.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
O que a Santa Maria | serviço fezer de grado,
na mui gram coita que haja | seer-lh’-á galardõado.
Ca o que lhe faz serviço | mui de grado, ou dá dõa
em algũa sa eigreja, | mui bem lho per-galardõa;
ca lhe dá, por ũu, cento, | como senhor nobr’ e bõa,
e nas coitas deste mundo | pom-lhe conselho guisado.
[Refrão = vv. 1-2]
E porend’ um seu miragre | vos direi de bõa mente
que fez esta Virgem, madre | de Deus, ante muita gente
em um home de Mansela, | mancebo barva pungente;
o miragr’ é mui fremoso | e bõo e muit’ honrado.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este manceb’ em Mansela, | com’ eu aprendi, morava,
e ũa moça da vila | feramente o amava;
el nom queria seu preito | nem por ela nom catava,
porque cuidava que fosse | com outra melhor casado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
O mancebo prometera | por ir [ém] em romaria
a Vila-Sirg’; e guisou-se, | e foi-[se] logo sa via;
mais soube-o a manceba, | e depos el se saía
por comprir sa voontade | e o meter em pecado.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
El catou, e a manceba | viu [i] vĩir, e pesou-lhe,
e esteve_e atendeu-a. | E, pois chegou, preguntou-lhe
e disse-lh’ a que viinha; | e ela entom rogou-lhe
que por Deus no[m] lhe pesasse | d’ ir dela acompanhado.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E diss’ el: “– E nom iredes | comigo, se Deus me valha,
ca nom querria com vossos | parentes haver baralha;
demais, vou em romaria, | e nom querria em falha
seer do que prometudo | hei, mui gram temp’ há passado”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Nunca tanto dizer pôde | que s’ ela tornar quisesse,
per rogos nem per maças | nem per rem que lhe dissesse.
O mancebo foi mui triste | [e] nom soube que fezesse,
40
714
42
pero foi já sa carreira | com ela muit’ anojado.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Eles indo per caminho | ambos per ũa montanha,
rogou-lh’ ela que quisesse | seu amor e sa companha.
El foi mui maravilhado | e disse-lh’ em mui gram sanha:
“– Ante vós fôssedes morta | nem eu nunca fosse nado
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca eu tal erro fezesse | escontra a groriosa,
indo pera a sa casa: | nom te tes por astrosa
de tal cousa demandares?” | Ela foi ém vergonhosa,
e atá em Vila-Sirga | nom lho ar houv’ enmentado.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Quando forom na igreja | da madr’ e Virgem honrada,
mandou fazer o mancebo | candeas logo d’ entrada,
e dormiu [i] na igreja, | e aa nossa_avogada
pediu mercee_e ajuda | que lh’ houvesse perdõado.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E comprou em outro dia | por seus dinheiros um canto
de pedra pera a obra | de Vila-Sirga, e, quanto
s’ atreveu, fez sa oferta | e sas orações ant’ o
altar de Santa Maria; | e, pois que houve jantado,
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
tornou-se pera sa terra. | E indo pela carreira,
a manceba que vos dixe | disse-lhe desta maneira:
“Porque nom casades migo?” | Diss’ el: “– Já vos eu pr[i]meiramente dixe mià fazenda | e vos dei todo recado:
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
ca, se mi_a Virgem Maria | guardar, que é meu espelho,
nunca me casarei v[o]sco, | nom vo-lo digo_em trebelho,
mais digo-vos gram verdade; | e porend’ outro conselho
havede, pois vos daquesto | meu coraçom hei mostrado”.
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
Ela houve gram despeito | del por esto que dissera,
porende lhe buscou morte, | poi-lhe tal resposta dera;
e a entrante da vila | ond’ ele natural era,
meteu mui fort’ apelido | e houve_o rostro rascado,
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
e meteu mui grandes vozes, | e disse que a forçara
o mancebo na carreira | e ferir’ e desonrara
e a força per cabelos | do caminho a sacara,
que rem valer no-lhe pôde, | pero houve braadado.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Os parentes da manceba | aas justiças fezerom
queixume; e eles logo | aquel mancebo preserom
94
715
96
e, sem saber a verdade, | aa forca com el derom.
E el, pois viu que seria | de tod’ em tod’ enforcado,
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
fezo sa oraçom logo | muit’ e dos olhos chorando,
e diss’: “– Ai Santa Maria | de Vila-Sirga, e quando
eu fui ena ta igreja, | por meus dinheiros, estando,
comprei pera a ta obra | um bom canto, hei-cho dado;
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
porém, Virgem groriosa, | madre de gram piedade,
nom cates a meus pecados, | mais, senhor, por ta bondade
vei como moir’ a gram torto, | ca tu sabes a verdade
deste feito que mi_apõem; | se eu nom sõo culpado,
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
mostr[a] aqui teu miragre, | ai Virgem santa comprida,
vogada dos pecadores, | de todo-los santos vida;
se tu, senhor poderosa, | em algum tempo servida
de mi algum pouco fuste, | fais esto que ch’ hei rogado”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
Pois que a oraçom feita | houve, tantoste lh’ atarom
as mãos atrás e logo | aginha o enforcarom;
e seus parentes por ele | mui feramente chorarom;
e assi sev’ aquel dia | o mancebo pendorado.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Mais a Virgem gloriosa, | que chamam os pecadores
e que ela mui de grado | acorr’ aas sas doores,
log’ a santa verdadeira | madr’ e senhor das senhores
troux’ aquel canto meesmo | que el houvera comprado
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
quando foi em Vila-Sirga, | assi como já contamos,
e pose-lho a seus pees, | como por verdad’ achamos;
e teve-o viv’ e são | esta senhor que chamamos
aquel dia e a noite, | e de todo mal guardado.
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
Em outro dia verom | aa forca seus parentes
po-lo dece[n]derem dela, | e da vila outras gentes,
e virom so el o canto; | des i, estando presentes,
oírom como falava | e dizia: “– Deus loado
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
seja, ca eu estou vivo, | ca ’ssi quis a Virgem Santa
Maria de Vila-Sirga; | ca sa mercee é tanta
que todo o mund’ avonda | e nosso bem sempre_avanta,
e per ela hei eu vida, | pero que estou colgado”.
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
XXV
Quando o todos oírom | falar atám estrevudo,
716
148
150
talharom-lhe log’ a soga; | e, pois que foi decendudo,
preguntarom como fora, | e el houve retraúdo
daqueste feito_a verdade, | que nom houv’ ém rem negado.
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XXVI
154
156
Quand’ a verdade souberom | de tod’, assi com’ oístes,
forom ém maravilhados | que nunca tam muit[o] vistes;
e derom todos loores | aa que nos faz, de tristes,
seer ledos e pagados, | ca est’ há ela usado.
158
O que a Santa Maria | serviço fezer de grado,
na mui gram coita que haja | seer-lh’-á galardõado.
R26
* * *
717
Cantigas de Santa Maria 356
«Nom é mui gram maravilha se sabe fazer lavor»
(E 356)
Como Santa Maria do Porto fez vĩir ũa ponte de madeira pelo rio de Guadalete pera a obra
da sa igreja que faziam, ca nom haviam i madeira com que lavrassem.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nom é mui gram maravilha | se sabe fazer lavor
a madre do que o mundo | fezo e é del senhor.
Desto direi um miragre | que no Port’ aconteceu,
que fezo Santa Maria, | madre daquel que prendeu
paixom e ena cruz morte | por nós, e que nos tolheu
das mãos do emigo, | o diab’ enganador.
[Refrão = vv. 1-2]
Esto foi quando lavravam | a igreja, com’ oí,
daquel logar; e haviam | avondo, com’ aprendi,
de cal, de pedra, d’ ara | e d' água [ar] outrossi;
mais madeira lhes falia, | de que estavam peor
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
ca doutra cousa neũa | que i houvesse mester,
ca de tod’ avond’ haviam; | e porend’ a com[o]quer
punhavam de a haverem. | Mais esta santa molher
os tirou daquel enxeco, | ca de tod’ é sabedor.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, por fazer que a obra | s’ acabasse bem, sem al,
fez vĩir ũa gram cha | d’ água, que pelo Portal
passou, e troux’ ũa ponte | de madeira, toda tal
enteira como x’ estava: | nunca home viu melhor.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E per Guadalet’, o rio, | a fez logo, sem mentir,
chegar assi com’ estava | e bes ali vĩir
u faziam a igreja, | por a obra nom falir
de s’ acabar ao tempo | que o maestre maior
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
outorgara d’ acabá-la, | per como eu apres’ hei,
a um tempo sinaado | que posera [com] el-rei;
mais fazer no-no podera, | como por verdad’ achei,
se a Virgem desta guisa | nom lhe foss’ ajudador.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, quando virom a ponte | vĩir a aquel logar
pera fazer-lhes ajuda, | forom-na logo filhar;
e, pois, a Santa Maria | ar forom loores dar
dizendo: “– B[]eita sejas, | santa do[s] santos maior”.
40
42
R7
44
Nom é mui gram maravilha | se sabe fazer lavor
a madre do que o mundo | fezo e é del senhor.
* * *
718
Cantigas de Santa Maria 357
«Como torc’ o dem’ os nembros do home per seus pecados»
(E 357)
Como Santa Maria do Porto guareceu ũa molher que vera a sa casa em romaria e havia a
boca torta e os nembros.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Como torc’ o dem’ os nembros | do home per seus pecados,
assi os correg’ a Virgem | poi-los há mãefestados.
E desto fez um miragre | a que é chamada «horto
dos viços do paraíso», | na sa igreja do Porto,
em ũa molher coitada | que o rostro todo torto
muit’ havia e a boca, | e os olhos mal torvados.
[Refrão = vv. 1-2]
Dona Sancha nom’ havia | esta molher, e vera
ali por cobrar saúde, | e que mui gram coita fera
daquela door sofria, | que des longo temp’ houvera,
que comer já nom podia | nem sol trocir três bocados.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mais pois entrou na igreja
chorando muit’ e dizendo:
ca em tal coita com’ esta |
se nom, conta que agora |
16
18
| daquesta santa reinha,
| “– Senhor, acorre-m’ aginha,
tu soa és meezinha;
meus dias som acabados”.
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E quand’ aquest’ houve dito, | pôs ant’ o altar candeas
e teve i nove dias. | E, pois compriu sas noveas,
solto’-a a Virgem santa, | como soltam de cadeas
os reis aos seus presos | que nom sejam justiçados,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
30
assi que o rostro todo | e a boca com’ ant’ era
lhe tornou fremos’ e são | como nunca mais houvera.
E entom aquela gente | toda que ali vera,
os seus miragres teverom | por dos outros ma[i]s preçados.
32
Como torc’ o dem’ os nembros | do home per seus pecados,
assi os correg’ a Virgem | poi-los há mãefestados.
28
R5
* * *
719
Cantigas de Santa Maria 358
«A que as cousas coitadas d’ ajudar muit’ é teúda»
(E 358)
Como Santa Maria do Porto mostrou per sa vertude um logar u jaziam muitos cantos lavrados, que meterom ena sa igreja.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que às cousas coitadas | d’ ajudar muit’ é túda,
nom vos é gram maravilha | se x’ ela a si ajuda.
Desto fezo eno Porto | que de seu nom’ é chamado
gram miragr’ a groriosa, | que será per mim contado,
no lavor da sa igreja. | que faziam per mandado
de Dom Afonso (que éste | seu rei, cousa é sabuda).
[Refrão = vv. 1-2]
Ali homes lavravam | cada dia bem quinhentos
e tragiam muitas pedras | pera fazer fundamentos;
mas o mar foi mui torvado | um tempo per grandes ventos,
que a mor pedra delas | nom podia ser movuda
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
per barcas nem per engenhos, | nem per arte nem per manha.
Entom diss’ a maestr’ Ali | um home de sa companha:
“– Eu vos mostrarei um canto | dũa medida tamanha
que, se muitos end’ houverdes, | a lavor será creçuda
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
mui tost’”. E log’ amostrou-lho, | e sacaro-no de fondo
de terra; e, pois lo virom | quadrado, ca nom redondo,
cavarom, e doutros taes | acharom tam grand’ avondo
per que a lavor mui toste | foi mui de longe veúda.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Pois maestr’ Ali viu esto, | empero que x’ era mouro,
entendeu que bem guardadas | tevera com’ em tesouro
a Virgem aquelas pedras | que tam preçadas com’ ouro
foram pera lavrar toste | e mais ca pedra múda.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Entom, quando todos virom | que assi foram achados
aqueles cantos so terra, | grandes e mui bem quadrados
(por que a lavor foi feita | tost’ e os muros iguados
e as torres acabadas, | est’ é cousa conhoçuda),
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
derom porende loores | aa Virgem gloriosa,
que quis pera si igreja | fazer nobr’ e mui fremosa
e fort’, em que s’ acolhesse | a gente, que pavorosa
era porque nom havia | ant’ u fosse defenduda.
40
42
R7
44
A que as cousas coitadas | d’ ajudar muit’ é túda,
nom vos é gram maravilha | se x’ ela a si ajuda.
* * *
720
Cantigas de Santa Maria 359
«As mãos da Santa Virgem, que tangerom acarom»
(E 359)
Como Santa Maria do Porto se doeu dũa molher que vo aa sa igreja em romaria, a que cativaram um seu filho; e saco’-o de cativo de terra de mouros e poso-lho em salvo.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
As mãos da Santa Virgem, | que tangerom acarom
Jesu-Cristo, mui bem podem | sacar presos de prijom.
E daquest’ um gram miragre | avo em um logar
que é chamado o Porto | da Virgem que nom há par,
a um home que vera | a Xerez, e i morar
fora com molher e filhos, | que el mui de coraçom
[Refrão = vv. 1-2]
amava mais doutra cousa. | E, des que chegou ali,
fazia mui bõa vida, | segundo quant’ aprendi,
e era mui bom vizinho | a quantos moravam i
a Sam Salvador, ond’ era | chamada a colaçom.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este dous filhos havia, | e Domingo o maior
chamavam, e ao outro | Pedro, que era mor.
Estes ambos o serviam | muito, [de] que gram sabor
havia o home bõo | (e fazia gram razom).
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde lh’ avo um dia | que ao maior mandou
que foss’ a ũa sa vinha | veer, que ele chantou;
e, o moç’ alá estando, | avo que cativou,
e levara-no a Ronda | por haver del remissom.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E logo na almoeda | o meterom essa vez;
des i, compro’-o um mouro | que deu por ele seu prez
de por quanto lho venderom, | e ma[n]tenent’ al nom fez
e enviou-o na récua | a Aljazira entom.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E alá u [o] levavam, | a Virgem que nos mantém
o foi filhar pela mão | e disse: “– Nom temas rem,
ca eu te porrei em salvo | (e esto verás tu bem)
mui cedo em cas teu padre, | e sem mal e sem lijom”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Mais o padre e a madre | cuidarom morrer, sem al,
com coita daquele filho; | e fezerom estadal
e forom log’ ao Porto | da senhor espirital
40
721
42
e pedirom-lh’ aquel filho, | chorando com devoçom.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
[E] eles, assi estando, | virom seu filho vĩir
Pedro, o mor; e logo | lhes foi contar, sem mentir,
que Domingo_era vĩúdo | a sa casa, e, se ir
quisessem i, o veriam. | E eles de gram random
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
forom logo, sem tardança, | e acharom com mui gram
par de ferros a seu filho; | e tornarom manamám
com el a Santa Maria | e derom loores tam
grandes que de mui de longe | foi end’ oído o som.
56
As mãos da Santa Virgem, | que tangerom acarom
Jesu-Cristo, mui bem podem | sacar presos de prijom.
52
R9
* * *
722
Cantigas de Santa Maria 360
«Loar devemos a Virgem porque nos sempre gaanha»
(E 360, F [91])
Esta e de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Ca, em quant’ é de Deus filha | e criada e amiga,
em rogar-lhe que nos ame, | sol nom há Deus que lhe diga,
e em quant’ El é seu filho, | pero o mundo juíga,
de nos perdõar por ela | nom é cousa muit’ estranha.
8
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
4
R1
II
12
E, pois Deus quis seer home | filhando a carne dela,
dali nos fez seus parentes | pora amar-nos por ela;
e per esta razom m[e]sma | dev’ El a perder querela
de nós, e guardar do demo, | que nos engana per manha.
14
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
10
R2
III
18
Demais, que dirá Deus Padre | a seu Filh’ o dia forte
do juízo, quando lh’ Ele | mostrar a cruz u prês morte
e as chagas eno corpo, | que prês pera dar conorte
a nós? Nunca piedade | foi nem será já tamanha.
20
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
16
R3
IV
24
E, demais, como Deus pode | seer contra nós irado
quando lhe sa madr’ as tetas | mostrar com que foi criado
e disser: “– Filho, por estas | te rogo que perdõado
este meu póboo seja | e contig’ em ta companha”.
26
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
22
R4
V
30
E por aquesto te rogo, | Virgem santa corõada,
pois que tu és de Deus filha | e madr’ e noss’ avogada,
que esta mercee haja | por ti de Deus acabada:
que de Mafomet’ a seita | possa eu deitar d’ Espanha.
32
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
28
R5
Loar devemos a Virgem | porque nos sempre gaanha
amor de Deus e que punha | de nos guardar de sa sanha.
* * *
723
Cantigas de Santa Maria 361
«Nulh’ home, per rem, nom deve a dultar nem a ter»
(E 361, F [83])
Como Santa Maria fez nas Olgas de Burgos a ũa sa omagem que se volveu na cama u a deitarom.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Nulh’ home, per rem, nom deve | a dultar nem a ter
que nom pode na omagem | da Virgem vertud’ haver.
E dest’ um mui gram miragre, | meus amigos, vos direi
que avo na cidade | de Burgos (e mui bem sei
que foi e é gram verdade, | ca por assi o achei
provad’; e porende quero | del um bom cantar fazer
[Refrão = vv. 1-2]
a loor da Virgem santa, | a senhor de mui gram prez),
que fezo no mõesteiro | das Olgas, que el-rei fez
Dom Afonso de Castela, | aquel que primeira vez
venceu o senhor dos mouros | po-la fé de Deus creer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Em aquele mõesteiro, | segundo aprendi eu,
Dom Afonso, seu bisneto, | ũa omagem i deu
da Virgem Santa Maria, | ca aquel rei todo seu
era dela, e porende | a mandou ali põer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Em esta, tam gram vertude | meteu Deus, com’ aprendi,
que as monjas que moravam | em aquel logar, assi
tiinham por gram dereito | de pedir-lhe que log’ i
lhes comprisse sas demandas, | e nom lhe davam lezer
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
de pedir-lhas; e tantoste | a reinha_espirital
fazia por sa omagem | come se fosse carnal,
ca lhes dava seu conorte | e guardava-as de mal
e fazia-lhes saúdes | de sas doores haver.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Demais, era tam bem feita | e de tam homil faiçom
que quenquer que a viía, | em ela gram devoçom
havia. Porend’ as monjas | todas mui de coraçom
a honravam e serviam | a todo o seu poder.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ond’ avo ena noite | de Navidad’ (em que faz
Santa Igreja gram festa) | que as monjas, por solaz,
fezerom mui rico leito, | e, come molher que jaz,
40
724
42
deitarom i a omagem | e fezerom-na jazer
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
come molher que parira. | E as monjas arredor
do leito pousarom todas; | e seend’ a gram sabor
catand’ aquela omagem, | virom-lhe mudar coor
na face e dũu lado | ao outro revolver.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Entom todo o convento | se filhou muit’ a chorar,
porque tam gram maravilha | lhes quisera Deus mostrar
pola sa beita madre, | em que El quis encarnar
e em tal noite com’ esta | por nós sem door nacer.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
E entom toda-las monjas | s’ ergerom cantando bem:
“– Santa Virgem sem mazela, | que per bondad’ e per sém
feziste que Deus o Padre, | que o mundo em si tem
e em que os ceos cabem, | que podess’ em ti caber”.
62
Nulh’ home, per rem, nom deve | a dultar nem a ter
que nom pode na omagem | da Virgem vertud’ haver.
58
R10
* * *
725
Cantigas de Santa Maria 362
«Bem pode Santa Maria seu lum’ ao cego dar»
(E 362, F [42], U 95)
Esta é como Santa Maria fez cobrar o lume a um ourívez que era cego, em Chartes.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Bem pode Santa Maria | seu lum’ ao cego dar,
pois que dos pecados pode | as almas alumar.
E de tal razom com’ esta
um miragre mui fremoso
a Virgem Santa Maria, |
bem ena vila de Chartes,
| vos quer’ eu ora dizer
| que foi em França fazer
que fez um cego veer
| como vos quero contar.
[Refrão = vv. 1-2]
Este ceg’ ourívez fora, | que nom houvera melhor
em tod’ o reino de França | ne-nas terras arredor,
e em servir sempr’ a Virgem | havia mui gram sabor;
e porend’ ũ’ arca d’ ouro | fora mui rica lavrar
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
pora trager as relíquias | sempre ena precissom.
E porém vendê-la fora | ena see de Leom,
e dera dela por algo | e dela dera em dom,
pois que soube que haviam | as relíquias i andar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Esta foi aquela arca | de que vos eu já falei
que tragiam pelo mundo | por gãar, segund’ achei
escrito, porque s’ a vila | queimara (como contei
outrossi) e a igreja | toda senom o altar
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
u estas relíquias eram. | E tantoste manamám
as filhou logo correndo | um que era i daiám,
e levou-as pelas terras | e sofreu mui grand’ afám
por gãar com elas algo | com que podessem cobrar
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
a igreja que perderam. | E grandes miragres fez
por elas Santa Maria, | como vos dix outra vez;
ca eram i sas relíquias | desta senhor de gram prez,
e queria Deus por elas | grandes miragres mostrar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Andand’ assi pelas terras, | a Chartes houverom d’ ir,
u aquel ourívez era | cego; e, pois foi oir
da arca com’ era feita, | disso logo, sem falir:
“– Par Deus, eu fiz aquel’ arca | ante que fosse cegar”.
40
42
726
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E mandou-se levar logo | alá a homees seus,
dizendo: “– Se alá chego, | bem hei fiúza em Deus
e na sa madre beita | que veerei destes meus
olhos, que por meus pecados | muit’ há se forom serrar”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, pois que foi ant’ a arca, | se deitou e lhe pediu
mercee muito chorando; | e da água que saiu,
com que a arca lavaram, | pelos olhos troux’, e viu
mui melhor que ante vira. | E filhou-s’ a braadar,
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
chamando “– Santa Maria, | madre do bom rei Jesu,
porque vejo dos meus olhos, | mui beita sejas tu;
e, pois m’ este bem feziste, | quando me for mester, u
teu filho sever julgando, | queiras por mi razõar”.
62
Bem pode Santa Maria | seu lum’ ao cego dar,
pois que dos pecados pode | as almas alumar.
58
R10
* * *
727
Cantigas de Santa Maria 363
«Em bom ponto vimos esta senhor que loamos»
(E 363, F [59])
Como Santa Maria livrou de prijom um cavaleiro por ũa cantiga que lhe fez, que tiinha preso el-com Simom.
R0
2
I
6
Um trobador em Gasconha | era, e trobava
al-com Simom e a muitos, | ’si que se queixava
a gente del, ca diziam | que os dostava;
mas quantos somos no mundo, | enquanto vivamos,
7
8
em bom ponto vimos esta | senhor que loamos,
que nos tam cedo acorre | quando a chamamos.
