Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas.
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas.
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas.
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
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Ânforas da uilla romana
da Quinta das Longas (S.Vicente
e Ventosa, Elvas): resultados
de 1990-1998 MARIA JOSÉ ALMEIDA *
ANTÓNIO CARVALHO **
R E S U M O Os autores apresentam as ânforas recolhidas em nove campanhas de traba-
lhos arqueológicos — entre 1990 e 1998 — na uilla romana da Quinta das Lon-
gas (S. Vicente e Ventosa, Elvas).
Após uma breve apresentação da uilla, explicam-se os contextos estrati-
gráficos da proveniência dos materiais e as diferentes fases de ocupação romana
do sítio e enquadra-se, do ponto de vista metodológico, a abordagem efectuada
em função das tipologias disponíveis. O estudo tipológico e o catálogo apare-
cem organizados por áreas de proveniência e classes.
Considerando a escassez de materiais anfóricos publicados, provenientes
de algumas das uillae escavadas no actual território português, comparam-se
os conjuntos disponíveis com o estudado, apresentando-se algumas pistas
para compreender a produção e a circulação dos diferentes conteúdos trans-
portados.
A B S T R A C T The authors present the amphorae collected in nine campaigns of
archaeological work — between 1990 and 1998 — in the Roman uilla of Quinta
das Longas (S. Vicente e Ventosa, Elvas).
After a brief presentation of the uilla, the stratigraphic contexts of the
materials are explained, as well as the different phases of Roman occupation
of the site. Available typologies are critically discussed. The typological study
and the catalogue are organised by areas of provenience and classes.
Considering the insufficient number of publications related to ampho-
ric materials from excavated uillae in the Portuguese territory, the available sets
are compared to the already studied, and we present some clues to a better unders-
tanding of the production and circulation of the different contents transpor-
ted in the amphorae.
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1. Breve apresentação da uilla romana da Quinta das Longas1
A uilla romana da Quinta das Longas situa-se na freguesia de S. Vicente e Ventosa, conce-
lho de Elvas (Anexo I). Está implantada numa plataforma aplanada com um ligeiro declive a
Norte em direcção à ribeira de Chaves (afluente do Caia). O sítio arqueológico é limitado a Este
por um muro, construído em 1881, por ocasião de uma grande surriba para plantio de uma
vinha, que poderá ter destruído todos os vestígios da pars urbana da uilla que se encontrariam
para nascente deste. Toda a área compreendida entre este muro e o muro exterior da Quinta a
Oeste, e desde a ribeira até ao caminho de acesso à Quinta a Sul, encontra-se pontuada de vestí-
gios arqueológicos à superfície. Uma maior concentração de vestígios é registada aproximada-
mente na metade norte do rectângulo assim definido. Recentes prospecções sistemáticas na
envolvente do sítio revelaram a existência de vestígios de ocupação romana também na margem
oposta da ribeira de Chaves (já na actual Herdade da Torre de Sequeira), num declive de terreno
“gémeo” do local de implantação da pars urbana da uilla da Quinta das Longas. (Anexo II)2.
Situado numa área de abundantes recursos hídricos (além da já citada ribeira de Chaves,
existem três nascentes de água no espaço da actual propriedade), o sítio arqueológico localiza-
-se numa área de solos mediterrâneos vermelhos ou amarelos com capacidade de uso agrícola
do tipo B. Regista-se junto da ribeira uma mancha de tipo A, associada ao depósito de aluviões.
O sítio arqueológico é conhecido há cerca de um século, desde que a surriba efectuada no
final do século XIX pôs a descoberto vestígios de época romana, tendo alguns materiais sido
recolhidos por Victorino de Almada para o Museu de Elvas. Posteriormente, António Tomás
Pires identifica o sítio e publica-o no O Arqueólogo Português (Pires, 1901). O facto de se encon-
trarem, entre estes materiais arqueológicos um fragmento de mosaico e de um baixo-relevo em
mármore, levou a que se considerasse este sítio como uma uilla e, consequentemente, fosse refe-
rido nos repertórios de uillae conhecidas no actual território português (Gorges, 1979, p. 467;
Alarcão, 1988, p. 154).
Os trabalhos arqueológicos no sítio da Quinta das Longas iniciaram-se em 1990, com uma
campanha de prospecção sistemática levada a cabo na área de maior concentração de materiais
arqueológicos, o que permitiu uma primeira hipótese interpretativa da planta e áreas funcionais
da uilla (Carvalho, 1994). De acordo com os dados da prospecção foi programada a escavação
arqueológica sistemática que se iniciou no ano seguinte. Neste momento, realizaram-se já oito
campanhas de escavação que decorreram entre 1991 e 1998, prevendo-se para um futuro pró-
ximo a conclusão dos trabalhos face aos objectivos estabelecidos para o estudo deste sítio arqueo-
lógico.
Os trabalhos arqueológicos na uilla da Quinta das Longas incidem sobre a pars urbana,
podendo neste momento apresentar-se já uma primeira leitura das diferentes fases de ocupação
do sítio e respectiva caracterização.
A data de fundação da uilla deverá situar-se em época claudiana, entre Cláudio e Nero,
podendo eventualmente recuar ao reinado de Tibério. Esta cronologia é estabelecida de acordo
com os materiais arqueológicos mais antigos recolhidos no sítio, concretamente terra sigillata
sudgálica e cerâmica de paredes finas. Desta primeira fase de ocupação — designada como villa
I — subsistem alguns vestígios estruturais sem aparente continuidade com a construção da uilla
baixo-imperial (Anexo III). Estes muros apresentam diferenças relativamente à villa II a nível de
técnica de construção (menos cuidada que o aparelho construtivo posterior) e de implantação
e orientação, o que leva a considerar que existe uma descontinuidade de ocupação entre estes
dois momentos. Não existem quaisquer dados a partir dos quais se possa inferir a existência de
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um hiato de ocupação entre a villa I e a villa II, pelo que genericamente se considera que a pri-
meira villa tem uma ocupação que vai do século I ao século III d.C.
A ocupação mais bem caracterizada do sítio arqueológico da Quinta das Longas é a que cor-
responde à uilla baixo-imperial, da qual se conserva um conjunto de estruturas que permitem a
reconstituição do modelo arquitectónico utilizado. Os materiais arqueológicos recolhidos in situ
no interior dos compartimentos e em unidades estratigráficas correspondentes à construção do
edifício (concretamente sob o nível de pavimento das ábsides Norte e Oeste da sala 1) situam
claramente a ocupação da villa II em termos cronológicos dos finais do século III aos inícios do
século V.
A uilla II é uma uilla de peristilo, organizando-se os compartimentos identificados em fun-
ção deste. Ainda não é possível neste momento saber como se estrutura a ala norte do peristilo,
nomeadamente na sua relação com o espelho de água (7) e com a ribeira de Chaves, que parece
constituir o limite natural do conjunto edificado. Identificam-se duas fases de construção/ocu-
pação da villa II a partir de vestígios de remodelação de alguns compartimentos, com portas ou
passagens que se fecham ou paredes construídas para redimensionar espaços pré-existentes. As
remodelações terão sido levadas a cabo com o sítio em continuidade de ocupação, sem que seja
possível datar especificamente essas evidências arqueológicas.
2. Contextos estratigráficos de proveniência das ânforas
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NÍVEIS
CONTEMPORÂNEOS 141
141
ABANDONO / DESTRUIÇÃO
99 12
12 26
26 48
48
16
16 52
52
212
212
OCUPAÇÃO DA VILLA II
27
27
69
69 25
25
CONSTRUÇÃO DA VILLA II
Fig. 1 Relação das unidades estratigráficas onde foram recolhidos fragmentos de ânfora.
