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Profissional Investigador - Practitioner Inquirer

Ana Paula Rocha

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    Ana Paula Rocha
Ana Paula Rocha 1 PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL Citar este artigo: Rocha, A. P. (2015). Profissional-Investigador – Practitioner- Inquirer. Almadaforma. Revista do Centro de Formação da Associação das Escolas de Ana Paula Rocha * Almada. A Formação Contínua na Melhoria da Escola, nº 9, abril 2015, pp. 19-23. RESUMO enquadramento idêntico para todos? Quererão dizer que se sentem na posse de Tomando como ponto de partida o conceito de novos conhecimentos e que estes foram professor-investigador, procura-se aqui compreender a sua relação com o úteis? Pensarão que algo mudou na sua desenvolvimento profissional. Estabelecem-se capacidade de intervenção na própria as afinidades com o processo de reflexão crítica prática? Ou creem ter ultrapassado mais e aponta-se como uma cultura de investigação da própria prática é fundamental, com vista ao uma etapa formativa que culmina no desenvolvimento de competências e atitudes momento de avaliação com carácter problematizadoras da praxis, assumindo-se a classificativo do seu desempenho, naquele importância da formação que proporcione contexto concreto? No entender destes contextos para a investigação realizada pelo próprio professor. profissionais o conceito englobará tudo o que aqui se referiu, ou algo distinto? Por O QUE DEFINE DESENVOLVIMENTO sua vez, os formadores, nos seus PROFISSIONAL? documentos de avaliação de todo o processo, subscrevem essa evidência e sublinham os seus efeitos através de descrições dos benefícios que todos obtiveram, considerando-a o desfecho natural e incontornável da ação formativa na qual foram agentes ativos. Natural? Incontornável? Será que todas as ações de formação, sejam quais forem os conteúdos e estratégias utilizados, conduzirão, espontaneamente, ao desenvolvimento profissional dos formandos? É recorrente que os professores, concluído um período de formação contínua, Selecionámos um investigador que nos realizado através da oferta de um Centro ajuda a compreender o que diversos de Formação, refiram nos seus relatórios autores, por ele selecionados, entendem de reflexão como constatam ter-se por desenvolvimento profissional, verificado o seu desenvolvimento consistindo, segundo os referenciados, em profissional, resultante da intervenção formação contínua (Darder, 1988); formativa em que se envolveram. Porém, o aperfeiçoamento dos docentes (Martínez, que entendem por desenvolvimento 1983; Vázquez, 1976); crescimento profissional? Será que o conceito teria profissional do professor (Joyce, 1980; * Professora, Formadora de Formação Contínua de Professores e Investigadora na área das Ciências da Educação. Membro colaborador na Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Ana Paula Rocha 2 PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL NcNergney y Carrier, 1981; Fullan, 1987; de aprendizagem e as atividades Griffin, 1983); treino ou aperfeiçoamento conscientemente planificadas, realizadas em serviço ( in-service training ) (Neil, para benefício, direto ou indireto, do 1986; de la Orden, 1982); reciclagem indivíduo, do grupo ou da escola e que (Landsheere, 1987); formação em serviço contribuem, através destes, para a (Montero, 1987); ou ainda uma fase da qualidade da educação na sala de aula. É o carreira profissional que se inicia assim que processo através do qual os professores, terminam as práticas profissionais ou enquanto agentes de mudança, reveem, começa a fase de iniciação profissional renovam e ampliam, individual ou (García A., 1987). O mesmo investigador colectivamente, o seu compromisso com indica que, nas definições apontadas, os propósitos morais do ensino, adquirem surgem palavras que aludem, e desenvolvem, de forma crítica, primeiramente, a mudança, melhoria, juntamente com as crianças, jovens e refinamento das competências, como colegas, o conhecimento, as destrezas e a produto de uma intervenção, e, logo de inteligência emocional, essenciais para seguida, às estratégias, processos, uma reflexão, planificação e prática mecanismos de intervenção que profissionais eficazes, em cada uma das proporcionam tais mudanças. (Ângulo, fases das suas vidas profissionais» (in Day, 1990). 