4
R1
Em bom ponto vimos esta | senhor que loamos,
que nos tam cedo acorre | quando a chamamos.
II
10
12
El-com Simom era conde | rico_e poderoso
e disse_a um seu home, que | nom foi preguiçoso:
“– Vai-me logo prender aquel | trobador astroso,
e busca fortes prijões | em que o metamos”.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El indo per um caminho | mui dessegurado,
chegou aquel mandadeir’ e | filhou-o privado
e adusse-o al-cond’; e | foi logo deitado
em prijões (u jouvessem | quantos desamamos!).
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El-com Simom muitas vezes | jurado havia
que o trobador matasse | log’ em outro dia;
mais a nossa avogada, | reinha Maria,
a vegadas nos estorva | do mal que pensamos.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
[U] el se viu nas prijões, | cuidou que morresse,
e chamou Santa Maria | que lhe socorresse,
e jurou-lh’, ali jazendo, | que, mentre vivesse,
polo seu amor trobasse, | de que nós trobamos.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
Pois que o trobador houv’ a | oraçom comprida,
achou-s’ encima dum monte, | cabo dũa ’rmida
da Virgem Santa Maria, | que lhe dera vida
e o guardou de tal morte | que todos dultamos.
38
Em bom ponto vimos esta | senhor que loamos,
que nos tam cedo acorre | quando a chamamos.
34
R6
* * *
728
Cantigas de Santa Maria 364
«Quem por serviço da Virgem mete seu corp’ em ventura»
(E 364)
Como Santa Maria do Porto guardou [trinta] homes que cavavam terra pera sa igreja, e
caeu ũa torre sobr’ eles e nom lhes empeeceu.
R0
2
I
4
6
Quem por serviço da Virgem | mete seu corp’ em ventura,
de tod’ ocajom o guarda, | ca é senhor de mesura.
Desto direi um miragre | que eno gram Port’ avo
que chamam «da Groriosa», | que cabo do Mar Terro
éste e cabo do Grande | (que tem a terra no so
e cerca todo o mundo, | segum diz a Escritura).
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Ali faziam eigreja, | em que lavrava gram gente,
pera esta senhor santa, | todos de mui bõa mente;
e faziam fondamentos | fondos, per que mais tente
foss’ a obra, e mais firme, | todo de pedra mui dura.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E havia-na tam fonda | feita que que-na bem visse
cuidaria que nulh’ home, | per rem, dela nom saísse
se dentr’ em ela caesse, | mais que tantoste fĩísse,
ca o logar era fondo | muit’, e a cova escura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ali jaziam cavando | um dia trinta obreiros
s[o] esquina dũa torre, | por gaanhar seus dinheiros;
e a torre, que estava | posta sobre terronteiros,
leixou-se caer sobr’ eles. | Mais nom houverom ém cura;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ca a Virgem gloriosa, | em cujo serviço_estavam
lavrando na sa igreja, | em que de grado lavravam,
guardo’-os entom de guisa | que nium mal nom filhavam
em nium nembro do corpo | nem sol ena conjuntura.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Ante, ficarom tam sãos | bem como quand’ i entraram
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]aram
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]aram
[. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .]ura.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E, se ante bem lavravam, | mui melhor depois lavrarom,
assi que em pouco tempo | a egreja acabarom
mui fremosa e mui forte, | tal que quanto-la catarom
disserom que nom havia | tal em tod’ Estremadura.
40
42
R7
44
Quem por serviço da Virgem | mete seu corp’ em ventura,
de tod’ ocajom o guarda, | ca é senhor de mesura.
* * *
729
Cantigas de Santa Maria 365
«Bem tira Santa Maria, pela sa gram piedade»
(E 365)
Esta CCC e LXV é como Santa Maria tirou de dulta um frade noviço que dizia que a alma
nom era nada, no mõeste[i]ro de Fontefria, em Narbona.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Bem tira Santa Maria, | pela sa gram piedade,
ao pecador de dulta | e de maa torpidade.
E sobr’ aquest’ um miragre | ora contar-vos querria
que por um monge noviço | mostrou a Virgem Maria,
que era dum mõesteiro | que chamam de Fontefria,
que [é] no arçobispado | de Narbona, a cidade.
[Refrão = vv. 1-2]
Este monge, com loucura | grande que lh’ o demo dava,
sempre, a noit’ e o dia, | em seu coraçom dultava
que a ’lma nada nom era | senom vento que passava
tost’ e que se desfazia | come fum’; e em verdade
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
tiinha de tod’ em todo | aquesto que assi era.
Assi andava perdudo | per sém que lh’ o demo dera,
que o metia em dulta, | e cuidava i mui fera-ment[e] a noit’ e o dia | por sua gram ne[i]cidade.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E est’ andava cuidando | tanto que disse, sem falha,
que na órdim nom querria | viver: “– Ca, si Deus me valha,”
–diss’ el– “pois que ést’ a alma | atal como nemigalha,
quer’ hoimais andar viçoso | e comprir mià voontade”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
ũa noit’ assi jazendo, | cuido[u] como se saísse
do mõesteir’ e da órdim | que o nengũu nom visse;
vistiu-se log’ e calçou-se, | ca, atá que nom comprisse
seu cuido, nom folgaria. | E, por fazer tal maldade,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
pareceu-lh’ a Gloriosa | com d’ ángeos gram companha,
que levavam ũa alma | dum pobre, mans’ e sem sanha,
a ceos, com claridade | e alegria tamanha
que contar nom saberia. | E diss’ ela_: “– Estade,_estade,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e verá aqueste monge | que anda em gram loucura
em cuidar que nom é nada | a alma, ca da altura
deceu meu filh’ e prês morte | por ela fort’ e mui dura;
e quem nom cree aquesto, | ment’ e faz gram falsidade”.
40
42
730
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Quand’ aquesto viu o monge, | teve-se por mui culpado
e tornou-s’ ao dormidoiro | e foi mui led’ aficado
daquela visom que vira | e de [sa] dulta tirado,
e viveu sempr’ em sa ordem | com bem e com homildade.
50
Bem tira Santa Maria | pela sa gram piedade
ao pecador de dulta | e de maa torpidade.
46
R8
* * *
731
Cantigas de Santa Maria 366
«A que em nossos cantares nós chamamos “Fror das frores”»
(E 366)
Esta CCC e LXVI é como Santa Maria do Porto fez cobrar a Dom Manuel um açor que perdera.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que em nossos cantares | nós chamamos «Fror das frores»,
maravilhoso miragre | fez por ũus caçadores.
E de tal razom com’ esta | ũa maravilha fera
avo já em Sevilha | eno tempo que i era
el-rei, e que de Grãada | de fazer guerra vera
aos mouros dessa terra, | que i eram moradores,
[Refrão = vv. 1-2]
e outros muitos genetes | que d’ África i passaram;
ca todos filharom dano | dele, qual nunca filharam,
em pães, hortas e vinhas | e em quanto lhes acharam.
E, pois aquesto foi feito, | el-rei com seus lidadores,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
quand’ este feito fezerom, | tornarom pera Sevilha.
E el-rei mui mal doente | foi i, a gram maravilha,
mais guariu pela mercee | da que é madr[e] e filha
de Deus, que o guarecera | já doutras grandes doores.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
[E], enquant’ el guarecia, | Dom Manuel, seu irmão,
vo i, e foi enfermo; | e, pois guariu e foi são,
filhou-se com seus falcões, | que mudara no verão,
a caçar, que é dos viços | do mundo um dos maiores.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, ind’ a aquela caça, | levou poucos cavaleiros,
mais levou outra gram gente | de mui bõos falcõeiros
que levavam seus falcões | de garça, e ar grueiros;
mais, ante que se tornasse, | perdeu ũu dos melhores,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
que se foi da outra parte | d’ Aguadalquivir voando,
de guisa que foi perdudo. | E andaro-no buscando
bem preto de três domaas, | e sempre apregoando,
cuidando que o achara | algum desses lavradores
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
que os acham a vegadas | e os tem ascondudos
e os vam vender a furto | por nom serem conhoçudos.
Porém mandou o infante | que fossem apercebudos
40
732
42
seus falcõeiros, e logo | filhou dos mais sabedores
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
e foi com eles a caça | ao Chão de Tablada,
em dereito da aldea | que Coira éste chamada;
e virom da outra parte, | no Exarafe, coitada
ũa ave que tragia | um falcom dos montadores
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
por filhá-la. E tantoste | aquel falcom conhocerom
que era o que perderam, | e em el mentes meterom,
e o falcom e a ave | virom como se mergerom
e forom caer em terra. | Mais os que conhocedores
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
eram de conhocer aves, | que doral era bem virom.
E Dom Manuel e todos | logo mercee pidirom
a[a] Virgem do gram Porto, | de que falar muit’ oírom,
que, se lhes o falcom désse, | que de cera com loores
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
um falcom lhe dessem feito, | que mui de grado fariam,
e que ena sa igreja | ant’ o seu altar porriam;
e, pois esto_houverom dito, | chamarom quanto podiam
o falcom que lhes vesse. | Mais, macar braadadores
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
eram muito em chamá-lo, | nem per siso nem per arte
sol vĩir nom lhes queria; | ca falcom, tra u se farte
da caça que há filhada, | com medo que o enarte
o que o trage_em tolher-lha, | punha d’ haver seus sabores
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
em comer quanto mais pode. | Mais Dom Manuel, com manha
d’ aquele falcom havê-lo, | apartou-se da companha
e chamou-o mui de rígio; | e maravilha estranha
foi, ca log’ a ele vo | em um campo_u aradores
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
84
com seus bois ali aravam. | O falcom passou aginha
de Guadalquivir o rio | com seu doral que tiinha
e pôs-lo ant’ o infante, | que loou muit’ a reinha
dos ceos, Santa Maria, | que é senhor das senhores.
86
A que em nossos cantares | nós chamamos «Fror das frores»,
maravilhoso miragre | fez por ũus caçadores.
82
R14
* * *
733
Cantigas de Santa Maria 367
«Grandes miragres faz Santa Maria»
(E 367)
[C]omo Santa Maria do Porto guareceu a rei Dom Afonso dũa grand’ enfermedade de que
lhe inchavam as pernas tam muito que lhe nom podiam caber enas calças.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Grandes miragres faz Santa Maria
e fremosos a quem s’ em ela fia.
Ca em aquele que s’ a ela chama
e a serv’ e a loa e a ama,
macar jaça em leito ou em cama
com gram door, sãa-o todavia.
[Refrão = vv. 1-2]
Dest’ um miragre quero que sabiades
que fez mui grande na que esperades
todos mercee e u a achades
em todo tempo, de noit’ e de dia.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
Aquest’ avo al-rei de Castela
e de Santiago de Compostela
quand’ ia veer a igreja bela
que el fezera na Andaluzia,
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
que em mui pouco tempo acabada
foi a honra da Virgem corõada,
e de torres e de muro cercada,
segund’ aquel logar mester havia.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Aquel rei fora enferm’ em Sevilha
de grand’ enfermidade_a maravilha,
de que guariu por aquela que trilha
mui mal o demo cho de perfia.
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
E, pois [guariu] desta enfermidade,
el-rei houv’ entom mui gram voontade
d’ ir a logar u tam gram santidade
há com’ ali; e el em romaria
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
foi alá logo per mar e per terra.
E, macar lh’ o tempo fez mui gram guerra,
guio’-o bem aquela que nom erra
734
42
R7 43-44
VIII
46
48
a que-na serve bem sem oufania.
[Refrão = vv. 1-2]
E, ind’ el-rei per mar, tanto lh’ incharom
as pernas ambas e se lhe pararom
assi vermelhas que todos cuidarom
que daquel mal mui tarde sãaria.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
Ca já de tal guisa inchad’ haviam
que enas hosas caber nom podiam;
demais, os coiros delas se fendiam
e água amarela ém saía.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
58
60
Mais el-rei, que toda sa esperança
havia ena Virgem, sem dultança,
nom quis por esto fazer demorança,
mais foi-s’ ao Porto quant’ ir podia.
R10 61-62 [Refrão = vv. 1-2]
XI
64
66
E chegou vernes aa sa igreja
daquesta Virgem que beita seja,
e com esta_enfermidade sobeja
foi ant’ o seu altar ter vegia.
R11 67-68 [Refrão = vv. 1-2]
XII
70
72
E, quando os madudinhos começarom
os seus clérigos, que os bem cantarom,
log’ amba-las pernas lhe desincharom
e guareceu daquela maloutia.
R12 73-74 [Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
E el-rei log’ e toda sa companha,
que virom a maravilha tamanha,
loarom muit[o] a que nos gaanha
de Deus saúd’ e nos dá alegria.
80
Grandes miragres faz Santa Maria
e fremosos a quem s’ em ela fia.
76
R13
* * *
735
Cantigas de Santa Maria 368
«Como nos dá carreiras a Virgem, que façamos»
(E 368)
[C]omo Santa Maria do Porto guariu ũa molher dũa coobra que tragia eno ventre, e havia
bem três anos.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Como nos dá carreiras | a Virgem, que façamos
bem, outrossi nos mostra | como mal nom hajamos.
De tal razom com’ esta | um miragre mui grande
direi, que fez a Virgem | (a que queira que ande
eu ena sa companha | e ao demo mande
que no inferno more, | u nunca o vejamos).
[Refrão = vv. 1-2]
ũa molher morava | cabo Santa Maria
de Córdova, a grande, | e o seu nom’ havia;
e dentro no seu corpo | cuidava e creía
que tragia coobra, | donde nos espantamos.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E com aquesta coita | bem per Estremadura
passou e a Castela | foi; e tal aventura
lh’ avo: que em sonhos | lhe disserom: “– Loucura
fazes porque a Silos | nom vás, u nós moramos,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que fomos end’ abade; | e dar-t’-emos conselho
per que bem guarir possas, | ca nom é por trebelho
esto que te dizemos; | que a que é espelho
de nós todo-los santos | e por senhor catamos,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
guiará ta fazenda, | per que sejas guarida”.
E ela foi-s’ a Silos; | e, pois que fez sa ida,
ar disserom-lh’ em sonhos: | “– Ainda tu comprida
nom hás ta romaria, | per como nós cuidamos;
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
mais, se tu perder queres | doores e pesares,
vai-t’ a Santa Maria | que jaz ontre do[u]s mares,
que chamam o Gram Porto; | e, pois que i chegares,
log’ haverás conselho: | desto nom dovidamos”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
A molher outro dia | meteu-se na carreira;
e, quando foi no Porto | da senhor verdadeira,
tevo i sa vigia, | e, jazendo senlheira
40
736
42
dormindo, viu em sonhos | quem lhe disse: “– Vaamos
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
a Cáliz atantoste | que for a madurgada,
aa see que éste | de Santa Cruz chamada
(em que meu filho posto | foi, ond’ eu fui prenhada),
e haverás saúde, | ca nós por ti rogamos”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Ela fez outro dia | bem como lhe mandarom,
e log’ em ũa barca | entrou, e pois entrarom
no mar ela e outros; | e, pois Cáliz catarom
e virom a igreja, | disserom: “– Deus loamos
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e a Virgem, sa madre, | a que nom há parelha”.
Entom abriu a boca | a molher, e vermelha
deitou ũa coobra | per ela, a semelha
dũa anguia grossa; | de certo o creamos.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Quantos aquesto virom | forom maravilhados,
e a Deus e sa madre | forom loores dados;
e, pois forom de Cáliz | ao Porto tornados,
loarom muit’ a Virgem, | cujo bem asperamos.
68
Como nos dá carreiras | a Virgem, que façamos
bem, outrossi nos mostra | como mal nom hajamos.
64
R11
* * *
737
Cantigas de Santa Maria 369
«Como Jesu-Cristo fezo a Sam Pedro que pescasse»
(E 369)
Como Santa Maria guardou ũa bõa molher de Santarém de mal dum alcaide malfeitor, que
a quisera meter em pérdeda de quant’ havia por ũa sortelha que lhe deitara em penhor.
R0
2
4
I
des,
Como Jesu-Cristo fezo | a Sam Pedro que pescasse
um pe[i]xe_em que achou ouro | que por si e el peitasse,
outrossi fez que sa madre | per tal maneira livrasse
a ũa molher mesquinha, | e de gram coit’ a tirasse.
E de tal razom com’esta | vos direi um gram miragre, | sol que me bem ascoite-
6
que fezo Santa Maria, | porque mui mais doutra cousa | sempr’ em ela confie-
des;
8
ca nunca o atal fezo | que s’ ém mui bem nom achasse
e que lho a Santa Virgem | pois bem nom gualardõasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R1 9-12
II
14
16
Em Santarém contiu esto | a ũa molher tendeira, | que sa cevada vendia,
e dizia ameúde: | “– Aquel é de mal guardado | que guarda Santa Maria”.
E colhera-o por uso | em quequer que razõasse
e em toda merchandia | que vendess’ e que comprasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R2 17-20
III
22
24
Um alcaid’ era na vila, | de mal talám e sanhudo, | soberv’ e cobiiçoso,
que per el nium dereito | nunca bem era juigado; | demais, era orgulhoso
e cobiiçava muito | por achar em que travasse
a quenquer, ou pobr’ ou rico, | per que algo del levasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R3 25-28
IV
30
Ond’ avo que um dia | seus homees do alcaide, | estand’ ant’ el, razõavam
daquela molher, dizendo | que a tiinha[m] por louca, | e muit’ ende pos-
façavam.
32
Diss’ o alcaide: “– Quem lh’ ora | fezesse per que errasse
e que daquela paravla | por mentiral ém ficasse!;
[Refrão = vv. 1-4]
R4 33-36
V
38
40
mais hei agora osmado | ũa cousa per que logo | em est’ erro a metades:
filhad’ esta mià sortelha: | e dade-lha por cevada, | que me log’ aqui tragades”.
E enviou dous, dizendo | a cada um que punhasse
em lhe furtar a sortelha, | per que pois se lh[e] achasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R5 41-44
VI
46
48
E eles assi fezerom; | ca forom ali correndo | e comprarom-lh’ a cevada
e ar derom-lh’ a sortelha, | que em penhos a tevesse | atá que fosse pagada.
Mais nom quiso ũu deles | que o anel lhe durasse,
ante buscou soteleza | per que lho logo furtasse:
738
[Refrão = vv. 1-4]
R6 49-52
VII
54
56
ca enquanto ũu deles | recebia a cevada | que lh’ a bõa molher dava,
o outro de sobr’ um leito, | u posera a sortelha, | atantoste lha furtava.
E tornarom-s’ a seu dono | dizendo que s’ alegrasse,
e a sortelha lhe derom, | mais que os nom mesturasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R7 57-60
VIII
62
64
Outro dia o alcaide | mandou aos dous ma[n]cebos | que enviara primeiros,
que fossem logo correndo | a aquela molher bõa | e lhe dessem seus dinheiros,
que logo a sa sortelha | mantenente lhe tornasse,
e, se nom, que, quant’ havia | a molher, que lho filhasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R8 65-68
IX
te
Eles forom muit’ aginha | e pagarom seus dinheiros | bem e mui compridamen70
72
a aquela molher bõa, | e pedirom-lh’ a sortelha (d’ ouro fim, | ca nom d’ arente,
ond’ a pedra foi vermelha, | que [quen]quer que a catasse,
por rubi, sem nulha dulta, | cuido que [a] juigasse).
[Refrão = vv. 1-4]
R9 73-76
X
78
80
A dona, quand’ oiu esto, | foi por filhar a sortelha | dali onde a posera,
mas nom achou nemigalha, | pero a andou buscando; | e foi em gram coita fera,
e rogou a um daqueles | que o alcaide rogasse
que se sofresse um pouco | até em que [a] achasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R10 81-84
XI
86
O alcaide, mui sanhudo, | disse que o nom faria, | mais que lhe déss’ a sortelha,
de que o vinc’ era d’ ouro, | mui bem feit[o] e fremoso, | e a pedr’ era
vermelha;
88
[Refrão = vv. 1-4]
R11 89-92
XII
A molher, quando viu esto, | com mui gram coita chorando diss’: “– Ai Virgem gloriosa,
94
96
R12 97-10
XIII
R13 105-8
XIV
R14 113-6
XV
e, se lh[a] logo nom désse, | que quant’ havia lh’ entrasse,
até em que a valia | da sortelha lhe dobrasse.
aquel é de mal guardado, | mià senhor, a quem tu guardas; e porend’, ai piadosa,
nom quisesses, senhor bõa, | que a tal coita chegasse
que, com pobreza mui grande, | pelas portas mendigasse”.
[Refrão = vv. 1-4]
[E], ela dizend’ aquesto, | o alcaide mui sobêrvio | cavalgou em seu cavalo
102 e deceu-se pera Tejo, | por dar-lhe_a bever no rio | e o topete lavá-lo;
e, lavando-o de rejo, | quis Deus que lh’ escorregasse
104
aquel seu anel do dedo | e ena água voasse.
[Refrão = vv. 1-4]
O alcaide, pois viu esto, | tornou-se trist’ e coitado | pera sa casa aginha;
110 des i, todo seu despeito | daquel anel que perdera | tornou sobre-la mesquinha,
e mandou a um seu home | que tam muito a coitasse
112
atá que, de quant’ havia, | de todo a derrancasse.
[Refrão = vv. 1-4]
A bõa molher coitada | foi tanto daqueste feito | que sol nom soube conselho
739
118 de si nem ar que fezesse; | e diss’: “– Ai Santa Maria, | tu que és lum’ [e] espelho
120
[Refrão = vv. 1-4]
R15 121-4
XVI
u se catam os coitados, | ca nom foi quem se catasse
em ti, co-na mui gram coita, | que se bem no[m] conortasse”.
Ela havendo gram coita | e fazendo mui gram doo, | vo a ela sa filha
126 dizendo: “– Madre, comede | e havede_algum conorto; | ca seria maravilha,
se com tal coita morrerdes, | que voss[a] alma entrasse
128
em paraíso, ca nunca | i entrou quem se matasse”.
[Refrão = vv. 1-4]
R16 129-3
XVII
Des que lh’ aquest’ houve dito, | foi-se corrend[o] a Tejo, | u o pescado vendiam,
134 e preguntou os dos barcos | que lhe dissessem verdade | se algum pe[i]xe tragiam.
Diss’ um deles: “– Eu o trago, | que com mià molher casse,
136
mais pero vender-mi_o-ia | a quem mi_o mui bem comprasse”.
[Refrão = vv. 1-4]
R17 137-1
XVIII
Disse-lh’ ela: “–E som muitos?” | Respôs el: “–Par Deus de ceo, | nom é mais dũ[u] senlheiro,
142 que filhei ora no rio, | u andávamos pescando | eu e um meu companheiro”.
Rogou-lh’ ela entom muito | que, por Deus, que lho mostrasse
144
e que, quanto x’ el quisesse, | dinheiros por el filhasse.
[Refrão = vv. 1-4]
R18 145-8
XIX
Des que lh’ houv’ assi comprado | aquele pe[i]xe,_a meninha | foi-s’ a sa madre correndo,
150 e disse-lh’: “– Ai madre bõa, | mais val de car daqueste | ca jazer assi gemendo”.