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A maioria dos fragmentos de ânfora do conjunto em análise provém da camada humosa
superficial [1] que cobre o sítio arqueológico após o seu abandono/destruição. Os materiais
arqueológicos presentes nesta unidade estratigráfica resultam do revolvimento dos diferentes
estratos de abandono, ocupação e construção das villas I e II nas suas diferentes fases na sequên-
cia dos trabalhos agrícolas levados a cabo no local, não lhes podendo ser atribuída nenhuma lei-
tura estratigráfica significativa. Existe também um fragmento de ânfora proveniente do enchi-
mento da vala de construção do muro do século XIX [141] que terá cortado a pars urbana a Este.
Da fase de abandono/destruição do sítio arqueológico, temos ânforas de unidades estrati-
gráficas correspondentes ao derrube dos telhados do edifício, [9], [12] e [26], nomeadamente da
sala 1. Na unidade [48], correspondente ao entulhamento do espelho de água (7), foi recolhido
também um fragmento de ânfora que se apresenta em catálogo (n.º10).
Estas unidades estratigráficas relativas ao abandono da uilla ou assentavam sobre pavi-
mentos (como é o caso de [9] sobre o pavimento da divisão 1, ou [48] sobre o negativo das pla-
cas de mármores que constituíam o revestimento do espelho de água) ou selavam níveis de
ocupação da uilla baixo-imperial. É o caso de uma lixeira [52] identificada nas traseiras da divi-
são 1, encaixada entre esta e o espelho de água. Neste local foi recolhido abundante espólio
cerâmico e restos de fauna que permitem uma caracterização dos hábitos alimentares dos habi-
tantes deste sítio arqueológico na sua última fase de ocupação. Os fragmentos de bojo de
ânfora aqui recolhidos não permitem a reconstituição de formas, mas as características da
pasta e a presença de grafitos são muito semelhantes ao exemplar n.º 7 do catálogo em parti-
cular e, em geral, ao que se conhece das produções dos fornos do Sado no Baixo Império,
nomeadamente no Pinheiro (Mayet e Silva, 1998). A unidade estratigráfica [27] corresponde
também a um nível de ocupação identificado nas traseiras da ábside Sul da divisão 1, sendo
[212] reconhecido na recente campanha de escavações de 1998 já no que consideramos ser o
limite Norte do conjunto edificado da pars urbana da uilla, área cuja leitura/interpretação ainda
está naturalmente por fazer.
No interior das ábsides Oeste e Norte da sala 1 foram escavadas duas unidades estratigrá-
ficas que correspondem à fase de construção da villa II, respectivamente [69] e [25]. O conjunto
de materiais arqueológicos recolhidos nestes contextos são fundamentais no estabelecimento
da cronologia de construção da uilla baixo-imperial; entre eles contam-se inúmeros fragmentos
de ânfora, embora apenas um (n.º11) permita a identificação da forma e consequente classifi-
cação.
3. Pressupostos metodológicos
O presente conjunto representa o resultado de nove campanhas de trabalhos arqueoló-
gicos na uilla romana da Quinta das Longas (prospecções sistemáticas e escavação) que decor-
reram entre 1990 e 1998. O processo de escavação deste sítio arqueológico ainda se encontra
em curso, pelo que a análise feita a partir dos materiais que agora se apresentam deve ser
necessariamente encarada como uma primeira apresentação de resultados, só completada
com a publicação integral do conjunto anfórico que se pretende incluir na monografia final.
No entanto, e tendo em conta que os trabalhos de escavação arqueológica programados para
esta uilla se encontram numa fase de conclusão, a homogeneidade do conjunto parece auto-
rizar já uma leitura do significado deste grupo de ânforas no contexto da ocupação do sítio
arqueológico.
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Durante os trabalhos de prospecção e escavação foram recolhidos sistematicamente
todos os fragmentos de ânfora encontrados. Os fragmentos que se apresentam em catálogo
são aqueles que permitem a identificação da forma (bordos, fundos e asas), sendo excluídos
os fragmentos de bojo, à excepção dos que apresentam grafitos. O conjunto que constitui o
catálogo é assim a base deste estudo, embora sejam considerados os outros fragmentos no
que diz respeito à constatação da presença de material anfórico nos contextos estratigráfi-
cos escavados.
A identificação e classificação das ânforas estudadas assenta em critérios tipológicos
quanto à forma do contentor, não sendo tomada em linha de conta a caracterização das pas-
tas. Este facto prende-se com a impossibilidade técnica de realizar análises químicas e/ou petro-
lógicas do conjunto em análise. Num momento em que este tipo de estudo se encontra já desen-
volvido entre nós (cf., por exemplo, Cabral, Gouveia e Morgado, 1996; Mayet, Schmitt e Silva,
1996, p. 121-165), parece contraproducente apresentar conclusões baseadas em análises macros-
cópicas de base empírica feitas por não-especialistas. Com uma intenção meramente descri-
tiva, apresenta-se, contudo, no catálogo uma observação das características da pasta de cada
fragmento, feita a partir da observação macroscópica. As análises de pasta, fundamentais na
determinação de características e origens dos fabricos anfóricos, guardam-se assim para futu-
ros estudos no âmbito do desenvolvimento do projecto de estudo do uilla romana da Quinta
das Longas.
A tabela de classificação utilizada é a proposta por D. P. S. Peacock e D. F. Williams (1986),
embora se apresente também a terminologia tradicional usada para as ânforas presentes na
Lusitânia, conforme parece ser o hábito generalizado dos investigadores que se dedicam a este
assunto.
O quadro tipológico adoptado — sem qualquer problematização da nossa parte, relati-
vamente à forma de construção e divisões tipológicas, pois não nos parece ser o local apro-
priado — quanto às ânforas da Lusitânia (significativamente maioritárias neste conjunto) é o
apresentado recentemente nos estudos sobre as ânforas do Sado (Mayet, Schmitt e Silva, 1996;
Mayet e Silva, 1998). Ao longo das décadas de 80 e 90, por várias vezes, diferentes investiga-
dores afirmaram convictamente que a tipologia de ânforas de fabrico lusitano só poderia ser
fixada a partir do estudo dos diferentes tipos e variantes de contentores recolhidos na esca-
vação dos vários centros produtores. Assim sendo, não só os estudos sistemáticos acima refe-
ridos representam o quadro de referência mais completo quanto às produções anfóricas lusi-
tanas no estado actual da investigação sobre este tema, como efectivamente se regista uma
particular coincidência entre as formas presentes na Quinta das Longas com o conjunto das
ânforas do Sado.
Relativamente à questão do estabelecimento de paralelos e comparações com outros con-
juntos de ânforas, são consideradas duas linhas de análise: por um lado, consideram-se os cen-
tros produtores conhecidos para as ânforas da Lusitânia e, por outro outros centros de consumo
que possam apresentar características semelhantes à uilla da Quinta das Longas.
O estabelecimento de paralelos com os centros produtores de ânforas é essencial na deter-
minação da origem dos produtos consumidos na Quinta das Longas e, consequentemente, dos
mercados supra-regionais em que se integra. Além dos centros produtores do vale do Sado (Bar-
rosinha, Bugio, Enchurrasqueira, Abul, Pinheiro, Quinta da Alegria e Setúbal) já citados, foram
tomados em linha de conta também os do vale do Tejo (Porto dos Cacos, Quinta do Rouxinol)
e do Algarve (Martinhal, S. João da Venda, Quinta do Lago e Castro Marim). Este estabelecimento
de comparações faz-se apenas do ponto de vista tipológico quanto à forma, com a consciência
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de que esta análise se reveste de um carácter redutor, tanto mais que em termos de forma as varia-
ções dentro de cada classe podem ser pouco significativas quanto à determinação de origem.
Como já foi referido anteriormente, a determinação concreta de um grupo de origem, para que
seja verdadeiramente operativa, deverá ter em linha de conta análises de pasta que ficam excluí-
das deste trabalho.
Sendo o conjunto de ânforas da Quinta das Longas um espelho dos hábitos de consumo
desta uilla, a comparação com outros sítios com um tipo de ocupação semelhante poderá reve-
lar coincidências ou discrepâncias significativas dos circuitos económicos em que se integra.
