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Monte Castêlo (Guifões, Matosinhos)

2010, in Rio da Memória: Arqueologia no Território do Rio Leça

O RIO DA MEMÓRIA ARQUEOLOGIA NO TERRITÓRIO DO LEÇA Apesar de amplamente mencionado na bibliografia da especialidade, nunca foi alvo de escavações arque- ológicas, restando-nos apenas a referência ao aparecimento de imbrices e de alicerces de casas redondas de tipo castrejo (ALMEIDA 1969, 34). Encontra-se muito urbanizado, sendo residuais os locais em que se podem recolher alguns materiais de superfície, destacando-se alguns fragmentos cerâmicos de característi- cas morfológicas atribuíveis à última fase da sua ocupação castreja e abundante material cerâmico romano. Jorge Alarcão, em recente ensaio sobre os «Cantões proto-históricos do Noroeste de Portugal», coloca a possibilidade de este castro se ter inscrito no cantão Labrencio e que, o seu «lugar central», o Castro de Boi, tenha assumido o nome de castellum Labrensi (ALARCÃO 2000, 48). Inscreve-se na Unidade Cartográfica Te11.1, que corresponde à Unidade Fisiográfica Qgs1, e terrenos de aptidão agrícola elevada. Bibl.: SARMENTO 1883-84, 165, 1933, 175; FERREIRA 1907, 285, 1923, 47; AZEVEDO 1939, 102; FREITAS 1949, 20; ALMEIDA 1969, 34, 1978, 34; SILVA 1986, 83, n.º 333; QUEIROGA 1992, 170, n.º 254; ALMEIDA 1995, s/p; DINIS 1993, 94-95; ALARCÃO 2000, 47-49. P.M.H.: n.º 16, 24, 112, 198, 216, 249, 281, 308, 318, 321, 333, 352, 353, 414, 415, 453, 460, 461, 462, 480, 483, 489, 495, 497, 501, 510, 518, 520, 524, 527, 529, 530, 571, 629, 795, 814, 846, 861, 881, 932. 10 · MONTE CASTÊLO, GUIFÕES, MATOSINHOS3 [(SCE, 1:25 000, folha 110 – Maia): latitude 41º 11’ 54’’Norte, longitude 8º 40’ 31’’ Oeste Greenwich, altitude 65 m] Castro «lugar central» | Aglomerado Urbano Secundário | Castelo Pré-Románico Situado muito próximo da foz do rio Leça, numa zona que, antes da construção do Porto de Leixões, era ainda de estuário, o Monte Castêlo localiza-se na margem esquerda daquele curso fluvial. E, embora não seja a elevação mais próxima da costa, as suas condições estratégicas associadas às características planál- ticas do seu topo, desde muito cedo fizeram com que fosse local escolhido para a fixação de comunidades humanas. Esta estação arqueológica, também conhecida vulgarmente pelo nome de castro de Guifões, é uma das estações da época da Idade do Ferro/Romanização mais importantes do Norte de Portugal. Foi considerado como Imóvel de Interesse Público em 1971 e, mais recentemente, com a publicação do Plano Director Municipal foi definida a sua área de protecção. Aparecendo já referenciado, nas Memórias Paroquiais de 1758, que numa «bouça de matto, carvalhos e pinheyros, que cavando-se na dita bouça se achão varios pedaços de tejóllo, e algumas pedras lavradas mettidas debayxo da terra, donde se infere que fora morada antiga dos mouros», desde muito cedo que o castro de Guifões despertou o interesse dos pioneiros da arqueologia portuguesa. Nos finais do séc. XIX tanto José Leite de Vasconcelos como Martins Sarmento ou José Fortes visitaram este local, tendo-se no entanto 3 Texto da autoria de José Manuel Varela (Gabinete Municipal de Arqueologia e História de Matosinhos). Proto-história no vale do Leça 109 Fig 85 · Castêlo de Guifões. O RIO DA MEMÓRIA ARQUEOLOGIA NO TERRITÓRIO DO LEÇA Fig 86 · Planta do Monte Castêlo de Guifões, segundo Joaquim Neves dos Santos, Junho 1955. Proto-história no vale do Leça 111 limitado a realizar algumas prospecções superficiais. Só na década de 50, Joaquim Neves dos Santos realizaria as primeiras pesquisas sistemáticas e as primeiras escavações em área no castro. A ocupação deste local remonta ao período do Bronze Final de acordo com algumas peças recolhi- das neste local, nomeadamente um pequeno vaso carenado com asa lateral e tratamento da superfície «espatulado». Conhece um importante desenvolvimento durante