152
R19
153-156
XX
[Refrão = vv. 1-4]
Entom filho’ a meninha; | e, pois lavou aquel peixe, | quando foi que o abrisse,
158 em abrindo catou dentro | e viu jazer a sortelha, | e log’ a sa madre disse
como_aquel anel achara. | E ela que lho mostrasse
160
mandou; e, poi-lo viu, logo | ar mandou que se calasse.
R20 161-164
XXI
Entom lhe mandou a madre | que o peixe lh’ adubasse
e o lavasse de dentro | e de fora escamasse.
[Refrão = vv. 1-4]
Outro dia o alcaide | vo, irad’ e sanhudo, | a sa casa por prendê-la
166 se lh’ a sortelha nom désse, | pois lhe dava seus dinhe[i]ros, | que morreria por
ela.
168
R21 169-172
XXII
Entom chorand’ a mesquinha | rogou que a ascoitasse,
dizendo que lha daria, | sol que lh’ o seu entregasse.
[Refrão = vv. 1-4]
El disse que lhe prazia. | Entom ela ante todos | tirou o anel do dedo
174 e deu-lho. E ele, logo | que o houve conhoçudo, | filhou-se-lh’ ém mui gram
medo;
176
R22 177-80
XXIII
e ant’ o póboo todo | lhe rogou que lhe contasse
em qual guisa o houvera, | que nulha rem nom leixasse.
[Refrão = vv. 1-4]
E ela contou-lho todo | em qual guisa o hou[v]era; | e, pois lho houve contado,
182 ar disse-lh’ el a verdade | em como a enganara, | e deu-s’ ende por culpado,
740
184
R23 185-88
XXIV
R24
e ante toda a gente | rogou que lhe perdõasse,
e do seu, que lhe tolhera, | deu que-na apoderasse.
[Refrão = vv. 1-4]
Entonce toda a gente | que i era assũada | derom mui grandes loores
190 por tam fremoso miragre | aa Virgem gloriosa, | que é senhor das senhores;
e, dando vozes, diziam: | “– Quem foi quem te semelhasse
192
de guardar os seus de dano | nem tam be-nos amparasse?”
194
196
Como Jesu-Cristo fezo | a Sam Pedro que pescasse
um pe[i]xe_em que achou ouro | que por si e el peitasse,
outrossi fez que sa madre | per tal maneira livrasse
a ũa molher mesquinha, | e de gram coit’ a tirasse.
* * *
741
Cantigas de Santa Maria 370
«Loemos muit’ a Virgem Santa Maria»
(E 370)
Esta é de loor de Santa Maria.
R0
2
I
6
Devemos-lhe dar mais de cem mil loores,
pois que a Deus progue, Senhor dos senhores,
que dela prês carn’, e as nossas doores
em si quis sofrer, como diss’ Isaía.
8
Loemos muit’ a Virgem Santa Maria,
madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia.
4
R1
II
12
E de a servir sol nom nos enfademos,
outrossi temer e loar, ca sabemos
que nos gãará, dos erros que fazemos,
perdom pera sempr’, e vid’ e alegria.
14
Loemos muit’ a Virgem Santa Maria,
madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia.
10
R2
III
18
Esta nos quis dar Deus por noss’ [a]vogada
quando fez dela madr’ e filha juntada;
e porém deve seer de nós loada;
e atal senhor, quem-na nom loaria?
20
Loemos muit’ a Virgem Santa Maria,
madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia.
16
R3
Loemos muit’ a Virgem Santa Maria,
madre de Jesu-Crist’, a noit’ e o dia.
* * *
742
Cantigas de Santa Maria 371
«Tantos vai Santa Maria eno seu Porto fazer»
(E 371)
Como Santa Maria do Porto guariu ũa molher que perigoara dũa pinaça e caera no mar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Tantos vai Santa Maria | eno seu Porto fazer
de miragres que trobando | nom poss’ os mos dizer.
Pero direi um daqueles, | que pouco temp’ há que fez,
mui grande e mui fremoso, | esta reinha de prez
em Barrameda, que éste | muit’ a preto de Xerez;
e, po-lo melhor saberdes, | oíde-mi_o a lezer.
[Refrão = vv. 1-2]
Quand[o] el-rei Dom Afonso | pobrava aquel logar
do Porto da Santa Virgem, | e fezera já lavrar
a igreja, e vera | i de Sevilha per mar
por veer como pobravam | e haver ende prazer,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
muitas gentes i viinham | a aquel logar entom,
os ũus em romaria, | havend’ i gram devoçom,
os outros pera pobrarem | e por haverem quinhom
das herdades que partissem, | segundo podess’ haver.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Outros vinham per lavrarem | e gãar i seu jornal,
que lhes davam por britarem | pedra ou por fazer cal
ou por lavrar na igreja | da senhor espirital;
e porém de muitas partes | viinham i guarecer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Porém per mar e per terra | punhavam i de vĩir
muitos e de longas terras, | e por quant’ iam oir
que os mortos resurgia | e os doentes guarir
fazia ali a Virgem, | e iam-no i veer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Onde foi que de Sevilha | ũa pinaça chegou
carregada de farinha, | e d’ homees i entrou
companha, e de molheres, | e tanto se carregou
que feriu em ũas penas | e houve de perecer,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
assi que morrerom todos | quantos andavam ali;
mais ũa molher i era | e chamou, segund’ oí,
Santa Maria do Porto, | dizendo: “– Eu vou a ti;
porém livra-me de morte | pelo teu mui gram poder”.
40
42
743
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Quando aquest’ houve dito, | travou logo manamám
dum gram saco de farinha | e deitou-s’ em el, de pram,
de peitos; e, macar era | mui pesado, tornou tam
leve come se de palhas | fosse por nom se merger,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ant’ ia sobre-la água | como se fosse_um batel,
e ela encima dele, | chus liviãa que froxel,
chamando Santa Maria, | madre de Deus Manuel.
Assi chegou a Sam Lucas, | u a forom receber
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
as gentes aa ribeira. | E, pois que souberom bem
seu feit’ em com’ escapara, | loarom muito porém
a madre de Jesu-Cristo, | que o mund’ em poder tem,
e ela foi-s’ a[o] Porto | aa Virgem oferer.
62
Tantos vai Santa Maria | eno seu Porto fazer
de miragres que trobando | nom poss’ os mos dizer.
58
R10
* * *
744
Cantigas de Santa Maria 372
«Muit’ éste maior cousa em querer-se mostrar»
(E 372)
[C]omo vo ũa molher de Nevra que raviava, a Santa Maria do Porto, e apareceu-lhe Santa
Maria de noit’ e guareceu-a.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muit’ éste maior cousa | em querer-se mostrar
a Virgem aos homes | ca d’ enfermos sãar.
E dest’ um gram miragre | direi, se vos prouguer,
que a Virgem b[]eita | fez por ũa molher
na igreja do Porto; | e quem mi_oir quiser
direi-lhe com’ avo, | se mi_o bem ascoitar.
[Refrão = vv. 1-2]
ũa molher de Nevla | forom trager ali,
que bem havia cinque | dias, com’ aprendi,
que raviava tam forte, | segundo que oí,
que mordia as gentes | e come cam ladrar
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
se filhava de rijo. | E por esta razom
forom-lh’ atar as mãos | e os pees entom;
demais, eram passados | cinque dias que nom
comera nem bevera | nem podia folgar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, pois foi na igreja | e o altar catou,
aquela rávia grande | toda se lh’ amansou;
e, pois dormiu um pouco, | a Virgem a filhou
pela mão e disse- | -lh’: “– Eu te venho sãar;
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e des hoimais nom hajas | medo de mal haver,
mais há mester que cómias | e que queiras bever;
ca eu sõo aquela | que posso guarecer
tod’ aquel que na coita | que houver me chamar”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Foi-s’ entom a reinha, | Virgem espirital,
e leixou bem guarida | a molher daquel mal;
e pediu que comesse | e bevess’ outrotal,
e os que i estavam | forom-lho logo dar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Quando viu o marido | que cobrara seu sém
sa molher e que era | já guarida mui bem
daquela mortal rávia, | deu loores porém
40
745
42
aa Virgem beita, | que se quis mercear
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
dela; e quantos eram | eno logar loor
derom porém mui grand[e] | aa santa senhor
Virgem e groriosa | madre do Salvador
Jesu-Cristo, que vo | em ela encarnar.
50
Muit’ éste maior cousa | em querer-se mostrar
a Virgem aos homes | ca d’ enfermos sãar.
46
R8
* * *
746
Cantigas de Santa Maria 373 = 267
«A de que Deus prês carn’ e foi dela nado»
(E 267, E 373, F [53])
* * *
747
Cantigas de Santa Maria 374
«Muito quer Santa Maria, a senhor de bem comprida»
(E 374)
[C]omo ũus almogávares que sempre entravam a terra de mouros e eram desbaratados, teverom vigia na capela do al[cá]çar de Xerez e prometerom-lhe ũa dõa, e entrarom em cavalgada
e gãarom mui grand’ algo.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito quer Santa Maria, | a senhor de bem comprida,
que, quand’ aos seus ajuda, | que seja deles servida.
Desto direi um miragre | grande que me foi mostrado
que fezo Santa Maria | (de que Deus quis seer nado)
em Xerez, na sa capela | do alcáçar (que gãado
foi de mouros per sa graça, | que nunca será falida
[Refrão = vv. 1-2]
aos que a haver querem). | E porend’ ũus peõ[e]s,
almogávares mui bõos | pero jaquanto ladrões,
foram mal fazer a mouros | com mui bõos corações;
mais gãar rem nom podiam | d’ entrada nem de saída,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
ca sempr’ eram descubertos | e mui mal desbaratados.
Mais, depois que entenderom | que esto per seus pecados
era, logo mantenente | se teverom por culpados,
e em correger cuidavam | muito depois em sa vida.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E houverom seu acordo | que fossem ter vegia
ena fremosa capela | da Virgem Santa Maria,
e logo em cavalgada | movessem em outro dia,
e, se gãassem, a Virgem | houvess’ ém, de sa partida,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
a cousa que mais fremosa | e mais rica i filhassem.
E porend’ a gloriosa | lhes fez que desbaratassem
ũa récova mui grande | de mouros, e que achassem
ũa púrpura mui rica, | feita d’ ouro, mui velida.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, tantoste que a virom, | nom houv’ i quem nom dissesse
que aquel pano tam rico | Santa Maria houvesse;
e logo_oferer-lho forom | e derom que-no posesse
ant’ o altar (e tamanho | foi com’ ele per medida).
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
42
E logo dessa companha | foi a Virgem mui loada;
e des ali adeante | nom fezerom cavalgada
em que nom gãassem muito, | ca a Virgem corõada
lhes guisou cada que forom | que fezerom bõa ida.
44
Muito quer Santa Maria, | a senhor de bem comprida,
que, quand’ aos seus ajuda, | que seja deles servida.
40
R7
748
Cantigas de Santa Maria 375
«Em todo nos faz mercee»
(E 375)
[C]omo Santa Maria do Porto guariu um cavalo dum escrivám del-rei que lhe queria morrer.
R0
2
I
4
6
R1
Em todo nos faz mercee
a senhor que todo vee.
Mercee por humildade
nos faz, e por sa bondade
acorre com piadade
a quem lhe pede mercee.
7-8 [Refrão = vv. 1-2]
II
10
12
Sequer enas bêstias mudas
nos mostra muitas ajudas
grandes e mui conhoçudas
a senhor que todo vee.
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
E de tal razom, fremoso
miragre maravilhoso
a madre do Glorioso
fez, [e] comprida mercee
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
na cidade de Sevilha
(que é grand’ a maravilha)
mostrou a madr’ e a filha
de Deus, que nos sempre vee,
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
a Bonamic, que havia
seu caval’ e lhe morria.
Porend’ a Santa Maria
do Porto pidiu mercee
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
que, se lh’ o cavalo désse
vivo, poren[de] posesse
um de cera que sevesse
ant’ ela, que todo vee.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
Este_escrivám del-rei era,
que do cavalo presera
mui gram coita e soubera
749
42
que morria; e mercee
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
46
48
pidiu aa Gloriosa,
que é senhor piadosa,
que de lho dar poderosa
é, ca nossas coitas vee.
R8 49-50 [Refrão = vv. 1-2]
IX
52
54
E u jazia tendudo
já come mort’ e perdudo,
fez-lho a que noss’ escudo
é, viver por sa mercee.
R9 55-56 [Refrão = vv. 1-2]
X
60
E tantoste deu levada,
e comeu muita cevada.
E porém foi mui loada
a senhor que todo vee.
62
Em todo nos faz mercee
a senhor que todo vee.
58
R10
* * *
750
Cantigas de Santa Maria 376
«A Virgem, cuja mercee é pelo mundo sabuda»
(E 376)
[C]omo um home levava um anel a Dom Manuel, irmão del-rei, e perde’-o na carreira, e
fez-lho Santa Maria cobrar.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A Virgem, cuja mercee | é pelo mundo sabuda,
fazer achar pod’ a cousa | aos que a ham perduda.
Ca nom é gram maravilha | d’ enderençar, bem sabiades,
as cousas mui mal paradas | [a] que faz as voontades
enderençar dos culpados; | porém nunca vos partades,
amigos, nas vossas coitas, | de demandar sa ajuda.
[Refrão = vv. 1-2]
E dest’ um mui gram miragre | avo ũa vegada
na cidade de Sevilha, | u fazia sa morada
el-rei por guardar a terra, | e que fosse bem pobrada
e houvesse per mar frota, | per que fosse mais temuda.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
El em Sevilha morando, | avo que seu irmão
Dom Manuel com el era, | que o amava de chão;
e o bem que lh’ el fezera | nom lhe saíra em vão,
ca em servi-lo sa vida | [el] havia despenduda.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Porend’ el-rei o amava, | e gram dereito fazia.
E, u estavam falando | el-rei e ele um dia,
um anel lhe mostrou logo | el-rei, que sigo tragia,
que dum jáspis mui ric’ era, | pedra nobre conhoçuda,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
e disse que lha daria. | E, pois foi em sa pousada
Dom Manuel, el-rei logo | nom quis mais fazer tardada,
mais enviou-lh’ a sortelha, | em ouro engastõada,
per um home de sa casa; | e diz: “– Muito me saúda
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Dom Manuel e dá-lhe_este | anel, que lh’ hei prometudo”.
E o home foi-se logo; | mais nom foi apercebudo
de o guardar com’ houvera | a guardá-lo, e perdudo
o houve ena carreira; | e, com’ ũa cousa muda,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
nemigalha nom falava. | Mais diss’ em sa voontade:
“– Muit’ é mester que me valha, | senhor, a ta piedade,
Santa Maria do Porto, | e prometo-ch’ em verdade
40
751
42
seis livras de bõa cera | que em ta casa arduda
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
seja, senhor, e tu val-me | a esta coita tam fera”.
El dizendo est’, outr’ home, | que logo pos el vera,
achou aquela sortelha | e viu bem que sua era
daquele que a levava; | e, pois que houv’ entenduda
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
esta cousa, foi pos ele | em tal que o preguntasse
se aquel anel perdera, | e, des i, que o filhasse.
E o outro tornou logo, | dizendo-lhe se achasse
tal sortelha, que lha désse | e nom lhe foss’ asconduda.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E o outr’ o anel logo | lhe deu, dizendo-lhe:_”– Amigo,
nom querria por mià culpa | que vós valia dum figo
perdêssedes; mais tomade- | -o logo, ca bem vos digo
que, se outro a achasse, | de vós nom fora veúda
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
esta sortelha”. E logo | foi-se com ela correndo
u Dom Manuel pousava, | que o estav’ atendendo,
e deu-lha; e, poi-lo feito | lhe contou, com’ eu aprendo,
tornou-se_al-rei. E, pois lh’ houve | esta cousa retraúda,
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
el-rei e quantos i eram | derom porende loores
aa Virgem groriosa, | que mercees e amores
nos faz em muitas maneiras, | macar somos pecadores,
e d’ acorrer-nos nas coitas | está sempr’ apercebuda.
74
A Virgem, cuja mercee | é pelo mundo sabuda,
fazer achar pod’ a cousa | aos que a ham perduda.
70
R12
* * *
752
Cantigas de Santa Maria 377
«Sempr’ a Virgem groriosa ao que s’ em ela fia»
(E 377)
Como um [rei] deu ũa escrivania dũa vila a um seu criado, e havia muitos contrários que o
estorvavam contra el-rei, e prometeu algo a Santa Maria do Porto, e fez-lh[a] haver.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Sempr’ a Virgem groriosa | ao que s’ em ela fia
ajuda-o per que vença | gram braveza e perfia.
E de tal razom com’ esta | fez um miragr’ a reinha
Santa Maria do Porto | por um home que se tinha
com ela, e os seus livros | pintava bem e aginha,
assi que [a] muitos outros | de saber pintar vencia.
[Refrão = vv. 1-2]
E porend’ ũa vegada | ũa obra mui fremosa
pintava da Santa Virgem, | madre de Deus groriosa;
e el-rei, cuj’ hom’ el era, | por amor da preciosa
senhor, que el muit’ amava, | prometeu que lhe daria
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
herdade ou outra cousa | que ele dar-lhe podesse,
em tal que aquesta obra | sempre a mui bem fezesse;
mais o home por mercee | lhe pediu que [el] lhe désse
em Vila-Real a meia | dũa sa escrivania.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
El-rei entom outorgou-lha | e mandou que, sem tardada,
a carta desta mercee | aberta lhe fosse dada;
mais o que tinha os selos | lha houve mui mal parada
bem preto de quinze dias; | mais el-rei no-no sabia.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mais, depois que a verdade | deste feit’ houve sabuda,
mandou logo que a carta | nom lhe fosse detúda
e que lhe déss’ outra toste; | se nom, pa conhoçuda
lhe faria que peitasse, | em que al nom haveria.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mais aquele, por meaças | que el-rei lh’ ameaçasse,
sol fazer no-no queria, | mais dizia que leixasse
aquel[e] outro a carta | e que dela se quitasse,
ca seu amig’ o outr’ era | que a meadade_havia.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Sobr’ esto muitas vegadas | mandou el-rei que lha dessem
e que, per nulha maneira, | de dar nom lha detevessem,
e, se nom, que a sa ira | haveriam, se fezessem
40
753
42
contra esto; mais aqueles | alongavam cada dia.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Mais aquel Pedro Lourenço | que a carta demandava
rogou a Santa Maria | do Port’, em que se fiava,
que, se el a cart’ houvesse | e per ela a gãava,
que maravedis duzentos | lhe désse, ou a valia.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Tanto que esta promessa | el houv’ assi prometuda,
logo foi Santa Maria | de tod[o] em sa ajuda
e fez contra o notário | que el-rei cara sanhuda
lhe mostro’, e log’ a carta | houv’ aquel que a pedia.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quand’ esto Pedro Lourenço | viu, loores deu porende
aa Virgem groriosa, | que aos seus [bem] defende,
e teve por de mal siso | quem contra ela contende;
e filhou logo sa carta | e foi com ela sa via.
62
Sempr’ a Virgem groriosa | ao que s’ em ela fia
ajuda-o per que vença | gram braveza e perfia.
58
R10
* * *
754
Cantigas de Santa Maria 378
«Muito nos faz gram mercee Deus Padre, Nostro Senhor»
(E 378)
[C]omo um home bõo, com sa molher, que morava na colaçom de Sam Salvador de Sevilha,
tiinha ũa sa filha doente pera morte, e jouve três dias que nom falou; e prometero-na a Santa Maria do Porto, e guareceu.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Muito nos faz gram mercee | Deus Padre, Nostro Senhor,
u fez sa madr’ avogada | e seu Filho salvador.
Ca, pois ela avogada | é, e nossa razom tem,
nom pod’ al fazer seu filho | senom juigar-nos bem;
porend’ estorvo do demo | no-no temos em rem,
macar s’ el muito trabalha | de nos ser destorvador.
[Refrão = vv. 1-2]
Ca nos torva na saúde | fazendo-nos enfermar,
creendo o seu conselho, | com que nos faz el pecar,
e faz mal aos meninhos | po-lo seu poder mostrar
que há de fazer nemiga, | ca dos maos é peor.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mais a nossa avogada, | que tem bem nossa razom,
roga por nós a seu filho | que nos de sa tentaçom
daquel astroso nos guarde | e nos livre d’ ocajom
e que nos dia saúde | cada que nos mester for.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Onde daquest’ em Sevilha | fez ela miragr’ atal
qual vos ora contar quero; | e, des que oirdes qual
foi, por grande o terredes, | ca ela, que pod’ e val,
mostrou i sa gram vertude, | ca sempre fez o melhor.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E porend’ atal miragre | é d’ oir, se vos prouguer,
que fezo Santa Maria | do Porto, e quem quiser
sabê-lo, que em Sevilha | avo dũa molher
que era mui bem casada | com um home mercador.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Estes haviam sa filha |
a que prês enfermidade
que per narizes e olhos
deitava tanto de sangre
34
36
que amavam mais ca si,
| tam grande, com’ aprendi,
| e da boca outrossi
| que foi perder a coor.
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
[E] esteve bem três dias | e noites que nom falou;
e, tendo-a por morta, | a mortalha lhe mandou
talhar seu padr’, e aginha | as candeas ar comprou.
Mais [um] seu compadre logo | se fez seu conselhador,
40
42
755
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
e disse: “– Se vós fezerdes | o que vos quero dizer,
esta meninh’ ao Porto | ide logo prometer
da Virgem Santa Maria, | e, se sãar, ofrecer
lha ide, e mantenente | perderá esta door;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
ca eu mià molher tiinha | que já queria transir,
mais, pois lha houv’ outorgado, | Santa Maria guarir
a fez; e porém vos rogo | que me queirades oir,
e prometede-lh’ a filha, | e seede sabedor
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
que, logo que ofrecerdes, | que a meninha guarrá”.
E eles lhe prometerom | que a levassem alá
com sas ofertas mui grandes. | E a moça log’ acá
viveu, e abriu os olhos | e catou enderredor.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
E, pois, pediu que comesse, | e derom-lhe manamám
um ov’ assado mui mole, | e come’-o com do pam.
E todos entom loarom | a senhor do bom talám,
dizendo: “– Beita sejas, | que dos teus és guardador”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
Entom a moça filharom | e forom-se dessa vez
dereitament’ ao Porto | e passarom per Xerez;
e, pois forom na igreja | da rainha de gram prez,
teverom i sas noveas | sempr’ ant’ o altar maior.
74
Muito nos faz gram mercee | Deus Padre, Nostro Senhor,
u fez sa madr’ avogada | e seu Filho salvador.
70
R12
* * *
756
Cantigas de Santa Maria 379
«A que defende do demo as almas dos pecadores»
(E 379)
Como Santa Maria do Porto se vengou dos cossários do mar que roubavam os homees que
viinham pobrar em aquela sa vila.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que defende do demo | as almas dos pecadores,
os seus defender bem pode | d’ homes maos roubadores.
Dest’ avo no gram Porto | que el-rei pobrar mandava,
que é de Santa Maria, | em que el muito punhava
de fazer i bõa vila; | porém término lhe dava
grande per mar e per terra, | ca logar é dos melhores
[Refrão = vv. 1-2]
do mundo pera gram vila | fazer ou mui gram cidade.