Nesta perspectiva de análise, foram considerados outros sítios de ocupação rural romana no
actual território português com conjuntos de ânforas publicados.
No panorama da actual investigação neste domínio, o sítio de S. Cucufate continua a
apresentar-se como situação excepcional em termos de informação disponível. Na monogra-
fia do sítio é apresentada uma primeira análise do conjunto das ânforas recolhido no decurso
dos trabalhos (Alarcão, Etienne e Mayet, 1990, p. 251-255), posteriormente foi publicado um
estudo especificamente dedicado ao conjunto anfórico (Mayet e Schmitt, 1997), constituindo
assim a principal referência para as ânforas da Lusitânia relativamente aos centros de con-
sumo rurais. Além de S. Cucufate, são consideradas outras uillae, como a de Povos (Vila Franca
de Xira) ou Vilares de Alfundão (Ferreira do Alentejo). No primeiro caso, trata-se de um con-
junto de ânforas recolhidas no decurso de escavações arqueológicas entre 1984 e 1990 que
foram objecto de publicação específica (Banha, 1991-1992), sendo o segundo resultado de
prospecções de superfície (Norton et al., 1993-1994). Da região de Sintra conhece-se também
o material anfórico de uillae, provenientes de recolhas de superfície, achados ocasionais ou
escavações (Pimenta, 1982-1983).
Excluem-se sítios de ocupação urbana, como é o caso de Conímbriga, Setúbal, Alcácer do
Sal, Lisboa ou mesmo Mérida, por se privilegiar a comparação com sítios com características
semelhantes em termos de hábitos e dinâmicas de consumo às da uilla da Quinta das Longas.
Por outro lado, parece ser particularmente de notar o contexto regional em que este sítio se
integra, naturalmente ligado à capital provincial, Augusta Emerita e seu território. Essa pers-
pectiva de análise contudo ficará fora do âmbito do presente trabalho, procurando desenvolvê-
-la no âmbito do prosseguimento do projecto de investigação sobre a ocupação rural romana
na região de Elvas.
4. Estudo tipológico
4.1. Ânforas béticas
4.1.1. Classe 19 (Beltrán IIb) (Fig. 5)
As ânforas da Classe 19 são contentores destinados ao transporte de preparados piscícolas
da Bética com uma difusão em termos cronológicos que vai desde o século I d.C. (mais concre-
tamente desde a época tibero-claudiana) até meados do século II (Beltrán, 1970, p. 420-448). São
ânforas de grande dimensão, com o bordo extrovertido quase em forma de trompete, com as asas
arrancando directamente sob o bordo ou mesmo a partir dele, como é o caso do exemplar da
Quinta das Longas. Esta peça apresenta a pasta típica dos fabricos de Cádis (Peacock e Williams,
1986, p. 121), que facilmente se distingue pela sua cor ocre e textura homogénea ligeiramente
arenosa.
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
143 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
Este fragmento de bordo provém da unidade estratigráfica [1], não sendo por isso possível
saber concretamente a que momento de ocupação do sítio pertence. No entanto, e dado o âmbito
cronológico conhecido para a difusão deste tipo de contentor, supõe-se que corresponde à ocu-
pação da uilla I.
4.1.2. Classe 25 (Dressel 20) - n.º 2 (Fig. 5)
Foi recolhido nos trabalhos de prospecção sistemática que antecederam a escavação um
fragmento de bordo e asa de uma ânfora que se enquadra nesta classe. Trata-se uma ânfora oleá-
ria da Bética que tem uma ampla difusão sobretudo nas províncias ocidentais do Império desde
o período de Tibério até ao século III d.C., podendo prolongar-se até ao século IV (Peacock e Wil-
liams, 1986, p. 136-140).
O exemplar da Quinta das Longas apresenta uma variante do bordo de secção triangular
com a face externa virada para o exterior, com o colo curto e asas de secção circular, que corres-
ponderá a um fabrico dos meados do século II (Mayet e Schmitt, 1997, p. 74). Apresentando ves-
tígios de ter sido utilizada como material de construção, podemos supor que fará parte dos mate-
riais reaproveitados da uilla I que foram integrados na construção da uilla baixo-imperial. Embora
as condições de recolha deste fragmento não permitam a sua contextualização segura, a utili-
zação de fragmentos de recipientes cerâmicos nos muros da uilla II é uma situação que se veri-
ficou recorrente com a escavação do sítio e à qual poderá corresponder este exemplar.
4.2. Ânforas Lusitanas
4.2.1. Classe 20/21 (Dressel 14) (Fig. 5)
A classe 20/21 reúne os exemplares típicos da primeira fase de produção das ânforas destina-
das ao transporte de preparados de peixe da Lusitânia. Este tipo de ânfora foi também produzido
na Bética, o que levou alguns investigadores a considerar (dada a anterioridade genérica da produ-
ção de ânforas béticas) que o tipo lusitano sucedia e imitava o protótipo criado nessa província (Par-
ker, 1977, p. 35-46; Peacock e Williams, 1986, p. 126-129). No estado actual das investigações, par-
ticularmente com a escavação de fornos que produziram este tipo anfórico no vale do Sado, sabe-se
que os contentores desta classe são uma criação lusitana, sendo as propostas de distinção entre a
classe 20 (= Dressel 14 bética/Beltrán IVa) e a classe 21 (= Dressel 14 lusitana/Beltrán IVb) pouco
operativas3 tanto mais que a produção destes contentores na Bética é ainda mal conhecida.
Assim, reúnem-se nesta classe os fragmentos de bordo pertencentes a contentores produ-
zidos na Lusitânia para o envase de preparados piscícolas, desde os meados do século I d.C. até
aos inícios do século III. São ânforas de maior dimensão do que aquelas que as sucedem no Baixo
Império, com o colo largo adequado ao tipo de espécies piscícolas utilizadas, entre as quais se
contaria o atum (Étienne, 1990, p. 15-19). Foram produzidas nos vales do Tejo e do Sado,
conhecendo-se também uma produção algarvia em S. Bartolomeu de Castro Marim (Vascon-
cellos, 1898) e Quinta do Lago (Arruda e Fabião, 1990).
Segundo a proposta enunciada por F. Mayet e C. Tavares da Silva para os fornos do Pinheiro,
esta classe divide-se em três variantes de acordo com a morfologia do bordo: nos meados do
século I, uma primeira variante (A) apresenta o bordo em fita, em clara afinidade com modelos
béticos — nomeadamente da classe 15 (Haltern 70) — à qual sucede a variante com o bordo de
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secção triangular (B); as ânforas de bordo de secção arredondada (C) representam o último está-
gio de evolução tipológica nesta primeira fase de produção. Esta última variante não só é a mais
comum nos fornos estudados como terá sido aquela que conhece maior difusão durante quase
todo o século II (Mayet e Silva, 1998, p. 62-64).
Os exemplares números 3, 4 e 5 da Quinta das Longas pertencem à variante C, estando ausen-
tes as variantes mais antigas, cuja produção se conhece principalmente associada aos fornos da área
urbana de Setúbal (Silva, 1996, p. 43-54). Além dos fornos do Pinheiro, encontramos exemplares
semelhantes aos da Quinta das Longas em outros centros produtores do vale do Sado (Barrosinha4,
Bugio5, Enchurrasqueira6, Abul7 e Quinta da Alegria8) e do Tejo (Garrocheira9 e Porto dos Cacos10).
O exemplar n.º 6 pertence a uma fase mais tardia, caracterizada nos fornos do Pinheiro
como um período de transição entre a primeira e a segunda fase de produção (Mayet e Silva,
1998, p. 113-123). O tipo de contentor desta fase — final do século II e inícios do século III —
representa a transição entre as ânforas de maior dimensão da classe 20/21 e as das classe 23, com
um progressivo estreitamento do colo e diminuição do diâmetro interno de abertura. É o caso
deste fragmento de bordo, com uma dimensão da abertura e colo mais próxima da dos conten-
tores baixo-imperiais da Quinta das Longas, e que teria menores dimensões que os outros exem-
plares identificados na mesma classe.
