Europa e cultura ou quando a criatividade matou o gato
by Rui Matoso
Uma das principais críticas veiculadas pelo «Position Paper on the EU Culture
Programme 2014-2020»10 é exatamente... more
Uma das principais críticas veiculadas pelo «Position Paper on the EU Culture
Programme 2014-2020»10 é exatamente o limitado volume financeiro deste programa, o qual
não permitiu «o desenvolvimento de uma massa crítica genuína de projetos que poderia irrigar
através das nossas sociedades de forma construtiva e sustentável».
Uma questão relevante, parece-nos, é perceber que tipologia sectorial está a ser usada
na definição do programa “Creative Europe”, pois, ao contrário do que foi estabelecido pelo
estudo sobre a Economia da Cultura na Europa (KEA,2006) onde os sectores estavam
devidamente identificados e separados entre Artes/Património, Indústrias Culturais e
Indústrias Criativas -cada qual com os seus sub-sectores, cadeias de valor, sistemas de
produção e características próprias-, surge agora um mega-sector que mistura tudo num só
“cultural and creative sectors”. Esta “visão aglomeradora” dos sectores tem como objetivo
servir melhor a uma utilização economicista da cultura e da criatividade, visão ou ideologia que,
aliás, vem sendo paulatinamente construida neste últimos anos.
Proposta para Programa Eleitoral - Autárquicas 2009 Torres Vedras - POLÍTICA CULTURAL
by Rui Matoso
Um programa político destinado a ser apresentado ao eleitorado nunca está totalmente completo nem absolutamente... more
Um programa político destinado a ser apresentado ao eleitorado nunca está totalmente completo nem absolutamente terminado, haverá sempre falhas intrínsecas, bem como lacunas detectadas pelos eleitores e por adversários políticos.
No caso de um programa de política cultural, esse carácter de abertura deve ser conscientemente assumido, essencialmente porque a existência de uma política cultural de âmbito local só poderá ser cumprida em inter-relação com os diversos agentes e actores locais. Qualquer ambição de fechamento e controle não é digna de uma democracia cultural plena.
Contudo, estamos convictos que o programa eleitoral da CDU, e este que agora vos apresentamos, em particular, possa conter o essencial de modo a permitir ser sufragado nas próximas eleições autárquicas de Torres Vedras.
A cultura não pode continuar refém de objectivos de rentabilidade eleitoral e politico-partidária, nem ostentada apenas como uma “bolsa de espectáculos” disponibilizadas pela autarquia, como se esta fosse uma agência de espectáculos vocacionada para a distracção dos seus cidadãos mais aborrecidos.
É fundamental que a política cultural construa uma unidade interna, com vários fios condutores explícitos e publicamente reconhecíveis por todos. Pois, consideramos que programações culturais desconexas, acções avulsas ou agendas ocultas não são sustentáveis em políticas públicas.
Não confundimos cultura com a indústria do entretenimento tão em voga. A cultura é uma capacidade individual e colectiva numa dinâmica de desenvolvimento e integrada num projecto colectivo para o nosso território. A cultura é pensamento e imaginação, é racionalidade e emoção, é construir e partilhar sentidos de vida.
Enquanto que o entretenimento tende a ser uma consolação anestesiante e cómoda perante as perplexidades complexas do mundo actual, e cuja perspectiva implica exclusivamente a visão do cidadão como mero consumidor («o idiota feliz»). Uma política pública no séc. XXI não pode conformar-se com esta visão hiper-consumista e hiper-individualista:uma cidade não é igual a um supermercado.
A (re)animação cultural das cidades anestesiadas
by Rui Matoso
Há uma sensação ou intuição que permanece desde há muito: as nossas cidades fervem por
dentro, nas suas... more
Há uma sensação ou intuição que permanece desde há muito: as nossas cidades fervem por
dentro, nas suas entranhas, enquanto que à superfície esta imagem aparece invertida. Nos media, na
propaganda politico-partidária, e no espaço-público em geral surge quase sempre uma imagem de
consenso generalizado. Este consenso diz-nos, basicamente, que existe alguém que sabe bem o que
quer (o poder democraticamente eleito) e que todos os outros actores locais concordam consciente ou
inconscientemente, tanto faz. Obviamente que há excepções a este consenso, principalmente quando
estão em causa direitos básicos como a saúde e a educação, quando fecha um hospital ou quando a
escola não recebe o financiamento que devia...
Não há sociedade sem cultura - Política Cultural, Globalização, Europa e Portugal
by Rui Matoso
Num texto intitulado “ A cultura na era da mundialização” - publicado nas actas do colóquio Economia & Cultura,... more Num texto intitulado “ A cultura na era da mundialização” - publicado nas actas do colóquio Economia & Cultura, coordenado por M. Lurdes Lima dos Santos em 1994; e em O esplendor do Caos,1998- Eduardo Lourenço vem a afirmar aquela ideia, tantas vezes repetida por outros e radicalizada num anti-americanismo, de que o fenómeno da “mundialização do cultural” só existe graças aos Estados Unidos, sendo isso sinónimo da “americanização cultural do planeta”(O esplendor do Caos, p. 18).