E el-rei de veer esto | havia gram soidade;
porém quanto lhe pediam | lhes dava de voontade,
em tal que pobrar vessem | i mui ricos mercadores.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E por aquesto sas cartas | lhes mandava, que vessem
ali salvos e seguros | com quanto trager quisessem,
e que nom houvessem medo, | enquant’ ali estevessem,
de perderem, do seu, nada | nem prenderem dessabores
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
per homes de sa terra. | Sobr’ esto, de muitas partes
viinham pera pobrarem, | des Génua té em Chartes;
mais lenho[s] de catalães, | cossários chos d’ artes,
faziam danos nos portos, | ca desto som sabedores.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E roubavam aos mouros | que ali per mar queriam
vĩir, e muitos matavam | deles e muitos prendiam;
e neũa reverença | aaVirgem nom haviam
em cujo término era, | come_homees malfeitores.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Onde foi ũa vegada | que ali um salto derom
a mouros que i viinham, | e a todo-los preserom,
e quiseram-s’ a sa terra | tornar-se; mais nom poderom,
pero tiinham navios | ligeiros e corredores.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Ca a Virgem gloriosa, | cujos som aqueles mares,
fez-lhes que se nom podessem | mover daqueles logares
du estavam, com mal tempo, | e todo-los seus chufares
40
757
42
fezo que nada nom fossem, | macar eram chufadores.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Assi que pela tormenta, | que foi grand’ a maravilha,
nom souberom que fezessem, | senom ir pera Sevilha
a tornar o que filharam | a pesar da madr’ e filha
de Deus, a que desonraram. | E daquesto fiadores
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
derom al-rei em Sevilha;
todo quant’ ali filharam,
ca já, per nulha maneira,
tornar daquela vegada. |
52
54
| e, depois que entregarom
| em seu serviço ficarom,
| a sas terras nom ousarom
E desto derom loores
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
todos quanto-los oírom | aa Virgem gloriosa,
que faz ataes miragres | come senhor poderosa,
madre do rei justiceiro. | Ca, pero que piadosa
é, nom quer que mal recebam, | per rem, os seus pobladores
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
nem outros que a sa casa | venham per mar e per terra;
e, empero que os mouros | a vezes lhe fazem guerra,
aos que vee coitados | nunca lhe-la porta serra
d’ acorrer com sa mercee, | que é maior das maiores.
68
A que defende do demo | as almas dos pecadores.
os seus defender bem pode | d’ homes maos roubadores.
64
R11
* * *
758
Cantigas de Santa Maria 380
«Sem calar»
(E 380)
[E]sta é de loor de Santa Maria.
R0
2
4
6
I
8
10
12
14
16
R1
18
20
21
II
24
26
28
30
32
R2
34
36
38
III
40
42
44
46
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
Ca ela nom tardou
quando nos acorreu
e da prijom sacou
du Eva nos meteu
(u pesar
e cuidar
sempre nos crecia),
mais guiar
e levar
foi u Deus siía.
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
E amar outrossi
devemos mais dal rem;
e, com’ eu vej’ e vi,
sempre quer nosso bem,
ca britar
e deitar
foi da senhoria
quem mezcrar
e buscar
mal com Deus queria
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
a nós, que somos seus
quitamente sem al
dela, porque de Deus
é madre, que nos val
quand’ errar
e pecar
per nossa folia
imos, ar
perdõar
759
48
R3
50
52
54
IV
56
58
60
62
64
R4
66
68
70
V
72
74
76
78
80
R5
82
84
86
nos faz cada dia.
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
Ar em dar-lhe loor
havemos gram razom,
ca Deus a fez melhor
de quantas cousas som,
que sem par,
sem dultar,
ést’; e quem diria,
em trobar
nem cantar,
quant’ i converria?
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
Porém nom quedarei
de sempre lhe pedir
mercee,_e rogar-lh’-ei
que se de mi servir
quer’ e dar
me logar
u, quant’ eu querria
eixalçar
e pojar
seus feitos, ma[r]ria.
Sem calar
nem tardar
deve todavia
hom’ honrar
e loar
a Santa Maria.
* * *
760
Cantigas de Santa Maria 381
«Como_a voz de Jesu-Cristo faz aos mortos viver»
(E 381)
[C]omo Santa Maria do Porto resucitou um meninho que morrera, filho dum home bõo que
morava em Xerez.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Como_a voz de Jesu-Cristo | faz aos mortos viver,
assi fez a de sa madre | um morto vivo erger.
Desto direi um miragre | que no Porto conteceu
que é de Santa Maria, | dum meninho que morreu,
de Xerez, por que sa madre | porém tal coita prendeu
que a poucas a mesquinha | houvera d’ ensandecer.
[Refrão = vv. 1-2]
Seu padre deste meninho | morava na colaçom
de Sam Marcos, e Joane | havia nom’; e entom
de sa molher Deus lhe dera | aquele filho barom,
com que muito s’ alegrava | e prendia gram prazer.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Sancha sa madre chamavam | per nome, com’ aprendi,
e amava aquel filho | atanto, segund’ oí,
que mais amar nom podia | outra rem; e foi assi
que, bem como lho Deus dera, | assi lho ar foi tolher.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca enfermou o meninho | dũa gram féver mortal,
e o padre e a madre | com coita del, nom por al,
levaro-no ao Porto | da rainha_espirital;
e, tendo-o a madre | nos braços, lhe foi morrer.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Sa madre, pois viu que morto | era, ũa gram voz deu
dizend’: “– Ai Santa Maria, | dá-m’ aqueste filho meu;
se nom, leva-me com ele, | ca mais nom viverei eu
eno mundo”. E com coita | foi logo esmorecer.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Da gram voz que deu a madre | quando a Virgem chamou,
Jesu-Cristo, o seu filho, | aquel que resucitou
Lázaro de quatro dias | e per nome o chamou,
fez levantar o meninho | tantost’ e vivo seer
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
mui são e muit’ alegre. | E quantos eno logar
estavam e esto virom, | começarom de chorar,
e, em chorando, a Virgem | ar filharom-s’ a loar
por tam fremoso miragre | que fora ali fazer.
40
42
R7
44
Como_a voz de Jesu-Cristo | faz aos mortos viver,
assi fez a de sa madre | um morto vivo erger.
* * *
761
Cantigas de Santa Maria 382
«Verdad’ éste a parávoa que disse Rei Salamom»
(E 382)
[C]omo um ricome pidia um herdamento al-rei que lhe havia a dar por outro que lhe filhara, e no-no podia haver dele; e prometeu algo a Santa Maria, e fez-lho haver logo mui bõo.
R0
2
I
6
E Ele assi as cámbia | como lhe vem a prazer,
ca, segund’ é Deus e home | e rei, pode-o fazer:
Deus porque há gram vertude, | e rei por seu gram poder,
e home porque há siso, | entendement’ e razom.
7-8
[Refrão = vv. 1-2]
4
R1
Verdad’ éste a parávoa | que disse rei Salamom:
que dos reis as voontades | enas mãos de Deus som.
II
10
12
E de tal razom com’ esta | vos quero contar que fez
gram miragre_a Santa Virgem | do Porto, cab[o] Xerez,
dum ricome que pedia | al-rei herdade_ũa vez,
que de dar tudo lh’ era, | mais dizia-lhe de nom.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E [a]l-rei muit’ aficava | que lha désse sem tardar;
mais [a]l-rei nom lhe prazia, | ca lha ia demandar
em logares que já dera, | que nom podia tomar
sem fazer tort’ e pecado. | Porém lhe respôs entom:
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
“– Se queredes que vos herde, | de grado vos herdarei
ali u o fazer possa, | ca, per rem, nom filharei
cousa que eu dada haja; | mais tal logar buscarei
per que sejades herdado | mui bem e vos dé bom dom”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mentr’ el-rei esto catava, | foi-se-lh’ alo[n]gand’ assi
ao ricom’ este preito | que houv’ a morar ali
muit’, e o seu despendendo; | e, segundo que oí,
era Sevilha mui cara | de tod’ a essa sazom
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
u el-rei entom morava. | E porend’ ameúd’ ir
havia muit’ a sa casa | o ricom’ e lhe pedir
que lhe déss’ o herdamento, | e, se nom, que s’ espedir
queria dele e ir-se | ao reino d’ Aragom.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Mais al-rei muito pesava | e tiinha-o por mal,
porque ele o criara | e era seu natural,
e em Toledo casara | e leixara i sinal
40
762
42
de filhos que lhe naceram. | E aquel ricom’ entom
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
com gram coita que havia | quis al-rei entrar porém;
mais, porque o nom colherom, | acordou-s’ (e fez bom sém)
e em terra os golhos | ficou e disse: “– Per rem,
nom poss’ estar que nom faça | ora ũa oraçom
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
a[a] Virgem gloriosa, | u toda mesura jaz,
que ela na voontade | al-rei meta, se lhe praz,
que dé aos monges cámbio | por Alvaç[a]; e assaz
haverei se me der esto, | e será bom gualardom;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e, se m’ aquesta mercee | Santa Maria fezer
do gram Port’, eu lhe prometo | que lhe darei comoquer
dez livras de bõa cera, | e filhe-as quem quiser;
demais, irei a sa casa | e levarei meu bordom”.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Mentr’ a oraçom fazia | o ricom’, el-rei chamou
Dom Manuel, seu irmão, | e com el se conselhou
de lhe dar aquel meesmo | que o ricom’ enmentou
em sa oraçom; e disse | a um seu de criaçom:
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
“– Vai e chama a Reimondo | de Rocaful, se nom for
ido”. E el vo logo | e diz: “– Qué vos praz, senhor?”
Diss’ el-rei: “– Eu dar-vos quero | Alvaça, que é melhor
pera vós ca outr’ herdade, | ca val muit’ e sem mixom”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
Reimom, pois lh’ el-rei diss’ esto, | porém graças lhe rendeu
e loores aa Virgem | do Porto, porque meteu
al-rei est’ em voontade; | e o que lh’ el prometeu
de cera, fez-lho dar logo, | chorando com devoçom.
80
Verdad’ éste a parávoa | que disse rei Salamom:
que dos reis as voontades | enas mãos de Deus som.
76
R13
* * *
763
Cantigas de Santa Maria 383
«O fondo do mar tam chão faz come a terra dura»
(E 383)
Como Santa Maria de Seg[o]nça guardou ũa molher que queria entrar em ũa nave e caeu
n[o] mar, e guareceu e saco’-a Santa Maria.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
O fondo do mar tam chão | faz come a terra dura
aos seus Santa Maria, | senhor de mui gram mesura.
Dest’ avo um miragre | grand’ e mui maravilhoso,
que fezo a santa Virgem, | madre do rei glorioso,
por ũa molher que tinha | o coraçom desejoso
de a servir noit’ e dia; | e foi em Estremadura.
[Refrão = vv. 1-2]
Na cidade de Segonça | (que é mui rico bispado)
e cabo da grand’ igreja | há um logar apartado
que chamam Santa Maria | a Velha, a que de grado
ia essa molher bõa, | e em est’ era sa cura.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Esta molher ũa filha | havia que muit’ amava,
e a cada ũa delas | ena voontad’ entrava
d’ irem veer o sepulcro | de Jerusalém, e dava
do seu a que-na guiasse | por poder ir mais segura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, pois aquest’ houve feito, | foi-se logo sa carreira
e levou sigo sa filha | porque nom fosse senlheira,
ca achar nom poderia | pera si tal companheira.
E passou per muitas terras, | e atal foi sa ventura
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que passou o mar em salvo | sem neum detemento,
ca, enquanto per el forom, | sempr’ houverom mui bom vento;
e, des que forom em Acre, | sem outro delongamento
forom veer o sepulcro | no tempo da caentura.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, poi-lo houverom visto, | ar fezerom romarias
pelos logares mais santos | dessa terra, u Messias
Jesu-Cristo, Deus e home, | andou. E a poucos dias
forom em Acre tornadas, | mais nom como quem atura
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
fazendo mui gram morada | em Acre: nom i ficarom,
mais aginha se colherom | ao porto e rogarom
a aquel cuj’ a nav’ era | que as levass’, e punharom
d’ entrar mui toste na nave. | Mais foi tam grand’ a pressura
40
42
764
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
d’ i entrar, e em querendo
do batel e[m] essa nave, |
mente, e depois a madre |
de sobir tost’, e na água |
46
48
| sobir per ũa_escaeira
sobiu a filha primeiracuidou a seer arteira
caeu com sa vestidura.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, em caendo, chamando | a grandes braados ia:
“– Acorre-me, gloriosa, | a Velha Santa Maria
de Segonça, em que fio, | e fais que mià romaria
acabe compridamente”. | E tantoste da altura
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
dos ceos a Virgem santa | acorreu-a e passou-a
bes per fondo da água | su a nave, e sacou-a
mui longe da outra parte | eno mar, e pois torno[u]-a
arriba viva e sãa | com fremosa catadura.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Todos quantos esto virom | forom mui maravilhados,
e os golhos em terra | houverom logo ficados
e aa Virgem mui santa | porende loores dados,
dizendo: “– B[e]ita sejas, | dos coitados cobertura”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
E, pois esta molher bõa | pela Virgem foi g[u]ardada
assi como já oístes, | e, a sa terra tornada,
teve na Velha ig[r]eja | noveas, e mui loada
foi logo Santa Maria | per ela; e fez cordura.
74
O fondo do mar tam chão | faz come a terra dura
aos seus Santa Maria, | senhor de mui gram mesura.
70
R12
* * *
765
Cantigas de Santa Maria 384
«A que por mui gram fremosura éste chamada “Fror das frores”»
(E 384)
Como Santa Maria levou a alma dum frade que pintou o seu nome de três coores.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6 37-38
VII
40
42
R7 43-44
A que por mui gram fremosura | éste chamada «Fror das frores»,
mui mais lhe praz quando lhe loam | seu nome que doutras loores.
Desto direi um miragre, | segundo me foi contado,
que avo a um monge, | bõo e bem ordinhado,
que as horas desta Virgem | dizia de mui bom grado,
e maior sabor havia | desto que doutras sabores.
[Refrão = vv. 1-2]
Este mui bom clérigo_era | e mui de grado liía
nas «Vidas dos Santos Padres» | e ar mui bem escrivia;
mai[s] uquer que el achava | nome de Santa Maria,
fazia-o mui fremoso, | escrito com três colores.
[Refrão = vv. 1-2]
A primeira era ouro, | coor rica e fremosa
a semelhante da Virgem, | nobre e mui preciosa;
e a outra d’ azur era, | coor mui maravilhosa
que ao ceo semelha | quand’ é com sas [e]splandores;
[Refrão = vv. 1-2]
a terceira chamam «rosa», | porque é coor vermelha;
onde cada ũa destas | coores mui bem semelha
aa Virgem que é rica, | mui santa, e que parelha
nunca houv’ em fremosura, | ar é melhor das melhores.
[Refrão = vv. 1-2]
Ond’ aqueste nome santo | o monge tragia sigo
da Virgem Santa Maria, | de que era muit’ amigo,
beijando-o ameúde | por vencer o emigo
diabo, que sempre punha | de nos meter em errores.
[Refrão = vv. 1-2]
Onde foi ũa vegada | que jazia mui doente
dũa grand’ enfermidade, | de que era empossente;
e, pero assi jazia, | viinha-lhe sempre_a mente
de seer da Virgem santa | um dos seus mais loadores.
[Refrão = vv. 1-2]
O abade e os monges | todos veer o verom,
e, poi-lo virom maltreito, | um frade com el poserom
que lhe tevesse companha; | e, pois ali esteverom
um pouco, forom-se logo. | Mais a senhor das senhores
[Refrão = vv. 1-2]
766
VIII
46
48
R8 49-50
IX
52
54
R9 55-56
X
58
60
R10 61-62
XI
64
66
R11 67-68
XII
70
72
R12 73-74
XIII
76
78
R13
80
apareceu ao frade | que o guardav’, em dormindo,
e viu que ao [seu] leito | se chegava, passo indo,
e dizia-lhe: “– Nom temas, | ca te farei ir sobindo
mig’ ora a paraíso, | u veerás os maiores;
[Refrão = vv. 1-2]
ca, por quanto tu pintavas | meu nome de três pinturas,
leva[r]-t’-ei suso_ao ceo, | u verás as aposturas,
e eno Livro da Vida | escrit’ ontr’ as escrituras
serás ontr’ os que nom morrem, | nem ham coitas nem doores”.
[Refrão = vv. 1-2]
Entom levou del a alma | sigo a santa reinha.
E o frade_espertou logo | e foi ao leit’ aginha;
e, pois que o achou morto, | fez sõar a campainha,
segund’ estableçud’ era | polos seus santos doctores.
[Refrão = vv. 1-2]
Mantenente o abade | chegou i co-no convento,
que eram i de companha | bem oiteenta ou cento;
e aquel monge lhes disse: | “– Senhores, por cousimento
o que vi vos direi todo, | se m’ ém fordes oidores”.
[Refrão = vv. 1-2]
Entom contou o que vira, | segundo vos hei já dito;
e o abade tantoste | o fez meter em escrito
pera destruir as obras | do emigo maldito,
que nos quer levar a logo | u sempr’ hajamos pavores.
[Refrão = vv. 1-2]
E, pois souberom o feito, | loarom de voontade
a Virgem Santa Maria, | a senhor de piedade;
e, se em algũa cousa | lh’ erraram per necidade,
punharom de se g[u]ardarem | que nom fossem pecadores.
A que por mui gram fremosura | éste chamada «Fror das frores»,
mui mais lhe praz quando lhe loam | seu nome que doutras loores.
* * *
767
Cantigas de Santa Maria 385
«De toda enfermidade maa e de gram ferida»
(E 385)
[C]omo Santa Maria do Porto guareceu um home dũa pedrada mui grande, de que nunca
cuidara a guarecer, ca tiinha a tela sedada e tornou-se paralítico, e guarece’-o Santa Maria.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
De toda enfermidade | maa e de gram ferida
pode bem sãar a Virgem, | que de vertud’ é comprida.
Est’ avo em Sevilha | per vertude da rainha
dos ceos, Santa Maria | do Porto, u muit’ aginha
igreja, u mui loada | fosse, fez i na marinha
pera guardar os creschãos | dos mouros e ser bastida
[Refrão = vv. 1-2]
pera guerrejar or mouros | d’ Espanh’ e os africãos.
E porende_em aquel logo | mostrou miragres certãos
de muitos que i verom | enfermos e forom sãos,
ca os que a sa mercee | mester ham, nunca obrida.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E tam gram sabor haviam | os homes de que sãava
os enfermos que quem coita | havia logo chamava:
“– Santa Maria do Porto, | val-me!”, e s’ acomendava
a ela; e, pois guariam, | faziam alá s[a] ida.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo em Sevilha | que derom ũa pedrada
a um home na cabeça | mui grand’, assi que britada
lh’ houverom toda a fronte | e a tea assedada,
assi que nunca cuidava | da chaga haver guarida.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois viu que nom sãava, | prometeu que ao Porto
da Virgem Santa Maria | fosse, que éste conorto
dos coitados, se daquela | ferida nom fosse morto,
e que de cera levasse | um estadal, sem falida.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mais ante celorgiãos | mostrou com’ era maltreito,
dizendo que o sãassem; | mais esto nom foi em preito
que conselho lhe posessem. | Porend’ o home contreito
houv[e] a seer dum lado, | e foi daquela partida
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
em que a chaga havia, | u foi da pedra ferido.
E el, quando viu aquesto, | teve-se por escarnido;
mais acomendou-se logo | ao Port’, e foi guarido
40
768
42
e são, bem com’ aqueles | que tornam de mort’ a vida.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E porende deu loores | aa Virgem, e noveas
foi ter [en]a sa casa, | e levou i sas candeas
de cera, ca nom de sevo | nem d’ azeite nem de teas
nem como doutras que ardem | em algũa pobr’ ermida.
50
De toda enfermidade | maa e de gram ferida
pode bem sãar a Virgem, | que de vertud’ é comprida.
46
R8
* * *
769
Cantigas de Santa Maria 386
«A que avondou do vinho aa dona de Bretanha»
(E 386)
[C]omo Santa Maria avondou de pescado al-rei Dom Afonso com mui gram gente que convidara em Sevilha.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que avondou do vinho | aa dona de Bretanha,
ar avondou de pescado | um rei com mui gram companha.
Desto direi um miragre | que avo em Sevilha,
ena cidade mui nobre | que fez Deus por maravilha,
ca nom há o[u]tra cidade | que nom semelhasse filha,
daquelas que som mais grandes | no senhorio d’ Espanha.
[Refrão = vv. 1-2]
Ali el-rei Dom Afonso, | filho del-rei Dom Fernando,
fez ajuntar mui gram corte; | esto foi no tempo quando
tornou da hoste da Veiga | de Grãada, e talhando
a andou enredor toda, | o chão e a montanha.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
E, pois que se partiu ende, | vo a Sevilha cedo,
em que fazia sas cortes | ajuntar, que des Toledo
bem atá em Santiago | e depois dalém d’ Arnedo
nom houv’ i quem nom vesse | por nom caer em sa sanha.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Des que todos i chegarom | e el-rei lhes houve dito
porque os vĩir fezera, | por paravr’ e por escrito,
todos mui bem lho couberom, | dizendo: “– Seja maldito
o que passar contra esto | que mandades; ca tamanha
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
prol sua nunca fezerom | homes como nós faremos
em fazer vosso mandado; | e, demais, que seeremos
vosc’ em assessegamento, | por que pois nom temeremos
enquisas de mascarade, | que contra todos reganha”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E, pois aquest’ outorgarom, | foi deles el-rei pagado,
e ar outorgou-lhes logo | quant’ houverom demandado
em todas sas petições (nas que pediam guisado,
ca quem a senhor demanda | sem guisa, é cousa_estranha).
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Enquant’ as cartas faziam | desto, forom convidados
todos del-rei que comessem | com el, e que av[o]ndados
seriam de quant’ houvessem | mester; e dest’ acordados
forom quantos que i eram, | des Tui atá Ocanha.
40
42
770
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Mais sábado aquel dia | era, e muitos cuidavam
que pescado nom houvessem, | ca, per rem, no-no achavam
a vend[ê]-lo em Sevilha; | e porende se queixavam
al-rei os seus despenseiros | dizen[do]: “– Obra d’ aranha
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
é, senhor, se Deus nos valha, | aquesto que vós fazedes!:
em convidar tam gram gente, | e pescado nom tedes!”
E respôs-lhes el-rei logo: | “– Asperad’ e veeredes
que fará Santa Maria, | u jaz mercee quamanha
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
nom poderia contada | seer, per rem, nem escrita;
e por aquesto vos mando | que vaades tod’ a fita
logo catar os canales | meus, que som mià renda quita,
e, se algo i achardes, | no-no paredes per manha,
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
mais aduzede-mi_o logo; | ca eu hei grand’ asperança
na Virgem Santa Maria, | que ést[e] mià amparança,
que nos dará tal avondo | de pescado que em França
nom acharíamos tanto | nem em toda Alemanha”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Eles forom mantenente | a um canal, e acharom
de pescado carregadas | quatro barcas, e chegarom
com elas log’ a Sevilha; | e a todos avondarom,
que sol nom lhes mi[n]g[u]ou dele | que valves [s]’ ũa castanha.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
78
E quand’ el-rei viu aquesto, | houve mui grand’ alegria,
e chorando loou muito | a Virgem Santa Maria
que o assi de pescado | avondara aquel dia;
ca [o] que a mui bem serve | sempre com ela gaanha.