A difusão desta variante tardia terá tido pouca expressão fora da Lusitânia, tendo sido iden-
tificada pela primeira vez num centro de consumo rural (Mayet e Schmitt, 1997, p. 78). O exem-
plar da Quinta das Longas em termos de morfologia do bordo é semelhante aos identificados
em S. Cucufate11, e nos fornos da Enchurrasqueira12, Abul13 e Pinheiro14.
O fragmento de bordo n.º 6 apresenta um tipo de pasta bastante diferente dos outros
três fragmentos pertencentes a esta classe, acinzentada na secção e com sinais de recozedura.
Enquanto os exemplares n.os 3 a 5 se mostram em termos de análise macroscópica semelhan-
tes às pastas do vale do Sado, o fragmento de bordo n.º 6 parece aproximar-se da descrição de
alguns dos exemplares desta classe identificados na Quinta do Lago, embora a morfologia do
bordo seja diversa (Arruda e Fabião, 1990, p. 202). Note-se que, embora se conheça a produ-
ção deste tipo de ânfora no vale do Sado, tem-se associado esta variante tardia de menores
dimensões a produções algarvias, nomeadamente do forno de S. Bartolomeu do Mar em Cas-
tro Marim (Vasconcellos, 1898; Fabião 1996, p. 377). Naturalmente que a determinação da
proveniência do exemplar da Quinta das Longas não pode ser efectuada senão com base empí-
rica, já que só análises petrográficas e/ou químicas poderiam eventualmente estabelecer o seu
grupo de origem.
Todos os exemplares desta classe foram recolhidos em unidades estratigráficas relativas às
perturbações contemporâneas a que o sítio esteve sujeito. Os n.os 3, 4 e 6 pertencem à camada
humosa de superfície [1], continuamente revolvida por trabalhos agrícolas, e o n.º 5 à unidade
estratigráfica [141] que corresponde ao enchimento da vala de implantação do muro que no
século XIX cortou a pars urbana da uilla a Este. Não existe assim a possibilidade de datar estrati-
graficamente estes fragmentos de ânfora, embora pela sua datação tipológica se possa admitir
que correspondem à primeira ocupação do sítio (uilla I).
4.2.2. Classe 23 (Almagro 51c) (Figs. 6 e 7)
A maioria das ânforas identificadas na uilla romana da Quinta das Longas pertence à classe
23 (Almagro 51c). Trata-se de uma ânfora de produção lusitana destinada ao transporte de pre-
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
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parados de peixe que foi produzida entre o século III e o século V, tanto nos vales do Sado e Tejo
como na costa algarvia. É uma ânfora de menores dimensões do que as suas congéneres do Alto-
-Império, caracterizada pela sua morfologia piriforme. As alterações na morfologia e dimensões
do contentor corresponderão não só a diferenças nos conteúdos (que terão passado a utilizar
espécies piscícolas de menores dimensões como as sardinhas e cavalas) como também a uma alte-
ração nas dinâmicas dos centros produtores de preparados de peixe da Lusitânia (Étienne, Maka-
roun e Mayet, 1994).
Segundo F. Mayet e C. T. da Silva, tal como acontece com as ânforas da classe 20/21, neste
momento é possível distinguir três variantes dentro da classe 23 com um significado cronoló-
gico preciso. Assim, o primeiro momento de produção deste tipo de ânfora baixo-imperial cor-
responde à transição entre o século II e o século III e acompanha a produção da variante tardia
da classe 20/21. Trata-se de uma ânfora destinada ao transporte de preparados piscícolas, de
pequenas dimensões, com colo curto rematado por um bordo formando uma aba horizontal a
partir da qual arrancam as asas que se apoiam sobre os ombros de um corpo piriforme com fundo
plano (Mayet e Silva, 1998, p. 120-123).
No entanto, a determinação quer da cronologia, quer do conteúdo dos contentores deste
primeiro momento de produção não é pacífica. A. M. Dias Diogo pela primeira vez levanta a pos-
sibilidade destas ânforas se destinarem ao transporte de vinho (Diogo, 1987, p. 184). Mais recen-
temente, C. Fabião retoma esta posição, recuando a datação do seu primeiro momento de pro-
dução para a transição do século I para o século II. Esta leitura cronológica tem por base os
resultado das escavações em Conímbriga, Alcácer do Sal, ilha do Pessegueiro e nas olarias do Vale
do Tejo, onde esta variante aparece em clara associação com as ânforas da classe 20/21 (Fabião,
1997, p. 165-166).
Embora a escavação da uilla da Quinta das Longas ainda esteja em curso, a intervenção tenha
incidindo num sector da pars urbana e o conjunto anfórico seja reduzido, regista-se para já a
ausência dos exemplares da variante A da classe 23. Esta ausência poderá constituir um indica-
dor para a existência na região da produção de vinho, a aceitar-se a proposta de um conteúdo
vinário para este tipo de ânforas.
A este primeiro momento de produção sucede nos meados do século III e até ao século IV
a variante B que poderá ser considerada a ânfora lusitana “típica” no Baixo-Império. É um con-
tentor piriforme com o diâmetro máximo na sua metade superior, de asas curtas que desenham
um arco de círculo ao apoiar-se sobre os ombros da peça; o bordo pode apresentar algumas varia-
ções em termos de morfologia, sendo sempre inclinado para o exterior, e o fundo é cilíndrico e
oco, com ônfalo central na face externa (Mayet e Silva, 1998, p. 143-148).
Durante o século IV e até ao século V, as ânforas desta classe diminuem a sua capacidade,
apresentando um corpo fusiforme mais alongado e estreito com o fundo troncocónico pouco
diferenciado. As asas são curtas e arrancam da parte inferior do bordo sendo por vezes quase ver-
ticais (Mayet e Silva, 1998, p. 202-203).
A nível dos pequenos fragmentos nem sempre é possível distinguir com exactidão as dife-
rentes variantes, nomeadamente quando se conhecem apenas fragmentos de bordo. É essa a
razão que leva a apresentar alguns dos exemplares (n.os 9, 13 e 15) com a classificação alterna-
tiva “variante B ou C”. Relativamente aos fragmentos de fundo, os exemplares n.os 18 e 19 são
fundos cilíndricos ocos com ônfalo central externo característicos da variante B, enquanto n.º
17 pertence à variante C. Tendo em conta a morfologia dos bordos, e sobretudo o arranque das
asas, classificam-se os exemplares n.os 7, 11, 12 e 14 como pertencentes à variante B e os n.os 8
e 10 à variante C.
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
146
Um factor digno de nota é a presença de grafitos nos exemplares n.os 7, 23 e 24. Tratam-
-se de marcas realizadas antes da cozedura com a pasta ainda fresca, provavelmente durante
o processo de secagem. Podem tratar-se de marcas de controlo de produção isto se não tive-
rem uma intenção meramente decorativa. Parece ser o caso da linha ondulada da ânfora n.º
7, muito semelhante a motivos decorativos identificados no centro produtor do Pinheiro
(Mayet e Silva, 1998, p. 147). Já no caso dos exemplares n.os 23 e 24, é impossível saber se cor-
respondem a caneluras decorativas ou marcas figurativas já que os mesmos se encontram
incompletos.
Para os exemplares desta classe podem ser encontrados paralelos morfológicos em prati-
camente todos os centros produtores de ânforas do vale do Sado e Tejo, bem como do Algarve,
tornando-se fastidiosa uma enumeração de paralelos caso a caso. Pela análise macroscópica da
pasta, apenas um exemplar desta classe (n.º 8) parece não ter sido produzido no Vale do Sado/Tejo,
mas aproximar-se das produções algarvias do Martinhal (Silva, Soares e Correia, 1990, p. 226-
-223; Mayet, Schmitt e Silva, 1996. p. 156-158).
