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O Pessoa de Passo e Fico, como o Universo, de Joaquim Pinto da Silva

2019
Francisco Miguel  Valada

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O Pessoa de Passo e Fico, como o Universo, de Joaquim Pinto da Silva

O Pessoa de Passo e Fico, como o Universo, de Joaquim Pinto da Silva

    Francisco Miguel  Valada
O Pessoa de Passo e Fico, como o Universo, de Joaquim Pinto da Silva por Francisco Miguel Valada Apresentação de Passo e Fico como o Universo – Fernando Pessoa, 30 Anos em Bruxelas, de Joaquim Pinto da Silva, Press Club Brussels Europe, Bruxelas, 10 de Dezembro de 2019 Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus. —Alberto Caeiro [i] Aristoteles wurde geboren, arbeitete und starb. Wenden wir uns also seinem Denken zu. — Martin Heidegger [ii] *** Intróito Este convite de Joaquim Pinto da Silva permite-me tornar pública uma articulação que sempre gostei de fazer entre este desabafo de Alberto Caeiro (mestre de Fernando Pessoa, de Ricardo Reis e de Bernardo Soares, cf. Bloom, 1994: 486 [iii]) e a introdução de Heidegger a um seminário de Aristóteles (fonte: H. Arendt), chamando a atenção para aquilo que tem interesse público: Aristóteles nasceu, trabalhou e morreu – passemos agora ao seu pensamento. Quem conhecer esta pérola de Caeiro sabe que se trata da introdução a uma autobiografia contada a alta velocidade, em abstracto e com um forte apelo aos sentidos, com pinceladas muito gerais, não contando nada em concreto. Como em Aristóteles, para Heidegger, o concreto que conta é o pensamento que advém do trabalho, o único aspecto que merece atenção. 0. Introdução Antes de começar propriamente esta apresentação, queria agradecer o convite de Joaquim Pinto da Silva para aqui vir falar sobre Passo e Fico, como o Universo. Ao aceitar o convite, aproveitei imediatamente a oportunidade para pôr alguns pontos nos ii mentais no meu próprio Fernando Pessoa – uma vez que, sendo verdade que muitos poetas há em Pessoa, muitos Pessoas há nesta sala, ou seja, em cada um de nós há uma visão ou mesmo várias visões de Pessoa. E isso é óptimo. O meu objectivo nestes minutos é exactamente dar-vos duas perspectivas: 1. num primeiro momento, a dos meus Pessoas actuais, à laia de introdução; 2. num segundo momento, a de Pinto da Silva em Passo e Fico, como o Universo, em áreas muito concretas. 1. “Ó Mar Salgado” A primeira vez que tive a percepção de a literatura portuguesa – no sentido de literatura em língua portuguesa – não ter a atenção devida nos palcos internacionais deu-se quando li, ainda estudante do ensino secundário, o texto Camoens de Ezra Pound (1910) [iv] e me foi dada a entender a importância dessas linhas. Sendo Pound uma figura literária de proa, neste caso na pele de crítico literário, e sendo a literatura portuguesa amiúde remetida para as notas de rodapé dos compêndios de Literatura não-portugueses/não-lusófonos, cedo percebi que o prestígio internacional da literatura portuguesa, prestígio extremamente reduzido no seu conjunto, se remete às figuras do cânone português na perspectiva internacional, em que Camões é pioneiro, Pessoa – personagem principal deste serão – é o senhor que se segue e Saramago e Lobo Antunes fecham o lote. Basta ler ou ouvir dois vultos dos Estudos Literários, Harold Bloom (recentemente falecido) e George Steiner, para percebermos a distância entre o cânone nacional e a avaliação externa. Pode achar este público que, logo a abrir, traço um retrato extremamente negro e exagerado da situação, mas de facto tirando um exemplo ou outro de capítulos em obras dedicadas a uma literatura concreta, a literatura em língua portuguesa encontra-se ausente dos curricula internacionais e não aparece nem nas grandes colecções – por exemplo, não há Cambridge Companion sobre literatura portuguesa, mas há sobre literatura alemã, francesa, inglesa, espanhola ou italiana. Todavia, as coisas mudam e às vezes para melhor. Virando-me para a minha área concreta, só recentemente a