80
A que avondou do vinho | aa dona de Bretanha,
ar avondou de pescado | um rei com mui gram companha.
76
R13
* * *
771
Cantigas de Santa Maria 387 = 349
«Muito praz à Virgem santa, que Deus filhou por parenta»
(E 349, E 387)
* * *
Cantigas de Santa Maria 388 = 295
«Que por al nom devess’ hom’ a Santa Maria servir»
(E 295, E 388)
* * *
772
Cantigas de Santa Maria 389
«A que pera paraíso irmos nos mostra caminhos»
(E 389)
[C]omo Santa Maria do Porto guareceu um filho de maestre Pedro de Marselha.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A que pera paraíso | irmos nos mostra caminhos,
poder há de sãar velhos | e mancebos e meninhos.
Poder há de sãar velho | se é tal que o merece,
e outrotal o mancebo | se faz bõa mancebece,
outrossi ao meninho | se algum mal lhe contece
quand’ ham sas enfermidades | seendo mui pequeninhos.
[Refrão = vv. 1-2]
E daquesto em Sevilha | mostrou miragre mui grande
a Virgem Santa Maria | (que rog’ a seu filh’ e mande
que polos nos[sos] pecados | mui sanhudo nom nos ande,
mas que do seu paraíso | nos queira fazer vezinhos).
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Este miragre foi feito | em Sevilha, na cidade,
por um meninho que era | mui mal doente_em verdade,
filho de maestre Pedro | de Marselha, que abade
foi já e tornou-se leigo; | e dous filhos fremosinhos
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
de sa molher el havia, | que mui mais ca si amava.
E o mor foi enfermo; | ond’ a el muito pesava,
de tam grand’ enfe[r]midade | que por morto o juigava:
el e sa madre, com coita | del, chamavam-se mesquinhos.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E com gram coita sobeja | que a madre del havia
comendo’-o ao Porto | que é de Santa Maria,
dizendo que, se vivesse, | que logo em romaria
a sa casa o levasse, | e espécias e cominhos
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
com el alá ofrecessem; | ca nom tiinham dinheiros
que partir de si podessem, | nem ovelhas nem carneiros
dos seus dar nom i queriam, | ca os santos som arteiros,
mais dar-lh’-ia dous capões | ou bem leu dous ansarinhos.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E tal promessa com’ esta, | comoquer que pequeninha
foss’, assi proug’ aa Virgem, | que dos ceos é reinha:
fez que o moço pedisse | de comer, e foi aginha
guarid’, e trebelhou logo | co-nos outros mocelinhos.
40
42
773
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
Quand’ esto maestre Pedro | viu, desta guisa loores
deu log’ a[a] groriosa: | ca fez filhar dos maiores
dous capões que criava, | que fez assar, e sabores
filhou grand[es] em comê-los | e em bever bõos vinhos.
50
A que pera paraíso | irmos nos mostra caminhos,
poder há de sãar velhos | e mancebos e meninhos.
46
R8
* * *
774
Cantigas de Santa Maria 390
«Sempre faz o melhor»
(E 390)
Esta [é] de loor de Santa Maria.
R0
1
3
I
5
7
R1
8
10
II
12
14
R2
15
18
III
19
21
R3
22
24
IV
26
28
R4
29
31
V
33
35
R5
36
38
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
A nós faz que nom possamos errar,
e a Deus que nos queira perdõar
e eno seu paraíso nos dar
gram sabor.
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
A nós faz que queiramos Deus servir,
e a El que nos faça repentir
dos erros e a emenda vĩir
com amor.
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
A nós faz que sabiamos Deus temer,
e a Ele que queira receber
nosso serviço, por nos pois meter
u El for.
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
A nós faz que conhoscamos a Deus,
e a Ele que nos tenha por seus,
pois por nós prês morte pelos judeus
com door.
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
A nós faz que o amemos mais dal,
e a Ele que nos guarde de mal
e do fogo do inferno mortal
queimador.
Sempre faz o melhor
a madre do Senhor
salvador.
* * *
775
Cantigas de Santa Maria 391
«Como pod’ a groriosa os mortos fazer viver»
(E 391)
Como Santa Maria do Porto corregeu ũa moça contreita dos nembros que levarom alá em
romaria.
R0
2
I
4
6
Como pod’ a groriosa | os mortos fazer viver,
bem outrossi pod’ os nembros | dos contreitos correger.
Desto direi um miragre | que eno gram Porto fez,
que é seu desta reinha | gloriosa de gram prez,
a ũa moça que vo | i contreita de Xerez,
que bes assi nacera, | segum que oí dizer.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
E esta em tal maneira | os pees tortos assi
havia: o que [é] d[i]ante, | atrás, com’ eu aprendi,
tragia. Porém seu padre | em romaria ali
a troux’, e teve noveas | por daquel mal guarecer.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ond’ avo ũa noite | que gram door a filhou
aos pees em dormindo, | e tantoste despertou;
e a door foi tam grande, | e tam forte braadou
come se ferida fosse | ou que cuidass’ a morrer.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E seu padre, que jazia | cabo dela, preguntar
lhe foi porque braadara. | Diss’ ela: “– Porque britar
me foi os pees a Virgem, | e tornou-s’ a seu altar,
e houve door tam grande | qual nunca cuidei haver”.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Logo forom ajuntados | quantos i eram entom,
e os pees lhe catarom | e viro-nos de feiçom
que os a ter devia, | e tam bem sãos que nom
podiam melhor seê-lo. | E porende beizer
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
se filharom a reinha | que taes miragres faz,
e cada ũ[u] chorando | poso em terra sa faz,
dizendo: “– Beita sejas, | ca toda mesura jaz
em ti e toda mercee | pora nos sempr’ acorrer;
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
onde te damos loores | com’ a tam bõa senhor
que perdõas os pecados | e sãas toda door;
o porende te rogamos | que, se ta mercee for,
que no santo paraíso | nos faças tigo caber”.
40
42
R7
44
Como pod’ a groriosa | os mortos fazer viver,
bem outrossi pod’ os nembros | dos contreitos correger.
* * *
776
Cantigas de Santa Maria 392
«Macar é Santa Maria senhor de mui gram mesura»
(E 392)
[C]omo Santa Maria do Porto consentiu que enforcassem um home que jurou mentira pelo
seu nome.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Macar é Santa Maria | senhor de mui gram mesura,
muit’ estranha quem por ela | mente ou faz falsa jura.
Ca aquel’ hora que mente | jurando pelo seu nome,
tal hora é juigado | que o diabo o tome
e que dentro no inferno | o tormente e o dome,
ca diabos som monteiros | de Deus, segund’ Escritura.
[Refrão = vv. 1-2]
E dest’ um mui gram miragre | avo eno gram Porto,
dum home que com dereito | foi enforcado e morto,
porque jurou jura falsa | na igreja u conorto
acham todo-los coitados: | aquest’ é verdade pura.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Est’ hom’ era pastorinho | entom, e barvas pungentes,
quando pelos seus pecados | em al nom metia mentes
senom furtar quant’ achava, | a vezinhos e parentes;
e, macar o castigavam, | sol nom havia ém cura.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo que um dia | furtou a ũa mesquinha
um alfamar, e vendê-lo | foi a casa da reinha,
madre de Deus, do gram Porto; | mais foi preso muit’ aginha,
e ant’ o alcaide vo | por sa gram malaventura,
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
que lhe disse se verdade | era o que querelava
aquela molher mesquinha. | E el todo-o negava,
e ela no-no podia | provar. E porém mandava
o alcaide que jurasse | (ca for’ é d’ Estremadura
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
de jurar sobre tal feito). | E el a jura fazia,
e o alcaide meesmo | del a jura recebia.
E el meteu-lhe na jura | a Deus e Santa Maria:
que ambo-lo cofondessem | se fezera tal loucura,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
e que ante tercer dia | enas sas mãos tornasse
do alcaide, em tal guisa | que logo o enforcasse.
Entom mandou a um home | que da prijom o tirasse.
40
777
42
E el foi-se_e fez um furto, | em que passou a postura.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
E, logo que fez o furto, | tantoste foi recadado
dentro na vila do Port’, e | ant’ o alcaide levado
foi com esso que furtara, | que lhe disse: “– Malfadado,
já outro furto hás feito | como maa criatura”.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E respôs ao alcaide: | “– Por Deus e por caridade,
fazede de mim justiça, | ca jurei gram falsidade;
porém nom vos detenhades | em destruir gram maldade,
ca d’ hoimais ena mià vida | nom é senom amargura”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
60
Quand’ est’ oírom as gentes, | loarom os justiceiros
Jesu-Cristo e sa madre, | senhores dereitureiros;
e logo aquel astroso | filharo-no os monteiros
e posero-no na forca | suso na maior altura.
62
Macar é Santa Maria | senhor de mui gram mesura,
muit’ estranha quem por ela | mente ou faz falsa jura.
58
R10
* * *
778
Cantigas de Santa Maria 393
«Macar é door a rávia maravilhosa e forte»
(E 393)
[C]omo Santa Maria do Porto guareceu a um meninho que trouxerom a sa casa ravioso.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Macar é door a rávia | maravilhosa e forte,
aginha a tolh’ a madre | do que ena cruz prês morte.
Ca segund’ enfermidade, | rávia de melanconia
vem, que é negra e forte | e dura e de perfia.
Tod’ aquesto há no demo, | e porém Santa Maria,
que éste dele contralha, | a tolhe e dá conorte.
[Refrão = vv. 1-2]
Desto mostrou no gram Porto | mui gram maravilha fera
a Virgem Santa Maria | a um home que vera
d’ Arcos, e que já raivoso | seu neto ali trouxera
em tal que chegass’ i ante | que uviasse prender morte.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Aquel [me]ninho Afonso | nome de batism’ havia,
assi come seu avoo | que o ali aduzia;
e chegarom ao Porto | mércores, prime[i]ro dia
d’ abril, e ena igreja | entrarom com gram conorte,
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
que a Virgem groriosa | aquel mininho sãasse,
que atal rávia havia | que quenquer que lh’ ementasse
que bevess’ água ou vinho, | que logo nom s’ espantasse,
e tam forte se torcia | come quem coita a morte.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Desta guisa quatro dias | passara, que nom bevera
cousa que de bever fosse, | e tam gram coita sofrera
que tod’ home que o visse | terria que já morrera;
mas nom quis a que nas coitas | acorre e dá conorte.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E ena primeira noite | que teve ena igreja
vigia da Virgem santa, | que sempre beita seja,
de sa enfermidad’ houve | melhoria tam sobeja
que beveu [tam] muita d’ água | com que guareceu de morte.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E des ali adeante | foi guarid’ e mui bem são;
e, pois desto Dom Afonso, | seu avoo, foi certão:
entendeu quem bem servia | aa Virgem, que em vão
nom fazia seu serviço, | ca nas coitas dá conorte.
40
42
779
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
E porend’ el e os outros | todos quantos i estavam
as mãos contra o ceo | de [con]sũu as alçavam,
e log’ a Santa Maria | porende loores davam,
porque assi o meninho | guariu de tam cruel morte.
50
Macar é door a rávia | maravilhosa e forte,
aginha a tolh’ a madre | do que ena cruz prês morte.
46
R8
* * *
780
Cantigas de Santa Maria 394 = 187
«Gram fé devia»
(E 187, E 394, T 186)
* * *
Cantigas de Santa Maria 395 = 165
«Nium poder deste mundo de gente nada nom val»
(E 165, E 395, T 165)
* * *
Cantigas de Santa Maria 396 = 289
«Pero que os outros santos a vezes prendem vingança»
(E 289, E 396, F [12 bis])
* * *
Cantigas de Santa Maria 397 = 192
«Muitas vegadas o dem’ enganados»
(E 192, E 397, T 192)
* * *
781
Cantigas de Santa Maria 398
«A madre do pastor bõo, que conhoceu seu gãado»
(E 398)
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
A madre do pastor bõo | que conhoceu seu gãado,
bem pode guardar aquele | que lhe for acomendado.
Ca o dia da gram ca, | pois houv’ os pees lavados
a seus discípulos, disse | que per ele mui guardados
seriam, ca pastor era | bõo e que seus gãados
conhoci[a] si meesmo | por dar a todos recado.
[Refrão = vv. 1-2]
[O]nde_em atal semelhança | demostrou Santa Maria
gram miragre no seu Porto, | que ant’ o seu nom’ havia,
que de Xerez é mui preto, | na fim da Andaluzia,
u o mar Mediter[r]ano | co-no mui grand’ é juntado.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ali el-rei Dom Afonso | de Leom e de Castela
fez fazer ũa egreja | muit’ aposta e mui bela,
que deu a Santa Maria | por casa e por capela,
em que dela foss’ o nome | de muitas gentes loado.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E, enquanto a lavravam, | demostrou i mui fremosos
miragres Santa Maria, | e d’ oir mui saborosos,
pera os que sa mercee | d’ havê-la som desejos[os];
mais um deles ontr’ os outros | vos será per mim contado.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Um poblador i morava | que vera dos primeiros,
e Dom Domingo havia | nom’, e triinta cordeiros
que i tiinha perdera; | e per vales e outeiros
os andou tod’ aquel dia | busca[n]do, o mui coitado.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Enquanto os el buscava | com mui gram coita sobeja,
a sa molher, Dona Sancha, | foi chorand’ aa igreja
e diss’: “– Ai Santa Maria, | pela ta mercee seja
que aquel gãado haja | de lobos per ti guardado”.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E seu marido, com coita | de os achar, nom quedava
de buscá-los pelos montes, | e pero no-nos achava;
mais depois a tercer dia | viu o gãad’ u estava
de consũu, e de lobos | tod’ em derredor cercado.
40
42
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
782
VIII
46
48
E do pesar que houvera | grand[e] houv’ entom conorto,
e foi filhar seu gãado | e levo’-o ao Porto,
que nunca daqueles lobos | um dos cordeiros foi morto;
ca o Bom Pastor tiinha | a sa madre por caiado.
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
54
Pois esto virom as gentes, | derom porende loores
aa Virgem groriosa, | que é senhor das senhores,
porque fez que os cordeiros | houvessem por guardadores
os lobos. E porém seja | seu nome sempr’ eixalçado.
56
A madre do pastor bõo | que conhoceu seu gãado,
bem pode guardar aquele | que lhe for acomendado.
52
R9
* * *
783
Cantigas de Santa Maria 399
«Quem usar na de Deus madre falar, e amiga»
(E 399)
Esta CCCXCVIIII é como ena vila d’ Elvas ũa molher quiso matar seu filho e meteu-lhe ũa
agulha pela cabeça, e apareceu-lhe Santa Maria ante que o matasse e disse-lhe que tomasse
pedença.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Quem usar na de Deus madre | falar, e amiga,
nom lhe falirám razões | mui bõas que diga.
Ca bem assi cada dia | lhe crece vertude,
como crec’ a Deus, seu filho, | assi El m’ ajude;
e porende_o poder dela | e [o] del recude
a crecerem em bem sempre | e tolher nemiga.
[Refrão = vv. 1-2]
Porend’ um miragre dela | direi mui fremoso
que mostro[u] na vila d’ Elvas, | e maravilhoso,
a ũa molher mui pobre, | e des i astroso,
que quisera dum seu filho | seer emiga.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Ela se preçava muito | de sa fremosura,
e havia um seu filho, | bela creatura;
mais tanto cobiiçava | a fazer loucura
que nom dava, por matá-lo, | sol ũa formiga.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ond’ avo que um dia, | seend’ enserrada
em sa casa, foi cuidando | muit’ a malfadada
como matass’ o meninho; | ca desembargada
seria se o colgasse | sequer dũa viga.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pois cuidou muit’ aquesto, | filhou eno braço
o meninho e deito’-o | eno seu regaço,
buscando redor si pedra; | e achou um maço,
e filhou ũa agulha | longa com’ espiga,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
e diss’ assi: “– Par Deus, filho, | mui pouco me presta
de perder por ti meu tempo”. | E logo na testa
lhe foi põer a agulha, | e diss’: “– Hoje festa
será pera mi ta morte”. | Mais a que abriga
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
os pobres e os coitados | pareceu-lhe logo,
seend’ as portas serradas, | e diss’: “– Eu te rogo
40
784
42
que nom mates o meninho, | mais a um moogo
te vai confessar correndo; | ca Deus, que castiga
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
os maos feitos, dar-t’-ia | porém maa morte,
e levaria o demo | ta alma em sorte;
mais contra todas tas coitas | darei gram conorte;
porém maa voontade | de ti derraíga;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e porém filha teu filho | nos braços privado
e vai log’ aa igreja | dizer teu pecado,
e tantoste nas tas coitas | porrei eu recado;
e come molher nom faças | maa que se triga
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
a fazer mal sa fazenda”. | E foi-s’ a reinha
dos ceos, pois lh’ esto disse. | E log’ a mesquinha
mãefestou-s’; e em ordem | entrou muit’ aginha,
e contra o demo froque | vestiu por loriga.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
66
Quantos aque[ste] miragre | tam grande souberom,
a Santa Maria graças | logo porém derom;
des i, aquele meninho | criar o fezerom,
e a madre polo demo | nom deu ũa figa.
68
Quem usar na de Deus madre | falar, e amiga,
nom lhe falirám razões | mui bõas que diga.
64
R11
* * *
785
Cantigas de Santa Maria 400
«Pero cantigas de loor»
(E 400)
Esta é de loor de Santa Maria.
I
1
3
5
7
9
II
10
12
14
16
18
III
19
21
23
25
27
IV
28
30
32
34
36
Pero cantigas de loor
fiz de muitas maneiras,
havendo de loar sabor
a que nos dá carreiras
como de Deus hajamos bem,
sol nom tenho que dixe rem:
ca atant’ é comprida
a loor da que nos mantém
que nunca há fĩída.
Pero fiz com’ oí dizer
que fez Santa Sofia,
que sa mealha ofrecer
foi, ca mais nom havia,
a Deus de mui bom coraçom;
mais o meu é mui mor dom,
que lhe dou mui de grado,
e cuid’ end’ haver gualardom
mui grand’ e muit’ honrado.
Ca pero o dom mui pouc’ é,
segund’ a mià pobreza,
nom catará est’, a-la-fé,
a senhor da franqueza;
ca por um dom, esto sei já,
que lh’ eu dé, cento me dará
dos seus mui nobres dões,
e a mià míngua comprirá
co-nos seus gualardões.
E porém lhe quero rogar
que meu dom pequen[inh]o
receb’ e o queira filhar
por aquel que meninho
no seu corpo se figurou
e se fez hom’ e nos salvou
por nos dar paraíso,
e, pois, consigo a levou
(e foi i de bom siso).
* * *
786
Cantigas de Santa Maria 401
«Macar poucos cantares acabei e com som»
(E 401, U [100b])
Esta é a petiçom que fez el-rei Dom Afonso a Santa Maria, por galardom dest[e]s cantares
que houve feitos dos seus miragres a loor dela.
I
2
4
6
8
10
II
12
14
16
18
20
III
22
24
26
28
30
IV
32
34
36
38
40
V
42
44
46
48
Macar poucos cantares | acabei e com som,
Virgem, dos teus miragres, | peço-ch’ ora por dom
que rogues a teu filho | Deus que El me perdom
os pecados que fige, | pero que muitos som,
e do seu paraíso | nom me diga de nom,
nem eno gram joízo | entre mig’ em razom,
nem que polos meus erros | se me mostre felom;
e tu, mià senhor, roga- | -lh’ agora e entom
muit’ aficadamente | por mi de coraçom,
e por este serviço | dá-m’ este galardom.
Pois a ti, Virgem, prougue | que dos miragres teus
fezess’ ende cantares, | rogo-te que a Deus,
teu filho, por mi rogues | que os pecados meus
me perdom e me queira | receber ontr’ os seus
no santo paraíso, | u éste Sam Mateus,
Sam Pedr’ e Santiago, | a que vam os romeus,
e que em este mundo | queira que os encreus
mouros destruir possa, | que som dos filisteus,
com’ a seus emigos | destruiu Macabeus
Judas, que foi gram tempo | caudelo dos judeus.
E al te rog’ ainda: | que lhe queiras rogar
que do diab’ arteiro | me queira El guardar,
que punha todavia | pera hom’ enartar
per muitas de maneiras, | por fazê-lo pecar,
e que El me dé siso | que me poss’ amparar
dele e das sas obras, | com que el faz obrar
mui mal a que-no cree | e pois s’ ém mal achar,
e que contra os mouros, | que terra d’ Ultramar
tem, e em Espanha | gram part’ a meu pesar,
me dé poder e força | pera os ém deitar.
Outros rogos, sem estes, | te quer’ ora fazer:
que rogues a teu filho | que me faça viver,
per que servi-lo possa, | e que me dé poder
contra seus emigos | e lhes faça perder
o que tem forçado, | que nom devem haver,
e me guarde de morte | per ocajom prender,
e que de meus amigos | veja sempre prazer,
e que possa miàs gentes | em justiça ter,
e que sempre bem sábia | empregar meu haver,
que os que mi_o filharem | mi_o sábiam gradecer.
E ainda te rogo | Virgem, bõa senhor,
que rogues a teu filho | que, mentr’ eu aqui for
em este mundo, queira | que faça o melhor,
per que del e dos bõos | sempr’ haja seu amor;
e, pois rei me fez, queira | que rein’ a seu sabor,
e de mi e dos reinos | seja El guardador,
que me deu e dar pode | quando lh’ ém prazer for;
e que El me defenda | de fals’ e traedor,
e outrossi me guarde | de mal conselhador
787
50
VI
52
54
56
58
60
VII
62
64
66
68
70
VIII
72
74
76
78
80
IX
82
84
86
88
90
X
92
94
96
98
100
e d’ home que mal serve | e é mui pedidor.
E, pois hei começado, | senhor, de te pedir
mercees que me gães, | se o Deus por bem vir,
roga-lhe que me guarde | de quem nom quer gracir
algo que lh’ home faça | ne-no ar quer servir,
outrossi de quem busca | razom pera falir,
nom havendo vergonha | d’ errar nem de mentir,
e de quem dá joízo | se-no bem departir
nem outro gram conselho | sem ant’ i comedir,
e d’ home mui falido | que outro quer cousir,
e d’ home que mal joga | e quer muito riir.
Outrossi por mi roga, | Virgem do bom talám,
que me guard’ o teu filho | daquel que adamám
mostra sempr’ em seus feitos, | e daqueles que dam
pouco por gram vileza, | e vergonha nom ham,
e por pouco serviço | mostram que grand’ afám
prendem uquer que vaam, | pero longe nom vam;
outrossi que me guardes | d’ home torp’ alvardám,
e d’ home que assaca, | que é peor que cam,
e dos que lealdade | nom preçam quant’ um pam,
pero que sempr’ em ela | muito faland’ estám.
E ainda te rogo, | senhor espirital,
que rogues a teu filho | que El me dé atal
siso per que nom caia | em pecado mortal,
e que nom haja medo | do gram fog’ infernal,
e me guarde meu corpo | d’ ocajom e de mal
e d’ amig’ encoberto, | que a gram coita fal,
e de quem tem em pouco | de seer desleal,
e daquel que se preça | muit’ e mui pouco val,
e de quem em seus feitos | sempr’ é descomunal.