2001, pp. 20-21, cit. de Joyce , 1980). Para que melhor alcancemos o que este conceito envolve, aproveitamos a definição de Fullan para qualificar o desenvolvimento profissional como algo de larga amplitude que inclui qualquer atividade ou processo que procure melhorar competências, atitudes, compreensão ou ação em papéis atuais ou futuros. O investigador acrescenta que, quando os professores se comprometem na implementação de inovações, ocorrem mudanças significativas, na medida em que o processo de implementação é PROFESSOR REFLEXIVO-CRÍTICO PARA O essencialmente um processo de DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL aprendizagem. Assim, quando se relaciona Alguns autores como Alarcão (1995) e com inovações concretas, o Schön (1987) desenvolveram propostas de desenvolvimento profissional e a formação docente utilizando o paradigma implementação daquelas estão ligados do professor reflexivo. No seu entender, a (Fullan, 1990). formação que contribui com eficácia para o A visão de Joyce (1980) sobre o que desenvolvimento profissional do professor, constitui o desenvolvimento profissional é, tem de ter em vista a construção ativa do por outro lado, integradora do requisito da seu saber-fazer docente, um conhecimento reflexão: «o desenvolvimento profissional que se processa na ação e a partir da envolve todas as experiências espontâneas reflexão do professor na e sobre a ação. Ana Paula Rocha 3 PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL Esta visão entende o professor como um investigação da própria prática, no profissional envolvido num processo processo interativo, no diálogo com continuum de formação, permanente, que situações autênticas considerando-se a se materializa na autoformação, através da experiência como uma fonte rica e qual os professores refazem os saberes construtiva. iniciais em confronto com as suas experiências e práticas vivenciadas em contextos reais no ensino. É nesse PROFISSIONAL/PROFESSOR- confronto e num processo colaborativo e INVESTIGADOR (PRACTITIONER- colegial de troca de práticas e experiências INQUIRER), O QUE O CARACTERIZA? que os professores vão construindo os seus CONTRIBUTOS PARA O saberes enquanto praticum, refletindo na e DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL sobre a prática. Nóvoa (1992) propõe a formação numa perspectiva que denomina A experiência, porém, pode não ser fonte crítico-reflexiva, que forneça aos formadora. John Dewey (1959) estava professores os meios de um pensamento crente que, no tocante à experiência de um autónomo e que facilite as dinâmicas de professor, alcançada ao longo de uma formação autoparticipada. década, podemos pensar uma de duas coisas. Ou que ele tem dez anos de experiência, ou, no pior dos casos, que possui um ano de experiência repetido dez vezes. Portanto, pode representar uma mera reprodução contínua, uma sucessão de rotinas, não sendo potenciadora de novos saberes para a ação. Ao invés, a capacidade de reflexão crítica sobre essa experiência, constitui-se como formadora e potenciadora do desenvolvimento profissional especialmente se estimulada Nesta ordem de ideias é necessário que os pela investigação sobre a própria prática. programas de formação contínua para Nóvoa (1992) clarifica como os conceitos professores abordem temas e recorram a de professor-investigador (practitioner- metodologias estratégicas que deem inquirer) e professor reflexivo se tratam de ênfase ao desenvolvimento profissional uma mesma realidade abordada de formas promotor da reflexão crítica. O conceito de diferentes pelas Ciências da Educação. O prático reflexivo constata o valor da professor-investigador é aquele que experiência, partindo do princípio que a investiga ou reflete sobre a sua prática, reflexão do docente sobre a sua atividade assumindo a própria realidade escolar deve sustentar-se no conhecimento como um objeto de averiguação, de sistematizado, o que o torna um produtor, reflexão, de análise, enquadrando-se no e não simples consumidor, de teorias paradigma do professor reflexivo. Segundo alheias como Zabalza (2004) defende. Para esta perspetiva a praxis institui-se ao longo que esta prática educativa reflexiva se de um percurso que engloba, de forma torne crítica precisa de apoiar-se na integrada, a trajetória, a formação, o Ana Paula Rocha 4 PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL conhecimento pedagógico compartilhado e segundo lugar, indica como o as redes de interações. Os benefícios de aperfeiçoamento da competência de um processo desta ordem são vários. Os ensinar se atinge pela eliminação gradual professores podem criar melhores dos aspectos negativos através do estudo condições para enfrentar os problemas sistemático da própria atividade docente. colocados pela prática, na dimensão em que os compreendam, sobre eles reflitam, exercendo o seu sentido crítico e, em conjunto com os seus pares, possam desocultar presunções enganadoras para se apropriarem de formas de enfrentamento. As estratégias para este enfrentamento podem ser proporcionadas e geradas em espaços de formação contínua, onde a construção da profissionalidade (conjunto de saberes profissionais) ocorre e estimula uma cultura organizacional sócio