A maioria das ânforas da classe 23 (Almagro 51c) encontradas na Quinta das Longas
foram recolhidas na camada humosa de superfície [1]. No entanto, alguns exemplares
encontram-se em unidades estratigráficas bem definidas da uilla baixo-imperial. Assim, encon-
tramos no interior da ábside oeste da sala 1, num nível [69] correspondente à construção da
villa II, um exemplar (n.º 11) da variante B datada dos meados do século III-século IV. Encon-
tramos igualmente contentores desta variante nos níveis de ocupação desta fase da uilla [27],
[52] e [212]. Significativamente, os exemplares recolhidos nas unidades estratigráficas cor-
respondentes ao abandono/destruição do sítio — [12] e [48], respectivamente derrube da cober-
tura da sala 1 e entulhamento do espelho de água — pertencem à variante tardia (C), caracte-
rística do século IV-V.
4.3. Ânforas de difícil classificação (Fig. 7)
Não foi possível determinar com certeza a classificação de dois dos exemplares apresenta-
dos em catálogo. O n.º 21 é um pequeno fragmento de bordo de secção sub-rectangular alon-
gada formando uma aba vertical. As características da pasta analisada macroscopicamente são
bastante diferentes de todos os outros fragmentos de ânfora da Quinta das Longas, não pare-
cendo ser uma produção lusitana nem se aproximando dos fabricos béticos identificados nas
classes 19 (Beltrán IIb) e 25 (Dressel 20). As reduzidas dimensões do bordo bem como o seu
estado de conservação tornam particularmente arriscada qualquer proposta de classificação
baseada na morfologia do mesmo.
Também não foi atribuída classificação ao exemplar n.º 22, um fragmento de fundo cilín-
drico oco, possivelmente de base plana. Neste caso, a pasta não parece muito característica das
produções anfóricas, estando mais próxima do que conhecemos dos fabricos de cerâmica comum
romana presentes na Quinta das Longas. A peça foi cozida em ambiente redutor com arrefeci-
mento oxidante, apresentando vestígios de ter sido queimada ainda no processo de cozedura.
Estas características fazem lembrar os exemplares rejeitados que se conhecem em alguns locais
de produção, embora seja de estranhar a presença de um fabrico rejeitado de uma fornada num
local de consumo interior. Meramente como hipótese podemos também pensar que se trata de
um fabrico local de um recipiente morfologicamente próximo das ânforas ou de um tipo de
ânfora de origem e morfologia não identificada.
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
147 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
5. O significado das ânforas da Quinta das Longas
No conjunto de fragmentos de ânfora recolhidos na sequência de oito anos de trabalhos
arqueológicos levados a cabo na uilla romana da Quinta das Longas, foi possível identificar 24
exemplares distribuídos da seguinte forma de acordo com a sua classificação:
19 25 20/21 23
Classe Classe Classe Classe Indet.
Fig. 2 Classificação das ânforas identificadas.
O conjunto não é muito numeroso, sobretudo se considerarmos a área escavada (cerca de
1200 m2) e o facto menor de resultar da recolha sistemática de todos os fragmentos identifica-
dos no decurso dos trabalhos. Comparando o número de exemplares recolhidos durante a cam-
panha de prospecção com o conjunto proveniente de recolhas de superfície na uilla romana de
Vilares de Alfundão (Ferreira do Alentejo) (Norton et al., 1993-1994, p. 184), a proporção é de 2
para 167. Naturalmente que há que ter em conta o tipo de perturbações pós-deposicionais a que
os sítios estiveram sujeitos, e no caso de Vilares de Alfundão houve trabalhos de lavra funda com
recurso a meios mecânicos a que a Quinta das Longas não esteve sujeita.
De qualquer forma, a reduzida expressão do número de ânforas entre a cerâmica recolhida
veio a confirmar-se com a escavação do sítio. O facto de os trabalhos, quer de prospecção, quer
de escavação, terem incidido sobre a pars urbana da uilla contribuirá também para esta situação.
Pela própria natureza destes recipientes cerâmicos, destinados aos transporte e, eventualmente,
ao armazenamento de bens de consumo, não será de estranhar que não tenham uma presença
muito forte na área residencial do proprietário da uilla.
Esta questão, contudo, deve ser equacionada em função da posição que a Quinta das Lon-
gas ocupa no contexto da difusão dos produtos transportados em ânforas para os mercados do
interior. Mais uma vez, esta leitura é condicionada pela natureza da informação disponível sobre
os centros de consumo no mundo rural. Além do caso excepcional de S. Cucufate, o que se conhece
são referências pontuais à presença de ânforas entre o espólio recolhido. De qualquer forma,
estas referências permitem-nos saber que as ânforas chegaram não só a grandes uillae, como é o
caso de Pisões em Beja (Ribeiro, 1972, p. 22, 26, 30), mas também a pequenos núcleos habitacio-
nais classificados como casais agrícolas escavados no concelho de Montemor-o-Novo (Paço e
Lemos, 1962) ou no próprio concelho de Elvas (Carvalho, Almeida e Pinto, 1997)15 .
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
148
A uilla romana da Quinta das Longas integra-se assim no circuito de distribuição dos pro-
dutos transportados em ânforas para os mercados do interior. Não sendo uma grande uilla, como
S. Cucufate, a reduzida expressão do número de ânforas poderá reflectir exactamente essa dife-
rente posição/dimensão enquanto centro de consumo16. Pouco sabemos contudo sobre a forma
como se efectuava o abastecimento para os aglomerados populacionais rurais do interior, sendo
de admitir que outros tipos de contentor pudessem ser utilizados para o transporte terrestre
(e/ou fluvial) de produtos inicialmente envasados em ânforas.
Outra questão por resolver é saber se existiria uma via que abastecia directamente os mer-
cados rurais, ou se esse abastecimento se fazia integrado na rede de distribuição dos centros urba-
nos do interior, podendo estes funcionar como mercados redistribuidores no território que deles
dependia. Parece mais razoável supor esta segunda hipótese, pelo menos para um aglomerado
com as características que a Quinta das Longas parece ter. Nesta perspectiva, mais uma vez esta
leitura deverá ser enquadrada no âmbito da relação com a capital provincial Emerita Augusta, em
cujo território esta uilla se integraria.
Além da expressão numérica do conjunto, outra leitura imediata do histograma atrás apre-
sentado é a predominância das ânforas lusitanas sobre as importações e, dentro destas, da Classe
23 (Almagro 51c). Esta situação reflecte a grande expressão que tem o comércio de preparados
de peixe da Lusitânia no Baixo Império, verificada também em S. Cucufate, onde estas ânforas
são as mais numerosas representando cerca de 46% do conjunto (Mayet e Schmitt, 1997, p. 72).
Já em Vilares de Alfundão a classe predominante é a 20/21 (Dressel 14) com um presença rela-
tiva de 62,5% (Norton et al., 1993-94, p. 189), o que se relaciona com questões de cronologia de
ocupação do sítio, que provavelmente terá a sua grande ocupação em época anterior à Quinta
das Longas. De qualquer forma, genericamente consideradas, as produções lusitanas são maio-
ritárias no conjunto das ânforas estudadas.
Fig. 3 Distribuição das ânforas de acordo com a sua proveniência.
Esta situação parece ser recorrente em outros centros de consumo no mundo rural. Além
dos casos já citados de S. Cucufate e Vilares de Alfundão, situados no interior, também na esca-
vação da uilla romana de Povos em Vila Franca de Xira (cuja situação geográfica junto do Tejo,
sensivelmente a meio caminho entre Olisipo e Scallabis, a coloca numa posição bastante diferente
em termos de dinâmica de mercado) as ânforas lusitanas são esmagadoramente maioritárias,
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
149 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
representando 82% do conjunto estudado (Banha, 1991, p. 64-67). Igual situação relativa se
conhece para a região de Sintra, onde cerca de 60% das ânforas provenientes de contextos vários
de ocupação rural são originárias da Lusitânia (Pimenta, 1982-1983, p. 145-147).