Linguística portuguesa teve direito a um volume da Wiley-Blackwell [v]. No entanto, remeto considerações sobre a importância da língua portuguesa no mundo para outras intervenções que fiz, quer no quadro da História da Língua Portuguesa [vi], quer no do ensino de Português Língua Estrangeira [vii]. Antes de passarmos à reflexão pessoana que aqui nos trouxe, a de Joaquim Pinto da Silva, permitam-me breves comentários sobre três experiências pessoanas na primeira pessoa, apresentadas por ordem cronológica. • A primeira experiência tem a ver com o momento charneira no meu percurso escolar, que teve o decisivo contributo de Pessoa. A primeira vez que me senti verdadeiramente feliz numa aula de Português foi ao declamar o Mar Portuguez de Pessoa, durante uma apresentação oral. A minha relação com a língua portuguesa, enquanto instrumento de estudo e objecto de trabalho, terá começado nesse preciso momento. • O segundo episódio diz respeito à primeira vez que que vim a Bruxelas, em Abril de 2002. Ao tropeçar, por acaso, na escultura de Pessoa na Flagey, tive uma reacção mais contida, pelo menos à superfície, do que o alentejano que chorava ao vê-la, tão bem descrito pelo nosso Autor em artigo de 2008, no jornal Público (viii); • A minha terceira experiência pessoana, e sem dardes por ela já estamos a entrar no território do nosso Autor, tem a ver com um encontro em Lisboa, um primeiro encontro com alguém que viria a tornar-se um dos meus maiores amigos. Na direcção do Largo de S. Carlos, o meu amigo pergunta-me, apontando para a direita: “sabe que igreja é esta? – É a do sino da minha aldeia. Esta era a aldeia do Pessoa”. 2. Visão inovadora: o Pessoa social A aldeia de Pessoa é um dos aspectos aqui tratados por Joaquim Pinto da Silva. Mas lá iremos. Comecemos, em traços gerais, pela visão que o nosso Autor aqui nos traz sobre o poeta. É uma visão inovadora, e esse carácter inovador é manifestado explicitamente, sem ambiguidades, sem subterfúgios, pelo próprio, uma vez que a: atenção cívica e política do Poeta não mereceu até hoje grandes abordagens pelos especialistas, embora me pareça que são da maior importância para a compreensão do Homem por detrás, ou defronte, do vate. Uma característica que sobressai, e que não surpreende quem conhece o nosso Autor quer pessoalmente, quer (mais importante, porque é o que fica quer para o público em geral, quer para as gerações vindouras) através daquilo que ele tem vindo a escrever ao longo dos anos, é uma humildade que só o enobrece e que nunca cai em gratidões subservientes e que, por isso, serve de exemplo. Já víramos essa humildade em Cantareira, 61, pois já outrem descobrira a casa de Brandão. Aqui, neste texto, temos “outros, mais apetrechados e mais cientes” ou “não inventando nada que desde há séculos outros fazem, alguns com êxito”. O nosso Autor, como vimos, é inovador e humilde. Mas há uma terceira característica que salta à vista neste texto. A coragem. Antecipando o desfecho desta comunicação: a coragem de provavelmente andar a desbravar caminho num labirinto. No fim, compreendereis porquê. Ao contrário daquilo que se espera de um texto sobre Pessoa, por exemplo, e mesmo que indirectamente, os primeiros minutos desta apresentação disso serviriam de prova se ela fosse necessária, o nosso Autor não nos guia pelo Pessoa poeta, a face mais visível e mais célebre e que o próprio já tratou alhures, com “Pessoa poeta” a ser aqui entendido como o escritor prodigioso e virtuoso, independentemente do indivíduo e do seu pensamento em relação àquilo que o envolve. A outra face, “a obra pessoana em prosa, sobre política, de pensamento, de crítica social” é aquilo que merece a atenção de Pinto da Silva, porque outros, diz-nos “não o querem ler integralmente, por opção idólatra ou dogmática”. Talvez, digo eu. Ou talvez não, ponho a hipótese. Por exemplo, podemos não ler Alexander Search – para mim, um dos melhores heterónimos de Pessoa, felizmente recuperado recentemente e exposto ao público em geral por Salvador Sobral