Esto por dom cho peço; | e ar pedir-ch’-ei al:
senhor Santa Maria, | pois que começad’ hei
de pedir-che mercee, | nom m’ ende partirei;
porém te rog’ e peço, | pois que teu filho rei
me fez, que del me gães | siso, que mester hei,
com que me guardar possa | do que me nom guardei,
per que d’ hoj’ adeante | nom erre com’ errei
nem meu haver empregue | tam mal com’ empreguei
em algũus logares, | segundo que eu sei,
perdend’ el e meu tempo | e aos que o dei;
mas des hoimais me guarda, | e guardado serei.
Tantas som as mercees, | senhor, que em ti há,
que porende te rogo | que rogues o que dá
seu bem aos que ama | (ca sei que o fará
se o tu por bem vires), | que me dé o que já
lhe pedi muitas vezes: | que, quando for alá
no paraíso, veja | a ti sempr’, e acá
mi_acorra em miàs coitas | por ti, e haverá-me bom galardom dado; | e sempre fiará
em ti quem souber esto, | e mais te servirá
por quanto me feziste | de bem, e t’ amará.
* * *
788
Cantigas de Santa Maria 402
«Santa Maria, nembre-vos de mi»
(E 402)
R0
2
I
6
Nom catedes a como pecador
sõo, mais catad’ a vossa valor,
e, por um mui pouco que de loor
dixe de vós (em que rem nom menti),
8
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
4
R1
II
12
Nom catedes como pequei assaz,
mais catad’ o gram bem que em vós jaz;
ca vós me fezestes como quem faz
sa cousa quita toda pera si.
14
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
10
R2
III
18
Nom catedes a como pequei greu,
mais catad’ o gram bem que vos Deus deu;
ca outro bem senom vós nom hei eu
nem houve nunca des quando naci.
20
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
16
R3
IV
24
Nom catedes em como fui errar,
mas catad’ o vosso bem, que sem par
ést’, e de como Deus a perdõar
nos há por vós; e sei que ést’ assi.
26
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
22
R4
V
30
Nom catedes a como fui falir,
mais catade como nom sei u ir
senom a vós por mercee pedir,
u a achei cada que a pedi.
32
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
34
E querede que vos veja ali
u vós sodes, quando me for daqui.
28
R5
Santa Maria, nembre-vos de mi
e daquelo pouco que vos servi.
F
* * *
789
Cantigas de Santa Maria 403
«Haver nom poderia»
(U 50)
Esta Lª é dos sete pesares que viu Santa Maria do seu filho.
I
2
4
6
8
II
10
12
14
16
III
18
20
22
24
IV
26
28
30
32
V
34
36
38
40
VI
42
44
Haver nom poderia
lágrimas que chorasse
quantas chorar querria,
se m’ ante nom nembrasse
como Santa Maria
viu com que lhe pessasse
do filho que havia,
ante que a levasse.
Um daquestes pesares
foi quando a Egito
fugiu: polos milhares,
segund’ achei escrito,
dos mininhos a pares,
que Herodes maldito
fez matar a logares,
por seu rein’ haver quito.
O segundo foi quando
seu filh’ houve perdudo
três dias, e cuidando
que judeus ascondudo
lho tinham, e osmando
que morto ou traúdo
foss’, e, por El chorando,
ant’ ela foi vĩúdo.
E o pesar terceiro
foi mui grand’ aficado:
quando lh’ um mandadeiro
disse que recadado
seu filho verdadeiro,
Jesu-Crist’, e liado
levavam mui senlheiro,
dos seus desamparado.
Do quarto foi coitada
u seu filho velido
viu levar a pesada
cruz, e El mal ferido
d’ açoutes e messada
a barva e cospido,
e a gent’ assũada
sobr’ El em apelido.
O quinto pesar forte
foi quando o poserom
na cruz, e por conorte
azed’ e fel lhe derom,
sobre seus panos sorte
790
46
48
VII
50
52
54
56
VIII
58
60
62
64
deitarom, e fezerom
per que chegou a morte,
onde prazer houverom.
O sesto foi, sem falha,
quando o despregarom
da cruz e com mortalha
a soterrar levarom,
e, temendo baralha,
o sepulcro guardarom;
mais pois, se El me valha,
ali no-no acharom.
Segund’ a Escritura
conta, foi o seto
pesar de gram tristura
e de gram doo cho:
quando viu na altura
Deus sobir, onde vo,
e ficou com rancura
pois em poder alho.
* * *
791
Cantigas de Santa Maria 404
«Nom é sem guisa d’ enfermos sãar»
(U 76)
Esta LXXVIª é como Santa Maria guareceu com seu leite o crérigo de grand’ enfermidade,
porque a loava.
R0
2
I
4
6
Nom é sem guisa d’ enfermos sãar
o santo leite que Deus quis mamar.
Tolher deve mal e aduzer bem
o leite que criou o que nos tem
em seu poder e nos fez de nom rem
e desfará quando lhe semelhar.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Porend’ um miragre desta razom
vos direi, que xe valrá um sermom:
de como guareceu um crerizom
Santa Maria, que el foi loar.
10
12
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
De bom linhage foi aquest’ assaz
e mui fremoso de corp’ e de faz,
e leterado e de bom solaz,
que em sa terra nom havia par.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Cantar sabia el bem e leer
e ar dava de grado seu haver;
mas nom leixav’ ao demo fazer
obras que xas ant’ el nom foss’ obrar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E, pero fazia tam muito mal,
Santa Maria amava mais dal;
e em aquesto era tam leal
que, cada u viía seu altar,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
agolhava-se, dizend’ assi,
catand’ a sa omagem, com’ oí:
“– Santa Maria, eu venho a ti
po-lo bem que Deus pôs em ti loar:
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
entr’ as molheres beita és tu;
ca tal come ti, u acharám, u?;
ca tu parist’ o bom senhor Jesu,
40
792
42
que fez o ceo e terra e mar;
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
porend’ o teu ventr’, u s’ El enserrou,
beito seja, ca em el filhou
carne teu filho, que Deus enviou
por salvar-nos e por a ti honrar;
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e as tas tetas, que El mamar quis,
beitas sejam, ca per elas fis
somos de nom irmos, par Sam Dinis,
a iferno, se per nós nom ficar”.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
Assi loando a madre de Deus
foi el caer, polos pecados seus,
em tal enfermidad’ a que judeus
nem crischãos nom podiam prestar.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Ca frenesia o tornou sandeu
tam muito que sa léngua xe comeu,
e ar os beiços desfez e mordeu
e comera se lhe dessem vagar.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E porend’ a boca e o nariz
lh’ encharom tanto, com’ o livro diz,
que nom podiam dele a serviz
ne-no rostro, qual era, estremar.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E, assi jazendo pera fĩir,
um ángeo viu pera si vĩir
que o queria guardar de falir,
se podesse, e filhou-s’ a chorar
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e dizend’ agrandes vozes: “– Senhor
Santa Maria, nembre-t’ o amor
que ti_havia aqueste pecador,
que em golhos t’ ia saudar;
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
e já sa léngua, que de bom talám
te saudava, comeu come cam,
e os seus beiços, que feos estám,
com que soía no teu bem falar;
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
porém, senhor, val ao servo teu,
793
94
96
que se nom perça, ca eu sõo seu
ángeo, e acomendad’ é meu,
e porém te venho por el rogar
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
e que nom queras que aquesta vez
se perça polos pecados que fez,
nem que o demo, mais negro ca pez
o possa ao iferno levar”.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
Esto dizendo, a madre do rei
dos ceos toste, com’ escrit’ achei,
chegou e disse-lhe: “– Porque tardei
venho-ti_agora grand’ emenda dar”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
E entom a sa teta descobriu,
e de seu leit’ o rostro lhe ungiu,
e os peitos, e assi o guariu
que com sabor o fez adormentar.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
120
E, pois dormiu com’ home são sol
dormir, sãou do mal ond’ era fol,
e entendeu que fezera sa prol
em se a Santa Maria deitar.
122
Nom é sem guisa d’ enfermos sãar
o santo leite que Deus quis mamar.
118
R20
* * *
794
Cantigas de Santa Maria 405
«De muitas guisas mostrar»
(U 79)
Esta LXXVIIIIª é como Santa Maria faz em Costantinobre decer um pano ante sa omagem.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
De muitas guisas mostrar
xe nos quer Santa Maria | por xe nos fazer amar.
Nas grandes enfermidades
s’ amostra com piedades,
e, po-las nossas maldades
tolher, se leixa catar.
[Refrão = vv. 1-2]
Dest’ um miragre mui nobre
mostrou em Costantinobre
aquela que nos encobre
e que nos faz perdõar,
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
madre do que nos governa,
e que é nossa lenterna,
ena que chamam Luzerna,
igreja cabo do mar.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ali há ũa fegura
da Virgem santa e pura,
fremosa sobre mesura,
posta sobe-lo altar.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Ant’ ela está um pano
colgado todo o ano,
que poo nem outro dano
no-na possa afolar.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
Mas sesta-feira ergendo
se vai e aparecendo
a omagem, e correndo
a vam todos aorar.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
E diz um a outr’: “– Aqué o
ángeo que vem do ceo,
que alça aquele veo
e faz no aire parar”.
40
42
795
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
Tod’ essa noit’ e o dia
de sábado romaria
vem i e gram crerezia
pera as horas cantar.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
E, pois veem descoberta
a omagem, grand’ oferta
dam i, est’ é cousa certa;
demais, filham-s’ a chorar
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
todos mui de voontade,
pois veem a majestade,
loand’ a gram piedade
da Virgem, que nom há par.
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
Poi-lo sábad’ acabado
é, o ángeo privado
há log’ o pano deitado
como x’ ante sol estar
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
72
ant’ a omagem. E isto
é cada sábado visto
por prazer de Jesu-Cristo,
que se quer sa madr’ honrar.
74
De muitas guisas mostrar
xe nos quer Santa Maria | por xe nos fazer amar.
70
R12
* * *
796
Cantigas de Santa Maria 406
«Bem venhas, maio, e com alegria»
(U (Ap) 1)
Depois que el-rei fez estas cinco cantigas das cinco festas de Nostro Senhor, fez estas outras
cantigas de miragres de Santa Maria.
Esta primeira é das maias.
I
1
3
R1
5
II
6
8
R2
10
III
11
13
R3
15
IV
16
18
R4
20
V
21
23
R5
25
VI
26
28
R6
30
VII 31
33
R7
35
VIII 36
38
R8
40
Bem venhas, maio, | e com alegria;
porém roguemos | a Santa Maria
que a seu Filho | rogue todavia
que El nos guarde | d’ err’ e de folia.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com toda saúde,
por que loemos | a de gram vertude
que a Deus rogue | que nos sempr’ ajude
contra o dem’, e | des i nos escude.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | e com lealdade,
por que loemos | a de gram bondade
que sempre haja | de nós piadade
e que nos guarde | de toda maldade.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com muitas requezas;
e nós roguemos | a que há nobrezas
em si mui grandes, | que nos de tristezas
guard’ e de coitas | e ar d’ avolezas.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | coberto de fruitas;
e nós roguemos | a que sempre duitas
há sas mercees | de fazer ém muitas,
que nos defenda | do dem’ e sas luitas.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com bõos sabores;
e nós roguemos | e demos loores
aa que sempre | por nós pecadores
roga Deus, que nos | guarde de doores.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com vacas e touros;
e nós roguemos | a que nos tesouros
de Jesu-Cristo | é, que aos mouros
cedo cofonda, | e brancos e louros.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | alegr’ e sem sanha;
e nós roguemos | a que nos gaanha
bem de seu Filho, | que nos dé tamanha
força que saiam | os mouros d’ Espanha.
Bem venhas, maio!
797
IX
41
43
R9
45
X
46
48
R10
50
XI
51
53
R11
55
XII 56
58
R12
60
XIII 61
63
R13
65
XIV 66
68
R14
70
Bem venhas, maio, | com muitos gãados;
e nós roguemos | a que os pecados
faz que nos sejam | de Deus perdõados,
que de seu Filho | nos faça privados.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com bõo verão;
e nós roguemos | a Virgem, de chão,
que nos defenda | d’ home mui vilão
e d’ atrevud’ e | de torp’ alvardão.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com pam e com vinho;
e nós roguemos | a que Deus mininho
troux’ em seus braços, | que nos dé caminho
por que sejamos | com ela festinho.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | mans’ e nom sanhudo;
e nós roguemos | a que noss’ escudo
é, que nos guarde | de louc’ atrevudo
e d’ hom’ anho | e desconhoçudo.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | alegr’ e fremoso;
porend’ a madre | do rei grorioso
roguemos que nos | guarde do nojoso
hom’, e de falso | e de mentiroso.
Bem venhas, maio!
Bem venhas, maio, | com bõos manjares;
e nós roguemos | em nossos cantares
a Santa Virgem, | ant’ os seus altares,
que nos defenda | de grandes pesares.
Bem venhas, maio!
* * *
798
Cantigas de Santa Maria 407
«Como o demo cofonder»
(U (Ap) 12[b])
Esta XIIª é como Santa Maria fez veer ao home que cegara porque se comendara ao demo.
R0
2
4
I
6
8
R1 9-12
II
14
16
R2 17-20
III
22
24
R3 25-28
IV
30
32
R4 33-36
V
38
40
R5 41-44
VI
46
48
R6 49-52
VII
54
Como o demo cofonder,
nos quer acorrer
Santa Maria, e valer
e del defender.
Dest’ um miragre vos contarei que vi
escrit’ em livro, e dizia assi
com’ oiredes adeante per mi,
que foi a Virgem fazer
[Refrão = vv. 1-4]
e[m] um cativo d’ home que foi errar
porque do pee em ũa pedra dar
foi e doeu-s’, e porém [a] braadar
começou e descreer:
[Refrão = vv. 1-4]
“– Aquesta pedra o demo a ficou
aqui por mi que mi meu pee britou;
e, pois que pode tam muit’, a el mi dou
e nom quer’ em Deus creer”.
[Refrão = vv. 1-4]
Aquesto disse com gram sanha mortal;
e log’ ali o prendeu um tam gram mal
que come tolheito se parou atal
que cuidou log’ a morrer,
[Refrão = vv. 1-4]
e demai-la vista dos olhos perdeu,
e o poder do corpo si lh’ ar tolheu
e com mui gram coita em terra caeu
que se nom pod’ end’ erger.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas seus parentes o filharom dali
e o levarom a sa casa, e i
o deitarom em um leito, e assi
leixaro-no i jazer.
[Refrão = vv. 1-4]
E, pidindo por Deus, jouv’ i gram sazom,
chorand’ e rogando-lhe de coraçom
que dos seus erros podess’ haver perdom
799
56
R7 57-60
VIII
62
64
R8 65-68
IX
70
72
R9 73-76
X
78
80
R10 81-84
XI
86
88
R11
90
92
e que lhe foss’ ém prazer.
[Refrão = vv. 1-4]
Mas pois, na festa em que Deus resurgiu,
dos madodinhos a campãa oiu,
e ũa dona cabo si estar viu,
e começou-lh’ a dizer:
[Refrão = vv. 1-4]
“– Porque sofriste teu mal e ta door
em paz, porende praz a Nostro Senhor
que cedo sães e recebas sabor
per que possas bem viver;
[Refrão = vv. 1-4]
e cre’ i ora esto que ti dig’ eu:
fas que te levem tost’ ant’ o altar meu;
e, pois i fores, saúd’ o corpo teu
logo poderá haver”.
[Refrão = vv. 1-4]
Respôs el: “– Esto farei logo de pram”.
E feze-s’ entom levar i manamám,
e tornou são, pela do bom talám,
a de que Deus quis nacer.
Como o demo cofonder,
nos quer acorrer
Santa Maria, e valer
e del defender.
* * *
800
Cantigas de Santa Maria 408
«D’ espirital cilurgia»
(F [14])
Esta é como Santa Maria sãou o escudeiro a que derom a saetada polo costado.
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
R2 13-14
III
16
18
R3 19-20
IV
22
24
R4 25-26
V
28
30
R5 31-32
VI
34
36
R6
38
De ’spirital cilurgia
bem obra Santa Maria.
Ca nom vos obra com ervas, | nem com raízes nem frores,
nem com espécias outras, | macar x’ ham bõos odores;
mas val aos pecadores
com vertude que em si há.
[Refrão = vv. 1-2]
[D]est’ avo um miragre | que mostrou ũa vegada
em Salas, u mostra muitos, | esta bem-aventurada
dum que gran[de] saetada
recebeu em Lombardia.
[Refrão = vv. 1-2]
Este de que vos eu falo | era fidalg’ escudeiro,
e foi em ũa fazenda | bõo, ardid’ e ligeiro;
mas foi per um baesteiro
mui mal chagad’ aquel dia.
[Refrão = vv. 1-2]
Ca lhe falsou os costados | a saeta, que de forte
baesta fora tirada; | e colheu tal desconorte
que bem cuidou prender morte,
que al i nom haveria.
[Refrão = vv. 1-2]
Porend’ a Santa Maria | s’ houve log’ acomendado;
e tirarom-lh’ a saeta | bem pelo outro costado;
des i, o logar sarrado
foi, que rem nom parecia.
[Refrão = vv. 1-2]
E, desto, Santa Maria | de Salas quantos estavam
no logar, que o miragre | virom, muito a loa[va]m,
e a aquel conselhavam
que foss’ i em romaria.
De ’spirital cilurgia
bem obra Santa Maria.
* * *
801
Cantigas de Santa Maria 409
«Cantando e com dança»
(F [86])
De loor de Santa Maria.
R0
2
4
I
6
8
10
12
14
16
18
R1
20
22
II
24
26
28
30
32
34
36
R2
38
40
III
42
44
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada
que é nossa ’sperança.
Seja por nós loada,
e dereito faremos,
pois seu bem atendemos
e d’ haver o temos
por cousa mui guisada,
ca é noss’ avogada;
e de certo sabemos
que de Deus haveremos
perdom e guanharemos
sa merce’ acabada
per ela, que há dada
per muitas de maneiras
a nós, e dá carreiras
d’ havermos perdoança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
Porende se loada
é de Santa Eigreja,
esto convém que seja,
pois gram graça sobeja
per ela ham gãada
de Deus, per que honrada
é de quanto deseja,
de que o dem’ enveja
há, e por que peleja
nosco muit’ aficadament’, e nom gãa nada;
ca ela todavia
destrue sa perfia
e dá-nos del vingança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
Reis e emperadores,
todos comũalmente
a todo seu ciente
devem de bõa mente
802
46
48
50
52
54
R3
56
58
IV
60
62
64
66
68
70
72
R4
74
76
V
78
80
82
84
86
88
90
R5
92
94
VI
96
98
100
dar-lhe grandes loores,
ca per ela senhores
som de toda a gente,
e cada ũu sente
dela compridamente
mercees e amores;
e, macar pecadores
sejam, a Virgem bõa
mui toste os perdõa,
sem nulha dovidança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
Des i os oradores
e os religiosos,
macar som homildosos,
devem muit’ aguçosos
seer e sabedores
em fazer-lhe sabores,
cantando saborosos
cantares e fremosos
dos seus maravilhosos
miragres, que som frores
doutros e mui melhores,
est’ é cousa sabuda,
ca por nossa ajuda
os faz sem demorança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
Outrossi cavaleiros
e as donas honradas,
loores mui grãadas
devem per eles dadas
seer, e mercee[i]ros
e, demais, deanteiros
em fazer sinaadas
cousas e mui preçadas
por ela, que contadas
sejam, que verdadeiros
lhes som e prazenteiros,
ca serám perdõados
porende seus pecados,
e guardados d’ errança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
Donzelas, escudeiros,
burgeses, cidadãos,
outrossi aldeãos,
mesteiraes, ruãos,
des i os mercadeiros,
nom devem postremeiros
803
102
104
106
108
R6
110
112
seer; mais com’ irmãos,
todos alçand’ as mãos,
com corações sãos,
em esto companheiros
devem seer obreiros,
loand’ a Virgem santa,
que o demo quebranta
por nossa amparança.
Cantando e com dança
seja por nós loada
a Virgem corõada,
que é nossa ’sperança.
* * *
804
Cantigas de Santa Maria 410
«Quem Santa Maria servir»
(E (FSM) [0])
[Prólogo; cantiga de refrão].
Prólogo das cantigas das cinco festas de Santa Maria.
R0
2
I
6
E, porque eu gram sabor hei
de a servir, servi-la-ei,
e, quanto podér, punharei
d’ os seus miragres descobrir.
8
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
4
R1
II
12
Pero direi ant’, em bom som,
das sas cinque festas, que som
mui nobres, e direi razom
que praza a que-na oir.
14
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
10
R2
III
18
Santa Egreja ordinhou
cinque festas, porque achou
cinque letras no nome sou,
como vos quero depa[r]tir.
20
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
16
R3
IV
24
A primeira, que M [= eme] é,
mostra de com’ a nossa fé,
nacend’ ela, naceu, e sé
i firm’, a que-no comedir.
26
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
22
R4
V
30
A mostra a saudaçom
d’ Ave, que Gabriel entom
lhe disse que filho barom,
Deus e hom’, iria parir.
32
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
28
R5
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
VI
34
36
R [= erre] mostra como reinou
ontr’ as virges u amou
sa virgĩidad’ e guardou,
por toda bondade comprir.
805
R6
38
42
I, indo de bem em melhor,
foi ofrecer o salvador,
seu filh’, a Deus, com gram sabor,
de fazer-nos a ceo ir.
44
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
VII
40
R7
48
A ar mostrou carreira tal
u desta vida temporal
sobiu aa celestial
por nos fazer alá sobir.
50
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
VIII
46
R8
Quem Santa Maria servir,
nom pode no seu bem falir.
* * *
806
Cantigas de Santa Maria 411
«Beito foi o dia, e bem-aventurada»
(E (FSM) 1, U (FSM) 1)
Esta é a primeira, da nacença de Santa Maria, que cae no mês de setembro.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Beito foi o dia, | e bem-aventurada
a hora que a Virgem, | madre de Deus, foi nada.
E daquesta nacença | falou muit’ Isaía,
e profetando disse | que árvor sairia
bem da raiz de Jesse, | e que tal fror faria
que do Sant’ Espirito | de Deus fosse morada.
[Refrão = vv. 1-2]
Outros profetas muitos | daquesto profetarom,
e os evangelistas | desta senhor falarom
com’ era de gram guisa, | e dos reis ar contarom
do linhag’ onde vinha | esta senhor honrada.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Mas pero de seu padre, | que Joaquim chamado
foi, e sa madre Ana, | direi-vos seu estado:
quanto no mund’ houverom, | partirom, per recado
que, de quanto haviam, | nom lhes ficava nada.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Ca Joaquim e Ana | tal acordo preserom:
que fezerom três partes | de quant’ haver houverom:
a ũa pera pobres, | a outra reteverom
pera si, a terceira | ao templ’ era dada.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Enquant’ esta companha
Deus toda-las sas cousas
mas nom lhes dava filho,
muit’ end’ ele; mas ela |
28
30
| santa assi obrava,
| dous tant’ acrecentava;
| por que coitad’ andava
era ém mais coitada,
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
porque os rezõavam | por malditos as gentes.