a Idade do Ferro (sécs. III – IV a.C.), conforme atestam as diversas cerâmicas de fabrico manual, com pastas escuras e micáceas e decorações estampilhadas e incisas, assim como diversas estruturas que Joaquim Neves dos Santos identificou e que apontam para a existência de construções de planta circular e rectangular, associadas a pátios lajeados, característicos da III fase. Devido à sua localização próxima do mar, numa elevação de grande importância estratégica, deverá ter privilegiado, desde muito cedo, a actividade comercial. Na base desta potencialidade está o facto de o Fig 87 · Cartão de associado da Sociedade Martins Sarmento de Joaquim estuário do Leça ter sido sempre um porto de abrigo natural e ser navegável, pelo menos, até ao sopé do Neves dos Santos. Monte Castêlo. Ainda no séc. XVI encontramos referências documentais à navegabilidade do estuário do Leça até junto da Ponte de Guifões, no sopé do Monte Castêlo. A riqueza e abundância dos materiais exógenos já encontrados confirmam esta teoria. A presença de ânforas de tipo Maná C 2b, que serviam para o transporte de preparados de peixe em salmoura produ- zidas no Norte de África e na Bética entre o séc. II a.C e o séc. I d.C., assim como grandes quantidades de ânforas de tipo Haltern 70, destinadas ao transporte de vinho e produzidas na Bética entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C.4, vêm confirmar a ideia de que ainda antes da integração desta região no império romano já o castro de Guifões mantinha contactos comerciais regulares com o sul da Península Ibérica e o mundo mediterrânico. Bibl.: PEIXOTO 1888, 1902, 1903, 828-931, 1905, 78-79, 1906, 287-288, 1908, 492G - 492H; CRUZ 1897, 300; AZEVEDO 1898, 320; VASCONCELOS 1898, 270-272, 1958; SARMENTO 1901, 32-38, 1953, 275, 1970, 38-48; FORTES 1905, 15-33; CORRÊA 1916, 336, 1924, 1935; PINTO 1927, 24-25; CARDOZO 1948, 43; GONÇALVES 1952, 1953, 19, 1966; SANTOS 1955, 1959, 1962, 5-25, 1962A, 230- 282, 1963, 157-166, 1995, 20-22; ALMEIDA & SANTOS 1975, 49-56; CLETO 1990, 239-244, 1992, 152- 158, 1993, 38-44, 1995, 11-19; CLETO & FORTUNA 1995-96, 60-62; CLETO & VARELA 1999, 467-479. 4 O trabalho de classificação das ânforas provenientes deste sítio foi realizado pelo Dr. Rui Manuel Morais (Universidade do Minho), a quem agradecemos. O RIO DA MEMÓRIA ARQUEOLOGIA NO TERRITÓRIO DO LEÇA O sistema defensivo abandona a sua operacionalidade uma vez que algumas das novas estruturas habi- tacionais passam a estar implantadas sobre a muralha da plataforma superior. No início da dinastia dos Flávios e com a atribuição do ius latii à Hispânia por Vespasiano, no ano de 73-74, ao qual correspondem uma parte muito significativa das obras alto-imperiais identificadas na região, assiste-se à continuação da remodelação «urbanística» do Padrão, registando-se obras de amplia- ção e remodelação dos edifícios existentes. A cultura material diversifica-se, alargando exponencialmente o espectro dos materiais importados, nomeadamente de vidros, ânforas, sigillata gálica, sudgálica e hispânica, assim como de materiais de âmbito regional como sejam as cerâmicas bracarenses, ou as cerâmicas calcíticas pintadas, incremen- tando-se também o registo de espécies numismáticas. Bibl.: TOMÁS 1651, 159-160; CUNHA 1742, 259; LEAL & FERREIRA 1873, v, p. 471-472; VASCONCELOS 1895, 12-13; SANTARÉM 1951, 49-66, 1955, 397-429; PONTE 1984, 129, n.º 15; MARTINS 1985, 217- 230; SILVA 1986, 83, n.º 344; CENTENO 1987, 115-116; ALARCÃO 1988, 20, n.º 1/360; MOREIRA 1991, 28-30, 1997a, 83-87, 2005, 255-276, 2005a, 2007, 32-34, 2008, 129-145, 2009, 9-93; QUEIROGA 1992, 169, n.º 242; DINIS 1993, 98-99, n.º 39. 