e, vim a descobrir recentemente, com feliz menção do nosso Autor num texto escrito há 12 anos (Silva, 2019: 50:7) –, não por “opção idólatra ou dogmática”, mas por outros motivos. Quando digo “podemos não ler Alexander Search”, significa não o fazer na perspectiva de uma leitura crítica com comentário sobre esse poeta em concreto, porque, por exemplo, o consideramos uma figura menor dento da obra de Pessoa. Ou seja, explicando esta ideia em língua portuguesa actual: não ler “a obra pessoana em prosa, sobre política, de pensamento, de crítica social” não significa obrigatoriamente uma “opção idólatra ou dogmática”, podendo tão-somente significar desinteresse pelo assunto ou incompetência na matéria, preferindo-se a literatura. Todavia, esta leitura do Pessoa político e social faz falta. Faz falta para evitar que minha pátria é a língua portuguesa continue a ser hoje invocada abusivamente como uma bandeira política e a dar azo a discussões inflamadas, quando interpretações, no mínimo interessantes e que convocam a reflexão, como a de Eduardo Lourenço em A Nau de Ícaro, fariam corar de vergonha quem escolhe atalhos para o pensamento, tendo esse comportamento, motivado pela ignorância ou pela indiferença, infelizmente, consequências para todos nós que sabemos ler e escrever: a titulo de exemplo, recorde-se a vergonhosa crise ortográfica que actualmente vivemos. Aliás, convém lembrar que Minha Pátria é a Língua Portuguesa veio a público em 1982, 47 anos após a morte de Pessoa, mas apenas 32 anos antes da adesão à CPLP desse monumento da lusofonia chamado Guiné Equatorial. Isto é, além da razão que Pinto da Silva tem quanto à pouca atenção (relativa ou absoluta) dada ao Pessoa social e político de facto, não podemos igualmente perder de vista o Pessoa político que alguns extraem à força do aclamado Pessoa poeta, seja ele ortónimo ou heterónimo. 3. Nótulas sobre a soma das partes e o provincianismo O nosso Autor aproveita, de uma forma especialmente feliz, o pretexto de Pessoa para nos lembrar pensadores extremamente interessantes, como António Quadros ou António Sérgio. Aqui, como Pinto da Silva, também estou do lado de Quadros e de Claude Lévi- Strauss, pois é o carácter distintivo das partes, preservada a sua originalidade, que dá conteúdo ao todo. Não é a eliminação do que nos distingue que deve ter primazia, sob pretextos mais ou menos difusos. Depois de um interessante exercício sobre a Nação como pensada por Pessoa A Nação sendo uma realidade social não o é material: é mais um tronco que uma raiz. O indivíduo e a humanidade são lugares, a nação o caminho entre eles. [ix]. chegamos a um dos aspectos mais interessantes do texto do nosso Autor: a noção de provincianismo. Ao ler as considerações sobre provincianismo do nosso Autor e de Pessoa (já lá vamos), lembrei-me de Kant, de Hemingway e de George Steiner. Ao contrário de Pessoa que, como diz o nosso Autor viveu alguns anos e visitou uma outra vez a África do Sul e, creio, que foi uma vez a Espanha, Kant nunca pôs os pés fora de Königsberg. Se Kant tivesse andado a “somar países”, não teríamos hoje em dia preocupações como “que devo eu fazer não apenas relativamente aos outros mas também relativamente ao mundo e relativamente a mim?” [x] nem preceitos como “o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim” (xi). Lembrei-me de Hemingway, porque se ele tivesse ficado pela sua Oak PArk natal, em vez de ter tido uma vida literária em Paris, ter andado em safaris africanos ou na Guerra Civil Espanhola não teríamos nem Paris é uma Festa, nem As Verdes Colinas de África nem Por Quem os Sinos Dobram. De George Steiner, por causa de uma máxima que ele felizmente vai repetindo (com ligeiras variantes) em vários livros: Trees have roots, men and women have legs. Para cada autor, a sua geografia. E a sua condição, seja ela nómada ou sedentária, contribuiu para a sua criação – ou seja, o cais de Alcântara, o céu estrelado de Königsberg ou o vento que sopra na savana têm exactamente o mesmo valor para o