E porém filhou ele | ofertas e presentes
que levass’ ao templo | com outros seus parentes;
mas Rubém e Simeom | vedarom-lh’ a entrada,
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
que lhe disserom logo: | “– Daqui entrar és quito,
Joaquim; porém vai-te, | pois de Deus és maldito,
que te nom quis dar filho, | ca assi é escrito;
40
807
42
porend’ entrar nom deves | em casa tam sagrada”.
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
El houve dest’ embargo | e vergonha tamanha
que nom foi a sa casa, | ne-no viu sa companha;
mas filhou seus gãados | e foi-s’ aa montanha,
assi que por gram tempo | nom fez ali tornada.
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
Ana, quando viu esto, | houvo tam gram despeito
que, com coita, chorando, | se deitou em seu leito,
e de grado morrera; | mas nom lh’ houve proveito,
ca Deus pera gram cousa | xa tiinha guardada.
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
E, ali u jazia | gemend’ e sospirando
e sa desaventura | a Deus muit’ ementando
de que era sem filhos | de Joaquim, chorando,
quis Deus que do seu ángeo | foss’ ela confortada;
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e disse-lhe: “– Nom temas, | Ana, ca Deus oída
a ta oraçom houve; | e porém, sem falida,
de teu marido filha | haverás, que comprida
será de todos bes | mais doutra, e preçada”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
E, pois lh’ est’ houve dito, | foi-s’ o ángeo logo
a Joaquim, que era | metudo no meogo
dũas grandes montanhas, | e disse-lh’: “– Eu te rogo
que tornes a ta casa | logo, sem alongada”.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
El, cuidando que era | home, respôs-lh’ atanto:
“– Com’ irei a mià terra, | u recebi quebranto
grand’ entre meus vezinhos, | que eu, palo Deus santo,
quisera que a testa | me foss’ ante talhada?:
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
ca à porta do templo | disserom-mi_os porteiros,
pois nom havia filhos | como meus companheiros,
nom entraria dentro, | nem aves nem cordeiros
nem rem de mià oferta | nom seria filhada;
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
e por esta vergonha | e por este dosto
fogi a esta terra, | e hei já assi posto:
que nunca alá torne; | e eno mês d’ agosto
haverá bem seis meses | que fiz aqui estada,
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
entr’ aquestas montanhas, | que é terra esquiva,
com estes meus gãados; | ca mais me val que viva
94
808
96
em logar apartado | que vida mui cativa
fazer entre miàs gentes, | vergonhos’ e viltada”.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
O ángeo lhe disse: | “– Eu söo mandadeiro
a ti de Deus do ceo, | por te fazer certeiro
que de ta molher Ana | haverás tal herdeiro
per que toda a terra | será enlumada;
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
e, se esto que digo | tes por maravilha,
certãamente cree | que te dará Deus filha
que o que perdeu Eva | per sa gram pecadilha,
cobrar-s’-á per aquesta, | que será avogada
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
entre Deus e as gentes | que forem pecadores;
porém vai-te ta via | e leixa teus pastores
que guardem teus gãados; | ca muito som maiores
de Deus as sas mercees | ca rem que foss’ osmada”.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
Quando Joaquim esto | oiu, log’ esmorido
caeu, e jouv’ em terra | fora de seu sentido
ates que o ánge- | -o foi dali partido,
que seus homes o forom | erger, sem detardada,
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
e que lhe preguntarom | logo o que houvera,
que tal peça em terra | esmorido jouvera.
E el contou-lhes quant’ o | ángeo lhe dissera;
e eles lhe disserom: | “– De vos ir é guisada
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
cousa, e nom passedes | de Deus seu mandamento,
e id’ a vossa casa | logo sem tardamento;
ca, se o nom fezerdes, | quiçai por escarmento
vos dará Deus tal morte | que será mui sõada”.
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
Tanto lh’ esto mostrarom | e per tantas razões
que lhes respôs chorando: | “– Pois que vos praz, varões,
farei vosso conselho; | mas, por Deus, companhões,
guardade-mi_os gãados | em aquesta malhada”.
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
E, pois lhes esto disse, | meteu-s’ aa carreira
por s’ ir pera sa casa | veer sa companheira,
que o beito ángeo | fezera já certeira
que Joaquim verria | pela porta dourada,
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
809
XXV
148
150
e que a el saísse | recebê-lo aginha,
ca Deus enas sas coitas | porria meezinha
e lhe daria filha | dele, tal que reinha
seria deste mundo | e dos ceos chamada.
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XXVI
154
Quand’ aquest’ oiu Ana, | que jazia gemendo
e sospirand’, ergeu-se | e foi alá correndo,
e levou seus parentes | sigo, com’ eu aprendo,
bem como se houvess’ a | casar outra vegada.
156
R26 157-158
[Refrão = vv. 1-2]
XXVII
160
E, pois viu seu marido, | obridou seus pesares,
e com muitas saúdes | e muitos abraçares
o acolheu mui leda, | e, pois, muitos manjares
lhe guisou, e sa casa | mui bem encortinhada,
162
R27 163-164
[Refrão = vv. 1-2]
XXVIII
166
na qual aquela noite, | est’ é cousa sabuda,
foi na beita Ana | a Virgem concebuda,
a que pelos profetas | nos fora prometuda
ante que esto fosse | mui gram sazom passada.
168
R28 169-170
[Refrão = vv. 1-2]
XXIX
172
E, logo que foi viva | no corpo de sa madre,
foi quita do pecado | que Adám, nosso padre,
fezera per conselho | daquel que, pero ladre
por nos levar consigo, | a porta lh’ é serrada
174
R29 175-176
[Refrão = vv. 1-2]
XXX
180
do inferno; ca esta | lhe pôs a serradura,
e abriu paraíso, | que per malaventura
serrou nossa madr’ Eva, | que com mui gram loucura
comeu daquela fruita | que Deus lh’ houve vedada.
182
Beito foi o dia, | e bem-aventurada
a hora que a Virgem, | madre de Deus, foi nada.
178
R30
* * *
810
Cantigas de Santa Maria 412 = 340
«Virgem madre groriosa»
(E 340, E (FSM) 2)
* * *
811
Cantigas de Santa Maria 413
«Tod’ aqueste mund’ a loar deveria»
(E (FSM) 3, U (FSM) 3)
Esta terceira é da virgĩidade de Santa Maria, e esta festa é no mês de dezembro, e feze-a
Sant’ Alifonso.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
Tod’ aqueste mund’ | a loar deveria
a virgĩidade | de Santa Maria.
Ca ela foi virgem | ena voontade,
e foi-o na carne | com tam gram bondade,
por que Deus do ceo | con sa deidade
em ela prês carne, | que El nom havia,
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
ond’ ela foi prenhe; |
ficou virgem, que foi
ca tant’ houve door |
que houvesse filho. |
10
12
mas como x’ ant’ era
| maravilha fera,
como x’ ant’ houvera
Que-no cuidaria
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
que aquestas cousas | de sũu juntadas
fossem e em corpo | de mulher achadas?:
que houvess’ as tetas | de leit’ avondadas,
e pariss’, e fosse | virgem todavia.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
Mas aquesta virgem | amou Deus atanto
que a emprenhou do | Espírito Santo,
sem prender end’ ela | dano nem espanto;
e bem semelha de | Deus tal drudaria.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
E desto vos mostro | prova verdadeira:
do sol quando fer dentro ena vidreira,
que, pero a passa, | em nulha maneira
nom fica britada | de como siía,
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
36
que, macar o vidro | do sol filha lume,
nulha rem a luz do | vidro nom consume.
Outrossi foi esto: | que, contra costume,
foi madre e virgem, | ca Deus xo queria.
38
Tod’ aqueste mund’ | a loar deveria
a virgĩidade | de Santa Maria.
34
R6
* * *
812
Cantigas de Santa Maria 414
«Como Deus é comprida Trĩidade»
(E (FSM) 4)
Esta quarta é da Trĩidade de Santa Maria.
I
1
3
5
7
8
II
10
12
14
16
III
18
20
22
24
IV
26
28
30
32
V
34
36
38
40
VI
42
44
46
48
Como Deus é comprida Trĩidade,
sem ader nem minguar de si nada,
éste cousa certa e mui provada:
três pessoas e ũa deidade.
Segund’ esto quero mostrar razom
per que sábiam quantos no mundo som
de como foi virgem Santa Maria
em três guisas dũa virgĩidade.
Ca ela foi virgem na voontade
e ena carn’ ante que fosse dada
a Josep[e], com que foi esposada;
e foi virgem tendo castidade;
e ar foi-o em aquela sazom
que foi prenh’ e pariu filho barom,
e ficou virgem como xe soía;
e assi forom três em unidade.
E porend’, amigos, mentes parade
e veredes obra muit’ ordinhada
de como Deus buscou carne sagrada
em que nos mostrasse humanidade
comprida de todo bem, e dal nom,
com que podesse pois sofrer paxom
e morrer, e viver a tercer dia,
e destruir o dem’ e sa maldade.
E macar é senhor, quis igualdade
com sa madre, a bem-aventurada;
ca, seendo sa filha e criada,
nom catou grandeza nem quantidade
de si a ela, mais filhou faiçom
d’ home na carne dela, e entom
foi filho da que el criad’ havia,
e da filha fez madr’: est’ é verdade.
E tant’ houv’ ela em si homildade
que dos ceos, u era sa morada,
o fez decer na sa santivigada
carne comprida de toda bondade,
em que El pose tam gram beiçom
e deu sa graça e dema[i]s tal dom
que quantos o dem’ enfermar fazia
recebessem per ela sãidade.
Porém lhe roguemos por piadade
que rog’ a Deus, de que ficou prenhada
quando foi do ángeo saudada,
que nos guarde de toda tempestade
que nos nom nuza, e ar d’ ocajom
e do demo cho de traiçom
que nos nom enarte com arlotia
que nos enarta, e com falsidade.
* * *
813
Cantigas de Santa Maria 415
«Tam beita foi a saudaçom»
(E (FSM) 5, U (FSM) 2)
Esta quinta é de como o ángeo Gabriel vo saudar a Santa Maria, e esta festa é no mês de
março.
E começa assi:
R0
2
I
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
6
Esta troux’ o ángeo Gabriel
a Santa Maria come fiel
mandadeiro, por que Emanuel
foi logo Deus e prês encarnaçom.
8
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
4
R1
II
12
Ca bem ali u lhe diss’ el “Avé”,
foi logo Deus home feit’, a-la-fé;
e, macar El atám poderos’ é,
ena Virgem foi enserrad’ entom.
14
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
10
R2
III
18
E u “Gratia plena” lhe dizer
foi o ángeo, nos fez conhocer
a Deus, que nom podíamos veer
ante; mais pois vimos bem sa faiçom.
20
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
16
R3
IV
24
E u lhe disse “Contigo é Deus”,
entom foi prenhe do que, po-los seus
salvar, quis morte prender per judeus,
por nos tirar da infernal prijom.
26
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
22
R4
V
30
E u lhe disse “Beita és tu
entr’ as molheres”, logo de Jesu-Cristo foi prenhe, que naceu pois u
três Reis lhe derom cada um seu dom.
32
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
28
R5
VI
34
36
R6
38
E u lhe disse “Beito será
aquel fruito que de ti nacerá”,
ali nos deu carreira por que já
houvéssemos sempre de Deus perdom.
Tam beita foi a saudaçom
per que nós vemos a salvaçom!
* * *
814
Cantigas de Santa Maria 416 = 210
«Muito foi noss’ amigo»
(E 210, E (FSM) 6, F [96])
* * *
815
Cantigas de Santa Maria 417
«Nobre dom e mui preçado foi Santa Maria dar»
(E (FSM) 7, U (FSM) 4)
Esta VII. é como Santa Maria levou seu filho ao templo e o ofereceu a Sam Simeom; e esta
festa é no mês de fevreiro.
E começa assi:
R0
2
I
6
Quem viu nunca tam preçada | cousa nem tam rico dom
como deu Santa Maria | no templ’ a Sam Simeom
quando lhe deu Jesu-Cristo, | seu filh’, em ofereçom,
que filhou el nos seus braços, | ledo, sobe-lo altar?
8
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
4
R1
II
12
Esto fez a santa Virgem, | pois que o tempo compriu,
que forom quaranta dias | des que seu filho pariu,
e porém segund’ a lee | no templo o oferiu
com duas tórtores mansas | e de paombas um par.
14
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
10
R2
III
18
Simeom, aquel sant’ home | a que o foi oferer,
sempr’ a Deus esto pedia: | que, ante que a morrer
houvesse, que lhe leixasse | El o seu filho veer,
que a enviar havia | pera o mundo salvar.
20
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
16
R3
IV
24
Logo que viu o meninho, | enos braços o filhou,
e, beijando-lhe os pees, | com alegria chorou
dizendo: “– Pois este vejo, | Deus, que viver me leixou
trões aqui, bem me pode | des hoimais em paz levar;
26
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
22
R4
V
30
pois que veem os meus olhos | a ti, que és salvador
daqueles que t’ asperamos, | e d’ Irrael guardador,
e que Deus comprid’ e home | és, e do mundo senhor,
te rogo que me nom queiras | hoimais no mundo leixar”.
32
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
28
R5
Nobre dom e mui preçado | foi Santa Maria dar
a Deus quando lh’ o seu filho | foi no templo presentar.
* * *
816
Cantigas de Santa Maria 418
«Os sete dões que dá»
(E (FSM) 8)
R0
2
I
6
E daquestes sete dões | vos quer’ ora departir
como os deu a sa madre, | por que quanto-lo oir
forem, punhem em servi-la | e se guardem de falir,
por que sa mercee hajam; | ca beit’ é que-na há.
8
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
4
R1
II
10
12
R2
14
III
20
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
22
24
26
V
28
30
R5
32
VI
34
36
R6
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
18
IV
R4
O primeiro destes sete | dões é pera saber
todo bem compridamente, | por fazer a Deus prazer;
aqueste Santa Maria | houv’ em si, por que prender
vo Deus em ela carne, | com que nos pois julgará.
D’ entendemento mui grande, | este o segundo é;
aqueste Santa Maria | houv’ em si, per bõa fé,
por que fez dela sa madre | Deus, e cabo dele sé
nos ceos, onde sa graça | envia a nós acá.
16
R3
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
38
O terceiro de conselho | ést’, e com mui gram razom
o houve Santa Maria; | porque quantas ora som
molheres nem forom ante | nom houverom beiçom
de Deus com’ aquesta houve, | nem outra nom haverá.
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
O quarto é fortaleza; | e aquesta houv’ em si
tam grande per que o demo | perdeu seu poder dali
u Deus em ela prês carne | e foi home, ca des i
foi britad’ e mal apreso, | e jamais nom cobrará.
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
O quinto dom é ciente, |
a Virgem Santa Maria, |
quando lh’ o ángeo disse
seria madr’, e diss’ ela: |
que houve grand’ e bom sém
que a fez responder bem
| que do que todo mantém
“– Por serva m[e] achará”.
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
817
VII
40
42
R7
44
VIII
46
48
R8
50
IX
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
O sétimo destes dões | é haver de Deus temor;
aquest’ houv a groriosa, | pero sempre com amor;
e por aquesto foi ela | madre de Nostro Senhor
Jesu-Cristo, Deus e home, | que por sempre reinará.
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
54
Onde por aquestes sete | dões lhe devemos dar
loores, e ar rogar-lhe | que nos faça perdõar
a seu filho os pecados, | e que nos guarde d’ errar,
de guisa que no seu reino | vivamos com El alá.
56
Os sete dões que dá
Deus, a sa madr’ os deu já.
52
R9
O sesto dom piadade | é, que houv’ e há, de pram,
a quantos nas grandes coitas | a chamam e chamarám;
e porém Santa Maria | os pecadore-la ham
ante Deus por avogada, | e por sempr’ assi será.
* * *
818
Cantigas de Santa Maria 419
«Des quando Deus sa madre aos ceos levou»
(E (FSM) 9, U (FSM) 5)
Esta IX é da vigília de Santa Maria d’ agosto, como ela passou deste mundo e foi levada ao
ceo; e esta festa é no mês d’ agosto meiante.
E começa assi:
R0
2
I
4
6
R1
7-8
II
10
12
Des quando Deus sa madre | aos ceos levou,
de nos levar consigo | carreira nos mostrou.
Ca, pois levou aquela | que nos deu por senhor
e El filhou por madre, | mostrou-nos que amor
mui grande nos havia, | nom podia maior,
ca pera o seu reino | logo nos convidou.
[Refrão = vv. 1-2]
Mas como passou ela | deste mundo, contar
vos quer’, e em qual guisa | a vo Deus levar
consigo ao ceo, | u a foi corõar
por reinha dos santos: | tam muito a honrou.
R2 13-14
[Refrão = vv. 1-2]
III
Assi foi que o dia | que Deus morte prendeu,
a sa beita madre | viu quanto padeceu
na cruz por nós; e logo | tal pesar recebeu
que a filhou quartãa, | que nunca ém sãou.
16
18
R3 19-20
[Refrão = vv. 1-2]
IV
E depois morou sempre | dentr’ em Jerusalém,
e nom vinha a ela | enfermo que log’ ém
são se nom partisse; | mas a ela, per rem,
nom leixou a quartãa | ates que finou.
22
24
R4 25-26
[Refrão = vv. 1-2]
V
Mas no templ’ u estava | a comprida de fé,
um ángeo lhe disse: | “– Madre de Deus, avé:
o teu filho te manda | dizer que já temp’ é
que leixes este mundo | mao u t’ El leixou”.
28
30
R5 31-32
[Refrão = vv. 1-2]
VI
E um ramo de palma | lhe deu log’ em sinal
que dend’ a tercer dia | (nom haveria al)
que verria por ela | o rei espirital,
seu filho Jesu-Cristo, | que em ela_encarnou.
34
36
R6 37-38
[Refrão = vv. 1-2]
VII
Disso-lh’ a Santa Virgem: | “– Senhor, e qual nom’ hás?”
O ángeo respôs-lhe: | “– Esto nom saberás,
40
819
42
ca meu nom’ é mui grande; | mas cedo veerás
os apóstolos tigo, | que Deus vĩir mandou
R7 43-44
[Refrão = vv. 1-2]
VIII
por honrar-t’ em ta morte”. | E foi-se log’ entom
o ángeo. E ela | foi fazer oraçom
bem a Mont’ Olivete, | u aquela sazom
morava; e tantoste | em seu banho entrou,
46
48
R8 49-50
[Refrão = vv. 1-2]
IX
e vestiu os melhores | panos que pôd’ haver;
e Sam Joám fez logo | chamar, e a dizer
lhe começou seu feito: | de como a veer
o ángeo vera | que lhe Deus enviou;
52
54
R9 55-56
[Refrão = vv. 1-2]
X
e disse-lhe chorando: “– Nembre-te, Sam Joám,
de com’ em ta comenda | o do mui bom talám
me leixou, o meu filho; | porém, guardar, de pram,
me deves em mià morte, | pois te mi_acomendou;
58
60
R10 61-62
[Refrão = vv. 1-2]
XI
e, com’ eu hei oído, | estes maos judeus,
que matarom meu filho | como falsos encreus,
meaçam de queimarem | a carn’ e estes meus
ossos pois for passada: | um deles mi_o contou”.
64
66
R11 67-68
[Refrão = vv. 1-2]
XII
Enquant’ eles em esto | falavam entre si,
ũas nuves mui craras | adusserom log’ i
os apóstolos onze; | e nom vo ali
Santo Tomás com eles, | ca chegar nom oviou.
70
72
R12 73-74
[Refrão = vv. 1-2]
XIII
E logo que chegarom, | com’ a_Escritura diz,
os recebeu mui leda | a santa ’mperadriz
e disso-lhes: “– Amigos, | este dia fiiz
foi que Deus vos adusse | aqui e vos juntou;
76
78
R13 79-80
[Refrão = vv. 1-2]
XIV
e, pois juntados sodes, | esto vos rogarei:
que vigiedes migo; | ca eu de certo sei
que crás em aquel dia | deste mundo m’ irei,
ca um ángeo santo | comig’ esto falou”.
82
84
R14 85-86
[Refrão = vv. 1-2]
XV
Eles, quand’ est’ oírom, | chorarom log’ assaz;
pois disserom: “– Faremos, | senhor, o que vos praz”.
E rezarom seus salmos | com’ ena lee jaz;
e ela em seu leito | ant’ eles se deitou.
88
90
R15 91-92
[Refrão = vv. 1-2]
XVI
Outro dia Sam Pedro | a voz de Deus oiu
820
94
96
que lhes diss: “– Aqui sõo | vosc’”. E logo sentiu
tod’ aquela companha | mui bom odor, e viu
claridade, que todo | o log’ enlumeou.
R16 97-98
[Refrão = vv. 1-2]
XVII
Mas a hora de sesta | direi-vo-lo que fez
Deus, que foi Padr’ e filho | desta Virgem de prez:
vo levar-lh’ a alma, | que El já outra vez
lhe metera no corpo, | u a santivigou.
100
102
R17 103-104
[Refrão = vv. 1-2]
XVIII
106
E disso a Sam Pedro: | “– Direi-ch’ o que farás:
pois mià madr’ é finada, | nom esperes a crás,
mas enterra seu corpo | no Val de Josafás,
em atal sepultura | com’ ela t’ ensinou”.
108
R18 109-110
[Refrão = vv. 1-2]
XIX
Esto foi em agosto, | em meiante do mês,
que Jesu-Crist’ a alma | de sua madre prês;
e o corpo Sam Pedro | filhou com set’ e três
apóstolos e em Jo- | -safá-lo enterrou.
112
114
R19 115-116
[Refrão = vv. 1-2]
XX
E, poi-la enterrarom | em sepulcro mui bel,
forom-s’ aa cidade; | mas logo Sam Miguel
levou o corpo dela | com outro gram tropel
d’ ángeos que verom, | e cada um cantou.
118
120
R20 121-122
[Refrão = vv. 1-2]
XXI
Eles indo cantando, | Santo Tomás subir
os viu, que Deus fezera | ena nuve vĩir;
e viu Santa Maria | entr’ eles todos ir,
e, por saber quem era, | logo lhes preguntou.
124
126
R21 127-128
[Refrão = vv. 1-2]
XXII
E ela respondeu-lhe: | “– Tomás, amigo meu,
a mià alma meu filho | levou, bem ti dig’ eu,
e meu corp’ ora levam | pera o reino seu
estes ángeos santos, | e com eles me vou”.
130
132
R22 133-134
[Refrão = vv. 1-2]
XXIII
136
E Sam Tomás lhe disse: | “– Senhor, mui m’ é mester,
por que creúdo seja | desto, se vos prouguer,
que algum sinal haja, | que, quando o disser,
que eu amostrar possa”. | E ela lhe lançou
138
R23 139-140
[Refrão = vv. 1-2]
XXIV
142
a cinta que cingia, | que vos nom foi dom vil,
ant’ era mui bem feita | e d’ obra mui sotil.
E el deu end’ a ela | porém loores mil,
e, sa cinta na mão, | aa vila chegou.