2 · MONTE CASTÊLO, GUIFÕES, MATOSINHOS 13 [(SCE, 1:25 000, folha 110 – Maia): latitude 41º 11’ 54’’Norte, longitude 8º 40’ 31’’ Oeste Greenwich, altitude 65 m] Castro | Aglomerado urbano secundário «vicus portuário» Situado muito próximo da foz do rio Leça, numa zona que, antes da construção do Porto de Leixões, era ainda de estuário, o Monte Castêlo localiza-se, na margem esquerda daquele curso fluvial. E, embora não seja a elevação mais próxima da costa, as suas condições estratégicas associadas às características planál- ticas do seu topo, desde muito cedo fizeram com que fosse local escolhido para a fixação de comunidades humanas. Esta estação arqueológica, também conhecida vulgarmente pelo nome de castro de Guifões, é uma das estações da época da Idade do Ferro/Romanização mais importantes do norte de Portugal. Foi considerado como Imóvel de Interesse Público em 1971. Aparecendo já referenciado, nas Memórias Paroquiais de 1758, que numa «bouça de matto, carvalhos e pinheyros, que cavando-se na dita bouça se achão varios pedaços de tejóllo, e algumas pedras lavradas mettidas debayxo da terra, donde se infere que fora morada antiga dos mouros», desde muito cedo que o castro de Guifões despertou o interesse dos pioneiros da arqueologia portuguesa. Nos finais do séc. XIX tanto José Leite de Vasconcelos como Martins Sarmento ou José Fortes visitaram este local tendo-se no entanto limitado a realizar algumas prospecções superficiais. Só na década de 50, Joaquim Neves dos Santos realizaria as primeiras pesquisas sistemáticas e as primeiras escavações em área no castro. Fig 100 · Escavações antigas do Monte Castêlo, Guifões. 13 Texto da autoria de José Manuel Varela (Câmara Municipal de Matosinhos – Gabinete Municipal de Arqueologia e História). A romanização do vale do Leça 143 Fig 101 · Planta de edifício romano, Castro de Guifões, Monte Castêlo, levantamento de Joaquim Neves dos Santos, 1961-1962. O RIO DA MEMÓRIA ARQUEOLOGIA NO TERRITÓRIO DO LEÇA Devido à sua localização próxima do mar, numa elevação de grande importância estratégica, deverá ter privilegiado, desde muito cedo, a actividade comercial. Na base desta potencialidade está o facto de o estuário do Leça ter sido sempre um porto de abrigo natural e ser navegável, pelo menos, até ao sopé do Monte Castêlo. Ainda no séc. XVI encontramos referências documentais à navegabilidade do estuário do Leça até junto da Ponte de Guifões, no sopé do Monte Castêlo. A riqueza e abundância dos materiais exógenos já encontrados confirmam esta teoria. A presença de ânforas de tipo Maná C 2b, que serviam para o transporte de preparados de peixe em salmoura, produzi- das no Norte de África e na Bética entre o séc. II a.C. e o séc. I d.C., assim como grandes quantidades de ânforas de tipo Haltern 70 destinadas ao transporte de vinho e produzidas na Bética entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C.14, vêm confirmar a ideia de que ainda antes da integração desta região no império romano já o castro de Guifões mantinha contactos comerciais regulares com o sul da Península Ibérica e o mundo mediterrânico. O Monte Castêlo seria, assim, o principal entreposto comercial em direcção a outros importantes povo- ados na bacia do rio Leça. A Ponte de Guifões, hoje já desaparecida, uma vez que ruiu durante uma cheia do rio Leça em 1979, situava-se no sopé do Castro de Guifões, junto ao início do estuário do rio. Era construída em alvenaria de granito regular e composta por três arcos de volta perfeita. Possuía ainda guardas em granito muito características, cuja tipologia parecia enquadrar-se cronologicamente na Idade Média. No entanto, a sua fundação poderá remontar à época romana, com reconstruções posteriores, integrando-se na via litoral, que per loca marítima fazia a ligação ao estuário do Ave e a Vila do Conde, passando pela villa romana de Lavra. Joaquim Neves dos Santos identificou um caminho lajeado que contornava o castro pela base do monte e que ligava a esta ponte. Joaquim Neves dos Santos detectou também vestígios de um edifício com uma base de coluna e fuste, identificando-o com um possível templo romano. Deste edifício, poderão