mundo, porque tudo depende, no fim de contas, do génio do autor. Desmontando por momentos a tese de Pessoa sobre o provincianismo, O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la, pois, mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. Concordo que “pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela”, seguindo-a “mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz” é algo ainda hoje corrente e lamentável, quando vemos tantas vezes os eleitos a fazerem o papel dos eleitores, aproveitando a apatia destes últimos e ocupando lugares de crítica social (por exemplo, como comentadores residentes em programas de TV), sem que os eleitores protestem, com voz audível, em vez de remeterem desabafos para os cafés e as redes sociais. Todavia, discordo de Pessoa e, neste caso, do nosso Autor, pois o meu “entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades” não esmorece o meu entusiasmo e admiração pelos pequenos meios urbanos e pelos meios rurais. Creio que, como com Kant e Hemingway, dois extremos, há uma geografia para cada autor, há uma justa medida: por eu adorar o campo não odeio o mar, por adorar o mar, não odeio o campo. Não me peçam para escolher entre um passeio na praia deserta do meu encantamento e uma caminhada pela vinha do meu avô, da minha infância. Não me peçam para escolher entre correr à volta do Onassis Reservoir do Central Park ou à volta dos Étangs d’Ixelles. Não me peçam para escolher entre a Orfeu ou a La Petite Portugaise aqui em Bruxelas e a Strand em Nova Iorque. Não me peçam para escolher: porque não preciso de escolher. Quanto ao resto, estou de acordo com ambos: é evidente – para nós – que a admiração pelo progresso e pela modernidade deve ter em conta o bem de todos e não só de alguns, e quanto à incapacidade de ironia, estamos no mesmo comprimento de onda. O remate desta secção, a minha predilecta, vem com o sino da minha aldeia, símbolo bem escolhido pelo nosso Autor para identificar o espaço delimitado onde Pessoa se move para projectar o mundo. Como vimos, nada de mal vem a este mesmo mundo por isso, antes pelo contrário. De hoje em diante, quando passar pelo “Largo de São Carlos, hoje do Directório” [xii], olharei para a igreja dos Mártires e lembrar-me-ei, é claro, do meu amigo que me indicou o sino da minha aldeia pela primeira vez, mas também quer da falta que o C faz ao directório para não rimar com foguetório, quer deste texto inovador e corajoso de Joaquim Pinto da Silva. 4. Conclusão Como disse há pouco, visões como a de Joaquim Pinto da Silva fazem falta. No entanto, para se retirar sumo da miríade de textos sociais e políticos de Pessoa, há um exercício de sistematização a fazer e este contributo é um valioso produto para essa empresa. Resta saber se esse exercício é possível. Mas, enquanto aguardamos serenamente, sempre vamos aprendendo alguma coisa com as nossas leituras de Pessoa e com leituras de Pessoa feitas por investigadores especialmente competentes, como Joaquim Pinto da Silva. Termino esta minha intervenção com palavras do próprio Pessoa: Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária. [xiii] i http://arquivopessoa.net/textos/996 ii [ http://bit.ly/2P1PpFC ] iii https://prelectur.stanford.edu/lecturers/bloom/excerpts/canon.html iv https://archive.org/details/cu31924027097330/page/n8 v https://www.wiley.com/en-us/The+Handbook+of+Portuguese+Linguistics-p-9781118791950 vi https://www.luso.eu/literatura/2529-a-historia-da-lingua-portuguesa.html + vii http://bit.ly/2PpTtPX viii https://www.publico.pt/2008/05/15/jornal/preito-a-irene-vilar-261067 ix http://arquivopessoa.net/textos/612 x https://www.youtube.com/watch?v=qJ-hWagK9G0 xi »Zwei Dinge erfüllen das Gemüt mit immer neuer und zunehmenden Bewunderung und Ehrfurcht, je öfter und anhaltender sich das Nachdenken damit beschäftigt: Der bestirnte Himmel über mir, und das moralische Gesetz in mir«. xii http://arquivopessoa.net/textos/2987 xiii http://arquivopessoa.net/textos/3413
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