144
R24 145-146
[Refrão = vv. 1-2]
821
XXV
148
150
Os onze, poi-lo virom, | disserom: “– Tol-t’ alá,
e, que te Deus nom ama, | gram mostra ch’ ém feit’ há,
que nom viste sa madre | morrer, nem fust’ acá
u a nós soterramos: | tanto te despreçou”.
R25 151-152
[Refrão = vv. 1-2]
XXVI
154
Santo Tomás, chorando, | respondeu-lhes adur:
“– Dized’ u a metestes; | mas sei eu que nenlhur
achar no-na podedes, | quant’ o bretom Artur,
ca eu a vi na nuve | subir, e me chamou;
156
R26 157-158
[Refrão = vv. 1-2]
XXVII
160
e, porque me creades, | esta cinta me quis
dar, e que de seu feito | sejades todos fis
que eu vi o seu corpo | mui mais branco ca lis
ir subind’ aos ceos, | e mui pouc’ i tardou”.
162
R27 163-154
[Refrão = vv. 1-2]
XXVIII
166
Entom disse Sam Pedro: | “– Tenho que será prol
d’ irmos provar aquesto | que nos diz este fol;
e, se nom for verdade, | ũa folha de col
nom demos mais por ele, | ca sempr’ este dultou”.
168
R28 169-170
[Refrão = vv. 1-2]
XXIX
172
Entom forom dizendo: | “– Mentira nos aduz”.
E catarom a fossa | daquela que na cruz
viu morrer o seu filho; | mas pero, senom luz,
nulha rem nom acharom. | E muito se sinou
174
R29 175-176
[Refrão = vv. 1-2]
XXX
180
Sam Pedro, e os outros | todos a ũa voz
em terra se deitarom, | pedindo por Aioz
perdom a Santo Tomas; | e diss’ el: “– ũa noz
nom daria por esto, | pois com verdad’ estou”.
182
Des quando Deus sa madre | aos ceos levou,
de nos levar consigo | carreira nos mostrou.
178
R30
* * *
822
Cantigas de Santa Maria 420
«Beita és, Maria, filha, madr’ e criada»
(E (FSM) 10)
Esta décima é no dia, aa processom, como as processões do ceo receberom a Santa Maria
quando sobiu aos ceos.
I
2
4
6
8
10
12
II
14
16
18
20
22
24
III
26
28
30
32
34
36
IV
38
40
42
Beita és, Maria, | filha, madr’ e criada
de Deus, teu padr’ e filho: | est’ é cousa provada.
Beita foi a hora | em que tu gerada
fuste, e a ta alma | de Deus santivigada;
e beito [o dia] | em que, pois, fuste nada,
e d’ Adám o pecado | quita e perdõada;
e beito-los panos | u fust’ envurulhada,
e outrossi a teta | que houviste mamada;
e beita a água | em que fuste banhada,
e a santa vianda | de que fust’ avondada;
e beita a fala | que houviste falada,
e outrossi a letra | de que fust’ ensinada.
E beita a casa | u feziste morada,
e outrossi o tempro | u fuste presentada;
e beita a seda | que houviste fiada,
e outrossi a obra | que end’ houv[i]ste_obrada;
e beita u fuste | com Josep’ esposada,
nom que tigo casasse, mas del fosses guardada;
e beita a hora | u fuste saudada
pelo ángeo santo, | e ar de Deus prenhada;
e beita a culpa | de que fust’ acusada,
onde ficaste quita | e santa e salvada;
e beita_a ta carne | em que jouv’ enserrada
a de teu filho Cristo | e feita e formada.
E beita u fust[e] | a Beleém chegada
e, por parir teu filho, | ena cova entrada;
beita u pariste | hom’ e Deus sem tardada,
sem door que houvesses | del, nem fosses coitada;
e beita a tua | virgindade sagrada,
que ficou como x’ era | ant’, e nom foi danada;
beita a ta leite | onde foi governada
a carne de teu filho | e creçud’ e uviada;
beita-las tas mãos | com que foi faagada
a sa pessõa santa | e bem-aventurada;
beita foi a vida | que, pois, com El usada
houviste, macar fuste | mui pobr’ e lazerada.
E beita, beita | u houvist’ acabada
a vida deste mundo | e del fuste passada;
e beita u vo | a ti, a ta pousada,
teu filho Jesu-Cristo, | e per El foi tomada
a ta alma beita | e do corpo tirada,
que a Sam Miguel houve | tantost’ acomendada;
beita a companha | que t’ houv’ acompanhada,
823
44
46
48
V
50
52
54
56
58
60
VI
d’ ángeos mui fremosos | precissom ordinhada;
e beita a outra | d’ arcángeos honrada
que te receber vo, | de que fuste loada;
e beita a hoste | que «Tronos» é chamada
e «Dominationes», | que te foi enviada.
Beita u houviste, | em sobind’, encontrada
Príncepes, Podestades, | deles grand’ az parada;
beita u Querubim | e Serafim achada
t’ houverom, ca tantoste | deles fust’ aorada;
e beita u fuste | das vertudes cercada
dos ceos, e per eles | a ta loor cantada;
beita u teu filho | vo apressurada-ment’ a ti muit’ aginha | com toda sa masnada;
beita u El disse | aos santos: “– Leixada
logo seja mià madr[e] | a mi, ca vem cansada”;
beita u t’ El houve | dos braços abraçada;
e tu com piedade | sobr’ El fuste_acostada.
72
Beita u os santos | em mui gram voz alçada
disserom: “– Bem venhades, | senhor mui desejada”;
beita u teu filho | a Deus t’ houve mostrada
dizendo: “– Padr’, aquesta | madre m’ houviste dada”;
beita u Deus quis[o] | que ta carne juntada
fosse co-na ta alma | e per El corõada.
Beita és por esto, | amiga e amada
de Deus e ar dos santos, | e nossa avogada.
E porende, beita, | te rog’ eu aficada-ment[e] que a ta graça | me seja outorgada,
por que a ta mercee | beita mui grãada
haja em este mundo, | e me dés por soldada
74
que, quando a mi’ alma | daqui fezer jornada,
que a porta do ceo | nom lhe seja vedada.
62
64
66
68
70
F
* * *
824
Cantigas de Santa Maria 421
«Nembre-se-te, madre»
(E (FSM) 11)
Esta XI, em outro dia de Santa Maria, é de como lhe venha emente de nós ao dia do joízo e
rogue a seu filho que nos haja mercee.
1
3
5
7
9
11
13
15
17
19
21
23
25
27
29
Nembre-se-te, madre
de Deus, Maria,
que a El, teu padre,
rogues todavia
(pois estás em sa companhia
e és aquela que nos guia)
que, pois nos Ele fazer quis,
sempre, noit’ e dia,
nos guarde, per que sejamos fis
que sa felonia
nom nos mostrar queira,
mais dé-nos enteira
a sa grãada mercee,
pois nossa fraqueza vee
e nossa folia
com ousadia,
que no[s] desvia
da bõa via
que levaria
nós u devia,
u nos daria
sempr’ alegria,
que nom falria
nem menguaria,
mas creceria
e pojaria
e compriria
e ’ncimaria
a nós.
* * *
825
Cantigas de Santa Maria 422
«Madre de Deus, ora»
(E (FSM) 12, U 100)
Esta XII é de como Santa Maria rogue por nós a seu filho eno dia do joízo.
R0
2
I
4
R1
6
II
8
R2
10
III
12
R3
14
IV
16
R4
18
V
20
R5
22
VI
24
R6
26
VII
28
R7
30
VIII
32
R8
34
IX
U verrá na carne | que quis filhar de ti, madre,
joigá-lo mundo | co-no poder de seu Padre,
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E u El a todos | parecerá mui sanhudo,
entom fás-lh’ emente | de como foi concebudo:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E em aquel dia, | quand’ Ele for mais irado,
fais-lhe tu emente | com’ em ti foi enserrado:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U verás dos santos | as companhas espantadas,
mostra-lh’ as tas tetas | santas que houv’ El mamadas:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U ao joízo | todos, per com’ é escrito,
verrám, di-lhi como | com El fogist’ a Egito:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U leixarám todos | os viços e as requezas,
di-lhe que sofriste | com Ele muitas pobrezas:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U queimará fogo | serras e vales e montes,
di com’ em Egito | nom achast’ águas nem fontes:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U verás os ángeos | estar ant’ Ele tremendo,
di-lhe quantas vezes | o tu andast’ ascondendo:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
38
U dirám as trompas | “– Mortos, levade-vos logo!”,
di-lh’ u o perdiste, | que ta coita nom foi jogo:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
40
U será o aire | de fog’ e de sufr’ aceso,
di-lh’ a mui gram coita | que houviste pois foi preso:
36
R9
Madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
X
826
R10
42
XI
44
R11
46
XII
48
R12
50
XIII
52
R13
54
XIV
56
R14
58
XV
60
R15
62
XVI
64
R16
66
XVII
68
R17
70
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U verrá do ceo | sõo mui fort’ e rogido,
di-lh’ o que sofriste | u d’ açoutes foi ferido:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
U terrám escrito | nas frontes quanto fezerom,
di-lh’ o que sofriste | quand’ o ena cruz poserom:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E quando s’ iguarem | montes e vales e chãos,
di-lh’ o que sentiste | u lhe pregarom as mãos:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E u o sol craro | tornar mui negro de medo,
di-lh’ o que sentiste | u beveu fel e azedo:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E du o mar grande | perderá sa semelhança,
di-lh’ o que sofriste | u lhe derom co-na lança:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E u as estrelas | caerem do firmamento,
di-lh’ o que sentiste _u | foi posto no monumento:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
E du o inferno | levar os que mal obrarom,
di-lh’ o que sentiste | u o sepulcro guardarom:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
XVIII
72
R18
74
E u todo-los reis | forem ant’ El homildosos,
di-lhe como ves | deles dos mais poderosos:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
XIX
E u mostrar Ele | tod’ estes grandes pavores,
fás com’ avogada: | tem voz de nós, pecadores:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora,
76
R19
78
XX
80
R20
82
que polos teus rogos | nos lev’ ao paraíso
seu, u alegria | hajamos por sempr’ e riso:
madre de Deus, ora
por nós teu filh’ essa hora.
* * *
827
Cantigas de Santa Maria 423
«Como podemos a Deus gradecer»
(U [FJC] 1)
Pois que el-rei fez cinco cantigas das cinco festas de Santa Maria, teve por bem de fazer outras cinco cantigas das cinco festas de Nostro Senhor Jesu-Cristo.
Esta primeira é de com’ El fez o ceo e a terra e o mar e o sol e a lũa e as estrelas e toda-las
outras cousas que som, e como fez o home a sa semelhança.
R0
2
I
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
6
Por nós fez El ceo, terra e mar,
ca pera si no-n’ havia mester;
e quem aquesto creer nom quiser,
a piedade de Deus quer negar.
8
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
4
R1
II
12
De com’ El fez a luz e a criou,
bem semelha seu feit’, amigos meus;
pero ma[i]s foi u, por salvá-los seus,
o seu lume na Virgem enserrou.
14
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
10
R2
III
18
E u os ceos fez e estendeu,
bem semelha obra de mui gram sém;
mas maior foi, a que-no catar bem,
u, por ser home, deles decendeu.
20
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
16
R3
IV
24
E u a terra fez, mostrou bem qual
poder havia; mas quem comidir,
por mais terrá u, por nos remiir,
andou em ela e sofreu gram mal.
26
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
22
R4
30
E u a lũa e o sol, que luz,
criou, grand’ obra e mui nobre fez;
pero mais foi u chus negros ca pez
tornarom u por nós prês mort’ em cruz.
32
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
34
E u as ’strelas fez, de certo sei
que em fazê-las nom filhou afám;
V
28
R5
VI
828
36
pero mais foi u per elas, a pram,
dos [três] Reis foi aorado por rei.
38
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
R6
VII
42
E u os peixes, per com’ aprendi,
criou das águas, com’ escrito jaz,
gram cousa foi; mas mui maior assaz
u sobr’ elas andou por nós aqui.
44
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
40
R7
VIII
48
E u as aves, com’ El por bem viu,
que voassem no air[e] fazer quis,
muito foi; mas desto vos faço fis:
que mais fez por nós u per el subiu.
50
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
46
R8
IX
54
E [u] bêstias, com’ o escrito diz,
fez de naturas muitas mais ca mil,
muito foi; pero mais u eno vil
presev’ ontr’ elas jouvo mui fiiz.
56
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
52
R9
X
60
E u fez [o] hom’ apost’ e mui bel,
a que deu entendiment’ e razom,
muito foi; pero mais u prês paxom
po-lo salvar, e morte mui cruel.
62
Como podemos a Deus gradecer
quantos bes El por nós foi fazer?
58
R10
* * *
829
Cantigas de Santa Maria 424
«Pois que dos reis Nostro Senhor»
(T [0], U [FJC] 2)
Esta segunda é de como os três Reis Magos verom a Beleém aorar a Nostro Senhor JesuCristo e lhe ofererom seus dões.
R0
2
4
I
6
8
10
12
R1
14
16
II
18
20
22
24
R2
26
28
III
30
32
34
36
R3
38
40
IV
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
Esto foi quand’ em Beleém
de Santa Maria naceu
e a treze dias des ém
aos três Reis apareceu,
que cada ũu per seu sém
ena estrela conhoceu
com’ era Deus rei; e porém
de longe o forom veer,
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
bem das ínsoas de Sabá
e de Tarso, que som no mar,
e d’ Arábia, u gram gent’ há
e muitas terras de passar;
mas pero eram long’ alá,
mui toste os fezo chegar
a Beleém aquel que há
sobre todas cousas poder.
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
Ena estrela lhes mostrou
com’ era hom’ e rei e Deus;
porém cada um lhe levou
oferta dos tesouros seus.
E a estrela os guiou
até na terra dos judeus,
u Herodes lhes demandou:
“ – Que vestes aqui fazer?”
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
Eles responderom-lh’ assi:
830
42
44
46
48
R4
50
52
V
54
56
58
60
R5
62
64
VI
66
68
70
72
R6
74
76
VII
78
80
82
84
R7
86
88
“ – Na estrela vimos que rei
mui nobre nacera aqui,
senhor dos judeus e da Lei”.
Diss’ Herodes: “ – Creed’ a mi,
ca bom conselho vos darei:
id’, e pois tornardes des i,
ar i-lo-ei eu conhocer”.
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
Eles forom-se log’ entom
e virom a estrela ir
ante si de mui gram random,
e começaro-n’ a seguir;
mas quand’ em Beleém foi, nom
se quis de sobr’ ela partir,
atá que entraron u Dom
Jesu-Cristo virom seer
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
nos braços da que muit’ afám
sofreu com El e muito mal.
E eles logo manamám
derom-lhe sa oferta tal:
ouro (de que aos reis dam),
encenso (por espirital),
mirra (de que os mortos vam
ungir por nunca podrecer).
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
Esto, ca nom maravidis,
ofererom a Deu-los Reis;
porend’ assi os guardar quis
aquele que juntou as leis,
que per sonhos os fez bem fis,
que sonharom vel cinc’ ou seis
vezes que fossem a Tarsis
passá-lo mar por guarecer.
Pois que dos reis Nostro Senhor
quis de seu linhage decer,
com razom lhes fez est’ amor:
em que lhes foi aparecer.
* * *
831
Cantigas de Santa Maria 425
«Alegria, alegria»
(U [FJC] 3)
Esta terceira é como Nostro Senhor resurgiu e como se mostrou aos apóstolos e aas três
Marias.
R0
2
I
6
Mui grand’ alegria fazer
devemos, ca Deus quis morrer
por nós, e a morte vencer
morrendo, que nos vencia.
8
Alegria, alegria
façamos já todavia!
4
R1
II
12
Quem tam grand’ alegria viu
com’ esta? Ca nos reemiu
Deus por sa mort’ e resurgiu
do sepulcr’ a tercer dia.
14
Alegria, alegria
façamos já todavia!
10
R2
III
18
Grand’ alegria nos creceu
quando do ceo decendeu
o ángeo, e que tremeu
a terra u el decia.
20
Alegria, alegria
façamos já todavia!
16
R3
IV
24
Grand’ alegria nos deu Deus
quando com pavor os judeus
do ángeo, esses encreus,
cada um deles caía.
26
Alegria, alegria
façamos já todavia!
22
R4
V
30
Grand’ alegria, a-la-fé,
foi pois Maria Salomé
e Jacobe com aloé
e Madalena Maria,
32
Alegria, alegria
façamos já todavia!
28
R5
VI
34
36
R6
Alegria, alegria
façamos já todavia!
mui grand’ alegria nos dar
foi Deus u o forom buscar
ao mõiment’, e achar
niũa delas podia.
Alegria, alegria
832
38
VII
42
Grand’ alegria houv’ ali
entom quando lhes diss’ assi
o ángeo: “– Nom ést’ aqui”,
que sobr’ a pedra seía.
44
Alegria, alegria
façamos já todavia!
40
R7
VIII
48
Grand’ alegria, sem mentir,
foi u lhes disse: “– Resurgir
quis Jesu-Crist’, e se vos ir
queredes u El dizia,
50
Alegria, alegria
façamos já todavia!
46
R8
IX
54
grand’ alegria vos será,
ca o veeredes alá
em Galilea, u está
segund’ vos El dit’ havia”.
56
Alegria, alegria
façamos já todavia!
52
R9
X
60
Alegria de coraçom
houverom elas. E entom
forom alá, e Simeom
Pedr’ i foi, a que prazia.
62
Alegria, alegria
façamos já todavia!
58
R10
XI
66
Mai-la alegria maior
foi a da madre do Senhor
que resurgiu, e gram sabor,
porque viu o que creía.
68
Alegria, alegria
façamos já todavia!
64
R11
façamos já todavia!
* * *
833
Cantigas de Santa Maria 426
«Subiu ao ceo o filho de Deus»
(U [FJC] 4)
Esta quarta é como Nostro Senhor subiu aos ceos [a]nte seus dicípolos.
R0
2
I
4
6
Subiu ao ceo o filho de Deus
por dar paraís’ aos amigos seus.
Subiu ao ceo, onde quis decer
em terra por nós, e da Virgem nacer,
e depois paixom e morte foi prender
mui forte na cruz per mão dos judeus.
R1 7-8
[Refrão = vv. 1-2]
II
Onde foi assi que em Jerusalém
teve sa gram festa, como senhor tem,
com sa companha; e, pois comerom bem,
trouxe-os mui mal porque eram encreus:
10
12
R2 13-14 [Refrão = vv. 1-2]
III
16
18
porque nom quiserom creer nem oir
os que o viram de morte resurgir.
Porend’ ant’ eles aos ceos subir
quis, segundo conta[m] Marcos e Mateus.
R3 19-20 [Refrão = vv. 1-2]
IV
22
24
Mas ante lhes disse: “ – Ide preegar
o meu evangeo per cada logar,
e quantos creverem e se batiçar
quiserem de grado, logo serám meus.
R4 25-26 [Refrão = vv. 1-2]
V
28
30
Os que nom creverem, perdudos serám;
mai-los outros os diabres deitarám
dos homees, e lenguages falarám
mais que aqueles que albergam romeus;
R5 31-32 [Refrão = vv. 1-2]
VI
34
36
nem lhes nuzirá se beverem poçom,
e guarrám de todo mal e de lijom
aos enfermos.” E aqueste sermom
fez em Mont’ Olivete ant’ os hebreus.
R6 37-38 [Refrão = vv. 1-2]
VII
40
42
Pois est’ houve dito, nas nuves subiu,
e a gent’ aos ceos subi-lo viu,
que a voz dos ángeos logo oiu
que lhes diss’ assi: “ – Varões galileus,
834
R7 43-44 [Refrão = vv. 1-2]
VIII
48
ena maneira que o vedes dacá
subir ao ceo, bem assi verrá
joigá-lo mund’, e os mortos fará
resurgir, que nom creem os fariseus”.
50
Subiu ao ceo o filho de Deus
por dar paraís’ aos amigos seus.
46
R8
* * *
835
Cantigas de Santa Maria 427
«Todo-los bes que nos Deus»
(U [FJC] 5)
Esta quinta é como Nostro Senhor enviou o seu Sant’ Isprito sobre-los seus dicípolos.
R0
1
3
5
I
7
9
R1
10-14
II
16
18
R2
19-23
III
25
27
R3
28-32
IV
34
36
R4
37-41
V
43
45
R5
46-50
VI
52
54
R6
55-59
Todo-los bes que nos Deus
quis fazer polo Filho seu,
nos compriu quando aos seus
o seu Sant’ Espírito deu
que prometeu.
Ca per El o sabemos conhocer,
e, conhocendo, amar e temer,
e, demais, dá-nos grand’ esforço de prender
morte por El, nembrando-nos de com’ El por nós morreu.
[Refrão = vv. 1-5]
E porende vos quer’ ora dizer
com’ est’ Espírito fezo decer
Deus sobre-los seus dicípolos, que seer
dessuu fez, por que cada um gram sém del recebeu.
[Refrão = vv. 1-5]
Muitas vezes lhes fora prometer
Deus que per seu Espírito saber
lhes faria toda-las cousas entender
melhor que nunca sage em todo o mund’ aprendeu.
[Refrão = vv. 1-5]
E porend’ os dicípolos meter
se foram dessuu e atender
em ua casa por aquel dom receber;
e estand’ ali, direi-vos eu o que lhes conteceu.
[Refrão = vv. 1-5]
A terça começou muit’ a tremer
a terra, e som come de caer
o aire fez; e entom virom decender
línguas de fogo sobre si, que os todos encendeu
[Refrão = vv. 1-5]
d’ Espírito; e dali sem lezer
se saírom sem rem se deteer,
e pela vila se filharom a correr;
e diziam por eles: “ – Aquesta gent’ ensandeceu;
[Refrão = vv. 1-5]
836
VII
61
63
R7
64-68
VIII
70
72
R8
73-77
IX
79
81
R9
82-86
X
88
90
R10
91-95
XI
97
99
R11
100-104
XII
106
108
R12
109
110
113
ca sabemos que nom sabem leer
nem ar houverom tempo d’ aprender,
e falam todos lenguages, e responder
sabem melhor a toda rem que aquel que mais leeu.
[Refrão = vv. 1-5]
E por esto nom devemos creer
que o vinho lhes faz esto fazer,
mai-la vertude daquel Deus que há poder
de fazer que os lenguages entendam, que cofondeu
[Refrão = vv. 1-5]
em Babilonha, u forom erger
a torre que podessem atanger
bem so aos ceos; mais foi-lhes Deus tolher
os lenguages, assi que um a outro nom entendeu”.
[Refrão = vv. 1-5]
E dali adeante, sem temer,
souberom preegar e retraer
os dicípolos, e as gentes converter
a Jesu-Crist’, e cada um deles muitos converteu.
[Refrão = vv. 1-5]
E muitas coitas ar forom sofrer
por El e, ’ncima, morte padecer;
e em tal guisa quis Nostro Senhor vencer
o demo pelos seus, e aqueste mundo conquereu.
[Refrão = vv. 1-5]
E nós roguemos a que gram prazer
viu de seu Filho quando a põer
foi enos ceos a par de si, que haver
nos faça del o Sant’ Espírito, pois dela naceu.
Todo-los bes que nos Deus
quis fazer polo Filho seu,
nos compriu quando aos seus
o seu Sant’ Espírito deu
que prometeu.
* * *
* * *
837