Além das ânforas lusitanas, regista-se a presença de ânforas da Bética, mais concretamente
de dois exemplares, um destinado ao transporte de preparados de peixe e outro ao transporte
de azeite. Estão ausentes, quer as produções itálicas, quer as norte-africanas, que encontramos
por exemplo em S. Cucufate ou Povos, embora em ambos os casos com uma expressão quanti-
tativa muito reduzida.
A questão da origem das importações prende-se naturalmente com a questão do conteú-
dos, que não só reflectem hábitos de consumo como podem espelhar a importância da produ-
ção local (ou ausência de produção) dos produtos transportados. Assim, relativamente aos con-
teúdos, as ânforas da Quinta das Longas distribuem-se da seguinte forma:
Fig. 4 Distribuição das ânforas de acordo com o seu conteúdo.
O consumo de preparados de peixe é o principal determinante das importações na Quinta
das Longas, reflectindo um hábito de consumo bastante arreigado no mundo romano de um
produto que naturalmente não podia ser produzido localmente. A razão da fraca expressão da
importação de azeite e a ausência de ânforas vinárias deve ser procurada na existência de uma
produção local que serviria para consumo próprio.
Esta situação desde há muito vem sendo apontada (cf. Alarcão, 1988, p. 148, 1990, p. 436),
sendo tradicionalmente aceite que as importações vinárias se reportam a uma fase inicial do
processo de romanização em que a produção local de vinho não está ainda suficientemente
desenvolvida, e que a importação de azeite, concretamente da Bética, reflecte um hábito enquanto
consumo de prestígio (Alarcão, Étienne e Mayet, 1990, p. 252). Curioso é notar que no caso de
Vilares de Alfundão, cujos dados disponíveis parecem apontar para uma ocupação expressiva
em época alto-imperial, as ânforas vinárias estão ausentes, embora a natureza da amostra não
autorize qualquer inferência baseada neste facto.
Relativamente às importações olearias, estas materializam-se num único exemplar da Classe
25 (Dressel 20), assumindo assim um carácter vestigial no conjunto de ânforas exumadas até
ao momento na Quinta das Longas. Além da existência de uma produção local de azeite, podem
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
150
ser encontradas outras razões para a fraca expressão do azeite da Bética nesta uilla romana, con-
cretamente o afastamento das rotas de distribuição deste produto na Lusitânia. Com efeito, as
ânforas olearias béticas parecem ter, por lado, uma difusão através de uma rota atlântica asso-
ciada a abastecimentos institucionais e, por outro, uma via interior destinada a áreas mineiras
e sobretudo aos grandes centros urbanos do interior (Fabião, 1993-1994, p. 328). A Quinta das
Longas está claramente afastada da rota atlântica e possivelmente em relação à via interior ocupa
uma posição periférica, da qual o exemplar da classe 25 representaria o carácter residual.
Globalmente considerado, o conjunto das ânforas da Quinta das Longas é um conjunto
relativamente homogéneo de ânforas lusitanas destinadas ao transporte de preparados de peixe.
A importação de produtos transportados em ânforas reflecte os hábitos de consumo da
população desta villa romana, em que os preparados de peixe assumem particular relevância. A
constatação da ausência de importações vinárias e o carácter vestigial das importações de azeite
fazem pensar numa produção local que serviria as próprias necessidades, embora essa ausência
deva ser também equacionada em função da posição que a Quinta das Longas ocupa relativa-
mente às redes de distribuição de produtos transportados em ânforas no interior.
O facto de a maior expressão da presença de ânforas se situar relativamente à chamada
“segunda fase de produção” destes contentores lusitanos prende-se naturalmente com a crono-
logia de ocupação do sítio. Embora identificada uma primeira ocupação que poderá remontar
ao século I d.C., a ocupação mais significativa da uilla da Quinta das Longas é já de uma fase tar-
dia do Baixo Império, situação que a presença de ânforas da classe 23 em níveis relativos à cons-
trução do edifício habitacional veio confirmar. As ânforas da classe 20/21, assim como as impor-
tações da classe 19 e 25, parecem corresponder ao primeiro momento de ocupação do sítio, em
que teríamos as importações béticas ao lado das primeiras produções lusitanas, sucedendo-se já
na uilla II uma situação exclusivamente pontuada por importações de preparados de peixe da
Lusitânia. No entanto, quer o facto de não haver datações precisas para os contextos estratigrá-
ficos em que foram recolhidos os exemplares mais antigos, bem como o facto de a escavação do
sítio ainda se encontrar em curso levam a encarar esta leitura com as necessárias cautelas.
A forte presença das ânforas lusitanas é coerente com o que se conhece de outros centros
de consumo no mundo rural, reflectindo também a grande importância que tem o mercado de
preparados de peixe da Lusitânia, sobretudo em época baixo-imperial. A determinação dos gru-
pos de origem dentro da Lusitânia para as ânforas presentes na Quinta das Longas poderá ser
de grande importância para a integração deste sítio rural nas rotas e mercados de abastecimento
do interior, já que o comércio de produtos transportados em ânforas não era certamente autó-
nomo de outros abastecimentos de bens de consumo.
Através de uma análise macroscópica das pastas, de base empírica, parece haver uma rela-
ção privilegiada com os vales do Tejo e do Sado, em detrimento dos centros produtores algar-
vios, embora só análises de carácter petrológico e/ou químico o possam eventualmente confir-
mar. Interessante será também confrontar os dados relativos às ânforas com o estudo de restos
de fauna malacológica identificados na lixeira baixo-imperial, que possivelmente estão associa-
dos aos mesmos fluxos de abastecimento a partir do litoral.
A leitura do significado das ânforas da Quinta das Longas que agora se apresentam deverá
ser feita, naturalmente, no âmbito de um quadro de referência para os circuitos económicos em
que este sítio se integra, provavelmente em estreita relação com a capital provincial Augusta Eme-
rita. O presente estudo pretende ser uma primeira abordagem a esta questão, procurando que
seja desenvolvida no âmbito do prosseguimento do projecto de investigação sobre a ocupação
rural romana na região de Elvas.
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
151 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
6. Catálogo
NOTA: as dimensões apresentam-se em milímetros.
1 QL 2(92) A[1]
Fragmento de bordo com arranque de asa. Classe 19 (Beltrán IIb).
Bordo espessado e inclinado para o exterior com arranque do bordo a fazer-se a partir deste.
Pasta de cor rosada (5YR 7/4), de textura homogénea, com escassos elementos não plásticos de
dimensão pequena, à excepção de nódulos de minério de ferro avermelhados que são de dimen-
são média ou grande. Diâmetro interno de abertura: 162; Espessura média do bordo e das pare-
des: 15. Século I-meados do século II.
2 QL (90) H-5 (prospecção)
Fragmento de bordo e asa. Classe 25 (Dressel 20).
Bordo de secção triangular inclinado para o exterior; asa espessa de secção circular que
arranca imediatamente abaixo do bordo; colo curto. Pasta vermelha (10R 5/6), de textura homo-
génea. Elementos não plásticos pouco abundantes de dimensão pequena, entre os quais mica,
quartzitos e calcite. Diâmetro interno de abertura: 100; altura do bordo: 26; espessura média do
bordo: 28, das paredes: 17, da asa: 36. Apresenta vestígios de ter sido reaproveitada como mate-
rial de construção, com bastantes concreções de argamassa. Meados do século II.
3 QL 6(96) A [1]
Fragmento de bordo com arranque de asa. Classe 20 / 21 (Dressel 14).
Bordo de secção sub-rectangular arredondada ligeiramente espessado externamente, asa
arrancando imediatamente abaixo deste; vestígios de assentamento do bordo em posição inver-
tida durante a secagem. Pasta de tonalidade vermelho-clara (2.5YR 6/6), de aspecto esponjoso
com abundantes elementos não plásticos de dimensão média e grande (quartzo, quartzito e cal-
cário). Diâmetro interno de abertura: 130; altura do bordo: 15; espessura média do bordo: 23;
das paredes: 15. Século II.