construtiva. PARA CONCLUIR Os contextos formativos com maiores É sob este pano de fundo que passamos condições de proporcionar o agora a apresentar uma súmula, das desenvolvimento profissional integram o implicações da ação do profissional- saber que advém do trajeto individual do investigador (practitioner-inquirer) no professor, promovem o estabelecimento desenvolvimento profissional, recorrendo a de redes e relações recíprocas, o domínio Rocha (2014). E o que se constata, segundo do saber fazer (conhecimento prático) e o esta investigadora, é que: domínio do saber (conhecimento científico), tendo como suporte um - 1 O desenvolvimento de projetos pessoais processo sistemático, organizado e de investigação-ação constituem a autorreflexivo, que irradia e se fundeia na metodologia mais adequada ao professor investigação-ação. É nestas circunstâncias investigador que visa a resolução de que, à medida que os professores refletem problemas na sua praxis, por terem em criticamente, se formam e constituem vista melhorar as próprias práticas, sem a como docentes na sua profissionalidade. pressão das formalidades académicas da investigação empírica; Stenhouse (1975), por seu turno, defende o profissionalismo dos professores assente - O ritmo adotado pelo próprio, a numa ciência educativa em que cada sala focalização na essência da problemática de aula é um laboratório e cada professor que decorre da sua experiência em um membro da comunidade científica. contextos reais, tornam esta estratégia Considera que a melhoria do ensino é um investigativa como atraente, mais processo de desenvolvimento e que essa enriquecedora e passível da obtenção de melhoria não se consegue por mero desejo, mas pelo aperfeiçoamento, bem reflectido, da competência de ensinar. Em 1 Texto por nós adaptado. Ana Paula Rocha 5 PROFISSIONAL-INVESTIGADOR (PRACTITIONER-INQUIRER): CONTRIBUTOS PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL resultados causadores de elevada satisfação; - O recurso a amigos-críticos, que demonstrem capacidade reflexiva crítica para colaborarem, e à supervisão inter pares podem dar um contributo essencial nos resultados da investigação realizada pelos próprios docentes; - A constituição de notas, diários, portefólios permitem dar conta do Referências: processo de investigação e desocultação de pressupostos, desvelando e reforçando os ALARCÃO, I. (1995). Formação reflexiva de professores: estratégias de supervisão. Porto: Porto efeitos da reflexão crítica e capacidade Editora. analítica; ÂNGULO, L. M. V. (1990). El profesor como profisional: formación y desarrollo personal. - Os resultados benéficos da investigação, Granada: Universidade de Granada. Instituto de na resolução de problemas, poderão ser Ciencias de la Educación. facilitados caso o processo de reflexão se DAY, C. (1999). Developing Teachers: the Challenge tenha tornado consistentemente crítico e of Lifelong Learning.(trad. Maria Assunção Flores), se verifique a transferibilidade de Desenvolvimento Profissional de Professores. Os Desafios da Aprendizagem Permanente. Colecção aprendizagens para outras situações do Currículo, Políticas e Práticas, nº 7. Porto: Porto contexto profissional; Editora, 2001. DEWEY, J. (1933) How We Think. A restatement of - O desenvolvimento profissional será the relation of reflective thinking to the educative fomentado pela investigação-ação caso os process (Revised ed.), Boston: D. C. Heath. professores recorram a processos de FULLAN, M. (1990). Staff development, innovation, metacognição, recolha, descrição, síntese, and institutional development. In Changing school interpretação e avaliação sistemática de culture through staff development: The 1990 ASCD yearbook. (pp. 3– 25). Alexandria, VA: ASCD. dados, aceitando as mudanças como mais- valias que podem contribuir para a NÓVOA, A. (Org), (1992). Os professores e a sua formação. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional. desenvoltura profissional e pessoal. ROCHA, A. P. (2014). Dispersão Da Atividade Docente: O Poder Do Professor Reflexivo Crítico Num Contexto Formativo Colaborativo. Lisboa: Conclui-se, assim, que a perspetiva Universidade de Lisboa (in repositorio.ul.pt) reflexiva, de cariz crítico, em contextos de SCHÖN, A. D. (1987). Educating the reflective investigação da própria prática oferece practitioner. San Francisco: Jossey-Bass Publishers. melhores condições de aprendizagem e de STENHOUSE, L. (1975). An introduction to curriculum desenvolvimento profissional do research and development. London: Heinemann. profissional que é o professor-investigador ZABALZA, M. A. (2004). O ensino universitário. Seus (practitioner-inquirer). cenários e seus protagonistas. (trad. Ernani Rosa). Porto Alegre: Artmed.
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