ser os dois blocos graníticos, de grande dimensão e em aparelho almofadado, com marcas de «forfex», que se encontram deposi- tados no GMAH. Guifões seria, em época romana, um povoado bastante importante, que se manteve activo até ao séc. V/ VI. A presença de cerâmicas de tipo sigillata provenientes de zonas longínquas, como o Sul da Península Ibérica, a Itália ou o sul da Gália, assim como os recipientes em vidro, documentam uma forte integração nas vastas redes comerciais do império romano. Além das cerâmicas de importação, Fig 102 · Casa Romana. assim como de outros fabricos de âmbito mais regional, existem também outras produções que parecem Fig 103 · Escavações na vertente oeste do Monte Castêlo, Guifões, Matosinhos. constituir uma especificidade local. É o caso das peças de cerâmica comum, com coberturas vitrificadas. Intervenção da Câmara Municipal de Matosinhos – Gabinete Municipal de Arqueologia. 14 Classificação das ânforas da autoria de Rui Manuel Morais, da Universidade do Minho, a quem agradecemos. A romanização do vale do Leça 145 Trata-se de recipientes de média dimensão de cerâmica de cozinha, como os almofarizes e os alguidares, que apresentam no seu interior vidrado de chumbo de cor verde escura. A presença de escórias de vidro, assim como a utilização desta técnica em diversos utensílios, como, por exemplo, os pesos de tear, indi- cia ter havido uma produção local de vidro para vitrificação de cerâmicas. É possível que esta produção tenha tido uma circulação comercial de âmbito regional, conforme parecem indicar dois exemplares semelhantes recolhidos nas escavações de Bracara Augusta. Ainda no séc. V, Guifões mantinha contactos intensos com o Norte de África, patente por exemplo na presença de cerâmica de tipo Sigillata Africana C e D, que, nesta época, era fabricada na região de Cartago e em outros centros do norte de África, correspondendo actualmente às regiões da Tunísia e de Marrocos. Conforme referia Carlos Alberto Ferreira de Almeida este material recolhido em Guifões «constitui no género e no Norte de Portugal, uma das mais importantes colecções de sigillata tardia assegurando a intensidade da romanização do local (...) datáveis da segunda metade do séc. IV e primeira metade do séc. V». No seu apogeu, o Monte Castêlo apresentaria características de tipo proto-urbano patentes, por exem- plo, na organização do espaço habitacional, na disposição das habitações, construídas em granito, agru- padas em núcleos e separadas por arruamentos, muitos deles pavimentados. As habitações estariam dispostas ao longo da encosta voltada ao rio Leça. Para vencer o desnível do terreno era utilizada a técnica de socalcos artificiais, que implicava a construção de muros de contenção e a criação de aterros para nivelar o terreno. O Monte Castêlo terá sido abandonado numa época posterior ao séc. VI, embora não tenhamos elemen- tos para precisar melhor a data e as razões do seu abandono. Alguns séculos mais tarde, já nos sécs. IX - X, este local aparece referenciado na documentação, à semelhança de outros antigos castros desta região, como Castelo. Terá sido construída nesta época, no alto do monte, uma pequena fortificação, provavel- mente em madeira. Esta ocupação está também comprovada por fragmentos de cerâmicas cinzentas datáveis da Alta Idade Média. Bibl.: PEIXOTO 1888, 1902, 1903, 828-931, 1905, 78-79, 1906, 287-288, 1908, 492G – 492H; CRUZ 1897, 300; AZEVEDO 1898, 320; VASCONCELOS 1898, 270-272, 1958; SARMENTO 1901, 32-38, 1953, 275, 1970, 38-48; FORTES 1905, 15-33; CORRÊA 1916, 336, 1924, 1935; PINTO 1927, 24-25; CARDOZO 1948, 43; GONÇALVES 1952, 1953, 19, 1966; SANTOS 1955, 1959, 1962, 5-25, 1962a, 230-282, 1963, 157-166, 1995, 20-22; ALMEIDA & SANTOS 1975, 49-56; CLETO 1990, 239-244, 1992, 152-158, 1995, 11-19; CLETO & VARELA 1999, 467-479; FORTUNA 1995-96, 60-62.
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