4 QL 1(91) A [1]
Fragmento de bordo. Classe 20/21 (Dressel 14).
Bordo de secção sub-rectangular arredondada ligeiramente espessado externamente. Pasta
vermelha clara (10R 6/6). Diâmetro interno de abertura: 170; altura do bordo: 17; espessura
média do bordo: 20. Século II.
5 QL 5(95) A [141]
Fragmento de bordo. Classe 20/21 (Dressel 14).
Bordo de secção sub-rectangular arredondado espessado externamente; apresenta vestígios
de assentamento do bordo durante a secagem. Pasta vermelho-clara (2.5YR 6/8), de textura folhea-
da, com abundantes elementos não plásticos de dimensão média e pequena, entre os quais quart-
zitos e micas. Diâmetro interno de abertura: 130; altura do bordo: 16; espessura média do bordo:
28. Século II.
6 QL 2(92) A[1]
Fragmento de bordo. Classe 20/21 (Dressel 14 - tardia).
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
152
Bordo espessado externa e internamente, colo estreito. A pasta apresenta vestígios de ter
sido queimada ainda durante o processo de cozedura, apresentando-se acinzentada na secção
(5YR 7/1). Diâmetro interno de abertura: 90; altura do bordo: 11; espessura média do bordo: 19,
das paredes: 10. Transição entre os séculos II e III.
7 QL 1(91) A [27]; 2(92) A [1]
Fragmentos de bordo, colo, asas e bojo. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Bordo de secção triangular com arranque da asa a partir da sua metade inferior; asa de fita
de secção sub-rectangular com canelura na face interna; bojo piriforme, com decoração grafi-
tada ondulada no bojo abaixo do apoio da asa. Pasta amarela-avermelhada (5YR 7/6), com a
superfície externa da mesma cor; apresenta ainda vestígios de engobe; textura homogénea com
abundantes elementos não plásticos de dimensão pequena e média (quartzo, mica, calcário e ele-
mentos de óxidos de ferro avermelhados). Diâmetro interno de abertura: 90; do colo: 42; altura
do bordo: 24; espessura média do bordo: 18; das paredes: 8; da asa: 16. Meados do século III-IV.
8 QL 1(91) A [12]
Fragmento de bordo com arranque de asa. Classe 23 (Almagro 51c - variante C).
Bordo de secção sub-rectangular arredondada espessado externamente com arranque da
asa a partir da sua metade inferior; bem marcado no interior o sulco para encaixe do opérculo;
asa de fita de secção sub-rectangular com duas caneluras na face interna, quase vertical. Pasta
vermelha (2.5YR 5/8), de textura homogénea e compacta, apresentando abundantes elementos
não plásticos de dimensão pequena e média, dos quais se destacam grãos de óxido de minério
vermelho e fragmentos de calcário. Diâmetro interno de abertura: 78, do colo: 54; altura do bordo:
19; espessura média do bordo: 11, das paredes: 6, da asa: 16. Parece ser o único exemplar da Classe
23 não produzido no Vale do Sado/Tejo, mas aproximar-se pelas características da pasta das pro-
duções algarvias do Martinhal (Silva, Soares e Correia, 1990, 226-223; Mayet, Schmitt e Silva,
1996, p. 156-158). Séculos IV-V.
9 QL 5(95) A [1]
Fragmento de bordo com arranque de asa. Classe 23 (Almagro 51c - variante B ou C?).
Bordo de secção arredondada com arranque da asa na sua parte média. Pasta vermelho-
-clara (10R 6/8), de textura homogénea com elementos não plásticos pouco abundantes de dimen-
são pequena (quartzo, mica e calcário). Diâmetro interno de abertura: 104; espessura média do
bordo: 18; das paredes: 10; altura do bordo: 23. Meados do século III-IV(V?).
10 QL 2(92) A [48]
Fragmento de bordo com arranque de asa. Classe 23 (Almagro 51c - variante C).
Bordo de secção subtriangular, com arranque da asa a partir da sua metade inferior, asas que
deveriam ser quase verticais; bem marcado internamente o sulco para encaixe do opérculo. Pasta
de cor vermelha (10R 5/6), mais clara — rosada — no interior (5YR 7/4); textura homogénea e cui-
dado tratamento de superfícies (interna e externa), com abundantes elementos não plásticos de
dimensão pequena e grande (quartzo, mica e óxidos de ferro). Diâmetro interno de abertura: 94,
do colo: 48; espessura média do bordo: 17, das paredes: 7; altura do bordo: 27. Séculos IV-V.
11 QL 5(95) A [69]
Fragmento de bordo com arranque da asa. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
153 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
Bordo arredondado inclinado para o exterior com arranque da asa imediatamente abaixo
deste. A peça apresenta vestígios de forte exposição ao fogo (muito provavelmente em contexto
pós-deposicional) encontrando-se a pasta praticamente calcinada. Pasta de cor avermelha (10R
4/4). Diâmetro interno de abertura: 104; do colo: 50; altura do bordo: 21; espessura média do
bordo: 20; das paredes: 13. Meados do século III-IV.
12 QL 6(96) A [1]
Fragmento de asa com pequena parte do bordo. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Bordo arredondado com arranque da asa a partir da sua metade inferior; asa de fita com
duas caneluras na face externa. Pasta amarelo-avermelhada (5YR 7/6), de textura homogénea
com abundantes elementos não plásticos de dimensão média e grande, entre os quais quartzo e
mica. Diâmetro interno de abertura 58 *; espessura média do bordo: 14, da asa: 16; altura do
bordo: 17; Meados do século III-IV.
*cálculo aproximado dado a reduzida dimensão de bordo conservada.
13 QL 2(92) A [1]
Fragmento de bordo muito rolado. Classe 23 (Almagro 51c - variante B ou C ?).
Bordo de secção arredondada ligeiramente espessado externamente. Pasta de cor vermelha-
-clara (2.5YR 6/6) de textura homogénea com abundantes elementos não plásticos de dimensão
pequena, dos quais se destacam nódulos vermelhos de óxidos ferruginosos. Diâmetro interno
de abertura: 94; altura do bordo: 20; espessura média do bordo: 21. Meados do século III-IV(V?).
14 QL 4(94) A [1]
Fragmento de bordo. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Bordo de secção arredondada espessado externamente, marcando na face interna o encaixe
do opérculo. Pasta amarelo-avermelhada (5YR 7/6), de textura homogénea com elementos
não plásticos pouco abundantes (quartzo, mica e nódulos de óxidos ferruginosos). Diâme-
tro interno de abertura: 98; altura do bordo: 21; espessura média do bordo: 18. Meados do
século III-IV.
15 QL 6(96) A [1]
Fragmento de bordo. Classe 23 (Almagro 51c - variante C ou B?).
Bordo de secção subtriangular, parecendo ter bem marcado o sulco interno para encaixe
do opérculo. Pasta homogénea de cor amarelo-avermelhada (5YR 7/6), com tratamento de super-
fície cuidado ; abundantes elementos não plásticos de dimensão média e grande, entre os quais
quartzito, mica e calcário. Diâmetro interno de abertura: 102; altura do bordo: 23; espessura
média do bordo: 12. Século (III?)IV-V.
16 QL 8(98) A[1]
Fragmento de bordo. Classe 23 (Almagro 51c - variante ....?).
Bordo de secção triangular. Pasta castanho-avermelhado (5YR 4/4), com a superfície
externa da mesma cor; apresenta ainda vestígios de engobe. Teve uma cozedura redutora. Tex-
tura homogénea com abundantes elementos não plásticos de dimensão pequena e média
(quartzo, mica, calcário e elementos de óxidos de ferro avermelhados). Diâmetro interno de
abertura: 114; altura do bordo: 18; espessura média do bordo: 20; das paredes: 12. Meados do
século III-IV(V?).
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
154
17 QL 2(92) A [1]
Fragmento de fundo. Classe 23 (Almagro 51c - variante C).
Fundo troncocónico preenchido. Pasta vermelho-clara (2.5YR 6/6), com elementos não
plásticos muito abundantes de dimensão grande, entre os quais quartzo e calcário. Diâmetro
médio: 45. Séculos IV-V.
18 QL (90) R.S.
Fragmento de fundo. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Fundo cilíndrico oco com ônfalo central. Pasta vermelho-clara (10R 6/8), de textura media-
namente compacta com abundantes elementos não plásticos de dimensão média e pequena. Diâ-
metro médio: 43; altura: 45. Este tipo de fundo encontra-se presente nos ataliers de Abul e Pinheiro
no Vale do Sado (Mayet, Schmitt e Silva, 1996, p. 51-59 e 63-69; Mayet e Silva, 1998, p.143-146),
na Quinta do Rouxinol (Duarte e Raposo, 1996, p. 238-248). Meados do século III-IV.
19 QL 2(92) A[1]
Fragmento de fundo. Classe 23 (Almagro 51c - variante B).
Fundo [cilíndrico ?] oco com ônfalo na base. Pasta vermelha-clara (10R 6/8), de textura
homogénea com abundantes elementos não plásticos de dimensão pequena e média (quartzo e
calcário). Diâmetro médio: 51. Meados do século III-IV.
20 QL 8(98) A [213]
Fragmento de colo e arranque de asa. Classe 23 (Almagro 51c - variante ...?) .
A asa arranca a partir da sua metade inferior do bordo. Pasta vermelha (2.5YR 4/8). A super-
fície apresenta ainda vestígios de engobe; textura homogénea com abundantes elementos não
plásticos de dimensão pequena e média (quartzo, mica, calcário e elementos de óxidos de ferro
avermelhados). Diâmetro interno do colo: 50; espessura média das paredes: 18. Meados do século
III-IV(V?).
21 QL 1(91) A [1]
Fragmento de bordo. Classificação indeterminada.
Bordo de secção sub-rectangular alongada formando uma aba vertical. Pasta amarelo-
-avermelhada (5YR 6/6). Textura homogénea com abundantes elementos não plásticos, entre os
quais abundantes nódulos vermelhos de óxidos de ferro, mica e calcário (em menor quantidade).
Espessura média do bordo: 14.
22 QL 2(92) A [1]
Fragmento de fundo. Classificação indeterminada.
Fundo cilíndrico oco, possivelmente de base plana. A pasta não parece muito característica
das produções anfóricas, de cor vermelha nas superfícies exteriores e cinzenta avermelhada na sec-
ção (10R 5/1). A peça teve uma cozedura redutora com arrefecimento oxidante apresentando ves-
tígios de ter sido queimada ainda no processo de cozedura; a textura é homogénea com abundan-
tes inclusões de calcário. Diâmetro do fundo: 50; espessura média das paredes: 12, do fundo 12?.
23 QL 5(95) A [26] (não ilustrado).
Fragmento de bojo. Classe 23 (Almagro 51c) ?
Fragmento de bojo com grafito não completo com duas linhas paralelas. Pasta amarela-
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
155 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
-avermelhada (5YR 7/6), de textura homogénea com elementos não plásticos pouco abundan-
tes, alguns de dimensão grande (quartzo e nódulos vermelhos de óxidos ferrosos). A atribuição
da classificação é baseada nas características da pasta e no tipo de grafito, presente não só nou-
tro exemplar da Quinta das Longas (n.º 7) como em vários contentores deste tipo dos fornos do
Pinheiro (Mayet e Silva, 1998). Séculos III-V.
24 QL 3(93) A [52] (não ilustrado).
Fragmento de bojo. Classe 23 (Almagro 51c) ?
Fragmento de bojo com grafito não completo com duas linhas paralelas. Pasta amarela-
-avermelhada (5YR 7/6), de textura homogénea com elementos não plásticos pouco abundan-
tes de dimensão pequena e média (quartzo e nódulos vermelhos de óxidos ferrosos). A atribui-
ção da classificação é baseada nas características da pasta e no tipo de grafito, presente não só
noutro exemplar da Quinta das Longas (n.º 7) como em vários contentores deste tipo dos for-
nos do Pinheiro (Mayet e Silva, 1998). Séculos III-V.
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1 3 cm
Fig. 5 Ânforas: Classe 19 - Beltrán IIB (n.º 1); Classe 25 - Dressel 20 (n.º 2); Classe 20/21- Dressel 14 (n.os 3 a 6).
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
157 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
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1 3 cm
Fig. 6 Ânforas: Classe 23 - Almagro 51c (n.os 7-13).
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1 3 cm
Fig. 7 Ânforas: Classe 23 - Almagro 51c (n.os 14-20); classificação indeterminada (n.os 21-22).
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
159 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
Anexos
Anexo I Localização da Quinta das Longas na Península Ibérica.
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
160
Anexo II Localização da Quinta das Longas na Carta Militar de Portugal 1:25 000 (Folha 414).
Ânforas da uilla romana da Quinta das Longas (S.Vicente e Ventosa,Elvas):resultados de 1990-1998
161 MARIA JOSÉ ALMEIDA E ANTÓNIO CARVALHO
Anexo III Planta da uilla Romana da Quinta das Longas no final da 7ª Campanha de Trabalhos Arqueológicos (1997).
REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 1.número 2.1998
162
NOTAS
* Câmara Municipal de Santarém e Investigadora do Centro de Arqueologia da 7 Idem nº76.
Universidade de Lisboa (UNIARQ). 8 Idem nº 179; 183-184.
** Biblioteca Condes de Castro Guimarães da Câmara Municipal de Cascais e 9 Amaro 1990 nº3.
Investigador do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ).
10 Raposo 1990 nº10-11; 13-14.
1 Os autores participaram no volume IN Memoriam Carlos Alberto Ferreira de
11 Mayet e Schmitt 1997 nº 42-43.
Almeida com uma versão reduzida deste artigo, onde, por constrangimentos
editoriais, foi eliminada a Bibliografia. O presente artigo é uma versão revista 12 Mayet, Schmitt e Silva 1996 nº41.
e aumentada de um trabalho elaborado no âmbito o seminário “Cerâmica 13 Idem nº88.
Romana”, do Mestrado de Arqueologia Romana da Faculdade de Letras da
14 Mayet e Silva 1998 nº 3-9.
Universidade de Coimbra por um dos signatários (MJA). As tintagens são da
15 Embora não publicadas, estão em exposição no Museu Arqueológico de
autoria da Drª Ana Sofia Gomes, a quem os autores muito agradecem.
2 Montemor-o-Novo exemplares de ânforas da Classe 23 (Almagro 51c)
Poderemos estar em presença da necrópole da uilla considerando a localização
provenientes do sítio do Curral dos Cães. No sítio da Horta do Rangem,
e o facto de ter sido recolhida uma base de coluna que poderá ter pertencido
próximo da Quinta das Longas, foi recolhido à superfície também um
a um pequeno monumento funerário. Esta hipótese só poderá naturalmente
fragmento de ânfora da mesa classe, publicado na notícia de identificação do
ser confirmada com uma intervenção arqueológica no local, que se pretende
sítio.
realizar no âmbito do projecto de investigação em curso.
16 Convém salientar esta disparidade existe não só enquanto ao tipo de sítio,
3 Na discussão deste assunto veja-se Fabião e Carvalho 1990: 41-49.
mas também quanto à natureza e dimensão dos trabalhos realizados. Mais do
4 Mayet, Schmitt e Silva 1996: nº6-8. que comparar o número de ânforas identificadas (24 na Quinta das Longas e
5 Idem nº 23-26. 1132 em S.Cucufate) seria interessante equacionar a posição relativa das
6 Idem nº44. ânforas em função dos outros tipos cerâmicos identificados.
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